Chão de Estrelas

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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:32 am

— Samaritano?
O que é isso?
— O Padre explica.
— Aquele rapazinho era você?
-— .Sim,
— Você era meu filho?
- Não. Não desta vez.
Aquilo foi o começo da redenção, eu me chamava Daniel.
Era judeu. Mas venha, vamos visitar a Rosalinda.
Sua mulher, Miguel e Guilherme também estarão lá e não se lembrarão quando acordarem.
Chegaram a um lindo jardim onde havia um prédio com muitas crianças.
Rosalinda logo se destacou de um grupo com quem brincava e correu para os braços do pai.
Chegaram Madalena, Miguel e Guilherme.
Todos se abraçaram jubilosos, enquanto Madalena agradecia a Nossa Senhora da Abadia, de quem era devota.
Após beijar Rosalinda e o pai, Miguel abraçou apertadamente a Cristiano, e, na sua simplicidade, perguntou por que o menino era todo iluminado daquele jeito.
Modestamente Cristiano diminuiu a intensidade da luz que lhe irradiava do peito, respondendo a Miguel:
— Você também possui essa luz, mas terá que descobri-la e aprender a acendê-la em seu coração.
— Como é que a gente acende?
É igual à lamparina lá de casa?
— Quando chegar o momento você vai saber, mas é, sobretudo, sendo bom e leal, como você já é.
Miguel e Guilherme saíram a brincar com Cristiano, enquanto José e Madalena não se cansavam de acariciar a pequena Rosalinda, que dizia em voz infantil:
— Olha, mamãe, eu não tenho mais tosse e nem vomito sangue.
Posso brincar sem me cansar.
Depois de algum tempo, Cristiano entregou Madalena, Guilherme e Miguel a dois mensageiros que os levariam em segurança para os seus corpos.
Rosalinda foi correndo ao encontro das amiguinhas e José retornava para o seu corpo, lentamente a conversar com Cristiano.
— Viu como ninguém morre?
A morte é uma ilusão, papai.
— Gosto que você me chame assim.
Todo mundo visita seus familiares que morreram? - perguntou.
— Não, longe disso!
Muitas pessoas não têm esse direito.
Muitas outras não acreditam na continuidade da vida.
E há outras que não se amam o bastante, além daqueles que vivem presos à matéria.
Cada um procura suas afinidades.
Os maus procuram os maus. Os pervertidos, idem.
Os bons se encontram e ajudam seu próximo.
José já estava perto do seu corpo que começava a atraí-lo como se o sugasse.
Ouviu ainda Cristiano dizer:
— Eu quero o golo que você me prometeu.
— Você me ajuda a fazê-lo?
— Não, não seria honesto, arrematou o menino.
José acordou pela manhã com uma disposição que há muito não sentia.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:33 am

Era uma alegria tão grande que chegou a cantarolar uma moda de viola.
Todos riram, pois ele era muito discreto.
Rubens comentou:
- Andou sonhando com Cristiano, não é mesmo?
— E com a Rosalinda também, respondeu José, muito sorridente.
Até a hora de começar o jogo o ambiente foi tenso.
A preliminar, entre os segundos times foi desastrosa para os visitantes.
O Padre Bento ganhou de 4 x 0.
Quando os times principais entraram em campo, houve foguetório e o Estádio estava lotado.
As crianças ficaram esperando para qual dos golos iria o goleiro visitante para se concentrarem atrás da meta e perturbá-lo.
Dr. Lauro, o director da Colónia visitante e muitas outras autoridades estavam em local especial, entretanto, assistiam ao jogo de pé.
O time local saudou a torcida e as autoridades, muito aplaudido.
Quando os visitantes fizeram a saudação, foram vaiados.
Como em qualquer lugar do mundo, aquela torcida era irreverente e malcriada.
Logo, começaram a colocar apelidos nos jogadores visitantes.
O árbitro veio de São Paulo, pertencia ao quadro de árbitros da Federação Paulista de Futebol, pois a rivalidade era grande.
O jogo começou tenso e o juiz mostrou-se enérgico, advertindo Rubens e um avante do Padre Bento que disputaram acirradamente um lance.
Logo os ânimos se acalmaram.
O time do Sanatório Padre Bento parecia um rolo compressor.
Numa jogada bem tramada o goleiro chegou tarde no lance e a bola encaminhava-se para a rede, quando Rubens, num supremo esforço esticou-se todo, com a ponta da chuteira desviou a bola para o corner.
Somente aos doze minutos de jogo José recebeu uma bola em boas condições e num drible de corpo tirou o zagueiro da jogada, driblou mais um e rolou a bola para Dorival que encheu o pé e carimbou a trave esquerda como um bólide.
Aquela jogada animou o time que passou a jogar de igual para igual.
Os dois goleiros se destacavam no jogo com excelentes defesas.
Aos 40 minutos do primeiro tempo, Dorival, José e Peruzinho, o ponta direita, fizeram uma triangulação.
José recebeu a bola na meia-lua da área do adversário e com um drible seco tirou dois adversários da jogada, adentrou a área.
Vendo o goleiro agigantar- se à sua frente, jogou o corpo para a esquerda e com o pé direito rolou a bola para o canto esquerdo, marcando um lindo golo, aplaudido até pelo dr. Lauro.
Terminado o primeiro tempo, José estava muito cansado, respirava com dificuldades, mas não quis ser substituído.
Reiniciado o jogo, o barulho da torcida, especialmente das crianças que bandearam para trás da outra meta, onde estaria o goleiro adversário, era muito forte.
Gritavam o tempo todo animando seu time.
Os visitantes recuaram e aos 15 minutos de jogo já perdiam por 3x1.
Rubens estava nervoso e o time não se acertava.
Foi neste momento que José saiu do seu mutismo e começou a conversar com os companheiros, corrigindo posicionamentos da defesa, incentivando a cada um, especialmente Dorival, que, no segundo tempo, estava desaparecido em campo.
José recuou seu posicionamento e começou a distribuir o jogo.
De costa para o campo adversário, num toque subtil com o bico da chuteira, sem olhar, colocou Dorival sozinho na frente do golo e este soltou uma bomba indefensável.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:33 am

Com o segundo golo dos visitantes foi o time do Padre Bento que recuou e o seu goleiro se agigantou.
Dorival foi derrubado dentro da área e o juiz não assinalou o penalti.
Houve muita reclamação e ameaça de expulsão, mas tudo serenou.
Logo depois, José aprofundou uma bola para o Peruzinho que chega até a linha de fundo, deu dois dribles secos no seu marcador e cruza a bola para Dorival saltar e, de cabeça, vencer o goleiro.
O zagueiro, em cima da Unha de golo, com a mão direita, desviou a bola para fora.
Desta vez o juiz marcou o penalti, exactamente aos 43 minutos do segundo tempo.
Ninguém queria marcar o penalti.
Dorival, Peruzinho e Rubens recusaram-se; o técnico fez sinal para José bater a falta máxima.
José ficou com medo de errar.
Acalmou-se por ter visto um garotinho parecido com Cristiano, de macacão cáqui como as crianças do Pavilhão de Menores.
Imediatamente teve a certeza de que marcaria o golo.
Ficou a dois passos da bola.
O goleiro, experiente, procurou enervá-lo.
A torcida xingou-o de nomes pesados.
Para ele era como se estivesse sozinho e o golo vazio.
O juiz trilou o apito, ele deu um passo e bateu com o pé esquerdo, chute seco, a 30 centímetros do chão.
O goleiro, surpreso, não se mexeu.
O jogo estava empatado e terminaria pouco depois, embora os locais reclamassem que o juiz deveria acrescentar pelo menos mais dois minutos.
Terminada a partida, todos os jogadores da Colónia correram para abraçar José.
A alegria era imensa, pois o empate dentro do Padre Bento, significava vitória.
O sr. Valentino, o treinador, abraçou cada um dos jogadores, com um muito especial em José:
Você foi demais.
Meus parabéns.
Você daria um bom treinador.
No dia seguinte, vários componentes da delegação visitante conseguiram licença médica com o dr. Lauro de Souza Lima para passear em São Paulo.
José não quis ir, mesmo com a insistência de Rubens e vários colegas.
Ele passou o dia bastante cumprimentado pelos companheiros de delegação e por muitos moradores do Padre Bento.
Brincou com as crianças e procurou o menino parecido com o Cristiano.
Não o encontrou.
Pela noite, foi mais uma vez ao Pavilhão de Menores assistir a um jogo de bola ao cesto das crianças e estar perto do dr. Lauro que o cumprimentou efusivamente, elogiando o seu futebol fino e clássico.
Depois de uma rápida conversa, José retraiu-se e a prosa continuou animadamente entre o dr. Lauro, adultos e crianças que o cercavam, enquanto os dois times de garotos que jogavam basquete, esforçavam-se para merecer a atenção do médico.
Repentinamente, dr. Lauro virou-se para José e perguntou:
— Você falou alguma coisa comigo?
— Não, senhor.
— Eu tive a impressão de que você falava de um menino.
— Ah, sim doutor.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:33 am

Um menino lá da nossa Colónia, chamado Cristiano, morreu há poucos meses, ele me pediu que dissesse ao senhor que sempre o amou e gostaria muito de tê-lo conhecido.
— Cristiano. Bonito nome.
Que pena que ele não fosse uma das minhas crianças.
Pouco depois, José retirou-se agradecendo ao dr. Lauro aquela oportunidade.
O médico ainda brincou com ele sobre se não queria transferir-se para o Padre Bento.
José disse que não e saiu feliz, pois cumprira o que prometera.
Marcou dois golos para o Cristiano e dera seu recado ao dr. Lauro.
No dia seguinte embarcaram de retorno à Colónia, onde foram recebidos como heróis.

11 - Do livro Cantai Comigo A Luz da Eterna Aurora, do mesmo autor.
A cena refere-se ao momento em que Jesus de Nazaré curou os dez Leprosos.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:33 am

Capítulo XI
A CILADA


Enquanto José gozava merecidamente a fama que o jogo lhe proporcionou, lá na fazenda do Cel. Teodorico as coisas não andavam bem.
Um colono vira, bebendo numa venda da cidade, o irmão do Cel. Teodorico, expulso da fazenda por causa do ataque à dona Madalena.
Ao ver o peão, perguntou:
— E aquele pedação de mulher, a Madalena, está na fazenda ainda?
Está sim, senhor.
E o leproso, já morreu?
— Sei não, mas acho que não.
Quando o colono chegou à fazenda procurou logo avisar seu Totico, que, por sua vez, avisou dona Madalena para tomar cuidado.
Alguns trabalhadores viram o ex-administrador rondando a fazenda; ninguém teve coragem de avisar o Cel. Teodorico.
Quanto aos capangas que faziam a ronda na fazenda, vários deles tinham amizade com o homem e não o contrariariam de forma alguma.
Madalena sentia opressão no peito e medo, mas procurava não demonstrar; tivera a impressão de ter visto o sr. Waldemar rondando o seu ranchinho.
Naquela tarde, Madalena precisava ir, juntamente com outra mulher, cuidar de uma família pois todos estavam doentes e moravam num ranchinho nas extremidades da fazenda.
Na última hora, sua companheira disse que não poderia ir.
Madalena achou que não podia faltar àquele dever cristão.
Apressou o passo e pensou em voltar com o dia ainda claro.
Entretanto, a situação da família era muito ruim e Madalena cuidou da casa, deu banho nas crianças, fez curativo no velho que tinha uma grande ferida na perna, com forte mau cheiro.
Colheu ervas que conhecia muito bem e amassou as folhas cozidas num pano limpo para fazer o curativo.
Quando decidiu sair, já eram quase nove horas da noite e não havia luar.
Ela fez uma prece e pediu protecção a Deus.
Se ela pudesse ver, veria Cristiano chorando ao seu lado.
Numa curva da trilha aquele homem asqueroso apareceu à sua frente, assustando-a, com uma risada obscena:
— Vai ser por prazer ou terei que submetê-la à força?
E dizendo isto estalou o chicote para assustá-la.
— Pelo amor de Deus, seu Waldemar, não faça isto comigo.
Eu tenho filhos pequenos, o senhor sabe.
Como resposta o ex-administrador chicoteou-lhe o rosto cortando-o e ripostou:
— Quando eu lhe ofereci um reino você me desprezou e me fez ser expulso pelo meu próprio irmão.
Eu continuo incendiado de desejos.
Tive cinco mulheres durante este tempo, até a filha de um banqueiro, mas nenhuma se compara a você.
Madalena tentou correr e foi facilmente alcançada.
Como lutava terrivelmente contra a sanha daquele depravado, esmurrou-a no rosto e ela desmaiou.
Waldemar lamentou, pois queria-a consciente.
Aproveitou para rasgar-lhe as roupas e possuí-la ao seu prazer, largando-a desmaiada na relva húmida e com as roupas íntimas em desalinho.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:33 am

José, que havia passado o dia com estranho mal-estar, compareceu ao trabalho no Rancho Alegre, servindo os fregueses com a mesma eficiência.
Era sexta-feira e o pessoal do jogo carteado resolveu jogar até mais tarde.
Cerca de nove horas da noite José começou a ter ânsia de vómitos e o coração disparava numa taquicardia intensa.
Ele logo pensou que estaria muito doente ou algo muito ruim estaria acontecendo com a sua família.
No banheiro do bar, tentando vomitar ou acalmar-se, assustou-se vendo Cristiano chorando copiosamente, com apenas uma luz opaca saindo-lhe do peito.
José não teve dúvidas, alguma desgraça acontecera com a sua família.
O seu patrão, que desde o jogo com o Padre Bento passara a ser-lhe um grande amigo, percebendo a sua situação, dispensou-o do serviço, dizendo que ele mesmo serviria às mesas.
José agradeceu e foi para o seu quarto tentando fazer contacto com Cristiano, sem o conseguir, pois um espírito muito luminoso o recolhera nos braços, convidando-o a orar.
Gustavo e Miguel aflitos com a demora de dona Madalena, foram buscar seu cachorro caçador enquanto Miguel ia ao rancho do Seu Totico pedir ajuda.
Pouco depois, o pequeno grupo, reforçado por mais um homem armado com uma espingarda de caça, seguia a trilha que levava à casa da família Moreira.
No meio do caminho, ouviram o choro desesperado de dona Madalena.
O cachorro logo a localizou.
Miguel e Gustavo abraçaram-se a ela, chorando, enquanto o cachorro farejava algo e avançava rosnando, saltando sobre um homem, que tentava fugir.
O caboclo que acompanhou o grupo, o bom Saturnino, antes que seu Totico pudesse impedir, deu um certeiro tiro.
O homem gritou e caiu como fardo pesado no chão.
Gustavo correu para segurar seu cachorro, que ainda atacava o homem.
Seu Totico correu com o lampião de querosene e viu o rosto do ex-administrador, que agonizava, com o peito aberto pelo tiro.
Em alguns minutos, os capangas do coronel chegaram a cavalo e constataram a terrível cena.
Dona Madalena, violentada, e o seu agressor agonizando, com um tiro no peito.
Levados à sede da fazenda, uma empregada providenciou um cobertor para dona Madalena se cobrir.
O Cel. Teodorico mandou chamar dr. Xavier que, ao chegar, não pôde fazer mais nada pelo desalmado Waldemar.
A seguir, examinou a violentada, constatando toda a brutalidade sofrida por ela.
Pouco depois, chegou o delegado.
Com a influência do Cel. Teodorico e o testemunho do Seu Totico, amenizaram os acontecimentos.
O Coronel providenciou dinheiro, para que o caboclo Saturnino fosse embora da fazenda.
Ele escreveu um rápido bilhete para que um amigo, fazendeiro em Minas Gerais, desse abrigo e emprego ao caboclo.
O dia amanheceu e as notícias correram rapidamente.
Seu Totico dispensou Madalena do serviço até que se recuperasse.
O corpo de Waldemar foi levado para a cidade grande, para ser autopsiado e lá mesmo foi feito o enterro, cujas despesas o Cel. Teodorico pagou, sem comparecer.
Na tarde daquele dia, Madalena disse à sua amiga Maria Aparecida:
— Acho que estou grávida.
— E impossível, Madalena.
E porque você está com muito medo.
Madalena chorou copiosamente e repetiu.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:34 am

— Estou grávida.
Eu sei que estou.
Enquanto isso, José vivia amargurado, esperando alguma notícia da sua casa e não chegava nenhuma carta.
Pensou em fugir de novo, mas não teve ânimo.
Quando via Cristiano, ele estava inexplicavelmente com pouca luz, porém, pouco a pouco o menino foi retornando ao seu estado normal.
Quase 20 dias depois chega uma carta e, ao lê-la, José sente que vai enlouquecer.
Chora muito, esmurra a mesa e depois, fica febril.
No seu coração ele pensa:
Deus, eu já estava gostando de Você, mas começo odiá-lo novamente.
Porquê? Porque nos acontece tudo isso?
Você não saciou sua raiva em mim?
Por que deixar acontecer isso a Madalena?
Cristiano, invisível ao seu lado, esforçava-se para consolá-lo, porém, ele não queria ouvir e nem ver Cristiano.
Sua dor era muito grande, devido à sua impotência.
Nada podia fazer.
Cristiano pediu ajuda a espíritos mais sábios e mais experientes.
Com muito esforço, conseguiram ectoplasma com outros pacientes.
Era pouco, mas o suficiente para formar uma garganta ectoplásmica e Cristiano, com sua voz de menino, leu aquele mesmo trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
“Se o amor do próximo é o princípio da caridade, amar os inimigos aí tem magnífica aplicação, pois esta virtude é uma das grandes vitórias conquistadas ao orgulho”.
José lembrou-se que vinha lendo o Evangelho todos os dias e também ensaiara algumas leituras de O Livro dos Espíritos.
Fosse pelo cansaço, fosse pela voz de Cristiano, ele dormiu, sem conseguir se libertar do corpo, estava tardo, pesado e Cristiano ficou ali a orar e vigiar.
José não contou a ninguém, nem mesmo ao Rubens.
Pouco a pouco recuperou-se, embora nunca mais demonstrasse alegria.
Sua saúde, no que tange à lepra, piorou rapidamente.
Sentiu a voz roufenha e a ferida do pé aumentou grandemente.
Pediu dispensa do futebol, e, por influência do sr. Valentino, continuou na casa dos desportistas.
Enquanto isso, dona Madalena constatou que estava realmente grávida.
O estupro resultou em gravidez.
Madalena achou que não podia ter aquela criança.
Iria abortá-la.
Cada vez que sentia enjoo tinha a impressão que estava passando por tudo aquilo novamente.
Sentia a dor da chicotada, o hálito fétido de fumo e cachaça daquele homem monstruoso.
Maria Aparecida, com tristeza, providenciou para que uma abortadeira comparecesse no rancho de Madalena.
Ficou combinado que, na tarde do dia seguinte, ela se livraria daquele intruso, fruto daquele homem malvado.
Naquela noite, Cristiano trouxe Rosalinda, que beijou a mãe em sonho e pediu para ela não abortar, seria um crime.
Madalena não se lembrava do que se passou durante a noite, contudo, acordou com outra disposição, pensando:
- Essa pobre criança não tem culpa.
Meu Deus, não posso matá-la por causa do meu ódio.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:34 am

Nossa Senhora da Abadia, me responda o que eu devo fazer.
Não houve uma resposta como ela desejava, embora, a cada hora, ela se sentia mais forte a sua decisão de ter a criança.
Quando a abortadeira chegou, a decisão já estava firmemente plantada em seu coração.
Madalena resolveu não abortar.
O Cel. Teodorico soube, através dos mexericos, que dona Madalena estava grávida do seu irmão e mandou chamá-la na casa grande.
Não a recebeu no escritório e sim na sala de visitas da sua casa.
Mandou a criadagem se retirar, queria conversar particularmente com ela e não ser interrompido.
Pediu para Madalena sentar-se, pigarreou e foi dizendo:
— Dona Madalena, não vou fazer nenhum rodeio.
É verdade que a senhora está esperando um filho daquele miserável do meu irmão?
Madalena, de cabeça baixa e corada pela vergonha, respondeu:
— Sim, senhor.
— Madalena, se a senhora quiser tirar esse filho eu tomo todas as providências e pago tudo.
A senhora não tem nenhuma obrigação de carregar esse filho espúrio no ventre.
— Eu já decidi que vou ter esse filho, Coronel Teodorico.
— Mas porquê, Madalena? Porquê?
— A criança não tem culpa Coronel.
Matar, é contra a lei de Deus.
Rezei muito e pedi a N.S. da Abadia para me esclarecer.
A minha decisão foi de deixá-la nascer e criá-la com amor.
— Desculpe a pergunta, mas você amava meu irmão?
Desejava ele?
Afinal é compreensível, pois você é uma mulher forte, sadia e está sozinha há muito tempo.
Madalena levantou a cabeça com altivez e, com os olhos brilhando de indignação, respondeu:
— Eu sempre odiei o seu irmão.
Que Deus me perdoe mas fiquei contente de ele ter morrido como um cão, o que, na verdade, ele era.
— Peço desculpas, mas precisava ter certeza.
Desejo que entenda, se você quiser abortar eu pago todas as despesas e ainda lhe dou uma compensação financeira, mas, se você deixá-lo nascer, não conte comigo.
Não darei nem mesmo uma fralda.
— Coronel, jamais pensei em pedir qualquer coisa ao senhor.
Somos pobres e estamos acostumados a passar fome e a sofrer.
Posso ir embora?
— Pode sim, Madalena.
Antes, quero dizer que invejo a sua família.
Invejo a coragem e a força de José, sua lealdade e força moral.
Gostaria de acreditar em Deus para abençoá-la.
— O senhor é um bom homem, contudo precisa confiar mais nas pessoas.
Madalena retomou à sua casa e logo depois recebeu a visita do “cura” da cidade.
Ele veio trazer-lhe conforto espiritual e reforçar a sua decisão de não abortar.
Conversaram durante muito tempo e o padre tomou conhecimento das necessidades espirituais dos colonos.
Cristiano aproximou-se de dona Madalena, colocando o dedo indicador luminoso em seu córtex cerebral, começando a falar por sua boca.
— O senhor precisa sair do conforto de sua paróquia e levar a religião aos pobres e deserdados.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:34 am

Fale com o Coronel e ele deixará o senhor construir uma capela aqui na fazenda.
Onde estão aquelas ideias de amor e trabalho de quando era um seminarista?
A luta pelos pobres, a assistência aos presos, as visitas aos bordéis para levar Jesus àquelas nossas pobres irmãs.
O senhor, no entanto, tem se recusado a baptizar os filhos delas...
O Vigário ia ficando pálido, à medida que dona Madalena ia falando.
Continuou:
- O seu Bispo tinha grande confiança no seu futuro.
Ele ainda o ama, só está um pouco decepcionado.
— Dona Madalena, quando a senhora começou a falar, pensei que fosse o diabo que falava pela sua boca, mas vejo que só pode ter sido um mensageiro de Deus.
Eu vou revolucionar essa cidade, a senhora vai ver.
Outra visita foi do dr. Xavier, que tentou convencê-la a abortar.
Usou muitos argumentos, até o de perguntar como ela ia explicar para os filhos e para o marido, ao que ela respondeu:
— Eu já expliquei ao Miguel o que vai acontecer.
— E ele, o que disse?
— Primeiro ele chorou, depois me abraçou e disse que me amava muito.
— E o pequeno? E o marido?
— O Guilherme ainda não pode entender.
Quanto ao meu marido estou escrevendo uma carta para contar-lhe.
— A senhora é muito corajosa. Parabéns.
Somente alguns meses depois, ela contou a José, numa carta, que dizia mais ou menos assim:
“Meu José, vida de minha vida.
Não sei como continuei vivendo, quando roubaram você da minha companhia.
Foi como se tirassem o meu próprio coração.
Só resisti porque nossos filhos pequenos e a Rosalinda tão doentinha me obrigaram a viver.
Temos sofrido muito e sei o quanto aquele acontecimento o humilhou.
O que tenho para lhe contar talvez o humilhe ainda mais, porém, é meu dever contar.
Estou grávida daquele homem asqueroso a quem odiei com todas as minhas forças.
Não pude matar o entezinho que está na minha barriga.
Perdoe-me, meu querido, meu amor, mas não posso, não consigo ser uma assassina.
Se você quiser me desprezar, me odiar, eu saberei compreender.
Não me julgue leviana.
Nunca pensei em outro homem que não fosse você.
Nunca consenti que outro homem me tocasse e nunca outro homem me tocará se não for você.
Miguel já está sabendo, o Guilherme ainda não pode compreender.
O Gustavo já brigou para defender Miguel, porque um menino grande disse que eu tinha gostado.
Espero que você me perdoe.
Não saberei viver sem o seu perdão.
Sei que você tem o direito de não perdoar, e aí, continuarei vivendo pelas crianças.
Sua esposa, Madalena. e sentiu como se um punhal incandescente trespassasse o seu coração.
Quis chorar, mas seus olhos estavam secos, não havia mais lágrimas a serem derramadas.
Amassou por muito tempo o papel e depois dirigiu-se ao sanitário.
Jogou-o no vaso e puxou a descarga, como se aquele acto pudesse lavar a sua terrível mágoa.
Sentia a mente confusa e, ao mesmo tempo, queria gritar, xingar, desafiar a Deus.
Uma sensação de impotência o dominava completamente.
Pensou em comprar uma garrafa de cachaça e beber até perder a consciência, logo desistiu dessa ideia.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 16, 2016 10:34 am

Enquanto isso, invisível a seus olhos, Cristiano e outros espíritos procuravam manter a sua coragem.
Já treinado em seus contactos com o menino desencarnado, conseguia perceber-lhe a voz nos refolhos da consciência.
Cristiano dizia.
— Coragem, meu pai.
Seja forte e humilde.
— O que você pode entender dos sentimentos de um homem?
Você é ainda uma criança!
— Você se esquece da reencarnação.
Sou um espírito adulto, pois já fui adulto muitas vezes.
Poderia reassumir essa condição, mas preferi guardar a forma infantil para ter melhor acesso ao seu coração e de outras pessoas.
José calou-se e fechou-se num mutismo preocupante.
Cristiano não arredou o pé de junto dele.
Naquela tarde, ele chegou atrasado ao seu trabalho no Rancho Alegre.
Vendo-lhe a fisionomia transtornada, o patrão quis dispensá-lo para que descansasse, mas não quis.
Ficar sozinho consigo mesmo seria insuportável.
No sábado à tarde, ele procurou dona Florinda, pois precisava falar com alguém ou ficaria louco.
Apesar da sua amizade com Rubens, não tinha coragem de relatar-lhe os acontecimentos.
Dona Florinda recebeu-o maternalmente e José contou-lhe o que acontecera com a sua mulher, dona Florinda escutou-o em silêncio, apertando-lhe a mão de quando em quando.
Foi só então que José conseguiu chorar.
Dona Florinda procurou consolá-lo, dizendo-lhe palavras confortadoras.
Invisível aos olhos dos dois, Cristiano tocou com os dedos perispirituais o córtex cerebral de dona Florinda inspirando-a a falar:
— José, acredite!
Deus não está castigando-o.
Ele o ama muito e criou-o para a felicidade.
Deu a você e a todos nós, a liberdade de escolher os caminhos e, muitas vezes abusamos cometemos crimes, destruímos reputações, assassinamos pessoas e esperanças.
— Você quer dizer que sofremos, porque somos pecadores?
— Não! Sofremos porque não somos capazes de amar o bastante.
Sofremos porque precisamos adquirir experiências.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:39 am

Capítulo XII
A INESQUECÍVEL REUNIÃO ESPÍRITA


Num dia ensolarado, José foi visitar o pároco do asilo e, depois de conversar um pouco sobre algumas amenidades, referiu-se o assunto que motivara a visita, disse que nunca fora um religioso e que raramente em sua vida tinha ido a uma igreja, ao que o padre respondeu:
— Eu sei, pois nunca o vi assistindo a missas.
— É verdade, briguei com Deus tão logo vim parar no Asilo.
Eu queria saber o que o Senhor acha da reencarnação?
— Para você eu posso dizer, José.
A reencarnação é uma lei maravilhosa.
Não haveria justiça no universo se não existisse a reencarnação.
— O Senhor acha que nós estamos sendo castigados?
— Como assim?
— Somos leprosos porque fomos maldosos, prejudicamos o próximo?
— Não, necessariamente.
Somos espíritos em evolução.
Nascemos para progredir.
Ao mesmo tempo que pagamos as nossas dívidas, os nossos débitos, fazemos o nosso aprendizado.
O apóstolo São Paulo afirmou:
daquilo mesmo que o homem semear, ceifará.
Deus não poderia dar a alguns as riquezas, a saúde e a felicidade, enquanto outros filhos seus, vivessem na dor e na miséria.
Eu tenho a certeza, meu amigo, que já estivemos juntos outras vezes, por isso nos estimamos, nos queremos bem.
— Então não é pecado ser espírita, nem é proibido falar com os mortos?
— Não, José. Não pode ser pecado.
Quando eu ia abandonar a batina, pretendia fugir, ir para um lugar bem distante, pois estava cansado, desiludido.
Pretendia ir para o Acre ou para o Amazonas.
Lá, onde ninguém me conhecesse, poderia adoptar o Espiritismo, me casar, quem sabe, e ter filhos.
Nunca deixei transparecer isso a ninguém.
Cristiano percebeu e me advertiu que não devia fazer isso, pois os meus irmãos hansenianos precisavam de mim.
Eu necessitava continuar padre, porque poderia ajudá-los muito mais.
Além disso, essa batina me abre muitas portas e me dá o respeito social, mesmo aqui na Colónia.
O padre destrancou uma gaveta e mostrou a José, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e O Evangelho Segundo o Espiritismo, todos de Allan Kardec.
— Você é a única pessoa a quem mostrei esses livros.
Continuo amando a igreja e respeitando meus superiores, porém, amo também o Espiritismo.
Só contei isso a você, porque sei que você é protegido pelo Cristiano.
— Fale-me um pouco mais da reencarnação.
Desde a primeira vez que dona Florinda me falou que já nascemos outras vezes e ainda vamos nascer novamente, me pareceu muito lógico e verdadeiro.
— Deus nos quer perfeitos e só poderemos alcançar a perfeição renascendo muitas vezes.
Só a reencarnação pode explicar o mundo.
— O senhor acha que os espíritos podem vir falar com a gente?
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:39 am

— A Bíblia tem muitos casos de comunicação de espíritos.
0 que me provou essa possibilidade foi quando eu estava desesperado pela morte de minha mãe, ela implorou a minha presença.
Meus irmãos só me comunicaram, depois que ela havia sido enterrada, porque tinham medo que eu fosse a nossa casa.
Eles têm pavor e vergonha da minha doença.
Eu estava revoltado.
Cristiano apareceu-me e disse que, assim que minha mãe despertasse no mundo dos espíritos, ele viria me buscar para visitá-la.
Isto aconteceu alguns meses depois e foi maravilhoso.
— Cristiano levou-me, também, para ver minha filhinha, disse José.
— Vá ao Centro Espírita sim, José.
Sobretudo, seja um homem bom, ame a Deus e ao seu próximo.
Não prejudique ninguém e Deus o abençoará sempre.
José despediu-se mais confortado e mais seguro de si.
Entre as muitas pessoas que foram internadas no Asilo Colónia, naquele ano de 1945, internara-se um rapaz de nome Rolando, um jovem bonito, moreno claro, com sobrancelhas espessas, cabelo ondeado e estatura alta e forte, embora tivesse menos de 18 anos.
Ele viera de A., uma cidade do Triângulo Mineiro e já tinha duas irmãs internadas há alguns anos.
Uma era ainda pré-adolescente e a outra era uma jovem.
Chamavam-se Eunice e Irene.
As duas eram muito queridas de todos, embora a menina fosse mais extrovertida e alegre.
Rolando viera trazer um irmãozinho menor, o Hamilton, para ser internado e os médicos o internaram também.
Rolando fez amizade com José.
Quando perguntou se ele conhecia algum interno que fosse espírita.
José, logo que foi possível, levou-o para conhecer dona Florinda, que, após meia hora de conversa ficou admirada do conhecimento doutrinário que o moço recém internado demonstrava.
— Você é tão jovem, como pode saber tanto? - perguntou dona Florinda.
— Meus bisavós e meus avós foram espíritas.
Meu pai, minha mãe e quatro dos meus tios também são espíritas.
Mamei Espiritismo nos seios da minha mãe.
Cresci assistindo a sessões e desde pequeno, converso com os espíritos.
Eu tenho um tio que é intelectual e com ele aprendi a gostar de Gabriel Delane, Aksakof, Bozzano, Paul Gibier, Camile Flamarion, Gustave Geley, Eurípedes Barsanulfo, Batuíra, Caibrar Schutel e muitos outros.
Aprendi a admirar Francisco Cândido Xavier e praticamente fui alfabetizado com O Livro dos Espíritos e o Evangelho Segundo o Espiritismo.
Como José ouvia calado, o rapaz perguntou:
— Quem é este menino claro, de olhos azuis que está sempre perto de você, hein José?
— E o Cristiano.
Um garotinho que morreu aqui no hospital, respondeu com segurança.
— Ele está me dizendo que eu tenho que ensinar Espiritismo a você.
Antes, eu tenho que melhorar a sua leitura e lhe ensinar tudo o que eu sei.
Não é muito, mas se quiser...
— Se o meu filho mandou eu obedeço, porque ele sabe mais do que eu.
Dona Florinda convidou-o a conhecer o pequeno grupo espírita e ele prometeu que iria, assim que fosse possível.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:40 am

Nesta época, José havia saído da oficina mecânica porque não tinha mais condições físicas de suportar o trabalho pesado da mecânica.
Para conseguir o dinheiro que precisava, para mandar à família, passou a trabalhar mais algumas horas no Rancho Alegre, onde o ofício não era tão sacrificial.
Com isso tinha algum tempo para dedicar-se ao aprendizado do Espiritismo.
Rolando escreveu para a sua casa pedindo livros da sua biblioteca e enquanto esses livros não chegavam, ele se aplicava em melhorar o vocabulário de José, sem forçá-lo a um artificialismo.
José era óptimo aluno e aprendia rapidamente.
Em pouco tempo a sua concordância verbal já era notada pelos amigos e ele já escrevia com certa facilidade.
Cristiano, da dimensão espiritual, acompanhava os progressos e incentivava-o sempre.
As lições terminavam com animadas conversações sobre a Doutrina Espírita.
Allan Kardec estava sempre na pauta das conversas e José já aprendera muito sobre ele.
Convidados por dona Florinda, os dois foram frequentar o Centro Espírita que se formava dentro da Colónia, já com o projecto de construir uma sede.
Rolando não aceitou nenhum cargo directivo, mas passou a conduzir as reuniões de estudos, dando-lhes um dinamismo incomum e não havia aluno mais aplicado que José, para orgulho de dona Florinda.
Rolando, com a sua juventude e beleza física, chamava a atenção das jovens casadoiras, que o disputavam.
Na Colónia de leprosos, os jovens também se apaixonavam e muitos se casavam, dentro dos parâmetros da lei.
O Juiz de Paz comparecia com o escrivão para realizar a cerimónia e o Padre Estêvão realizava o casamento religioso.
Pelo seu porte atlético, Rolando foi convidado a jogar futebol e bola ao cesto, mas não aceitou.
Entretanto, batia bola para se divertir e fazia ginástica diariamente pela manhã, bem cedinho.
Ia sempre ao cinema, aos bailes e dançava muito, evitando os bailes carnavalescos.
Interessou-se muito pelas crianças, especialmente pelo irmãozinho de Cristiano.
José continuou escrevendo para a sua casa sem nunca tocar na gravidez de Madalena.
Chegou, certo dia, uma carta de sua esposa, contando que a criança nascera e era uma linda menina.
Madalena, conforme o costume interiorano, pedia a José que abençoasse a criança.
José chorou, seu coração ainda estava duro, ressequido.
Junto à carta de Madalena veio uma página de Miguel, informando que a mãe não sabia que ele colocara aquela folha junto com a sua carta.
Ao levá-la ao correio, comprou um envelope, abriu a carta e colocou a sua, após endereçar o novo envelope.
A carta de Miguel, dizia.
“Papai, o senhor não pode imaginar como a mamãe sofreu com essa gravidez.
Alguns amigos nossos viraram as costas para nós, tal qual quando o senhor ficou doente.
Eu e o Gustavo brigamos muitas vezes com os moleques por causa das insinuações maldosas.
A gravidez da mamãe foi muito difícil e, se não fosse a madrinha Maria Aparecida e o seu Totico com a dona Cidoca, a mamãe não teria resistido.
Quando chegava cartas suas, os olhos da mamãe brilhavam de esperanças, mas, após lê-las, ela chorava baixinho por muito tempo, porque não tinha nenhuma palavra de compreensão ou de incentivo, porém, ela nunca se queixou.
Mamãe quase morreu ao dar a luz.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:40 am

O parto foi difícil e foi a madrinha quem fez.
Eu chorava ao lado da cama e comecei a rezar.
Aí eu vi aquele menino, o Cristiano.
Juro que vi, papai.
Ele chegou com um médico que ele chamava de Dr. Bezerra, um velho com barba branca comprida, olhos verdes, que cuidou de tudo e a mamãe conseguiu ter a criança.
Ela é linda, papai.
Seus olhos são negros como os da mamãe e tem um apetite que não há leite que chega.
A mamãe tem bastante leite, mas o Guilherme anda enciumado, birrento e sempre quer dormir no colo dela.
O Cel. Teodorico veio ver a menina.
Olhou muito tempo e não disse nada.
Tirou a carteira do bolso e antes que pegasse algum dinheiro, a mamãe disse que não queria nada.
Não aceitou nenhum tostão.
Papai, quando eu lembro daquele homem e o modo que encontramos a mamãe lá no meio do mato, sangrando e chorando, eu sinto um ódio tremendo e queria ser eu que tivesse puxado o gatilho da espingarda.
Lamento não ter enfiado o seu punhal nas costas dele, naquela noite em nossa casa.
Quando olho para o rostinho da Silmara, esse é o nome dela, eu sinto uma ternura, um amor que me deixa assustado.
Quando eu beijo o seu rostinho, parece que estou voando.
Ah, papai, se a gente tivesse como tirar um retrato para mandar para o senhor”...
José chorou com as duas folhas de papel nas mãos e, pela primeira vez não sentiu ódio da criança.
Invisível aos seus olhos, Cristiano suspirou aliviado e agradeceu ao Dr. Bezerra de Menezes.
Este, ao seu lado, impôs as mãos sobre a cabeça do José que sentiu um leve torpor.
Orou sentidamente a Deus, rogando forças para que José não fracassasse, nem recuasse ante a missão que tinha a cumprir.
Sentindo-se renovado, saiu para levar a carta à dona Florinda.
No caminho, encontrou Rolando e ambos passaram no pavilhão das crianças, para conversar com o irmãozinho de Cristiano, que logo se tornou amigo do irmãozinho do Rolando.
Pediram autorização ao homem que cuidava das crianças para levar os meninos com eles.
Daniel gostava muito de brincar com uma cachorrinha de dona Florinda, e, enquanto ele e Hamilton se divertiam, correndo pelo quintal com o animalzinho, ela leu a carta.
Olhando nos olhos de José, viu-os calmos e tranquilos e ficou muito feliz.
José contou a Rolando toda a história da violência sexual sofrida por sua esposa, a decisão dela de ter o filho deste estupro, a sua corajosa decisão influenciada apenas pela sua dignidade, pelo seu amor à vida.
Rolando abraçou-o e disse:
— Eu invejo você, a família que você tem, a protecção deste espírito que se mostra como criança, a força moral das suas atitudes...
José abaixou a cabeça corado, porque era ainda muito tímido.
Ao chegar em seu quarto, escreveu uma longa e carinhosa carta para Madalena, pediu a Deus que abençoasse a menina, que abençoasse também a sua valorosa mulher.
Pediu a Madalena que o perdoasse por sua incompreensão.
Disse ainda que confiava em Deus que um dia voltaria à sua casa e amaria sua filha com o mesmo amor que sempre dedicou ao Miguel, Guilherme e Rosalinda.
Pouco depois que colocou a carta no correio interno, um menino veio avisá-lo que Turquinho Michel chamava-o insistentemente.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:40 am

José foi imediatamente ao quarto onde morava o casal.
Michel, com um entusiasmo extraordinário dizia meio atropeladamente:
— José, foi descoberta a cura da lepra!
Vamos ser curados, José!
Atónito, José não sabia o que dizer e Irene foi quem explicou.
— Sabe José, Michel ouve rádio o tempo todo e ele pegou um noticiário em ondas curtas, dizendo que nos Estados Unidos os leprosos estavam sendo curados com um produto farmacêutico chamado Sulfona.
Ainda é fase experimental e os resultados são excelentes, pois as experiências começaram em 1940 ou 41.
— Sabe, José, eu achei que você deveria ser o primeiro a saber disso, falou o Michel.
- Meu Deus! Bem que o Cristiano me disse que surgiria um remédio.
Graças a Deus!
A notícia correu pela Colónia como fogo num rastilho de pólvora.
Daí para a frente, era comum encontrar grupos de pacientes em torno de um rádio, ouvindo as notícias sobre o novo remédio.
Os médicos estavam divididos em suas opiniões, pois alguns se entusiasmaram como os pacientes e outros eram cépticos.
Mas as notícias chegavam cada vez mais detalhadas.
Finalmente, após milénios, a lepra fora vencida.
Corria o ano de 1946.
A Segunda Grande Guerra terminara com a vitória dos aliados.
Sabia-se que o médico Lauro de Souza Lima fora estagiar num Sanatório da França.
Após isto, alguns doentes ricos começaram a importar o remédio com aquiescência dos seus médicos.
Neste meio tempo, a família de Rolando organizou uma caravana para visitar o Asilo Colónia.
Muitos espíritas de outras localidades aderiram à caravana.
Arrecadaram mantimentos, roupas, medicamentos, material de curativos, livros espíritas e da literatura geral.
Conseguiram permissão junto ao Departamento de Profilaxia da Lepra e, num domingo bem cedo, aportavam na Colónia, três ônibus e um caminhão com os donativos.
O pequeno grupo espírita recebeu-os com carinho e entusiasmo.
Distribuíram os donativos entre os mais necessitados e às 14 horas foram para a sede provisória do Centro Espírita.
As duas irmãs e o menino não podiam ir ao Centro Espírita.
Era-lhes vedada a participação, mas os pais e os tios passaram toda a manhã com eles e revezavam-se na atenção e no carinho.
Alguns oradores fizeram pequenas palestras.
Os pais, tios e avós do Rolando o abraçavam e beijavam constantemente.
Rolando conhecia quase todos os caravaneiros.
Alguns médiuns começaram a receber comunicações escritas e faladas, todas altamente consoladoras.
Espíritos como Eurípides Barsanulfo, Caibrar Schutel, Dr. Bezerra de Menezes falavam da misericórdia de Deus, concedendo a cura.
Em dado momento, uma senhora vidente, disse:
— Está aqui no ambiente um espírito angelical.
Um menino que morreu aqui no hospital e diz que se chama Cristiano.
Ele quer se comunicar, mas disse que tem que ser através de um homem que foi seu pai, um paciente chamado José.
Encabulado José procurou abaixar-se atrás da pessoa sentada à sua frente.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:40 am

O silêncio era total.
José disse baixinho ao amigo que estava ao seu lado:
— Mas eu não sou médium!
A vidente falou, como se tivesse escutado:
— Você é médium sim.
Todos somos médiuns.
José viu o Cristiano se aproximar sorridente e abraçá-lo.
José sentiu uma ligeira vertigem, mas não perdeu a consciência.
Sentiu uma energia vitalizá-lo e sua mente ficou clara como nunca acontecera.
Levantou-se e dirigiu-se à frente de todos, abriu a boca como numa oração, saudando os presentes.
Depois continuou.
— As leis de Deus são misericordiosas.
Alguns aqui presentes vêm caminhando juntos há quase dois milénios.
Estivemos juntos no Vale de Kidron e três pessoas aqui presentes, e eu, fomos curados por Jesus de Nazaré.
Lucas registou no seu Evangelho com o título, A CURA DOS DEZ LEPROSOS.
Eu me chamava Daniel e era um adolescente.
O Samaritano, o único que voltou para agradecer ao Mestre, continua trabalhando por nós até hoje.
Ele se encontra reencarnado no Brasil e terá um papel muito importante na cura desta enfermidade.
Agora, quero dirigir-me a todos os presentes.
A vocês caravaneiros, obrigado pela solidariedade.
A todos, nossa palavra de gratidão.
Amem a vida. Amem as pessoas.
Destruam as barreiras do separativismo, construam pontes para chegar aos corações das pessoas.
Vocês nasceram na Terra para evoluir, para crescer no amor.
Deus criou-nos a todos com muito carinho e criou-nos da luz das estrelas.
O espírito é luz e procura incessantemente a luz maior que é Deus.
A voz do menino foi crescendo como numa melodia de amor e falou da esperança, da fé, do trabalho mediúnico que esperava a todos.
Fez uma sentida prece que comoveu os presentes e que este humilde escritor não tem capacidade para reproduzir.
Depois todos tomaram um lanche juntos.
Uma senhora procurou José e disse:
— Eu soube que você é da cidade de S., da Fazenda do Cel. Teodorico.
— Sim, senhora.
— O coronel é meu primo e vou pedir a ele que compre o novo medicamento para você.
— Minha senhora.
Acho que ele não fará isso.
Ele não liga para os humildes.
— Fará sim. Ele mudou muito.
Sua filha deu-lhe um neto que já está com dois anos.
Há um ano o menino começou a ficar doente e nenhum médico conseguiu curá-lo.
O dr. Xavier encaminhou-o para São Paulo, depois para o Rio de Janeiro e até para os Estados Unidos.
A morte estava cada vez mais próxima.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:40 am

Em desespero, meu primo me telefonou, eu pedi para ele procurar o Centro Espírita Humildade e Fé, ali pertinho da fazenda.
José, muito interessado, ouvia a narrativa, juntamente com outras pessoas.
— Ele foi depois de relutar muito.
O menino estava quase morto e ele cada dia mais cruel com os colonos.
A própria filha insistiu para irem ao Centro.
Foram recebidos com a mesma bondade que o velho Sebastião recebe a todos.
Pouco depois, com a chegada dos demais médiuns e assistentes, foi feita uma prece e começou o trabalho mediúnico.11
Houver várias manifestações de espíritos acusando o velho Coronel pelas suas maldades.
O Cel. Teodorico estava entediado e arrependido de ter comparecido à sessão.
Porém, uma senhora jovem que não poderia ter conhecido sua esposa, com a mesma entonação de voz da falecida, disse:
— Ah, velho ranzinza, como eu te amo!
— Zulmira! - exclamou impulsivamente o Cel. Teodorico.
- Sim! Sou eu, velho.
Você já não tem muito tempo.
E preciso mudar de vida.
Seus inimigos atacam o menino para vingar de você.
— Inimigos? Que inimigos?
— O Cel. Portilho, de quem você cobrou uma dívida, ele perdeu a fazenda e enlouqueceu.
Tião da Chica, que você mandou os capangas matarem por ter roubado uma vaca do seu pasto.
O negro Zoca que você mandou surrar e queimou o seu rancho, matando-lhe um filho de berço que estava dormindo.
A cabocla Tiana, que você seduziu e abandonou...
— Chega, pelo amor de Deus, disse o Cel. Teodorico.
— Velho ranzinza.
Mesmo assim eu te amo. Adeus.
Houve alguns minutos de silêncio e o velho Sebastião começou a psicografar receitas para os doentes.
No final, começou a chamar as pessoas pelos nomes e, para alguns, era receitada água magnetizada; para outros, chás; para outros, remédios de farmácia.
Chamou o nome do menino, do neto do Cel. Teodorico e leu a receita.
Era um remédio homeopático.
O velho Sebastião explicou que ele deveria mandar buscar o remédio em cidade grande, onde havia farmácias homeopáticas.
Aquela noite, o menino dormiu tranquilamente.
No dia seguinte, o Coronel mandou buscar os remédios, tornando-se um assíduo frequentador do Centro Espírita Humildade e Fé.
Passou várias noites em claro, pensando sobre tudo o que acontecera.
Para surpresa de todos, mandou erguer uma vila de casas de alvenaria para os colonos, com água encanada e luz eléctrica.
Mandou construir uma escola e contratou professores, começou levar o Miguel e o Guilherme ao Centro Espírita com ele.
Comprou roupas e brinquedos para Silmara e levou dona Madalena para trabalhar na casa grande, apenas para trabalhos leves.
— Irei até a fazenda ainda esta semana e pedirei a ele que mande vir o remédio para você e para o irmãozinho do Cristiano, o Danilo.
Quando terminou o horário da visita e os caravaneiros começaram a se despedir, José ficou sensibilizado com os beijos e abraços recebidos, pois, nenhum caravaneiro demonstrou medo ou asco.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:41 am

Foi triste ver a despedida de Rolando, cercado pelos pais e tios.
Aquele moço tinha uma estrutura de aço, brincou com todos, como se a separação fosse apenas por algumas horas.
Dona Florinda disse com humildade à mãe de Rolando:
— Eu cuidarei dele como se fosse meu filho.
Fique descansada.
— Obrigada, minha irmã.
Deus o abençoe, disse a mãe de Rolando.
Alguns dias depois, José recebeu uma carta do Miguel, relatando mais ou menos aquilo que aquela senhora visitante lhe contara e mais:
— Um dia eu estava na sessão - era comum crianças assistirem a sessões práticas - e Cristiano falou através do seu Sebastião que você ia receber o remédio e, antes que eu complete 18 anos, você estará em casa juntamente com o Danilo, que será também nosso irmão.
Na próxima carta enviaremos um retrato da Silmara, juntamente comigo e o Guilherme, porque o Cel. Teodorico vai trazer um retratista da cidade para tirar nossa fotografia.
O senhor precisa ver como o Coronel mudou.
Ele disse que se eu quiser estudar, vou fazer o curso ginasial em S. e depois faço o científico em R.P..
O senhor precisa ver o Guilherme jogar bola.
Ele é um craque.
Não se ofenda, mas todo mundo diz que ele vai ser melhor que o senhor.
Um amigo do Coronel quer levá-lo para jogar no infantil do Comercial de R.P. quando ele estiver um pouco mais velho, a mamãe disse que não deixa.
As cartas sempre traziam fortes emoções para o coração de José, e as respostas eram repassadas de amor e fé.
Já não havia nem revolta, nem questionamentos contra Deus, mas uma submissão amorosa, com o consenso do coração.

11 - Nessa época era comum as sessões serem públicas
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:41 am

Capítulo XIII
A PRESENÇA DO EVANGEUSTA LUCAS


José andava curioso para entender o que acontecera naquele inesquecível domingo de visita da caravana.
Como ele pôde receber a comunicação de Cristiano, se ele não era médium, nunca fora.
Na primeira oportunidade, perguntou a Rolando, que explicou com simplicidade:
— Todas as pessoas são médiuns em graus diferentes.
Você sempre foi médium, caso contrário, você não receberia as estranhas impressões de alguma coisa que estava acontecendo com a sua família.
Não teria visto e ouvido Cristiano na cela da cadeia, nem o teria visto no enterro.
— Mas, o que aconteceu?
Ele entrou dentro de mim para falar pela minha boca?
— Não, José.
Ele o envolveu com o seu amor e influenciou a sua mente.
Você, então, percebeu as suas ideias e reproduziu com palavras suas.
Esta é a mediunidade falante ou psicofónica consciente.
Você sabia o que estava acontecendo e o que você estava falando, não é mesmo?
— Não. Tinha hora que sumia tudo, depois eu ouvia a minha própria voz.
Sabia que as ideias não eram minhas.
— Tudo bem.
Vamos observar você nas próximas sessões.
Talvez você seja médium semi-consciente.
— O que é isso?
— Você vai aprender nas aulas sobre mediunidade.
Não se preocupe.
Existem médiuns que ficam despertos, conscientes.
Outros entram num sono sonambúlico e outros ficam num meio termo entre os dois estados.
José não entendeu muito e não quis insistir, já que iriam iniciar o estudo de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.
Conforme Miguel prometera, chegou uma carta com o retrato das crianças.
Realmente Silmara era linda.
José sentiu uma nuvem de tristeza toldar o seu coração, mas reagiu.
Notou como Guilherme crescera e era forte.
A calça curta deixava ver as suas pernas grossas e musculosas, próprias de quem jogava futebol constantemente.
Num trecho da carta, Miguel contava o quanto o Cel. Teodorico mudara.
Agora ele era um homem bom, pedia para que o Guilherme e ele o chamassem de vovô.
Ele mandou construir um campo de futebol menor para as crianças e montou um time infantil, uma categoria que muitos anos depois se chamaria “Dente de Leite”.
José não aguentou ficar muito tempo longe do futebol e pediu para jogar no segundo quadro, porém nunca mais viajou com o time.
Algumas vezes treinava meio tempo, às vezes o tempo todo, conforme suas condições de saúde.
Rolando se deliciava assistindo aos treinos, onde podia perceber a categoria técnica do amigo em lances isolados.
O tratamento médico com o Óleo de Chamulgra, o único medicamento existente até então, mas inócuo, com efeitos reduzidíssimos, fora suspenso.
José, como outros pacientes que tinham condições financeiras, começaram a receber o medicamento injectável importado dos Estados Unidos.
Quando José recebeu a primeira dose do medicamento intravenoso na sala de injecções, Cristiano estava ao seu lado, sorrindo.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 17, 2016 10:41 am

Ele também sorriu para o menino e o injectador que não fazia ideia da presença do espírito, disse-lhe:
- Sorria mesmo, pois agora você vai sarar.
Saindo da sala de injecções, José voltou ao seu quarto na Casa dos Desportistas.
Deitou-se um pouco, a injecção tinha que ser feita com o paciente em jejum, ela causava um pouco de enjoo.
Deitado, viu Cristiano chegar e dizer-lhe:
— Você sabe que a folhinha marca o mês de novembro de 1946.
Serão necessários alguns anos, mas você vai ser curado.
Daqui para frente haverá muitas mudanças nos Asilos Colónias.
Com a ajuda de Deus, você receberá a sua alta por volta de 1953 ou um pouco antes.
José, muito feliz pela notícia, o que não era uma profecia, mas uma dedução lógica, aproveitou para perguntar como ele conseguiu falar por seu intermédio, ao que Cristiano respondeu:
— Existem pessoas que querem muito ser médiuns, mas não conseguem, entretanto, essa faculdade natural pode ser desenvolvida de forma espontânea.
Você a desenvolveu assim.
Você sempre foi um homem bom, ponderado, amigo de todos.
Você não tem o hábito de falar palavrões, obscenidades, nem de praguejar, não tem vícios morais, por isso, bons espíritos sempre estiveram ao seu lado, inspirando-o.
Bastou uma magnetização mais forte para liberar a sua mente para que eu pudesse falar por seu intermédio.
Se você tivesse o hábito de escrever, eu poderia escrever por seu intermédio.
— Como você, sendo uma criança, sabe tudo isso?
— Não se esqueça de que já fui adulto muitas vezes.
Além disso, estudo com espíritos superiores aqui no nosso mundo.
— Por que você continua, então, se mostrando na forma de criança?
— Porque, com essa forma, eu chego melhor ao seu coração e de outras pessoas.
Além disso, eu amei essa encarnação, pois ela foi extraordinariamente libertadora.
* * *
Equipes do Asilo foram fazer treinamento laboratorial no Sanatório Padre Bento, pois o tratamento exigia um controle laboratorial maior, como contagem global, hemograma, dosagem de ureia no sangue e outros.
Com alguns meses de tratamento José apresentava melhoras na garganta e nas mucosas do nariz.
Já conseguia respirar pelas narinas.
Rolando também fazia o seu tratamento com a ajuda da família.
O Centro Espírita Amor e Luz já tinha a sua sede própria e entre os mais de dois mil internos, havia uns cinquenta espíritas.
José estudava com afinco a sua doutrina e continuava recebendo lições escolares do Rolando, que se admirava sempre da facilidade com que ele aprendia.
Tendo algumas horas livres, por já não ter que trabalhar tanto, José passou a ser um assíduo frequentador da biblioteca do hospital, onde havia uma grande variedade de livros.
A procura de José era por livros instrutivos.
Assim sendo, a par das lições de Espiritismo, José adquiria cultura geral com Rolando e suas consultas à biblioteca.
O grupo espírita era coeso e mantinha forte amizade entre si.
Havia alguns pequenos problemas, alguns diz-que-me-diz, naturais em todos os agrupamentos humanos.
José educara maravilhosamente bem sua mediunidade, especialmente a psicofonia semi-consciente, que em algumas circunstâncias tornava-se inconsciente e sonambúlica.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:14 pm

Sua vidência desenvolvera-se muito bem e nas reuniões era muito útil.
Rolando sofreu uma pena de 20 dias de prisão, juntamente com um companheiro de mesa, porque reclamaram da comida servida no restaurante da Caixa Beneficente, que eles pagavam.
Após ser colocado em liberdade, perderia o direito de servir-se do restaurante, tendo que fazer suas refeições no refeitório geral ou pagar pensão numa das residências da colónia.
Naquela primeira semana de prisão, o grupo espírita ficou em dificuldades, porque dois dos seus dirigentes habituais estavam acamados e outras pessoas ausentes.
Com a falta de Rolando, José teve que assumir a direcção da sessão mediúnica, ou seja, competia-lhe conduzir a sessão como doutrinador.
O grupo tinha três médiuns e mais o José.
Todos os três eram médiuns seguros e com um comportamento moral muito bom, por isso a sessão seguia tranquila e José dava conta da “doutrinação”.
Num dado momento, percebeu a presença de Cristiano que trazia um espírito escuro, disforme e alucinado.
Cristiano aproximou-o de um dos médiuns, uma senhora com um óptimo controle das suas faculdades e segurança emocional.
A situação do espírito comunicante era lastimável.
Ao sentir as vibrações da médium, sentiu um revigoramento das suas energias, como se tivesse no corpo novamente.
Ergueu a cabeça para certificar-se de onde estava.
— Onde estou?
Que faço aqui?
Deixem-me ir embora...
Neste momento, a visão psíquica de José aguçou-se e ele viu Waldemar, o ex-administrador da fazenda do Cel. Teodorico.
O homem que violentou a sua esposa, humilhando-a, após tanta perseguição.
Num primeiro momento, os instintos do homem José vieram à tona, sentiu prazer em ver seu desafecto reduzido a uma situação humilhante e sofredora.
Quando o ex-administrador o viu e o reconheceu, soltou um grito desesperado e pediu perdão.
Sem desligar-se perispiritualmente da médium, arrastou-se até os pés de José, tentou abraçar-lhe as pernas e beijar seus pés.
Aquele momento foi como se a imagem tivesse sido congeladas, segundos pareciam horas.
Cristiano e os guias espirituais do Centro Espírita estavam estáticos, pois a decisão era de José.
O espírito comunicante gritava em desespero:
— Perdoe-me, José.
Pelo amor que você tem aos seus filhos, perdoe-me.
Pela cabeça de José passou um pensamento:
perdoar, porquê?
Imediatamente ele afastou aquele pensamento, enquanto o espírito chorava convulsivamente.
Por alguns breves minutos houve uma tremenda luta interior.
O homem do mundo queria sentir prazer no sofrimento do desafecto.
O homem espiritual, já evangelizado e com notáveis conhecimentos espíritas, queria perdoar incondicionalmente.
Eram dois titãs numa luta descomunal, após alguns instantes, José abriu a boca e disse:
— Eu perdoo, meu irmão.
Eu o perdoo e o recebo no meu coração.
Neste momento o outro médium, um senhor idoso foi envolvido por um espírito trevoso que chasqueou:
— Covarde. Leproso covarde.
Perdoar porquê?
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:14 pm

Destrua-o como ele fez comigo, com dezenas de pessoas e com você.
Já não basta sua mulher estar criando o fruto podre deste miserável e você ainda quer perdoar-lhe?
Esmague-o, enquanto pode ou ele te esmagará.
Desde o momento em que você foi fechado nesse leprosário, ele começou a perseguir sua mulher até consumar seus desejos bestiais.
Waldemar chorava convulsivamente, os espíritos amigos não queriam interferir para que a decisão de José fosse isenta de qualquer influência externa.
José com lágrimas escorrendo pelas faces, falou sem preâmbulo:
— Eu perdoo os dois.
Eu quero amá-los.
Perdoo Waldemar pelo que fez a mim e à minha família e perdoo você que sempre o impulsionou ao mal, que fez dele instrumento para saciar os seus desejos.
José exortou-os ao arrependimento.
Falou da fraternidade, do respeito e do amor.
Orou sentidamente a Jesus, rogando pelos dois.
Alguns espíritos altamente evoluídos, apresentando forte luz interior foram atraídos pelas vibrações elevadas que partiam do ambiente.
Toda a Colónia estava envolta numa esplêndida luz.
Sempre rogando perdão, o ex-administrador entrou em sono profundo e depois seria encaminhado para uma difícil e redentora reencarnação, sem o direito de escolher as condições físicas, os pais, a raça e a posição social.
Seria como, no dizer do Evangelho, atado de pés e mãos e lançado às trevas exteriores.
O outro espírito, gargalhando nervosamente, mergulhou em densas trevas, como se tivesse perdido toda a capacidade de pensar.
José sentou-se exausto, molhado pela transpiração e começou a chorar baixinho.
Cristiano abraçou-o e começou a recompor as suas forças.
Um dos médiuns estava em profundo transe e por sua boca, nariz e ouvidos começou a sair abundante ectoplasma; uma forma humana foi se formando.
Era um ser luminoso e belo como um anjo de luz, um verdadeiro sol.
Aquele ser luminoso aproximou-se do pequeno grupo de encarnados e impôs suas mãos de pura e radiante luz em cada um daqueles corpos maltratados pelos bacilos de hansen, e a luz parecia ser sugada por aqueles organismos tão judiados pela lepra.
Dona Florinda foi uma das mais beneficiadas e, quando chegou a vez de José, seu corpo não só recebeu fortíssimos jactos de luz, como aquela energia parecia ter accionado uma usina de forças dentro dele.
Seu corpo parecia soltar chispas de luz.
O Espírito aplicou mais demoradamente as energias no fígado, baço e rins de José.
Logo após, aquele ser ectoplásmico começou a se desmanchar, as energias eram como que sugadas pelo médium de efeitos físicos, que ficou por um instante, também iluminado.
Enquanto aquele mensageiro de luz aplicava energias nos encarnados, uma equipe altamente treinada construiu uma garganta ectoplásmica e Cristiano que já dominava a técnica neste tipo de comunicação, falou com o grupo:
— Hoje tivemos um banquete de luz.
Enquanto se desenvolvia o trabalho de curas aqui no Centro Espírita, uma grande equipe de mensageiros de Jesus de Nazaré, percorreu toda a Colónia, beneficiando muitos internos.
Espíritos que permaneciam presos aos seus despojos no cemitério, ou ao ambiente da Colónia, foram libertados e algumas pessoas terão a sua cura acelerada.
A diamino difenil sulfona, também por via oral, fará milagres na cura, até que diminua a sua eficiência, quando aparecerão outros medicamentos.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:14 pm

A misericórdia de Deus é muito grande; a lepra, num dia ainda longínquo, será apenas uma lembrança.
A humanidade passará ainda por muitas dificuldades, inclusive morais e de doenças dificilmente curadas.
Um dia, todos se amarão e as duas piores doenças da humanidade desaparecerão; a pobreza e a ignorância.
Teremos então vida em abundância.
Poderemos dizer como o fez Allan Kardec:
Numa sociedade regida pelas leis do Cristo, ninguém deverá morrer de fome.
Ninguém morrerá nem mesmo de fome de amor, de aceitação.
Um dia as guerras deixarão de existir e o dinheiro gasto em armas e munições serão aplicadas nas soluções dos problemas dos países pobres.
Os quarteis se transformarão em escolas e hospitais e os exércitos, ao invés de soldados treinados para matar, serão formados para médicos, enfermeiros e professores, treinados para dar a vida.
Neste momento José perguntou mentalmente quem era aquele espírito que ali viera com tanta luz.
Cristiano respondeu:
— Quando a emoção se tomou muito grande e o nosso núcleo começou a emitir muita luz e envolver toda a Colónia, despertou a atenção de uma caravana de espíritos altamente iluminados, verdadeiros discípulos do Cristo.
Embora a materialização seja muito sacrificial para os espíritos evoluídos, o evangelista Lucas, o médico de Paulo de Tarso e das almas, quis fazer pessoalmente o trabalho de curas.
Com certeza, vocês terão suas curas físicas aceleradas, pois grande quantidade de bacilos foram mortos e estruturas nervosas refeitas.
Ah, meu querido José, estivemos nas legiões bárbaras que aterrorizaram o mundo, ainda juntos no Vale dos Leprosos perto de Jerusalém.
Andamos pelas estradas da Palestina, pelas ruas das cidades da Judeia e da Samaria e fizemos parte do grupo de 10 leprosos curados pelo Cristo, cura que Lucas descreveu no seu Evangelho.
Agora estamos perto da redenção.
Sejamos fortes.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:15 pm

Capítulo XIV
O EGOÍSMO DE UM PAI


No dia seguinte, a Colónia ainda estava sob a influência magnífica daquela noite.
Quase ninguém sabia o que acontecera, mas estavam mais animados e mais fraternos entre si.
Porém, o padre Estêvão sabia.
Mandou chamar José a sua casa e entre eles houve essa conversa.
— José, mandei chama-lo porque preciso muito falar com você.
— Eu gosto muito de prosear com o senhor.
— Ontem, num desdobramento, estive espiritualmente na reunião do Centro Espírita e tenho a certeza de que se os Príncipes da Igreja soubessem a verdade, incentivariam o povo a comparecer aos Centros Espíritas.
O que eu quero falar é que pude ver o maravilhoso gesto de perdoar o seu algoz.
Não imagina como chorei de emoção, como chorei ao ver São Lucas no ambiente.
Os espíritos disseram que alguns pacientes, pelos seus méritos, serão curados em poucos anos, mas eu vou ficar aqui.
Serei um dos poucos que terá resistência ao tratamento sulfónico, porque ainda tenho tarefa a terminar aqui.
Eu só queria te abraçar, pois cada dia percebo mais a grandiosidade do seu coração.
— Eu não sou nada, meu amigo, quisera ser.
Sou apenas um caipira.
— Agora você deve ir ver o irmãozinho do Cristiano e depois o Michel, você terá boas surpresas.
José despediu-se, beijando a mão do pároco, que o atraiu para um forte abraço.
José foi em busca do pavilhão das crianças.
O irmãozinho de Cristiano, Danilo, já o estava esperando e foi logo contando:
— Sonhei com o Cristiano essa noite e ele me disse que eu vou embora com você em alguns anos, mas antes eu vou conhecer o meu papai.
Ele virá aqui para me ver e talvez vai me dar para você.
José tinha os olhos húmidos de lágrimas ao beijar a cabecinha de Danilo:
— Se Deus me conceder seja o seu pai, vou ficar muito feliz com isso.
— Eu não sei se eu estava dormindo ou acordado, mas o nosso pavilhão estava muito iluminado, até doía os olhos da gente, contou o menino.
— Alguém mais viu essa luz?
— Sim. O Tininho, o Luizinho e o Hamilton.
Rolando também foi beneficiado na sua cela, ficando radiante quando recebeu a visita de José que lhe contou todos os sucessos daquela noite maravilhosa.
José despediu-se do menino e foi para o quarto do Turquinho.
Ao ser recebido por Irene, viu-a radiante.
— Entra, José.
Queremos que você seja o primeiro a saber da grande novidade.
Ao entrar, o Turquinho veio abraçá-lo e disse:
— Um milagre! Aconteceu um milagre.
Ontem a noite, ao invés de ficar no rádio, pesquisando as ondas curtas, resolvi dormir cedo.
Acordei ali pelas 22h com muita dor nos olhos e vi uma luz intensa, como se fosse uma lâmpada de mil velas, depois ficou tudo escuro e devagar foi se abrindo uma janelinha nos meus olhos.
Acho que recuperei mais de 40% da visão.
Estou vendo você.
Posso ver o sorriso da minha esposa.
Eu até rezei sem parar.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:15 pm

— Que bom Michel. Fico muito feliz.
Sei que você vai recuperar totalmente a visão.
Acho que você e Irene serão dos primeiros a receberem alta.
Quando José saiu do quarto de Michel, logo pensou no amigo Rolando e nas suas irmãs Irene e Eunice, no Hamilton.
Será que eles também se curarão?
Seu pensamento procurou Cristiano e interrogou em silêncio.
Quando ele mentalizou as duas adolescentes, Cristiano baixou a cabeça e sorriu triste.
José perguntou directamente a ele, mas como resposta viu apenas duas sepulturas encimadas por uma cruz cada uma.
José ficou triste, já sabia que a morte não é o fim.
Porém, pensou, precisaria tomar cuidado para não revelar isto ao amigo Rolando.
José começou a pensar nos benefícios que aqueles espíritos trouxeram ao Asilo Colónia.
Ele próprio sentia-se muito bem.
Respirava bem, suas mãos desincharam.
Seus pés também, assim como a ferida12 que tinha há alguns anos, e um mês depois da memorável noite, estava quase cicatrizada.
Ao olhar as pessoas com mais profundidade, podia perceber se determinada pessoa seria ou não beneficiada pela sulfona e se seria curada ou não.
Havia boas notícias no ar, porque o Governo Federal decidira importar o medicamento para todos os enfermos e cada Colónia receberia a sua cota oral e injectável.
Enquanto isto, na fazenda do Cel. Teodorico, aconteciam mudanças extraordinárias.
Mesmo contra a vontade do filho, pois a filha não se opunha tanto, ele melhorou extraordinariamente as condições dos seus trabalhadores.
Construiu escolas, não só para as crianças, mas também para os adultos que quisessem aprender a 1er e escrever.
Construiu uma capela para os católicos, e ele frequentava o Centro Espírita Humildade e Fé, dirigido pelo velho Sebastião.
Corria o ano de 1949.
José apresentava melhoras extraordinárias, a ponto de despertar a admiração dos seus médicos.
Sentia-se tão bem que começou a jogar futebol com mais frequência, embora não desejasse disputar uma posição no time titular.
Aconteceu que o time do Sanatório Padre Bento marcou um jogo no Asilo, que agora já tinha a denominação de Sanatório.
O sr. Valentino convenceu José a jogar no segundo time.
Então, os treinamentos intensificaram-se.
José já não precisava trabalhar tanto, sua esposa já tinha um salário bem melhor, trabalhando na casa grande da fazenda, além do que as crianças faziam as suas refeições na cozinha da casa grande.
José não parou de trabalhar no Rancho Alegre.
Quase dois meses depois, chegou a delegação do Padre Bento e estavam combinados jogos entre os primeiros e segundos times e também uma partida de bola ao cesto.
Na equipe do Padre Bento havia jogadores jovens e alguns veteranos.
Quase todos receberiam alta brevemente.
José deu um show como meia armador do segundo time.
Distribuiu o jogo tão bem, deu tanto equilíbrio ao meio de campo, que estava acontecendo o que parecia impossível, o time local terminou o primeiro tempo vencendo por 1x0.
No intervalo, o sr. Valentino pediu para que José ficasse na reserva do Iº time, para ser aproveitado no 2º tempo de jogo.
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