Chão de Estrelas

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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:56 am

Um fogão de tijolos e barro, algumas panelas e cuias serradas longitudinalmente serviam como prato.
Também um pote de barro para água.
Passaram o domingo fechados no ranchinho e, na segunda-feira, José já estava na lavoura, ansiando pelo pôr-do-sol, para ter a sua amada nos braços.
Dez meses depois nascia Miguel.
Depois vieram mais dois, o Guilherme e a Rosalinda, que mais parecia um anjo.
Menina muito frágil, exigia muita atenção e carinho.
José e Madalena formavam um par perfeito. Nunca brigaram.
Nunca se maltrataram, pareciam estar numa eterna lua-de-mel, até que aquela doença desgraçada veio interferir nas suas vidas.
Madalena, com o tempo ficara ainda mais bonita.
Ela atraia a cobiça dos homens e desde que José fora levado, mais de um lhe declarara ardente amor, sendo repelidos energicamente.
Mesmo antes de José ter sido segregado no Asilo, o sr. Waldemar, irmão do Cel. Teodorico, administrador da fazenda, já a olhava, cobiçando-a.
Não poucas vezes ela baixara os olhos, envergonhada pelo assédio daqueles olhos de serpente.
Assim que José foi levado embora, ele se tornou mais ousado.
Primeiro foi vê-la, para dizer que ela poderia continuar morando no rancho, contudo, deveria trabalhar na lavoura para justificar a sua permanência.
Tomando as mãos da mulher entre as suas, disse:
— Não sei como você vai aguentar a enxada.
Essas mãos de fada não foram feitas para isto.
Basta uma palavra sua, um sim e você não precisará ir para a lavoura.
Ela puxou a mão bruscamente e disse:
— Eu vou para a lavoura com a enxada do José.
É só dizer onde devo começar.
Irritado, o administrador gritou:
— Você vai colher café.
Apresente-se às 6 h no campo norte.
O homem foi embora e Madalena chorou, pois isto significava deixar os meninos sozinhos.
Só quem já viu a colheita manual do café, pode fazer ideia do sofrimento daquelas mãos, embora não fossem de uma dama ociosa, não eram bastante grossas para colher os grãos de café.
Aos poucos foi se acostumando e, com a ajuda de vizinhos, conseguia fazer com que Miguel fosse à escola rural, cuidasse das crianças e da casa.
Miguel e Guilherme eram muito sadios, mas Rosalinda era frágil como o seu nome.
Algumas vezes, Madalena tinha que improvisar um berço e levá-la para a lavoura, onde conseguia algum tempo para cuidar dela.
Não podia recorrer aos seus pais, porque a mãe havia morrido, e o pai, picado por uma cobra urutu, ficara completamente paralítico e quase cego, vivendo com a sua única irmã, que também era pobre.
O administrador continuava assediando.
Cada vez mais apaixonado, ficava mais ousado.
Naquele começo de noite chegou com o seu cavalo, apeou e entrou na casa sem ser convidado.
Mulher, deixa de ser cruel.
Eu preciso de você.
Durma comigo uma noite, uma só noite e eu faço de você uma rainha.
Madalena esquivava-se como podia e ele ia apertando o cerco.
Não adiantava mandá-lo embora, nem reclamar com o Cel. Teodorico, porque ele não ligava para o que seu irmão mais novo fazia.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:56 am

Eu só tenho um homem na vida, seu Waldemar.
O José é o único homem que eu amo.
- Você não precisa me amar.
É só se entregar a mim e eu serei o homem mais feliz da terra e do céu.
— Jamais trairei o homem com quem sou casada.
— Você não é mais casada com ele.
Você é viúva dele, pois de lá do leprosário ninguém sai.
Lá é o inferno.
Eu tenho um amigo que trabalha na administração do asilo e ele me contou que os que não morrem podres pela doença, se suicidam.
Todos os dias há suicídios naquele lugar que Deus esqueceu.
Com certeza o seu querido José já deve ter se enforcado.
Madalena perdeu o controle e gritou:
— Ponha-se daqui para fora, miserável.
Como Rosalinda começou a chorar e Guilherme estava muito assustado, achou mais prudente ir embora.
Três dias depois, voltou, pedindo perdão pelo que falara, reiterando o seu amor, o seu desejo.
Miguel sentara-se na sala, tentando vencer o sono e querendo inibir a acção do administrador.
Tonto de sono, o menino resistiu, enquanto podia, mas acabou dormindo sobre a mesa.
Madalena pediu para o administrador ir embora, pois já eram nove horas e ela tinha que levantar muito cedo para trabalhar.
— Diga sim, mulher, diga que me aceita e eu coloco você numa casa com assoalho, forro, água encanada e empregadas para servi-la e a seus filhos.
— Por favor, vá embora.
Tenho que pôr Miguel na cama.
Madalena pegou o menino no colo e entrou no quarto para acomodá-lo, acreditando que o homem teria um pouco de pudor e não entraria no quarto de uma mulher sozinha e indefesa.
No entanto, ele a seguiu.
Tão logo viu sob a luz da lamparina que Miguel estava dormindo na cama, fez uma apaixonada declaração de amor a Madalena.
Esta pedia pelo amor de Deus que fosse embora.
Após um tempo mais ou menos longo, ardendo de desejos, ele agarrou a mulher e jogou-a sobre a cama.
Deitou-se sobre ela e começou a beijá-la como um louco.
Colou os seus lábios nos lábios de Madalena e forçava para abri-los.
Ela resistia.
Repentinamente, ele rasgou-lhe o vestido e a combinação.
Apertando-lhe o pescoço com uma mão, com a outra arrancou violentamente suas roupas íntimas.
Como Madalena ainda tentasse resistir, ele esmurrou-a fortemente e Madalena sem forças, apenas exclamou:
— Mãe santíssima, me socorre.
Neste momento o administrador ficou ajoelhado sobre a cama, para tirar o cinturão e abrir a calça , quando se dispunha a consumar o ato nefando, Madalena com os olhos esbugalhados gritou:
Pelo amor de Deus, Miguel, não faça isto.
O homem olhou para trás com o canto dos olhos e viu o pequeno vulto do menino com um punhal na mão pronto para enterrá-lo em suas costas.
Na posição em que ele estava, deu um tremendo golpe com as costas da mão na boca do menino, que foi atirado longe, deixando cair o punhal que fora de seu pai.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:57 am

Com incontida ira, o homem resolveu continuar batendo no menino.
Madalena, reunindo todas as suas forças, pegou o punhal, que caíra próximo, e encostando sua ponta na garganta do famigerado homem, disse, com firmeza inaudita:
- Saia! Ou deseja experimentar minha coragem?
Como os covardes são valentes apenas quando estão em vantagem, o administrador gaguejou uma desculpa e foi embora.
Alguns vizinhos, percebendo o que se passava, criaram coragem e vieram em socorro da infeliz mulher.
Naquele mesmo instante, a quilómetros de distância, José começou a sentir-se muito mal, sem nenhuma explicação, logo pensando que alguma coisa ruim estava acontecendo com sua família.
O sr. Waldemar passou pelo vexame de sair da casa arrumando as calças, e com um punhal quase espetado na garganta.
Xingou os colonos, ameaçando-os.
Montou o cavalo, saindo em disparada rumo à sede da fazenda.
As mulheres logo socorreram Madalena, praticamente nua, enquanto os homens socorreram o pequeno Miguel, tentando fazê-lo voltar a si, pois, com a força do golpe e a desigualdade física, ele desmaiara.
Seu Totico, o mais velho dos colonos, disse que iria até a sede da fazenda, pois uma serpente venenosa como o administrador, deveria estar fazendo intrigas para prejudicar Madalena e os que vieram em seu socorro.
Foram a pé e, quando chegaram à casa grande, viram a luz do escritório acesa.
Seu Totico quis entrar, mas, ao atravessar a varanda, foi impedido por um guarda-costas do coronel.
Se desse mais um passo, atiraria para matar.
— Pode atirar, porque eu vou entrar, disse firmemente o velho colono de 73 anos.
Talvez pela idade do colono, talvez pela sua firmeza de carácter, o jagunço titubeou e o coronel gritou lá de dentro:
— Deixa passar, Caetano.
Deixa todo mundo entrar.
Logo, os colonos entraram e respeitosamente cumprimentaram o coronel.
O administrador fez mil inventivas contra eles, dizendo que lhe prepararam uma armadilha.
Seu Totico pediu para falar, o que o coronel consentiu.
Contou tudo o que vinha se passando, como dava as piores tarefas para dona Madalena, com o intuito de dobrar a sua resistência.
O administrador jurou que era tudo mentira, até que ouviram um barulho de carroça e a filha do Seu Totico entrou com o menino ainda sangrando pela boca e nariz.
Waldemar ficou pálido e começou a gaguejar.
O Cel. Teodorico chamou o seu capanga e deu a seguinte ordem:
— Caetano, leve esse cafajeste para a casa dele e ponha guarda, para que ele não saia até amanhã cedo, quando ele deixará a fazenda para sempre.
Não quero vê-lo nunca mais, ou mando castrá-lo, já que, por ser meu irmão, não posso mandar matá-lo.
A seguir, agradeceu a interferência do seu Totico e mandou dizer a Madalena que não fosse trabalhar na manhã seguinte, porque ele iria à sua casa para conversar com ela e levar o menino ao médico e ao dentista, na cidade de S.
Pela manhã o coronel chegou à casa de Madalena com seu carro Ford, pediu licença e entrou, procurando tranquilizar a mulher, ainda muito assustada.
Pediu notícias do José e aceitou o cafezinho que ela acabara de coar.
Pediu licença, para levar o menino à cidade, para ser examinado e disse-lhe que, a partir do dia seguinte, pois naquele poderia descansar, teria tarefas mais brandas.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:57 am

— Eu não tenho um vovozinho.
O senhor não quer ser meu avô, disse a pequena Rosalinda, subindo em seus joelhos.
A mãe ralhou com ela, mas o velho interveio dizendo:
— Pois bem, de agora em diante vou ser seu avô, já que meus filhos não me deram, ainda, nenhum neto.
A promessa seria esquecida em pouco tempo, pois que valeria uma promessa a uma criança de três anos, filha de colonos da fazenda?
Ao sair, o Coronel cruzou com o seu Totico e disse-lhe:
— Até que eu contrate outro administrador, você toma conta de tudo na plantação e na criação.
Logicamente você vai ganhar de acordo com o cargo.
Se quiser, pode mudar para a casa da administração.
— Muito agradecido coronel.
Aceito o cargo porque sei que posso dar conta dele, mas prefiro continuar morando no meu rancho, com o meu pessoal.
O ex-administrador saiu bem cedo para não passar mais vergonha, jurando vingança contra dona Madalena e o seu Totico.
Tempos depois, souberam que conhecera uma bailarina de circo, que passava pela cidade e, apaixonado, resolveu acompanha-la.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 13, 2016 11:57 am

Capítulo VII
A LICENÇA MÉDICA


José adaptara-se à rotina da vida na Colónia.
Sua maior alegria era ler as cartas que chegavam da sua casa.
A mais recente era de Miguel, que, orgulhoso contava que já estava no segundo ano da Escola Rural e gostava muito da sua professora.
Gustavo era seu grande amigo.
Juntos caçavam passarinhos, montavam arapucas, pescavam e andavam a cavalo.
Rosalinda andava muito doente e, às vezes, via a mãe chorando perto do berço.
José trabalhava muito e o salário, ou melhor, a gratificação era muito pequena, mesmo assim ele enviava quase tudo para a esposa.
Enquanto muitos doentes se divertiam indo ao cinema, jogando carteado e frequentando bailes, inclusive confeccionando fantasias para participar dos bailes carnavalescos, José trabalhava e jogava futebol.
Tentou aprender a jogar Bola Ao Cesto, mas não tinha jeito para esse jogo.
Vez que outra ia ao pavilhão dos meninos, onde era muito estimado, especialmente por Cristiano e seu irmãozinho.
Geraldinho, o garotinho que estava agonizando há muitos dias, morrera enlutando seus companheirinhos.
Uma menina chamada Ermelinda também morrera, e adultos morriam quase todos os dias.
Por insistência de Rubens e alguns companheiros do futebol, ele foi assistir a uma sessão de cinema, o que o deixou impressionado.
Assistiu ao jornal que trazia cenas da guerra na Europa e também lances de uma partida de futebol entre as selecções Paulista x Carioca.
Ele ficou impressionado com alguns momentos em que apareceram craques como Oberdan, Zezé Procópio, Luizinho e ainda, Borracha, Pirilo, Zizinho e outros.
Essa acabou sendo a única vez que foi ao cinema.
Não podia desperdiçar tempo nem dinheiro, embora houvesse uma sessão gratuita às quartas-feiras.
De quando em quando, procurava dona Florinda para saber mais alguma coisa sobre aquele tal Espiritismo e a tal reencarnação.
Parecia-lhe justo que quem não pagasse suas contas durante a vida, voltasse para pagá-las.
Ele só não entendia como podia nascer criança de novo, ter outro nome, outros pais e não se lembrar de nada.
Dona Florinda não era muito versada no assunto, mas ficava feliz em poder passar algumas informações.
Havia um pequeno grupo de espíritas no Asilo, que se reuniam numa sala desocupada duas noites por semana.
Ele andava preocupado, vinha tendo sonhos estranhos com a sua caçula e, de vez em quando, sentia-se mal, como se o coração apertasse e ficasse pequeno.
Uma grande tristeza o acometia, um estranho medo de morrer.
Para piorar tudo, chegou uma carta de Madalena dizendo que precisava muito de dinheiro, pois a pequena Rosalinda estava gravemente doente.
José conseguiu algum dinheiro emprestado com um agiota, também doente.
Os juros eram altos e além disso, assinou uma autorização para que o agiota recebesse o seu pagamento, prática mais ou menos comum em algumas Colónias.
José falou ao Rubens que precisava encontrar mais um emprego.
Ele intercedeu junto a um amigo que possuía um bar dentro da Colónia, onde havia mesas de snooker e bilhar e também jogos de cartas.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:08 pm

Ali eram servidos refrigerantes, sucos de frutas e refeições ligeiras.
O amigo de Rubens, que lhe devia muitos favores, deu o emprego a José, para trabalhar das cinco horas da tarde às 9 ou 9:30h da noite.
Para isto, conseguiu com o seu chefe na oficina mecânica autorização para entrar e sair uma hora mais cedo.
Em pouco tempo, aprendeu a servir as mesas e o balcão.
Via com certa intranquilidade aqueles pacientes que gastavam o que tinham e o que não tinham com os jogos, apostando alto.
Bebidas alcoólicas eram proibidas e o horário para o fechamento tinha que ser obedecido, embora, conforme os jogadores presentes, permanecessem jogando até alta madrugada, com as portas e as janelas fechadas.
Na Colónia, havia muitas pessoas que usavam um estranho expediente.
Escreviam cartas chorosas a pessoas ricas ou a empresas, pedindo donativos em dinheiro ou espécie, dizendo serem leprosos, caindo aos pedaços, abandonados pela família e amigos, como se tivessem morrido.
Alguns eram mesmo doentes em péssimas condições físicas.
Outros eram fisicamente bons, pele sadia, com algumas manchas apenas.
Entre estes havia um rapaz chamado Bentinho, que esbanjava o dinheiro recebido em jogatinas e na compra de bebidas alcoólicas adquiridas dos traficantes.
Bentinho insistia com José para se associar a ele, seriam dois a escrever, portanto, teriam o dobro de donativos.
Esta prática era conhecida em alguns hospitais como “Bater Gato”6.
José recusava todos os convites, ao que Bentinho ironizava:
— Enquanto você se mata de trabalhar em dois empregos, eu vivo folgado, tranquilo.
Como e bebo tudo o que quero. Você é bobo.
Para que esse escrúpulo?
Alguém lhe perguntou se você queria ser leproso e ser fechado aqui como um criminoso?
José não respondia, entretanto, lá dentro do seu coração dizia de si para consigo: - esta doença maldita pode destruir, apodrecer o meu corpo, mas não toca na minha alma.
De repente, surgiu a notícia bomba.
O director acertou um jogo contra o Sanatório Padre Bento, lá em São Paulo, portanto, os preparativos seriam redobrados.
Treinos e mais treinos, pois o director exigia a vitória pelo muito que ele se sacrificava para manter os desportistas numa boa vida.
José não sabia como fazer:
atender aos treinos, que passaram a ser três vezes por semana ou o seu trabalho no Rancho Alegre.
Uma conversa de Rubens e do sr. Valentino com o dono do Rancho Alegre resolveu, pois ele fora jogador de futebol e era desportista nato; além disso, o sr. Valentino prometeu trabalhar para conseguir um lugar para ele na delegação.
Dias depois, Rubens, muito alegre, contou a José haver conseguido uma licença médica de 72 horas para ir a sua casa.
Numa conversa com o director, disse-lhe não estar mais com vontade de jogar futebol e não pretendia ir ao Padre Bento.
A princípio, o director não acreditou, depois começou a fazer ofertas.
O que poderia fazer que ele mudasse de ideia, era uma licença de oitos dias para ir à sua cidade.
O director ficou furioso, mas acabou dando 72 horas de licença, após ter oferecido 24 e 48 horas, ficando irredutível nas 72h.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:08 pm

A concessão da licença dependia unicamente do director, ele usava esse privilégio para punir ou premiar os pacientes, de acordo com o seu humor.
— Quando você irá? - perguntou o José.
— Amanhã à noite.
Prepare o que você quiser mandar para a sua família que eu vou entregar pessoalmente.
José disse que ia escrever uma carta e arranjar alguns presentinhos para as crianças e para Madalena.
— Vou lhe pedir um favor, disse Rubens.
Eu cuido há muito tempo de um amigo que está cego, o turquinho Michel.
Venha conhecê-lo e cuide dele enquanto eu estiver fora.
Michel fora goleiro e dos bons.
Jovem ainda, casou-se com uma moça chamada Irene e, por falta de residências na ocasião foram morar num quarto de um carville.7
Logo depois, o Turquinho ficou cego, devido às reacções da doença que lhe castigava as vistas.
Os médicos nada podiam fazer, não havia medicamentos.
Longe de ser triste ou revoltado, era muito alegre e de finíssima educação.
José foi recebido com muito carinho pelo casal.
Logo fizeram sólida amizade.
O Turquinho tinha algumas teorias sobre a doença, as quais discutia com seu médico e, ao tentar explicá-los a José, este nada entendeu.
Daí para frente, Michel começou a relatar alguns jogos em que fora o herói, conseguindo manter um empate ou um resultado apertado.
Ele era conhecido como aranha voadora.
Os únicos momentos em que ele ficava triste e até chegava a verter lágrimas, era quando ouvia vozes de crianças, ou quando acariciava uma bola de futebol.
As horas passaram lentamente.
Chegou o momento de Rubens ir à sua cidade, onde pensavam que ele havia ter se suicidado, vítima de uma decepção amorosa.
Lá ele reassumiria seu nome, Argemiro, e poderia rever sua mãe e irmãos.
Próximo da cidade onde desceria do trem a fim de tomar outra condução, quis arrepender-se, e quase voltou mas a saudade de sua mãe era tão grande que resolveu seguir em frente.
Ao chegar à casa, dona Eulina quase teve um ataque cardíaco.
Abraçou-o e beijou-o seguidamente, o que fez Argemiro ficar receoso de que ela contraísse a doença.
A mãe era a única que sabia que ele não se suicidara.
Argemiro perguntou pelo irmão mais velho que logo chegou.
Embora a mãe não soubesse como, Fernando, seu outro filho, sabe que o irmão estava num leprosário.
Fernando apenas cumprimentou o irmão, sem estender-lhe a mão, perguntando logo quando voltaria para o Leprosário.
Argemiro sorriu triste e respondeu:
— Mais depressa do que você possa pensar.
Pouco depois, o soldado Zeca veio bater no portão e dizer que o Doutor delegado queria ver um tal Rubens, que estava hospedado na casa da Dona Eulina.
Argemiro saiu e disse sou eu, sorrindo, por ter reconhecido a voz do praça Zeca, este de negro que era, ficou cinza e quase desmaiou.
Soltou um palavrão e disse:
— Você não se matou, seu cachorro, me fez chorar um mês inteiro?
Argemiro se aproximou dele e Zeca abraçou-o fortemente.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:08 pm

O visitante tentou afastá-lo de si, ao que Zeca insistiu.
Chegaram à delegacia.
O Delegado, um tanto incomodado com a sua presença, não o mandou sentar-se:
Disse que um funcionário do Asilo telefonou a um parente na cidade, avisando que Rubens estava indo para lá.
Só o nome não combinava.
Ninguém conhecia o Rubens, que tivesse morado na cidade, e que sumira repentinamente.
— Logo desconfiei que era você.
Nunca achamos o seu corpo porque não havia corpo.
Você tem autorização para sair do Asilo ou você fugiu?
— Tenho licença médica, disse Argemiro com altivez.
— Deixe-me vê-la.
Argemiro tirou o memorandum e estendeu-o ao delegado.
Este recolheu os braços para debaixo da escrivanhinha e disse:
— Apenas abra-o, para que eu possa 1er.
Argemiro abriu o papel e, enquanto o delegado lia, deixou-o escapar dos dedos.
O delegado levou um grande susto, dando um pulo para fora da cadeira.
O papel veio pousar suavemente em cima da sua escrivaninha.
Possesso de raiva, mandou Argemiro embora e, que não saísse de casa ou mandaria prendê-lo.
Gritou ainda com o Zeca, para que fosse buscar um litro de álcool na “venda” do seu Quintino, para desinfectar a mesa.
— Vamos! Saiam daqui os dois, vociferou o delegado.
Fora da delegacia, os dois riram muito.
Argemiro tentou alugar um carro ou uma charrete para ir à fazenda do Cel. Teodorico, mas ninguém quis levá-lo.
O Zeca que já havia passado um pano com álcool na mesa da autoridade, emprestou a sua bicicleta ao Argemiro.
Argemiro pedalou quilómetros até chegar à fazenda e lá pediu licença ao coronel para visitar dona Madalena.
O Cel. Teodorico ficou desconfiado, mas não viu motivos para impedir a visita.
Procurava lembrar quem era o rapaz, pois parecia ser conhecido.
Argemiro já ia se afastando com a bicicleta, quando o Coronel gritou:
— Ei moço, você não é aquele rapaz que se suicidou por causa de um rabo de saia?
— Sim, sou eu mesmo, só que não era uma mulher.
Era um bichinho.
O Coronel coçou a cabeça, sem entender o que o moço quis dizer, mas não importava muito.
Guiado por Gustavo, que estava sempre por perto, chegou ao ranchinho de dona Madalena.
Após as apresentações, abraçaram- se, Argemiro teve que contar tudo sobre a Colónia e como era a vida do José, o seu dia-a-dia.
Entregou a carta e as lembranças simples que mandara.
Abraçou Miguel e Guilherme:
olhou pesaroso para Rosalinda, que estava magrinha e tossindo muito.
— O dr. Xavier diagnosticou que ela está tuberculosa e que vai morrer - disse Madalena com voz sumida, mas conformada.
Argemiro levou uma fotografia do time de futebol e Miguel imediatamente identificou o pai, porém Guilherme não soube reconhecê-lo.
Miguel fez muitas perguntas se o pai era bom de bola realmente.
Se ele já se acostumara a viver lá, se tinha saudade de casa.
Argemiro esmerava-se em descrever lances espectaculares, sempre exagerando um pouco.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:09 pm

Madalena, com percepção de mulher e esposa, percebia que a pele do rosto do marido estava mais grosseira, assim como os braços com caroços.
A foto fora tirada de uma distância relativamente grande, mas a percepção feminina podia ver o que outros não viam.
Começava a escurecer e o moço disse que precisava ir embora, pois a bicicleta não tinha farol.
Além disto, ele só tinha mais um dia para ficar com a mãe.
— Eu vou ao Asilo com você, - disse Madalena decididamente.
— A senhora está louca?
— Não, não estou louca.
E a minha única oportunidade de vê-lo e irei nem que seja a pé.
— Mas e as crianças?
E a pequena doentinha?
— A comadre Maria Aparecida cuida delas para mim.
No fundo, Argemiro ficou feliz com a decisão daquela valorosa mulher.
Combinaram que dona Madalena iria no dia seguinte, para a casa da mãe do Argemiro, de onde sairiam pela madrugada.
Madalena passou o resto da tarde e quase a noite inteira fazendo os doces de que o José tanto gostava.
Algumas vizinhas contribuíram com doces, e requeijões.
Ela foi pedir autorização ao seu Totico, para se ausentar do serviço.
Este comunicou ao Cel. Teodorico que não se opôs, e pediu que ela transmitisse suas lembranças ao José.
Argemiro retornou à cidade foi para sua casa, não sem antes devolver a bicicleta ao amigo Zeca.
Tomou um banho refrescante e, enquanto se trocava, percebeu que o irmão brigava com a mãe, no que era acompanhado pela cunhada, que ele ainda não conhecia.
Argemiro foi à sala e, por um instante.
Houve um silêncio constrangedor.
Porém, logo o irmão apontou-lhe o dedo no rosto e destratou-o pelo facto de ter usado a bacia no banho.
Agora teriam de jogar fora e comprar outra.
Argemiro fez que não ouviu e disse à jovem senhora:
— Você deve ser minha cunhada, não?
Estendeu a mão para cumprimentá-la, ao que ela virou as costas saindo da sala.
A mãe abraçou-o, chorando e pediu perdão pela atitude do filho e da nora.
Argemiro beijou-a ternamente disse:
— Seu amor compensa tudo.
Amanhã vou embora.
Dona Madalena, esposa de um amigo meu, que está internado lá no Asilo, irá comigo.
Aliás, ela virá para cá para sairmos bem cedo.
— Ela será muito bem recebida aqui em casa, meu filho.
Madalena fez duas camisas de algodão na velha máquina de costura girada à mão.
Confeccionou-as um pouco maior supondo que, com os anos passados, José tivesse engordado um pouco.
A comadre Maria Aparecida instalou-se na casa de Madalena e como era tia de Gustavo, este também foi dormir no rancho, para estar mais perto do Miguel, Guilherme e Rosalinda.
Madalena chegou à casa de dona Eulina, sendo recebida carinhosamente por Argemiro e pela velha senhora.
Madalena procurou ajudar nos serviços caseiros.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:09 pm

O irmão e a cunhada de Argemiro não jantaram com a família naquela tarde.
Dona Eulina, ele e Madalena conversaram algum tempo e depois foram dormir, porque teriam que levantar cedo para a viagem.
De manhãzinha, a despedida de Argemiro foi muito triste.
O irmão não apareceu para dizer adeus, embora Argemiro não tivesse mágoas ou rancores.
Chegou-se à porta do quarto do casal, que estava fechada e disse:
— Adeus, meu irmão, adeus, minha cunhada.
Deus os proteja. Que sejam felizes.

6 - Alguns anos depois, em alguns Asilos, chegaram a criar escritórios que mimeografavam as cartas do “bate gato”.
7 - Pavilhões longos com duas alas dc quartos, geralmente 11, medindo cada quarto 3,5 X 3,5 e um banheiro colectivo.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:09 pm

Capítulo VIII
A TRANSCENDÊNCIA DE CRISTIANO


A viagem de volta foi tranquila.
Ao chegar à cidade próxima ao Asilo Colónia, o coração de Madalena batia fortemente.
Argemiro contou-lhe sobre a troca do seu nome.
Agora ele voltaria a ser Rubens.
Orientou-a sobre a condução que levaria os visitantes até o Asilo.
Avisaria José, para que a esperasse no parlatório e assim usufruíssem todos os minutos da visita.
Vendo que ela estranhou a palavra “parlatório”, procurou explicar e descrever o local.
Madalena entristeceu-se e perguntou:
— Não vou poder abraçá-lo, andar de braço dado com ele, conhecer onde mora?
— Não, dona Madalena.
Só poderão tocar as mãos e se verem. Até já.
Madalena e outros visitantes passaram por um exame visual numa sala médica e depois foram liberados para a visita.
Chegaram ao parlatório, onde parecia devorar tudo com os olhos.
José chamou-a com grande ternura.
— Madalena! Minha vida!
Ela o procurou com os olhos e quase lhe escapa um grito de surpresa e alegria.
Queria abraçá-lo, beijá-lo, mas aquele muro horroroso impedia que se aproximassem; deram-se as mãos e trocaram palavras de ternura.
José quis saber tudo sobre as crianças e a vida na fazenda.
Madalena contou detalhadamente tudo o que ocorrera desde a sua partida, menos o episódio sobre o irmão do Cel. Teodorico, pois não deveria magoá-lo mais do que a vida já o fizera.
José contou os estranhos sonhos que vinha tendo com Rosalinda.
A esposa disse que ela não estava bem, mas que iria sarar.
Era uma mentira piedosa para o marido, porque sabia que ele não suportaria a dor de sabê-la condenada à morte.
Felizmente, apareceu um grupo de crianças e, entre elas, Cristiano, a quem José havia se referido nas cartas algumas vezes.
José chamou-os e vieram alegres como um bando de passarinhos.
Madalena ficou sensibilizada com o modo com que Cristiano andava e quando ele estendeu a mãozinha em forma de garras para ela; lembrou-se das mãos perfeitas de Miguel e Guilherme e, com os olhos brilhando pela emoção, apertou a mãozinha do menino.
Cristiano perguntou por Miguel, pois José falava muito sobre ele, mandou-lhe um abraço.
— Fala para ele me escrever, diga que eu tomo conta do pai dele aqui no Asilo, completou o menino.
Madalena deu uma vasilha de doce de leite e um queijo para eles repartirem, ao que saíram contentes, disputando as guloseimas.
Do parlatório era possível ver alguns pavilhões, o jardim muito bem cuidado, as estatuetas dos sapos com os seus instrumentos musicais, os anões.
Alguns doentes, em péssimas condições físicas, se aproximaram do parlatório.
Vários deles já eram nossos velhos conhecidos, desde a chegada de José.
Aquele que não tinha nariz, o que tinha um aparelho na garganta e tapava um orifício para poder falar.
O cabeludo que tinha o rosto parecido com o de um leão, outro enferidado e com mau cheiro.
Daquele grupo que cercara José na sua chegada ao Asilo, dois já haviam falecido, e os demais pioraram a condição de saúde.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:09 pm

Madalena ficou muito triste, pois sabia que o marido corria o risco de ficar como eles.
José falou um pouco sobre cada um deles.
Contou que, às vezes, um ou outro paciente se desesperava e se suicidava.
Alguns companheiros do time de futebol vieram conhecer Madalena.
A sra. Florinda também veio ao parlatório e teve grande simpatia por Madalena, aceitando-a como filha do coração.
Madalena e José comeram o lanche que ela trouxera; viam, com desespero que os minutos voavam.
Trocaram confidências, juras de amor e José afirmou resoluto:
— Eu ainda vou sarar e sair daqui. Acredite!
Muitos visitantes já tinham ido embora e Madalena relutava em partir.
Rubens veio lembrá-la de que precisava ir ou perderia o trem, tendo que pernoitar na cidade.
Marido e mulher apertaram-se as mãos.
Trocaram olhar profundo e apaixonado por minutos.
Foi uma despedida longa e dolorosa, tinham que se separar.
Antes José contou que iria a São Paulo jogar futebol contra o Sanatório Padre Bento.
O jogo estava marcado para daí a dois meses.
Madalena afastou-se lentamente e José ficou olhando-a até desaparecer numa curva, onde tomaria a condução para a sua cidade.
Chegando à cidade de S., pouco tempo depois já estava na fazenda do Cel. Teodorico.
Não demorou muito para chegar à sua casa, onde encontrou Rosalinda mais doente.
Fez uma prece sentida à Nossa Senhora da Abadia, pois sentia as suas forças se esgotarem.
Havia sido muitas as emoções nos últimos anos.
Na linguagem de hoje, ela estava stressada.
Após Madalena ter ido embora, José ainda ficou longos minutos parado no Parlatório, como usufruindo da sua presença invisível.
Depois, foi para o quarto e deitou-se sobre as cobertas, e, numa espécie de desdobramento, acompanhou Madalena na viagem de volta, entrou no rancho com ela e viu-a beijar as crianças, chegar ao berço de Rosalinda que ardia em febre e tossia.
A menina parecia vê-lo, pois sorriu e disse:
— Papá, papá, estendendo os bracinhos para o espaço vazio.
Madalena ficou assustada.
Tranquilizou-se logo, achando que talvez as crianças e Maria Aparecida tiveram conversando sobre a visita que a mamãe fez ao papai e isso ficou na sua cabecinha.
Lá no Asilo o dia começava a amanhecer.
José despertou angustiado, pois sabia que a sua pequena Rosalinda iria morrer.
A rotina da sua vida tinha que continuar.
O trabalho na oficina mecânica e no Bar Rancho Alegre não podia parar.
Tinha que mandar dinheiro para a família.
Os treinos continuavam e o director ia sempre vê-los.
O seu grande sonho era derrotar o time do Sanatório Padre Bento, lá mesmo em seu campo.
Quase vinte dias depois chegou uma carta de Madalena e dentro, uma outra carta do Miguel para o Cristiano, onde ele contava como era a vida na fazenda, as pescarias com Gustavo, os passeios a cavalo, a ordenha das vacas e também o seu trabalho na enxada, capinando ruas de café.
José levou a carta a Cristiano.
Notou-o adoentado, pálido e um pouco inchado.
José ficou preocupado, chamando a atenção do homem que tomava conta dos meninos e ele não gostou.
Informou que já tinha levado o menino ao médico e este dissera ser do baço e dos rins, Cristiano estava perdendo albumina.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:09 pm

José despediu-se de Cristiano e do seu irmãozinho, prometendo voltar todos os dias para vê-los, iria trazer o Turquinho para visitá-los.
Chegando ao quarto, retomou a carta de Madalena e leu-a inúmeras vezes.
Ela confessava que Rosalinda havia piorado, mas ainda tinha esperanças.
Poucos dias depois veio um telegrama de São Paulo adiando por um mês o jogo de futebol entre o Sanatório Padre Bento e o time do Asilo.
Os preparativos continuariam intensos.
Um mês e meio, após a visita de Madalena, chegou um telegrama do Seu Totico, dizendo que Rosalinda estava morrendo.
Desesperado, José foi falar com o director Médico do Asilo; teve de esperar duas horas para ser atendido.
Finalmente o médico, que estava lendo jornais, atendeu-o com má vontade.
José apresentou o telegrama e pediu uma licença de 24 horas; o director negou.
José insistiu, chorou, mas o director foi irredutível.
Disse que os seus exames baciloscópicos7 estavam positivos, tanto os de muco como de lesão e ele não podia conceder a licença.
Acrescentou ainda:
— Não tente fugir, porque irá para a cadeia.
No entanto, José já havia decidido fugir.
Reuniu o dinheiro que tinha e comunicou somente a Rubens e ao Turquinho, Michel.
Lembrou-se de Cristiano e foi vê-lo.
Não disse uma palavra sobre a fuga, mas Cristiano, que havia piorado muito, parecia ter desenvolvido dons especiais, dizendo:
- Abrace o Miguel e o Guilherme por mim e diga que eu queria muito conhecê-los.
Quem sabe depois que eu mor...
José cortou-lhe a palavra, para que ele não falasse sobre a morte; a hora que escrevesse para casa, daria o seu recado.
Cristiano sorriu e disse que sabia que ele iria ver a menina.
Meu pensamento e meu coração irão com você.
José beijou-o na testa e apertou-lhe a mão, pensando:
será que o verei de novo?
Para surpresa sua, Cristiano falou:
- Eu não vou morrer antes de você voltar.
Você vai me ver sim.
José saiu às pressas para que o menino não o visse chorando.
Rubens guiou-o pelos caminhos no meio do mato até chegarem a uma estação ferroviária, onde o movimento era muito pequeno.
Pelo facto de ter melhor aparência, o rosto não parecer de leproso, foi comprar a passagem, enquanto José ficou escondido no mato.
O homem da estação estranhou, fez muitas perguntas que o Rubens respondeu por monossílabos.
De posse da passagem, desenvencilhou-se do funcionário que tinha outros afazeres.
Quando o trem se aproximou da plataforma, Rubens entregou a passagem ao José que entrou rapidamente no último vagão de segunda classe, abaixando a aba do chapéu e levantando a gola do paletó, como se estivesse com frio.
O apito da locomotiva tocou três vezes e a composição partiu, levando José.
Rubens retornou ao Asilo Colónia pelo mesmo caminho.
Os guardas que faziam a vigilância, para evitar fugas e prender os traficantes de bebidas alcoólicas, ouvindo passos na trilha, prepararam uma emboscada, pensando ser um traficante de bebidas.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:10 pm

Rubens ia directo para a armadilha, quando ouviu a voz do Cristiano:
— Rubens, ó Rubens, por aí não, vem cá, eu preciso de ajuda.
Rubens achou aquilo muito estranho.
Como Cristiano poderia estar ali no meio do mato, naquela hora da madrugada?
E se ele, uma criança, inclusive muito doente?
A voz continuava:
— Vamos, para esquerda, vire para a esquerda.
Tem uma trilha ali.
Rubens achou a trilha, mas não encontrou Cristiano.
Ouviu vozes de homens e percebeu que a voz do menino o salvara, pois ele ia directo para os braços dos guardas.
Será que o menino morreu? - perguntou a si mesmo.
José tomou o trem, fingia que estava dormindo, para que ninguém conversasse com ele.
Chegando à cidade, perto de S. desceu do trem e foi a pé.
Logo reconheceu as trilhas próximas da fazenda, e pouco depois, entrava na propriedade do Cel. Teodorico.
Evitando as casas e os cachorros, chegou no seu ranchinho.
Vendo a luz da lamparina, percebeu que Rosalinda deveria estar muito mal.
Assobiou do lado de fora e Miguel falou baixinho:
— É os Papai!
Correu para fora e vendo o vulto, atirou-se em seus braços rindo e chorando, enchendo-lhe o rosto de beijos.
Logo apareceu Gustavo, que o abraçou igualmente, entrando em seguida, pois não podia ser visto.
Avise sua mãe, pois não quero assustá-la.
Madalena veio buscá-lo, chorando.
Parecia que Rosalinda estava apenas esperando o pai chegar.
Ela tossia e vomitava sangue8.
Madalena retirou-a do berço para entregá-la ao pai.
A menina olhou com ternura e tentou erguer os bracinhos.
Sorriu por um instante, teve mais um acesso de tosse e expirou nos braços da mãe.
José, chorando copiosamente, tomou-a nos braços e beijou-a repetidamente, exclamando:
— Ah, minha filha, meu anjo inocente.
Pelo menos você morreu e vai ser enterrada como um anjinho, eu morri e continuo sem sepultura.
José chorou as lágrimas represadas há tanto tempo.
Seu Totico afagou-lhe a cabeça e José perguntou mais ao vazio do que propriamente ao homem:
— Não sou um bandido!
Nunca roubei nem matei.
Porque Ele não gosta de mim?
Porque Ele quer me destruir?
Onde está esse Deus que só castiga os fracos?
Seu Totico tentou confortá-lo, mas só pôde abraçá-lo e dizer enigmaticamente:
— Um dia você saberá.
Deus o ama muito e esta não é a primeira vez que você está na Terra.
Você, e todos nós, já tivemos outras vidas.
Um dia você saberá o porquê de tudo isto.
José lembrou-se de dona Florinda e teve um reconforto íntimo.
O próprio Totico ficou espantado com o que dissera, ele tinha pouco interesse por filosofias ou religiões.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 14, 2016 12:10 pm

Maria Aparecida estava boquiaberta, pois fora a um Centro Espírita há algum tempo e ouvira as mesmas palavras de um espírito através de um médium, e, com certeza, o Sr. Totico não estava lá.
José tomou uma caneca de café e disse que precisava ir embora, antes que o sol nascesse.
Ao tentar sair da fazenda foi visto pelos capangas do Coronel, que gritaram para ele parar.
José não parou e eles fizeram vários disparos.
Gustavo, que o acompanhava, atirou-se contra os capangas, dando socos e pontapés, e gritando para que parassem de atirar.
José foi cercado e rendeu-se.
Quando o reconheceram não puseram a mão nele, advertindo que se não obedecesse, atirariam para matar.
Levaram-no à presença do Cel. Teodorico que o olhou com misto de piedade e raiva e não disse uma palavra.
Foi ao telefone e chamou as autoridades médicas para prendê-lo.
Algumas horas depois, ele estava num carro fechado, como o que o levara à primeira vez ao Asilo.
Só então o Coronel falou com ele:
— Enterrarei sua filha como se fosse minha neta.
Eu não acredito em Deus, mas acredito na coragem, na valentia.
Você é um valente.
De qualquer modo, vai com Deus se é que Ele existe.
Horas depois, José chegava ao hospital, indo directo para a cadeia.
Havia um delegado interno e um chefe da cadeia, ambos doentes, mas a determinação era dada pelo Director Médico do Asilo, que era, ao mesmo tempo, advogado de acusação e juiz em causas internas.
Não havia julgamento, apenas a ordem para recolher o paciente à prisão.
Ele deveria ficar dois meses ou mais na cadeia, porém, vários jogadores, liderados pelo Rubens, foram falar ao director que, se José fosse mantido na cadeia, eles não jogariam mais futebol.
O director ficou muito nervoso e disse que os tiraria das casas dos desportistas, perderiam todas as regalias, teriam que ir para o corredor de algum pavilhão e comeriam no refeitório geral.
Os jogadores mantiveram-se firmes e, surpresos, viram chegar o treinador, sr. Valentino, que vinha entregava ao Director a demissão do cargo que ocupava.
Possesso de raiva, ele se rendeu parcialmente, mas disse que teria que manter o fugitivo alguns dias preso ou ficaria desmoralizado.
Decidiu, então, que José permaneceria preso 15 dias, com o direito de receber refeições da casa dos desportistas.
E disse mais:
— Vocês terão que prometer que vão derrotar o Sanatório Padre Bento, lá em Guarulhos, pois não aguento mais o ar de superioridade do Lauro.
Tão logo José entrou na cela e ouviu o ranger da chave na enorme fechadura, sentou-se no catre que lhe serviria de cama, mergulhou a cabeça nas mãos, desesperado, com mil pensamentos contraditórios.
Meu Deus!
Sempre fui um caboclo trabalhador, nunca fiz mal a ninguém, e mesmo pobre, roceiro, sempre tirei o meu sustento e da minha família da força dos meus braços.
Por quê? Alguém me responda por que, se é que existe alguma coisa além dessa vida.
Fui preso duas vezes como o pior dos criminosos, agora até atiraram em mim. Nem mesmo pude assistir ao enterro da minha filhinha.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:10 am

E estou aqui, como criminoso, atrás das grades.
Sem trabalhar, não terei dinheiro para mandar para a minha família.
José soluçava fortemente a repetir:
— Me respondam! Por quê?
José teve a sua atenção chamada para uma cela em frente à sua.
Ah um homem velho, sujo, unhas grossas e enormes, portando um cavaquinho, com evidentes sinais de loucura nos olhos.
Era uma pessoa pacífica, perseguido por muitos internos com suas brincadeiras de mau gosto, até desestruturá-lo, ficar violento e ser preso por vários meses, já que o Asilo não contava com um serviço de psiquiatria.
Sua mania era a de conversar com o rei e a rainha; trazia no paletó de brim, que um dia fora claro, alguns enfeites e fitas verdes ou vermelhas, que ele dizia ser condecorações recebidas do rei de algum lugar.
O homem riu quase num esgar, dizendo a José:
— Boa tarde!
O rei mandou te prender?
Eu vou falar com ele pra te soltar. Tá bão?
José sentiu-se afundar mais ainda e pensou em suicidar-se.
Mediu o comprimento do seu cinto de couro e chegou a prendê-lo na grade da janela, pensando que à noite seria mais fácil, ninguém poderia impedi-lo.
O carcereiro estaria dormindo e ele acabaria com aquilo.
Uma dor profunda cortou-lhe o peito.
Ele pensou em Madalena, Miguel e Guilherme, já não suportava mais.
Chegou-se à porta, o homem louco estava rezando o terço em meia voz.
José pensou que, na sua loucura, aquele homem estava isento da dor e da humilhação.
Para sua surpresa, o homem que não poderia tê-lo visto amarrar o cinto na janela, por estar fora do seu alcance visual, disse:
— Faz isso não!
Muita gente vai sofrer.
Eram seis horas da tarde Ele ouviu a voz de Rubens discutindo com o carcereiro, querendo entrar de qualquer maneira.
O director determinara: por 24 horas, ele não teria visitas.
Quase à força, Rubens chegou à porta da cela e sua primeira expressão foi:
— Graças a Deus.
— O que foi? - perguntou José.
— O Cristiano mandou me chamar desesperado e implorou, para que eu viesse aqui, porque você iria se enforcar com o cinto.
Cadê o seu cinto? Meu Deus!
Tire o cinto da janela.
Não faça isso!
Passadas as primeiras emoções e com o carcereiro querendo tirá-lo dali, Rubens falou quase para si mesmo:
- Estranho menino esse Cristiano.
Nós pensamos que ser seus protectores e é ele que nos protege.
Ele me guiou no meio do mato, quando lhe deixei na estação, evitando que eu fosse pego pelos guardas.
Agora percebeu que você ia se matar.
Ele disse que o cinto estava amarrado na penúltima barra de ferro transversal da janela e lá está o seu cinto.
Estranho menino.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:10 am

Acho que ele vai morrer.

8 - Mensalmente, ou quando determinado pelo médico, o paciente tem que fornecer materiais para exames de laboratório.
O exame de muco consiste em tirar secreções do nariz com um estilete fino, a ponta revestida com algodão e depois esfregado numa lâmina de vidro, colorida com tintura de fuccina e examinada ao microscópio.
O exame de lesão consiste na escarificação da pele com estilete que tem o formato de uma pena de escrever antiga.
O colector escarificava levemente a pele, por não poder sangrar, e aquela serosidade ou líquido, é colhido pela ponta do estilete e esfregado numa lâmina e o processo de exame é o mesmo.
Conforme a quantidade de bacilos que aparece, é feita a classificação, que pode ir de negativo, a raros bacilos, uma cruz, duas cruzes, e até cinco ou seis cruzes, o que é muito grave.
O exame do muco nasal positivo é mais grave que o da pele.
Para receber alta era necessário 12 ou mais exames negativos sem interrupção.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:10 am

Capítulo IX
A DESENCARNAÇÃO DE CRISTIANO


José conformara-se com a prisão.
Ele era tão querido pelos frequentadores do Rancho Alegre, que se cotizaram, conseguindo uma boa quantia em dinheiro, mais de dois meses de salário, para que enviasse à sua família.
Tanto o proprietário do Rancho Alegre, quanto o seu chefe na oficina mecânica garantiram que ele teria o emprego de volta tão logo fosse solto da prisão.
O sr. Valentino foi visitá-lo também, pedindo-lhe que, diariamente fizesse um pouco de exercício físico.
Como o director estava muito interessado em que ele jogasse, determinou que dois guardas internos o acompanhasse todas as manhãs ao campo de futebol, para que ele corresse na pista, e manteasse a forma.
Todos aqueles acontecimentos fizeram um efeito muito ruim para a saúde do José.
Ele sentia mais dificuldade para respirar e a sensibilidade dos pés, que já era diminuída, desaparecera completamente.
Uma pequena bolha que apareceu logo atrás do dedão do pé9, transformou-se num machucado que não cicatrizava e brevemente seria um MPP — mal perfurante plantar, chamada popularmente entre os próprios internados pelo nome de broca, em alusão à praga do café.
Rubens visitava-o diariamente e trazia notícias de Cristiano.
Mentia para tranquilizá-lo, dizendo que o menino estava um pouco melhor ou estava na mesma.
Rubens levou também o Turquinho Michel à cela do José e aquele segurando a mão grossa do amigo, conversou longamente com ele.
Sem querer ou sem saber que ignorava a piora crescente de Cristiano, falou:
- Por que existe a separação e a morte?
Pobre Cristiano, tão criança e vai morrer.
Pobre do seu irmãozinho, anda numa tristeza muito grande e o Cristiano luta por prepará-lo para a separação.
Rubens, que estava distraído com o alienado da cela em frente, custou a perceber o rumo da conversa entre Michel e José.
Já não foi mais possível consertar.
Agora José sabia que Cristiano tinha pouco tempo de vida.
Rubens foi levar o Turquinho de volta ao seu quarto e retornou à cadeia, onde encontrou novamente José soluçando a sua dor.
— Eu não queria lhe contar José, mas o menino está mal.
Ele pediu a presença do Padre Estêvão para se confessar e o padre saiu de lá chorando, dizendo que ele é que tinha que se confessar ao menino, pois Cristiano era puro como um anjo que nasceu por engano na Terra.
Contou que o menino lhe disse que não deveria abandonar a batina, pois os doentes precisavam dele, devia visitar as enfermarias e cuidar dos enfermos graves e ficasse à cabeceira dos que estavam morrendo longe da família.
O mais impressionante é que o padre nunca contou a ninguém que pretendia abandonar o sacerdócio.
Agora é que ele não abandonará mesmo.
Logo após a visita do sacerdote, talvez pela forte emoção, Cristiano apresentou uma súbita crise de soluços, que já durava 15 horas e não havia esperanças de que passasse.
— Eu preciso visitar o menino, disse José.
Nem que eu tenha que fugir.
Neste momento o Padre chegava à sua cela e, tendo ouvido as suas últimas palavras, falou:
— Você não precisa fugir.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:11 am

O Cristiano me pediu para falar com o director para liberá-lo por algumas horas e eu convenci o cabeça dura.
Ele assinou uma ordem para você sair comigo. Vamos.
Estou encarregado também de trazê-lo de volta.
Creio que posso confiar em sua palavra.
José não respondeu, porque não precisava responder.
Ele tinha carácter e jamais prejudicaria alguém.
Chegaram à enfermaria onde estava o menino.
Ficou penalizado, ao vê-lo com os olhos fundos e com aquele soluço que o atormentava há tantas horas.
— Seu José, que bom que o senhor veio.
Eu não queria morrer sem vê-lo.
— Você não vai morrer, meu filho.
Juro que não vai.
— Fala isto de novo, (soluço) como foi bom ouvir (soluço) isto.
— Você não vai morrer...
— Não, não... (soluço)
Diga: meu filho.
José enternecido repetiu:
— Meu filho. Meu querido e amado filho.
Cristiano sorriu e disse:
— Como seria bom se você fosse (soluço) meu pai.
Depois olhou para o sacerdote, e este compreendeu que desejava ficar sozinho com José.
O Padre pegou o Rubens e o enfermeiro pelos braços e saíram do quarto.
Do lado de fora ainda ouviam o soluço constante do menino.
— Seu José, pai, eu vou embora, porque o meu trabalho já acabou.
Eu só sinto pelo meu irmãozinho.
Ele vai ficar muito triste, (soluço)
— Não fale em morrer...
— ...deixa eu falar, enquanto tenho força.
Nós já vivemos juntos noutros tempos (soluço).
...Você foi meu pai e nos amávamos muito, pias éramos malvados.
Roubávamos, matávamos e raptávamos crianças, para vender a traficantes de escravos, (soluço).
- Então estamos pagando os nossos pecados?
Estamos sendo castigados?
— Não, papai. (soluço)
Estamos corrigindo erros e crescendo para a nossa redenção.
O que está acontecendo foi o que nós escolhemos.
Eu já havia me libertado - os soluços foram ficando mais espaçados, mas pedi para estar aqui e recebê-lo, porque aqui no Asilo eu poderia ajudá-lo, poderia velar por você.
Deus é muito bom.
Logo virá alguém que vai lhe ensinar muitas coisas.
Um dia (soluço) você vai pôr a mão em cima de um doente e ele vai sarar.
Você viu que, passando a mão no meu peito, os soluços quase desapareceram?
— Então esse negócio de reencarnação é verdade?
- Sim! Eu sempre soube disto, mas não podia contar para os outros.
- Mas quem lhe contou tudo isto?
- Eles, os homens de luz.
Agora mesmo tem uma porção deles aqui.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:11 am

E Rosalinda também está aqui beijando-o...
Ela é linda! (soluço)
Daqui a pouco eles vão me levar embora.
Neste momento, José pensou o que seria dele dali para a frente.
Pensou na ferida que apareceu no seu pé e nos seus exames positivos.
O menino, captando seus pensamentos, disse:
E Você vai sarar e vai embora e lá, na sua cidade, você vai ser muito útil.
— Sarar como?
Nunca ninguém sarou.
— Logo vai ter um remédio.
Você vai conhecer um homem lá em São Paulo que vai ter um papel importante na cura da doença.
Ele é um desses seres de luz, mas está no corpo.
Quando você cumprimentá-lo, diga a ele que um menino morreu aqui, com muita vontade de conhecê-lo.
Eu gosto dele e sempre vejo em sonho.
Marque um golo no time dele por mim.
— Vou marcar sim e será seu o golo.
— Agora vai embora.
Estou muito cansado e não quero morrer na sua frente.
Tenho que ir embora.
Meu irmãozinho, cuida dele por mim.
— Vou cuidar.
Se eu sarar como você falou, eu o levo comigo-
— Vai embora, vai.
Não fique triste, pois não existe nada que nos possa separar, a não ser nós mesmos.
Antes que você vá, fique sabendo que dona Madalena, Miguel, Guilherme, Rosalinda, Seu Totico, Argemiro, o Coronel, até o director daqui e outros mais, estão ligados a nós pelos laços do amor ou do ódio.
Até logo, meu pai.
José retirou-se e pediu ao sacerdote para levá-lo de volta à cadeia.
Algumas pessoas entraram no quarto com o irmãozinho do Cristiano e logo o pequeno começou a gritar:
Cristiano está morto.
O padre Estêvão pediu licença para abençoar o menino e José não quis mais entrar no quarto.
Sentou-se num banco e mergulhou a cabeça entre as mãos.
Embora estivesse muito triste, não sentiu aquela revolta que costumava assomar-lhe ao peito.
Pensou lá no fundo do seu coração:
agora começo a me entender com Deus.
José retornou para a sua cela na cadeia e soube, no outro dia, que o velório do menino havia sido muito concorrido.
O sacerdote e o sr. Valentino, mais uma vez, intercederam junto ao director para que José pudesse ir ao sepultamento.
Pressionado, o médico acabou cedendo.
Momentos antes da saída do caixão, dona Florinda chegou com um dos caravaneiros espíritas que visitava a Colónia, sr. Ângelo.
O Padre já havia rezado o terço com as crianças.
O homem pediu licença para fazer uma prece, ninguém teve coragem de negar.
Ele se aproximou do caixão, acariciou o rosto inerte do menino e disse:
— Antes de orar, quero fazer uma confissão.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:11 am

A primeira vez que vim com uma caravana a este hospital, sem saber realmente o que ia encontrar, senti certo asco e fiquei temeroso de um contacto físico com os doentes.
Não via a hora de sair daqui; estava apavorado, queria tomar um banho e jogar minhas roupas fora!
Constrangido, não contei a ninguém.
Quando visitamos o pavilhão dos meninos, encontrei Cristiano no seu quarto, brincando com um carrinho que um dos caravaneiros lhe dera.
Os companheiros que estavam comigo me deixaram sozinho e foi nesse momento que o menino me perguntou:
— Você está com medo da gente?
— Não! Imagine!... - retruquei.
— Está sim - disse.
Mas não precisa ter medo.
Vá visitar o pavilhão dos homens, o n° 9, que o seu tio Bruno está lá.
Ele precisa falar com você antes de morrer.
Informei-me onde ficava o pavilhão e fui.
Fiquei atarantado com aquilo, pois como um menino que eu nunca vira poderia saber que eu tinha ali um tio internado?
Meu tio Bruno, de quem a nossa família se esquecera e pensei houvera morrido?
Um trapo humano. Era um tio que, um dia, eu amara muito.
Venci o medo, abracei-o, beijei-o e mudei a minha vida.
Meses depois, ele morreu; morreu feliz.
Fechando os olhos e erguendo a fronte, o homem começou a orar:
— Deus, nosso Pai de infinito amor e misericórdia.
Jesus, Mestre querido, Recebam o pequeno Cristiano em seu Reino de Luz.
Que os exemplos de bondade deste menino fiquem para sempre em nossos corações.
Temos a certeza da imortalidade.
Temos a certeza da Sua justiça e do seu amor, Pai.
Cristiano foi uma luz que se apagou por falta de combustível e, deixando o corpo doente aqui entre nós para ser sepultado, reveste-se de luz opalina e viverá sempre em nossa saudade.
— A morte não existe - continuou.
Somos seres eternos, aprendendo a construir o nosso destino.
Colhemos aquilo que semeamos.
Seres, como Cristiano, vêm ao mundo para exemplificar o amor.
Seu corpinho sofrido é barro e volta para o barro, mas seu espírito imortal é luz e volta para a luz de Deus.
Cristiano foi como uma jóia que Deus nos concedeu por algum tempo, para cuidarmos dela.
Apegamo-nos a essa jóia como se fosse nossa, mas, agora, o seu verdadeiro proprietário, Deus, levou-a consigo.
Sei que todos amam a Cristiano, alguns têm mais motivos para amá-lo, no entanto, todos o amamos.
Um dia nos uniremos a ele novamente.
Pensei em falar tanta coisa nesta prece, mas as ideias sumiram-se.
Por isso, peço o consentimento de vocês, especialmente das crianças, para dar um respeitoso beijo na face fria deste corpo que abrigou uma alma por alguns anos e dizer-lhe em meu nome e em nosso nome:
Até breve, Cristiano, até breve.
O sr. Ângelo curvou-se e beijou o rosto hirto do menino e enxugou com o lenço duas discretas lágrimas.
Fecharam o pequeno caixão forrado com tecido branco e quatro pessoas pegaram as alças.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:11 am

O cortejo saiu a pé para o cemitério local, ladeado por duas filas de crianças doentes, carregando velas acesas, enquanto muitas mulheres cantavam músicas religiosas.
José sentia uma forte amargura.
De repente, ficou surpreso, via Cristiano ao lado do caixão, sorridente, deslizando como por encanto, sem aquele esforço enorme que fazia para andar.
José procurou dona Florinda e disse baixinho o que estava vendo:
— Será que estou ficando louco? - disse ele.
— Não, José. Você não está louco.
Você é médium. Apenas isto.
Terminado o enterro, José retornou à sua cela.
Sentou-se na cama e começou a chorar baixinho, enquanto o homem louco, na outra cela, também chorava baixinho e rezava o terço.
Repentinamente, José começou a sentir um suave e gostoso perfume.
Admirou-se, porque o seu olfacto era deficiente.
A tarde começava a cair como uma cortina, escurecendo o dia.
Nem as luzes da cela do José, nem as do homem alienado estavam acesas.
José viu formar uma claridade à sua frente e, no meio desta luz, viu Cristiano.
Um pensamento agudo passou-lhe pela cabeça, pensando que o seu cérebro estava se tornando obscuro como o daquele pobre homem na outra cela.
Cristiano falou-lhe sem pronunciar palavras:
— Você não vai ficar louco, José.
Pensei que você ficaria alegre em me ver.
— Meu Deus, como estou alegre, Cristiano.
Veja quem eu trouxe para vê-lo.
— Rosalinda, minha filha.
O espírito, guardando a forma infantil da sua última encarnação, abraçou e beijou o pai, com a mesma facilidade de Cristiano, para se movimentar e se comunicar.
José sentiu uma felicidade imensa e a visão foi se diluindo pouco a pouco.
Para seu espanto, o homem louco estava de pé, junto à grade da sua cela e perguntou:
— Aquela menina bonita que estava aí é sua filha?
Sabe que ela me deu um beijo no rosto?
Ele falava e acariciava a face direita.

9 - Hemoptise.
10 - Cabeça do Io metatarso
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:12 am

Capítulo X
A VIAGEM AO SANATÓRIO PADRE BENTO


Após o cumprimento de 15 dias de prisão, a autoridade do director foi salvaguardada e José foi libertado.
A vida de interno voltou à sua rotina e os treinamentos continuavam para o jogo com o Sanatório Padre Bento.
José continuava a corresponder-se com a família, e foi com muita dor que contou ao Miguel o falecimento de Cristiano.
O garoto ficou muito triste e chorou, embora ele nunca tivesse visto o menino hanseniano.
Na primeira oportunidade, contou a dona Florinda a conversa que teve com Cristiano, um pouco antes de ele morrer, sobretudo, o que falou sobre reencarnação e ainda que eles foram pai e filho numa outra vida.
Cristiano nasceu e foi internado, a seu pedido, para dar-lhe força e coragem.
Contou a visita que recebera do menino, em sua cela, a luz que emitia e que trouxera sua filhinha Rosalinda para vê-lo.
Contou também que aquele homem louco, que estava na cela em frente à sua, viu os dois, disse que a menina era muito bonita e que lhe dera um beijo.
Dona Florinda ouviu tudo com muita emoção.
Enxugando grossas lágrimas:
— Você ainda será um dos nossos.
Eu sinto isto dentro de mim.
Os dois conversaram ainda por muito tempo e José disse à dona Florinda:
— Gostaria de 1er um livro, mas que não fosse muito difícil.
A Senhora pode me emprestar um?
— Claro, José.
Eu tenho poucos livros e estão quase todos emprestados.
O livro principal se chama O Livro dos Espíritos.
Eu tenho aqui O Evangelho Segundo O Espiritismo.
É um livro consolador e nos enche de esperanças.
Leva com você.
Acho que vai lhe fazer bem.
— Mas será que vai dar para entender?
— Claro que sim.
Tem uma ou outra palavra mais difícil, mas acho que você vai entender o conteúdo do texto.
José se despediu de dona Florinda.
Foi para o quarto trocar de roupa para o trabalho no Rancho Alegre.
Antes abriu o livro ao acaso e leu um trechinho:
“Se o amor do próximo é o princípio da caridade, amar os inimigos aí tem magnífica aplicação, pois esta virtude é uma das grandes vitórias conquistadas ao orgulho”.
Infelizmente, ele não dispunha de tempo naquele momento, mas achou interessante, pensando consigo mesmo:
graças a Deus não tenho inimigos.
Os treinos se intensificaram e José, apesar dos problemas físicos que se agravavam, estava bem.
Alguns dias depois, os jogadores receberam seus agasalhos desportivos, chuteiras novas e também uniformes para o jogo.
Saíram, numa madrugada, em um ônibus que tinha uma porta na parte traseira e era fechada por fora com um cadeado.
A cabine do motorista era separada por uma chapa de ferro e o único meio de se comunicar com ele, caso houvesse alguma emergência, seria batendo fortemente na chapa.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:12 am

O primeiro e o segundo time, com mais algumas pessoas, o dono do Rancho Alegre, patrão do José, o treinador e alguns poucos internos que ocupavam cargos importantes, embarcaram para São Paulo, ou melhor, Guarulhos, onde se localizava o Sanatório Padre Bento.
Ida e volta não deveria chegar a uma semana, pois jogariam e retomariam imediatamente.
A viagem foi ruim, cansativa.
Alguns membros da delegação passaram mal pela imobilidade, outros tiveram enjoo por causa do movimento do carro.
Felizmente, este não se quebrou nenhuma vez, o que os veteranos sabiam ser frequente.
Depois de muitas horas de viagem entraram na cidade de São Paulo.
Ficaram admirados com todo aquele movimento de carros e pessoas, especialmente José.
Algum tempo depois chegaram ao Padre Bento e, logo na entrada, admiraram-se da beleza do hospital, sua limpeza e seus jardins muito bem cuidados.
Foram directo aos aposentos reservados à delegação e logo foram rodeados por muitos internos locais, que vieram conversar com os visitantes e já provocá-los com vista ao jogo, dizendo-lhes que levariam uma sova.
Alguns chegavam a prognosticar o placar de 4x0 e até 6x0.
Após se instalarem, procuraram tomar banho e colocar seus agasalhos desportivos.
Rubens chamou José para passear pelo hospital, mas preferiu descansar, dizendo que, no dia seguinte, passeariam.
Os visitantes andavam em pequenos grupos e, quando cruzavam com alguma turma de meninos, eram provocados, pois os garotos sabiam da superioridade do time local, por terem excelentes jogadores.
Alguns dos visitantes, como Rubens, o goleiro e mais uma meia dúzia de jogadores já tinham estado no Padre Bento.
Jogaram snooker, brincaram, bateram bola e os que já estiveram ali, sabiam que o dr. Lauro de Souza Lima costumava ir à noite ao Pavilhão dos menores, onde assistia ao jogo de bola ao cesto entre as crianças.
Conversava com todos que o rodeavam.
Um grupo de jogadores pediu para ir falar com dr. Lauro e alguns deles solicitaram uma licença para ir a São Paulo passear.
Dr. Lauro prometeu que veria a possibilidade, provavelmente depois do jogo.
No retorno aos aposentos, Rubens contou aos demais a conversa com o médico e a promessa da licença para ir a São Paulo.
Dormiram tranquilamente.
Após o café, sr. Valentino convocou todos para um bate bola.
Alguns jogadores estavam inibidos e com frio.
A temperatura local era bem menor do que da região de onde vieram.
Embora fosse abril, a temperatura era ligeiramente baixa, para quem estava acostumado com mais de 30 graus centígrados naquela época do ano.
José sentiu um pouco de dificuldade a princípio, mas, após aquecer-se, chamou a atenção da torcida local que fora vê-los.
Alguém já foi dizer ao treinador local que precisaria tomar cuidado com ele, pois tinha óptimo controle de bola e chutava muito forte com os dois pés, e, ainda mais, tinha excelente pontaria.
Após o bate-bola, os jogadores foram dispensados, com recomendação de não abusarem, pois o jogo seria no dia seguinte.
Que estivessem no refeitório geral na hora do almoço.
Rubens, que já conhecia o Sanatório Padre Bento, saiu a passear com José e o garoto Dorival, que ia fazer o seu primeiro jogo importante.
Ele acabara de completar 18 anos, sendo um caso benigno de lepra.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 15, 2016 11:12 am

Somente olhos treinados para o diagnóstico poderia perceber que ele era portador da lepra.
Rubens era um óptimo cicerone, por se lembrar bem dos locais que já visitara.
Um velho amigo, veio juntar-se ao pequeno grupo.
O campo de futebol, quadras de bola ao cesto, de ténis, a Escola Profissionalizante, a zona rural, chamada cerquilho e o Pavilhão de Menores.
José admirou os jardins muito bem cuidados e conversou com algumas crianças que se aproximaram.
Rubens brincou com os meninos, dizendo que o dr. Lauro era um chato e que eles iam ganhar o jogo de cinco a zero.
Recebeu uma estrondosa vaia dos garotos, que ficaram muito ofendidos, Rubens, percebendo isso, desculpou-se, dizendo que era brincadeira.
Um dos garotos reconheceu José, que se destacara no bate- bola e falou:
— Você é bom, mas não é páreo para o nosso beque.
À noite, José compareceu ao Pavilhão de Menores junto com outros companheiros.
Dr. Lauro cumprimentou-os um por um.
Quando chegou a vez de José, este sentiu uma coisa estranha, como se já conhecesse o médico de há muito tempo.
Neste momento, houve como que um lampejo em sua mente e ele se viu andando com mais nove homens, com trajes estranhos e todos leprosos.
Aquele homem à sua frente também era leproso.
Foram fracções de segundos, mas ele viu o grupo de joelhos diante de um homem de barba e cabelos compridos, que, de braços abertos, os abençoava, curando-os da lepra.10
Ele despertou daquele estranho transe com a voz do médico a dizer:
— Disseram-me que você é muito bom de bola.
A garotada diz que você é um craque. É verdade?
— Não, senhor.
Isso é bondade deles, respondeu José muito envergonhado.
Como algumas autoridades internas, e alguns jogadores locais também chegaram para conversar, José recuou para um canto mais escuro, e novamente viu uma porção de pessoas num Vale imundo.
Aquele homem não era mais vivo e sim um espírito ou alma, todo iluminado.
Viu no grupo um rapaz, quase um menino, muito ligado a ele.
Reconheceu no menino, o garotinho Cristiano.
Viu um outro que lhe pareceu o Cel. Teodorico.
Foi despertado, agora pela voz do Rubens, que perguntava preocupado:
— Você está bem, José?
Você está com cara de quem viu fantasma!
— Tudo bem. Já passou.
Naquela noite, José demorou a conciliar o sono.
Chegou a questionar se era correto estar ali, passeando, enquanto sua família amargava uma vida difícil.
Já passava da meia-noite, quando sentiu um bem-estar muito grande.
Teve certeza de que o Cristiano estava ali.
Ele não orou, porque não tinha esse hábito, mas pediu a Deus que abençoasse a todos.
Momentos depois, estava dormindo e Cristiano veio retirá-lo do corpo, levando-o a passear por locais belíssimos.
Entre os dois houve uma conversa fraterna e interessante:
— Aquilo que eu vi, quando conheci o médico é verdade?
— Sim! Peça para o padre Estêvão, lá na Colónia, e ele lhe contará a cura dos dez leprosos, sem revelar o que sabe.
Esse homem que você conheceu hoje, era o Samaritano.
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