O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:06 pm

Magnólia estava impaciente.
- Eu também brinco com meu filho e com as meninas.
Elas também me adoram.
- Sabemos disso, minha querida, entretanto, você reclama das crianças.
- Paloma não para quieta.
Já Juliana é mais fácil - tentou justificar.
E Fernando me faz perguntas difíceis de serem respondidas.
- Esse é o jeito Magnólia de ser - opinou Gina, bem-humorada.
Isabel piscou para Paulo e ele falou, alegre:
- Meninas, temos um convite para lhes fazer.
- Um convite? - indagou Gina, ansiosa.
- Sim.
- E qual é? Se não tiver dinheiro no meio... - interveio Magnólia.
Gina a cutucou e fez cara feia. Paulo riu.
- Não se trata de nada que envolva dinheiro. Fique tranquila.
- O que seria?
- Queremos que você e Magnólia sejam madrinhas de nossas filhas.
- Mesmo? Eu e Magnólia? Nós duas?
- Por certo - respondeu Paulo.
Vocês duas.
Elas estão chegando à adolescência e precisam de madrinhas.
Logo vão se enjoar dos pais.
Gina não tinha palavras.
As lágrimas de felicidade desciam sem cessar.
- É muita consideração de vocês.
- Gostamos muito de vocês.
Sabemos que são pessoas de valores nobres, do bem.
Sei que nossas filhas terão duas tias para recorrer quando brigarem com os pais.
- Nós não as baptizamos - salientou Isabel.
Mas precisam estar rodeadas de pessoas que as querem bem.
Gina abraçou Paulo e Isabel.
Em seguida abraçou Magnólia.
Esta ruborizou.
- Estou insegura - tornou Magnólia.
- Por quê? - perguntou Paulo.
- O que as pessoas vão dizer?
Duas madrinhas que andam sempre juntas?
As pessoas podem fazer fofoca, sabe como é a boca maldita do povo...
Isabel a cortou com amabilidade:
- Não sei por que você dá tanta importância para o que as pessoas pensam, Magnólia.
Por que é tão insegura?
- Insegura e preconceituosa - completou Gina.
- Eu, preconceituosa? Imagine.
Mudei muito nos últimos anos.
Não reclamo tanto da vida.
- Você disse bem - emendou Paulo.
Não reclama tanto, mas ainda reclama.
- Porque viver não é fácil.
A vida é complicada.
Vivemos num mundo conturbado, onde as pessoas apunhalam umas às outras pelas costas.
É só ligar o rádio ou assistir ao noticiário na televisão.
Só tem desgraça.
Eu tenho medo do futuro.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:06 pm

Gina suspirou profundamente.
- Não sei se você será uma boa madrinha.
- Como não? Eu amo Paloma e Juliana.
- Ama, mas é muito negativa.
Você pode encher a cabeça das meninas de caraminholas, de conceitos falsos, de medo.
Poderá atormentá-las com suas reclamações da mesma forma que faz com seu filho - e, virando-se para Isabel, concluiu:
- Talvez tenhamos de declinar o convite.
Paulo ia dizer algo, mas Isabel fez um sinal com o olho para Gina e antecipou-se:
- Não vão declinar.
Só gostaria que você, Magnólia, olhasse o mundo com outros olhos.
Da maneira como fala, parece que olha a vida em preto e branco, sem graça.
A vida é colorida, bonita.
- Estamos aqui no mundo para experimentar, para fazer nosso espírito cada vez mais forte - ajuntou Gina.
Vivemos muitas encarnações sob o domínio de um grupo pequeno de homens que ditavam as regras, as normas, que nos diziam como tínhamos de ser, de nos comportar, de falar e até em qual Deus devíamos acreditar.
Um novo tempo se aproxima e precisamos nos livrar desses falsos conceitos que só nos colocam para baixo, que só ameaçam a soberania do espírito.
O espírito é força, é a verdade.
Magnólia nada disse.
Abaixou a cabeça, acabrunhada.
Paulo estava hipnotizado pela fala mansa e cadenciada de Gina.
Isabel emendou:
- Concordo plenamente com você.
Somos seres inteligentes, com poder de escolha.
Somos responsáveis pela nossa vida.
Penso como você, Gina.
- Bem que eu queria entender melhor tudo isso - contrapôs Magnólia.
Eu só queria ser normal.
- Melhor que ser normal é ser natural.
E espiritualizar-se nada mais é do que compreender e procurar se ajustar às forças naturais.
Seja você, seja natural, traga seu espírito para fora.
- Vou tentar.
- Faça isso.
Verá como a vida muda quando deixamos de nos sintonizar nas ondas negativas.
- Vou fazer um café.
Você vem comigo, Gina? - convidou Paulo.
Ela assentiu e foram para a cozinha.
Isabel sentou-se ao lado de Magnólia.
Pousou sua mão sobre a da amiga.
- Amo você como uma irmã.
- Eu também.
- Pare de ter vergonha de si mesma.
- É difícil - Magnólia murmurava chorosa.
Eu não pedi para nascer assim.
- Assim como?
Com desejos diferentes da maioria das pessoas?
- É.
- Depende de como você encara a situação.
Se for com naturalidade, vai perceber a grandeza do seu espírito e procurar ser uma pessoa melhor a cada dia, não importa se amando um homem ou uma mulher.
Você vale pelo que é, pelo seu carácter, e não por quem ama.
Magnólia abraçou Isabel e deixou as lágrimas escorrerem livremente.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:06 pm

- Tenho medo de enfrentar o mundo.
E com um filho sob minha responsabilidade, tudo fica mais difícil.
- Pois não tema.
Por motivos pelos quais não temos conhecimento, seu espírito decidiu reencarnar em um corpo de mulher e com atracção pelo mesmo sexo.
Talvez você precise aprender que é mais forte do que as convenções sociais, entender e aceitar que é natural ser diferente.
Você não é errada.
- Não sou?
- Não é. É filha de Deus.
É uma mulher cheia de qualidades.
- Obrigada.
A voz de Isabel adquiriu modulação cadenciada e ela finalizou:
- Não importa o caminho, pois todo final é sempre um sucesso.
Abraçaram-se e, em seguida, Paulo e Gina entraram com uma bandeja decorada com xícaras de porcelana, um bule com café e docinhos apetitosos.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:06 pm

- 15 -

Isabel tinha o hábito de sair do trabalho e passar na escola para apanhar as filhas e Fernando.
Os três estudavam na mesma classe e se davam muito bem.
Havia, nitidamente, um interesse maior de Fernando por Paloma.
Eles entraram no carro e cochicharam algo.
- Para começar, poderiam dizer boa tarde - pediu Isabel.
Os três exclamaram em uníssono:
- Boa tarde!
Juliana em seguida mudou de lugar.
Pulou para o banco da frente.
Estava mal-humorada.
Isabel percebeu e, pelo retrovisor, fez sinal interrogativo para Paloma.
- Ela saiu da aula assim, com esse bico - comentou Paloma.
- O que aconteceu? - quis saber Isabel.
- A Eduarda chamou a Juliana de balofa. Eu ouvi.
Fui defender a Juliana, e os outros começaram a caçoar de mim - emendou Fernando.
- Eu sou mesmo uma balofa.
Uma baleia. Vou explodir - retrucou Juliana, voz alterada.
Isabel ia dirigindo e prestando atenção no trânsito.
Conversava com a filha olhando para a frente, sem tirar as mãos do volante.
- Não pode se deixar levar, filha.
Não ligue para o comentário maledicente de sua colega.
- Ela não é minha colega! - protestou.
Eu odeio a Eduarda.
Eu odeio todas as meninas bonitas. Eu odeio!
Juliana falou e levou as mãos ao rosto, tentando ocultar as lágrimas que escorriam sem parar.
- Minha irmã, por favor - Paloma procurava um tom conciliador -, não fique assim.
Não se deixe desequilibrar por conta de um comentário.
Eu e o Fernando achamos você uma garota bem bonita.
- É verdade - concordou Fernando.
Você é muito bonita, Juliana.
- Eu e seu pai também consideramos você uma bela menina - emendou Isabel.
E tenho certeza de que tia Magnólia e tia Gina também admiram a sua beleza.
- Falam para me agradar.
Eu sei que sou gorda.
- Você não é gorda - interveio Paloma.
Você está gorda. É bem diferente.
E quem disse que existe um padrão de beleza?
- A sociedade.
Eu me sinto mal com os olhares acusadores das pessoas.
- Pois deixe de levar em conta esses olhares - tornou Fernando.
Você tem um rosto perfeito, os lábios bonitos, as sobrancelhas grossas e os olhos atraentes.
Você é cheiinha, mas é seu jeito de ser.
É a sua marca.
- Está falando isso para me agradar.
- Também. Não gosto de vê-la triste.
Eu me sinto um irmão mais velho.
- Você tem a mesma idade que a gente - resmungou Juliana.
- Mas sou homem.
E vou estar sempre perto de vocês, cuidando, protegendo - Fernando falou e lançou um olhar apaixonado para Paloma.
A menina não percebeu, mas Isabel, pelo retrovisor, notou.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:07 pm

Ela sorriu e ficou pensativa.
Em casa, Fernando falava dos comentários negativos que Juliana fora obrigada a ouvir.
Magnólia fez um muxoxo e retirou-se para a sala.
Foi assistir à novela.
Mantinha uma orelha na novela e outra na conversa do filho com Gina.
- Ela não é uma baleia, tia Gina.
Está gordinha, mas tenho certeza de que sempre tem alguém que gosta.
O que quero dizer é que tem gosto para tudo.
- Isso mesmo, querido - tornou Gina.
Sempre enfrentaremos preconceitos dentro da sociedade.
Sofreremos por ser altos, baixos, magros, gordos.
A lição que o preconceito nos traz é a de não nos tornarmos também pessoas preconceituosas.
Quando nos aceitamos incondicionalmente, tudo fica mais fácil.
As pessoas ao redor percebem essa harmonia que há em nós e acabam por nos respeitar.
- Também concordo.
A Juliana se deixa levar.
Outro dia estava reclamando que os pais dela são muito amorosos.
- Reclamando?
Gomo assim?
Não entendi.
Fernando estava sem jeito.
- Estou parecendo um fofoqueiro.
- Não, querido.
Está me relatando o motivo pelo qual Juliana queixou-se.
Nós temos as melhores intenções com ela.
Queremos ajudá-la a ser mais forte e enfrentar a carga de maledicência que, infelizmente, vem das pessoas ao redor.
Fernando concordou e repetiu:
- Juliana está triste porque os pais são amorosos.
- É isso?
- Sim, tia.
Ela fica com raiva de ver os pais se dando tão bem.
Disse que a maioria dos nossos amigos da classe vem de famílias separadas.
Ela acha o cúmulo os pais se darem tão bem.
- Inacreditável!
- Mas é. E não é a primeira vez que Juliana fala dessa forma.
Aliás, depois que ela fala, corre para a cantina da escola e se empanturra de doces.
- É por isso que está engordando - deduziu Gina.
- Está engordando porque come demais e é muito mimada - ouviu-se a voz de Magnólia, vindo da sala.
- Não fale assim.
- Como não, Gina? - alteou a voz.
Essas meninas sempre foram mimadas pelos pais.
Eu adoro Isabel e Paulo, mas eles criam essas meninas de uma maneira que desaprovo.
- E você por acaso tem um modelo perfeito de como educar um filho?
- Sim - Magnólia declarou de maneira triunfal.
Ela abaixou o som da televisão e foi para a cozinha.
- Olhe para essa preciosidade - apontou para o filho.
Fernando riu e Gina continuou:
- Fernando é esse doce de criatura porque seu espírito é lúcido e inteligente.
- Lá vem você de novo com esse papo de espírito - resmungou Magnólia.
Meu filho foi gerado na minha barriga e eu o trouxe ao mundo.
Não acredito em vidas passadas.
- Se Fernando não fosse um espírito lúcido, facilmente acreditaria em todas as bobagens que você tenta incutir na mente dele.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:07 pm

- Bobagens?
Proteger meu filho é sinal de bobagem?
- Proteger é uma coisa.
Amedrontar é outra.
- Mas é só assistir aos programas na televisão.
Agora mesmo, antes de começar a novela.
Um casal assassinado na saída do restaurante.
Meu Deus! - ela levantou as mãos para o alto, numa pose dramática.
São assassinatos, crueldades praticadas contra seres indefesos.
Vivemos entre pessoas frias e cruéis, que matam por nada.
Preciso alertar meu filho sobre as mazelas do mundo.
É o meu dever de mãe.
- O seu dever de mãe é conversar com seu filho e mostrar a ele como é o mundo.
Precisa dialogar e deixá-lo viver.
Mais cedo ou mais tarde, ele terá de enfrentar o mundo lá fora sozinho, com ou sem mãe.
- O filho é meu, e eu o educo da forma como quero.
Fernando moveu a cabeça para os lados, numa negativa.
- Deixa, tia.
Não me deixo contaminar pela negatividade de mamãe.
Eu penso diferente dela.
Gina riu por dentro.
Magnólia iria revidar, mas Custódia apareceu na soleira, enxugando as mãos no avental:
- Dá licença?
- O que foi, Custódia? - indagou Magnólia, contrariada.
Não vê que estamos em uma discussão familiar?
- Sei. Tem uma moça no portão.
Quer falar com você, Magnólia.
- Uma moça? Quem é?
- Disse que se chama Lena.
Conhece?
Magnólia fez uma careta de espanto, balbuciou algo inaudível e depois exclamou:
- Lena! Pode deixar que eu mesma vou buscá-la.
Na casa de Isabel, tentava-se uma conversa conciliadora.
- Em vez de revidar, ela chora, papai.
Eu tento defendê-la, mas não estarei ao lado de Juliana por toda a vida.
Ela precisa aprender a se defender.
- Tem razão - disse Paulo.
- Também acho - concordou Isabel.
Isabel levantou-se e sentou-se ao lado de Juliana.
Pousou as mãos sobre as dela.
- Você começou a engordar faz uns meses.
- Não. Estou gorda desde os cinco anos de idade.
- Você era fofinha - emendou Paulo.
Notamos que no último ano você engordou bastante.
Aconteceu alguma coisa?
- Não! - Juliana gritou, desenvencilhou-se das mãos de Isabel e subiu correndo para o quarto.
Paulo levantou-se, mas Isabel o segurou:
- Deixe-a só por instantes, meu amor.
- Nunca a vi dessa forma.
Está descontrolada.
- É porque agora somos mocinhas, papai.
Nosso corpo já começou a mudar e Juliana tem medo de tornar-se uma mulher obesa.
E tem outra coisa.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:07 pm

- O que é? - perguntou Isabel.
- Juliana tem raiva do relacionamento de vocês.
- Como? Não entendi.
- Nem eu - aquiesceu Paulo.
Somos um casal apaixonado.
Procuramos transmitir esse amor em nosso dia a dia para vocês duas.
- Se aqui fosse um lar desajustado, com brigas quotidianas e falta de respeito, talvez entenderia a revolta de Juliana.
Mas se revoltar porque nos damos bem? - Isabel estava estupefacta.
- Ela acha que vocês são felizes demais.
A maioria de nossos colegas tem pais separados.
Juliana acha que o normal são pais separados e não apaixonados.
- Isso é o que chamo de inversão de valores - considerou Paulo.
- Querido, nossa filha precisa de terapia.
- Também acho.
- Vou conversar com Juliana agora.
O telefone tocou e Paloma atendeu.
- Oi, Fê. Espera.
Vou perguntar ao meu pai - ela tapou o bocal do telefone e perguntou:
- Papai, posso jantar na casa da tia Magnólia?
- Está escurecendo.
- Rapidinho.
Parece que tem visita lá.
Fernando quer me apresentar uma amiga da tia Magnólia.
- Pode ir.
Eu vou adiantar o jantar.
Creio que a conversa entre sua mãe e sua irmã vai ser comprida.
No quarto, Juliana afundava o rosto no travesseiro.
Não queria escutar.
- Assim fica difícil.
Eu vim aqui para termos uma conversa de amiga para amiga - tentou Isabel, em tom conciliador.
- Impossível. Você é minha mãe.
- Melhor ainda.
Não acha que uma mãe amiga é tudo de bom?
- Não sei.
Os pais gostam de manipular a gente.
- Alguma vez eu e seu pai fizemos alguma tentativa nesse sentido?
- Não, mas...
- Mas o quê, Juliana?
A menina tirou o travesseiro do rosto e sentou-se na cama.
Os olhos estavam inchados de tanto chorar.
- Você e papai se amam demais.
Parece que saíram daqueles filmes açucarados de cinema.
Isabel iria rir, mas se segurou.
Emendou:
- E isso não se torna bom exemplo para você e sua irmã?
Acredito que uma casa com brigas constantes entre os pais deva produzir algum trauma, algum desequilíbrio em seus filhos.
Mas amor?
Eu e seu pai nos amamos, amamos vocês e procuramos manter essa energia de harmonia, carinho, amor e respeito vinte e quatro horas por dia.
Criamos você e Paloma sob as leis do amor incondicional.
Será que vai me desapontar?
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:07 pm

- Não quero desapontá-la, de maneira alguma - Juliana agarrou-se a Isabel e a abraçou forte.
Tenho medo de não ser assim quando me tornar mulher.
- Assim como eu?
- É, mãe.
Eu tenho medo de não encontrar um homem como papai.
Tia Magnólia sempre diz que os homens são perigosos, que não devemos confiar em ninguém, em nada, porque o mundo é terrível.
E os homens são lobos em pele de cordeiro.
Só nos fazem mal.
- Magnólia tem uma maneira bem negativa de enxergar a vida.
Já conversamos a respeito disso.
- Às vezes acho que ela tem razão.
- Você acha que o mundo é tão ruim assim?
- Bom, assistindo aos programas violentos da tevê, diria que sim.
- E o que me diz das árvores, das flores, dos pássaros, dos cachorrinhos e gatinhos?
Não são belezas da natureza?
Acordar e ver o sol invadindo o quarto pelas frestas da janela não é uma bênção?
Ouvir o trinado dos pássaros, saltitantes nos galhos das árvores, não é uma beleza?
Ter uma casa e uma família feliz não é uma dádiva?
- É, parece que sim.
- Então não se deixe levar pela onda negativa do mundo.
Ela está aí, mas você não precisa vestir essa negatividade e ter medo de deus e o mundo.
Você foi criada para a felicidade.
- Com esse corpo gordo?
- Se isso a incomoda tanto, vamos fazer dieta.
- Não adianta.
- E exercícios!
- Tenho vergonha de ir à academia.
Esse sentimento de rejeição ao meu corpo é muito forte, mamãe.
- Vamos fazer caminhadas juntas.
Não acha que é um bom começo?
- Será que vai dar resultado?
- Se não tentarmos, o resultado não vai aparecer.
- Tem razão - Juliana agora estava sorridente.
- Vou ajudá-la no preparo do jantar - a voz dela estava mais animada.
- Assim que se fala.
Vá lavar o rosto. Eu a espero.
Juliana assentiu e foi ao banheiro.
Intimamente, Isabel fez uma prece de agradecimento ao Alto.
- Obrigada, meu Deus.
Peço que ajude Juliana a ser uma menina mais forte e mais dona de si.
Isabel não percebeu, mas pétalas de luz salpicavam pelo quarto, limpando as formas-pensamento negativas de Juliana e restaurando o ambiente com energias de equilíbrio e bem-estar.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:07 pm

- 16 -

Magnólia abraçou Lena e ambas se emocionaram.
Ela mal podia acreditar que na sua frente estava uma mulher de corpo bem-feito.
Em nada se assemelhava à menina de anos atrás.
- Como cresceu!
Mal posso acreditar - disse Magnólia, comovida.
Quando conversava com você ao telefone, sempre me vinha a imagem daquela menina de treze anos!
Achei que fosse receber uma garotinha.
- Pois é.
O tempo passou e eu cresci.
- Está com quantos anos?
- Vinte e sete.
- É uma mulher!
Seja bem-vinda.
Magnólia apanhou a pequena mala e foi indicando o caminho para Lena.
Ao entrar na sala, ela se emocionou ao ver Fernando.
- Meu Deus!
O bebezinho transformou-se em um mocinho tão bonito! Prazer.
Lena aproximou-se e beijou Fernando no rosto.
Magnólia exultou:
- Ela é a responsável por você se chamar Fernando.
Ele riu.
- Mamãe me contou essa história milhares de vezes.
Eu praticamente sei de cor a música do Abba.
Todos riram.
Em seguida, Gina apresentou-se.
- Seja bem-vinda.
Há anos queria conhecer a bruxinha.
Lena a cumprimentou com beijinhos.
- Olá, Gina.
Magnólia nunca acreditou na minha sensibilidade.
Estou acostumada com os apelidos que ela deu para mim ao longo dos anos.
Lena tinha um sorriso cativante e prosseguiu:
- Eu a conheci por carta e pelas conversas ao telefone.
Magnólia sempre falou tão bem de você!
Não imaginava que fosse uma mulher tão bonita.
- Eu? Imagine!
Magnólia pigarreou.
- Vamos, sente-se - e, dirigindo-se a Fernando:
Leve a mala para o quarto de hóspedes.
O garoto sorriu e subiu com a mala.
- Não tenciono ficar muito tempo - Lena avisou, depois de acomodar-se no sofá.
- Nem quero saber.
Você vai ficar o tempo que quiser - disse Magnólia, em uma efusividade que deixou Gina ressabiada.
- Obrigada.
- E sua mãe, melhorou?
- Mamãe não suportou a doença - a voz de Lena era triste, mas havia um brilho em seu olhar - e desencarnou há dois meses.
Eu não quis mais ficar em Populina.
- Podia ir para Rio Preto.
- Não. Queria mudar de ares.
Agora que mamãe partiu, tenho muito que fazer.
Sempre quis viver na cidade grande.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:08 pm

Magnólia abraçou-a com carinho.
Gina fez o mesmo.
- Meus sentimentos.
Não imaginava que o estado de saúde de Roseli fosse tão crítico.
- Achei melhor não preocupar você.
A doença era terminal.
- Poderíamos tentar um tratamento melhor.
Poderia trazer Roseli para a capital.
- Mamãe não tinha condições de ser transportada e, pelo estado avançado da doença, não teria tempo de fazer tratamento.
Morreu dormindo, segurando minha mão.
Os nossos amigos espirituais apareceram e a encaminharam para um posto de socorro no astral.
Magnólia girou os olhos para o alto.
- Os anos passaram, mas não perdeu essa mania de falar no sobrenatural.
Continua bruxa.
- Você diz sobrenatural porque desconhece o assunto.
Se conhecesse, seria tudo natural, como de facto é.
- Pelo que já sei, acredita em vida depois da morte, certo? - perguntou Gina, interessada.
- Sim. Magnólia nunca lhe contou sobre nossas conversas quando ela estava grávida do Fernando?
- Não. Nunca me disse nada.
Magnólia fez um gesto girando o indicador ao lado da cabeça.
- Coisa de maluco.
Essa menina dizia ver e falar com espíritos.
- Não acredito! - devolveu Gina, interessadíssima.
Você vê e fala com eles? - enfatizou.
- Sim. Antigamente eu tinha maior facilidade.
Mas ainda sou capaz de ver e sentir os espíritos, bem como as energias que deles emanam.
- Isso é muito fantasioso - contrapôs Magnólia.
- É facto, querida. É como micróbio.
A gente não vê a olho nu, mas que eles existem, ah, disso não há dúvida.
- Espíritos são frutos da nossa mente em desequilíbrio.
Outro dia vi um programa na televisão que desmistificava tudo isso.
Tem muita gente esperta querendo se aproveitar da fraqueza e ingenuidade das pessoas.
- Pessoas que agem de má-fé sempre vão existir - ajuntou Lena.
Mas há pessoas que são boas e pregam o bem.
E o mundo espiritual é uma realidade.
Há estudos sérios sobre o tema.
A reencarnação deixou de ser algo fantasioso e tornou-se real, cientificamente comprovada.
- Difícil acreditar.
- Há muita pesquisa, muita gente ao redor do mundo dissecando e revelando os mistérios da vida.
Eu posso lhe indicar alguns livros, se preferir.
- Eu gostaria - salientou Gina.
Adoro o assunto.
- Adora porque seu espírito acredita na reencarnação.
Você não precisa de provas.
- Eu preciso - argumentou Magnólia.
- Vai sempre precisar, minha querida.
Até o dia em que terá de encarar a si mesma e decidir:
ou você continua acreditando nas ilusões do mundo, ou passa a acreditar na força do seu espírito.
- Cruz credo! - Magnólia bateu três vezes na mesinha ao lado.
Parece que está me rogando praga.
- Não. Ocorre que seus pensamentos são muito pesados, densos e negativos - salientou Lena.
Conforme o tempo passa, esses pensamentos vão se solidificando ao redor do seu corpo astral, que é uma cópia desse corpo físico que você vê e toca.
Quando o corpo astral é invadido constantemente por pensamentos ruins, acaba por produzir caminho para bactérias e vírus entrarem no nosso corpo físico.


Última edição por Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:14 pm, editado 1 vez(es)
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:08 pm

- Deus me livre!
- Pois modifique seus pensamentos.
Acredite que a vida é boa e que você também é uma boa pessoa.
Acredite sinceramente que o que importa na vida é só o amor.
Mais nada.
- Sei - Magnólia redarguiu com desdém.
Amor não enche barriga.
- Mas nos afasta da maldade.
Porque o amor é energia pura, promove conexão directa com Deus.
Quanto mais amor você sentir e produzir, mais estará ligada a fontes protectoras da vida.
- Eu digo o mesmo para ela - interveio Gina.
Contudo, Magnólia tem a cabeça dura, e suas crenças são muito arraigadas.
Precisaria de três vidas para melhorar o teor de seus pensamentos.
- Ou precisaria de um grande choque para aprender mais rápido.
As duas a olharam assustadas.
Lena prosseguiu, serena:
- Às vezes, uma chacoalhada da vida nos faz repensar e reavaliar muitas crenças que não nos servem mais.
Quando esse tipo de choque aparece, geralmente traz consigo dor ou sofrimento.
- Vire essa boca para lá! - Magnólia exasperou-se.
Não gosto quando você fala nesse tom, Lena.
Eu fico assustada.
Pelo visto, só cresceu.
Continua falando absurdos.
- Deveria cuidar mais de sua mente, em vez de ficar assustada - prosseguiu Gina.
- Eu cuido da minha mente.
O que fazer se este mundo onde vivemos é realmente cheio de atrocidades e crueldades?
Eu não posso ficar cega e deixar de notar a violência que nos circunda.
Você fala assim porque viveu trancafiada numa fazenda, em uma cidade pequena, em um oásis de tranquilidade.
Quero ver viver aqui, na cidade grande, cheia de grandes infortúnios.
- Uma boa dose de optimismo ajuda bastante - acrescentou Lena.
Gina é um óptimo exemplo de quem não se deixou corromper pela maldade do mundo.
Acredito que ela veja a vida de maneira bem mais positiva do que você.
Magnólia não respondeu.
Gina replicou:
- Faz anos que tento fazer com que Magnólia mude sua maneira de enxergar o mundo.
Eu prefiro ver a vida como uma dádiva, uma oportunidade de crescimento, de reencontro com nossa essência.
Sinto a vida como um grande presente de Deus.
- Eu também penso assim - acrescentou Lena.
Infelizmente, não podemos mudar ninguém.
Não temos esse poder.
Só podemos orientar e inspirar bons pensamentos, assim como fazem os bons espíritos que se preocupam connosco.
O aprendizado, mesmo que feito pelo caminho da dor, fortalece e amadurece o espírito, arrancando de uma vez por todas o véu da ilusão.
- A conversa está ficando desinteressante - Magnólia protestou e levantou-se.
Você vai ficar com a gente por quanto tempo? - perguntou em um tom enfadonho.
- Ainda não sei.
Quero procurar emprego e voltar a estudar.
Eu parei na oitava série.
- O que gostaria de estudar? - indagou Gina.
- Arquitectura.
Sou apaixonada pela estética, pelo belo.
Como disse a Magnólia, anos atrás, quero me formar e viver um tempo em Barcelona, rodeada das obras de Antoni Gaudí, Picasso e Juan Miró.


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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:08 pm

- Conhece bem a Espanha.
- Só por livros.
Mas aqui estou e quero, primeiro, concluir os estudos e me formar.
Depois, irei para lá.
- Pode ficar connosco o tempo que quiser - declarou Magnólia, para surpresa de Gina.
- Mesmo? Não quero atrapalhar.
Quero arrumar emprego, ajudar nas despesas e custear os meus estudos.
- Arrume emprego e guarde seus ganhos para os estudos.
Aqui terá sempre casa e comida - garantiu Gina.
- E depois eu lhe passarei a sua parte das despesas da casa - comentou Magnólia.
Gina a cutucou e Magnólia fez ar de enfezada.
Fernando falou, em um tom amável:
- A farmácia da esquina está precisando de balconista.
- A farmácia sempre está precisando de balconista.
Faz anos que o emprego lá está vago! - disparou Magnólia.
Todos riram e Lena perguntou:
- Tem certeza de que não vou atrapalhar o dia a dia de vocês?
- Bom...
Magnólia ia falar, mas Gina a cortou e disse:
- Qual nada!
Hoje você fica no quarto de hóspedes.
Amanhã vou arrumar a edícula para você.
Está vazia e lá terá privacidade.
Quer dizer, ao lado tem o quarto da Custódia, mas ela só usa o quarto durante a semana.
Nos fins de semana, sai para visitar parentes e retorna domingo à noite ou segunda na parte da manhã.
O que me diz?
- Oh, não sei como agradecê-las!
Lena abraçou-se a Magnólia e derrubou algumas lágrimas de contentamento.
- O que é isso?
Nada de choro - protestou Magnólia.
- Você é uma boa pessoa - salientou Lena.
Com muitos pensamentos negativos, mas é uma boa pessoa.
Eu gosto de você.
Magnólia iria falar, mas Fernando ligou o aparelho de som e logo uma música agradável inundou o ambiente.
Muitas madrugadas depois, Fernando despertou e não conseguiu mais conciliar o sono.
Calçou os chinelos e saiu pé ante pé, para não fazer barulho.
O corredor era de assoalho e rangia conforme os movimentos.
Desceu as escadas devagarinho e foi directo para a cozinha.
Abriu a geladeira, apanhou a garrafa de água.
Pegou um copo sobre a pia e levou para a mesa.
Sentou-se e, com a luz da geladeira aberta, encheu o copo.
Gina apareceu na soleira.
- O que o preocupa?
- Despertei e perdi o sono, tia.
Estou com sede. Quer água?
Ela assentiu, acendeu a luz e aproximou-se.
Sentou-se à mesa.
- O que foi?
- Nada.
- Como nada, Fernando?
Eu o conheço muito bem.
Algo o aflige.


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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:09 pm

- Está tudo bem, tia.
- Sabe que comigo pode se abrir e conversar.
- Eu sei.
Eu me sinto mais à vontade conversando com você do que com mamãe.
Ela sorriu emocionada.
- Eu o quero como um filho.
De verdade.
- Eu sei, tia. Sou muito feliz por ter duas mães.
Os cuidados são redobrados - ambos riram e ele prosseguiu, fisionomia entristecida:
- Pena que mamãe não seja uma pessoa para cima, positiva.
- Sua mãe carrega muita mágoa, muitos traumas.
E até tenho certeza de que isso vem de outras vidas.
- É, eu também acho.
Depois que comecei a estudar um pouco o mundo espiritual tenho certeza de que mamãe traz muitas aflições, situações emocionais mal resolvidas de outras vidas.
Por isso é que tenho paciência e tudo farei para que ela fique bem.
- Sei. Você é um bom filho.
Temos muito orgulho de você.
Mas não acordou no meio da madrugada para pensar sobre as atitudes negativas de sua mãe.
Ele riu um pouco sem graça.
- Tem razão.
Eu não estou aqui preocupado com a maneira como mamãe enxerga a vida.
Sou um homenzinho e sei que cada um colhe o que planta.
- Ou o que pensa.
Dominar os pensamentos é imperioso para uma vida equilibrada e com grande bem-estar.
- Sim. Eu percebo isso.
- O pensamento é tão poderoso que, ao pensar em algo muito bom, seu corpo se expande, capta energias astrais saudáveis, sorri, se assim posso dizer.
Você sente imediatamente uma agradável sensação de bem-estar.
Quando o pensamento é ruim, negativo, o peito se fecha e as sensações produzidas no corpo não são nada agradáveis.
- Eu procuro praticar e ter domínio absoluto dos meus pensamentos, tia.
Tenho conseguido bons resultados.
Aprendi também a separar os meus pensamentos dos do mundo, pois a nossa mente se liga à mente dos outros e nem sempre o que pensamos é nosso.
- Está se saindo muito bem - Gina o elogiou.
- É que ultimamente um pensamento me perturba e ainda não consigo dominá-lo.
- Quer falar sobre ele?
Fernando fez sim com a cabeça.
- Então fale - Gina baixou o tom de voz, mostrando cumplicidade.
Meio sem jeito, ele começou:
- Eu gosto da Paloma.
- Do mesmo jeito que gosta da Juliana?
- Não. Eu vejo a Juliana como irmã. Já a Paloma...
- Você gosta dela de outro jeito, é isso.
- Sim. Acho que estou apaixonado.
- Esse sentimento é delicioso.
E, cá entre nós, eu já desconfiava.
- Sério?
- Hum, hum.
Já havia comentado com sua mãe sobre você e Paloma.
- Eu sempre escondi este sentimento.
Não sei se deveria expressá-lo.
Sou jovem, ainda tenho muitos anos pela frente.


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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:09 pm

- Há quanto tempo descobriu-se interessado em Paloma?
- Faz tempo.
Acho que desde sempre.
- Já se declarou a ela?
Fernando sacudiu a cabeça, enérgico:
- Não! Ela jamais poderá saber disso.
- Como?
Você gosta da garota e não quer se declarar a ela?
- Tenho medo de ela me rejeitar.
- Bom, você corre esse risco.
Mas não acha melhor declarar-se de uma vez, apesar do resultado?
- É?
- É. Se ela disser sim, você acaba com essa aflição.
- E se eu receber um não?
- Ora, se Paloma disser um não, você chora um pouco, passa uns dias meio acabrunhado e chateado, depois retoma a vida.
Vai ter a chance de se apaixonar muitas outras vezes.
- Nunca vou me apaixonar por outra mulher.
Paloma é o amor da minha vida.
- Você é muito jovem para ter essa certeza.
- Não. Outro dia o tio Paulo me contou que desde garoto gostava da tia Isabel e eles namoraram e casaram.
Ele me disse que sempre soube que Isabel era e é o amor da vida dele.
Eu também sei que Paloma é o meu amor.
- A história de Paulo e Isabel é digna de conto de fadas, é como ganhar na lotaria.
A maioria dos casais não se apaixona dessa forma.
- Então, pode ser que eu também tenha acertado na lotaria.
- Sim, meu querido - Gina passou a mão delicadamente sobre o rosto dele.
Mas precisa se expressar, correr o risco, falar.
Quer que Paloma adivinhe que você gosta dela?
- É difícil.
Nem sei como me aproximar.
- Vocês não vão a uma festinha na sexta-feira?
- Vamos. Amanhã mamãe vai comigo a uma loja de aluguer de trajes na 25 de Março.
- Aqui perto tem uma loja muito boa.
- Mamãe diz que é cara e que o dono não presta.
Gina meneou a cabeça de maneira negativa.
- Bem típico de sua mãe: ela nem conhece o fulano e já o julga.
- É o jeito dela.
- Deixemos sua mãe de lado.
Vamos nos concentrar na festa de sexta-feira.
Quer que eu o ajude com algumas técnicas de aproximação?
- Você faria isso por mim?
- Claro. O que uma mãe não faria para ver um filho feliz?
Fernando a abraçou e logo começaram alegre conversação.
Já estava clareando quando os dois, cansados e felizes, decidiram dormir.


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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 10, 2016 8:09 pm

- 17 -

No outro dia, Juliana entrou em casa nervosa.
Bateu a porta da sala com tanta força que Isabel levantou-se do sofá assustada.
- O que foi?
- Nada! - bramiu.
Ela subiu as escadas feito um foguete.
Paloma chegou logo atrás.
- Oi, mãe.
- O que aconteceu com sua irmã?
Por que ela está tão nervosa?
- Mexeram com ela de novo na escola.
- Pensei que isso era coisa de criança.
- Faz tempo que esse grupinho pega no pé de Juliana.
- Não posso acreditar!
- Pois acredite.
- Por isso ela chegou tão nervosa?
- Sim. Eduarda a chamou de baleia.
Pela enésima vez.
- Assim não dá.
Sua irmã não pode se desequilibrar dessa forma.
- Também acho. Foi o que disse a ela.
Ficou mais nervosa e me acusou de estar do lado do grupinho.
Justo eu, que sempre fui amiga da minha irmã.
- Vou ao quarto conversar com ela.
- É melhor mesmo, mamãe. Vá.
Isabel subiu e Paloma pegou o telefone; ligou para Caíque, colega da escola.
- Oi.
- Pensei que estivesse acudindo sua irmã.
Ela saiu tão nervosa.
Achei que fosse ter um treco.
- Mamãe está com ela, agora.
E então, vai me levar na festa ou não?
- Não sei.
Você ainda não me beijou.
Paloma riu.
- Se eu lhe der um beijo, vou à festa? É isso?
- Sim, senhorita.
Eu pego você a que horas?
- Me pegar?
Seu pai vai deixar você dirigir?
- Claro - ele respondeu num tom destemido.
Eu sei dirigir desde os catorze.
- Você é o máximo, Caíque.
Ele estufou o peito do outro lado da linha.
- E então, a que horas passo aí?
- Dez horas. Muito cedo?
- Para o beijo?
- Pare, Caíque.
Assim me deixa encabulada - ela riu, meio descontrolada.
- Você, encabulada?! - ele exclamou.


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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:12 pm

Paloma escutou a voz alterada da irmã vindo lá de cima e concluiu rápido:
- Preciso desligar.
Me pega às dez horas, está bem?
- E a Juliana?
- Meu pai leva ela e o Fernando.
Beijo. Tchau.
- Tchau.
Ela desligou o telefone e subiu.
Entrou no quarto.
Juliana havia rasgado praticamente todas as suas roupas.
- Odeio tudo o que tenho. Odeio!
- Calma, filha - Isabel tentava contemporizar.
De nada adianta ficar desse jeito.
- Como não? É fácil falar.
Não é você que é a gorda, balofa.
- Você tem outra estrutura óssea, filha.
Não adianta se comparar aos outros.
- É difícil. Paloma nasceu junto comigo e é magra de doer.
Eu engordo só de ver um brigadeiro.
Não é justo.
- Querida, por que rasgou suas roupas? - Paloma imprimia docilidade à voz.
- Não quero você aqui.
Ficou defendendo aquela piranha e aquele grude da Bruna.
- Não fale assim - censurou Isabel.
Isso lá são modos?
Enquanto Paloma recolhia os retalhos espalhados pelo quarto todo, dizia:
- Juliana não está assim nervosa só porque Eduarda a chamou de baleia.
- Eu a proíbo de falar - tornou Juliana, enérgica.
- Que bobeira! - Paloma aproximou-se da irmã e a abraçou.
Mamãe é nossa amiga.
- Eu sou amiga de vocês.
Sabem disso - assegurou Isabel.
- Juliana está gostando do Erik.
- Não me diga! - Isabel suspirou, feliz.
Erik é um encanto de menino.
Eu e seu pai costumamos conversar com a mãe de Erik.
É sempre um prazer encontrar Teresa lá no clube.
- A Eduarda é bem atirada e convidou o Erik para a festa de hoje à noite - tornou Paloma.
- Você gosta dele, filha? - indagou Isabel, acariciando o rosto avermelhado de Juliana.
- Go... gosto. Gosto, sim.
Eu o amo. É o homem da minha vida.
- Também não exagera - contrapôs Paloma.
Você é muito jovem para pensar dessa forma.
- Mas é o que sinto.
- Eu e seu pai nos gostamos desde a infância - acrescentou Isabel.
O que Juliana sente é normal.
- Não é normal - replicou Paloma.
- Como não?
Acaso eu e seu pai somos anormais?
- Não, mãe. Não é isso.
O facto é que Juliana nunca dirigiu uma palavra ao Erik.
- Como não? - Isabel perguntou sem entender.
- É amor platónico.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:12 pm

- Não era para falar! - protestou Juliana.
- Qual é o problema?
Isabel interveio:
- Deixe a Eduarda de lado.
Aquela menina não recebeu educação adequada.
Eu estudei com a mãe dela.
Glória é uma mulher fútil e sem valores.
- Eduarda é fútil também.
Não tem valor, mas é bonita - replicou Juliana.
- Qual é o problema, filha?
Aqui você só tem aliadas.
Nós vamos ajudar você a aproximar-se de Erik.
- Como?
- Você vai à festa comigo - disse por fim Paloma.
- Não! Você vai com o Caíque.
- E daí? Na verdade - ela sussurrou no ouvido de Juliana - eu queria ir sozinha, mas mudei de ideia.
Você vai comigo e com o Caíque.
- Não vou atrapalhar?
Paloma abraçou e beijou a irmã na bochecha.
- Você nunca me atrapalha, irmã querida.
Eu amo você.
Isabel comoveu-se.
- Adoro vê-las assim, juntas, uma dando força para a outra.
- Como vou à festa?
Rasguei praticamente tudo o que tinha - Juliana tomava consciência do que acabara de fazer.
- Não tem problema.
Podemos sair agora e comprar-lhe um lindo vestido.
- Estou cheiinha.
Não tem roupa que caiba.
- Claro que tem.
Você não é tão gorda quanto pensa.
Vamos, vá lavar esse rosto e mamãe vai nos levar ao shopping.
- Ei! Cheguei faz pouco do trabalho - protestou Isabel.
Paulo vai chegar logo.
Preciso cuidar do jantar.
- Tive ideia melhor - continuou Paloma.
Esperamos papai chegar e vamos todos ao shopping.
Lanchamos lá e depois voltamos para nos arrumar para a festa.
- Adorei a ideia do lanche - devolveu Juliana, em um largo sorriso.
A noite estava fresca.
A brisa soprava agradável.
Era um baile típico de jovens entre quinze e dezassete anos, em um casarão localizado na zona nobre da cidade.
Paulo fez questão de levar as meninas e Fernando.
Paloma ligou antes para Caíque e cancelou a carona.
Encontraria o rapaz no baile.
- E o beijo?
- Na festa, Caíque.
Espere mais um pouquinho.
- Está bem. Até mais.
- Beijo.
No trajecto, Paulo observava pelo retrovisor os olhares apaixonados de Fernando para Paloma.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:12 pm

Ele sorriu e perguntou a Juliana, sentada no banco do passageiro:
- Fale-me um pouco mais desse Erik.
Eu só conheço a mãe, socialmente.
Ela é bem simpática.
Os olhos dela brilharam emocionados.
- É o moço mais lindo da escola.
Paloma interveio:
- Menos, Juliana - e virando para o pai:
Ele até é simpático, mas não é um deus grego, não.
O Fernando aqui, por exemplo, dá de dez a zero no Erik.
Fernando não sabia onde enfiar a cara.
Sentiu as faces arderem.
Paulo sorriu novamente e Juliana protestou:
- Imagine! Fernando não é feio, mas não pode compará-lo ao Erik.
Sabe por quê, papai? - ele fez uma negativa e ela prosseguiu:
- Porque Erik é louro, tem ascendência escandinava.
O avô dele era sueco.
- A rainha da Suécia tem sangue brasileiro - rebateu Paulo.
- E o Fernando tem esse nome lindo por causa de um conjunto de música sueco - ajuntou Paloma.
Olha quanta coincidência!
Chegaram ao local.
Paulo despediu-se das filhas.
Ao se despedir de Fernando, pediu com gentileza:
- Fique de olho nas duas.
Vão logo completar dezoito anos, mas sei que você é como irmão.
Qualquer problema me ligue.
- Pode deixar, tio.
Vou tomar conta delas.
- A que horas passo para pegá-los?
- Não precisa.
Tia Gina me deu dinheiro para tomar um táxi.
Vá descansar. Está tudo bem.
Despediram-se e, depois de acenar para Paulo, percebeu que as meninas já haviam entrado.
Fernando apertou o passo e chegou à recepção, montada nos jardins do casarão.
Deu de cara com Eduarda.
- Está arrumadinho.
Se eu não tivesse outro na mira, juro que pegava você.
Ele enrubesceu e devolveu, pigarreante:
- Você não faz meu tipo.
Ela gargalhou.
- Você prefere a pomba.
- Não entendi.
Eduarda fez uma careta.
- Hello-o!
Deixe-me explicar para você, fofo: paloma, na língua espanhola, significa "pomba".
Entendeu? Ou preciso desenhar?
Não gostou da brincadeira?
- Não sei do que está falando.
- Você é alucinado por Paloma.
Só a tonta é que não percebe esses olhos apaixonados.
Bom, ao menos você tem bom gosto.
Se gostasse da orca, eu já iria lhe recomendar um oftalmologista.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:12 pm

- Não gosto que faça chacota com Juliana.
Quando você a ofende, também me ofende.
- Ai, ai. Coitadinho.
O jeca é sentimental.
- E chega de papo, Eduarda.
Preciso ir atrás delas.
- A orca passou e foi atrás do Erik, mas o meu gato - enfatizou - ainda não chegou.
A sua pomba já voou para o bosque atrás da piscina - apontou.
Deve estar de papo com o Caíque, do terceiro ano.
Corra antes que passe o baile todo chupando o dedo.
Fernando fez um muxoxo e entrou.
A festa estava animada.
A banda que cantava era agradável e os jovens se divertiam.
Não havia bebida alcoólica, um ou outro tinha levado uma garrafinha de vodca ou uísque para misturar ao refrigerante.
Era uma festa de uma garota da classe deles, de família rica e conhecida da cidade.
Fernando cumprimentou alguns amigos e avistou Paloma do outro lado da piscina, que estava adornada com balões coloridos.
Os olhos dele fixaram-na com amor.
- Puxa, como Paloma é linda! - sibilou.
Hoje preciso tomar coragem e conversar com ela.
Aos poucos, Fernando foi se recordando da conversa com Gina, das palavras amáveis que ela sugeriu que ele dissesse a Paloma.
Ensaiou, ensaiou e, quando percebeu que estava pronto para aproximar-se, respirou fundo e abriu os olhos.
Paloma não estava mais lá.
Fernando a procurou com os olhos e a viu passar com um copo de refrigerante.
Antes de encontrá-la, ouviu os gritos de Eduarda:
- Essa gorda desastrada - ela falava com o dedo em riste - derrubou refrigerante no meu vestido de propósito.
- Foi sem querer - defendeu-se Juliana.
Eu não a vi passar.
E não tinha visto mesmo.
De propósito, Eduarda fingiu tropeçar no gramado e jogou sobre si o copo de refrigerante.
Ela tinha uma voz bem irritante e alta, muito alta.
As pessoas começaram a se aproximar.
Bruna, a amiga inseparável de Eduarda, colocou mais lenha na fogueira:
- Eu vi. Foi essa gorda que derrubou a bebida na minha amiga.
Eduarda encostou o dedo no nariz de Juliana e gritou:
- Você sujou um vestido caro.
- Não fiz por mal.
Eduarda colocou as mãos na cintura.
Provocou:
- Sabe que, quando encontro pessoas como você na minha frente, sou completamente favorável ao aborto?
O grupinho de Eduarda começou a rir, e um menino disparou, maldoso:
- A Juliana é como carro desportivo último tipo.
Quando sobe na balança, vai de zero a cem em um segundo.
O pessoal caiu na gargalhada, e Fernando interveio.
Empurrou o menino para trás.
- Sai daqui, ô babaca.
Olha o respeito.
Se se meter com ela, eu o cubro de porrada.
Eduarda acrescentou com desdém:
- O irmão postiço chegou para defender os fracos, gordos e oprimidos.
- Você não pode machucar as pessoas dessa forma - Fernando gritou.
- Eu falo o que bem entender na hora que quiser.
Essa baleia só atrapalha o meu caminho.
Três corpos não ocupam o mesmo espaço.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:13 pm

As pessoas silenciaram, e Juliana começou a chorar.
Eduarda mordiscou os lábios e disparou:
- Sabiam que Juliana veio à festa para conquistar o Erik?
Houve um burburinho alto de vozes e risos.
Muitos risos.
Juliana não sabia onde enfiar a cara.
Levou as mãos ao rosto e foi nesse momento que Eduarda deu o golpe final:
empurrou Juliana na piscina.
Todos na festa correram e se acotovelavam ao redor da área.
A piscina era rasa, mesmo assim Fernando pulou e trouxe Juliana para a beirada.
Ela saiu da piscina tossindo muito, o vestido grudado no corpo, evidenciando suas formas arredondadas.
- Agora faz respiração boca a boca na gordinha - Eduarda sugeriu, irónica.
As pessoas estavam quietas, algumas olhavam para Eduarda com cara de poucos amigos.
Ela não se deu por vencida:
- Aproveita e enxuga logo essa menina porque daqui a pouco o mosquito da dengue aparece e já viu... ele adora se reproduzir em pneus molhados!
A garotada não aguentou e riu à beça do comentário infeliz.
Todos apontavam e riam.
Riam muito.
Juliana recomeçou a chorar e, amparada por Fernando, deixou o local.
Paloma apareceu de repente, com a boca toda manchada de batom e os cabelos em desalinho.
Na sequência chegou Caíque com a boca toda vermelha de batom.
Uma grande coincidência.
Fernando olhou para Caíque, depois seus olhos cravaram em Paloma.
Ele também sentiu uma dor sem igual.
Uma lágrima rolou pelo canto do olho.
Paloma alteou a voz:
- O que está acontecendo aqui?
Quem jogou minha irmã na água?
- Fui eu! - Eduarda assumiu, sorridente.
Não deu tempo para a defesa.
Paloma avançou sobre Eduarda e rolaram o gramado ao lado da piscina.
Foi difícil apartá-las e, quando os rapazes conseguiram separá-las, Paloma tascou um tapa certeiro - plaft - no rosto de Eduarda.
- Se voltar a humilhar minha irmã, juro que te mato.
Acabo com a tua raça.
Eduarda levou a mão ao rosto ardido.
Não respondeu.
Tinha respeito por Paloma e medo dela.
Fernando foi arrastando Juliana até os portões do casarão.
- Fique aqui.
Vou chamar um táxi.
- Por favor - Juliana suplicava.
Um dos empregados da casa trouxe uma toalha e Juliana colocou sobre as costas.
- Obrigada.
- Querida - Paloma a abraçou com carinho -, por que a deixou tratá-la dessa maneira?
- Não sei, ela começou a falar e eu fui me envergonhando.
- Não pode se envergonhar.
Precisa se dar o respeito.
Eduarda não é nada melhor que você.
- Ela é bonita... e magra.
- Você também é bonita.
E tem que aceitar o corpo que tem.
Não importa se é magra ou gorda.
Tudo é relativo.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:13 pm

- Mas a sociedade é cruel.
- Deixe a sociedade de lado.
Você é minha irmã.
Eu a amo do jeito que é.
Porque não importa a forma, mas sim a essência.
Você tem a essência do bem.
Eduarda, essa va... - fez uma pausa para não proferir um palavrão.
Essa menina é perturbada das ideias.
- Você tem um rosto lindo - completou Fernando, aproximando-se e tentando animá-la.
O táxi já está a caminho.
Paloma agradeceu:
- Obrigada.
Ele fechou o cenho e baixou o rosto.
Paloma achou que ele estivesse chateado com a situação.
Nem suspeitou que ele estivesse a fim dela.
Caíque aproximou-se de Erik e perguntou:
- O que aconteceu?
- Eduarda fez uma brincadeira de extremo mau gosto com Juliana.
- Que chato.
Uma pena, porque eu e Paloma estávamos nos entendendo tão bem...
Fernando sentiu raiva por não ter sido mais rápido.
Engoliu em seco e afastou-se.
Acercou-se de Juliana e Paloma.
Logo o táxi chegou.
Os três entraram e seguiram calados até a casa delas.
Fernando esperou que elas entrassem em casa e fechassem a porta.
Depois, andou mais algumas quadras, e o táxi parou na calçada em frente à casa dele.
Ele pagou, desceu e entrou.
Subiu directo para o quarto e arrancou as roupas.
Entrou embaixo do chuveiro com água fria.
Sentou-se e, enquanto seu corpo tremia, as lágrimas misturavam-se à água que caía forte.
"Nunca mais terei uma chance de me declarar", pensou, aflito.
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Ave sem Ninho

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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:13 pm

- 18 -

Eduarda podia ser considerada uma menina linda.
Tinha olhos claros, boca carnuda, nariz perfeito e corpo estonteante.
Os cabelos eram naturalmente louros e tocavam elegantemente os ombros.
Tinha sido a princesinha nas peças infantis, a noiva na quermesse e agora, no último ano do ensino médio, saía com todos os garotos bonitinhos da sala, à excepção de Caíque, porquanto Paloma engatara um namorico com o rapaz.
Eduarda não se envolvia por muito tempo com garoto que fosse.
Era a rainha de tudo.
O tipo de menina que ditava moda, acompanhada por um séquito de meninas inseguras e infelizes, que não acreditavam na própria força, na própria beleza e deixavam-se levar pela queridinha do colégio.
O seu bordão, "Hello-o" helo-ou, era marca registada.
Do tipo mignon, era uma lolita moderna.
Senhora absoluta de sua beleza, aproveitava e seduzia a todos para conseguir seus intentos.
Ela chegou a ponto de deitar-se com um professor de química para ganhar o troféu de melhor trabalho na Feira de Ciências e, consequentemente, ganhar pontos no boletim para não ficar de recuperação.
Havia duas garotas que ela adorava espezinhar e tripudiar sobremaneira: Paloma e Juliana.
Paloma, porque era destemida e algumas meninas da escola gostavam das atitudes dela.
Portanto, Paloma era uma rival à altura, que poderia fazer balançar o seu reino.
Todavia, lá no fundo, nutria carinho e respeito pela rival.
Por outro lado, implicava com Juliana porque a menina era tudo o que ela desprezava em uma pessoa:
era bonita, mas gorda, fora dos padrões, e porque era defendida a unhas e dentes pela irmã.
Eduarda também notara que Erik tinha uma quedinha pela gordinha.
- Isso é inadmissível - ela dizia enquanto se penteava.
- Erik não pode ter olhos de paixão por aquela baleia branca.
Isso não é normal. Não é natural.
- O que não é natural? - indagou Glória, sua mãe, que passava pelo corredor.
- Hã?
Glória era o tipo de mulher que evitava envelhecer a todo e qualquer custo.
Conhecia e utilizava todos os produtos de beleza, fazia todo tipo de intervenção cirúrgica.
Lutava constantemente contra a balança e contra as rugas.
Estava com quarenta e cinco anos, mas aparentava pouco mais de trinta.
Tinha orgulho disso e incutia na filha os mesmos valores falsos adquiridos ao longo da vida.
Glória fora rejeitada por um namorado da juventude e prometeu que se transformaria em uma mulher linda e desejada para compensar o sentimento de rejeição.
Eduarda crescera impregnada por esses falsos valores.
No fundo era uma boa garota, mas tinha medo de não agradar, de não corresponder à altura da mãe.
Fazia dietas rigorosas, praticava, contra a vontade, balé e exercícios físicos os mais variados, participava de todos os concursos de beleza que surgiam, tudo para agradar e equiparar-se a Glória.
Estava relativamente feliz porque tinha sido coroada, recentemente, Rainha da Primavera, no clube.
Glória parou próximo à porta e ajeitou a roupa colante de ginástica.
- Então, o que não é natural?
- Um garoto gostar de uma gorda... uma menina imensamente gorda.
Glória riu irónica:
- Quanta redundância!
- Porque ela é muito gorda.
- Não vai me dizer que uma deformada está balançando a sua auto-estima!
Eu criei você para ser linda, gostosa e poderosa.
Como pode deixar-se estremecer por um ser de outro planeta, insignificante?
Eduarda sentiu a intimidação.
Até nutria um pouco de afeição por Juliana, mas, com medo de ser repreendida, suspirou:
- Mãe, aquela gorda da Juliana está a fim do Erik.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:13 pm

- O neto do sueco?
- Esse mesmo!
- O menino não tem tanta beleza, mas, segundo os boatos, tem dinheiro à beça.
- Não sei, mãe.
Ele anda com roupas comuns, vive em uma casa comum, tem uma vida comum.
A mãe dele tem um carro velho... e comum.
- Parece que o avô deixou uma gorda herança - ela riu - para o menino, visto que o pai já partiu desta para melhor.
Se você engravidasse... - sugeriu.
- Não gostaria de deformar meu corpo.
Engravidar requer muito sacrifício.
- No caso desse menino, em particular, não vejo problema de acontecer, digamos, um acidente.
Glória gargalhou e Eduarda alegou, a contragosto:
- Sou muito jovem.
Erik não liga para mim.
- Porque você não está sabendo usar as armas que lhe dei - censurou Glória, nervosa.
- Eu sei, mamãe, mas o que fazer?
Atirar-me aos pés dele?
- Se for o caso...
- Eu não me humilharia tanto.
E a senhora não me disse sempre que os homens não prestam?
Não é o que me diz todo santo dia, desde que papai foi embora?
Glória engoliu a raiva e bateu no umbral da porta.
- Abra os olhos!
Os homens não valem nada.
Nunca se apaixone, a não ser que seja amor à primeira vista pelo dinheiro do pretendente, como no caso desse menino.
Só neste caso você deverá ceder.
Eduarda sentiu o corpo tremer.
Não gostava da maneira leviana como Glória se referia a ela.
Sentia-se uma boneca bonita, desprovida de sentimentos, que deveria estar sempre pronta para laçar o primeiro homem rico que aparecesse no pedaço.
Glória não estava nem aí para seus sentimentos, para saber o que a filha sentia, o que pensava da vida, seus medos e suas inseguranças.
Nada. Só queria que Eduarda fosse como ela:
bonita e magra, e arrumasse um homem rico que a sustentasse.
Preferiu não rebater os comentários da mãe.
Glória falou e gargalhou a valer.
Eduarda fez um rabo de cavalo e levantou-se.
- Fique tranquila.
Eu nunca vou me apaixonar, mamãe.
Não quero sofrer como você.
- Eu não sofri - mentiu.
- Sei. Eu me lembro do dia que papai foi embora e nos abandonou.
Quantas garrafas de vodca vazias eu tive de jogar no cesto de lixo?
Glória ignorou o comentário.
- Seu pai é desprezível. Um verme.
Aliás, todos os homens são vermes - afirmou, referindo-se ao amor da juventude que a trocara por outra.
Eduarda nada percebeu e a mãe prosseguiu:
- Por isso, fique esperta.
Nunca, jamais, de forma alguma, envolva-se afectivamente com homem que seja.
Quer dizer, só se for com esse garoto que parece ser podre de rico, ou com o príncipe Willian, filho da Diana.
Porque não pense que eu vou sustentar seus luxos.
- Papai nos manda bastante dinheiro do exterior.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:13 pm

- Para mim - esclareceu Glória.
Eu pago seus pequenos luxos porque ainda é menor de idade.
Logo vai ter de se virar e arrumar um homem que a sustente.
Eu não nasci para sustentar ninguém.
- Eu sei, mãe - Eduarda respondeu, triste.
- Mãos à obra, minha filha.
Eduarda estava cansada de ouvir esse comentário da mãe, anos a fio, desde que o pai saíra de casa.
Sentia-se sozinha no mundo, triste, amargurada.
No fundo, descontava toda a sua amargura em cima de Juliana, porque julgava a menina mais fraca que ela.
Se não descontasse em Juliana, seria capaz de morrer, como já pensara algumas vezes.
Mas ela não quis contra-argumentar.
Ajuntou de maneira lacónica:
- Pode deixar.
É que não posso permitir que Erik se interesse por uma gorda pavorosa - disse sem convicção, mas Glória não percebeu.
- Isso é acabar com a sua reputação!
Acabou de ser eleita a rainha do clube.
Como pode deixar uma gordinha fazer mais sucesso que você?
- É, mãe, tem razão.
E, de mais a mais, o ano lectivo está acabando.
Erik vai prestar medicina, eu vou fazer moda em outra faculdade.
- Continuarão na mesma cidade.
- Sei, mãe. Mas agora é a hora.
Na escola eu posso manipulá-lo, mas, quando todos forem para a faculdade, não sei se conseguirei.
- Use os artifícios que eu lhe ensinei.
E, claro - Glória piscou -, sempre na companhia de preservativos.
Jamais faça a burrada de engravidar.
A não ser que seja de um homem rico, muito rico, como é o caso desse garoto, em particular.
- Tem certeza de que Erik vai herdar uma grande fortuna?
- Sou bem informada.
Vou accionar os meus contactos e me aproximar da mãe dele.
Sabe que não meço esforços para defender meus interesses.
- Pode deixar, mamãe - Eduarda apanhou a bolsa e abriu-a.
De maneira triste, tirou um pacotinho de preservativos e os mostrou, fingindo um sorriso:
- Eu sei me cuidar.
- Pois então trate de acabar com as ilusões dessa gorda.
Afinal, você é Eduarda, filha de Glória.
A divina Glória!
Ela consultou o relógio:
- Oh, estou atrasada para a minha sessão de drenagem linfática.
Não me espere para o jantar.
Glória riu, apanhou a bolsa sobre a cómoda e saiu, obviamente na companhia de energias nada agradáveis, que se alimentavam dos seus pensamentos mesquinhos.
Eduarda permaneceu parada, olhando para sua imagem reflectida no espelho.
Era uma moça linda por fora, mas profundamente infeliz por dentro.
A vida de Glória era assim, descaradamente fútil.
A história contada para Eduarda era a de que o pai abandonara as duas e trocara Glória por uma mulher mais jovem.
A realidade, porém, era bem diferente:
Glória apanhara o marido em flagrante com... outro homem.
Ela estava pouco se lixando para as preferências sexuais do marido, mas Octaviano era um homem muito rico, filho único de uma família tradicional do Sul.
Para manter segredo sobre o ocorrido, Octaviano fez um acordo milionário com Glória.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 8:14 pm

Pagava-lhe uma pensão astronómica, e dessa forma ela e a filha viviam em completo luxo e completo ócio, em uma cobertura imensa com vista para o parque do Ibirapuera.
Dois anos depois da separação, Octaviano foi indiciado por lavagem de dinheiro e tráfico de influência.
Ao ser intimado, conseguiu fugir do país.
Associou-se a um poderoso traficante internacional de armas e continuava a enviar dinheiro para Glória, por meio de uma conta bancária situada em um paraíso fiscal.
Como Glória torrava tudo em estética, plásticas e cremes caríssimos, incitava a filha a arrumar um óptimo partido para poder também ter uma longa vida de luxo.
Até onde levaria essa vida, Glória não sabia.
E nem queria saber.
Ferida em seu orgulho por conta do desprezo do namorado de juventude, tentava, na aparência física, minimizar a rejeição.
- Eu vim para aproveitar e me esbaldar - era seu lema.
Octaviano foi muito idiota.
Eu nunca senti nada por ele e também nem me choquei ao flagrá-lo com outro homem.
Felizmente, seus olhos apavorados me fizeram pensar nos milhões que poderia arrancar.
Deitei e rolei, e ainda vou tirar muito proveito desse mau passo.
Nem que para isso eu tenha de passar um rolo compressor sobre as pessoas.
A vida é assim.
Dos espertos e dos bonitos!
Juliana evitava sair.
Pretextava dor de cabeça ao menor sinal de um convite para sair.
Ela tomava banho, empanturrava-se de guloseimas, assistia a um monte de filmes na tevê a cabo e chorava.
Essa era a forma como vivia depois da fatídica noite da festa, mais ou menos mantendo a mesma ordem dos factores.
Paloma entrou no quarto e foi categórica:
- Chega!
Você vai sair deste quarto nem que seja no tapa!
- Olha a violência - rebateu Juliana.
Não quero mais sair deste quarto.
Nunca mais.
- Nunca mais é muito tempo.
Vamos, levante-se.
Tanto tempo neste estado?
Ninguém aguenta.
- Que leve mais dez!
- Tia Gina e Fernando vão passar aqui e nos levar ao cinema.
Vamos assistir a Titanic.
Juliana fez uma careta.
- Já vi na tevê.
- Está confundindo com O destino do Poseidon, que foi feito quando a gente nem estava neste mundo.
- Tem razão.
Lembro-me quando Eduarda insistiu em adaptar o filme para uma peça de teatro.
E, naturalmente, queria que eu fizesse o papel da Shelley Winters. 3
- Eu gosto da Shelley Winters.
Juliana jogou uma almofada em Paloma.
- Estou brincando. Vamos nos divertir.
Todos no colégio já viram o filme.
É lindo. E tem o Leonardo DiCaprio - suspirou.
Paloma grunhiu algo ininteligível.
Terminou de levantar as persianas e abriu a janela.
Ela aspirou o ar fresco do fim de tarde e alguns raios alaranjados deram um colorido ao quarto triste e abafado.
Depois, ela se aproximou da cama e sentou-se na cabeceira.
Apanhou a mão de Juliana.
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Re: O que importa é o amor- Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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