O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:37 pm

- Ajude-me, amiga.
- Claro.
- Não sei o que fazer.
- Abra-se comigo.
Magnólia anunciou de chofre:
- Estou grávida!
Isabel sentiu as pernas falsearem por instantes.
Abriu e fechou os olhos, surpresa.
- Como assim?
- Jonas, aquele patife.
Fui terminar com ele e...
Magnólia contou toda a história, ao menos a parte da qual se lembrava.
Contou do drive-in, do desmaio, de chegar em casa zonza.
Um tempo depois percebeu os seios inchados e a menstruação não veio.
Foi a um clínico no centro da cidade e fez o exame.
- Estou apavorada!
Aquele delinquente me engravidou e sumiu no mundo.
Estou grávida de um bandido.
- Não pense assim - Isabel abraçou-a, procurando tranquilizá-la.
- Preferiria não ter esta criança.
- Não diga isso, amiga.
- Nunca vou me casar.
Esta criança nunca vai ter pai.
Não é justo.
E, de mais a mais, tem esse meu jeito de ser, meu gosto por...
Magnólia recomeçou o choro.
- Calma. Tudo se ajeita.
- E a hora que tio Fabiano descobrir?
Ele me mata.
- Não vai chegar a tanto.
Mas prepare-se porque você vai ouvir.
- Não posso, Isabel.
- Claro que pode.
Também estou grávida.
Vai ser divertido nossas barrigas crescerem juntas.
- O que as pessoas vão dizer?
Você é casada.
Eu sou solteira e... diferente.
- Não pensemos nisso agora.
Vamos imaginar que a vida quis nos presentear.
- Presente de grego, isso sim.
Isabel abraçou-se a Magnólia e permaneceram em silêncio por um longo tempo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:38 pm

- 5 -

A notícia da gravidez de Magnólia abalou Fabiano profundamente.
- O que pensa da vida? - questionava ele, voz irritadiça.
Como pôde deitar-se com o primeiro salafrário que aparece?
- A culpa é toda minha, titio - Magnólia mantinha a cabeça baixa, envergonhada.
Isabel tentou abrir meus olhos.
- Isabel! - ele gritou.
Ainda bem que há essa menina em seu caminho.
Acredito que, se não houvesse a amizade de Isabel, você estaria nas ruas, vivendo como uma perdida.
- Não!
- Você é venal, Magnólia.
É triste ver uma moça que teve tudo deixar a reputação ir para a lama.
Você não presta.
- Não fale assim, tio Fabiano.
Se ao menos meus pais estivessem vivos...
- Graças a Deus estão mortos.
Sua mãe não merecia tamanho desgosto.
Nunca. Você não tem remendo.
Não sei o que fazer.
- Pensei em tirar a criança.
Fabiano só não pulou no pescoço da sobrinha porque era muito educado.
Sentiu o sangue subir.
- Nunca mais diga uma asneira dessas, ou então eu serei obrigado a lhe dar uma surra.
- Não tenho condições de ter esse filho - queixou-se em tom de súplica.
Não planeei, não casei. Não quero, tio.
- Pois vai ter que querer.
Se quiser continuar vivendo sob este teto, terá de levar essa gravidez adiante.
- As pessoas vão comentar.
Os vizinhos vão reparar.
- Você vai para a fazenda, em Populina.
- Não! - Magnólia protestou.
Não quero ir para o meio do mato.
- Uma fazenda, geralmente, fica no meio do mato - Fabiano bufou.
É uma cidade pequena e adorável.
Você vai ficar bem instalada.
A caseira poderá tomar conta de você.
E terá a companhia da pequena Lena.
- Uma menina. Bela companhia.
- Ao menos ela deve ter mais juízo que você.
É uma menina encantadora.
Magnólia meneava a cabeça, de forma negativa.
- Vou ter meu filho no meio do mato?
Sem recursos?
- Roseli, a caseira, também é parteira.
- Mas tio...
Fabiano cortou-a seco.
- Chega de falar, menina!
Você não tem direito de escolher.
Vá imediatamente para seu quarto arrumar a mala.
Nada de pegar muita roupa, visto que essa barriga logo vai crescer.
Providenciarei vestidos adequados a uma gestante.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:38 pm

- Acabei de arrumar emprego na farmácia.
- Pois peça as contas.
Despeça-se de sua amiga Isabel e na sexta-feira o motorista vai levá-la.
- Não quero.
- Então vai para o olho da rua.
- Não seria capaz!
- Sou. Ou você me obedece, ou vai embora.
Não sou seu pai, mas tento agir como se fosse.
Você é dona do seu nariz.
Se quiser cometer mais burradas, vá adiante.
Eu lavo as minhas mãos.
Fabiano saiu do escritório muito nervoso.
Nem conseguiu acender seu cachimbo.
Subiu até o quarto, trancou a porta e abriu uma gaveta da cómoda.
Apanhou uma caixa de madeira e sentou-se sobre a cama.
Abriu a caixa, vasculhou, tirou algumas cartas amareladas e, no fundo, pegou uma foto bem antiga.
Era o retrato de uma moça.
Bonita e com um sorriso maroto.
Atrás estava escrito:
"Uma recordação de quem muito o estima. Adelaide".
Fabiano deixou uma lágrima escorrer e beijou a foto várias vezes.
- Por que você não está aqui?
Por quê?
Ele sentiu uma brisa suave tocar-lhe o rosto e teve certeza de ter sentido o perfume de Adelaide.
Um espírito de porte elegante, cabelos presos em coque e de muita luminosidade, com expressão angelical, aproximou-se e o beijou na testa
Em seguida sussurrou em seu ouvido:
- Obrigada por não desamparar a minha filha.
Apesar de parecer uma atitude condenável, essa gravidez foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na vida de Magnólia.
Você ainda vai ver.
Adelaide passou a mão sobre a fronte e o peito de Fabiano e, em seguida, sumiu.
Ele sentiu agradável sensação de bem-estar.
Guardou a foto na caixa, fechou-a e colocou-a novamente na cómoda.
Deitou-se e adormeceu.
Sonhou com Adelaide.
Na noite anterior à viagem, Magnólia foi jantar na casa de Isabel.
Ela tocou a campainha e Paulo atendeu.
Abraçou-a com carinho.
- Você está bem? - indagou ele.
- Estou indo - respondeu na defensiva.
Pensei que você fosse me criticar.
- Criticar por quê?
- Pelo que aconteceu... eu dei um mau passo.
- Magnólia, que bobagem!
Você vai dar à luz um bebé.
Agradeça a vida por essa bendita oportunidade.
- Eu tento. Juro que tento.
Ser mãe deve ser óptimo, porém, eu não me casei e ainda engravidei de um monstro.
- Você engravidou de um homem.
Com falhas, como qualquer ser humano.
- Não venha dizer que Jonas é humano.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:38 pm

- Venha, Magnólia, entre.
Está frio e você não pode pegar resfriado.
Isabel a espera já cheia de saudade.
Ela entrou e foi directo para a cozinha.
Um aroma agradável inundava o ambiente.
- Você está fazendo creme de espargos! - exclamou, feliz.
- Claro. Sei que você o aprecia - respondeu Isabel, enquanto mexia o creme na panela para não desandar.
Magnólia sentou-se e Paulo serviu-a de um copo de suco.
- Não sei se devo.
- Pode beber.
Faça de conta que é vinho de primeira.
Ela riu, apanhou o copo e bebericou.
- Como andam os preparativos? - perguntou Isabel, interessada.
- Que preparativos?
Tio Fabiano não deixou que eu pegasse muitas roupas.
Disse que a caseira poderá confeccionar vestidos para mim - respondeu com desdém.
- Você é abençoada! - afirmou Paulo.
- Não entendo seu raciocínio - ironizou Magnólia.
- Vou ter de ficar sete meses confinada no fim do mundo, no meio do mato, sem Isabel por perto.
Terei de passar meu tempo com uma caseira - enfatizou de maneira negativa - mais uma pirralha.
- As pessoas do campo podem ser simples, mas são boas.
Você vai respirar ar puro, tomar leite de vaca, comer queijo feito na hora - ajuntou Paulo.
Esse bebé vai nascer lindo e saudável.
- E o que será de nossa vida?
Eu não tenciono me casar.
Essa criança nunca vai ter um pai.
- Tentou localizar Jonas? - perguntou Isabel.
- Não tentei. Nem quero.
Prefiro que meu filho tenha só a mim a saber que o pai é um tremendo marginal.
- Jonas pode se remediar.
- É verdade - concordou Paulo.
Ele gosta muito de você.
- Imagino se não gostasse - retrucou Magnólia.
- Sim. O bairro inteiro comenta à boca pequena que Jonas ficou caidinho por você - tornou Isabel.
- Essa é boa, Isabel - Magnólia riu com desprezo.
- Aquele infeliz nunca me amou e jamais vai se remediar.
- Nunca ou jamais é muito tempo - observou Paulo.
- Pau que nasce torto morre torto - ela sentenciou.
- Pode ser - acrescentou Isabel.
Contudo, agora, não vamos pensar em nada desagradável.
- É - completou Paulo.
Vamos pensar em coisas boas.
Olha só, Magnólia, pelos cálculos, nossos filhos vão nascer na mesma época.
- Seria melhor se nascessem no mesmo dia - emendou Isabel.
Faríamos as festinhas de aniversário sempre juntos.
Magnólia sorriu.
Estava apreensiva e com medo.
Muito medo.
Entretanto, o calor humano de seus amigos a tornava confiante no futuro.
Mesmo que essa confiança durasse uma noite.
- Sei que tenho tendência a ver tudo pelo lado negativo, mas pode ser que esse filho tenha chegado num bom momento.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 06, 2016 8:38 pm

- Claro que sim, Magnólia.
Você vai ser muito feliz.
Uma onda de tristeza apossou-se do semblante de Magnólia.
- O que foi?
Que cara mais triste é essa? - perguntou Paulo.
- Não sei.
Será que eu vou encontrar alguém que goste de mim com um filho a tiracolo?
- Vibre no bem e atrairá o bem para você - respondeu Isabel.
Por falar nisso, não deixe de levar o livro de visualização.
- Será?
Sou tão descrente desses assuntos, Isabel.
Não consigo acreditar no invisível.
Para mim, o real é o que eu posso ver e tocar.
- Há coisas que só a alma enxerga - justificou Paulo.
- O que nossos olhos vêem é palpável, sim.
A nossa alma tem uma capacidade enorme de ver além do mundo material.
Somos feitos e rodeados de energia.
Por isso, vivemos num mundo onde tudo ocorre por atracção, por afinidade.
Isabel tem razão:
pense em coisas boas e atrairá coisas e pessoas boas em seu caminho.
Pense na maldade e já sabe o que vai atrair.
- Às vezes, esse sentimento negativo parece ser maior.
Sinto que não tenho forças para combatê-lo.
- Você tem porque é forte - considerou Isabel.
Precisa mudar sua maneira de pensar sobre si mesma e sobre a vida, transmitir bons pensamentos para essa coisinha linda que já pulsa dentro de você.
- Você tem a responsabilidade pelo que transmite ao seu bebé.
Procure não ter raiva, não sentir rancor.
Esforce--se para ver o lado bom das coisas.
Os factos são o que são.
A gente é que classifica se é bom ou ruim.
Procure olhar tudo com os olhos de Deus.
- Olhos de Deus? - interrogou Magnólia, espantada.
- Sim. Quando enxergamos a vida com os olhos de Deus, estamos desprovidos de maldade.
Não há maledicência, só bondade.
E, quando transpiramos bondade, o mundo ao nosso redor se torna bem mais prazeroso de se viver.
- São conceitos novos para mim.
- São conceitos que poderão lhe fazer muito bem caso abra sua mente para mudar crenças antigas que só têm lhe trazido dor e sofrimento.
Magnólia apanhou o prato e serviu-se do creme.
Saboreou o líquido fumegante e delicioso.
- Esse creme só você sabe fazer, Isabel.
- É receita de minha avó.
- Segredos de família - riu Paulo.
Mais um motivo para eu amar essa mulher.
Magnólia sorriu e concentrou-se na sopa.
Estava feliz naquele momento.
O medo havia se afastado por ora e ela começava a acreditar na possibilidade de ter um futuro um pouco melhor.
Conversou bastante com Isabel e foi com muita emoção que se despediram.
Já era tarde quando Magnólia chegou em casa.
Fabiano estava ali na poltrona de sempre, com seu cachimbo, robe e pijama.
Entrou e cumprimentou-o.
- Olá, titio.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:55 pm

- Pelo seu semblante, o jantar foi muito bom.
- Foi, sim. Isabel e Paulo têm o dom de me acalmar.
Eles me disseram coisas tão bonitas.
Magnólia falou, aproximou-se de Fabiano e o beijou no rosto.
- Obrigado, tio. O senhor tem sido mais que um pai para mim.
- Ora, imagine - tornou Fabiano, tentando ocultar a emoção.
- É, sim. Tem pensado no melhor.
Só quer o meu melhor.
Se mamãe estivesse aqui, tenho certeza de que aprovaria sua medida.
O melhor mesmo é eu ir para Populina.
O contacto com o campo vai nos fazer muito bem - apontou para o ventre.
Sua bênção e boa noite. Durma bem.
- Deus a abençoe, querida.
Boa noite - ele balbuciou, surpreso.
Magnólia subiu, escovou os dentes, vestiu a camisola e deitou-se.
Adormeceu em instantes.
No gabinete, Fabiano serviu-se de mais chá.
Estava pensativo.
- Preciso mudar meu testamento.
Magnólia vai trazer um filho ao mundo.
Essa criança não poderá ficar desamparada.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:56 pm

- 6 -

O chofer de Fabiano conduzia o carro de maneira tranquila.
Era uma viagem de mais de seiscentos quilómetros até o oeste do Estado.
Ao perceber os sinais de fadiga no rosto de Magnólia, José parava em um posto para tomarem um ar, um café, um lanche, fazerem uma caminhada rápida, irem ao toalete.
Foi assim em Limeira, São Carlos, Catanduva, Fernandópolis e, no início da noite, chegaram a Populina.
A fazenda ficava nos arredores da pequena e simpática cidade.
O motorista buzinou.
Uma menina de olhos expressivos apareceu descalça e sorridente.
Abriu o portão e cumprimentou o motorista e Magnólia.
- Oi. Prazer - era uma graça o sotaque caipira da garota, puxando o erre final.
Sou Lena.
O rapaz fez um aceno e Magnólia sorriu:
- Oi, Lena.
Eu sou Magnólia, e ele é o José, chofer do tio Fabiano.
- Oi, José.
O meu pai também se chamava José.
- Por que se chamava?
Ele mudou de nome? - perguntou Magnólia, tentando uma aproximação simpática.
- Não. Papai foi para o céu faz tempo - apontou para o alto.
Virou anjo e toma conta da gente.
Magnólia emocionou-se.
- Entre no carro.
- Eu ia pedir mesmo para entrar.
Já é tarde e a caminhada até a casa-grande é longa.
Lena ajeitou-se confortavelmente no banco de trás.
Pegou na mão de Magnólia e estremeceu.
- Esse menino vai lhe dar muito trabalho.
Vai ser sapeca, mas com muito amor no coração.
E vai ser muito carinhoso.
Eu já gosto dele.
O motorista não prestou atenção, preocupado em seguir o caminho de paralelepípedos até a casa.
Magnólia arregalou os olhos.
"Como ela sabe que estou grávida?", pensou aflita.
Chegaram a casa.
Uma moça, aparentando pouco mais de trinta anos, estava parada no primeiro degrau.
Lena saiu do carro e correu até ela.
- Mamãe! Essa é a moça que eu disse que vinha.
É a mesma do sonho.
A mulher sorriu e esperou Magnólia descer do carro.
Enquanto José pegava a mala, ela cumprimentou:
- Boa noite.
Meu nome é Roseli.
Magnólia simpatizou imediatamente com ela e estendeu a mão.
- Prazer. Eu sou Magnólia.
- Seu Fabiano mandou uma carta cheia de detalhes que devo seguir à risca.
E já ligou cinco vezes para saber se vocês haviam chegado.
- Meu tio é metódico e quer que tudo seja feito de acordo com a vontade dele.
- Estou acostumada.
Meus pais trabalharam para seu tio durante muitos anos.
Eu nasci aqui.
E minha pequena Lena também.
Somos muito gratas ao seu Fabiano.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:56 pm

José cumprimentou Roseli.
- Entrem.
Vou indicar o caminho dos quartos.
Tomem um banho e servirei o jantar em seguida.
- Não precisa se incomodar - disse humildemente José.
Eu vou embora amanhã cedinho.
- Seu Fabiano pediu que eu preparasse um quarto para o senhor - ela acrescentou num tom amável.
- Amanhã precisará estar bem-disposto para retornar à capital.
A viagem é bem longa.
- Por certo. Obrigado.
Roseli indicou o caminho dos quartos.
José foi até o quarto preparado para Magnólia e deixou a mala dela sobre a cama.
Em seguida, dirigiu-se ao seu aposento.
- O jantar será servido daqui a uma hora.
Podem tomar um bom banho e descansar.
Eu virei chamá-los.
Magnólia entrou no quarto e sentou-se na cama.
Era como se tivesse feito uma viagem de volta ao tempo, no comecinho do século.
A mobília era antiga, estilo art nouveau, muito bem conservada.
O quarto tinha um aroma de peroba misturado com alecrim.
Ela estava de boca aberta.
Jamais, em toda a sua vida, quisera ir à fazenda com o tio. Nunca.
Tinha uma ideia de uma casinha de sapê no alto de um morro, fumaça saindo de uma antiga chaminé, como nas cabanas de filmes de faroeste.
No entanto, a realidade era bem diferente.
O casarão fora construído pelos avós de Fabiano em meados do século 19.
Era uma casa-grande digna de cenário de filme, ou de novela.
Era bem grande, com mais de dez quartos.
Fabiano fizera reformas ao longo dos anos, adaptando a moradia às necessidades do tempo.
Mantivera a fachada original, as portas e os janelões, assim como a varanda e os ladrilhos do chão.
Os quartos foram reduzidos a cinco espaçosas suites, com banheira e chuveiro separados.
Magnólia entrou no banheiro, e a banheira já estava cheia de água.
A fumaça e o aroma dos sais de banho eram convidativos.
Ela tirou a roupa e mergulhou na água morna e cheirosa.
- Meu Deus!
Estou no paraíso - exclamou, enquanto brincava com a espuma branca.
Depois do banho, colocou um vestido de alças e deixou os cabelos soltos.
Escovou-os e foi até a varanda do quarto.
A noite estava estrelada.
O som dos grilos era entrecortado pelo agradável som de água caindo.
Havia uma cachoeira ali perto.
Ela voltou ao quarto, apanhou os chinelos na mala e foi até a cozinha.
Perdeu-se no meio do caminho, tamanha distância entre os cómodos.
- Eu ia chamá-la - tornou Roseli.
- Imagine.
Tomei um banho delicioso que abriu meu apetite.
- A temperatura da água estava de seu agrado?
- Sim. Como manteve a água tão quente?
- Quando escutei o barulho do motor de carro, sabia que eram vocês chegando.
Já estava esquentando água.
Antes de estacionarem, eu coloquei mais água quente na banheira.
- Acertou em cheio, Roseli. Obrigada.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:56 pm

- Sente-se, por favor - Roseli apontou para a cadeira.
Magnólia olhou ao redor.
A cozinha também era encantadora.
Toda decorada com azulejos em estilo português colonial.
Os armários eram antigos.
Havia um fogão a gás e outro a lenha.
- Eu cozinho no fogão a lenha - considerou Roseli.
A comida fica com mais sabor.
- Mas dá trabalho - asseverou Magnólia.
Tem de cortar lenha, acender o fogo...
- Eu gosto. Tenho prazer em cozinhar à moda antiga.
Fui criada dessa forma.
José apareceu e, timidamente, encostou-se na soleira.
- Pode sentar-se, José - Roseli indicou-lhe a cadeira.
- Não, senhora.
Eu posso comer depois de vocês.
- De forma alguma - protestou Roseli.
Aqui não seguimos protocolos.
Sente-se e já vou servi-los.
José riu com gosto e sentou-se.
O jantar foi uma maravilha.
Roseli fizera um creme de mandioquinha e um bolo de carne.
Assara dois tipos de pão, um salgado para o jantar e outro doce para a sobremesa.
- Eu vou engordar muito aqui - previu Magnólia.
- Como vou resistir a tanta comida boa?
- Você precisa comer por dois - ressaltou Lena.
- Menina! - Roseli censurou a filha.
Desculpe--me, Magnólia.
Lena fala tudo o que vem à cabeça.
- Ela é sempre assim, directa?
- Directa? Tem uma sensibilidade à flor da pele.
No começo eu me assustava, mas com o tempo entendi que Lena é especial e está rodeada de bons espíritos.
José fez o sinal da cruz.
- Tenho medo de alma penada.
- Eu não - contrapôs Lena.
Eu gosto dos fantasmas.
Eles não podem fazer nada contra mim.
Agora os vivos...
Esses podem fazer muitas coisas.
Principalmente as ruins.
- Não tem medo de que um espírito mau lhe atormente?
- perguntou Magnólia, surpresa.
- Não. Quando aparece um fantasma perdido no meu caminho, eu converso e rezo.
Sempre aparece uma luz forte durante a oração que afasta o espírito perturbado.
Eu sou protegida.
- Ela fala com tanta naturalidade - comentou Magnólia, estupefacta.
- Com o tempo, você vai se acostumar.
E vai gostar - completou Roseli.
Meses se passaram.
Isabel espreguiçou-se e acordou faminta.
A barriga estava bem saliente.
Com dificuldade, ela se virou na cama e Paulo apareceu na soleira.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:57 pm

- Precisa de algo, meu amor?
- Sim. Estou com vontade de comer.
- Almoçamos faz uma hora!
- Mas a fome está brava.
Ele se aproximou da cama, sentou-se e beijou-a nos lábios.
Em seguida, passou delicadamente a mão sobre o ventre de Isabel.
- Meu Deus!
Você está com dois bebezinhos aí dentro.
Ainda é difícil acreditar.
- Que vou ter gémeos ou que estou faminta?
Ele riu.
- Custa-me crer em tudo.
Eu tenho você, a companheira que amo.
Logo teremos duas crianças a correr pela casa.
Ah! - ele suspirou. - A casa.
Conseguimos financiar nossa casa!
- Isso é fabuloso, meu amor.
Esta é a casa que eu sempre sonhei ter para nossa família.
Nem grande nem pequena, suficiente para nós quatro.
Isabel e Paulo estavam felizes com a compra da casa.
Era um sobrado antigo de bom tamanho, claro e arejado, com três quartos.
Havia um pequeno jardim na frente e entrada lateral para dois carros.
- Vamos - ele estendeu as mãos.
Eu ajudo você a levantar-se.
O que tem vontade de comer?
- Frutas. Qualquer fruta que tiver, eu aceito.
- Venha, meu amor.
Vamos até a copa.
Desceram e, depois de fartar-se com meia dúzia de bananas, três peras e duas maçãs, Isabel deu longo suspiro.
O telefone tocou e ela fez força para levantar-se.
- Deixe que eu atendo - disse Paulo.
- Eu mesma atendo - Isabel consultou o relógio de pulso - porque tenho certeza de que é Magnólia.
Isabel caminhou lentamente até o corredor e sentou--se na poltroninha.
Atendeu:
- Alô.
- Isabel! Preciso de você.
- O que foi, querida?
- Acho que vai nascer.
- Magnólia, está sentindo as contracções?
- Não.
- Está com dores?
- Não.
- Pelos meus cálculos, ainda não chegou aos nove meses.
- Ainda não.
- Por que acha que vai parir?
- Tive um sonho estranho.
Um homem ameaçou levar meu filho.
- De novo esse sonho?
- Sim.
- Você rezou?
Magnólia demorou a responder.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:57 pm

- A ligação está ruim.
Fale mais alto.
Isabel sabia que, quando Magnólia falava dessa maneira, era porque não queria, de forma alguma, dar continuidade à conversa.
- Como estão Roseli e Lena?
- Estão bem.
Tratam-me como uma rainha - Magnólia baixou um pouco o tom da voz.
A menina é estranha.
Tem me falado cada coisa!
Isabel sorriu.
- Pelo que me relata em nossas conversas, Lena tem mediunidade.
Se estudar e souber usar esse dom a favor dela e dos que estão ao seu redor, a vida de todos será bem melhor.
- Não gosto desses assuntos.
- Talvez tenha chegado o momento de ter contacto com a espiritualidade.
- Não me agrada, por ora.
- Bom, você é quem sabe...
E continuaram por mais vinte minutos.
Era assim quase todos os dias.
Magnólia esperava terminar o almoço, descansava na varanda e na sequência ligava para Isabel.
Conversavam sobre os bebés, sobre os desejos, os medos, as inseguranças, sobre tudo.
Magnólia estava um pouco menos negativa.
Parecia estar em uma fase mais serena e positiva.
O sonho nada mais era que a personificação da negatividade que Magnólia exalava.
Não havia espírito, não havia nada.
Magnólia pousou o fone no gancho e caminhou até a varanda.
Lena estava sentada, folheando uma revista de decoração.
Tentou voltar, mas Lena a viu e a chamou.
Ela evitava ter contacto com Lena, porém a menina, depois de ajudar a mãe nos afazeres domésticos, sentava-se ao lado de Magnólia na varanda e pedia para falar da cidade grande.
- A cidade grande - suspirou Lena.
Eu gosto de lugares agitados.
- Como pode gostar de algo que não conhece?
Pelo que sei, nunca saiu daqui.
- Eu sonho e vou a lugares bem movimentados.
- Como assim?
- Cidades daqui deste mundo e de outros mundos.
Magnólia sentiu um arrepio.
- Como cidades de outros mundos, Lena?
Você quer dizer outros países, não?
A menina movimentou a cabeça numa negativa.
- Nã-não. Eu conheço outros mundos - apontou para o céu - que não estão ao alcance dos olhos dos homens.
- Vou pedir para sua mãe proibi-la de ver televisão.
Lena sacudiu os ombros.
- Tudo o que aprendo não vem da televisão.
Por isso, pode me proibir.
Eu não ligo.
Magnólia abriu a boca para falar, porém Lena a cortou:
- Seu filho tem um bom coração.
- Como sabe que vou ter um menino? - indagou Magnólia, olhos assustados.
- Porque os amigos invisíveis me disseram.
A menina falou e a puxou pela mão.
- O que foi, Lena?
- Venha comigo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:57 pm

Voltaram para a sala.
Roseli estava à máquina de costura.
Magnólia foi até ela, puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado.
Enquanto isso, Lena pegava um disco e o colocava no aparelho de som.
- Você costura muito bem, Roseli.
- Gosto de consertar roupas.
Às vezes, seu Fabiano envia tecidos e eu faço vestidos para mim e para Lena.
É uma boa distracção.
- Sente-se muito sozinha neste casarão, afastada do mundo?
- Não - Roseli sorriu.
Eu me sinto bem comigo mesma.
Aqui conheci meu marido, casamos e vivemos uma linda história.
Tive a felicidade de ter tido Lena.
Aprendi que a felicidade é feita de pequenas coisas.
- Seu marido morreu cedo.
- Era a hora de José.
Temos um tempo certo para ficar neste planeta.
Alguns programam ficar mais tempo, outros menos.
- Não acredito que tenhamos tempo certo.
- Claro que temos! - tornou Roseli, convicta.
A música invadiu o ambiente, e Lena começou a cantarolar.
Roseli balançou a cabeça.
- Essa menina vai furar o disco.
Nunca vi gostar tanto de uma música!
- Conheço essa canção.
Mas em inglês.
Por acaso estou escutando-a em espanhol? - perguntou Magnólia, curiosa.
- Sim - respondeu Lena.
Eu ouço essa canção desde pequena.
Pela televisão soube que havia uma gravação em espanhol.
Pedi para seu Fabiano e ele mandou vir do estrangeiro.
- E por que gosta tanto dessa música?
- Ah! - Lena sacudiu os ombros.
Porque ela fala de estrelas, de liberdade.
E o título seria o nome ideal para seu filho.
- Como assim? - Magnólia perguntou sem entender.
- Seu bebé - apontou para o ventre dela - vai se chamar Fernando2.
Roseli meneou a cabeça.
- Você não toma jeito, minha filha.
Desculpe-me Magnólia, mas essa menina não pode escutar um som em espanhol ou o estalar de um par de castanholas.
Fica maluca.
- Fico não - rebateu Lena.
Eu já vivi na Espanha.
Um dia vou para lá e mato as saudades.
Depois volto e me caso.
- Lá vem você de novo com...
Enquanto Roseli e Lena discutiam, Magnólia recostou-se na cadeira e esboçou largo sorriso.
- É. Lena tem razão.
Meu filho vai se chamar Fernando - revelou, enquanto alisava suave e delicadamente o ventre avolumado.

2 Fernando é um single do grupo pop sueco ABBA, lançado em 1976.
O disco vendeu mais de 10 milhões de cópias no mundo.
A versão em espanhol, cantarolada por Lena, fora gravada pelo grupo em 1980.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:58 pm

- 7 -

Magnólia deu à luz um lindo garoto, forte e saudável.
Fernando veio ao mundo numa tarde de março.
Roseli fizera o parto, e o nascimento ocorrera de forma tranquila.
- Seu Fabiano ligou e avisou que está mandando um médico.
- Para quê, Roseli?
Meu filho nasceu forte e saudável.
Não precisa de um médico, por agora - argumentou Magnólia, enquanto o pequeno sugava o peito dela, faminto.
- Coisas do seu Fabiano.
Toda criança precisa de certos cuidados, recomendações.
Você é mãe de primeira viagem.
Logo vai se animar e terá outros.
- Não. Eu não quero mais ter filhos.
Aliás, nunca sonhei ter um.
Roseli levou a mão à boca.
- Nunca sonhou ter um bebé?
- Não - respondeu de forma lacónica.
- Nossa! Toda mulher sonha com isso.
Uma mulher só se realiza plenamente depois de parir.
Magnólia sentiu o rosto rubro.
Nesses meses todos de convívio não se sentira à vontade para contar a Roseli sobre sua orientação sexual.
Morria de vergonha.
"E, de mais a mais, com um filho a tiracolo fica mais fácil camuflar o que sinto", pensou.
Mas respondeu:
- Eu acho muita responsabilidade trazer um filho ao mundo.
Eu terei de criá-lo sozinha, num ambiente violento e cheio de guerras, misérias.
Este mundo não é um bom lugar para viver.
- Eu penso o contrário - reflectiu Roseli.
Sinto que viemos ao mundo para crescer, nos tornar pessoas melhores.
É o planeta das experiências!
- A troco de quê?
- A fim de acabarmos com as ilusões e percebermos que só o bem é real.
As guerras, misérias, fomes e lutas são reflexos de mentes ainda perturbadas, perdidas nos mares da ilusão, da cobiça.
- Como posso acreditar nisso?
Diga-me: como uma criança, tão pura e tão indefesa, pode sofrer tanto?
- Sempre questionei isso - declarou Roseli.
E tive outros questionamentos quando José morreu.
Eu não achava justo.
- E não é - rebateu Magnólia.
A morte é uma das coisas mais terríveis que existem.
Perdi meus pais cedo e, com a morte deles, perdi minha fé.
A vida ficou sem graça, tornou-se pesada, difícil.
Fui separada de minha única irmã e fui viver com um tio que sempre me privou de tudo.
- Seu Fabiano é um homem muito bom.
- Para você, Roseli.
Para os outros.
Comigo, ele sempre foi rígido.
Sabia que até hoje eu tenho de beijar as costas da mão dele antes de dormir?
Roseli riu.
- É verdade.
Tenho de pedir bênção.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:58 pm

- É homem das antigas.
- Tio Fabiano mora num casarão, mas preferiu me jogar num cubículo, separado da casa.
- Seu Fabiano é homem que gosta de silêncio.
Creio que seria impossível ele conviver com um bebé.
E esse danado - apontou para Fernando - tem jeito de que vai ser arteiro.
Magnólia riu e em seguida fechou o cenho.
- Vai saber o que a vida nos reserva!
Eu e meu filho, sozinhos neste mundaréu de gente.
- Eu e Lena também estamos sozinhas no mundo, mas somos muito unidas.
Quem sabe você e seu filho não serão unidos também?
- Não sei...
Magnólia hesitou por instantes.
Em sua mente negativa acreditava que, no dia que Fernando descobrisse sobre as tendências da mãe, iria embora e a renegaria, louco de vergonha.
- Nunca quis perguntar para não ser invasiva, mas por onde anda o pai da criança?
- Sumiu no mundo.
- Tenciona procurá-lo? - perguntou Roseli, enquanto pegava Fernando no colo para fazê-lo arrotar.
Magnólia mordeu levemente os lábios e estava ensaiando uma resposta mirabolante quando Lena chegou.
- Veja, Magnólia.
Trouxe um punhado de flores para decorar seu quarto.
Ela havia apanhado flores das mais variadas cores.
Passou uma fita colorida para juntar os caules e correu até o quarto de Magnólia.
- Sua filha não existe!
- É. Lena é um tesouro.
Foi um presente dos céus.
O bebé arrotou e Roseli continuou embalando-o no colo, cantando músicas de ninar.
Magnólia levantou-se e, quando passava pelo corredor, o telefone tocou.
Ela atendeu.
Deu um grito de felicidade:
- Nasceram? Duas meninas?
Oh, Paulo, como estou feliz!
Isabel deu à luz duas meninas.
Elas eram idênticas, salvo uma pinta pequena de cor marrom escura no bumbum de Paloma.
Era uma pinta de alguns milímetros.
- Se não fosse esta pinta, não saberia diferenciá-las - considerou Paulo.
- Tenho de dar minha mão à palmatória, meu amor - concordou Isabel.
Elas são idênticas, mas Paloma é mais agitada.
Juliana é a mais faminta.
Duas enfermeiras entraram no quarto com as meninas.
- Aqui está Paloma - disse uma.
- E aqui está Juliana - acrescentou a outra.
- Meus tesouros! - sorriu Isabel, emocionada.
Paulo aproximou-se e beijou as recém-nascidas e a esposa.
Juliana abriu o berreiro.
- Está com fome - tornou a enfermeira, simpática.
- Daqui a meia hora voltaremos para buscá-las.
As enfermeiras saíram e Isabel comentou:
- Não disse que Juliana é a mais faminta?
Paloma, mais agitada, me dá a impressão de que vai nos dar trabalho.
- Ora, imagine! - contrapôs Paulo.
São bebés, vão crescer juntas, sob nossas asas.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:58 pm

- Criança não é robô.
Elas têm vontade, desejos.
Não se esqueça de que são dois espíritos reencarnados.
Só o tempo nos mostrará a verdadeira essência de cada uma.
- Tem razão, meu amor.
Mas somos tão apaixonados, nosso lar é tão impregnado de amor e harmonia, será difícil elas se desvirtuarem do caminho do bem.
- Pode ser.
Isabel sentiu um pequeno arrepio percorrer-lhe a espinha.
Não era medo ou sensação de algo ruim.
Era uma sensação esquisita, de impotência, como se, em algum momento lá na frente, talvez seu amor não fosse suficiente para proteger suas filhas dos tombos que levariam na vida.
Especialmente Paloma.
Ela procurou não dar atenção à sensação e mudou o assunto:
- Quando Magnólia retorna?
- Parece que semana que vem.
Seu Fabiano foi buscá-la e me falou que preparou a edicula especialmente para Magnólia e o bebé.
- Quem diria!
Magnólia com um filho! - exclamou Isabel.
- Nossas meninas vão ter um quase-irmão - observou Paulo.
- Fernando vai fazer muito bem às nossas meninas.
Continuaram conversando e divagando.
Isabel e Paulo fizeram planos e mais planos para as filhas.
Imaginaram--nas jovens, iguaizinhas, tentando confundi-los.
Riram à beça e, conforme o prometido, as enfermeiras retornaram ao quarto e levaram as meninas para o berçário.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:58 pm

- 8 -

Fabiano chegou a Populina no comecinho da noite.
José já sabia como abrir o portão.
Estacionou o carro, saiu, deu um tranco na fechadura e empurrou as duas portinholas.
Avançou com o carro e, ao fechar o portão, deparou-se com Lena.
- Oi, José.
Como tem passado?
Ele sorriu e respondeu:
- Vou bem, minha pequena.
Não está escuro para ficar aqui?
- Sabia que chegariam a qualquer momento.
Mamãe está aflita porque não sabe se seu Fabiano vai gostar do jantar.
- Vamos logo - determinou Fabiano, enfezado.
Lena meteu a cabeça para dentro da janela do carro e sorriu.
- Como vai, seu Fabiano?
- Vou bem - ele respondeu de maneira séria.
Lena tinha um jeito doce e meigo de lidar com as pessoas.
Era cativante e de uma simpatia sem igual.
Ela saltou o banco e beijou Fabiano na bochecha.
Depois sentou-se ao lado dele.
- Eu gosto do senhor.
Tem um bom coração.
- Ora, menina.
- Sempre me manda presentes.
- Mal me conhece.
- Conheço, sim.
Do passado.
Fabiano riu.
José entrou no carro e acelerou.
No trajecto até a casa-grande, ela tagarelava:
- Estivemos juntos em outra vida.
Quer dizer, fomos parentes.
O senhor não se lembra?
- Não - Fabiano sorriu e entrou na conversa.
O que fomos? Onde vivemos?
- Fui sua governanta.
E sua esposa me adorava.
Vivíamos em Madrid.
- Em Madrid! - ele exclamou, fingindo espanto.
E era casado? Com quem?
- Era casado com uma moça linda.
Pena que ela retornou ao mundo e já partiu para o céu.
Tão cedo.
- Quer dizer que minha mulher na outra vida já nasceu e morreu?
Nem tive a chance de conhecê-la ou de me casar com ela de novo?
Fabiano estava levando na brincadeira.
Estava cansado, fizera uma viagem longa, mas gostava de Roseli, do marido dela, que já morrera, e tinha carinho especial por Lena.
Sabia que a menina gostava dos estudos, de ouvir música e de desenhar.
Fazia questão que ela frequentasse o colégio, não muito longe da fazenda.
Ele vislumbrava levá-la à capital para fazer faculdade.
"Pelo menos, ela gosta de estudar.
Pena Magnólia não ter esse gosto", pensou.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:58 pm

Fabiano também percebera o gosto da menina por música e, de vez em quando, pedia a amigos que viajavam ao exterior para trazer discos para ela.
Ele suspirou e Lena indagou:
- Por que vocês não se casaram?
- Porque não sei de quem você está falando.
- Uma moça bonita, cabelos alourados, olhos expressivos, grandes.
De estatura mediana, adorava usar um camafeu aqui - pôs a mão sobre o peito.
Fabiano estremeceu e sentiu forte emoção.
José estacionou o carro.
Roseli e Magnólia o esperavam no degrau de entrada.
- Seja bem-vindo, seu Fabiano - disse Roseli.
- Quanto tempo, tio - tornou Magnólia, ainda inchada, mas com o semblante distendido em largo sorriso.
Fabiano afastou os pensamentos com um gesto de mão, desceu rapidamente e cumprimentou Roseli com um aceno.
Aproximou-se de Magnólia.
Ela beijou-lhe a mão.
- Fez boa viagem?
Está com uma cara!
- Não foi nada, Magnólia.
Ele falou e foi entrando.
Dirigiu-se ao quarto dele, que Roseli havia preparado desde cedo.
Lena saltou do banco, e Roseli a fulminou com os olhos:
- O que disse ao seu Fabiano?
- O que disse o quê, mãe?
Nada de mais.
Roseli indicou o aposento de José e arriscou:
- Não vá me falar que contou a ele sobre a moça que você afirma ver.
- Mais ou menos.
- Ora, Lena - Roseli exasperou-se.
Já falei que seu Fabiano não gosta desse tipo de assunto.
- Mas, mãe - Lena tentava justificar -, a moça me jurou que gosta do seu Fabiano e que tinha sido casada com ele em outra vida.
Roseli fez uma negativa com a cabeça e girou nos calcanhares.
- Magnólia, se eu não tivesse um tiquinho que fosse de conhecimento espiritual, internava essa menina num sanatório!
- Ela fala a verdade - defendeu Magnólia.
- Mas tem de falar com jeito.
Seu Fabiano é muito sensível a esse tipo de assunto.
- Eu não contei toda a verdade - suspirou Lena.
- O que mais você viu hoje, querida? - indagou Magnólia.
- Nada. Só a moça com o camafeu.
É que... que...
- Sem gaguejar - protestou Roseli, enquanto entrava na cozinha.
Lena baixou o tom de voz:
- A moça é sua mãe, que morreu.
Magnólia arregalou os olhos, aturdida.
- Você diz que o espírito de minha mãe esteve aqui hoje?
- Sim. Logo cedo.
Foi ela que me contou do casamento com seu Fabiano, em outra vida.
- Minha mãe foi casada com tio Fabiano?
- Foi o que ela me disse.
Sua mãe era de mentir?
- Não tenho muitas lembranças de minha mãe.
Eu tinha cinco anos quando ela morreu.
- Ela gosta muito de você.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:59 pm

Magnólia sentiu a vista embaciada.
- Eu também a amo.
- E mandou um recado - Lena falou e puxou Magnólia no corredor.
Não conte para minha mãe.
Ela vai ficar brava.
- Está certo.
Qual é o recado?
- Você precisa mudar seu jeito, deixar de ser uma pessoa negativa e com baixa auto-estima.
E disse também que ter raiva dos outros só faz mal a você mesma.
Se não mudar seu jeito, algo ruim poderá lhe acontecer.
Magnólia sentiu um arrepio pelo corpo.
Fez o sinal da cruz.
- Que horror, Lena!
Minha mãe jamais diria isso.
A menina deu de ombros e entrou na casa.
Apanhou o disco do Abba, colocou no aparelho de som e a música alegre logo encheu o ambiente.
Depois, ela foi até o quarto do bebé dar uma espiadinha em Fernando.
O garoto dormia como um anjinho.
Lena sentou-se ao lado do berço e cantarolou a música:
"as estrelas estavam brilhando para você e para mim, pela liberdade, Fernando..."
Magnólia entrou na cozinha, trémula.
- Lena veio com outra história do outro mundo, não?
Roseli falava com naturalidade.
- Foi. Mas não pegue no pé dela.
Por favor.
- Vou ter de benzer essa menina.
Ela está impossível.
O que ela falou desta vez?
- Nada.
- Como nada, Magnólia?
Você parece que viu assombração!
- Antes tivesse visto.
Lena disse que mamãe me mandou um recado.
Fiquei toda arrepiada.
- Ela é uma menina.
Tem sensibilidade, mas é uma menina.
Considere verdade somente metade do que minha filha diz.
O resto é imaginação.
- Será, Roseli?
Lena fala com tanta convicção!
- Bobagem - ela mexeu as panelas no fogão, experimentou o feijão e sorriu.
Sentou-se ao lado de Magnólia.
- Minha filha sempre teve facilidade para perceber a outra dimensão, ou o mundo dos mortos, como costumamos dizer.
Embora de morto como entendemos, esse pessoal do outro lado não tenha nada.
Eles vivem aparecendo e conversando com Lena.
Só me preocupo com a boca dela.
É uma menina e fala sem rodeios.
- Não tem medo de ela ser assim?
- Não. Quer dizer, no começo até tive.
Achava tudo invenção da cabeça de Lena até que ela me disse que José, meu marido, veio nos visitar.
Magnólia fez o sinal da cruz.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:59 pm

- Deus me livre e guarde!
Eu tenho pavor de morto.
- Eu tenho mais medo dos vivos.
Os mortos até podem tentar nos atrapalhar, mas, com uma boa dose de oração e perseverança no caminho do bem, conseguimos nos proteger.
Agora, com os vivos, é mais difícil.
Isso eu aprendi com minha filha.
- Tem razão - respondeu Magnólia, lembrando-se imediatamente de Jonas.
Os vivos são terríveis.
- Você tem ódio no coração.
- Como?
- Isso mesmo - observou Roseli.
Você tem muita raiva guardada no coração.
Magnólia suspirou, irritada.
- Tenho mesmo.
Odeio o pai do meu filho.
- Odiar é muito forte.
- Porque não foi você quem se deitou com ele - Magnólia percebeu que se excedera.
Desculpe-me, você não tem nada com isso.
- Eu sei - Roseli aproximou-se e sorriu:
- É difícil perdoar quem nos fez mal.
- Eu não o perdoo. Jamais.
- Pense, Magnólia.
Não me interessa em que condições conheceu o pai de Fernando, ou como essa criança foi concebida.
Veja que você deu à luz um menino forte, saudável.
Foi uma bênção de Deus.
E o que importa é o amor que vai transmitir ao seu filho.
Ame-o, acima de tudo.
As lágrimas escorriam, insopitáveis.
Magnólia queria dizer que nunca pensara em ser mãe, que era lésbica, que seu projecto de vida era outro.
Mas tudo ficou preso na garganta, feito um nó que nunca poderia ser desatado.
Ela ensaiou dizer alguma coisa, porém sentiu vergonha.
E, quando achou que a vergonha estava indo embora, Fabiano entrou na cozinha.
- Estou com fome.
- O jantar será servido logo, seu Fabiano.
Vou chamar Lena para arrumar a mesa da sala de jantar.
Ele fez um gesto negativo com a mão.
- Não precisa chamar a menina.
Acabei de passar pelo quarto do bebé.
Ela está cantarolando ao lado do berço - Fabiano falou e sentou-se à mesa.
Quero jantar aqui na cozinha.
- Aqui, seu Fabiano?
- Sim, Roseli.
Posso ter o verniz da sofisticação, mas gosto da simplicidade.
Adoro esta cozinha, os azulejos portugueses, os armários antigos e o fogão a lenha.
Passei momentos muito divertidos e agradáveis aqui, quando era pequeno.
- Esta fazenda está na família há muitos anos, não, tio?
- Sim. Faz mais de cem, pelas minhas contas.
Meu avô construiu este casarão.
- E era aqui que passava as férias ao lado de mamãe, não? - inquiriu Magnólia.
Ele pigarreou e fez sim com a cabeça.
Roseli colocou os pratos e serviu o jantar.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 07, 2016 8:59 pm

Chamou Lena, e logo a menina juntou-se ao grupo.
- Estou com fome.
- Menina, espere seu Fabiano jantar.
Depois, farei seu prato.
- Nada disso - protestou Fabiano.
Vamos todos comer juntos.
Quero que chame o José também.
- O motorista, tio? - indagou Magnólia, incrédula.
- Qual é o problema?
- Nenhum, mas comer ao lado de um empregado...
- O que é que tem, Magnólia?
- Em São Paulo o senhor é tão rígido com os empregados!
Nunca o vi sentar-se à mesa com empregado que fosse.
- Você não me conhece.
Mal pára em casa para saber como é o meu dia a dia.
Sempre zanzando para cima e para baixo.
Quem sabe, agora, fique mais em casa e perceba que eu não sou o monstro que imagina.
Ela levou a mão à boca.
- Eu não o considero um monstro.
É que o senhor sempre foi duro comigo.
- Porque você sempre precisou de limites.
Sempre foi meio doidivanas.
Eu só a mantive sob rédea curta.
Magnólia baixou os olhos e apanhou o talher.
Começou a comer em silêncio.
Lena olhou para a porta da cozinha e, logo que José entrou e se sentou, ela disse:
- Seu Fabiano, aquela mulher está aí na porta e lhe manda um beijo.
Fabiano estremeceu.
- Ora, ora - ele olhou para a porta e nada viu.
- Quem será essa mulher misteriosa?
Uma assombração?
Todos na mesa riram.
Lena deu de ombros e continuou a comer.
- Tudo bem o senhor não acreditar em mim.
Acha que eu estou fantasiando, que é tudo criação da minha cabeça, mas não é.
É uma mulher tão linda, tão bem-vestida.
Aquilo aguçou a curiosidade de Fabiano.
- Ela ainda está aí?
- Não. Já foi.
- Hã, sei.
- Mas mandou um recado para o senhor.
- Um recado! - exclamou, fazendo troça.
- Sim. Disse que o senhor tem uma foto dela e no verso está escrito...
Lena levou a mão à cabeça e fechou o cenho, procurando concentrar-se.
- Ah, me lembrei. Está escrito:
"Uma recordação de quem muito o estima".
Fabiano largou o talher sobre a mesa e levantou-se de maneira abrupta.
- Seu Fabiano... - Roseli tentou chamá-lo.
- Vou me deitar - disse sério.
Vamos madrugar.
Quero chegar a São Paulo antes do anoitecer.
Tenham uma boa noite.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:13 pm

Ele falou e foi caminhando lentamente para o seu aposento.
Enquanto Roseli ralhava com a menina, José e Magnólia mantinham o semblante envolto em um grande ponto de interrogação.
Fabiano deixou uma lágrima escapar pelo canto do olho.
- Minha Adelaide.
Você está aqui!
Por favor, deixe--me vê-la.
Ele entrou no quarto, trocou de roupa, vestiu o pijama e deitou-se.
Adelaide, em espírito, estava ao pé da cama.
- Quando ele adormecer, poderei chamá-lo?
- Melhor não - respondeu Tarsila.
Fabiano poderá emocionar-se sobre maneira.
- Queria tanto conversar com ele!
- Aguarde, Adelaide.
Não vai demorar muito para ele regressar ao mundo espiritual.
Vocês terão muito que conversar e terão muito tempo para ficar juntos.
- Eu errei com ele.
- Ninguém erra com ninguém.
Simplesmente escolhemos o que achamos melhor no momento.
Se você pudesse escolher melhor, suas vidas seriam diferentes.
E de nada vale torturar-se.
O que passou, passou.
O melhor a fazer é aquietar seu coração e transmitir boas energias para sua filha.
- Estou muito preocupada com Magnólia.
Não gosto da sombra escura que está grudada em sua aura.
- É criação mental dela.
Magnólia está impregnada de ideias negativas que vêm se acumulando há muitas vidas.
Passou por experiências muito dolorosas.
- E tem dificuldade em perdoar o próximo.
- Porque tem mais dificuldade ainda de perdoar a si mesma.
Quando Magnólia aceitar-se incondicionalmente e sentir amor por si mesma, o perdão vai se tornar algo natural, sem exigir dela grandes sacrifícios.
O maior sacrifício é olhar para dentro de si e arrancar todo sentimento negativo que tente se instalar no coração.
- Eu tento ajudá-la, Tarsila, mas Magnólia nem percebe que estou por perto.
- Continue tentando.
Um dia ela vai perceber as suas vibrações amorosas.
Por agora, dê um beijo em Fabiano.
Precisamos partir.
Adelaide assentiu.
Aproximou-se do perispírito de Fabiano, que estava deitado pouco acima do corpo físico.
Passou delicadamente a mão sobre o rosto dele e o beijou na testa.
- Durma o sono dos justos, querido.
Procure não se torturar pelo que não tivemos.
Tudo está certo na vida.
E, mesmo que tenhamos errado, o nosso amor é puro - ela o beijou na fronte e despediu-se:
- Fique em paz.
Até breve.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:14 pm

- 9 -

Magnólia mudou um pouco o teor de seus pensamentos depois da gravidez.
Mas só um pouco.
Além disso, tornar-se mãe fez com que se sentisse mais feminina.
Abusava das minis-saias, adorava um batom e mantinha os cabelos compridos.
Bem compridos.
Havia emagrecido, estava com aparência melhor.
Ela prendeu os longos cabelos negros e fez um coque.
- Estão casados há um bom tempo, Isabel! - suspirava, meneando a cabeça, enquanto desciam a Ladeira Porto Geral para alcançarem a Rua 25 de Março.
Uma hora cansa.
- De quê? - perguntou Isabel, surpresa, tentando proteger-se da multidão.
- Todo casamento acaba um dia.
O seu não vai escapar.
Isabel movimentou-se com dificuldade.
Estava absorta em seus pensamentos.
Não sabia se comprava a fantasia da Mulher Maravilha ou da Mulher Gato para as filhas.
Sem dar importância aos comentários, disse:
- Amo o Paulo. Isso basta.
- Você é simplista demais.
Precisava arrumar um homem que a sustentasse.
Você ganha até mais do que ele!
- E daí?
Estamos vivendo outros tempos.
- Eu sei, mas...
Isabel a interrompeu:
- Deveria me apoiar, estar do meu lado e vibrar com o meu relacionamento saudável.
Depois que o divórcio foi aprovado, viu quantas amigas nossas já se separaram?
- Claro! Antes do divórcio, nós éramos vistas como párias da sociedade.
Não podem mais meter o dedo no nosso nariz e nos chamar de desquitadas.
- Torço para que nossas amigas encontrem o amor da maneira como eu o encontrei.
Magnólia fechou os olhos e suspirou fundo.
"Será que um dia também saberei o que é amar?", pensou.
E respondeu:
- Não acho justo.
Você tem duas filhas.
Dá muito trabalho.
Deveria estar em casa.
- Jesus amado! Ficar em casa?
Não tenho nada contra quem goste, mas eu não tenho jeito para dona de casa - e, procurando mudar o tom da conversa, comentou:
- Precisamos ver roupinhas novas para o Fernando.
- Por quê? Acaso tem alguma restrição contra meu filho?
Só porque ele é filho de um bandido?
- O que é isso, Magnólia?
Amo seu filho. É meu afilhado.
- Mas vai ser sempre o filho de um marginal.
- Não importa como Fernando foi gerado, nem quem seja o pai. Importa que é uma criança adorável e está cercado de amor e carinho.
Paulo está cumprindo muito bem o papel de pai, na medida do possível.
- Mas logo terá só olhos para as meninas e Fernando vai ficar no escanteio.
Igual a mim, atirada num canto pelo meu tio.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:14 pm

- Não diga isso.
Seu Fabiano sempre foi tão generoso!
Antes de morrer passou tudo para o seu nome.
Hoje você leva uma boa vida.
Não seja mal-agradecida.
- Ele não fez mais que a obrigação - Magnólia deu de ombros.
Sempre vivi como empregada naquela casa.
E, de mais a mais, tio Fabiano passou quase tudo para o nome de Fernando.
Eu não tenho praticamente nada.
Não posso vender nada.
- Seu tio foi um sábio.
- Ainda o defende!
Que bela amiga!
- E vender para quê?
- Para pagar as contas, ora.
- Você é saudável.
Arrume um emprego.
- O dinheiro dos alugueis ajuda a me manter.
A mim e a meu filho.
E a pagar o salário da Custódia.
Uma fortuna, diga-se de passagem.
- Uma casa grande como aquela, um filho pequeno e só uma empregada para dar conta de tudo?
Devia dar graças a Deus de ter encontrado Custódia.
- Sei, sei...
Magnólia ia continuar a reclamar, mas Isabel não prestou atenção.
Deu um gritinho de prazer ao ver uma vitrina cheia de manequins mirins vestidos com fantasias de super-heróis.
As roupinhas eram encantadoras.
Isabel entrou na loja e foi escolhendo as peças.
Magnólia ia atrás, agora em silêncio, remoendo o pensamento.
"Por que ninguém tem olhos para mim?
Por que ninguém me dá uma chance?", pensava.
Terminadas as compras, decidiram pegar um táxi ali nas imediações. Isabel estava cheia de sacolas e cansada, para subir a ladeira e pegar o metro.
Magnólia fez sinal e entraram no veículo.
Deram a direcção da casa de Isabel e foram tagarelando até chegarem ao endereço.
- Sinto falta de uma sessão de cinema, grudadinha no Paulo.
- Por que não vão?
- As meninas ficam na creche durante o dia.
Eu e Paulo trabalhamos.
À noite queremos ficar com elas.
- Posso tomar conta delas por uma noite, se quiser.
- Você? Reclama de que Fernando lhe dá trabalho.
Imagine cuidar de duas meninas agitadas!
Magnólia estufou o peito.
- Posso, sim.
- Isso seria tão bom!
Queria ir ao Cine Belas Artes assistir a Gente como a gente.
Magnólia fez uma careta.
- Ir ao cinema para chorar?
Já basta a vida.
Isabel fez um muxoxo.
O táxi encostou, e Isabel pagou a motorista, enquanto Magnólia arrastava as sacolas para fora do carro.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:14 pm

- Fique com o troco - tornou Isabel com um sorriso, enquanto desciam do carro.
A motorista agradeceu e acelerou.
Isabel lançou olhar piedoso para Magnólia.
- Você aí cheia de sacolas, e eu aqui, sem nada.
- Quem está cansada é você - respondeu, ofegante.
- Pegue a chave na bolsa, por favor.
Isabel olhou para os lados e levou a mão à cabeça.
- Como sou esquecida!
Deixei a bolsa no banco de trás do táxi.
E agora?
- Anotou a placa?
- Não.
- Vamos para a delegacia.
- Imagine, Magnólia.
Eu tinha só a chave de casa, uns trocados e o documento de identidade na bolsa.
- Mesmo assim.
Vamos ao distrito fazer boletim de ocorrência.
De repente, essa motorista pode usar seu documento de identidade, vender armas para bandidos, querer sequestrar suas filhas, sei lá...
- De onde tirou uma ideia dessas?
- Não sei. Temos de ter cuidado com todo mundo.
Notou como nas imediações da 25 de Março havia um monte de marginais?
- Um monte de crianças sem eira nem beira, perdidas.
Precisam de uma mão amiga e de orientação. Só isso.
- Sei não - Magnólia respondeu, pensando, obviamente, em Jonas.
- Não reclame.
- As pessoas são capazes de actos terríveis.
- Cada um é responsável pelos seus actos. Em vez de julgar, por que não enviamos vibrações de bem-estar para quem se envolveu em actos cruéis?
- Vibrações... sei.
Os jornais estão cheios de casos de assassinatos, barbaridades de todos os tipos.
Passarei a colocar as mãos sobre os jornais para transmitir essas vibrações - respondeu em tom jocoso.
- Deixe de ler jornal, oras.
Ou leia matérias que não enalteçam o negativismo do mundo.
- Não fica com raiva?
- Eu?! - exclamou Isabel.
De forma alguma.
E, cá entre nós, não gosto dessa maneira negativa que ainda tem de encarar o mundo.
Pensei que a gravidez tivesse mudado você.
- Em alguns sentidos mudou.
Mas em outros, piorou.
Eu tenho um filho para criar e proteger deste mundo cruel.
O mundo é péssimo, Isabel.
Vivemos uma onda de violência sem precedentes.
É tanto assalto, tanto mendigo na rua, tantos trombadinhas e marginais à solta.
Temos até de dar graças a Deus por não termos sido assaltadas no centro da cidade.
- Quem pensa no mal atrai o mal.
Simples assim.
Magnólia não respondeu.
Isabel prosseguiu:
- Vou desconsiderar o comentário negativo.
Precisamos ir até um chaveiro.
Tem um lá perto da padaria.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:14 pm

- Eu vou.
- Não, Magnólia.
Você fica com as sacolas.
Eu vou até o chaveiro.
Você fica de olho nas sacolas.
Vai que aparece um trombadinha louco para se fantasiar de Mulher Maravilha.
- Vai tripudiando, vai.
Quero ver o dia que a tragédia se abater sobre sua vida.
Ainda bem que as meninas estão na creche.
Imagine as pobrezinhas trancafiadas dentro de casa.
Que horror!
Isabel girou os olhos e suspirou.
Magnólia iria protestar; contudo, quando foi responder, Isabel havia atravessado a rua e já tinha dobrado a esquina.
- Que mulher marrenta! - exclamou.
Nesse instante, o táxi buzinou e estacionou na beira da calçada.
A motorista abriu a porta, saiu e deu a volta.
Parou na ponta da guia, ficando alguns centímetros abaixo de Magnólia.
Não era moça feia nem bonita.
Tinha traços marcantes, fisionomia séria e cabelos curtos.
Entregou a bolsa para Magnólia e falou, numa voz quase infantil que nada tinha a ver com seu jeito, digamos, valentão:
- A sua amiga esqueceu a bolsa no banco de trás do carro.
Percebi quando estava entrando na Radial.
Magnólia engoliu em seco.
Sentiu-se envergonhada por ter despejado tantos impropérios a Isabel.
Ela deixou as sacolas no chão e apanhou a bolsa.
- Obrigada.
- Pode abrir e conferir.
- Imagina. Con... confio em você.
- Vocês duas são parentes?
- Por quê? - indagou Magnólia, desconfiada.
A moça percebeu e riu.
Um lindo sorriso.
- Não precisa ser tão desconfiada.
Você disse que confia em mim, mas está com o pé atrás.
Eu não vou raptá-las.
- Fui pega de surpresa.
- Porque voltei e devolvi a bolsa?
- Também. E porque nem nos conhecemos.
- Só quero ser agradável - rebateu a moça.
- Desculpe-me - tornou Magnólia, envergonhada.
Não somos parentes.
Somos amigas de longa data.
- Prazer. Meu nome é Gina.
- Magnólia - apresentou-se e estendeu a mão.
- Como a flor. Linda e perfumada!
Magnólia sentiu o rosto arder.
Mordiscou os lábios.
- Obrigada, mais uma vez.
É sempre... directa?
- Sou, só quando estou interessada.
- Assim fico sem graça.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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