Chão de Estrelas

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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:15 pm

Com a saída de José o equilíbrio do time caiu bastante, sem que o Padre Bento conseguisse mais que um empate de 1 x 1.
O campo não tinha arquibancadas, todos assistiam ao jogo de pé ou sentados no chão, à beira do campo.
José havia se sentado ao lado do campo, quando, para a sua surpresa, o dr. Lauro de Souza Lima, que viera de São Paulo assistir ao jogo do seu Padre Bento, foi até onde ele estava e estendeu-lhe a mão dizendo:
— Você não é aquele moço que deu um show de bola no Padre Bento?
Como você está bem!
José tratou de levantar-se, por respeito ao médico e respondeu:
— Acho que sou eu sim, mas não concordo com o show.
— Rapaz, você está muito melhor do que estava naquela época.
Você está quase curado.
O que você está tomando?
— Promin. '
— Óptimo, desejo-lhe boa sorte.
Muitas vezes pensei em você e no menino que queria me conhecer.
Qual era o nome dele, mesmo?
— Cristiano.
É um bonito nome.
Mas, por que você está no segundo time?
— Eu havia desistido de jogar por estar piorando muito da doença.
Jogava, às vezes, para me distrair.
— Olha, você é muito bom ainda. Boa sorte.
— Obrigado, dr. Lauro.
Fico honrado do senhor se lembrar de mim.
O primeiro tempo do jogo foi dominado pelo Padre Bento, que fez 1x0 logo aos dez minutos e graças ao desempenho do goleiro e do zagueiro Rubens, o resultado foi mantido.
No segundo tempo, o sr. Valentino chamou José e disse que ele iria entrar no jogo; José sentia-se seguro, mas jogaria recuado, no meio do campo, construindo as jogadas.
Dorival ficou muito contente, pois o seu marcador não lhe dava espaço e aquele era o seu último jogo.
Logo sairia, teria alta.
Com a entrada do José, o jogo mudou.
Sua acção parecia lenta, contudo, a sua visão de jogo era perfeita.
Apesar disso o volume de jogo do Padre Bento era maior.
O ataque local já dera algumas pontadas agudas obrigando o goleiro do Padre Bento a fazer duas excelentes defesas.
Rubens rebateu uma bola meio desesperadamente, José dominou-a na intermediária do seu campo, driblou seu marcador e fez menção de que passaria a bola para o seu ponta esquerda, mas, na verdade, deu um passe de 40 metros para o Peruzinho, na extrema direita, que reuniu todas as suas reserva físicas e correu para o ataque.
Peruzinho dominou o seu marcador e fechou para a área, devolvendo a bola para José, que limpou o lance e ficou com o golo à sua frente.
O goleiro cresceu para cima dele; num toque subtil ele inverteu a jogada, rolando a bola para Dorival, que entrava como uma cunha pelo lado esquerdo, livre de marcação, só teve o trabalho de empurrar para a rede empatando o jogo em lxl.
O jogo tornou-se emocionante.
Quando faltavam cinco minutos, Rubens aventurou-se ao ataque, tabelando com José e Peruzinho e a 10 jardas da área, mais para o lado direito, o zagueiro visitante fez uma falta violenta em Rubens e quase foi expulso.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:15 pm

Todo o time pediu para José cobrar a falta.
A barreira de cinco homens ficou um pouco à frente da linha da grande área.
José afastou-se quatro passos.
Quando o juiz apitou, ele bateu com o lado externo do pé, a bola fez uma curva e entrou no ângulo direito do goleiro Padrebentino.
Foi uma verdadeira loucura, porque a torcida invadiu o campo e o juiz teve dificuldades para reiniciar o jogo.
Os minutos finais foram de cera e chutões para qualquer lado, mas o impossível acontecia.
O time local venceu a poderosa equipe do Padre Bento, embora depois, no jogo de bola ao cesto os visitantes, deram um passeio no time local, vencendo com mais de trinta pontos de diferença.
Rolando era uma das pessoas mais entusiasmadas com a actuação do José.
Após o jogo abraçou-o emocionado e disse:
— José, você é demais.
Imagino como você jogava quando era mais jovem.
Quem foi Rei não perde a majestade.
— Obrigado, meu amigo.
Eu apenas concentrei o meu futebol mais na cabeça.
Não posso correr muito, mas posso pensar.
— Parabéns!
Dois dias depois, a delegação do Padre Bento retornava a São Paulo e a vida voltava à rotina.
Pela 10ª vez Rolando pedia a José contar como fora a memorável noite em que ele dirigiu a reunião mediúnica.
Emocionava-se todas as vezes, a ponto de humedecer os olhos de lágrimas.
Num domingo pela manhã, Danilo foi avisado de que um homem que dizia ser seu pai estava procurando-o.
O menino correu para o parlatório com o coração descompassado, ao mesmo tempo em que pensava como seria o pai.
Será que ele se parece comigo ou com o Cristiano?
Ficou encantado ao ver a figura forte e elegante do pai, um homem alto, moreno, vestido com um terno impecável, gravata sóbria e óculos de sol.
Ele estendeu a mão ao menino e perguntou:
— Você é o Danilo?
— Sou sim.
E você é meu pai?
- Acho que sou.
Saíram de mãos dadas passeando pelo jardim, pois nesta altura os visitantes já podiam entrar no hospital.
Sempre de mãos dadas com o pai, Danilo passeava orgulhoso.
Estranhou não perguntasse por Cristiano e nem falasse da mamãe.
Percebia-se claramente que o homem não estava muito à vontade.
Encontraram-se com José e Rolando, que contaram sobre a morte de Cristiano.
Horácio, o pai de Danilo, começou a apresentar desculpas pelo facto de nunca ter procurado visitar os meninos, como nunca visitara a esposa que morrera logo no primeiro ano de internação.
Contou os desacertos da sua vida por causa da doença da mulher e dos filhos e como teve que vender o seu comércio e mudar de cidade, pois o preconceito era muito forte.
Vendeu com prejuízo, disse ele, mas não teve alternativa.
— O senhor não nos deve nenhuma explicação, disse Rolando.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:15 pm

— É verdade, completou José. Mas podia ao menos escrever aos garotos. Cristiano o amava muito.
— E, acontece que eu casei de novo e tenho família.
Eles não podem saber de minha esposa e filhos leprosos.
Eles pensam que estou no Rio Grande do Sul a negócios.
Conversei com o director do Sanatório e ele disse que não demora muito para o Danilo receber alta.
Acho que vou ter que matriculá-lo num colégio interno.
Rolando ficou extremamente irritado e disse:
— Sr. Horácio, eu não tenho nada a ver com a sua vida, mas, não acha que o menino já ficou preso demais?
— Bem, eu não posso destruir a minha vida.
Minha mulher, meu sogro, meus filhos jamais compreenderiam.
José olhou para Danilo e viu os seus olhos cheios de lágrimas.
O menino havia largado a mão do pai.
Abraçado a Danilo, viu Cristiano, com um olhar ansioso e isto encorajou-o a dizer:
— Se o senhor permitir eu fico com o menino, pois ele é muito querido para o meu coração, assim como Cristiano foi, e é.
— Óptimo, disse o pai do menino, sem poder esconder a sua alegria.
Eu me comprometo a pagar uma pensão mensal...
— Não carece, disse José interrompendo o homem.
Só quero que o senhor assine um documento autorizando que eu leve o menino.
— Meu advogado vai providenciar tudo.
Já que resolvemos isto, agora posso ir embora.
Adeus, meu filho.
— Fica mais um pouco, papai. Suplicou Danilo.
— Não posso. Um dia você vai compreender.
Olha, seja bonzinho para o moço.
Não crie problemas.
— Danilo jamais criou ou vai criar problemas para quem quer que seja, falou Rolando.
O senhor não sabe o tesouro que está desprezando.
O sr. Horácio retirou da carteira uma nota de cinquenta cruzeiros e deu-a ao filho.
Danilo não quis aceitar.
— Vamos, pegue o dinheiro assim você poderá comprar um presente para você.
O presente que eu mais quero é o senhor.
— Sinto muito, Danilo, mas não me permito ser sentimental.
Os sentimentais são tolos e nunca sobem na vida.
As coisas são como são e não podemos fazer nada.
Enfiou a nota no bolsinho da camisa do menino, virou as costas, sem nem mesmo dar a mão aos dois homens ou um beijo ao filho.
— Papai, chamou o menino, o senhor não vai me dar um beijo?
O homem relutou por um longo minuto, mas curvou-se e beijou o garotinho na testa.
Danilo segurou-o pelo pescoço e beijou-o no rosto, bem perto da boca.
O homem virou as costas rapidamente, tirou o lenço do bolso e esfregou fortemente o local do beijo, sem saber que junto dos pequenos lábios de Danilo, estavam os lábios de Cristiano e das duas pequenas bocas saiam como minúsculas estrelas iluminadas, que não conseguiam penetrar a pele do pai, caindo no chão.
Danilo passou muitos dias triste, muito triste.
Recusava-se a brincar e ficava muito tempo no seu quarto.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:16 pm

Algumas vezes segurava a nota de cinquenta cruzeiros bem junto ao coração, como querendo sentir as vibrações do pai.
Por mais que o pequeno Hamilton tentasse brincar com ele, distraí-lo, não conseguia.
Como os dois dormiam no mesmo quarto, muitas vezes Hamilton ficava acordado porque Danilo chorava baixinho, tentando não incomodar.
Hamilton procurou o irmão Rolando, porque encontrou escrito no caderno de Danilo um bilhete que dizia.
“Cristiano, vem me buscar.
Você me deixou sozinho, o papai não me quis.
Quero estar junto a você e para isso preciso morrer, mas como?
No cinema parece fácil, quero morrer para ir morar no céu, com você.”
Rolando procurou José e ambos foram falar com Danilo.
Não sabiam como fazer, pois nunca tinham enfrentado uma situação dessas.
Cristiano, porém, que acompanhava Danilo, apreensivo desde a visita do pai, envolveu José e levou Danilo para o quarto.
Ali os dois conversaram por mais de meia hora, ou melhor, Cristiano conversou com o irmãozinho que saiu dali com os olhos brilhantes de alegria, reassumindo toda a sua garra de viver.
No dia seguinte, José foi chamado à Delegacia interna.
O homem que tomava conta dos meninos formalizou uma queixa contra ele, dizendo que ele estava se intrometendo onde não era chamado.
Rolando acompanhou o amigo e após ouvir a bronca do delegado que o ameaçou de prisão, Rolando mostrou o caderno de Danilo.
O delegado acabou pedindo desculpas e mandou chamar o queixoso para admoestá-lo, pela insensibilidade no trato com os meninos.
Os primeiros pacientes começaram a receber suas altas, entre eles, Dorival, que sonhava jogar futebol profissionalmente, mesmo em algum time do interior.
Enquanto isso, José observava a deterioração da saúde de alguns inveterados jogadores de baralho e sinuca do Rancho Alegre, entre eles, o rapaz que insistiu para que José se associasse a ele nas cartas do “bate gato”, ou seja, dos pedidos de donativos.
Com a sua vida desregrada, bebendo muito, agora estava em péssimo estado de saúde.
* * *
Vamos dar um salto no tempo e chegar ao ano de 1950, quando muitos pacientes deveriam receber alta hospitalar.
José fora avisado de que, em alguns meses, seria examinado por uma junta médica para receber a sua alta.
Quanto a Danilo e muitas outras crianças, inclusive Luizinho e Hamilton, foram transferidos para o Sanatório Padre Bento, para ficar aos cuidados de dr. Lauro de Souza Lima.
Antes da partida do menino, José jurou a ele que o iria buscar assim que recebesse alta.
O director do hospital explicou a José que o advogado do pai de Danilo foi comunicado da transferência e, quando o menino recebesse alta, ele se encarregaria de levá-lo à residência do José.
No Pavilhão de Menores havia a companhia de centenas de crianças entre meninos e meninas.
O ambiente era óptimo, porque havia o carinho do dr. Lauro e de vários funcionários que dedicavam as suas vidas àquelas crianças.
Os desportos eram incentivados.
Os meninos jogavam futebol, bola ao cesto, natação, atletismo.
As meninas também praticavam desportos, menos o futebol, pois naquele tempo, o futebol ainda era um desporto masculino.
Danilo tinha condições perfeitas de saúde, nenhuma lesão, nenhuma insensibilidade.
Isto lhe permitiria realizar o seu sonho.
Ser piloto de avião.

12 - Mal Perforante Planta
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 18, 2016 2:16 pm

Capítulo XV
UM CHÃO DE ESTRELAS


Nosso personagem submetia-se ao tratamento “sulfónico” com entusiasmo, e, pelo facto de ter hábitos moderados, seu organismo reagia muito bem.
A cada revisão médica, o que acontecia mensalmente, seu médico dermatologista via com entusiasmo a sua melhora e sempre comentava.
— José, entre os meus pacientes, você era o que tinha menores possibilidades de melhoras rápidas, entretanto, entre todos, é o que está reagindo prontamente e sem efeitos colaterais.
— O que é isso, doutor?
— Isto quer dizer que o seu fígado, estômago, baço, rins estão suportando o tratamento e estão em boas condições.
Olha só a sua contagem de glóbulos.
Cinco milhões e cem mil glóbulos vermelhos; seis mil glóbulos brancos.
Nossa, isso é óptimo.
Você já acumulou cinco exames negativos.
Sabe o que significa isto?
Significa que se continuarem negativados, você estará pronto para a alta dentro de mais algum tempo.
— Verdade, doutor? - perguntou José com grande alegria.
— Sim, mas qual o segredo da sua melhora?
José não quis contar sobre aquela maravilhosa noite, em que o Apóstolo Lucas esteve no Sanatório, ao que respondeu:
— Doutor, eu sou espírita e os espíritos superiores tem-nos prestado assistência constante.
Eles disseram que eu receberia alta até 1951.
— Muito bem, José.
Eu não entendo de Espiritismo, mas parece que os seus espíritos entendem muito sobre a saúde humana, pois eu pretendo deixá-lo pronto para a alta hospitalar exactamente durante o ano de 1950.
José não cabia em si de contentamento e a cada companheiro que recebia alta, sua alegria era muito grande, embora a saudade batesse fundo no coração.
Assim, ele viu ir embora o Turquinho Michel com sua esposa Irene, viu depois o Rubens, que foi para outra cidade e não mais à sua cidade de S..
Outras pessoas das suas relações de amizade, inclusive o sr. Valentino e sua esposa dona Florinda, também foram embora.
Em março de 1950, José foi incluído numa lista de candidatos à alta.
Conquanto já tivesse exames negativos suficientes, a comissão ponderou, lendo o seu prontuário, que o seu caso tinha sido grave.
Acharam prudente esperar mais um pouco.
José decepcionou-se, logo readquirindo o ânimo.
A previsão dos espíritos era para 1951.
Em outros hospitais de hansenianos, por todo o Brasil, as altas começavam a acontecer, e alguns anos depois, as mesmas pressões sofridas pelos hansenianos para se internarem, aconteceram, para que eles saíssem dos hospitais.
Antes locais aprazíveis, belos, passaram a uma deterioração insuportável, tornando-se lugar muito ruim de se viver.
É preciso explicar que o facto de os pacientes receberem a sua alta, não os liberavam do tratamento, pois este passava a ser feito em dispensários especializados, e muitos anos depois os dispensários incorporaram-se aos centros de saúde.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:08 am

Os pacientes teriam que fazer o tratamento ambulatorial ainda por muitos anos.
Já habituado a 1er jornais, e tendo recebido de presente, de seu patrão, dono do Bar Rancho Alegre, um potente rádio Geloso, com várias faixas de ondas, José acompanhava os preparativos do Brasil para a Copa do Mundo de 1950, a primeira do pós-guerra.
Ele não concordou muito com a convocação feita pelo técnico Flávio Costa.
Como milhões de brasileiros, neste e em outros Campeonatos Mundiais, ele tinha as suas preferências e as suas tácticas.
Nas cartas, vindas de sua casa, notou que Miguel não entendia quase nada de futebol, nem estava muito interessado na Copa do Mundo.
Guilherme, no entanto, era arguto e combinava perfeitamente com as ideias do pai.
A perda da Copa do Mundo para o Uruguai, em pleno Maracanã, construído especialmente para a realização do Campeonato Mundial, trouxe uma dor surda também nos hospitais de hanseníase.
A decepção foi muito grande, e Guilherme chorou muito, a ponto de preocupar a mãe.
Ele adorava o futebol.
Finalmente, chegou 1951 e a vez do nosso José ser apresentado novamente a uma junta médica.
Foi examinado rigorosamente.
Eram retirados materiais para exames baciloscópicos do muco nasal e de inúmeras lesões das nádegas, braços, joelhos, lóbulos da orelha, costas.
José estava confiante, pois, até mesmo as biópsias feitas antes de ser seleccionado para alta, deram resultado negativo.
Depois de alguns dias, ele viu com imensa alegria o seu nome na lista dos que foram aprovados para a alta.
Ali estava com todas as letras: José Aparecido Teixeira.
Passados mais alguns dias, com documentação pronta, José fez as malas e sentiu uma estranha nostalgia.
Ele deveria embarcar na madrugada seguinte, por isso, naquela tarde ele caminhou por quase toda a Colónia despedindo-se dos amigos em cada residência, em cada pavilhão.
À noite, compareceu ao Centro Espírita pela última vez, conversou emocionado com os amigos.
Houve várias comunicações.
Cristiano ali estava sorridente e lhe confidenciou:
— Em menos de um ano, Danilo estará com você.
José respondeu intimamente que ele o receberia como a um filho.
No final da reunião, pediram para que ele fizesse a prece de encerramento, que foi, também, uma prece de despedida.
José colocou toda a sua alma na prece.
Lembrou a sua chegada ao Asilo, assustado, com medo, todos os anos de sofrimento, as poucas alegrias usufruídas, entre estas o futebol.
A riqueza imensa representada pelos amigos, pelo pequeno grupo espírita, e com a solidariedade e fraternidade existentes no grupo, além da influência de Cristiano em sua vida, terminou com os mais sentidos agradecimentos a Deus, encerrando-a assim:
- Senhor! Quando entrei aqui neste hospital há nove anos, pensei estar completamente destruído.
Quis afastá-lo da minha vida.
A dor me ensinou a amá-Lo.
Descobri valores íntimos que nunca pensei possuir.
Aprendi um pouco dessa maravilhosa Doutrina Espírita.
Aprendi a amar Jesus de Nazaré e uma criança abriu-me as portas das mansões espirituais.
Caminhei para este Sanatório por uma estrada íngreme e pedregosa e o Asilo Colónia era um chão de espinhos que dilacerava a minha alma.
Hoje, Senhor, vejo este solo como um CHÃO DE ESTRELAS.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:08 am

Caminho por elas e entre elas rumo ao meu destino transcendental.
Obrigado Pai, entrei aqui envolto em sombras espessas e saio daqui carregando um fardo de luz.
Não esquecerei nenhum dos meus irmãos que aqui ficarão, especialmente aqueles que gemem e choram nas enfermarias.
Rogo por eles, Pai.
Obrigado Senhor. Muito obrigado.
Após o término da reunião espírita, Rolando ficou algum tempo conversando com José.
Rolando parabenizava-o pela vitória e José agradecia ao jovem por tudo aquilo que ele lhe ensinou.
De um caipira que falava quase tudo errado, sem concordâncias, José adquiriu um pouco de cultura, melhorando muito o seu vocabulário.
Os dois se abraçaram por longos minutos e José chorou algumas lágrimas de saudade antecipada.
Antes de ir dormir para levantar na madrugada, José passou pela casa paroquial para despedir-se do bom padre Estêvão.
Abraçaram-se demoradamente sem dizer palavras.
Depois o padre, disse:
— Ore por mim, José.
Precisarei muito das suas preces.
E não se esqueça deste velho amigo.
— Não o esquecerei nunca.
Pode ter certeza disso.
Com lágrimas nos olhos, José despediu-se do amigo e ambos sentiram Cristiano envolvê-los num abraço maior.
José prometeu mais uma vez que não o esqueceria, escreveria sempre e que viria visitá-lo.
Na madrugada, ele tomou o carro da Caixa Beneficente, que alugara antecipadamente e viajou com extrema alegria.
A sua vontade era a de abraçar todo mundo, queria gritar, abraçar as pessoas, deixar transbordar a sua alegria, porém, continha-se.
Lembrou-se de quando fugiu para ir ver a filhinha agonizante e de como se escondera sob o chapéu e a gola do paletó, fingindo dormir, para que ninguém conversasse com ele.
Agora era diferente.
Aquele documento no bolso interno do paletó declarava-o curado, livre.
Era a sua carta de alforria.
Na verdade, o seu corpo esteve preso por mais de uma década, mas ele, espírito, sempre foi livre.
José não comunicou à família, nem ninguém.
Queria chegar de surpresa em sua casa.
Já imaginava a cara de espanto que Madalena faria.
A torrente de lágrimas de alegria que saltaria de seus olhos.
Pensou em Miguel, que já era um rapaz.
Em Guilherme, que se fosse realmente bom de bola, receberia todo o seu apoio para fazer uma carreira.
Gustavo, o garoto que sempre gostara muito dele, também ocupou-lhe o seu pensamento.
Não via a hora de ter Silmara em seus braços.
Não houve nenhuma nuvem escura que pudesse toldar os seus sentimentos para com ela.
Realmente vencera os monstros do orgulho e do ciúme.
Na cidade de S. viu um carro de aluguel parado e foi contratá-lo para levá-lo à fazenda do Coronel.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:08 am

O motorista com má vontade, mandou que ele se sentasse no banco de trás, ligou o motor do carro e saiu.
José tentou puxar conversa, mas o homem respondia por monossílabos.
Sua fisionomia era triste, muito triste.
Ele carregava um enorme peso nos ombros.
Neste momento, Cristiano senta-se ao lado do José e diz:
— Converse com ele.
É muito importante.
— Ele não quer conversar, respondeu mentalmente José.
— Pergunte a ele quem é o jovem moreno de olhos verdes e cabelos ondeados, que se diz chamar Mauro.
José fez a pergunta e o homem freou o carro bruscamente, virou para trás, segurou José pela camisa e disse asperamente:
- MOÇO, não brinque com os meus sentimentos.
Onde você conheceu meu filho?
Cristiano em intenso processo telepático com José, transmitia a mensagem e este falou, induzido pelo menino:
— Eu não o conheci, a não ser agora.
Ele pede para dizer que é o Tato que está falando com você.
Diz que não se suicidou, que foi um acidente provocado por um amigo, e que o amigo não teve culpa.
O homem olhava abismado para José, ainda com uma ponta de dúvida.
Cristiano percebeu e aproximou Mauro, ou Tato, do psiquismo de José e este com uma entonação extremamente carinhosa, falou ao pai:
— Papai, sou eu, o Tato.
A morte não existe, papai, e mesmo que eu tivesse me suicidado, não estaria no Inferno, pois a misericórdia de Deus é muito grande.
Diga para a mamãe tomar cuidado com os seus chinelos ou eu ainda vou escondê-los no forno do fogão, como fazia aos três anos de idade.
Diga à minha irmã que a amo, mas ela continua arranjando namorados muito feios.
E você, papai, não vá rezar no cemitério.
Eu não estou lá.
Quando quiser orar, pegue a vara de pescar e vá para o nosso esconderijo lá no Rio P. e, sempre que possível, estarei lá com você.
O motorista chorava comovido e beijava a mão de José, que tentava evitar isto a todo custo.
— Você tirou uma montanha de cima do meu coração.
Como posso agradecer?
— Apenas me leve para a fazenda do Cel. Teodorico, pois faz muitos anos que não vejo meus filhos e minha mulher.
José queria surpreender a família, mas um telefonema de um funcionário do hospital para familiares em S. revelou que José estava a caminho de casa.
Quando o carro já transitava dentro da fazenda, José viu um adolescente correndo de encontro ao carro.
Ele pediu para o motorista parar e desceu do automóvel.
Guilherme atirou-se em seus braços e o sufocava com seus beijos, exclamando:
— Papai! Papai!
Que coisa maravilhosa!
Logo a seguir, apareceu um rapagão forte e José exclamou:
— Gustavo!
Meu bom amigo Gustavo!
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:08 am

— Seu José, que bom vê-lo!
Posso chama-lo de pai?
— Claro, Gustavo!
Você sempre foi um filho para mim.
Entraram todos no carro.
Gustavo e Guilherme guiou-os para a nova casa na colónia.
Um grupo grande de pessoas esperava José na porta da sua casa, inclusive o Cel. Teodorico e o Sr. Sebastião, presidente do centro espírita.
Depois, chegou, Seu Totico, arrastando uma perna e com um braço paralisado por um derrame cerebral.
Todos queriam abraçar José.
O Cel. Teodorico convidou-o para comparecer à sua casa nos próximos dias para acertarem um bom serviço.
O Sr. Sebastião abraçou José e disse-lhe baixinho:
— Agora posso desencarnar sossegado.
Quando José abraçou Madalena, choraram de alegria.
Ainda com os olhos turvados pelas lágrimas, viu Miguel, um jovem bonito e elegante segurando Silmara pela mão e todos se abraçaram jubilosos.
O motorista de praça que o trouxe, quis abraçá-lo e não aceitou que pagasse a corrida.
O Sr. Sebastião convidou-o a ir ao centro e o motorista prometeu que iria com muito prazer.
Não faltou nem o Dr. Xavier, que ficou muito admirado de ver a recuperação física de José.
Depois de 10 minutos de conversa, ficou muito impressionado com o progresso intelectual do moço que saíra dali tão caipira.
O Dr. Xavier pediu desculpas por ter mentido, dizendo que o Asilo era uma maravilhosa colónia de férias e que ele ficaria ali uns dois anos.
O outro sorriu e respondeu:
- Não importa, doutor.
Na época não havia outra maneira.
Não pense que eu acreditei.
Porém, nenhuma colónia de férias me ensinaria o que aprendi nesses anos de segregação.
Conscientemente não escolheria ir para o Asilo, mas hoje, que tudo passou, agradeço a Deus a experiência fabulosa que adquiri.
— Sabe, José?, agora sei por que todos dizem que você é diferente. Parabéns!
Naquela noite, após o jantar, José convidou a família para lerem O Evangelho Segundo o Espiritismo e orarem em agradecimento a Deus.
O livro foi aberto ao acaso, caindo o capítulo:
Honra a Teu Pai e a Tua Mãe.
Silmara leu, Guilherme leu emocionado, enquanto Silmara no colo do pai, acariciava o seu rosto.
Miguel olhava o pai enternecido e, quando pediram para falar sobre a lição do Evangelho, pediu desculpas e disse que queria falar sobre o pai.
Pigarreou e disse:
— Pai, meu Evangelho é você.
Todas as lições desse livro são lindas e edificantes, mas estão apenas no papel.
Você é o Evangelho vivo para o meu coração.
A sua valentia e coragem supera Júlio César, Aníbal, Alexandre, Gengis Khan ou os heróis da recente guerra.
Na sua frente, eu juro que vou me formar médico e cuidar dos pobres.
Sua nobreza, pai, só tem comparação com a nobreza de mamãe.
O que eu mais quero na vida é ser a metade do que vocês são.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:08 am

A minha vida é muito rica, pois naquele ranchinho de sapé, chão batido, sem nenhum conforto da civilização, eu e meus irmãos tivemos a mamãe e você e vemos que, ao caminharem pelos caminhos do mundo, de seus pés se desprendem poeiras de estrelas.
A única coisa que posso dizer neste momento, é:
obrigado, mamãe, muito obrigado, papai.
A emoção era muito forte e todos se juntaram num abraço caloroso, assim permanecendo por muitos minutos.
Foi Guilherme quem disse:
— Só falta Danilo, para que a família se complete.
Ele virá logo.
Foram deitar-se.
José e Madalena estavam na mesma cama, depois de mais de 10 anos.
Amaram-se com intensidade.
Pela madrugada lá estava Cristiano, que veio buscar a todos e mais Danilo para um reconfortante passeio no plano espiritual e também para traçarem planos para o futuro.
Na mesma semana, José foi ao Centro Espírita.
Queria participar apenas como assistente, mas o sr. Sebastião não permitiu.
Chamou-o para a mesa e pediu que ele saudasse os presentes.
José começou com acanhamento.
Gaguejou algumas vezes para começar, aos poucos foi dominando o nervosismo e quando sentiu Cristiano ao seu lado, com o aspecto de um jovem de uns 20 anos, entregou-se àquela boa influência.
Estimulou todos a trabalhar pela emancipação da Terra, a vitória do bem, representado no Brasil, pelo Evangelho de Jesus.
Aconteceram várias comunicações de espíritos, destacando-se entre eles Caibrar Schutel, que transmitiu mensagem incentivadora para todos, em especial para José, encerrando-a assim:
— “Meu filho, das tribos bárbaras ao Kidron foram muitos séculos.
Do Kidron ao Brasil, mais dois milénios.
Neste caminhar constante houve muita dor, muita tristeza, houve também um extraordinário aprendizado.
Nascer, morrer e renascer é uma constante em nossos caminhos, e agora, existe uma diferença fundamental:
sabemos porque nascemos e para que somos imortais.
Tenho acompanhado seus passos, muitas vezes te visitei o coração.
Cristiano, que está ligado a você, desde o princípio do primeiro milénio do Cristianismo, foi um dos dez leprosos curados por Jesus, quando ele tinha o nome de Daniel e era também, um adolescente; sempre foi um dos meus pupilos.
Foi por isso que naquela noite, Lucas, o Evangelista, que relatou esse passo do Evangelho, foi atraído ao Sanatório naquela memorável noite.
Ele é um dos protectores deste grupo de espíritos que foram jungidos pelo ódio nos milénios passados e hoje, há um fortíssimo elo de amor ligando-nos a todos.
Abraço-os a todos, com muito carinho e estarei presente sempre que me for possível.
Caibrar”
* * *
José integrou-se ao trabalho do Centro.
Após algumas semanas, Cel. Teodorico ofereceu-lhe o cargo de administrador das suas propriedades.
Ele aceitou impondo apenas uma condição, que o sr. Totico permanecesse como seu auxiliar e conselheiro, pois, há muito afastado das lidas da roça, certamente precisaria reaprender muita coisa.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:09 am

Oito meses depois, o advogado do pai de Danilo trouxe o menino e entregou-o a José, com os documentos legais.
Danilo foi recebido com muito amor e logo sentia-se à vontade na sua nova família.
Danilo adorou a vida na fazenda.
Brincava com os animais, pescava no açude, nadava como um peixe e era o admirador n° 1 de Guilherme nos jogos de futebol.
Todos aqueles anos de cárcere asilar foram sobejamente compensados pelo amor que José e Madalena lhe deram.
Muito inteligente, destacava-se na escola.
Vez por outra, sentia uma nostalgia profunda e ficava cismativo, ao lembrar-se com saudade de companheiros que ficaram para trás, nas curvas do tempo.
O único com que ele manteve correspondência foi o Hamilton, mesmo assim, após alguns anos, as cartas rarearam, até que pararam definitivamente.
Era o caminhar da vida sempre prá frente, não admitindo o retrocesso.
Estimulado por José, o Cel. Teodorico dedicou-se anonimamente a dar assistência a pessoas pobres e deu bolsas de estudos a muitos dos filhos dos seus colonos.
Visitou os pobres e as viúvas, amparou órfãos e criou escolas profissionalizantes.
Alguns anos depois, ao desencarnar, sua mulher e um grande número de espíritos amigos vieram recebê-lo em sua entrada no mundo espiritual.
Foi recebido com festas.
Quando foi aberto o seu testamento, verificou-se que ele premiou José com um sítio de terras férteis, muita água e belezas naturais de encantar os olhos.
Havia ainda uma pequena mensagem:
— Perdoem-me pelo mal que lhes fiz no passado.
Eu rasguei o seu coração com a minha indiferença e o meu preconceito, mas, como a terra generosa, você me devolveu abundante colheita de frutos e flores.
Obrigado, meu amigo.
Usufrua o sítio.
Deixo o dinheiro suficiente para Miguel realizar o seu sonho, ser médico.
Ore por mim, pois vou precisar muito.
* * *
Ficamos uns tempos ausentes para retornar ao palco dos acontecimentos anos depois, quando Miguel formava-se médico em São Paulo e já se iniciara na homeopata.
Nunca ficaria rico com a sua profissão, pois dedicava-se mais aos pobres do que aos que podiam remunerá-lo.
Guilherme tornou-se um craque de futebol, jogando profissionalmente num clube do interior do Estado de São Paulo, tendo sido sondado por grandes equipes de São Paulo e Rio de Janeiro.
Entretanto, aconselhado pelo pai, cursava uma faculdade de agronomia, em cidade próxima.
Com a saída de José que se mudou para seu sítio e a desencarnação do sr. Totico, Gustavo assumiu a administração da fazenda que ele conhecia tão bem.
Silmara tornara-se um linda adolescente e preparava-se para fazer o magistério.
O seu sonho era ser professora.
Danilo queria ser piloto e pela obstinação que ele punha em tudo que fazia, certamente conseguiria realizar o seu sonho.
Madalena era o elo carinhoso que unia todas aquelas vidas e não se cansava de agradecer a Deus as bênçãos recebidas.
Uma noite, um pouco antes do início da reunião no Centro Espírita Humildade e Fé, um homem idoso, acompanhado de um jovem que usava aparelhos tutores e muletas, de olhos brilhantes de entusiasmo pela vida, o procuraram e entre eles estabeleceu-se este diálogo:
— Talvez você não se lembre de mim, disse o homem mais velho.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:09 am

— Lembro-me sim.
O senhor é o dr. Bueno, do Serviço de Profilaxia da Lepra, de R.P.
— Sim, é isto mesmo.
Eu sou o médico que o internou no Asilo.
— O Senhor não tinha outra alternativa.
E eu sou grato porque aquela internação mudou toda a minha vida.
Aprendi muito.
Sou agradecido, também, porque o senhor permitiu que eu passasse pela minha casa para despedir-me da minha família.
José olhou para o jovem e disse:
— Este deve ser o menino...
— Sim! Meu filho.
Naquela tarde quando cheguei a casa, fui directo ao seu berço e lembrei-me de que você disse que iria rezar por ele.
Eu, que havia afastado Deus das minhas cogitações, chorei muito, molhando o seu berço.
Comecei a procurar uma razão para a vida.
Muitas vezes tive vontade de ir vê-lo no Asilo, mas meu orgulho não me permitia.
Só recentemente tive coragem para fazê-lo e me informaram que você estava morando na zona rural de S. e, de pergunta em pergunta, encontrei-o aqui.
Neste momento, o jovem sorriu com um sorriso iluminado e apertando o braço do pai, falou:
— Pai! Ele está aqui.
Aquele menino que me visitava quando eu era criança está aqui.
Era ele que me animava e me fazia levantar cada vez que eu caía.
Foi ele que me animou ir à escola e a fazer o curso de engenharia.
— É Cristiano.
Um menino que morreu no Asilo e que é um grande amigo, explicou José.
Mas o que vocês desejam de mim?
— Meu filho queria conhecê-lo, desde que eu contei a ele o que você disse naquele dia, lá no Serviço de Saúde.
— Cristiano me falou de você algumas vezes, disse o jovem.
— Se você nos permitir queremos assistir à reunião.
Há alguns anos minha mulher tornou-se espírita por causa do meu filho.
Eu resisti muito e acabei indo ao centro.
Ainda não sou espírita, mas com certeza não sou mais ateu.
Abraçaram-se calorosamente e ficaram para assistir a reunião.
Houve muitas mensagens para os presentes.
Uma delas, psicografada por José, era de Cristiano para Francisquinho, o jovem paralítico:
— Querido amigo, vejo que você se desenvolveu fisicamente, guardando a pureza do coração.
Continue assim. Ame a vida.
Valorize todos os minutos dela, entretanto, lembre-se, existem milhares de pessoas mutiladas, aleijadas, cegas, paralisadas que vivem recolhidas em suas casas.
Ame-as todas. Lidere um trabalho, para que elas tenham seus direitos respeitados e possam suprir as próprias necessidades.
Ajude-as a encontrar a sua cidadania.
Estarei com você neste trabalho.
* * *
A vida seguiu serena por muito tempo, só empanada pela desencarnação de Madalena, não sem que ela conhecesse vários netos, filhos de seus filhos e sem que ela visse Danilo formar-se piloto e trabalhar numa grande empresa de aviação.
Netos foram também os filhos do Gustavo, que se dedicara à sua família desde menino.
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:09 am

Madalena teve uma desencarnação serena.
Rodeada pelos filhos e netos, com José segurando-lhe a mão.
Devido à certeza de todos sobre a imortalidade, fez daquele momento de dor, um momento de compreensão e tristeza sim, mas nenhum desespero ou revolta.
O que, para a maioria da humanidade é um doloroso adeus, para aquela família simples era apenas um até breve.
No plano espiritual, Rosalinda esperava a mãe com ternura e alegria, agora na forma de uma linda jovem.
Cristiano, ao seu lado, apresentava-se ainda como adolescente, mas ambos abraçaram Madalena e um grande número de espíritos faziam-lhe festa.
Enquanto isso, Miguel começou a orar em voz alta.
José beijou o rosto de Madalena dizendo-lhe ao ouvido:
— Até breve, meu amor.
Não demorarei muito a ir encontrá-la. Siga em paz.
Ele viu pela vidência quando Rosalinda e Cristiano abraçaram Madalena pela cintura e seguiram juntos, passando ao meio de duas fileiras de espíritos alegres e felizes que a saudavam carinhosamente.
Muitos anos depois, já sobrecarregado pelos anos, José recebeu um telegrama comunicando o desencarne do Padre Estêvão.
Orou pelo amigo querido e começou a recordar, mentalizando grande parte dessa história.
Nós preenchemos as lacunas com a nossa ficção.
Se ela não aconteceu inteiramente, aconteceu em parte.
Este grupo de 10 homens que foram curados por Jesus e fizeram parte do livro13 Cantai Comigo A Luz da Eterna Aurora, continuam ligados ao nosso coração.
Nesta história estiveram presentes Daniel, na figura de Cristiano, e José, que não teve nenhum destaque e nem a citação do seu nome no livro anterior.
Parece-nos que outras histórias virão.

13 - Cantai Comigo A Luz da Eterna Aurora — Edição CEU — Cultura Espírita União

FIM
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Re: Chão de Estrelas

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 19, 2016 10:09 am

POSFÁCIO

A você, leitor amigo, quero agradecer a gentileza e a coragem.
Acredito que agora, saiba o porquê de afirmarmos que a profilaxia da lepra foi um holocausto.
Talvez você possa pensar porque insistimos neste assunto, se hoje a hanseníase pode ser curada, em até seis meses de tratamento, e os hospitais especializados não existem mais, tampouco a internação compulsória.
Essa foi uma doença que arrasou corpos e almas.
A ciência, conhecendo tão pouco sobre ela, determinou a segregação, destruindo, não raro, famílias inteiras.
Quero, neste livro, prestar uma homenagem a um hanseniano que marcou profundamente a minha vida.
Prof. Mário Brasolin, que foi director do Grupo Escolar Padre Bento, onde estudei em 1948 e 1949.
Ele era, também, o director do Pavilhão de Menores, do Sanatório Padre Bento.
Homem íntegro, amável, dedicado, que com o pseudónimo de Hansen Júnior, escreveu um livro com o título Réquiem, descrevendo a evolução da hanseníase, especialmente no Estado de São Paulo e a luta insana de milhares de pacientes que construíram os Asilos Colónias, tendo muitas vezes deixado o seu sangue na garganta que assentava os tijolos.
Não somos diferentes dos outros seres humanos, mas, com certeza, nossas almas foram temperadas como o mais nobre aço.
Lutamos pela inclusão social.
Lutamos por um mundo melhor.
Um mundo de paz, de harmonia, de justiça social, um mundo onde não existam doenças estigmatizantes, um mundo onde ninguém morra de fome.
Um mundo onde exista amor.
Chorei ao escrever este livro.
Voltei aos exércitos bárbaros e às estradas da Palestina, a tocar a matraca ou a gritar:
não se aproximem, sou impuro.
Habitei os Lazaretos da Europa.
Rezei com Padre Damião em Malokai.
Abriguei-me com o Padre Bento em Itu.
Acompanhei Eunice Weawer nas selvas amazónicas na sua luta de construir preventórios para as crianças filhas de hansenianos.
Sem a dor e a revolta daqueles que foram laçados e amarrados para serem conduzidos aos Asilos.
Senti o calor do fogo a queimar casas de propriedade dos leprosos.
Ver as lágrimas com as noivas, casais ou crianças que viram suas vidas ceifadas pela segregação.
Senti o cheiro nauseabundo da carne apodrecida, da cegueira, das atrofias das mãos e pés, das amputações, dos perfurantes plantares cariando ossos.
Senti novamente o calor brando do coração do médico humanitário Lauro de Souza Lima, meu protector e benfeitor, vi a luta da deputada Conceição da Costa Neves.
Assisti Jésus Gonçalves a escrever suas poesias e sobretudo encontrei no Espiritismo, não uma desculpa para a existência do mal de hansen, que torturou também o meu corpo, mas sim a certeza de que sou imortal para alcançar a perfeição e a alcançarei através das reencarnações, demore quanto demorar.
Este livro é o meu canto de dor e de alegria ao mesmo tempo.
Convido-os a fazer mais do que ouvir o meu canto.
Venha cantar comigo.
Cantemos com Jésus Gonçalves, a eterna aurora de amor e de esperanças.

§.§.§- Ave sem Ninho
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