O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:15 pm

- Não é para ficar - Gina tirou um cartão do bolso da camisa.
Me liga. Eu trabalho até às oito da noite, depois estou de folga.
Magnólia ia responder que tinha filho, que não era o que a outra estava pensando, mas sentiu vergonha e baixou os olhos.
Gina prosseguiu:
- A gente podia ir jantar, depois dançar...
Conhece a Moustache?
- Não.
- Fica atrás do cemitério da Consolação.
Magnólia fez o sinal da cruz.
- Deus me livre!
E, além do mais, não gosto de boate.
Sempre dá confusão.
- Eu ia convidá-la para ir ao cinema, mas não pude deixar de escutar você e sua amiga conversando.
Parece que você não curte uma salinha escura.
- Gosto. Depende do filme.
- Deixemos o cinema de lado.
Podemos ir ao Bexiga.
Tem uns cafés que tocam chorinho e mpb.
Que tal?
- Po... pode ser.
- Então fica com o cartão, gata.
Me liga quando quiser.
Moro sozinha e pode deixar quantos recados quiser na secretária electrónica.
Gina deu uma piscada e abriu outro sorriso encantador.
Entrou no carro, deu partida e logo sumiu na esquina.
Magnólia não movia um músculo.
"Nunca dei trela para mulher alguma", pensou.
"Preciso me preservar para meu filho e..."
O pensamento dissipou-se com a chegada de Isabel com o chaveiro.
- Minha bolsa! - exclamou, agradavelmente surpresa.
- É - tornou Magnólia, sem graça.
A taxista trouxe a bolsa.
Nem abri para ver se falta algo.
- Está vendo? - indagou Isabel.
E você aí, pensando só coisa negativa - revidou, enquanto olhava o interior da bolsa.
Não falta nada. Tudo em ordem.
Isabel deu uma caixinha para o chaveiro, dispensou-o do serviço e entraram.
Ela notou que Magnólia estava inquieta.
- O que foi?
- Nada. Por quê? - perguntou irritadiça.
Isabel riu.
- Eu a conheço há duzentos anos!
Sei que algo a perturba.
Como é sempre fechada em copas, não vou insistir.
Quando quiser, sinta-se à vontade para falar.
- Não tenho nada para falar - disparou Magnólia, enquanto entrava pelo corredor arrastando as sacolas de compras, o cenho franzido e articulando palavras incompreensíveis.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:15 pm

- 10 -

A noite estava linda e estrelada.
Magnólia estava adorando o passeio.
Gina, finalmente, surgia em sua vida num momento em que ela já estava cansada de sonhar com o impossível: viver uma história de amor.
"Ela serve para ser amiga.
Uma verdadeira irmã, isso sim", pensou, após olhar para Gina com mais cautela.
Magnólia nunca dera a si oportunidade para sair com outra garota.
Já havia tentado sair com rapazes, entretanto, não sentia atracção pelo sexo oposto.
Sentia-se bem ao lado de outra mulher.
E, depois da confusão e do trauma com Jonas, tinha certeza de que não mais se envolveria com homens.
Descobriu gosto pelo mesmo sexo aos onze anos de idade, quando esbarrou em uma colega enquanto se arrumava no vestiário do colégio.
Ela tinha acabado de virar mocinha.
Seus pelos eriçaram e ela sentiu irresistível atracção pela colega.
E, embora vivesse em uma época de quebra de tabus e conceitos, Magnólia tinha sido criada nos moldes antigos, calcados em valores distorcidos e regados com muito preconceito.
Preconceito contra tudo e todos.
Os pais, um botânico e uma professora primária, morreram quando ela era ainda criança.
A irmã dela, Begónia, fora viver com uma tia em Belo Horizonte.
Tio Fabiano criara Magnólia de maneira rígida e severa.
A menina tinha pavor de que o tio, de alguma forma, descobrisse suas tendências.
Tinha pavor de algum dia ser chamada de fanchona, bolacha ou sapatão.
Depois do nefasto envolvimento com Jonas e na sequência ao nascimento de Fernando, Magnólia procurou novas maneiras de parecer feminina, abusando dos decotes, do batom e da maquilhagem.
- Não posso sentir isso.
É errado - repetia dia após dia, como um mantra.
Tenho um filho.
Fernando nunca poderá saber o que sinto.
Magnólia nutrira durante muitos anos esse amor platónico por Isabel e cobriu o coração com um véu de insensibilidade, jamais se permitindo conhecer outra mulher.
Gina, mesmo com aspecto masculinizado, cativara-a sobremaneira.
Pela primeira vez em sua vida, Magnólia começava a vislumbrar uma real possibilidade de relacionamento.
Os olhares de Gina eram profundos e amorosos.
Estava difícil de resistir aos seus encantos.
O jantar fora numa cantina ali perto e depois caminharam até um barzinho a duas quadras.
O local estava apinhado de gente.
Havia praticamente só mulheres ali, com excepção de meia dúzia de gatos pingados.
Todos ali queriam se encantar e se divertir com a apresentação de Ângela Ro Ro.
Estavam no intervalo quando Gina perguntou:
- Gostou de ter vindo?
- Estou adorando! - exclamou Magnólia.
Eu conheço praticamente todas as músicas que ela compõe e todas que canta.
- Qual é a sua preferida?
- Amor, meu grande amor.
- Também me amarro nessa música.
Ainda toca nas rádios.
É do primeiro disco dela.
- Não importa - disse Magnólia, enquanto apanhava seu suco e sorvia o líquido com o canudinho.
Música não tem idade.
- Você se faz de forte.
No fundo, é sensível.
- Um pouco.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:15 pm

Gina aproximou-se e deu-lhe um selinho, um beijo inocente.
Magnólia afastou-se e, pega de surpresa, derrubou o copo com suco.
Levantou-se imediatamente.
- Desculpe-me.
Sou desastrada.
Gina apanhou um guardanapo e jogou-o sobre a mesa.
Em seguida, pediu outro ao garção e entregou-o a Magnólia.
- Caiu um pouco na sua calça - apontou.
Magnólia pegou o pano e passou sobre o jeans.
- Não foi nada.
Suco de laranja não mancha.
Se fosse de uva...
- O que você tem?
- Nada.
- Como nada?
Você não gostou do meu beijo.
- Não. Nada disso.
É que estamos num local público e...
- Num local cheio de mulheres que sentem o mesmo que a gente.
- Quem disse que eu sinto o mesmo que elas?
Gina virou a cabeça para os lados.
- Está bem.
Não está mais aqui quem falou.
Aqui ninguém se mete com a gente.
Não precisa ficar com medo.
Magnólia fez sim com a cabeça.
Gina pediu outro suco e o show continuou.
Depois do bis e quando o barzinho estava com bem menos gente, Gina indagou:
- Você gosta da sua amiga, né?
Magnólia fez outra pergunta para arrumar tempo de pensar e responder:
- Como?
- Você gosta da sua amiga, a que esqueceu a bolsa no táxi.
- Gosto. Somos amigas desde a infância.
Gina riu.
- Não é dessa maneira de gostar que falo.
Você nutre uma paixão por ela.
Estou enganada?
- Imagine! Isabel é casada.
Somos amigas desde sempre e... - Magnólia parou de falar.
Tinha medo de falar sobre o filho.
O que Gina iria pensar dela?
- E você nutre uma paixão platónica por ela - observou Gina.
Já vi esse filme. Que pena!
- Como, que pena? - Magnólia estufou o peito e encarou Gina de maneira desafiadora:
- E daí que gosto da Isabel?
- Daí que você sofre por um amor não correspondido.
Está na cara que sua amiga ama o marido.
Você não tem lugar na cama dela.
Magnólia ofendeu-se:
- Como se atreve a falar assim?
Olha o respeito!
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:15 pm

- Desculpe ser directa e parecer grossa.
É que gostei muito de você, Magnólia.
Nós, lésbicas, somos muito solitárias, sozinhas.
Geralmente não temos a compreensão nem o apoio da família.
Somos execradas pela sociedade.
Temos de viver em um mundo de mentiras.
Somos obrigadas a representar papéis.
- Eu tenho medo...
- Eu também tenho.
E muitas outras aqui também têm - apontou o dedo ao redor.
- Mas você me beijou.
Conhece um monte de gente.
Cumprimentou aquela fulana ali - inclinou o queixo para uma mesa mais à frente.
- Está com ciúmes?
Magnólia enrubesceu.
Agradeceu intimamente a chegada do garção com novo copo de suco.
Abaixou a cabeça e mordiscou o canudinho.
- Estou brincando com você - contrapôs Gina.
Só para descontrair.
- Eu entendo...
- Isso não quer dizer nada.
Eu conheço muita gente porque saí de casa com dezassete anos.
Caí no mundo.
Fui trabalhar numa tinturaria e o chinês me sacou.
- É?
Gina riu.
- O chinês era esperto.
Viu que eu era diferente, mais moleca, mais solta na vida.
Ele me pagou auto-escola, me deu a perua para pegar e entregar as roupas.
Aprendi a dirigir e, depois de dois anos, comprei meu carro.
Uma amiga me ajudou e agora tenho o táxi.
Não ganho milhões, mas, por conta da desvalorização na área do Minhocão, consegui comprar um quarto e sala na Amaral Gurgel.
- E vive sozinha.
- Não.
Magnólia desconfiou:
- Ué! Quando me deu seu cartão, falou que morava sozinha.
- Foi.
- Não vai me dizer que tem alguém!
- Qual nada!
Acha que estaria aqui com você se estivesse comprometida?
- Não sei.
As pessoas gostam de mentir, de enganar.
- Muitas pessoas não gostam de mentir.
Eu, pelo menos, estou aqui sendo sincera.
Não estou comprometida com ninguém.
- Entretanto, foi enfática ao me dizer que não vive sozinha.
Gina riu alto.
Sorveu a cerveja com gosto e estalou a língua no céu da boca.
- Você é sempre tão negativa assim?
- Não entendi.
- Sempre vê tudo pelo lado negativo, com olhos maliciosos?
Por que tanta desconfiança?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:16 pm

- Nasci assim. É o meu jeito.
- Que poderá lhe trazer dissabores, caso não mude a forma de encarar a vida.
Mas - Gina fez um gesto vago com a mão - não vou agora começar a discutir com você.
Só para esclarecer, quem mora comigo é minha avó.
- Avó? Sério?
- Sim. Ela está bem velhinha.
Nem sabe ao certo quem eu sou.
Ela morava com um tio meu.
A mulher dele se cansou da minha avó e daí se lembraram da neta ovelha negra.
Não sei como conseguiram meu endereço.
Um dia, ao chegar à portaria, lá estava a velhinha, encolhida numa cadeira, agarrada a uma bolsa puída e algumas roupas em uma sacola de plástico.
Magnólia comoveu-se e indignou-se.
Gina prosseguiu:
- Cuido da minha avó com carinho.
Estou fazendo a minha parte.
- Você teve uma vida dura.
- Nem dura nem mole - rebateu Gina.
Tive a vida que tinha de ter.
Estou com vinte e cinco anos, e não quero mais viver sozinha.
Minha avó, pelo que sinto, não vai durar muito.
Eu olho para a frente. Sempre.
E sabe o que quero?
- O quê?
- Quero uma companheira, uma mulher que me ame e me valorize.
Porque também vou amá-la e valorizá-la.
A admiração e o respeito são ingredientes indispensáveis para uma boa relação a dois.
Magnólia sensibilizou-se.
- Você tem contacto com sua família?
- Não mais.
Dois anos atrás eu procurei meus pais e contei sobre minha vida.
Falei abertamente que sou lésbica.
Expliquei o motivo de ter saído de casa aos dezassete anos e que, nos últimos anos, conseguira levar uma vida digna.
- E eles?
- Tiveram um treco.
Meus pais ficaram mudos e nada comentaram a princípio.
Meu pai, depois que se recuperou do susto, disse que eu estava morta para eles.
Minha mãe, na sequência, me expulsou da casa.
Xingou-me de tudo quanto foi palavrão.
E olha que a minha avó, dona Élida, é mãe da minha mãe.
- Se eu fosse você, largaria sua avó na porta da casa dos seus pais.
Eles têm obrigação de cuidar dela.
- A minha avó não tem nada a ver com essa decisão.
Cada um que cuide de sua consciência.
Ninguém tem obrigação de nada na vida.
As pessoas agem e vão ter de responder por isso.
Mais nada.
Quem nega ajuda também fica sem ajuda quando precisa.
- Você tem coragem - disse Magnólia, de maneira sincera.
- Se eu vivo assim, é porque meu espírito precisa exteriorizar toda coragem escondida e reprimida, talvez por séculos.
Sou filha de Deus.
E sei que Ele - apontou para o alto - me ama.
Eu sou feliz.
E não deixo o preconceito me colocar lá embaixo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:16 pm

Magnólia abaixou a cabeça, envergonhada.
- O que foi? - interrogou Gina.
Falei o que não devia?
- Não. É que, para não ser motivo de chacota dos outros, acabei me envolvendo com um rapaz barra-pesada.
- Ficaram juntos muito tempo?
- Alguns meses.
- Sente algo por ele?
- Não! - respondeu Magnólia, convicta.
Nunca senti nada por Jonas, ou por outro homem.
Na verdade, eu o odeio.
Odeio com toda a minha força.
- Para que tanto ódio, garota?
Esse homem lhe fez algum mal?
Era o momento de falar sobre Fernando.
Contudo, Magnólia emudeceu.
Em sua mente vinham cenas de Gina levantando-se da mesa, indignada em saber que transara com Jonas e tivera um filho.
Ela respirou fundo e explicou:
- Jonas é um marginal.
Nem sei como pude me envolver com um homem tão sem escrúpulos.
Eu não merecia.
- Você deu bola para ele?
- Sim.
- Usou do seu livre-arbítrio.
Fez uma escolha.
- Uma má escolha.
Aquilo não é gente.
- Ele não sentia nada por você?
Magnólia mentiu.
- Não.
- Menos pior.
É desconcertante saber que alguém chora por nós.
- Jonas é um animal.
- Atraímos pessoas e situações em nossa vida.
Somos responsáveis por tudo o que nos acontece.
- Não enxergo a vida dessa forma.
Fomos jogadas no mundo.
Eu não pedi para nascer.
- Não? Tem certeza?
- Claro!
Jamais iria querer nascer com vontades estranhas.
- Já avançamos um pouco.
Ao menos, você reconhece gostar de mulher.
- Sim. Mas a sociedade é cruel.
Gina deu de ombros.
- A sociedade não paga minhas contas, nem sequer coloca gasolina no meu carro.
Essa é outra lição do meu espírito: aprender a dar ouvidos ao que sinto, dar atenção às minhas necessidades e não escutar o mundo.
Eu venci o preconceito e com isso me tornei mais forte e mais dona de mim.
Agindo assim, a vida me dá apoio.
- Você fala em espírito...
- Nunca ouviu falar? - perguntou Gina, séria.
- Também não sou tão burra - protestou Magnólia.
Minha amiga Isabel fala de maneira parecida com a sua.
E ainda tem Lena.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:16 pm

- Quem é Lena?
- Uma menina que fala absurdos.
Mete medo na gente. Uma bruxinha.
Gina sorriu.
- Simpatizei com essa menina mesmo sem conhecê-la.
Será que você poderá me apresentar?
Gosto de bruxinhas.
- Ela é uma menina.
O que pensa...
Gina a interrompeu.
- Você de novo com maldade na cabeça! Impressionante.
Eu quero conhecer a menina porque fiquei curiosa, oras.
Ela deve ter uma boa mediunidade.
Sem segundas ou terceiras intenções.
- Desculpe-me.
Eu achei que você estivesse a fim...
- Blá-blá-blá.
Conversa fiada.
De novo o discurso negativo e cheio de ruindade.
Magnólia ficou sem jeito e tornou:
- Você, Isabel e Lena têm maneira semelhante de enxergar a vida.
Como se tudo fosse lindo e perfeito.
- Mas a vida é linda e perfeita.
Depende de quais óculos você usa para enxergar o mundo.
Não nego que haja muita desgraça ao nosso redor.
Precisamos entender a dor alheia e, se possível, ajudar o próximo.
Perceba que ver o mundo pela lente do amor vale muito mais que pela lente do rancor.
Vamos ter de viver do mesmo jeito.
Que seja de uma maneira mais colorida, divertida e alegre!
- Com tanta desgraça no mundo?
Onde está esse Deus que nada faz?
Não acredito em nada.
- Já lhe disse antes.
Depende como você enxerga o mundo.
Vivemos num planeta onde precisamos enfrentar nossos medos, lidar com o preconceito, com a maledicência, com a negatividade.
É no contacto com o negativo que enxergamos o positivo.
Se você acender uma luz na claridade, não vai perceber seu brilho.
Mas, se acender a luz num quarto escuro, aí sim, vai perceber a diferença.
Nosso espírito precisa do contraste para perceber o quanto é puro, belo e perfeito em sua essência.
Afinal, fomos criados à imagem e semelhança de Deus.
- A sua maneira de pensar é bem diferente da minha.
- Os opostos se atraem - brincou Gina.
- Está me deixando sem graça.
Gina moveu o braço sobre a mesa e pousou sua mão delicadamente sobre a de Magnólia.
- Não quero deixá-la sem graça, mas feliz.
Magnólia mudou o assunto.
- Agora que tem casa e carro, o que pensa em comprar?
- Estou economizando para comprar um sítio.
Na mesma hora veio à mente de Magnólia a fazenda em Populina.
Ela ia falar, mas deteve-se.
Limitou-se a dizer:
- Eu aprendi a gostar um pouco da natureza.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:16 pm

- Podemos ter uma linda vida juntas.
- Será?
- Você é quem cria a realidade à sua volta.
- É?
Gina fitou um ponto do salão.
Pensou, sorriu e perguntou:
- Como sonha viver daqui a vinte, trinta anos?
Magnólia não respondeu, mas pensou:
"Trinta anos!
Será que estarei viva daqui a tanto tempo?"
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:17 pm

- 11 -

Isabel respirou e espreguiçou-se.
Estava cansada.
Derramou detergente sobre a esponja e pegou mais um prato sobre a pia.
Enquanto lavava a louça, asseverou:
- Viver o dia de hoje é importante para mim.
Amanhã a Deus pertence.
Amo meu marido, minhas filhas, meu trabalho e esta casa.
Isto é o que importa no momento.
- Paulo tem chegado tarde - cutucou Magnólia, enquanto enxugava e guardava a louça no armário.
Acha mesmo que trabalha até tarde?
- Sim. Tem feito hora extra.
As despesas aumentaram e temos a prestação da casa.
- Como pode?
- Como pode o quê?
- Deixar as meninas numa escola.
Não tem medo?
- Não. As meninas estão indo bem na escolinha.
É bom ter contacto com outras crianças da mesma idade.
Já disse que você deveria colocar Fernando na mesma escola.
- Não! No meio de um monte de estranhos?
Meu filho sendo cuidado por uma estranha?
- Se você não mudar seu jeito de ser, a vida poderá lhe ser tão difícil!
Magnólia desviou o assunto:
- Você tem de largar o emprego e ser dona de casa.
- Penso diferente.
Quero conciliar as responsabilidades de mãe, dona de casa e executiva.
Eu vou me aposentar daqui a vinte anos, amiga.
Por mais que ame meu marido e minhas filhas, quero ter o meu dinheiro.
Não abro mão da minha independência financeira.
Magnólia lembrou-se da noite em que saíra com Gina.
A moça tinha lhe perguntado como queria viver dali a vinte, trinta anos.
E Isabel falava algo semelhante.
Ela sorriu e sentiu saudade da moça.
Fazia duas semanas que tinham saído e ela não tinha coragem de ligar.
Morria de vontade, porém não tinha coragem.
Isabel a trouxe de volta à realidade.
- Estou falando com você.
O que foi?
- Nada.
- Nada?
Magnólia, você anda tão aérea ultimamente!
- Sabe o que é?
O dinheiro da poupança está acabando.
- E daí? Não é nenhuma novidade.
Você torra tudo e mais um pouco.
Ainda bem que seu tio deixou os imóveis em nome de Fernando.
Fabiano foi inspirado por bons e sábios espíritos.
Cuidou muito bem do seu futuro e do futuro do seu filho.
- Cuidar bem? - Magnólia estava indignada.
Não posso crer que defende aquele unha de fome.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 08, 2016 8:17 pm

- Seu Fabiano tinha lá um jeito esquisito.
Mas era o jeito dele.
Nunca faltou nada para você.
Ele pagou-lhe escola, você sempre teve tudo o que quis.
- Mas sou sobrinha, praticamente uma filha.
Devia ter pena de mim.
- Pobrezinha - ironizou Isabel.
- Tio Fabiano queria que eu arrumasse trabalho, para que eu pudesse transmitir valores nobres ao meu filho.
- Ele estava certo.
O trabalho nos faz útil.
- Meu tio tinha boa vida, Isabel.
Ele bem que podia me passar um imóvel.
- Até passou, mas na condição de usufruto.
- Assim não dá.
- Ele não tinha essa obrigação.
- Está certo.
Nem vou contra-argumentar.
Mas não consigo trabalho.
- Não consegue ou não quer?
Magnólia terminou de secar e ajeitar os pratos no armário; sentou-se na cadeira.
- Tenho um filho.
- E eu tenho duas filhas.
Isso não é desculpa.
Tem uma boa empregada que a ajuda.
- O salário de Custódia pesa nas despesas.
- Então, demita-a.
- Ficou louca?
Eu não tenho como cuidar de casa e filho ao mesmo tempo.
- Pois pare de reclamar e faça alguma coisa.
- Está difícil.
Vivemos uma época ruim.
O desemprego está aumentando.
A inflação está nas alturas.
Eu assisto ao jornal na televisão.
Sou informada.
- Melhor se desinformar - tornou Isabel.
De que adianta assistir à televisão e alimentar a cabeça com mais negatividade?
- Mas é a realidade.
Quantos currículos eu mandei?
Você mesma viu!
- A vendinha lá da avenida está precisando de balconista.
- Não nasci para ser balconista! - ela protestou.
- Estudei num dos colégios mais tradicionais da cidade.
Formei-me professora.
- Então vá bater em todas as portas de escola.
Garanto que em uma delas você consegue uma vaga para leccionar.
- Exigem experiência.
- Tente prestar concurso para dar aula em escola pública.
- Não dá para estudar e cuidar do meu filho ao mesmo tempo.
- Bom, cá entre nós, qual é o problema de ser balconista?
É um emprego digno.
Você ao menos pode pagar as contas básicas de casa: água, luz e telefone.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:20 pm

- Tenho o saldo da poupança, que está quase acabando, e o dinheirinho dos alugueis.
Dois imóveis, grande coisa!
E tem o apartamento que acabaram de entregar.
Estou pensando em entrar na Justiça para mudar a escritura.
- Não vai conseguir.
O apartamento está no nome do Fernando.
Magnólia mordiscou os lábios, como se estivesse enfrentando um problema de proporções gigantescas.
- Logo meu filho vai crescer e os gastos vão aumentar.
Penso futuramente em colocá-lo numa escola pública para economizar, diminuir os gastos na feira, essas coisas.
Fernando viciou no danoninho.
Vou ter de cortar. Uma pena.
A vida é dura.
Isabel deu um longo suspiro.
Conhecia bem a amiga e de nada adiantaria dar prosseguimento.
Magnólia julgava-se vítima do mundo, uma pobre coitada.
- Está bem. Não vou discutir.
Espero que logo essa cabecinha tome juízo e você aceite de bom grado mudar de ideia e fazer algo de útil.
- Puxa, Isabel, eu passei por maus bocados - falou, referindo-se a Jonas.
- Está na hora de você crescer.
Não temos mais quinze anos de idade.
Eu saí do colégio, casei-me, entrei na faculdade, formei-me e hoje tenho um bom emprego.
Você não fez nada depois do colégio.
Quer dizer, fez sim:
envolveu-se com o Jonas, despedaçou o coração dele...
- Alto lá! Não despedacei nada.
Aquele canalha não tem coração.
- Jonas pode ser um grande canalha, tudo bem.
Mas tenho certeza de que ele a amou.
E vai saber se ainda não nutre algum sentimento por você.
- Vire essa boca para lá!
Não quero mais ver esse marginal na minha frente.
Nem pintado de ouro.
- Está bem. Queira ou não, Jonas lhe fez um bem.
Magnólia rilhou os dentes e, antes de protestar, indignada, Isabel acrescentou:
- Ao menos a vida lhe agraciou com um lindo filho.
Fernando é um menino especial.
É arteiro, mas tem um coração enorme.
- Não sei. Logo ele cresce, acaba se envolvendo com outros garotos, pode mudar e ser como o pai.
Não sabe quantas noites não durmo pensando nessa possibilidade.
Eu, mãe de um trombadinha!
- Fernando é filho de Jonas, mas não é o Jonas, - enfatizou.
- Metade daquele marginal está no corpo do meu filho.
Nunca se sabe.
- Você diz coisas tão absurdas!
- Tem razão.
Jonas sempre foi um pobre coitado.
Família desestruturada, pai bêbado.
Eu tive pena dele - rebateu Magnólia, logicamente mentindo.
Ela ainda sentia um ódio mortal de Jonas.
Imaginava mil maneiras de voltar no tempo, na entrada do drive-in, e vingar-se dele.
Engoliu a raiva e procurou falar com voz natural:
- Eu já perdoei o Jonas.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:20 pm

- Ainda bem que teve juízo.
Isso faz parte do passado.
Estamos fugindo do assunto.
- Qual?
- De a senhorita arrumar emprego.
Antes que não tenha mais um centavo no banco.
Magnólia deu longo suspiro.
- Não é bem assim.
Só acho que tio Fabiano poderia ter tido mais consideração.
Ele era irmão do meu pai.
Eu fiquei órfã. Ele não se casou, portanto...
- Portanto você não é filha dele - emendou Isabel.
Dê graças a Deus que teve Fabiano em sua vida.
- Meus pais morreram cedo.
A vida foi dura comigo.
- Tio Fabiano quis lhe pagar uma faculdade quando não passou no vestibular para entrar na universidade.
Você recusou.
- Ele queria que eu trabalhasse de dia e estudasse à noite.
Tem cabimento?
- Claro que tem!
Eu fiz isso, caso contrário, não teria me formado.
- Em todo caso, você tinha o apoio dos seus pais.
Eu cresci sem os meus.
- Você e seus dramas.
Isso é que a empurra sempre para baixo.
Precisa reagir, colocar sua força para fora, ir atrás do que deseja.
Magnólia lembrou-se de Gina e uma lágrima escorreu pelo canto do olho.
- Eu juro que tento ser diferente, mas tenho medo.
Ela falou e desatou a chorar.
Isabel a abraçou e alisou os cabelos da amiga com carinho:
- Não fique assim.
Você é tão jovem, tão bonita e tão competente!
- Não tenho jeito para muitas actividades.
- Mas pode ir até â vendinha do seu Arlindo e atender o público, ser caixa.
- Não nasci para ser balconista.
Quer que meu filho tenha vergonha de mim?
Isabel exasperou-se.
- Assim fica difícil, né, Magnólia?
Não tem santo que resista!
Pare de reclamar e faça algo por si mesma.
Está na hora de acordar e enfrentar o mundo.
Você nasceu com este objectivo de vida!
As palavras foram ditas de maneira tão firme e carregadas com tanta emoção que Magnólia estancou o choro, arregalou os olhos e balbuciou:
- Eu vou tentar mudar.
Juro que vou.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:21 pm

- 12 -

Apesar de ainda preferir enxergar a vida de maneira negativa, Magnólia deu um passo positivo: passou a se encontrar com Gina.
Às escondidas, evidentemente.
"Ninguém pode saber do meu relacionamento com Gina, principalmente Isabel", pensou, enquanto terminava de se arrumar.
Magnólia olhou-se no espelho e sorriu.
Reparou ao redor e tinha de reconhecer que o quarto, antes de Fabiano, era decorado com extremo bom gosto.
Fabiano decorara a casa, ao longo dos anos, com capricho e esmero, deixando cada ambiente com aspecto acolhedor.
Agora Magnólia podia ter um lar para chamar de seu.
Ela apanhou a bolsa sobre a cómoda e saiu.
- Melhor que a edícula - dizia para si, enquanto fechava a porta e descia a escada em curva que terminava em um hall espaçoso.
Alcançou o jardim.
Custódia, a empregada, mexia com as plantas no vasto jardim de entrada.
Magnólia suspirou e avisou:
- Não demoro.
- Aonde vai? - quis saber ela, curiosa.
Sai todos os dias.
O que anda aprontando?
- Nada, oras! Quanta petulância!
- Hum...
- Pago seu salário para cuidar da casa e do meu filho.
Aliás, por que não está com ele?
- Fernando já está dormindo.
- Tão cedo?
Colocou conhaque na mamadeira dele?
- Que é isso, dona Magnólia?
Eu adoro o seu filho.
Nunca seria capaz de uma coisa dessas.
- Sei.
Custódia era um tanto abusada, mas tinha um coração de ouro, imenso.
Apesar dos comentários afiados, sabia qual era o seu lugar na casa e preocupava-se com Magnólia.
Tinha medo de a patroa cometer desatinos, visto que escutara atrás da porta conversas entre Magnólia e Isabel.
Conhecia a história toda da vida da patroa e tinha boas intenções.
Preocupava-se com ela, como se fosse uma irmã mais velha.
- Já é tarde.
Não costuma sair.
- Hoje eu preciso.
E eu sou menina de aprontar? - defendeu-se.
Estou procurando emprego.
- Emprego se procura logo cedo.
Já passa das cinco da tarde.
Magnólia sorriu desconcertada.
- A Isabel guarda o jornal.
Eu passo lá para dar uma olhadinha.
- Pegue o nosso.
A assinatura de seu Fabiano ainda não expirou.
- No jornal do meu tio não tem classificados.
- Amanhã eu compro um só de empregos - tornou Custódia, enquanto passava as costas da mão sobre a testa.
- Está bem - Magnólia consultou o relógio.
Depois conversaremos sobre o assunto.
Estou atrasada.
- Viu seu filho?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:21 pm

- Você não disse que ele dorme a sono solto?
Não quero atrapalhar - ela consultou novamente o relógio e apressou-se:
- Estou atrasada, Custódia.
Até mais tarde.
Custódia disse algo, porém ela não escutou.
Dobrou a esquina, estugou o passo e correu até a casa de Isabel.
Desde que conhecera Gina e dera chance para expressar seus sentimentos, Magnólia passou a olhar Isabel com outros olhos:
reconhecia amar a amiga, mas era um amor puro, que exalava confiança, camaradagem, cumplicidade.
Enfim, aos poucos, percebia, dia após dia, que Isabel era uma grande amiga.
Mais nada.
Isso a deixava mais tranquila, embora ainda se sentisse desconfortável para contar a Isabel sobre seu relacionamento com Gina.
Aliás, diga-se de passagem, Magnólia só tomou coragem de arriscar-se em um relacionamento afectivo no dia em que, depois de ver Isabel recebendo um beijo apaixonado de Paulo, a sua ficha caiu.
- Eles se amam.
De verdade - disse para si, emocionada.
Magnólia respirou um pouco de coragem e decidiu ter uma conversa séria com Gina.
Ligou para a casa dela e, depois da terceira tentativa, não deixou recado na secretária electrónica, pois receava que Custódia a flagrasse ao telefone com outra mulher.
Sempre que chegava à casa de Isabel, corria ao telefone e ligava para Gina.
Isabel passou a desconfiar e comentou com Paulo, enquanto terminava de tirar o jantar da mesa:
- Acho que Magnólia está namorando.
- Será? - indagou Paulo.
Não acho.
- Ela não sai de perto do telefone, querido.
- Ela tem telefone em casa.
- Por isso acho que aí tem coisa.
Para mim, Magnólia conheceu alguém e liga daqui de casa.
Ela é cheia de dedos, diz que Custódia fica xeretando a vida dela.
- Acha mesmo?
- Sim. Não reparou como ela mudou nos últimos tempos?
- Como assim?
- Antes, Magnólia vivia grudada em nós, estava sempre palpitando, torcendo para que nós brigássemos.
De uns tempos para cá, ela tem se mostrado menos, digamos, invasiva.
Até nos convidou para jantar outro dia.
- Vai ver apareceu a princesa encantada da vida dela.
Isabel riu com gosto.
- Estou desconfiada disso - completou, enquanto fazia sinal para Paulo olhar no corredor.
- Está vendo?
Ela não veio aqui para nos visitar.
Está falando ao telefone.
Magnólia falou, pousou o fone no gancho.
Ela se virou para voltar à cozinha, mas o aparelho tocou.
Ela correu imediatamente.
Atendeu e respondeu, mal-humorada:
- Aqui não tem ninguém com esse nome.
Desligou o telefone e bufou.
- Ela conheceu alguém! - tornou Isabel.
- Ela não comentou nada, amor?
- Não.
- Eu adoraria conversar abertamente com Magnólia sobre relacionamentos afectivos.
Mas ela é fechada, não se abre.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:21 pm

- Nem comigo, que sou sua melhor amiga, ela se permite conversar suas particularidades.
Precisamos dar tempo ao tempo.
- Será que ela tem medo da nossa reacção?
- Não sei. Depois que Magnólia se abriu comigo, achei que não teria mais segredos.
- Infelizmente, Magnólia é negativa e pessimista, desconfiada da vida e dos outros.
Se quiser, posso tentar conversar com ela.
- Pode ser. Tomara que seja alguém legal - tornou Isabel.
Magnólia merece ser feliz.
- Do jeito que ela é negativa? Sei não - Paulo coçou a cabeça.
Me dá até medo, sabia?
Veja o Jonas.
Tenho medo de que ela arrume outra encrenca.
- Tem razão, querido.
No entanto, por ora, não vamos pensar bobagens.
Jonas faz parte do passado.
Segundo soube, ele está preso novamente.
Vamos vibrar bons pensamentos para que, desta vez, Magnólia não sofra.
À medida que os dias foram passando, Magnólia entristeceu-se sobremaneira.
Gina sumira.
Certo dia, quando Isabel estava de folga e resolveu dar um pulo no mercado, convidou Magnólia.
Chegou a casa e cumprimentou Custódia.
- E as meninas, dona Isabel? Estão bem?
- Estão óptimas. Obrigada por perguntar.
- A senhora é sempre bem-vinda.
Esta casa precisa da sua luz.
Tem muita nuvenzinha negra por aqui - confidenciou baixinho, com medo de que Magnólia escutasse.
- Pode deixar. Vamos vibrar bons pensamentos!
Ela entrou e subiu para ver Fernando.
Custódia foi atrás.
Em seguida, a campainha tocou. Tocou de novo.
Magnólia gritou da cozinha, mas Custódia e Isabel não desceram, entretendo-se com Fernando.
Magnólia saiu correndo da cozinha feito um furacão.
- E ainda pago empregada! Para quê?
Abriu a porta do jardim de inverno e sentiu um friozinho na barriga.
E medo também.
Fechou a cara e correu até o portão.
- O que faz aqui? - perguntou, o rosto lívido como cera, falando baixo e olhando assustada para os lados.
- Vim ver você - disse Gina.
- Não pode.
- Por quê?
Está namorando alguém?
O Jonas voltou?
- Engraçadinha.
Se a Isabel me pega aqui na rua com você, vai pensar o quê?
- O óbvio. Que você e eu estamos nos gostando.
Magnólia sentiu as pernas bambas.
Avistou por sobre os ombros de Gina.
- Paulo está vindo para cá. Ai meu Deus...
Ele atravessou a rua e chegou à calçada.
De banho tomado, perfumado e sorriso nos lábios.
- Boa noite - disse ele, em tom amigável.
- Boa noite - respondeu Gina.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:21 pm

- Prazer. Meu nome é Paulo.
Um vizinho amigo.
- Marido da Isabel - Magnólia apressou-se a dizer.
Ah, então você é o marido!
Paulo não entendeu e Magnólia a fulminou com o olhar.
- Ela é uma amiga antiga da escola - foi logo explicando Magnólia.
- É? - perguntou Paulo.
Eu conheci suas amigas.
Não me recordo de você - falou, enquanto media Gina da cabeça aos pés, de maneira divertida.
- Vim convidar Magnólia para uma sessão de cinema.
- Vão ver o quê? - interrogou ele, curioso.
- Num lago dourado.
Ou Carruagens de fogo.
Os dois filmes são excelentes.
- Interessante - Paulo deu uma risadinha.
Gostei de você, Gina.
Tem atitude, transmite sinceridade.
Gosto de gente assim.
- Obrigada - respondeu ela.
Também fui com a sua cara.
Ele se virou para Magnólia:
- Minha esposa está aí?
Magnólia estava aflita:
- Lá dentro. Ela veio me chamar para irmos ao mercado e...
- Gina - convidou ele, amável -, quer ir até em casa?
- Não! - Magnólia descontrolou-se.
- Calma. Eu estou convidando Gina - tornou Paulo.
Eu quero que a sua amiga conheça a minha casa e as minhas filhas. Pode ser?
- A sessão de cinema... - tentou justificar Magnólia.
- Temos tempo - considerou Gina.
Ou podemos ir outro dia.
- Eu moro a algumas quadras daqui - apontou ele para o fim da rua.
Magnólia nada disse.
Abaixou a cabeça e encostou no muro, aflita.
Paulo fez sinal para Gina e foram conversando animadamente até a casa dele.
- Chame a Isabel - pediu ele, antes de dobrar a rua.
Magnólia parecia uma rocha. Não se mexia.
Já dentro de casa, Paulo recebeu-a como um bom anfitrião:
- Sente-se - apontou para o sofá.
Magnólia chegou esbaforida.
- Vou passar um café.
- Prefiro ir até a cozinha - sugeriu Gina.
Adoro conversar na cozinha.
- Pois vamos - aquiesceu Paulo.
Magnólia foi na frente.
Entrou na cozinha, abriu a geladeira e pegou o pote de café.
Paulo puxou uma cadeira e fez sinal para Gina sentar-se.
Ele puxou outra ao lado e sentou-se com os braços apoiados sobre as costas da cadeira.
- De onde vocês se conhecem?
- De uma entrevista de emprego - improvisou Magnólia, de maneira rápida, enquanto colocava a água para ferver.
- É? - questionou Paulo, encarando Gina.
- Não. Não foi assim que nos conhecemos.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:22 pm

Magnólia deixou o pote de café ir ao chão.
- Desculpem-me.
Sou mesmo desastrada. Ainda bem que o pote não é de vidro - justificou-se, enquanto fuzilava Gina com os olhos injectados de fúria.
Gina deu de ombros.
Virou o rosto para Paulo.
- Sabe, meu chapa, eu sou taxista.
Paulo admirou-se e sorriu.
- Taxista? Como aguenta trabalhar neste trânsito caótico?
- Gosto do ofício.
Adoro conversar com os passageiros.
Escuto cada história!
Magnólia acrescentou sem jeito:
- Ela trabalha...
Gina a cortou:
- Certo dia eu fiz uma corrida para sua esposa e para Magnólia.
Elas esqueceram a bolsa no banco do carro e eu voltei para devolver.
- Você é honesta - considerou Paulo.
- Sim. Gosto de ser honesta e justa.
Não gosto de pegar nada dos outros.
Sou uma pessoa do bem.
- Sinto isso - tornou ele.
Você me transmite confiança, Gina.
- Você também, Paulo.
Conversa olhando nos olhos da gente - devolveu ela.
E, para concluir, foi dessa maneira que eu conheci a Magnólia.
Pintou um interesse e cá estou.
- Gostei muito de você.
É sincera, sem rodeios, directa no ponto.
- Você é bem-vinda à minha casa, Gina - disse Isabel, que acabara de chegar, parada na porta da cozinha.
Gina levantou-se para cumprimentá-la.
- Como vai?
- Agora sei seu nome.
- Pois é. Nossa, como está magra!
- Estou muito bem.
A gente não se vê faz tempo.
Desde o dia daquela corrida da 25 até aqui.
- É verdade. O tempo passa rápido.
- E você?
- Acho que estou bem - respondeu e olhou para Magnólia.
Estamos bem?
- Gina é uma boa amiga - apressou-se em esclarecer Magnólia.
Ela consultou o relógio e falou:
- Se continuarmos aqui neste lero-lero, vamos perder a próxima sessão.
Não posso chegar tarde porque Fer... - Magnólia calou-se.
- O que foi? - perguntou Paulo.
Fernando está bem, não?
- Está. Está tudo sob controlo - Magnólia tornou num fio de voz.
Gina percebeu o constrangimento e despediu-se do casal.
Antes de Magnólia fechar o portão, Isabel pousou sua mão sobre a dela:
- Amo e respeito você - Isabel a beijou na testa e acenou para Gina, que já estava dentro do carro.
Sorriu para as duas e entrou em casa.
- Adorei a Gina - disse ela.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:22 pm

- Eu também - concordou Paulo.
Ela transmite uma coisa boa para gente, não?
- Ela tem um lado espiritual forte.
- Como assim, amor?
- Gina é daquelas pessoas que vieram ao mundo para ajudar, conciliar, somar.
Jamais para atrapalhar.
Ele abraçou a esposa com carinho.
- Hoje eu já disse que a amo?
- Não - ela fez beicinho.
- Pois a amo. Muito.
Ele a beijou nos lábios e num instante Isabel estremeceu.
- O que foi? Não gosta mais dos meus beijos?
- Adoro - afirmou ela com dificuldade.
Acontece que Magnólia ficou vermelha e sem graça quando você tocou no nome de Fernando.
- Será que ela não contou nada a Gina sobre o filho?
- Isso é bem da Magnólia.
Acha que as pessoas vão julgá-la e condená-la ao fogo eterno do inferno. Sempre.
- Gina não vai condená-la.
Será boa companhia para Fernando.
- Deus queira!
Isabel suspirou e abraçou o marido.
Logo foram surpreendidos com o choro de uma das meninas.
- É Paloma! - assegurou ele, convicto.
- Você não entende nada de filhas.
É Juliana quem chora.
- Como sabe?
- Coisas de mãe...
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:22 pm

- 13 -

Magnólia não aceitou o trabalho de balconista e nenhum outro que surgiu, fosse por indicação de Isabel ou de Gina.
Ela passou a economizar, cortar as despesas.
Nos fins de semana, fazia as refeições na casa de Isabel.
Vivia só com o aluguer das duas casas.
Ainda não conseguira alugar o apartamento e vibrava de raiva.
- O apartamento não é meu, mas tenho de pagar o condomínio.
Que belo tio eu tive!
Passava o tempo todo em casa, vigiando os passos do filho e controlando os produtos de limpeza.
- Sem desinfectante, não posso limpar o banheiro - protestou Custódia.
- Muito caro.
Banheiro não precisa estar cheiroso, precisa estar limpo.
Custódia girava os olhos e meneava a cabeça.
- Que mulher mais sovina!
O tempo foi passando.
A avó de Gina sofreu uma parada cardíaca, foi internada e morreu alguns dias depois.
Magnólia estava bastante envolvida com Gina e veio o convite:
- Venha morar comigo e...
- E?
Magnólia hesitou por instantes.
- Tem uma criança, também.
Um menininho. Uma graça.
- Lembro-me de, quando fomos ao cinema, Paulo ter perguntado sobre - ela forçou o pensamento - Fernando.
- É isso mesmo.
- Seu sobrinho?
- Não.
- Estamos juntas há um bom tempo.
Qual é o segredo, agora?
- Não é questão de segredo. É que...
- Vamos, fale.
- Eu tenho um filho.
- Você teve um relacionamento antes de me conhecer, é isso?
Magnólia não tinha coragem de dizer a verdade.
Mentiu:
- Namorei um rapaz, descuidei-me e engravidei.
- O tal do Jonas.
- É.
- Vocês mantêm contacto?
- Não. O pai do meu filho sumiu no mundo.
- Não dá para localizá-lo?
- Para quê?
- Ele é pai.
Tem responsabilidades.
Magnólia não queria falar a verdade.
Deu de ombros:
- Meu tio me deixou relativamente bem de vida.
Não preciso do pai para sustentar meu filho.
Aliás, não quero contacto. Nunca mais.
Fico feliz que tenha sumido.
- E se ele voltar?
- Ele não vai voltar.
- Será?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:22 pm

Magnólia mordiscou o lábio inferior.
Mentira para Gina e vibrava para que Jonas nunca mais aparecesse.
"Vai ver ele já está morto", pensou.
- Aceito morar com você.
E me comprometo a pagar algumas despesas - afirmou Gina, depois de um caloroso abraço.
Obrigada.
- Você cuidou de sua avó com bastante dedicação.
Agora chegou a hora de cuidar um pouco mais de você.
- Nem acredito que esteja falando comigo assim! - acrescentou Gina.
Cadé a negatividade?
Eu não a vejo - brincou.
- Claro que vejo o negativo.
Estou chamando você para morar comigo porque vou me sentir mais segura.
A casa é grande, de repente entra ladrão, sei lá.
E como a poupança secou, preciso de alguém que me ajude nas contas.
- Então você quer um guarda-costas e contas pagas, não uma companheira.
Magnólia a beijou com carinho.
- Quero uma companheira, sim.
Só não sei como meu filho vai crescer neste ambiente.
- Vamos fazer tudo de maneira natural - salientou Gina.
Precisamos transmitir amor e valores nobres ao seu filho.
Nada de preconceito.
- Tomara!
- Eu serei uma espécie de tia.
Uma boa tia.
- Mas ele vai crescer...
- E vai entender - emendou Gina.
Tudo que é feito com naturalidade agrada a todos.
Eu sei me comportar, sei respeitá-la e vou saber fazer o mesmo com seu filho.
- Tem a Custódia.
- Gosto dela. É divertida.
- Quando muda para minha casa?
- Amanhã, pode ser?
Elas riram e se abraçaram.
Duas semanas depois, Gina alugou o apartamento onde vivia e foi de malas prontas para a casa de Magnólia.
Assim que seus olhos pousaram sobre o pequeno Fernando, Gina sentiu um brando calor no peito e o amor brotou naturalmente.
O menino sentiu o mesmo, apegou-se a ela, provocando ciúmes na mãe.
Custódia deu-se bem com Gina e assim procuravam manter um clima de harmonia e paz, a fim de que o ambiente pudesse ser um lugar saudável para Fernando crescer, dissolvendo um pouco os medos e as negatividades de Magnólia.
- Foi Deus quem mandou você para cá - confessou Custódia.
- Porquê?
- Porque só as minhas orações e vibrações não conseguem afastar a onda de pensamentos ruins que Magnólia exala.
- Eu sei. Mas não se esqueça de que o bem é verdadeiro e derruba o mal com um simples assopro.
- Tenho medo de que o menino cresça e fique como a mãe.
- Vamos fazer um pacto? - sugeriu Gina.
- Qual? "
- Não deixar que a negatividade de Magnólia contamine Fernando.
Vamos cercá-lo de amor e mostrar-lhe que a vida tem lá seus perigos, mas é maravilhosa e, se nos mantivermos ligados no bem, nada poderá nos machucar.
- Feito! - Custódia falou e estendeu a mão.
Magnólia precisou resolver questões sobre o pagamento de uma conta e foi até o centro da cidade.
Ao sair do metro, teve a certeza de que vira Jonas, de relance.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:22 pm

- Meu Deus! Ele está acabado, mas é ele. Pensei que nunca mais o veria. Santo Deus!
Ela nem fez o que tinha de fazer na cidade.
- A conta já venceu mesmo.
Pago outro dia.
Nervosa, desceu as escadas e tomou o metro.
Saltou nervosa, pegou o ónibus e não via a hora de chegar em casa.
Entrou irritada, batendo a porta.
Fernando estava descendo a escada devagarinho.
Ela gritou:
- Desce devagar, Fernando.
Senão vai se esborrachar no chão!
Gina saiu do escritório e meneou a cabeça.
- Não pode falar assim com ele.
É uma criança.
- É perigoso.
Escada de mármore pode matar.
- São dois degraus.
Por Deus! Pare de atormentar seu filho.
Quer que ele cresça com medo de tudo e de todos?
- Estou fazendo o meu melhor.
Fernando colocou pé sobre pé e desceu os dois degraus.
Agarrou-se à barra da calça de Gina.
- Gina! - ele exclamou, abrindo largo sorriso.
Gina comoveu-se e o pegou no colo.
- A titia o ama muito. Sabia?
Ele concordou com a cabecinha e Magnólia bufou:
- Assim não dá.
Você vai estragar esse menino.
Fica enchendo ele de dengo.
- Ele é tão fofo.
Nunca vi criança tão amável.
É espoletinha, mas é doce.
- Precisa de limites.
- Já passou da hora de ele ir para uma escolinha.
- Eu decido - Magnólia respondeu de maneira seca.
- Sei que é a mãe, mas vai manter o menino dentro de casa até quando?
- Até quando eu decidir.
- Paloma e Juliana estão indo muito bem na escolinha.
- Isabel é moderna.
Não levanta a mão para nada.
Não coloca limites para essas meninas.
Logo vai ver no que isso vai dar.
Fernando sorriu e pediu:
- Posso ir até o jardim brincar com as plantas, tia?
- Claro que pode - autorizou Gina.
- Vem comigo?
- Daqui a pouco.
Preciso ajudar sua mãe no preparo do jantar.
Ela o beijou no rosto e o menino saiu, desviando de Magnólia.
Quando Fernando fechou a porta, Magnólia meteu as mãos na cintura, fazendo pose:
- Depois que sua avó morreu, eu a convidei para morar aqui.
Mais nada. Não estava incluído no pacote envolver-se na educação do meu filho.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:23 pm

- Eu só não quero que ele adquira traumas ou medos.
Você é negativa demais.
Não vai querer passar toda a sua insegurança para seu filho, vai?
- Eu não sou insegura - protestou.
- Claro que é! E agora anda cheia de manias.
Verifica todas as noites se a portas estão trancadas.
- Vivemos sozinhas.
- Temos a Custódia.
- Não ajuda em nada.
Eu deveria fazer todo o serviço.
- A casa é grande, Magnólia.
Dá muito trabalho.
Como você vai cuidar da casa e do seu filho ao mesmo tempo?
- Não trabalho fora.
Posso fazer bem tudo isso - mentiu.
- Eu não quero interferir na criação do seu filho ou na manutenção da casa, mas agora que moro aqui e colaboro com as despesas, eu me sinto no direito de interferir, sim.
Gina falou e voltou para o escritório, chateada.
Custódia entrou na sala.
- Por que anda tão nervosa?
- Não ando nervosa.
- Claro que anda.
E não tem nada a ver com a mudança de Gina para cá.
Você está mais agressiva, respondona...
- É impressão sua.
- Não.
- Está vendo como é bom viver aqui? - ironizou.
- Olha quanta gente querendo cuidar de mim.
- Eu e Gina gostamos de você.
Eu trabalho e vivo nesta casa há um bom tempo.
E a conheço muito bem.
- Não é nada.
- Tem a ver com o pai da criança?
- Hã? - ela perguntou para ter tempo de pensar.
- Você viu o Jonas, não?
- Como sabe?!
- Porque eu o vi dois dias atrás, no centro da cidade.
- É, eu o vi lá na Sé.
Pensei que nunca mais fosse vê-lo.
- Por que tem medo dele, Magnólia?
- Ele pode descobrir que tive um filho.
Eu herdei alguns bens.
Não é lá essas coisas, contudo, tenho medo de que ele venha exigir alguma coisa, ou faça coisa pior comigo.
- Vamos orar para que isso não aconteça.
- Não sou religiosa, Custódia.
- Eu também não. Mas tenho fé.
Sei que as forças divinas poderão nos ajudar.
- Não acredito em ajuda divina, em nada.
- Mas deveria.
Ao menos podemos nos ligar a Deus e nos sentir protegidas.
- Não quero pensar nisso.
- Converse com Gina.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:23 pm

- E falar abertamente sobre Jonas?
Nunca. Eu só fiquei nervosa porque o vi.
Esta cidade é imensa.
Tenho certeza de que nunca mais o verei.
A gente não esbarra na mesma pessoa mais de uma vez.
Um pouco afastados, dois espíritos tentavam enviar a Magnólia energias de equilíbrio e paz.
Adelaide meneava a cabeça.
- E agora?
- Nada. Vamos enviar boas vibrações para Magnólia e inspirar bons pensamentos em Gina.
Agora temos uma aliada de luz na casa.
- É verdade.
Mas será que eles vão se reencontrar, Tarsila?
- Sabemos que há grandes chances de esse encontro se realizar; no entanto, tudo depende da maneira como vibramos, como utilizamos nosso pensamento.
Se Magnólia mudar seu jeito de ser e tiver uma mente mais positiva, talvez o reencontro nunca se realize.
- Duvido. Conheço minha filha.
Sei que ela carrega muita dor e mágoa no coração.
Eu fiz muito mal a ela.
- Fez, Adelaide. Disse bem.
No passado. Você mudou sua maneira de encarar os factos e a vida.
Assumiu as responsabilidades pelos seus actos, reflectiu bastante e pediu para recebê-la como filha no mundo.
Amou Magnólia enquanto lhe foi permitido estar no planeta.
Desencarnou cedo, aprendeu a valorizar a vida.
E agora está aqui, querendo que ela fique bem.
- É que Magnólia poderá se meter numa grande enrascada.
- Vibre para que isso não aconteça.
Sabemos que cada um atrai para si as experiências que vão ajudar o próprio espírito a se fortalecer e, consequentemente, ampliar seu grau de lucidez, descarregando o arsenal de ilusões que adquiriu ao longo de algumas existências.
Adelaide assentiu e fechou os olhos.
Tarsila fez o mesmo.
Enviaram energias salutares para todos os cómodos da casa.
Depois, foram até o quintal e sorriram ao ver Fernando brincar com a terra.
- E não se esqueça de que Magnólia teve o mérito de receber Fernando - considerou Tarsila.
É um espírito inteligente e bondoso.
Estará sempre ao lado da mãe.
- Tem razão, Tarsila.
Adelaide aproximou-se do menino e o beijou na fronte.
- Agora precisamos ir.
Fabiano está despertando do sono.
Ele vai precisar de você - alertou Tarsila.
Adelaide sentiu emoção sem igual e sorriu.
- Fabiano!
As duas desapareceram e, ao menos naquela tarde, Magnólia deixou os pensamentos ruins de lado e cochilou de maneira serena.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:23 pm

- 14 -

O tempo passava.
Fernando e as meninas cresciam fortes e saudáveis.
Paloma e Juliana deixaram de ser idênticas, porquanto a personalidade delas tornava-se notadamente diferente com o passar dos anos, o que, de certa forma, começou a imprimir mudanças significativas no físico de ambas.
Paloma era agitada, os olhos estavam sempre acompanhando os movimentos das coisas, das pessoas.
Era falante e arteira.
Juliana era mais quieta.
Começou a falar aos três anos de idade e retraía-se com facilidade.
Quando era contrariada, trancava-se no quarto e mergulhava em caixas de bombons.
Isto se tornou um problema, pois, aos doze anos de idade, quando veio a primeira menstruação, Juliana começou a engordar.
A diferença de circunferência no rosto e no quadril passou a ser o item que diferenciava uma da outra.
- Antigamente, se não fosse a bendita marquinha, não saberia distinguir as meninas - tornou Isabel, enquanto pregava um botão em uma blusa.
Preocupo-me agora com Juliana.
- Por quê, amor?
- Ela está engordando além da conta.
- Logo passa.
- Não sei. Precisamos ficar atentos.
Paulo apanhou um porta-retratos em que estavam ele, Isabel e as meninas, em uma viagem à Disney, anos antes.
Elas ainda eram bem pequenas.
Olhava para a fotografia, perguntava e respondia ao mesmo tempo:
- Hoje o papai já disse que ama vocês?
Não? Mas ama. Ama de montão - finalizou, enquanto beijava a foto.
- Vai estragar essas meninas - censurou Magnólia, esparramada no sofá.
- Qual nada! Você faz pior com Fernando.
Nunca vi um garoto ser tão mimado pelas mães - brincou.
Ainda bem que ele tem a mim.
Senão, seria um caso perdido.
Paulo era um homem como tantos outros.
Nem alto nem baixo, nem feio nem bonito, mas tinha carisma.
Tinha sido criado por pais rígidos, mas amorosos, e crescera um rapaz íntegro, esforçado, dedicado à família.
Isabel continuava sendo a bondade em pessoa.
Amorosa, doce, sempre ligada em assuntos espirituais, não perdia o jeito meigo de ser.
Magnólia retrucou:
- Eu sei cuidar muito bem do meu filho.
Mudei um pouco nesses anos.
Quero que ele tenha tudo o que não tive.
Ele jamais passará por privações.
Paulo riu.
- Você não nasceu para educar um filho, Magnólia.
- Ainda bem que tenho Gina ao meu lado.
Educar filho cansa!
E ainda mais agora, nestes tempos horríveis que vivemos.
- Que tempos horríveis, Magnólia?
- Ora! Eu ainda acho este mundo muito perigoso.
- Você não se emenda mesmo! - exclamou Isabel.
- Tem um filho bonito, saudável, educado.
Fernando é um amor de garoto.
- Mas pode ser influenciado negativamente pelos amigos.
Outro dia vi um dos garotos da turma dele fumando.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 09, 2016 8:23 pm

Será que era cigarro?
Será que era maconha?
Meu filho mal completou doze anos.
Eu precisarei sempre estar por perto, protegê-lo de toda maldade.
Paulo a cortou com docilidade:
- Você ainda não entendeu, Magnólia.
- O quê?
- Nossos filhos, com o tempo, tornam-se cidadãos do mundo.
Um dia eles vão criar asas e vão seguir o próprio caminho.
- Fernando não seria capaz.
Nunca vai nos abandonar.
- Você não pode impedi-lo de ser feliz.
Não pode - asseverou Isabel, com veemência.
- E deixá-lo se envolver com uma qualquer? Nunca.
- Vamos aguardar e dar tempo ao tempo - tornou Isabel, conciliadora.
Que ao menos Fernando adquira alguns hábitos advindos do tio Paulo! - piscou para o marido.
- Marido feito Paulo não existe mais - reconheceu Magnólia.
- Existe sim - protestou Isabel.
É só ter olhos para ver.
Tem muita mulher exigente.
Exige tanto, faz uma lista das qualidades do marido ideal, sonha com algo irreal.
Dessa forma, o tempo vai passando, ela vai envelhecendo e acaba não se realizando afectivamente.
- Tem homem que faz a mesma coisa - tornou Paulo.
- E como! - exclamou Magnólia.
Veja meu tio Fabiano.
Ranzinza e chato, nunca se deu a chance de se casar.
- Será? - questionou Isabel.
Fala com tanta certeza!
- Sabe - Magnólia disse em tom de confissão -, certa vez, enquanto passava pelo corredor, vi meu tio sentado na cama, olhando para uma foto; depois a guardou em uma caixa e escondeu-a no fundo da cómoda.
Notei que ele estava triste, falava baixinho, não deu para saber o que dizia.
Ele saiu, aproveitei e voltei ao quarto dele.
Abri a gaveta e peguei a caixa.
Remexi e peguei a foto. Era uma mulher.
A foto era antiga, preto e branco, já bem amarelada pelo tempo.
O rosto estava apagado.
Mas deu para perceber que se tratava de uma mulher bonita, jovem.
Foi o que deduzi.
- Será que seu tio gostava de alguém?
- Não sei, Paulo.
Como faz tempo que tio Fabiano morreu, difícil saber.
A campainha tocou e Paulo atendeu.
- Gina! - ele a abraçou efusivamente.
- Eu só vim para dar um oizinho.
- Entre. Estamos com saudades.
- Tenho trabalhado muito ultimamente.
- Agora ela trabalha numa cooperativa - acrescentou Magnólia com desdém.
Está se achando.
Gina não deu ouvidos e prosseguiu:
- Aproveito os poucos momentos de folga - dirigiu-se a Paulo - para brincar com Fernando e com as meninas.
- Elas adoram você - acrescentou Paulo.
- Gostam mesmo - concordou Isabel.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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