Chão de Estrelas

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Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 11:58 am

Chão de Estrelas

APRESENTAÇÃO


Sempre me impressionou, desde os primeiros labores espíritas assistenciais, a dura expiação da hanseníase.
Ligado a tais actividades por laços do coração, conheci o exemplo milenar de Francisco de Assis, o trabalho de Joseph de Veuster ou Pe. Damião, na ilha de Molokai, no Havaí e o devotamento de Jésus Gonçalves, no Asilo de Pirapidngui, no Estado de São Paulo.
Quantos cidadãos anónimos doaram-se e o fazem na actualidade, no atendimento e minoramento das aflições dos sofredores da hansen, sobretudo no apaziguamento psicológico dos portadores, como na busca de tratamentos menos traumáticos, com menos efeitos colaterais.
Abençoadas “as mãos que limpam feridas e enxugam lágrimas das vidas”, apontando o rumo da felicidade imortal.
A partir de 1981, quando iniciamos a publicação de um periódico espírita, o Jornal Perseverança, passamos a nos corresponder com diversos articulistas do Brasil.
No decorrer dos anos, recebemos matérias para publicação de vários autores e entre eles, Amílcar Del Chiaro Filho.
Esse nome passou a fazer parte integrante das edições do Jornal, induzindo-me a mais admirar a postura e as ideias do autor.
Conheci-o pessoalmente em uma actividade matinal da USE de São Paulo, em 1997 e, no mesmo ano, tive o prazer de recebê-lo em Araguari/MG, nossa cidade.
Quando fui informado por Amílcar de que receberia, brevemente, os originais de seu novo livro, exultei intimamente.
A sua dedicação, devotamento e carisma são conhecidos de todos no movimento espírita brasileiro.
Com isso, tem granjeado a estima e a consideração de quantos participam de sua intimidade, intimidade essa que se revela na transparência de suas opiniões e profundo amor ao próximo.
Não somos escritores, nem possuímos a verve que encanta e deslumbra, contudo, atrevemo-nos a alinhavar estas palavras, com o objectivo não de apresentar, pois ele se apresenta por si mesmo, mas, acima de tudo, para reverenciar a coragem e a força interior desse homem, na defesa dos princípios esposados e do direito das minorias, notadamente os afligidos pela hansen.
Aqui ficam nossos agradecimentos sinceros e votos de constantes crescimentos espirituais, exorando de Deus dispensar-lhe as estrelas do aperfeiçoamento e da grandeza de alma.

Araguari, 10 de março de 1999
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Ave sem Ninho

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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 11:59 am

PRÓLOGO

A hanseníase1, outrora denominada lepra, tem uma história confusa e de difícil comprovação, servindo para alimentar mitos e lendas.
Documentos antigos, com mais de dois mil e seiscentos anos que descrevem sintomas de moléstias, confundem-na com outras doenças como a conhecida sarna, psoríase, elefantíase e outras.
Referências a enfermidades com sintomas semelhantes à hanseníase, aparecem na índia no Sushuruta Samhita, compilado em 600 a.C., nas Leis de Manu - entre 1300 e 500 a.C., no Egipto, no Papiro de Ebers - 18ª Dinastia, 1800 e 1300 a.C., na Bíblia, desde o Êxodo.
Muitas destas informações são colocadas em dúvidas pelos médicos da actualidade, devido às descrições dos sintomas serem confusas e próprias de outras doenças de pele.
Portugueses e espanhóis trouxeram a hanseníase para o novo mundo, e possivelmente, escravos africanos, vindos de regiões onde a incidência da enfermidade era muito grande.
Os primeiros documentos a citar a hanseníase no Brasil, são do século XVII.
Em 1696, o governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Meneses, procura assistir os míseros leprosos, já em grande número.
Em São Paulo, há documento de 1765.
Uma carta escrita pelo Capitão general D. Luís António Botelho Mourão ao Conde de Oeiras acusa o perigo que corria a Capitania em face da morfeia.
Um censo realizado em 1851, acusava 849 doentes no Estado de São Paulo.
Este número chegou a 40.000.
A hanseníase tem uma história milenar.
Existem evidências através da descrição de sintomas, há mais de 4600 anos e o hanseniano, como figura histórica, passiva na maioria das vezes, atravessou esses milénios carregando a execração da moléstia, assustadora no passado, pelas deformidades e o aspecto da pele.
Permitam-nos uma digressão histórica ao Vale de Kidron, próximo a Jerusalém, onde os reis da Judeia, para acabar com o culto ao sanguinário deus Baal ou Moloch, transformaram-no em vale, depósito de lixo, e ali se refugiaram, também, os leprosos.
Segundo apostila do Hospital Lauro de Souza Lima, a Europa não conhecia a hanseníase no tempo de Hipócrates e a mesma apostila dá como provável chegada com as tropas de Alexandre, após a conquista do mundo então conhecido.
Certamente, soldados se contagiaram-se no Oriente, especialmente na índia, e de lá trouxeram prisioneiros contaminados, provavelmente em fase de incubação da hanseníase.
Do Vale de Kidron, saltamos para os Lazaretos da Europa, construídos em grande número nos séculos XVII e XVIII.
Daí saltamos para a Ilha de Malokai, com o Frei Damião e para as comunidades formadas por doentes no meio das selvas da América do Sul, especialmente da selva amazónica.
Neste ponto, vamos encontrar os doentes em pequenas caravanas, a pé ou isoladamente, a cavalo, vestindo grandes capas e chapéu, a pedir esmolas nas ruas das nossas cidades, provocando uma enorme correria das mães atrás dos filhos, a fim de trancá-los em casa.
A figura era o pavor das crianças que, quando peraltas ou desobedientes, eram ameaçadas de serem raptadas por tais misteriosos seres.
Tida como a doença da impureza, castigo de Deus, só começou a perder essa conotação com a descoberta do bacilo de hansen, no século passado, em 1874.
Entretanto, o homem, tendo uma necessidade mórbida de emprestar suas qualidades e defeitos a Deus, mais tarde viria atribuir à AIDS, a mesma condição de punição da Divindade.
Felizmente, essa atribuição tende a desaparecer, mais depressa do que o estigma da hanseníase como doença da impureza.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 11:59 am

Voltemos à hanseníase, objecto da nossa exposição.
Na década dos anos 20, o governo brasileiro começou a criar os Asilos Colónia em vários lugares do Brasil.
No Estado de São Paulo, havia cinco, o Padre Bento foi um destes, aliás, o único que, na época, teve a denominação de Sanatório.
Nessa ocasião, mesmo sem medicamentos, a hanseníase declinava na Europa, especialmente no primeiro mundo.
Eu disse que não havia medicamentos que curassem a hanseníase e peço desculpas pelo engano.
Havia, sim!
Uma extraordinária ascensão social, com a erradicação da pobreza.
Na década de 30, no Brasil, foi promulgada lei que obrigava o isolamento dos leprosos.
Essa lei foi cumprida a ferro e fogo, não raro, com as mais dramáticas cenas de barbárie e insensibilidade.
O Brasil acreditou que o primeiro mundo erradicara a hanseníase com o isolamento compulsório, quando, na verdade, foi com a ascensão social.
Após a Segunda Grande Guerra, o dr. Lauro de Souza Lima foi estagiar num hospital da França, trazendo com ele a DDS - Diamino Difenil Sulfona, que veio mudar drasticamente o quadro da hanseníase no mundo.
Começou, então, uma reversão do mecanismo de internação.
Para manter os doentes nos Sanatórios, fizeram estes locais aprazíveis, bonitos, ajardinados, com muitos divertimentos.
Algumas ex-colónias ainda guardam muitas das suas belezas originais, como jardins, prédios, praças esportivas.
Para tirar o doente dos hospitais, deixaram que estes se deteriorassem de tal modo que a vida se tornava muito ruim dentro deles.
O Sanatório Padre Bento foi um dos palcos dessa reversão, pois o Governo Estadual, no começo dos anos 60, determinou o esvaziamento do hospital.
A ordem foi cumprida com dramaticidade.
A seguir, as residências foram cedidas, sem ónus, a funcionários sadios e, posteriormente, a alguns egressos dos hospitais de hanseníase que trabalhavam no hospital como laborterapistas.
O estado de abandono chegou a tal ponto que a sra. Zilda Natel, passando de helicóptero sobre o Padre Bento, pediu ao seu esposo, o Governador do Estado de São Paulo na época, sr. Laudo Natel, o local, para fazer um abrigo para mendigos.
Do antigo Padre Bento restou a Clínica Dr. Aguiar Pupo, transformada posteriormente no Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos.
Curaram o hanseniano com a sulfona, embora nada pudessem fazer com as sequelas que causariam problemas posteriores.
Não o curaram psicologicamente, porque muitos tiveram sua personalidade arrasada pelos métodos de profilaxia e, embora curados e sequelados, são muitos os que carregam a hanseníase emocional.
Vivemos hoje novos tempos.
A ciência caminha a passos de gigante.
A hanseníase pode ser curada em seis meses.
Desafiadoramente, ela continua contagiando milhares de pessoas por ano.
Em 1996, havia quase 16 milhões de hansenianos no mundo, dos quais, apenas cerca de 5 milhões estavam em tratamento efectivo.
Em 1954, Raoul Follereau, jornalista francês e amigo dos hansenianos, pediu aos governantes da Rússia e dos Estados Unidos, um avião de combate como donativo.
O pedido causou estranheza.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 11:59 am

O jornalista francês, que deu a volta ao mundo 32 vezes fazendo mais de duas mil conferências em favor dos hansenianos, sabia que o preço de dois aviões de combate daria para curar os hansenianos do mundo inteiro.
Ele não recebeu os aviões e as grandes potências continuaram fabricando caríssimas armas de guerra.
O que se gasta na fabricação, compra de armamentos e manutenção de exércitos, curaria as duas piores doenças da humanidade, a pobreza e a ignorância.
Gostaria de estar enganado, mas a hanseníase só desaparecerá do Brasil e do mundo quando a pobreza for erradicada, quando todos tiverem o suficiente para viver com dignidade.

1 - O autor foi internado no Asilo Colónia Cocais, Casa Branca/SP, em 1944 e transferido posteriormente para o Sanatório Padre Bento, em Guandbos/ SP, em 1948.
Recebeu sua alta hospitalar no final de 1951, retomando à sociedade sadia.
Em 1964, voltaria ao Padre Bento para trabalhar, primeiro, no serviço da faxina e, depois, no serviço de enfermagem.
Em 1971, aposentou-se, devido à amputação do terço inferior da perna direita.
Em 1977, iniciou-se como radialista, na Rádio Boa Nova, emissora da Fundação Espirita André Luís, onde permanece até hoje.
O prólogo apresentado acima, foi o pronunciamento do autor perante autoridades médicas e funcionários da saúde no Dia Mundial do Hanseniano, no último domingo de janeiro de 1998.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 11:59 am

Capítulo I
A CHEGADA AO ASILO COLÓNIA


No início da década dos anos 40, o mundo ainda vivia os horrores da guerra na Europa e Ásia.
Os nazistas já colocavam em prática o seu plano chamado “solução final” que pretendia eliminar os judeus, e mais de seis milhões de homens, mulheres e crianças foram executados em suas câmaras de gás, pelo crime de terem nascido judeus.
Este foi um dos maiores genocídios acontecido no planeta, mas outros existiram, como o holocausto atómico que destruiu as cidades de Hiroxima e Nagasaki, o holocausto dos negros africanos, caçados em seu continente e levados para terras distantes para trabalhar como escravos, sem nenhum direito humano que lhes valesse.
Esta é a história de um holocausto, o da profilaxia da lepra, feita a ferro e fogo, ignorando-se, também, inúmeras vezes, os mais elementares direitos, o menor senso humanitário.
Se os judeus foram executados por serem judeus, os negros escravizados e deportados de sua terra por serem negros e considerados inferiores, e os cidadãos das duas cidades bombardeadas por um avião B-29 da Força Aérea Norte-Americana, por serem japoneses, os leprosos foram presos, como aqueles, sem culpa formada, apenas porque traziam no corpo o bacilo de hansen, tendo como justificativa, a necessidade de se preservar a sociedade sadia do contágio.
Hoje, a situação dos hansenianos é bem diferente, mas essa epopeia teve vários episódios, já citamos o Vale do Kidron, próximo a Jerusalém, os inúmeros “Lazaretos” na Europa, destes à Ilha de Malokai com Frei Damião, no Havaí, ao refúgio mantido pelo Padre Bento Dias Pacheco, em Itu/SP, ao lombo das cavalgaduras, em que os leprosos estendiam o chapéu para pedir esmolas, aos Asilos Colónia construídos pelos governos estaduais no Brasil, até a volta ao convívio social e a revogação da lei que obrigava a internação compulsória.
Enquanto a guerra rugia na Europa matando milhões de pessoas e o dr. Alberto Schwartz salvava vidas no coração da África, cuidando de leprosos africanos, um homem, um brasileiro simples, da roça, mantinha uma luta desigual contra um bacilo insidioso, que penetrara o seu organismo e multiplicara-se lentamente, causando-lhe lesões em várias partes do corpo.
Esta é a história que pretendemos contar.
A saga de um homem simples, um roceiro brasileiro cuja vida naufragou num dado momento, mas que ressurgiu do abismo para encetar o voo da águia.
Nossa narrativa inicia-se com a chegada desse homem a um dos muitos Asilos Colónia criados no Brasil.
Ele chegou num veículo fechado como os que conduzem criminosos.
Pela janela gradeada, com os olhos marejados de lágrimas, ele viu este veículo passar por um portão em forma de arco, alto e estreito.
O motorista e o seu acompanhante conversaram com um funcionário que deveria ser um porteiro, entregando-lhe alguns papéis, e este liberou o veículo que correu alguns minutos por uma estrada margeada de eucaliptos, até deparar com um novo muro e um portão mais largo que demarcava o fim da área sadia e início da área doente.
O moço, pois ele era ainda jovem, olhou os enormes pavilhões que podia divisar e um “parlatório”, cujo nome e utilidade até então desconhecia, um bonito jardim, tendo ao centro um coreto, figuras de anões e sapos com instrumentos musicais feitos em cimento.
O acompanhante do motorista abriu o cadeado que trancava a porta, mandando que ele descesse e esperasse o funcionário interno que o encaminharia.
Ele colocou a mala no chão e, ao erguer os olhos, viu-se rodeado por pessoas estranhas.
Um baixinho não tinha nariz, apenas dois orifícios e os olhos sempre abertos não conseguiam piscar; outro tinha as mãos em forma de garras, como as de um animal; outro não tinha os dedos das mãos.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 12:00 pm

Havia um cuja face mais parecia a de um leão, cujo o retrato vira, certa vez, num almanaque do Biotónico Fontoura.
Alguns exalavam mau cheiro das feridas e da ozena, mas isto pouca diferença fazia, pois nosso personagem já havia perdido o olfacto há algum tempo.
Ele tinha vontade de sumir dali, pois aqueles olhares o incomodavam muito.
Alguém lhe perguntou alguma coisa que não ouviu, e, pouco depois, a pergunta era repetida com agressividade:
— Você é surdo?
Não tem nome não?
— Tenho sim.
— Qual é, então?
— José Aparecido Teixeira2.
— É casado? Tem filhos?
— Sim. Sou casado e tenho três filhos, dois guris e uma guria.
— De que cidade você é?
— Sou de S., entretanto, morava na fazenda do Coronel Teodorico.
— Você é roceiro?
— Trabalho na roça, sim.
— Olha aqui rapaz.
Esquece a mulher, os filhos, tudo que está lá fora, porque daqui ninguém sai.
E não adianta chorar, disse asperamente um dos enfermos.
— Eu vou sair, disse o recém-chegado mostrando uma forte resolução.
— Vai nada, sô!
Quando eu cheguei aqui, pensava como você.
Veja agora como estou e você vai ficar igual a mim, redarguiu aquele que era um farrapo humano.
Para falar, tinha de tapar com o dedo o orifício de um aparelho colocado em sua traqueia, para que pudesse respirar.
Um garoto de uns 15 anos, bastante atacado pela doença, perguntou:
— Você joga futebol?
— Jogava. Agora não jogo mais.
— Que posição?
— Centerford.3
— Joga bem?
— Acho que sim.
O nosso José estava constrangido com aquele interrogatório quando chegou um simpático funcionário interno, ainda jovem e dispersou o pessoal, pegou a mala do José e disse:
— Venha comigo.
Meu nome é António e trabalho no sector M de acomodações.
Vou levá-lo para o seu alojamento.
Por hora é uma cama no corredor de um pavilhão, mas se você não criar problemas, vamos conseguir-lhe uma vaga no salão.
José estava desolado.
Ele acompanhava o moço, um adolescente numa construção comprida, com muretas baixinhas dos dois lados e colunas que sustentavam o tecto.
O chão era ladrilhado e um grande número de pacientes estavam sentados na mureta sem ter o que fazer.
Entre estes haviam aleijados, amputados, cegos, traqueotomizados.
Se o nosso personagem não fosse um roceiro sem instrução, poderia pensar que estava adentrando o inferno de Dante Alighieri.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 12:00 pm

— Você não fala muito, não é?
Falou o jovem funcionário.
— Desculpe-me, moço, mas não estou bem.
Chegaram a um pavilhão muito grande que tinha um corredor comprido onde se podiam ver dormitórios com muitas camas, mas a cama de José ficava mesmo no corredor, que era escuro, sem ventilação, iluminado por duas pequenas lâmpadas e uma clarabóia que recebia a luz de telhas de vidro transparentes.
— Esta é a sua cama.
Guarde a sua mala embaixo dela e se você tiver coisas de valor, tome cuidado.
Quando você escutar uma campainha estridente, acompanhe o pessoal ao refeitório para jantar.
Amanhã eu o procuro para fazer a sua ficha lá no escritório.
Até logo. Ah, ia me esquecendo.
Venha comigo.
Vou mostrar-lhe onde fica o sanitário e o chuveiro.
A água é fria, mas aqui faz muito calor.
Você sabe o que é uma privada, não sabe?
Não, não sabe.
Olha aqui, quando você quiser defecar você senta aqui.
Traga jornal ou outro papel pra se limpar e depois você puxa essa cordinha assim.
Como o jovem percebeu que José não havia entendido muita coisa, repetiu tudo da forma mais chula possível, o que fez José ficar com o rosto vermelho.
José colocou a sua mala por baixo do travesseiro e recostou-se vestido e de botinas para tentar descansar e recompor suas ideias.
Seus olhos ardiam pelas lágrimas vertidas e ele começou a pensar no seu ranchinho, na sua companheira, nos filhos.
Estava tão cansado que dormiu, sonhou que montava um grande cavalo baio, marchador altaneiro, de crina branca comprida, e chegava assim imponente à fazenda do Coronel Teodorico.
Estava perto do seu ranchinho, quando começou a ouvir uma voz estranha, roufenha e acordou com um rosto mutilado e uma mão com toquinhos de dedos quase lhe tocando o rosto, e a custo ele entendeu que o homem esbravejava com ele:
— Não quer conversar, né?
Dizia o homem muito nervoso.
Não faz mal.
Todos são orgulhosos quando chegam, depois ficam mansos.
Antes que José respondesse qualquer coisa, um outro homem veio retirar o inoportuno dali e disse ao José:
— Não liga, não.
Ele não é bom da cabeça.
Pouco depois ouviu-se o som de uma campainha estridente e o mesmo homem que retirou o inoportuno, chamou José para ir jantar.
No refeitório, disse ao chefe dos copeiros que o moço era um novato, sendo indicada a José, uma mesa ocupada por três pessoas, para que ele se sentasse.
Logo providenciaram mais um prato de ágata e talheres.
A comida vinha em grandes vasilhas, num carrinho, e dois copeiros serviam as mesas, lutando para desgrudar o arroz da escumadeira.
O cheiro e a aparência da comida eram desagradáveis, nada apetitosa, José recusou-se a comer, ao que um dos companheiros de mesa disse:
— Daqui a três dias ele come até o prato, o que fez o outro rir muito.
José pediu licença e levantou-se.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 12:00 pm

O terceiro homem que ocupava a mesa entregou-lhe uma fatia de pão com um sorriso simpático:
— Leve com você, pois terá fome mais tarde.
José pegou o pão, agradeceu e voltou para o seu triste corredor.
Ali chegando, retirou um pedaço de queijo que trouxe de casa e comeu com o pão.
Estava ainda pensando na vida, quando imagens e pensamentos passavam pela sua mente de forma rápida, como num filme, se ele conhecesse filmes de cinema.
Foi assim que se viu capinando uma rua de café numa tarde muito quente.
Parou por alguns instantes, para afiar a enxada com a lima e enxugar o suor, quando viu ao longe uma parelha de bois, puxando um automóvel rumo à casa grande da fazenda.
Sem saber por que, sobreveio-lhe um pensamento triste, um mau agouro e um arrepio estranho o fez estremecer o que estaria reservado para ele?

2 - Os nomes dos personagens foram alterados de modo a lhes preservar a privacidade.
3 - Centro-avante
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 12:00 pm

Capítulo II
A DOR DE UM DESTINO


José ficou olhando o automóvel que subia o morro, pois a sede da fazenda ficava no lugar mais alto, e pensou:
não demorará muito e alguém virá me chamar.
Continuou trabalhando.
Quase uma hora depois, chega um menino e diz:
— José, o Coronel mandou lhe chamar.
É pra você ir depressa consertar um carro.
— De quem é o carro?
— Dr. Xavier.
José sentiu novamente um arrepio de frio na espinha e procurou afastar os maus presságios.
Pegou as coisas, colocou a enxada nos ombros e disse ao menino:
— Diga ao Coronel que eu fui pegar algumas ferramentas em casa e já chego lá.
Quando o menino chegou e deu o recado ao Coronel Teodorico, este estava contando ao dr. Xavier que o José era um roceiro inteligente.
Vendo os mecânicos que vinham da cidade consertar os tratores e caminhões, ele se pôs a ajudá-los e aprendeu muita coisa.
— Agora só chamamos os mecânicos, quando a coisa é complicada, se não o José dá um jeito, disse o Coronel.
Ele gosta tanto de lidar com motores que até comprou algumas ferramentas.
— Ainda bem que o carro quebrou aqui perto, disse Dr. Xavier.
Um colono seu ia passando e pedi a ele para avisá-lo a me mandar socorro.
Espero que o seu mecânico seja competente.
Nesse momento, José chegou e, segurando o chapéu nas mãos, rodava-o pela aba, o que denotava a sua timidez.
O médico olhou-o fixamente, especialmente o rosto e os braços, o que o deixou mais sem jeito.
Havia um silêncio opressor, quebrado pelo Coronel com voz ríspida:
— Vamos, José, mexa-se.
Humildemente, o roceiro respondeu:
— O carro está trancado.
Se o Doutor me der a chave...
— Deixa que eu abro, disse o médico rapidamente.
Depois entrou no carro e destravou a capota.
José examinou algumas peças e pediu para o médico dar a partida.
O motor não deu sinal.
O garoto que foi chamá-lo na roça aboletou-se no pára-lamas e pediu:
— Posso te ajudar, José?
— Pode sim.
Me dê aquela chave.
Esta não, a outra.
José pediu a manivela do carro ao médico e girou-a até o motor pegar.
O médico desceu do carro e puxou conversa com o improvisado mecânico:
— Faz tempo que você tem esses caroços?
— Que caroços, Doutor?
— Esses dos seus braços e orelhas.
— Não faz muito, não.
O médico queria continuar conversando, mas José fez vários ajustes e pediu para o médico dar uma volta com o carro no pátio.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 11, 2016 12:00 pm

Depois continuou acelerando até achar que tinha resolvido o problema, mas o Doutor Xavier deveria procurar uma oficina mecânica na cidade, aconselhou.
Com o funcionamento, o motor esquentou e inadvertidamente, José encostou o braço no bloco do motor.
O médico que havia descido da cabine do carro, viu e ficou quieto sem dizer nada.
Foi então que o garoto começou a aspirar o ar e disse:
— Que cheiro é esse?
A seguir, deu um grito.
— José! Olha o seu braço, está fritando!
José puxou o braço rapidamente e tirou o lenço do pescoço para enrolá-lo na queimadura.
O médico, fingindo interesse, perguntou:
— Você não sentiu dor?
— Quando me preocupo com um serviço não sinto dores, nem fome, nem nada, respondeu o moço, enquanto fechava a capota do automóvel.
Disse ao médico que o problema estava resolvido por algum tempo, mas seria necessário trocar algumas peças.
O médico agradeceu e voltou à varanda, onde o Coronel Teodorico o esperava com uma jarra de limonada gelada.
Então o coronel disse:
— Eu não falei que o José resolveria?
— Sim. Ele tem jeito para mecânica, mas você vai perdê-lo, disse o dr. Xavier de forma enigmática.
— Perdê-lo, porquê?
Você vai roubá-lo de mim?
— Não, Coronel.
Acontece que o seu empregado está leproso.
— Leproso? Você está sonhando.
Na minha fazenda não tem lepra.
— Eu não sou especialista, mas aposto meu diploma que este moço tem lepra.
Chame-o aqui.
— José! Venha aqui, gritou o Cel. Teodorico.
José aproximou-se e parou um pouco distante, pois havia, como todos os presentes, ouvido a conversa do médico com o coronel, que não foram nada discretos.
O médico pediu ao menino que pegasse para ele uma varinha no pátio.
Tocando com ela as orelhas, as maçãs do rosto e os braços de José, ia dizendo que aquilo eram lepromas, que José era uma fonte de contágio.
— O que eu devo fazer? - perguntou o Coronel.
— Mande-o a R.P. para fazer exames e confirmar o que eu disse.
O médico tinha um tom de orgulho na voz ao falar aquelas palavras, pois era um clínico geral, mas tinha capacidade para diagnosticar visualmente a lepra.
— Obrigado pelo conserto.
Tome esse dinheiro para você.
José recusou o dinheiro, mas o homem insistiu, dizendo:
— Vamos, não se faça de rogado, pois você vai precisar para a viagem.
— Doutor, eu estou lepro... leproso? - perguntou José gaguejando.
— É só uma suspeita, disse dr. Xavier.
Se Deus quiser não será nada e voltará logo para casa.
— E se for verdade?
— Se for verdade, você vai ser internado num Asilo Colónia, um lugar maravilhoso, uma verdadeira colónia de férias.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:55 pm

Fica lá uns dois ou três anos e sai curado.
Na sua simplicidade, José quis acreditar, mas algo dentro dele dizia que era mentira do médico a tal colónia de férias.
Novamente um arrepio gelou-lhe a espinha e os olhos ficaram marejados de lágrimas.
Cel. Teodorico disse-lhe que fosse para casa e procurasse dormir, pois, no outro dia, deveria ir a R.P. fazer o exame.
Vendo a hesitação nos olhos de José, enfatizou:
— Isto é uma ordem e não pode ser desobedecida.
O dr. Xavier faria uma carta para que apresentasse ao médico do Serviço de Profilaxia da Lepra.
— Por via de dúvidas, não durma com a sua mulher, nem beije os seus filhos, disse o médico.
José saiu arrastando os pés de tão arrasado e, a caminho de casa, pensou se não seria melhor atirar-se no açude e suicidar-se, pois, para que serviria um leproso?
A lembrança dos filhos e de Madalena, sua mulher, fez que desejasse vê-los uma última vez.
Quando estava próximo a sua casa, ouviu o choro desesperado de Madalena, a notícia correu como incêndio em mato seco.
Percebendo sua chegada, enxugou rapidamente as lágrimas com a barra do avental e fez-se forte.
Abraçou-o e José tentou esquivar-se lembrando do conselho médico:
Sentados na cama, seguraram as mãos um do outro e choraram.
Seu filho maior, Miguel, com quase sete anos, perguntou por que eles choravam.
A menorzinha, aparou com a ponta do dedinho indicador uma grossa lágrima do pai e beijou-o com ternura, dizendo na sua linguagem infantil:
— Papá, chora não. Eu ama você.
Pouco depois, Gustavo, o garoto, já nosso conhecido, trouxe a carta do dr. Xavier para ser entregue ao serviço médico na cidade grande.
Com os olhos pedia para entrar, mas, José foi severo com ele:
— Vá embora, Gustavo.
Não convém que você fique aqui.
— Ora, José, você sabe que eu gosto muito de você.
Deixa eu lhe dar um abraço.
— Obrigado, Gustavo.
Mas porque eu também gosto muito de você, prefiro que você não me abrace.
Vou lhe pedir uma coisa:
ajude Madalena a tomar conta das crianças.
Não deixe Miguel se meter em encrencas.
— Tá bom, José, vou cuidar dele como se fosse meu irmãozinho.
Cercado pela ternura da família, José desistiu da ideia de suicídio, não conseguindo jantar, nem dormir.
Madalena recusou-se a dormir sozinha, passando juntos aquela noite sofrida e longa.
Ao amanhecer, José conseguiu uma carona até a cidade de S. e de lá foi numa “jardineira”, até R.P., levando a carta do dr. Xavier, um bornal com pão e queijo e uma garrafinha de guaraná com café.
Depois de muito perguntar e muito andar, conseguiu localizar o Posto Médico, onde entregou a carta.
Mandaram-no sentar-se.
José estava desanimado de esperar, quando o chamaram pelo nome e o mandaram entrar no consultório.
Um homem calvo e uma mulher madura, usando longos aventais brancos começaram a examiná-lo.
Mandaram-lhe tirar a camisa e os dois iam discutindo sobre o que encontravam.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:55 pm

— Sem dúvida, é um caso Dimorfo Lepromatoso, disse a mulher.
— Tire as calças e a cueca, disse asperamente o médico.
José olhou a mulher e ficou envergonhado, ao que o médico falou estupidamente:
— Vamos, rapaz, você está nos fazendo perder tempo.
Muito lentamente José ficou nu e vários testes foram feitos com vidrinhos de água quente e fria.
Com a ponta da agulha e mecha de algodão, para testar a sua sensibilidade.
O próprio médico, com um instrumento parecido a uma caneta, raspou-lhe a pele em alguns pontos:
como orelhas, joelhos e braços, esfregando-a numa pequena lâmina de vidro.
Depois, com um estilete de ponta envolta em algodão, tirou material do nariz e esfregou em outra lâmina de vidro.
Mandando vestir-se, ordenou aguardasse novamente na sala.
A espera foi longa.
Mesmo sem fome, comeu um naco de pão com queijo e tomou o café frio que havia trazido.
Notou que um funcionário vigiava-o constantemente.
José levantou-se do banco, dirigindo-se à porta, com a intenção de dar um pequeno passeio, o que o funcionário impediu, dizendo que não podia sair.
José perguntou onde era a casinha, pois era assim que ele conhecia o sanitário e o funcionário indicou o local, ficando à porta esperando que saísse.
Algum tempo depois, ouviu-se o barulho de um carro à frente do Posto.
Entraram dois homens, um motorista e um auxiliar:
- Qual é o homem que vai para Asilo Colónia?
- É este aqui, disse o funcionário ao acompanhante do motorista.
Dr. Bueno quer falar com você e entregar os papeis da internação.
Quando José ouviu aquilo, foi como se um raio o atingisse, fulminando-o, e em desespero, implorava:
— Por favor, não façam isso comigo.
Eu preciso ir à minha casa antes.
Pelo amor de Deus.
Como o motorista ficou indeciso, o médico saiu do consultório e falou rispidamente:
— Obedeça, sem criar problemas, ou será pior para você.
José implorou:
— Doutor, eu sempre fui um homem obediente, temente a Deus e só estou pedindo para passar por minha casa.
Como é que eu vou sem roupas, sem nada.
Sem despedir da minha família e dizer para onde estou indo?
— Não me interessa, disse o médico.
Eu já fiz a minha obrigação que é a de mandar interná-lo, para evitar que você espalhe a doença.
Não tenho nada a ver com os seus sentimentos.
De repente, José sentiu um calor interno e sua respiração acelerou-se.
Sem saber por que, exclamou em tom quase patético:
— Doutor, o senhor tem dois filhos e o pequeno é aleijado.
O senhor o ama muito.
Eu peço em nome dele, eu peço em nome do Francisquinho, deixa eu ver meus filhos pela última vez.
O médico ficou aturdido com aquelas palavras, pois nem mesmo os seus funcionários sabiam que ele tinha um filho com paralisia infantil.
Se ele tivesse levado um murro na cabeça, o resultado não seria tão devastador.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:56 pm

Hesitou por alguns instantes e depois disse ao motorista:
— Pode passar na casa dele, afinal de contas, vocês desviarão poucos quilómetros do caminho.
O motorista sentiu um alívio, pois estava com muita pena do moço.
Contudo, pediu ao médico:
— O senhor precisa me dar uma autorização assinada.
O médico mandou o dactilografo bater a autorização e entrou para o consultório, dizendo que não atenderia mais ninguém naquele dia.
Quando o dactilografo levou o papel para ele assinar, ordenou trouxessem José à sua presença.
— Você me conhece?
Já viu meu filho?
— Não, senhor.
Não sei como falei aquilo.
Peço que me perdoe.
— Tudo bem. Você jura que nunca me viu antes, nem ao meu filho?
— Juro pelos meus próprios filhos.
— Está bem. Pode ir embora.
— Vou rezar por seu filho.
— Não precisa.
Não acredito nisso.
Vá, vá embora.
Passaram pela fazenda do Cel. Teodorico e foram ao ranchinho do José, apenas para que pegasse algumas coisas, visse os filhos e a mulher pela última vez.
O motorista estava com pressa e demonstrava isto claramente.
José não beijou os filhos, olhou-os com os olhos turvados pelas lágrimas e, ao despedir-se da esposa, disse convicto:
— Eu volto. Um dia eu volto pra casa.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:56 pm

Capítulo III
REENCONTRO DE AMIGOS


Nessa altura, José foi despertado das suas lembranças por uma voz alegre que entrou no corredor gritando:
— Cadê o novato de S..
— Sou eu, respondeu José, identificando a voz de quem o procurava.
Ao se verem, a exclamação foi mútua:
— Você, José!
— Você, Argemiro!
— Psiu, fez o recém-chegado.
Meu nome aqui é Rubens.
Depois lhe explico.
— Mas você não morreu?
Houve um comentário que você havia se suicidado por causa de uma moça?...
— Encontraram o meu corpo?
— Não. Claro que não!
- Então deixa que pensem.
Melhor para mim e para a minha família.
Você ainda joga futebol?
— Não. Eu parei, há quase um ano.
Não posso respirar pelo nariz.
— Mas aqui você vai jogar.
— Não vou, não.
— Vai sim, porque os desportistas têm tratamento especial.
Comida melhor, alojamento e a gente até viaja para jogar em outras colónias.
Amanhã eu vou apresentá-lo ao nosso treinador.
Quem diria, você aqui.
Puxa como você me dava trabalho nos jogos!
— Eu ainda tenho as marcas dos cravos da sua chanca (chuteiras) na minha canela.
— Quem mandou você passar a bola no meio das minhas pernas.
Os dois riram muito, Rubens convidou-o para ir ao cinema, mas ele não quis.
- Amanhã eu venho busca-lo, vou lhe mostrar tudo.
Conversaram mais um pouco e Rubens foi embora, para não perder o horário do cinema.
Pouco depois apareceu um funcionário avisando que, na manhã seguinte, viria buscá-lo para exames e para ser fichado na administração interna.
Aquela noite foi longa e sofrida.
José demorou a dormir e mais uma vez sonhou que chegava a sua casa montado num lindo cavalo, desta vez negro, com arreios prateados.
Acordou muito cedo, como de hábito, na fazenda.
Lavou o rosto, enquanto o banheiro estava quase vazio.
Ele nunca havia usado água encanada, nem se beneficiado da luz eléctrica, que ele conhecia da casa grande da fazenda.
Mais tarde, acompanhou as pessoas ao refeitório, onde o café com leite e pão era mais aceitável.
Após o café, foi procurado pelo funcionário que havia falado com ele na véspera, e levado a responder perguntas sobre ele e sua família.
Deveria apresentar documentos.
Do escritório passaram ao ambulatório médico.
Alguns exames foram marcados para os dias seguintes.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:56 pm

Ao chegar ao pavilhão, onde estava alojado, Rubens já o esperava com duas bicicletas emprestadas, iria mostrar-lhe todo o hospital.
Saíram andando devagar e Rubens foi identificando os prédios.
Aquele é o Ambulatório Médico, onde você já esteve.
Ali em frente é o prédio do cassino, onde temos o cinema, teatro e biblioteca e ainda mesas de snooker e bilhar.
E ali que fazemos os grandes bailes.
Lá atrás está a igreja católica e em todas essas casas moram pessoas casadas, ou amasiadas, mas sem os filhos, a não ser que a criança seja doente também.
Entraram por uma rua comprida com casas dos dois lados e, no final dela, um pouco mais à frente, havia o campo de futebol, e uma quadra de bola ao cesto.
Ali próximo, uma casa isolada, o necrotério, onde se faziam autópsias.
Saindo perpendicularmente ao campo, havia outra rua longa, com árvores frutíferas, especialmente mangueiras, marginando-a dos dois lados, e, ao final dela, o cemitério, com túmulos bem trabalhados, a maioria de covas rasas.
No retorno, pararam no campo de futebol, com um bom gramado.
Rubens brincou:
— E pena que não temos uma bola pra gente tirar um racha.
José já demonstrava algum cansaço.
Já se aproximava a hora do almoço.
Rubens disse ter conversado com o treinador, sr. Valentino, e este, confiando nas suas informações, mandou que levassem a sua cama e seus pertences para a casa dos desportistas.
— Esta noite você não dorme mais naquele corredor horroroso, disse Rubens, acrescentando:
vamos almoçar e depois vamos à casa do treinador, que ele quer conversar com você.
Amanhã bem cedo vamos pegar as bicicletas, vou leva-lo à zona rural.
Lá temos algumas plantações, pomares de frutas, animais como cavalos e vacas.
Havia várias casas para os desportistas solteiros, com dois quartos, sala e cozinha.
Em cada quarto, três camas.
Em cada casa havia uma cozinheira.
A comida era muito superior à do refeitório geral e o asseio era evidente.
Rubens apresentou José aos companheiros e almoçaram.
Depois pegaram as bicicletas para ir à casa do Sr. Valentino.
No caminho, passaram por um pavilhão que abrigava as crianças internadas.
À porta estavam dois garotinhos, um tinha cerca de 9 anos, cabelos ligeiramente louros e ondeados, olhos azuis muito serenos, físico mirrado, parecendo ter menos idade, fisionomia bonita, o que fez José se lembrar do seu filho Miguel.
Pararam um pouco para conversar.
José percebeu que os dedos das mãos do menino eram enrolados de encontro a palma da mão4 e os seus pés tinham as pontas caídas, o que o obrigava a erguer muito o pé e jogá-lo para a frente, para poder andar.
Na gíria hospitalar, esse modo de andar chamava-se “jogar o pé”, em outros hospitais possuía o sugestivo nome de “bater banha”.
Na linguagem médica, “marcha escarvante”.
— Você é o novato que é craque de bola? - perguntou o menino maior.
Antes que José respondesse, Rubens se adiantou:
— É ele sim. Ele é muito bom.
Vá assistir ao treino sexta-feira e então você vai ver como ele é um craque.
— Como é seu nome? - perguntou José.
— Cristiano, e este é o meu irmãozinho Danilo.
Ele tem só quatro anos.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:56 pm

José ficou em silêncio, perguntando a si mesmo o porquê de aquelas crianças estarem ali internadas.
Questionou Deus e duvidou da sua existência.
Rubens, vendo-lhe o rosto preocupado, procurou distrair as crianças, fazendo algumas palhaçadas.
Saindo dali, Rubens falou muito sério com José:
— Temos umas 70 crianças entre meninos e meninas, alguns em péssima situação de saúde, inclusive um garotinho que se chama Geraldinho, agonizando há dias.
Não queira ser mais que Deus, pois há momentos neste lugar esquecido do mundo, em que só temos Ele.
Chegaram à casa do treinador e Rubens foi entrando muito alegre e brincalhão, chamando pela dona da casa:
— Onde está minha namorada favorita?
Dona Florinda, cadê você?
— Entra, Rubens.
Estamos aqui na área dos fundos, está mais fresco.
Vem tomar um copo de limonada com gelo.
— Nada como a posição social? - brincou Rubens.

4 - Atrofia em forma dc garra.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:56 pm

Capítulo IV
NASCER DE NOVO? COMO?


Rubens beijou Dona Florinda no rosto e apresentou José ao casal.
O treinador era um homem de meia altura, um pouco gordo, pele vermelha e cabelos ruivos, um ar paternal e todos reconheciam que ele tinha psicologia toda especial para lidar com jovens desportistas.
A princípio, a conversa ficou convencional, mas aos poucos José foi ficando à vontade; falando da sua vida, contou que, por ter físico forte, aos 16 anos jogava no segundo time da fazenda e, em menos de um ano, já era titular.
Rubens afirmou ser sempre um tormento jogar contra ele e, por mais que caprichasse na marcação, José marcava um ou dois golos.
Quando a conversa foi sobre a família, os olhos de José se entristeceram.
Ele falou da mulher e dos filhos com muita emoção.
Disse que não compreendia o porquê da crueldade da vida.
Narrou como o dr. Xavier descobriu que ele era doente, ao consertar o seu carro e queimar o braço no motor.
Nunca foi muito religioso, mas acreditava em Deus.
Agora, guardava sérias dúvidas sobre sua existência.
— Creio que nunca fiz mal a ninguém, posso ter tido os meus pecados, mas quando vi, hoje aquele menino chamado Cristiano, e o outro pequenino, seu irmãozinho, francamente, não posso acreditar na bondade de Deus.
— Você já ouviu falar em reencarnação? - perguntou a esposa do treinador.
— Pronto, lá vem você com as suas ideias de Espiritismo - atalhou o marido.
— Não, dona.
Não sei o que é isso não - foi a resposta de José.
— São pessoas que acreditam que nascem mais de uma vez - acrescentou Rubens.
— Não pensamos, disse dona Florinda, mas a reencarnação é uma realidade.
Não é possível entender o mundo sem a reencarnação.
Quem pode explicar por que você é lavrador e ficou leproso, enquanto o tal Cel. Teodorico é muito rico e não tem nenhuma doença?
Será que Deus gosta mais dele do que de você?
— Acho que sim, respondeu José.
Isto é, se existe um Deus.
— Não, rapaz, certamente você cometeu crimes em outras vidas, outras reencarnações e agora está pagando.
A justiça de Deus é perfeita, acrescentou a mulher.
Era uma visão simplista da lei de causa e efeito, que vai muito além de pagar dívidas, mas, com certeza, impressionou o novato.
— Chega, mulher.
Você está aborrecendo o moço.
— Não, sr. Valentino não me aborrece não, estou achando muito interessante essa explicação.
Só que eu não me lembro de ter vivido antes.
- Ninguém se lembra pois a misericórdia de Deus faz que esqueçamos o que se passou em outras vidas.
— Mas não seria melhor lembrar?
Todo mundo que esquece uma dívida, fica aborrecido quando é cobrado.
— Não, meu filho, disse carinhosamente dona Florinda.
Se soubéssemos o que fomos, com quem vivemos e o que fizemos uns contra os outros, a vida em família e em sociedade seria um pandemónio.[


Última edição por Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:59 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:58 pm

Procurando mudar o rumo da conversa, que não o agradava muito, o treinador começou a falar sobre a vida no Asilo Colónia.
Aconselhou José a não se ligar aos traficantes de bebidas e às prostitutas.
— Infelizmente, existem essas duas coisas aqui.
Há pessoas que fogem e vão às cidades próximas para comprar cachaça, conhaque e outras bebidas alcoólicas e vendem muito caro.
Como sempre, encontram compradores, ficam cada vez mais ousados.
Quando são apanhados pelas autoridades do hospital, são presos e removidos para outro Asilo Colónia mais distante.
Fique longe deles, aconselhou o Sr. Valentino.
- Eu não bebo, sr. Valentino.
— O Asilo Colónia é uma pequena cidade fechada.
Temos nosso prefeito, delegado, polícia e uma cadeia com grossas barras de ferro.
Aí são encarcerados os fugitivos recapturados ou que retornam espontaneamente, também os indisciplinados, os que se embriagam e causam problemas, continuou o treinador.
— Temos também a Caixa Beneficente, acrescentou Rubens, criada para ajudar os doentes mais pobres, mas que pouco fazem pelos que precisam.
Como o Estado não pode receber donativos, a Caixa Beneficente trata de fazê-lo.
— Elas foram criadas com muito boa intensão, mas o facto de o director de o hospital ser o presidente de verdade e os pacientes tirarem proveito político e social, ao ocupar o cargo de presidente, as finalidades principais foram desvirtuadas, completou Rubens.
— Os desportistas têm algumas regalias, porque os directores das colónias mantém forte rivalidade nos desportos, interveio novamente o treinador.
— Nas casas como a nossa, moram casais que já vieram de fora casados, ou se casaram aqui dentro.
Há alguns casos em que o marido ficou doente e a mulher, sadia, internou-se também para cuidar dele.
Mas os filhos, estes não podem morar com os pais, a não ser quando são doentes também.
— Você já conhece os grandes pavilhões colectivos.
Por estarem internando muita gente, os corredores estão cheios, mas já estão construindo pavilhões tipo Carville5, onde vão morar os solteiros e os que, embora casados, estejam sozinhos aqui.
Do outro lado, fica a ala feminina, igual à masculina.
Ao todo somos mais de duas mil pessoas.
Umas duas mil e quinhentas talvez, disse o treinador.
— Temos escola para as crianças, completou Rubens.
Temos o cinema, cujo prédio você já viu, salão de baile, biblioteca com muitos livros e recebemos jornais das grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
— Deve ter muito funcionário para tocar todo esse serviço.
— Quase todo o serviço é feito pelos doentes, inclusive o serviço de enfermagem.
Temos a zona rural, oficinas, açougue, cozinhas, manutenção, armazéns, frota interna, escritórios, quase tudo.
O Governo do Estado nos paga por uma folha de laborterapia, que quer dizer, a cura pelo trabalho, mas é uma pequena gratificação e os pagamentos atrasam muitos meses.
Com os doentes trabalhando, nas outras Colónias, o Governo economiza muito dinheiro, pois se colocasse funcionários públicos em todas as funções, precisaria de centenas de funcionários.
— E quem fornece a alimentação para todo esse pessoal?
— E o governo estadual.
A cada 15 dias é distribuída uma etapa ou quinzena, com alimentação suficiente para cada residência, pois os que moram nos pavilhões comem no refeitório geral e, no restaurante da Caixa Beneficente, os que podem pagar.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:58 pm

— E visitas? Podemos receber visitas? - perguntou José.
— Sim. Mas elas ficam no parlatório.
Os doentes de um lado e a visita sadia do outro, com aquele muro largo e alto separando-os.
Nada de abraços, nada de beijos, esclareceu dona Florinda.
— Mas aqui ao menos podemos tocar as mãos.
Noutras colónias há dois muros separados um do outro por um espaço de mais de um metro e, nesse espaço, ficam guardas para evitar que haja contacto entre o paciente e os visitantes, disse Rubens.
Eu nunca vi, mas dizem que há Colónias em que colocaram uma chapa de vidro muito alta que não permite que se passem objectos de um lado para o outro.
— Temos também um correio interno.
Quando você escrever para a sua casa, não cole o envelope, coloque a carta aberta na caixa do correio, porque ela vai ser censurada e desinfectada, informou Rubens.
— Censurada?
O que é isto? - perguntou José.
— A sua carta é lida por um funcionário e se você falar mal do hospital, da comida, de alguma autoridade hospitalar, mesmo que doente, como o prefeito, o delegado, a carta volta com ordem para recolhê-lo à cadeia, esclareceu dona Florinda.
— Pouco a pouco você irá se acostumando com a vida fechada daqui.
Se você tiver a sorte de ir disputar algum jogo no Padre Bento, lá em São Paulo, você vai conhecer um médico humanitário, dr. Lauro de Souza Lima.
Ele sempre concede uma licença para a gente ir até a cidade de São Paulo passear, disse o treinador, apoiado pelo Rubens.
— Andando de bicicleta com o Rubens, vi duas senhoras grávidas.
O que acontecerá com as crianças?
— Na sala de parto, o médico ou a parteira mostrará a criança para a mãe, e dirá se é menino ou menina.
A mãe não terá o direito de pegá-la ao colo ou beija-la.
Embrulhada pela enfermeira sadia, será entregue aos familiares sadios se eles vierem buscá-la.
— Senão?
— Senão será levada para uma creche do Estado e posteriormente para um preventório.
Muitas nunca verão os pais.
Dona Florinda fez mais uma gostosa limonada gelada e, depois de servir o refresco, levou José ao quintal, para ver os seus canteiros de almeirão, cebolinha e rúcula.
José elogiou a cultura, deu alguns conselhos, mas logo estava com a enxada nas mãos, providenciando algumas coisas, para melhorar os canteiros.
Como quase todas as casas, a do treinador tinha, também, um pequeno galinheiro com dois géneros, Leghornes e Rod Island, muito boas poedeiras.
Logo, Rubens o chamou para irem embora, ficando combinado que José participaria do treino da sexta-feira.
O treinador recomendou a Rubens que o levasse no dia seguinte para experimentar o material desportivo.
Ao despedir-se, o treinador disse que falaria com um amigo, chefe da oficina mecânica interna, para lhe dar emprego.
— Gostei muito de você, disse o sr. Valentino a José, dificilmente me engano ao avaliar alguém.
— Agradecido, muito obrigado pela acolhida.
Os dois moços montaram nas bicicletas.
Rubens sugeriu fossem verificar suas coisas no corredor do pavilhão.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 12, 2016 12:58 pm

Lá chegando, foram informados, de que já tinham levado a cama e a mala para a casa dos desportistas, por determinação do sector de alojamentos.
Rumaram então para o novo endereço do novato.
Uma vez no alojamento, foi apresentado aos demais.
Um tanto sem jeito, José chamou Rubens de lado e perguntou:
— Onde posso conseguir uma bacia para tomar banho ou será que tem alguma lagoa ou rio aqui por perto?
Rubens não pôde deixar de rir, levou-o ao banheiro, mostrou como funcionava o chuveiro.
Deu-lhe um sabonete e explicou que deveria ter uma toalha e roupa limpa.
Após o banho, jantaram e mais uma vez Rubens convidou-o para ir ao cinema.
Apesar da curiosidade de ver o que era um filme, nunca tinha assistido a algum, preferiu não ir, queria dormir cedo, pois na manhã seguinte teria que fazer vários exames.
Quando Rubens retornou do cinema, encontrou José ainda acordado, mas ele não queria conversar, por estar muito triste, com muita saudade da família.
Só muito tarde conseguiu dormir e mais uma vez sonhou que chegava à sua casa, no seu ranchinho coberto de sapé, montando um lindo cavalo, mas o rancho estava vazio, o lume do fogão apagado e ele ouvia gemidos e choro sem ver ninguém.

5 - Modelo de pavilhões copiados do Hospital de Carville, dos Estados Unidos.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:55 am

Capitulo V
QUEM JÁ FOI CRAQUE...


Com alguns dias de internamento, José arriscava-se a entrar numa fase aguda de tristeza, que modernamente chamamos de depressão.
A saudade era imensa.
Sentia uma falta terrível dos filhos e da esposa e também da sua liberdade.
José era um caboclo muito trabalhador, madrugava com alegria para trabalhar e apreciar, por um instante, o nascer do sol, iluminando primeiro o cabeço dos montes, para, depois, espraiar-se na campina, em reverberações de luz.
Era maravilhoso ver a luz do sol reflectida no espelho d’àgua do açude.
Quantas vezes, após o amanho da terra, ficava no campo molhando-se com as primeiras chuvas, encharcando-se das esperanças de uma vida melhor, embora o lucro fosse apenas para o patrão.
Ele já entrara em contacto com enfermos que viviam num pavilhão que os próprios chamavam de “ferro velho” e constatara os terríveis efeitos da doença, inclusive em crianças.
Sentiu um estranho pesar, ao ver pequenos deformados, cegos, ulcerados, mãos em forma de garra, nenhuma sensibilidade táctil.
Muitas vezes usavam a língua para encontrar uma colher, ou um alimento colocado displicentemente por algum funcionário sobre o criado mudo, geralmente nada limpo.
José lembrou-se de, um dia, ter assistido a uma missa e o velho pároco tecer um inflamado sermão, descrevendo os tormentos do inferno.
Com certeza, pensou, o pároco nunca viu um Asilo para leprosos, porque assim e teria uma melhor ideia do inferno.
Para cumprir a lei da internação compulsória para os leprosos, o governo determinou medidas drásticas.
Lares foram invadidos, mulheres separadas dos maridos, filhos se tornaram órfãos de pais vivos.
Maridos ciumentos viveram o inferno, fechados nos asilos, sem poder vigiar suas esposas, desconfiando sempre da infidelidade.
Jovens que começam a despontar para o sucesso profissional, viram suas carreiras derrubadas antes de decolar.
No asilo, havia um jovem muito inteligente, um verdadeiro intelectual, casado há pouco tempo.
Foi separado da esposa e da filhinha recém-nascida.
Mergulhou no álcool, passando a maior parte do tempo embriagado, para amortecer a dor.
Quando a esposa ia visitá-lo, recusava-se a comparecer ao parlatório, e, nos domingos, bebia muito mais.
Chegou a tornar-se um farrapo humano, moralmente falando, mas manteve-se em boas condições de saúde.
Futuramente, curado pela sulfona, se reabilitaria retomando o trabalho intelectual, publicando muitos livros e desenvolvendo qualidades morais extraordinárias e belíssimas faculdades mediúnicas.
Ele, um ex-hanseniano, dedicou-se então a orientar e consolar pessoas de todas as classes sociais.
Embora fosse um simples roceiro, José percebia facilmente que ali, naquele lugar triste e esquecido, muitos desceram pelo declive da imoralidade.
A doença física destruía-lhes os corpos e a doença moral aniquilava-lhes a alma.
Finalmente, chegara o grande dia da apresentação como jogador de futebol.
Em tomo do campo havia uma pequena multidão de curiosos, para ver o craque a quem Rubens elogiava tanto.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:55 am

Ele entrou com os demais, já uniformizado, e, como não havia nenhum jogo programado, o treino obedecia a uma interessante disposição.
Linha contra defesa.
Isto é, a linha atacante titular formava com a defesa reserva, menos o goleiro, vice-versa, portanto, José não jogaria contra o Rubens.
Alguns assistentes faziam piadas com o porte físico de José e achavam que ele era um perna de pau (jogador ruim), mas isso até jogarem a bola em sua direcção, enquanto se aqueciam.
José amorteceu-a com muita classe, controlou-a algumas vezes com os dois pés e depois rolou-a maciamente para um dos companheiros.
Neste momento, José viu o garotinho Cristiano vir correndo para o seu lado, de uma forma grotesca, pois tinha que jogar os dois pés para frente e muito alto para não tropeçar.
José abaixou-se para cumprimentá-lo e o garotinho disse:
— Puxa vida, acho que você é bom mesmo.
Boa sorte, tá bom?
— Vou marcar um golo para você e para o seu irmãozinho.
O goleiro é bom?
— É sim. E tem uma sorte danada, disse o garotinho.
O treinador assoprou o apito para chamar os jogadores para o início do treino e disse que não toleraria violência:
— O director médico veio assistir ao treino.
Dêem um bom espectáculo.
Não se esqueçam quem escala o time sou eu.
José vai entrar no primeiro tempo porque o director quer vê-lo em acção, por não poder ficar até o final do treino.
Instantes depois começou o jogo-treino e os companheiros de José evitavam passar ele a bola, embora estivesse sempre bem colocado.
De repente, esticaram uma bola em sua direcção e esforçando-se para alcançá-la, faltaram-lhe pernas, devido à longa inactividade.
Houve um início de vaias, que logo silenciou, porque a bola veio a ele em boas condições, dominando-a, girou o corpo, tirando o adversário da jogada, e rolou a bola açucarada para um companheiro que entrou livre na área, sem marcação, chutando para fora.
Até à metade do primeiro tempo de jogo, José recebeu poucas bolas, mas, distribuiu-as com perfeição.
Seu marcador começou a endurecer o jogo, fazendo faltas seguidas, algumas violentas.
Como a linha do primeiro time era muito boa, já tinham marcado dois golos.
Rubens rebateu uma bola para o meio do campo em direcção a José, este reuniu todo o fôlego e, com um jogo de corpo tirou dois adversários da jogada, avançou mais uns trinta metros e viu quando os dois extremas fecharam para a área.
Ele ameaçou rolar a bola para extrema-direita, girando rapidamente o corpo colocou o ponteiro esquerdo na cara do goleiro e este só teve o trabalho de empurrar a bola para dentro.
Ele foi muito aplaudido pela torcida e os companheiros vieram cumprimentá-lo.
Daí para frente, todos queriam passar a bola para ele, que a todo instante recebia botinadas do seu marcador.
Suas passadas eram largas e firmes.
Esticaram-lhe uma bola e ele deu dois dribles secos no seu marcador, que caiu sentado.
Ao levantar a cabeça, ele viu o Cristiano atrás do goleiro e resolveu tentar chegar até a área, embora o fôlego estivesse curto.
Os dois ponteiros fecharam novamente a partir do bico da área, os marcadores procuraram fazer a cobertura para impedir que os extremas recebessem a bola, José, no entanto, passou o pé por cima dela para enganá-los, o goleiro adiantou-se para cobrir a visão do atacante e, num toque subtil, ele o encobriu e a bola aninhou-se mansamente no fundo da rede.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:55 am

A torcida explodiu em aplausos, pedindo que o treinador o colocasse no time titular.
Rubens veio cumprimentá-lo e Cristiano saltava e gritava alegremente.
O cansaço já tomava conta de José e as pernas já não obedeciam ao raciocínio.
Já mais lento, sofreu uma falta violenta do seu marcador.
Alguém disse para deixar o novato bater.
A bola foi colocada a dois metros da meia-lua.
José ajeitou-a carinhosamente.
O goleiro, irritado, posicionou a barreira e disse que tiraria de cabeça se ele acertasse o golo.
José ficou a curta distância da bola.
O treinador assoprou o apito e José, com um golpe seco, colocou a bola no ângulo superior esquerdo do golo.
O goleiro ficou estático, sem se mexer.
A torcida exultou.
Na primeira bola que voltou aos seus pés, o seu marcador atingiu-o violentamente.
Rubens partiu para cima do zagueiro e foi preciso muito esforço para impedir que ele o agredisse.
José ficou assustado, porque os cravos da chuteira do seu marcador rasgaram-lhe a canela, mas ele não sentia dor.
O treinador expulsou o zagueiro que saiu muito bravo, achando que não fizera nada de mal, substituindo José para evitar o agravamento da contusão.
Ele saiu mancando para não demonstrar que sentira a pancada, embora a perna estivesse formigando.
Cristiano veio correndo abraçá-lo e logo estava cercado por mais de dez meninos que o festejavam.
Vieram, então, dizer que o director queria vê-lo.
Levaram-no até ao médico, que lhe disse:
— Meus parabéns.
Você parece ser um craque.
Está meio fora de forma, um pouco gordo, mas o Valentino dará um jeito nisso.
Vai cuidar dessa perna para não infeccionar.
Agradecido Doutor.
Se eu pudesse respirar melhor...
Logo a seguir um paciente magro, usando óculos e macacão azul sujo de graxa aproximou-se dele e perguntou:
— Você é o mecânico de que o Valentino me falou?
— Sim. Mas eu não sou mecânico.
Aprendi um pouco na fazenda, esclareceu José.
— Tudo bem. Você pode começar amanhã cedo.
O salário é pequeno mas ajuda.
Só não gosto dessa coisa de futebol.
Uma besteira, só para tirá-lo do trabalho duas vezes por semana.
Mas o Valentino não abre mão.
Nos dias seguintes, só se falava no desempenho do moço da cidade de S.
Os que não foram vê-lo no primeiro treino disseram que não perderiam os próximos.
A partir desse dia, uma pequena multidão acompanhava os treinos.
José continuava no segundo time, recuperando pouco a pouco a sua melhor forma física, mas a dificuldade de respirar pelo nariz era um obstáculo difícil.
Havia um garoto de uns 17 anos que treinava, de quando em quando, entre os adultos e a primeira vez que foi colocado ao lado de José, os dois se entenderam perfeitamente.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:56 am

O garoto era um goleador nato e, com os passes de craque, ele fazia dois, três ou mais golos em cada treino.
O treinador resolveu colocar o primeiro time completo contra o segundo, e José e Dorival estraçalharam o treino, marcando dois golos cada um, vencendo por 4 a 3.
Só meses depois José passaria para o primeiro time.
Isso foi quando houve um jogo com outra Colónia.
José e Dorival deram um show na preliminar e o segundão goleou o adversário por seis golos a zero.
Terminado o jogo, o treinador, que tirara José na metade do segundo tempo, disse que ele ficaria na reserva, para entrar no segundo tempo do jogo principal, como titular.
O jogo estava muito difícil e empatado, embora o adversário fosse considerado inferior ao time da casa.
José entrou e desequilibrou o jogo fazendo dois passes perfeitos que redundaram em dois golos, dando a vitória ao time local.
Daí para frente foi titular absoluto do primeiro time, juntamente com o garoto Dorival.
As horas de trabalho na oficina e as horas de práticas esportivas traziam alguma tranquilidade e esquecimento a José.
As horas nocturnas eram pesadas, lentas, havia uma dor imensa em seu coração.
Ele não tinha o hábito de orar, embora tentasse conversar com Deus ou qualquer ser superior que existisse.
Antes de dormir, dizia invariavelmente:
Boa noite, Rosalinda; boa noite, Guilherme; boa noite, Miguel; boa noite, Madalena.
Não poucas vezes lá no ranchinho de adobe, chão desnudo, camas feitas de paus trançados, colchões de palhas de milho, uma das crianças dizia:
boa noite, papai. Durma Deus.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:56 am

Capítulo VI
SONHOS DE AMOR


Recuemos ao passado.
Algum tempo depois que José foi levado para o Asilo Colónia, médicos do Departamento de Profilaxial da Lepra, sediados em R.P. vieram à fazenda examinar a mulher e os filhos do José e alguns colonos que tinham maior contacto com ele, inclusive o menino Gustavo.
Colheram material e depois de algum tempo comunicaram ao fazendeiro que mais ninguém estava contagiado.
Depois de quase um mês da partida de José, dona Madalena recebe a primeira carta do marido, contando tudo o que lhe acontecera e que ele estava trabalhando como mecânico, logo, poderia mandar algum dinheiro para ela.
Mandou também o endereço para ela escrever, uma caixa postal da cidade C.B.
Com a carta na mão, já borrada com as suas lágrimas, Madalena começou a recordar como conhecera José.
Foi num jogo de futebol em que a fazenda na qual seus pais eram colonos, na cidade de C. disputara contra a fazenda do Cel. Teodorico.
As moças da fazenda e da cidade cercavam José de todas as maneiras.
Ela também se apaixonou e jurou casar-se com José.
Enquanto todas as jovens solteiras cercavam o jogador, numa festa promovida pelo dono da fazenda, Madalena, com um lindo vestido de chita estampado e uma rosa branca presa com um grampo ao cabelo, olhava-o de longe, como se não estivesse interessada.
Por várias vezes ela o surpreendeu olhando-a.
Foi então que ousou um pouco mais.
Ele estava numa roda de amigos e admiradoras explicando como se livrara de dois zagueiros para marcar o seu terceiro golo.
Ao fazer um movimento brusco, ela se aproximou como se estivesse passando casualmente, ele afastou-se para simular o chute, batendo contra ela e jogando-a ao chão.
Imediatamente procurou levantá-la, pedindo mil desculpas, apanhando do chão a rosa que se desprendera de seus cabelos, levando-a aos lábios antes de devolvê-la.
Madalena brindou-o com um lindo sorriso.
Seu corpo era esbelto, tipo miúdo, cintura fina, dentes perfeitos e brancos como canjica, olhos negros como a noite e a pele cor de jambo.
— Você irá ao baile hoje à noite? - perguntou José.
— Sim. Irei sim.
— Dançará comigo?
— Talvez.
Dançou sim e somente com José.
Quando sua mãe chamou-a para ir embora, eles estavam completamente apaixonados.
Aquela madrugada foi longa.
Madalena em sua casa e José no alojamento da fazenda, ficaram acordados ouvindo o coaxar dos sapos e das rãs e o cantar dos galos.
O pouco que dormiram foram sonhos maravilhosos e simples.
Ambos sonharam que estavam casados e viviam muito felizes.
O namoro foi curto.
O casamento foi na capela da fazenda onde os pais de Madalena eram colonos.
Não tiveram lua-de-mel, apenas um ranchinho com paredes de adobe e coberto de sapé.
Móveis, apenas o essencial.
Uma cama rústica de casal, uma mesa, duas cadeiras de palhinha, um banco feito pelo próprio José.
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