O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Página 9 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:28 pm

- Está bem.
Antes, posso fazer uma coisa?
Tarsila assentiu.
Caíque foi até o jardim, aproximou-se de Bruna e sussurrou em seus ouvidos:
- Vou ter de deixá-la por uns tempos.
Não sei se vamos voltar a nos ver, mas não se esqueça de que é uma gata.
Você manca de um jeito sensual.
Eu me amarraria fácil em você, mesmo manca.
Caíque beijou-a no rosto.
Em seguida, deu a mão para Tarsila, e seus espíritos desvaneceram no ar, deixando no ambiente um rastro de luz.
Bruna levou a mão ao rosto.
Pensou em Caíque e sorriu.
- Onde quer que esteja, meu amigo, fique bem, em paz.
Que Deus guie seus passos!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:28 pm

- 37 -

Magnólia acordou irritada, naturalmente.
Levantou-se e foi ao cofre.
Ela sempre guardava dinheiro em espécie para emergências.
Abriu-o e não tinha nada dentro.
Levou a mão ao peito, assustada, e desceu correndo.
Encontrou Gina na cozinha.
- Fomos assaltadas!
- Quando? - perguntou Gina, enquanto bebericava tranquilamente seu café com leite.
- Fala assim, nessa calma?
Eu disse que fomos assaltadas!
- Pergunto de novo: quando?
Magnólia rosnou baixinho.
- Não sei como pode ter tanta calma!
Nosso cofre está vazio.
Sem um tostão.
- Sei. E?
- Acordou com o desejo de me atormentar?
Se esse era o objectivo do dia, parabéns!
Bingo! Você conseguiu.
- Sente-se e tome seu café.
Custódia acabou de vir da padaria com um punhado de pãezinhos.
Estão quentes.
- Humpf! - Magnólia pronunciou algumas palavras ininteligíveis.
Como posso ter fome numa hora dessas?
- O bolo de laranja está divino. Prove.
Magnólia perdeu a paciência.
Começou a gritar feito doida.
Custódia entrou na cozinha, atónita.
Gina fez sinal para ela não entrar e voltar a seus afazeres.
Levantou-se da mesa e disse:
- Semana passada eu pedi dinheiro a você para pagar o electricista.
Não se lembra de que foi até o cofre e pegou o dinheiro?
Magnólia levou a mão à testa.
- Tinha me esquecido!
Estou ficando velha.
- Está - concordou Gina.
Velha, rabugenta, ranzinza e resmungona.
- Quando me conheceu, foi directa e disse que eu era bonita.
Agora sou velha e gagá.
Por que diabos sempre mentiu para mim?
- Não, meu amor.
Eu nunca menti para você.
Sempre a amei.
Se não fosse o amor que sinto por você, teria ido embora desta casa há muito tempo.
Magnólia emudeceu.
Arregalou os olhos, estupefacta.
Gina prosseguiu:
- Desde o dia em que entrou no meu táxi com Isabel, eu senti uma emoção diferente ao vê-la pelo retrovisor.
Posso garantir que foi amor à primeira vista.
Quando voltei para devolver a bolsa de Isabel, não tive dúvidas de que você era a mulher da minha vida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:28 pm

- Puxa, nunca me disse isso antes.
- Porque você, ao longo dos anos, fechou-se em uma concha de negatividade.
Deixou de ter pequenos prazeres comigo.
Não fomos mais à feira juntas, por exemplo.
Era um programa que eu adorava fazer ao seu lado.
Fazíamos as compras, depois parávamos na banca da japonesa, comíamos um pastel e tomávamos nosso sagrado caldo de cana.
- O tempo passou. Fernando cresceu.
A vida foi trazendo mais obrigações.
- Que obrigações, Magnólia?
A vida sempre foi sua amiga.
- Não é bem assim - tentou justificar-se.
- É sim. Claro como água.
Você teve tudo de mão beijada.
Perdeu os pais, mas ganhou um paizão.
Seu Fabiano pode não ter sido o melhor pai do mundo, mas educou-a com esmero, deu-lhe um tecto digno, tentou transmitir-lhe valores nobres.
Depois deixou-lhe muito dinheiro, suficiente para não fazer nada.
Talvez aí esteja o erro do seu tio.
- Não entendi.
- Não conhece o ditado:
"Cabeça ociosa, oficina do diabo"?
- Nunca me interessei por nada.
O que fazer?
- Participar do Evangelho comigo e com Custódia, por exemplo.
- Não gosto.
- Ao menos procure ter bons pensamentos, agradecer a Deus todos os dias pela vida que tem.
Prefere cultivar a tristeza e a infelicidade.
Não sei onde isso vai parar.
- Eu sei - desconversou.
Vou ao banco, sacar dinheiro.
Não gosto que o cofre fique sem nenhum.
A gente nunca sabe o dia de amanhã.
- Tome seu café.
Depois vá ao banco.
Ainda é cedo.
- Está bem.
Magnólia sentou-se, pegou um pãozinho e cortou-o ao meio.
Passou manteiga e serviu-se de café com leite.
Depois de um gole, sondou Gina:
- Soube que o bar de Fernando está, como se diz actualmente, "bombando". É verdade?
Gina abaixou para sorrir.
Sabia que Magnólia não daria o braço a torcer e dava indirectas para arrancar notícias do filho.
- É verdade.
O bar é um sucesso.
Alessandro é um homem de visão, está com os olhos sempre no futuro, pensando em expandir os negócios.
Fernando cuida da logística, e Peixão é um cozinheiro com mãos abençoadas.
- Hum... sei.
Já comeu alguma coisa desse Peixão?
- Sim. Fui ao bar algumas vezes.
Claro que de dia, porque não tem noite que não esteja lotado.
O ambiente é acolhedor, alegre e divertido.
As pessoas sentem-se bem lá dentro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:28 pm

- Hum - resmungou Magnólia.
Ela mastigou um pedaço de pão e tornou:
- Quando você vai lá?
Gina alegrou-se.
- A hora que quiser.
Gostaria de me acompanhar?
Magnólia mordiscou os lábios.
- Faz tempo que não vejo meu filho.
- Já disse.
Não vê porque não quer.
- Desde que voltou do interior, nunca veio me visitar.
- Alguém vai ter de desfazer este impasse.
Por que não toma a iniciativa?
- Primeiro vou ao banco - Magnólia desconversou.
Levantou-se da mesa e foi se arrumar.
Desceu, apanhou a bolsa e a chave do carro.
- Já volto.
Gina sorriu.
Custódia entrou na cozinha.
- Será que ela e o filho vão finalmente se acertar?
- Vão. Nada é eterno.
Essa rusga entre os dois vai acabar mais cedo do que imaginamos.
Custódia fez o sinal da cruz e levantou as mãos para o alto:
- Deus a ouça. Deus a ouça.
Magnólia embicou o carro no estacionamento do banco, apanhou o tíquete com o manobrista e entrou na agência.
Irritou-se com a passagem pela porta giratória.
- Maldita porta! - esbracejou.
Sou cliente desta agência há mais de trinta anos e tenho de passar por essa vergonha?
Ela foi maldizendo deus e o mundo.
Algumas pessoas a acompanharam no discurso negativo.
Enquanto isso, ela foi tirando tudo da bolsa.
Tentou passar e a porta travou de novo.
- O que é isso?
Preciso ficar pelada para entrar na agência?
Que falta de consideração com o cliente!
- Isso mesmo - dizia um.
- Concordo com a senhora - repetia outro, irritado.
O vigia aproximou-se e destravou a porta.
Magnólia entrou, apanhou seus pertences e jogou-os de qualquer jeito na bolsa.
Enfezada, foi até a mesa do gerente.
Reclamou e girou nos calcanhares, pisando fundo.
Em seguida foi até o caixa electrónico.
Sacou o dinheiro, puxou o extracto e guardou o bolo de notas na bolsa.
Saiu e esbracejou:
- Para sair, a porta não trava, né?
O vigia deu um sorriso amarelo.
Ela acelerou o passo, aproximou-se do manobrista e entregou o tíquete.
- Dois reais.
- Como?
Eu sou cliente do banco.
- O tíquete não está carimbado.
- Mas o senhor viu quando eu entrei na agência.
Fiquei parada na porta uma eternidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:29 pm

- São normas do estacionamento, senhora.
Preciso do tíquete com carimbo e assinatura do gerente.
Ou dois reais.
Magnólia cuspiu alguns palavrões desnecessários de serem aqui descritos.
Praguejou contra o pobre homem e voltou fula para a agência.
- Agora quero ver!
Vou ter de tirar tudo da bolsa de novo.
Ninguém merece.
Ela se aproximou da porta, esta travou e o vigia pediu para dar um passo para trás.
- Que ódio! - vociferou.
Ao dar o passo para trás, sentiu uma voz tão próximo de seu ouvido, que até sentiu o hálito de cigarro misturado a bebida.
A voz, rouca, cantarolava uma cantiga muito conhecida da criançada, porém trocando sapo por sapa, de maneira propositada, dando duplo sentido à frase:
- A sapa não lava o pé.
Não lava porque não quer...
Magnólia virou o rosto e só não caiu porque se encostara na porta giratória.
O vigia pediu:
- Pode entrar, senhora.
Ela não respondeu.
Não movia um músculo.
Jonas abriu um sorriso malicioso:
- Oi, sapata.
Não vai dar um beijo no pai do seu filho?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:29 pm

- 38 -

Depois que Caíque se afastou, a saúde de Bruna deu sinais de melhora.
Contudo, acostumada às lamúrias de Caíque, não mudou seu padrão de pensamento e logo o lugar do espírito foi tomado por outros, tão ou mais perturbados que Caíque.
Ela fez novo tratamento de passes.
Surtiu efeito temporário.
Fez outro.
Até que, no quarto tratamento, o encarregado da triagem no centro espírita a chamou para uma conversa.
- O que ocorre com você?
- Não sei - respondeu Bruna.
Eu venho todas as semanas tomar o passe, faço o tratamento direitinho.
Mas parece que para mim os passes não funcionam.
- Evidentemente.
Você tem assistido às palestras?
- Não dá tempo.
Eu tenho muito trabalho.
- E os pensamentos, como andam?
- Às vezes positivos, às vezes negativos. Variam.
Depende do dia - tornou, de maneira apática.
- A minha mediunidade é de clarividência, ou seja, posso ver os espíritos.
- E eu com isso? - Bruna deu de ombros, com grande vontade de sair dali.
Ela não percebia, mas estava rodeada de espíritos atormentados que não desgrudavam dela e não aceitavam ajuda dos auxiliares espirituais do centro.
À distância, eles minavam a mente dela.
- Está na companhia de espíritos perturbados emocionalmente.
São eles que ajudam você a continuar neste estado prostrado, sem ânimo, sem vontade de viver.
- Eu sofri um acidente.
Fiquei manca de uma perna.
Sou uma mulher fadada ao fracasso.
Nunca tive sorte na vida.
Não sei o que fiz em outras encarnações para receber tão duro castigo.
O bondoso senhor sorriu.
Fez uma prece em favor de Bruna, e as sentinelas do centro colocaram os espíritos perturbados para correr.
Em seguida, o senhor a conduziu até um jardim nos fundos do centro.
Era um local com gramado, árvores, flores e bancos de cimento.
Convidou-a a se sentar.
Bruna obedeceu e acomodou-se.
Ele sentou-se ao lado dela.
- Sabe, minha filha, Deus não criou ninguém menos.
Embora existam diferentes níveis de evolução e alguns estejam mais conscientes do que outros, a essência divina está em todas as pessoas.
As leis dos homens podem ser falhas, mas as leis universais funcionam igualmente para todos.
Você tem tanto poder quanto aqueles que têm sorte.
Depende da maneira como você enxerga a vida.
- Não consigo enxergá-la de maneira positiva.
Depois do acidente, fiquei traumatizada.
- Você ficou parada em um momento que, por mais doloroso que tenha sido, passou.
Tudo passa, minha filha, seja sofrimento ou alegria.
O interessante é que o sofrimento passa e deixa tristeza em nossa alma.
A alegria passa, mas deixa um rastro de força, de revigoramento, de certeza de que fomos criados para a felicidade.
- Por mais que tente, não consigo colher felicidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:29 pm

- Por isso os resultados são diferentes, mas cada um colhe exactamente o que plantou.
Se você está infeliz, e as coisas dão errado, é hora de rever suas crenças e perceber de que maneira está atraindo isso.
O fracasso não existe.
A vida dá de acordo com o que recebe.
Se só crê no negativo, se apenas enxerga o lado ruim das coisas, é isso que vai ter.
- A minha cabeça funciona dessa forma.
- Nossa mente é uma máquina potente que materializa aquilo em que acreditamos.
Acreditar é criar.
Acreditando no pior, vai materializar o pior.
- Gostaria de mudar, mas não encontro forças.
- Você já veio buscar ajuda espiritual.
Procure a ajuda de um especialista, de um profissional que a auxilie a enfrentar seus medos e destruir o trauma.
- O senhor diz um psiquiatra?
- Ou um psicólogo.
- Não sou doida.
O simpático senhor sorriu:
- Não é. É inteligente e tem força suficiente para mudar.
- Será?
- Sim. É preciso entender que todas as coisas, por mais duras que nos possam ser, têm vários lados.
Buscar o significado ou a lição nada mais é do que aprender a resolver as dificuldades com inteligência e, por que não afirmar, acabar definitivamente com a dor.
- Vou mudar minha maneira de ser.
- Não. Você precisa mudar a sua maneira de enxergar os factos.
Seu destino está em suas mãos.
Só você tem o poder de mudá-lo, modificando seus padrões de pensamento.
Comece se perguntando:
como é que eu me deprimo?
De que maneira eu me sinto triste?
Como atraio situações negativas em minha vida?
- Nunca me fiz tais perguntas.
- Pois faça. Experimente mudar.
Primeiro precisa confiar em si mesma, encher-se de ânimo, porquanto a falta de ânimo mina o espírito, impedindo sua realização como pessoa. Isso provoca profunda insatisfação.
- É que o acidente...
Ele percebeu que Bruna insistia no acidente. Intuído pelos amigos espirituais, disse, de maneira suave:
- Seu corpo reflecte aquilo que você crê.
Você, minha filha, sempre acreditou ser insegura.
Vivia na cola de sua amiga de colégio e depois passou a endeusá-la.
Bruna tomou um susto.
Ninguém naquele centro poderia saber sobre sua antiga amizade com Eduarda.
Empertigou-se no banco e fixou atenção total no senhor.
Ele prosseguiu:
- Nunca olhou para o próprio valor.
Você se julga menos.
Não confia em seu desempenho, não quer ousar, tem medo de experimentar.
Só faz o que os outros aprovam.
É perfeccionista e, portanto, chata.
Sonha ser heroína da humanidade.
Não faz nada para aprender mais ou para mudar seu jeito de ser; no entanto, quer ser maravilhosa, nunca errar.
Adora elogios, mas tem pavor da crítica.
Vê a vida pelos olhos dos outros, sufocando sua alma.
Os olhos dela estavam embaciados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:29 pm

- Tem toda razão.
Por mais duro que seja, eu sou assim.
- A sua alma quer se expressar, alegrar-se, crescer, evoluir incessantemente.
A vida tem seus próprios caminhos e você não vai impedi-la de realizar seus objectivos.
Quem não vai pela inteligência não tem opção:
vai pela dor.
Quanto mais você resiste à sua verdadeira natureza, mais dor aparece.
Não está cansada de sofrer?
- Estou. Cansada à beça.
- Óptimo! Então aprenda de uma vez por todas que a alegria e a felicidade vêm da alma.
As pessoas, a sociedade e o mundo podem lhe oferecer tudo e você vai continuar infeliz.
- É verdade.
- A depressão é um estado interior de insatisfação, provocado pela total falta de atenção ao seu mundo interior, às suas necessidades.
A sua alma quer brilhar e crescer, reciclar-se, quer sentir o próprio valor, quer amar e ser amada.
Bruna emocionou-se.
Encostou o rosto nos ombros daquele bondoso senhor.
Ele finalizou, enquanto afagava-lhe os cabelos.
- Não tema desejar a felicidade.
Você é muito mais do que pensa.
Pode muito mais do que imagina.
Dê uma trégua a si mesma, olhe a vida pelo lado bom.
Valorize-se. Abra seu coração sem medo.
Olhe tudo com os olhos do bem e acostume-se a olhar só o lado bom de tudo.
Dessa forma, perceberá que a depressão, a infelicidade, a insatisfação e a tristeza foram substituídas pela alegria, pelo ânimo, pelo prazer de viver.
As lágrimas escorriam.
Bruna estava emocionada com palavras tão tocantes.
O senhor sorriu bondosamente e concluiu, amável:
- Agora vá, minha filha.
Tem um mundo fantástico esperando por você.
Ela agradeceu.
- Hoje vou assistir à palestra.
- Isso mesmo.
Encha sua mente de boas ideias.
Bruna levantou-se e foi para o pequeno salão.
O palestrante falou, basicamente, sobre a conversa que ela tivera com aquele senhor.
No fim, depois das palmas, saiu, mais leve, mais animada.
- Hoje vou fazer algo diferente.
Não vou voltar para casa e me afundar no sofá.
Vou sair, ver gente, me divertir.
Eu mereço!
Revigorada pelos passes e ainda com as sábias palavras do palestrante fervilhando a mente de maneira saudável e positiva, apanhou o carro nas imediações do centro espírita.
Deu partida, ligou o rádio e sintonizou em uma emissora de músicas animadas, antigas e divertidas.
- Já sei! Vou até o bar do Fernando.
A Juliana vive me dizendo para eu ir lá e nunca tenho tempo.
Pois hoje eu terei.
Dobrou a rua, ganhou a avenida e, depois de enfrentar um pouco de trânsito, chegou ao bar.
O boteco de Fernando estava apinhado de gente.
Gente alegre, bonita e divertida.
Bruna entregou a chave do carro ao manobrista e foi caminhando com vagar.
Andando de maneira mais lenta, quase não se percebia que era coxa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:30 pm

Fernando a avistou e sorriu:
- Não acredito!
Você, no meu bar?
- Cuidado. Vai cair uma tempestade - ela riu.
Cumprimentaram-se e ele a puxou discretamente para o lado.
- Trouxe alguém? - perguntou, olhando por cima dos ombros dela.
- Não. Por quê?
- Nada - desconversou.
- Sei. Paloma voltou, né?
- É .
- Já a encontrou?
- Ainda não.
O bar tem consumido muito do meu tempo - mentiu.
Mentiu descaradamente.
Fernando soubera por Gina que Paloma regressara ao Brasil acompanhada de Eduarda e o filho.
E era uma situação estranha.
Paloma mudara-se para a casa da mãe de Eduarda.
Glória ainda permanecia em algum lugar da Ásia e o apartamento estava vago.
- Eu ainda não a vi - disse Bruna.
Juliana me informou que Paloma não quis ficar na casa dos pais.
Está mudada e não desgruda de Eduarda, por nada deste mundo.
- Mundo doido.
Elas se pegavam na escola.
Agora são melhores amigas. Unha e cutícula.
- Para ver como é a vida.
Mas tem alguma coisa estranha aí.
- O que é? - interessou-se Fernando.
- A Juliana, outro dia, passando pela rua da Eduarda, viu um homem entrar no prédio.
Fernando sentiu um calafrio.
Bruna não notou o desconforto e continuou:
- Coincidentemente, ou não, no dia seguinte passou pela rua, no mesmo horário, e viu o mesmo homem entrando.
Juliana parou o carro e pediu para interfonar no apartamento de Eduarda.
Paloma não a deixou subir.
Meia hora depois, o homem misterioso saiu.
- Vai ver é namorado de Eduarda - ele jogou um verde.
- Difícil. Eduarda tem um filho pequeno, o pai dela morreu recentemente.
Não acho que esteja com cabeça para namoro.
- Fiquei sabendo da morte do seu Octaviano.
- Cá entre nós - Bruna disse de maneira descontraída, sem maldade -, acho que esse homem tem mais a ver com Paloma.
- Mas ela também estava namorando em Barcelona.
É o que sei.
- Nem te conto...
Bruna falou do que Juliana havia lhe contado.
Relatou a Fernando sobre os últimos acontecimentos: a separação de Paloma e Javier, bem como a vinda definitiva ao Brasil.
Naturalmente, Bruna não sabia de todos os detalhes, mas concluiu:
- Tem alguma coisa estranha aí.
- Acha?
- Por que não vai checar?
- Eu?!
- Ora, Fernando, vai esperar morrer para se declarar a Paloma?
- Eu... é... - gaguejou.
- Todos sabem que você é apaixonado por ela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 8:30 pm

- Ela nunca me deu bola.
- Chegou a conversar com ela?
Expôs seus sentimentos?
- Nunca tive oportunidade.
- Então não pode afirmar que ela não goste de você.
- Não sei, depois de tantos anos...
- Você é jovem, bonito e bem-sucedido.
Tem tudo que uma mulher deseja.
Ele riu, sem graça.
- Quem sabe?
- Se precisar de uma ajudinha, estou à disposição.
- Estou espantado com você.
- Porquê?
- Estava apática, deprimida.
Parece outra mulher.
Jovial, alegre, bonita.
Conheceu alguém?
- Ainda não.
Bruna falou e, na sequência, Peixão apareceu no salão.
Os olhos dos dois se encontraram e imediatamente sentiram um friozinho na barriga.
- O que foi, Peixão?
Algum problema na cozinha?
- Não, nada - o baiano estava desconcertado.
Bruna sorriu e Fernando fez as apresentações.
- Bruna, este é meu sócio Peixão.
Peixão, esta é minha amiga de escola, Bruna.
Depois que se cumprimentaram, nunca mais se desgrudaram.
Reza a lenda que a história de amor entre Bruna e Peixão nasceu assim, em uma noite para lá de especial.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:07 pm

- 39 -

O suor escorria pelo rosto de Magnólia.
- O que faz aqui? - indagou perplexa.
- Achou que eu tivesse morrido, né?
- Deduzi.
- Ainda não, sapinha.
- Não gosto que fale assim.
- Ora, ora.
Estamos ficando velhos e ranzinzas.
Você sempre foi sapatão e vai morrer sapatão - disse ele, rilhando os dentes.
Jonas apertou o braço dela com força.
- Está me machucando.
- Não é a minha intenção.
- O que quer de mim?
- De você? Nada.
- Eu lhe dou dinheiro, o que quiser.
Jonas gargalhou.
Puxou Magnólia e a levou para o muro ali do lado.
Encostou-a na parede e acendeu um cigarro.
Soltou uma baforada para o alto.
- Preciso muito de dinheiro.
- É só me dizer a quantia.
- Para você me entregar à polícia? Não.
- Quero viver em paz.
- Pois viva.
Ela foi se afastando e disparou:
- Eu vou fazer um escândalo.
Grito e quero ver se não vão me acudir!
Antes que ela gritasse, Jonas encostou o cano metálico em seu ventre.
- Sem cenas, fanchona. Fica quieta.
Ele jogou o cigarro no chão e pisou.
- A minha vontade é de fazer com você o que fiz com o cigarro.
- Porque tem tanto ódio de mim?
Eu nunca lhe fiz nada.
- Você vive no bem-bom.
Teve um filho. Nosso.
- Não sei do que está falando - ela desconversou.
- Acha que sou idiota?
Pensa que não sei que nosso filhinho é dono de um bar na Vila Madalena?
Magnólia empalideceu.
Ele prosseguiu:
- Pois então.
Eu quero duas coisas suas.
- Faço o que quiser para se afastar do meu filho.
Fernando não merece...
- O pai que tem? - Jonas completou.
Talvez não mereça mesmo.
Eu nunca fiz nada na vida que valesse a pena.
Ah, fiz. Eu me deitei com você e fiz um filho.
Só não plantei uma árvore e também não escrevi um livro.
- Jonas, por favor.
Não faça mal a Fernando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:07 pm

- Depende. Se você me der o que eu quero, o rapaz estará livre.
Caso contrário...
- Caso contrário? - ela repetiu, temerosa.
Ele encostou a arma com mais força.
- Bum! O filho da sapinha vai morrer.
Nesta onda de violência em que vivemos, o que significa uma bala perdida?
Um assalto seguido de morte?
É mais um número. Pura estatística.
Magnólia tremia qual folha sacudida pelo vento.
- Por favor, Jonas.
Por tudo quanto é mais sagrado, deixe meu filho fora disso.
- Nosso filho. Fernando é nosso filho - enfatizou.
- Está certo. Nosso filho.
Então, deixe o nosso filho de lado.
Acerte tudo comigo.
Eu pago quanto você quiser.
- Antes, vamos dar uma volta.
- Não.
Ele pressionou novamente a arma no ventre dela.
- Além da arma, tenho celular.
Se não fizer o que quero, dou um toque e bum, seu filho leva bala - ele pegou o aparelho e mostrou uma foto.
- Você fotografou Fernando?
- Para você saber que não minto, ao contrário de você.
Magnólia estava congelada pelo medo.
- Para onde vai me levar?
- Vamos até o carro.
- Eu não vim de carro e...
- Magnólia, deixe de ser besta.
Eu a estou seguindo faz tempo.
Vi quando saiu de casa, vi quando entregou o carro ao manobrista, vi quando entrou no banco.
- Tenho de carimbar o tíquete.
- Eu tenho dois reais.
Pode deixar que esse tíquete eu pago. Cortesia.
Caminharam até o caixa e Jonas pagou.
Entraram no carro e ela deu partida.
O carro morreu.
- Desculpe, estou nervosa.
- Não tem de quê. Eu dirijo.
- Não...
- Sim. Vamos, dê a volta e sente-se no passageiro.
Ah, e se sair correndo já viu - ele apontou para o celular e mostrou novamente a foto.
Adeus, Fernando.
- Não vou fugir.
Magnólia saiu do carro e foi se encostando na lataria para não cair.
Mal sentia as pernas.
Deu a volta, sentou-se no banco do passageiro.
Jonas pulou para o banco do motorista, deu partida e saíram do estacionamento.
- E agora?
- Agora vem o melhor.
E, para você saber que não estou blefando, vou lhe dar mais uma prova.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:08 pm

Jonas apanhou o celular e discou:
- Fala, camarada.
Está na frente do bar?
Fica de olho.
Se eu ligar o celular, tocar uma vez e desligar, já sabe:
mete bala no rapaz.
Não, não no Peixão.
Isso mesmo, no de cabelos castanhos.
Magnólia estremeceu quando escutou o nome de Peixão.
"Ele vai nos matar", pensou.
Jonas desligou o celular e riu.
- Cabelos castanhos iguais aos do pai.
- Não acho graça em nada.
Por que me atormenta?
Voltou depois de tantos anos a troco de quê?
- Você me usou, vadia! - ele vociferou.
Pensa que não sei que desfilou comigo no bairro para camuflar a sua preferência por mulheres?
- Isso faz tanto tempo!
Estamos falando de trinta anos.
- Trinta, quarenta, cem anos. Não importa.
- Você já se vingou.
Levou-me ao drive-in, me deu uma bebida e me estuprou.
- Pega leve.
- Leve? Você me embebedou e abusou de mim, sem consentimento.
Isso é estupro.
- E daí? Eu tirei sua virgindade e lhe dei um filho.
E, se lhe dei um filho, também posso tirar esse filho de você, a qualquer momento.
- Não meta Fernando em nossa história.
- Não tem como.
Ele é sangue do meu sangue.
- Por favor, Jonas...
Ele acelerou e ganhou a marginal do Tietê.
O trânsito fluía tranquilo e não demorou até Jonas embicar o carro na entrada de um motel.
Magnólia sentiu o sangue sumir. Gelou.
- O que é isso?
- Vamos matar saudades.
- Oh, por favor...
- Só que desta vez você não vai beber.
Nada. Quero que sinta tudo.
- Não! - ela gritou.
Jonas mostrou o celular.
- E agora? Vai ou não vai?
Magnólia tremeu.
A saliva sumiu, a garganta secou.
Ela começou a suar frio.
- Eu tenho mais de cinquenta anos.
Não tenho o corpo jovem e durinho de anos atrás.
Você não vai gostar.
- Se você soubesse o que peguei nesta vida!
Tive que pegar até homem na prisão.
Depois que fugi, tive de me divertir com travestis.
Pensa que é fácil para um ex-detento conseguir mulher inteira?
- Eu arrumo uma mulher para você.
Eu pago pela melhor profissional do sexo.
Conheço uma casa nocturna nos Jardins.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:08 pm

- Nada disso. Que Jardins, que nada!
Eu quero você. Agora!
Vamos reviver os velhos tempos.
Vale a pena ver de novo - ele sacudiu os quadris de forma grosseira.
Que tal? Repeteco.
Jonas entregou documentos de identidade falsos, naturalmente, para a recepcionista.
A garota, mais interessada em tirar a cutícula do que em verificar a identidade, entregou a chave sem olhar para eles.
Accionou o portão e logo este se abriu.
Entraram e Jonas estacionou.
Saiu, abaixou a cortina da garagem.
Abriu a porta do carro:
- Vamos, madame.
Subir - apontou para a escada em forma de caracol.
- Jonas... - Magnólia implorou.
- Se pedir de novo, eu aperto o botão.
E também lhe dou um tiro.
Impotente, Magnólia não teve alternativa.
Saiu do carro e subiram as escadas.
Ela foi se apoiando no corrimão para não cair.
Jonas entrou primeiro.
Acendeu as luzes.
Era um motel como tantos outros.
Decoração básica, cama redonda, banheira de hidromassagem, piso frio e espelhos nas paredes e no teto.
Ele foi logo tirando a roupa.
- Vamos, deite-se.
- Espere. Deixe eu me preparar.
- Eu te preparo.
Jonas avançou e arrancou o vestido de Magnólia.
Jogou-a sobre a cama e montou sobre ela, sem dó nem piedade.
Magnólia a princípio uivou de dor, mas não se mexeu.
Fixou o olhar no teto espelhado e, de tão pasmada, ficou alheia, anestesiada à brutalidade do acto; nem uma lágrima escorreu pelo canto do olho.
Ele sacolejou violentamente o corpo contra o dela.
Permaneceu nesse vaivém por mais de meia hora.
Depois de saciado, Jonas levantou-se.
Pegou um cigarro, acendeu e soltou as baforadas para o alto.
- Você ainda manda bem.
Perto do que já provei nestes últimos anos, você não é de se jogar fora.
Magnólia estava em estado apopléctico.
Não falava, não gemia, não emitia som algum.
Continuava com os olhos presos no teto, respiração levemente entrecortada, uma dor na alma bem maior que a dor física.
Durante todo o tempo em que Jonas estivera em cima dela, só pensou em Fernando.
Eram flashes que vinham à mente: a gravidez, a ida até Populina, o nascimento e o crescimento do filho... tudo vinha rápido e Magnólia sentiu um único arrependimento:
morrer sem fazer as pazes com o filho.
Pela primeira vez em sua vida, orou:
"Meu Deus, não me leve agora.
Eu preciso me reconciliar com meu filho. Por favor."
Ela murmurou poucas palavras, mas de maneira sentida e comovente.
Jonas deu a última baforada, apagou o cigarro e deitou-se novamente sobre ela.
- Só mais uma - disse, enquanto a penetrava, sem dó nem piedade.
O papai aqui está velho, mas ainda manda bem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:08 pm

Só mais uma, sua cadela.
Isso tudo é para você nunca mais brincar com meus sentimentos.
Está para nascer a mulher que vai me fazer de otário.
Depois de se esbaldar e dar um urro de prazer, Jonas levantou-se e caminhou para um duche.
- A gente pode tomar um banho na banheira, se você quiser.
Ela não respondeu.
Ele riu-se:
- Desculpe, sapinha, fiquei tão emocionado que me deu dor de barriga.
Se incomoda de me esperar para um banho de espuma?
Magnólia fingiu estar adormecida.
Ele gargalhou:
- Essa mulher está com cara de quem gostou.
Talvez, se eu tivesse ficado na vida dela, não teria virado sapa.
Entrou no banheiro e encostou a porta.
Foi tudo muito rápido.
Intuída pelos amigos espirituais que se aproximaram quando fez a pequena, porém sentida, prece, Magnólia levantou-se e venceu a dor que parecia tomar o corpo todo.
Cambaleante, apanhou o celular de Jonas e ligou para Gina.
- Não pergunte nada - disse baixinho.
Ligue para a polícia.
E deu o endereço do motel.
Depois, com incrível controle das emoções, arrancou a bateria do celular, escondendo-a debaixo do colchão.
Com dificuldade, deitou-se na cama, colocou a arma de Jonas embaixo do seu travesseiro, fingindo que dormia, e intimamente suplicava a Deus para que os policiais chegassem.
As sirenes logo pipocaram.
Jonas saiu do banheiro, os olhos vermelhos, injectados de fúria.
- Sua vaca! - vociferou.
Se for o que estou pensando... - ele gritou e procurou a arma e o celular com os olhos.
Magnólia apontou a arma para ele:
- Não se mexa, desgraçado.
Não vou deixar encostar um dedo no meu filho!
Antes que ela apertasse o gatilho, os policiais entraram.
- Parado! Mãos ao alto.
Jonas gargalhou.
- Mãos ao alto?
Pelado? Que papelão!
- Já disse - insistiu um dos policiais.
Mãos ao alto!
Ele olhou para Magnólia com tristeza e disse:
- Eu a amei. De verdade.
- Mãos ao alto. Senão atiro.
Jonas fitou Magnólia.
- Não tenho nada a perder - e finalizou em um tom glacial:
- Mas deixei uma sementinha dentro de você. Adeus.
Jonas despediu-se e jogou-se sobre Magnólia.
Os policiais atiraram.
Quando seu corpo caiu sobre o de Magnólia, ele já estava morto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:08 pm

- 40 -

Fernando passou a frequentar a rua de Eduarda.
Todos os dias passava por lá.
No terceiro dia, tomou coragem e encostou o carro na calçada.
Atravessou a rua, foi até a portaria, subiu os degraus.
- A Eduarda, da cobertura, por favor.
- Quem é?
- Um amigo. Diga que é Fernando.
O porteiro ligou para o andar e em seguida respondeu:
- Ela não está.
Quer deixar recado?
- Não, obrigado.
Fernando desceu as escadas e viu um homem de terno, bem-apessoado, aproximar-se e dizer:
- Olá, tudo bem?
A senhorita Paloma da cobertura, por favor.
O porteiro nem interfonou.
Accionou o portão automático e o homem entrou.
Fernando sentiu o sangue sumir.
- Bruna tinha razão.
Paloma está namorando.
Ele se afastou e atravessou a rua.
Apoiou-se no capô do carro e esperou.
O homem saiu e ele tomou a iniciativa.
Chegou junto.
- Por favor.
- Sim.
- Eu sou amigo da Paloma e não consigo falar com ela.
- Já interfonou?
- Desculpe a abordagem, mas eu e ela somos amigos de infância e temos muito que conversar.
- Não posso fazer nada.
- Por favor. É urgente.
O homem parou e o fitou, sério:
- Urgente é o tratamento que a amiga dela precisa.
- Hã?
Fernando não entendeu de pronto.
- A Eduarda está doente?
- Não posso falar nada.
É uma questão de ética.
O homem entrou no carro e partiu.
Fernando ligou para Juliana.
- Há algo de errado com sua irmã.
- Porquê?
- Você a viu desde que voltou da Espanha?
- Eu fui buscá-la no aeroporto, quando retornou.
Depois não a vi mais.
- Acho que a Eduarda está doente.
- O que quer que eu faça?
- Não sei, Juliana.
Meu coração diz que elas precisam de ajuda.
- Você bem sabe que meu relacionamento com Eduarda nunca foi dos melhores.
- Não dá para chamar o Erik?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:09 pm

- Não gosto de me meter na vida dos outros.
- Por favor, Juliana.
Algo grave está acontecendo.
- Está certo.
Vou ligar para o Erik.
- Obrigado.
Ele desligou o telefone e, ao guardá-lo no bolso, reparou que no visor havia mais de seis chamadas.
Todas de Gina.
- Estranho! - disse para si.
Gina nunca foi de ligar de maneira insistente.
Ligou e Gina atendeu.
- O que foi?
- Sua mãe está internada.
Preciso de você.
Fernando gravou o nome do hospital e, por ora, esqueceu-se de Paloma e Eduarda.
Só pensava em Magnólia, mais nada.
Eduarda estava deitada na cama.
A anemia e a magreza avassaladoras modificaram suas feições, antes belas e formosas.
Havia aqui e ali um traço bonito, mas era patente que seu estado de saúde não era dos melhores.
- Vamos aos Estados Unidos - insistiu Paloma.
- Não tenho forças.
- Como não?
- Não tenho, já disse.
Paloma, escute, eu não quero mais viver.
É um direito que tenho.
- Sou contra a eutanásia.
- Hello-o! Não estou falando em eutanásia, mas em deixar tratamentos agressivos de lado.
Meu corpo está muito debilitado para enfrentar um.
- O doutor Meira disse que podemos tentar um doador de medula.
Eu já fiz o teste.
- E deu incompatível.
- A gente vai tentando.
Eduarda sorriu.
- Não é bem assim.
Não temos mais tempo para tentar.
Se eu tivesse um irmão, poderia ter boa chance.
- Tem sua mãe.
- Não adianta.
E, se quer saber, o meu caso é bem diferente.
Doutor Meira fala em transplante só para me alegrar, mas eu não tenho chances de me curar.
- Não fale assim - Paloma estava emocionada, a voz triste e chorosa.
- É a mais pura verdade.
Não estou dramatizando a situação.
- Mas temos exemplos de pessoas conhecidas, de artistas que sobreviveram à doença.
- Cada caso é um caso.
A minha leucemia é aguda, não é crónica.
E, de mais a mais, não quero continuar.
- Não desista.
Pense em seu filho.
Eduarda sorriu.
- Dante vai ser muito feliz.
Fiz tudo certo.
Já escolhi os futuros pais dele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:09 pm

- Sua mãe pode interferir.
- Hello-o! Você quer que eu dê risada agora?
Está de brincadeira comigo?
- Não, é que...
- Paloma, minha pombinha.
Glória jamais vai se candidatar a cuidar de meu filho.
- Ela pode mudar de ideia.
A vida cria tantas situações, nunca sabemos o que seremos amanhã.
- Por isso fiz tudo dentro da lei, como manda o figurino.
Minha mãe não vai querer brigar na Justiça.
Aliás, ela nem sabe que Dante existe.
- Não contou a ela?
- E Glória voltou do Himalaia? Não.
Paloma teve uma ideia.
Desconversou.
- Você acha que ela vai aceitar?
- Ela quem?
Paloma sussurrou no ouvido de Eduarda.
- Já tivemos uma conversa com o pai.
- Ela ainda não assinou os papéis.
- Os advogados estão em contacto com o Juizado da Infância e da Juventude.
Tudo conforme a lei.
Bruna está dando uma força.
Logo eles serão chamados.
É só uma questão de tempo.
- E você...
- Não. Eu não estarei mais aqui.
E, se este tal de outro mundo de facto existir, estarei torcendo para que tudo dê certo.
Não estou abandonando meu filho.
Estou dando a ele a chance de crescer em uma família de verdade.
Não passo de alguns meses.
Paloma moveu a cabeça para os lados.
- Não diga isso! Por Deus.
Doutor Meira falou que...
- Ele é médico, vai tentar de tudo para salvar minha vida.
É da natureza dele salvar vidas.
Eu já disse, não quero.
Deixou-me morrer em casa.
Olhe ao redor.
Paloma olhou o quarto todo.
Parecia um quarto de hospital, com equipamentos e uma enfermeira, sentada ao fundo, controlando tudo com os olhos.
- Oh, amiga, eu me sinto impotente.
Não sei o que fazer.
- Preciso de carinho, de apoio e de solidariedade.
Você é capaz de me oferecer isso?
Paloma abraçou-a com carinho.
Deixou uma lágrima escapar.
- Sou capaz de oferecer tudo isso e o céu também.
- Promete que vai ser uma boa madrinha para o meu filho?
- Sim.
- Vai contar para ele que sua mãe era linda e terrível?
Ambas riram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:09 pm

Paloma concordou.
- Hum, hum.
- Ensine Dante a respeitar as diferenças.
Aprendi muito tarde esta lição.
Não quero meu filho zombando dos outros, tripudiando sobre os sentimentos alheios.
Ensine-o a respeitar o próximo, por favor.
- Pode deixar.
- Chame Juliana.
- Agora?
- Ligue para ela.
Peça para vir em casa.
- Mas você me disse que...
- Mudei de ideia.
Precisamos conversar. Imediatamente.
- Pare de falar como se fosse morrer.
- Então, tá.
Vou falar como se não fosse mais viver.
Magnólia recebeu alta do hospital.
Passados o trauma e alguns dias, prestou depoimento na delegacia.
Logo foi constatado que os policiais atiraram em legítima defesa, e o caso envolvendo a morte de Jonas foi arquivado.
Em casa, recuperando-se, preparou-se para receber a visita do filho.
Fernando havia ido ao hospital enquanto estivera internada, mas, para não criar nenhum tipo de embaraço, preferiu ter notícias da mãe por intermédio de Gina.
Magnólia olhou-se no espelho e ajeitou os cabelos recém-tingidos de castanho-claro.
- Ficaram óptimos - elogiou Gina.
Você remoçou.
- Obrigada.
- Está triste.
- Só continuo cansada.
- Tomou as vitaminas?
- Tomei. Mas o cansaço e a febre me atormentam.
- Vou ligar mais tarde para o médico.
- Sabe, quando Jonas...
- Não falemos dele, por agora - tornou Gina.
Você tem se recuperado bem e...
- Não. Não vou praguejar, tampouco discutir.
Eu não lhe disse nada no hospital, mas tem uma frase de Jonas que não sai do meu pensamento.
- O que é?
- Ele me disse que havia plantado uma semente em mim.
Imagine eu, com mais de cinquenta anos nas costas, grávida!
Estão aí os testes que fiz - desabafou Magnólia, aliviada.
Uma luz de alerta acendeu na cabeça de Gina.
Ela revirou os olhos e sentiu um frio no estômago.
Fernando abriu a porta do quarto e ela aproveitou o momento para ocultar a emoção.
- Até que enfim chegou - saudou Gina.
Vou deixá-los à vontade.
Se precisarem, é só chamar.
- Obrigado, tia - respondeu Fernando.
Ela se aproximou e sussurrou em seu ouvido:
- Depois que terminar aqui, precisamos conversar.
Urgente.
- Sim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:09 pm

- Ei, o que cochicham? - perguntou Magnólia, desconfiada.
- Nada - Gina respondeu e saiu.
Encostou a porta.
Fernando aproximou-se, beijou Magnólia e deu-lhe um abraço forte e demorado.
Fazia tempo que não havia essa demonstração de carinho.
Magnólia sentiu o calor do filho, o hálito quente e doce.
Afastou-se com delicadeza, levou a mão ao rosto e sorriu.
- Como tem passado?
- Eu é que pergunto, mãe. Como está?
- Melhor. Não morri.
Aquele marginal podia ter me matado.
- Não fale assim. Passou.
Magnólia iria gritar, dizer que tinha de falar dessa forma porque ela é que tinha passado por uma situação de tremenda crueldade e barbaridade.
Preferiu não estragar o momento.
No fundo, sentia muita falta de Fernando, de sua companhia.
- É, passou.
- Agora entendo por que sempre quis esconder a identidade do meu pai.
Obrigado por poupar-me.
Ela se emocionou e, refeita, tornou:
- Jonas sempre foi bandido, desde adolescente.
A vida dele sempre foi cadeia-delinquência, delinquência-cadeia.
Eu jurava que ele já houvesse morrido. Ledo engano.
- Você me protegeu esses anos todos.
- Fiz o meu melhor.
Mesmo com esta cabeça ruim, como diz sua tia Gina, eu tentei lhe dar uma boa educação, carinho, amor.
- Sou grato por tudo isso.
- E, antes de mais nada, quero lhe pedir desculpas.
- Desculpas?
- Sim. Sei que você ficou profundamente magoado comigo quando escutou parte - ela enfatizou - da minha conversa na cozinha, anos atrás.
- Hoje, depois de tudo o que aconteceu, entendo perfeitamente a sua colocação.
- Eu nunca pensei em tirá-lo de dentro de mim.
Mas a maneira como você foi gerado... isso foi difícil de engolir.
Fernando levantou-se e inclinou o corpo.
Beijou Magnólia repetidas vezes no rosto.
- Eu a amo, mamãe.
Mais que tudo.
- Eu também o amo, meu filho.
Sou uma velha rabugenta.
É minha natureza.
- Mas pode mudar.
Você é tão boa, tem um coração tão puro.
Por que se deixar levar pela maldade do mundo?
- Porque ela existe.
Veja o que aconteceu comigo.
- Mamãe, por favor.
As coisas não vão melhorar só porque você sofre.
Pare de se torturar por alguns instantes.
A auto-punição machuca o coração e diminui a força do espírito.
- O que já tenho de bom?
- Olhe ao seu redor.
Será que desta vez vai perceber os tesouros que enriquecem sua vida?
Tem uma mente inteligente, amigos verdadeiros e dedicados, uma companheira que a ama, um filho que é apaixonado por você...
Uma casa bonita e aconchegante, um sorriso agradável, liberdade de escolher, liberdade de viver de acordo com suas preferências afectivas, facilidade com dinheiro...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:09 pm

- Facilidade?
- Sim. Você nunca precisou trabalhar na vida para ter dinheiro.
Talvez seu espírito já tenha esse conhecimento e agora precisava aprender a lidar com o preconceito, com a aceitação das diferenças.
- Eu me julgava infeliz.
- Crescemos acreditando que somos menos, que não somos bons o suficiente.
Isso vem dos pais, dos tutores, dos professores.
Somos treinados a não ter direito à felicidade e colocamos nossa felicidade em coisas e pessoas sem saber se, quando obtivermos, seremos realmente felizes.
Este comportamento atrapalha a nossa caminhada e desperdiçamos os melhores momentos de nossa vida.
Ficamos ausentes o tempo todo.
As boas oportunidades passam por nós e nem sequer as percebemos.
- Só cultivei a minha loucura.
- Não é de estranhar que, agindo assim, acabe infeliz, frustrada e cheia de insatisfação.
- Sim. Concordo.
E por que está com esse discurso tão transcendental?
Acaso declarou-se para Paloma?
- Ainda não.
É o que pretendo em breve.
- Não sei o que a vida me reserva - prosseguiu ela -, mas o facto é que sobrevivi até hoje por conta do seu amor e o de Gina.
Você está perdendo um tempo precioso com besteiras.
Declare-se logo.
Ao menos eu já conheço os pais da moça - brincou.
- É. Se eu me casar com Paloma, seremos uma grande família feliz.
Você, tia Gina, tia Isabel e tio Paulo, mais Juliana, Erik e Sofia.
- E não se esqueça de Lena.
É graças a ela que você tem esse nome.
Fernando sorriu.
- É. Tem razão.
- Ela já voltou.
Assim como você, não quis morar comigo - lamentou Magnólia, triste.
- Sou homem, mãe.
Preciso de independência.
Em todos os sentidos.
- Sei. E Lena?
- Depois de tantos anos fora do país, ela tomou gosto pela independência.
Lena quer ter o próprio canto, quem sabe também se casar.
Como você ressaltou, todos nós precisamos de amor.
- Sim. Bravos ou mansos, gordos ou magros, brancos ou pretos, todos queremos dar e receber amor.
A conversa durou mais algum tempo e, ao se despedir, as rusgas entre mãe e filho haviam se dissipado.
Fernando falou do bar, do sucesso, dos clientes.
Magnólia sorria orgulhosa.
Mesmo sendo cabeça dura, criara um filho maravilhoso.
Fernando despediu-se e desceu.
Encontrou Gina, aflita, no corredor.
- O que tanto queria falar comigo?
- Sua mãe não está bem de saúde.
- Depois do que ela passou...
- Não, querido.
Tenho um terrível pressentimento de que Jonas tenha deixado uma marca indelével no corpo de Magnólia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:10 pm

- 41 -

Lena voltara ao Brasil e, logo que botou os pés em terra firme, recebeu uma chuva de propostas de trabalho.
Especializada em restauração do património público e com um brilhante currículo, aceitou um posto de supervisão de restauros em um museu na capital.
Feliz da vida, alugou um apartamento perto do trabalho.
Visitava Magnólia e Gina amiúde.
Dividia o tempo em visitas a Eduarda.
Ficara penalizada com a situação da moça, mas, como era espiritualista, tinha certeza de que a vida sempre sabe o que é melhor para cada um, por mais triste que a situação possa parecer.
Rezava todos os dias pelo espírito de Eduarda.
Enquanto alguns choravam e se desesperavam, Lena fazia o oposto: prevendo o desencarne próximo de Eduarda, enviava ao espírito da moça vibrações de bem-estar e equilíbrio.
- Aceitar o que não se pode mudar revela sabedoria - costumava dizer.
Ela se arrumou para sair.
Ainda não tinha ido a bares, tampouco a restaurantes.
Uma noite em que Paloma ficara no revezamento com a enfermeira para cuidar de Eduarda, procurou sair e espairecer.
A noite estava agradável, o céu parcialmente estrelado.
Lena sorriu para sua imagem reflectida no espelho.
Gostou da aparência, dos cabelos curtos e repicados.
O tom avermelhado das madeixas contrastando com sua tez clara a rejuvenescia sobremaneira.
Desceu as escadas - o prédio tinha só três andares - e apertou o botão para abrir a porta da entrada, automática.
Ela baixou os olhos para a bolsa, conferindo documentos e dinheiro.
Ao levantar os olhos, congelou.
O rapaz que vinha na contramão estancou o passo e também congelou.
Sustentaram o olhar por segundos que pareceram durar uma eternidade.
Alessandro recobrou a consciência e a cumprimentou, estendendo a mão:
- Boa noite. Prazer.
- Olá. Boa noite.
- Mora aqui?
- Eu me mudei faz quinze dias. E você?
- Moro no terceiro andar.
- O barulho de móveis arrastados vem do seu apartamento! - ela disse, num tom jovial e brincalhão.
- É. Eu trabalho em um bar, os meus horários são loucos.
Trabalho de noite e descanso de dia.
- Sua mulher não reclama? - arriscou Lena, ligada já na santa intuição.
- Mulher? Não sou casado.
- Ah! - ela emitiu um som que, se fosse para medir o que estava sentindo naquele momento, reverberaria por todo o quarteirão.
Lena teve ímpetos de gritar e beijar aquele homem forte e meio desajeitado.
Conteve-se.
- Vai sair?
- Eu bem que queria.
Consultei a internet, pedi dicas no trabalho.
Eu morei fora muitos anos e não sei mais quais são os lugares da moda.
- Gostaria de conhecer o meu bar?
- Não quero atrapalhar.
Você chegou agora e...
- Acabei de vir da academia.
Vou tomar uma duche e pegar no batente.
Se quiser, dou-lhe carona.
Só prometo não me comportar.
Lena sentiu um friozinho na barriga.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:10 pm

- Aceito.
- Quer subir e tomar um drinque?
Dono de bar sempre tem bebida em casa.
- Aceito. De novo.
Alessandro fechou a porta automática e subiram os andares.
Ele abriu a porta de casa, fez reverência para Lena entrar e... bem, reza a lenda que, naquela noite, Alessandro não foi trabalhar e Lena não saiu de casa, quer dizer, do prédio.
Um mês depois do encontro, Alessandro deixou o apartamento que dividia com Fernando.
Mudou-se para o de Lena.
Dali a dois anos, Lena daria à luz um casal de gémeos.
O teste foi feito e, por lei, refeito.
Não deu outra:
Magnólia fora infectada pelo vírus hiv.
Passado o choque da notícia e algumas sessões de terapia depois, ela ainda estava entre aceitar ou negar o resultado.
Ficava bem, tinha noites boas de sono e dizia que o exame deveria ser repetido pela quarta vez.
Passado o estado de euforia, entrava em depressão e jurava que estava marcada para morrer.
Durante um bom tempo ela viveu essa gangorra emocional, hora subindo de alegria, hora descendo de indescritível tristeza.
Até que um dia, Gina, intuída por Tarsila, levantou-se e, encarando Magnólia, sugeriu:
- Vamos dar um chute nessa tristeza?
- De que maneira?
- Não sei.
Mas vamos arrumar uma maneira divertida.
- Ajude-me, por favor!
Magnólia deixou que as lágrimas escorressem livremente pelo rosto.
Estava cansada de pensar daquela forma.
Desejava mudar de uma vez por todas.
Gina passou as costas da mão sobre as lágrimas.
Depois, delicadamente pousou suas mãos sobre as da companheira.
- Aí vai uma dica.
- Qual?
- Tudo na vida só pode ser visto por duas lentes: ou a positiva, ou a negativa.
Todas as situações só podem ser observadas, analisadas e aceitas por meio delas.
- Tem certeza?
- Afirmativo. De que lado você está?
Diante de um problema ou de um momento desagradável, pergunte-se: o que a vida pretende me ensinar com esse facto?
- Não faço ideia do que a vida quer me ensinar.
Uma doença que vai me matar?
- Não dramatize a situação.
Sei que receber um diagnóstico desses não é fácil.
É preciso coragem e muita força para dominar o medo e vencer.
Tenha em mente que todos nós vamos desencarnar, mais dia, menos dia.
Pois agora você pode mudar sua vida.
- Mesmo com este diagnóstico?
- Este diagnóstico é o momento presente, o agora.
Amanhã os resultados poderão mudar.
- É incurável.
- Quantas doenças são consideradas incuráveis e pessoas que as têm convivem bem com elas?
Convivem tão bem que morrem por outro motivo.
É preciso saber lidar com a doença, perceber qual é o recado que ela quer lhe dar.
Será que este chacoalhão não está lhe servindo para reflectir sobre tantos anos de pensamentos negativos?
- É uma doença ligada ao sexo.
Eu não sou promíscua.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:10 pm

- Quem disse que é uma doença sexual?
Ela pode ter começado como uma doença ligada ao sexo.
Todavia, os anos mostraram que ela está acima das preferências sexuais.
Se não fosse assim, Deus não permitiria que um bebé nascesse com este diagnóstico.
Anos atrás, quando ninguém sabia o que era, a aids era sinónimo de promiscuidade e morte certa.
Depois, mulheres apareceram infectadas, bebés nasceram infectados e a medicina evoluiu.
Você deve agradecer porque hoje é uma doença controlada.
Os efeitos colaterais da medicação podem não ser agradáveis, afinal, todo medicamento precisa se adaptar ao organismo.
É preferível viver sem o vírus? Claro!
Mas não adianta agora pensar no se.
- O que sugere?
- Conheço um local onde realizam cirurgias espirituais.
- Você de novo com isso - disse Magnólia com desdém.
Há muitos charlatões por aí, querendo ganhar uns trocados em cima da tragédia humana.
- Sei disso, mas este médium é conceituado, conhecido e trabalha intuído pelo espírito de um médico alemão.
- E ele vai me curar?
- Não se trata de curá-la, mas poderá, por meio de passes e cromoterapia, melhorar seu corpo astral, sua aura e ajudá-la a viver melhor com isso.
Não custa nada, é de graça, e você não tem nada a perder.
Magnólia sorriu e ficou pensativa.
Gina percebeu que, agindo dessa forma, Magnólia estava aberta a outras terapias.
Aproveitou o momento, foi até a cómoda, abriu a gaveta e pegou um folheto.
- Olhe. Além do tratamento semanal, é sugerido ao paciente fazer uma prece diária, usando de toda a fé que possui.
- É?
- Quer que eu leia?
- Por favor.
Gina sentou do lado dela e leu:
- Eu não posso, mas o Cristo em mim pode fazer milagres na minha mente, no meu espírito, no meu corpo e nos meus negócios, dissolvendo toda malignidade de onde ela vier, onde quer que ela esteja, com as bênçãos em mim depositadas por Jesus, Maria Santíssima, São Francisco de Assis e sua corrente amorosa.
Magnólia emocionou-se.
- É lindo!
- Precisa ler com fé, todos os dias, ao menos umas dez vezes.
Vamos tentar?
- Sim.
- Sugiro também, minha querida, que encha seu coração de alegria.
Está em suas mãos criar e modificar o próprio destino.
Este poder é só seu.
Quando Juliana chegou ao apartamento e entrou no quarto de Eduarda, sentiu um baque.
Profundo. O seu estado de saúde inspirava muitos cuidados, e Eduarda era nada mais que um fio de gente.
Tudo o que Juliana ensaiou durante anos para jogar na cara da outra - sonhara tantas vezes com este dia! - caiu por terra.
Paloma fez "psiu" e a chamou com o dedo indicador.
Juliana notou a criança dormindo no berço ali do lado.
Aproximou-se e pegou nos dedos de Dante.
O menino moveu-se e sua mãozinha apertou o dedo dela.
Eduarda acordou, e a enfermeira tomava seu pulso.
Encarou Paloma e fez uma negativa com a cabeça.
Paloma sentiu os olhos marejarem.
Eduarda estava morrendo.
Abraçou a irmã.
Juliana, penalizada, cumprimentou:
- Oi.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 8:10 pm

- Meu Deus, você continua gorda.
- Mesmo doente, você não perde a oportunidade de me azucrinar.
- Ficou uma gorda bonita.
Eu invejo você.
- Está delirando.
- Hello-o! Não estou - falou numa voz pausada e cansada.
Já contei a história para sua irmã.
Eu me sentia mal, para baixo e insegura, pressionada por minha mãe para ser linda e exuberante.
Era muita responsabilidade.
Tive medo de falhar.
Daí vi em você a pessoa ideal para transferir meus medos e minhas inseguranças.
Nunca tive nada pessoal contra você.
De verdade.
- Mas me machucou muito.
Foi uma fase difícil de superar.
- Você superou. É forte.
Dona de si, cheia de coragem.
É uma mulher realizada, feliz.
Ama e é amada. Tem uma filha linda.
É uma mãe amorosa e dedicada.
Merecia ter outro filho.
- Depois que Sofia nasceu, perdi a capacidade de gerar um bebé.
- Nunca considerou a possibilidade de adoptar um?
- Eu e Erik já conversamos a respeito.
Entramos na fila de adopção.
- Quando entrou nessa fila?
- Há alguns meses.
Erik me levou os papéis para assinar, depois juntou documentos, fizemos uma entrevista no juizado.
Bruna deu continuidade.
Vamos aguardar.
Eduarda meneou a cabeça.
- Precisamos seguir as leis.
A burocracia é enfadonha, mas cria regras.
E regras devem ser seguidas, embora eu nunca tenha sido uma pessoa fiel cumpridora de regras.
- Sei. Confesso que - Juliana hesitou e prosseguiu - no fundo tinha inveja de você.
- De mim?
- Sim. Você sempre foi bonita, os meninos sempre a cobiçavam e desejavam.
Nunca teve de lutar contra quilos e gramas.
- E olhe o resultado - Eduarda apontou para si.
Não sobrou nada.
- Eu a admiro muito.
Não sei se teria forças para lutar.
- Não estou lutando, Juliana.
A bem da verdade, cansei de lutar. Aceitei a morte.
É difícil ser jovem e saber que vai morrer.
É muito complicado.
Contudo, aprendi com Paloma e Lena que a vida continua, que este corpo aqui tem prazo de validade.
O meu está expirando.
- Sempre há a possibilidade de cura.
- Não quero a cura.
- Pense no seu filho.
Eduarda fez um esforço hercúleo para soerguer o corpo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 9 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum