A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Página 1 de 4 1, 2, 3, 4  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:43 am

A PASSAGEM

Sumário
Introdução


Meu nome é Bob
Borunda Ni
Maryanne
Clara
Conversas com Maryanne
Ernst
Borunda Ni espera ansiosamente
Maryanne e eu conversamos sobre o destino
Clara vai ao cinema
Ernst Luber estava apenas seguindo ordens
Maryanne e o show da vida
Peter se transforma em Jeff
As viagens de Borunda
Maryanne e o perdão
Clara se transforma no todo
Maryanne chega aos programas de televisão
Ernst e Kim Songh
Jeffrey faz sua escolha
Borunda Ni não existe mais
Ernst e Clara
Jeffrey retorna
Adeus


A dedicatória de um livro é muito importante para o escritor.
Este é meu primeiro livro e pensei muito nas pessoas a quem eu o dedicaria.
Na introdução vocês irão conhecer a história de meu irmão Joseph Robert Medeiros, que não está mais nas vibrações da Terra.
Hoje mora em altas esferas espirituais, mas sem ele este livro não teria sido escrito.
Por isso o dedico a ele.
Pelos caminhos da vida devo reconhecer que há também outras pessoas sem as quais este livro não teria sido escrito e publicado.
A minha esposa Sónia, que perdeu muitos fins de semana enquanto eu escrevia, aguenta minhas "neuras" e minha insegurança.
Ela trouxe para mim Fernanda e Juliana.
Se Joe é uma luz espiritual, as três são luzes terrestres.
A minha mãe Louise, minha irmã Cara e meu outro irmão Billy, que me acompanham nesta viagem terrestre; e meu pai, que agora me acompanha no outro mundo.
A Zilda Couvre Deramo, Sónia Martinelli e Denise.
A Márcia Fernandes, que acreditou em mim e levou os originais à minha editora, Zibia Gasparetto.
Também quero agradecer a um grande amigo, e às vezes mais que um amigo: Sílvio Santos.
Este livro não tem a pretensão de ser uma obra-prima, mas tem, desde o primeiro dia, a intenção de esclarecer, ajudar e iluminar a todos nós nesta jornada da alma que chamamos "vida".
Ele é dedicado a todas as almas que estão juntas nesta aventura da Terra.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:43 am

Introdução

Eu não sou adivinho, vidente ou profeta.
Nenhum arbusto flamejante cresce em meu jardim.
Contudo, sei que este livro me foi inspirado, escrito com a ajuda daqueles que vivem onde nós costumamos chamar de "o outro lado".
Não sou eu quem afirma isso.
Cinco médiuns (ou "sensitivos", como está muito na moda chamá-los hoje em dia) é que disseram.
Os cinco não se conheciam, nunca se encontraram e cada um deles tinha uma forma própria de fazer suas revelações.
Mas todos foram unânimes em me dizer o que eu soube e senti desde o momento em que comecei a escrever este livro: alguém estava me guiando, e eu sabia quem era!
Quando eu tinha mais ou menos uns vinte anos de idade, meu irmão caçula morreu atropelado por um carro.
Alguns anos antes, quando eu estava na adolescência, comecei a me interessar pela vida além da morte.
Enquanto os garotos de minha idade só pensavam em jogar futebol ou namorar, eu estava lendo Lobsang Rampa, Hans Holzer e Allan Kardec.
Por isso, quando meu irmão passou para o outro lado, me pareceu a coisa mais natural do mundo procurar um centro espírita, para tentar descobrir se tudo que eu tinha lido era verdade.
Fui ao Centro Espírita de Syracuse, uma cidade no interior de Nova Iorque, nos Estados Unidos.
A médium dessa igreja era uma mulher chamada Margaret Tice.
Ela foi provavelmente a médium mais honesta e dotada que encontrei em minha vida.
Sem nunca ter me visto, e desconhecendo qualquer fato relacionado a mim, ela me disse:
— Um menino de uns doze ou treze anos de idade... recém desencarnado... eu o vejo atropelado por um carro...
Ele diz que é seu irmão, e seu nome é Joseph...
A partir desse dia, durante vários meses, frequentei o Centro da médium Margaret quase todas as quartas-feiras.
Minha mãe, que a princípio não acreditava nessas coisas, ia comigo.
Uma noite, a médium Margaret pediu para minha mãe procurar um amigo de meu irmão Joe, "o garoto de longos cabelos louros".
Ela disse que meu irmão tinha contado para esse amigo o sonho que havia tido poucas semanas antes do acidente.
A médium disse que Joe queria que minha mãe procurasse esse menino e lhe perguntasse a respeito do sonho.
Joe tinha apenas um amigo de cabelos louros e compridos. Era Kevin.
Assim que nós voltamos da igreja naquela noite, minha mãe telefonou para ele e pediu para vir em casa no dia seguinte.
Ele foi, e mamãe lhe perguntou o que ele sabia a respeito do sonho de Joe.
O garoto ficou perplexo.
Por alguns segundos, ele simplesmente não conseguiu dizer uma palavra.
Silenciosamente, Kevin sentou-se em uma das cadeiras de nossa sala de estar.
Depois de certo tempo, finalmente ele respondeu.
Disse que Joe lhe contara o sonho que tivera dois meses antes do acidente.
— Disse que tinha tido um pesadelo.
Ele sonhou que tinha sido atropelado e morto por um caminhão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:44 am

Acordou às quatro horas da madrugada, suando frio e assustado.
O menino de "longos cabelos louros" começou então a chorar.
Quando se acalmou, continuou:
— Quando Joe me contou esse sonho, disse que achava que iria morrer muito em breve...
E ele morreu!
Numa outra quarta-feira, durante uma sessão, a médium Margaret disse à minha mãe que Joe iria se apresentar a ela e que não ficaria mais nenhuma sombra de dúvida a respeito da existência de sua alma, de seu espírito (ou como quer que chamemos essa parte que sobrevive ao corpo após esta breve passagem pela Terra).
— Exactamente como acontece com todos nós — a médium acrescentou.
E duas semanas depois, de facto, ele se fez conhecer.
E, como a médium tinha dito, com sua aparição ele não deixou mais nenhuma dúvida a respeito de sua existência.
Estava frio e nevava muito naquela sexta-feira de janeiro, quando minha mãe se preparava para dormir.
Como já era seu hábito, ela deixava todas as noites uma pequena vela acesa para Joe.
A chama da vela brilhava na escuridão da noite.
Meu pai roncava fortemente do outro lado da cama; minha irmã tinha ido dormir na casa de uma amiga, assim como meu outro irmão.
Eu, estudante do segundo ano da Universidade de Syracuse, cheguei mais ou menos à meia-noite em casa e encontrei todo mundo dormindo.
Quase às seis horas da manhã, um zumbido forte e constante acordou minha mãe.
A vela que às onze e meia da noite estava quase se extinguindo, agora, iluminava totalmente o quarto.
Morávamos em um sobrado em que os quartos ficavam no andar de cima.
Minha mãe acordou com o barulho de passos subindo as escadas.
Depois de alguns segundos, ela ouviu de novo o barulho de passos descendo as escadas.
Foi tão nítido que ela percebeu inclusive a diferença do som dos passos na madeira dos degraus da escada e no carpete do andar de baixo.
Minha mãe se levantou e foi dar uma olhada para ver se havia alguém lá embaixo.
Meu pai continuava roncando e eu dormia profundamente em meu quarto.
Ela chegou à sala de estar e subitamente sentiu uma "força" puxando-a para o andar de cima, onde ficava também o quarto de Joe.
Desde sua morte, alguns meses atrás, ela nunca mais entrara lá.
No topo da escada havia um pequeno cubículo.
Como Joe tinha apenas doze anos de idade, era natural que ele estivesse na cama lá pelas nove e meia da noite, mas raramente isso acontecia.
Normalmente ele ficava no pequeno cubículo, que havia se tornado seu esconderijo, e era lá que ele ficava lendo revistas em quadrinhos, ouvindo rádio e falando pelo rádio-amador com seu amigo Kevin.
Claro, Joseph não era um santo (a propósito, ele ainda não é!)
Minha mãe finalmente decidiu abrir a porta do quarto de Joe e um lápis preto caiu do batente da pequena porta.
Ela olhou para cima e viu escritas na parede estas palavras:
EU AMO MINHA MÃE, EU AMO MEU PAI.
NÃO FIQUEM TRISTES E NÃO CHOREM POR MIM.
JOE

Ela ficou desesperada.
Meu pai a ouviu gritar e correu para ver o que tinha acontecido.
Ele também viu o que estava escrito ali.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:44 am

— Não pode ser!
Eu estive neste quarto alguns dias atrás e não havia nada escrito na parede! — disse ele.
Quando finalmente acordei, fui até o quarto.
Eu também tinha estado ali alguns dias antes e posso afirmar que não havia nada escrito naquela parede.
Aquela foi uma das primeiras mensagens de Joe.
Este livro, que não teria sido escrito sem sua ajuda, é outra.
Uma noite, poucos meses depois desse acontecimento, a médium Margaret sorriu e nos disse que ela finalmente havia entendido.
— Entendido o quê? — perguntei.
— A primeira vez que vocês vieram ao nosso Centro, há quase um ano, fiquei confusa e surpresa.
Sempre pensei que um espírito que passa para o outro lado precisasse de muito mais tempo do que Joe teve para se manifestar e se comunicar com nosso mundo.
Com ele não foi assim.
Agora posso perceber que ele é um espírito evoluído.
Ele está no plano superior e voltou para esta esfera para viver apenas doze anos.
Ele veio para realizar uma missão e essa missão terminou.
Que missão é essa, eu não sei, mas sei que ele partiu porque seu tempo nesta esfera tinha acabado.
Agora, mais de vinte e cinco anos depois, estou morando em São Paulo, Brasil.
Por causa da morte de Joe e de tudo que aconteceu depois, tenho me interessado e estudado a continuidade da vida após a morte, a comunicação com os espíritos.
Certa vez uma sensitiva me perguntou se eu estava escrevendo um livro.
Respondi que sim, e acrescentei que era apenas um hobby.
A sensitiva respondeu-me que eu estava enganado, que não era um hobby e que um espírito estava me guiando nessa tarefa.
Eu não perguntei que espírito era esse que estava me guiando.
Poucas semanas depois, uma outra sensitiva me disse:
— Vejo que você está escrevendo alguma coisa, e há uma luz muito forte guiando suas mãos quando você escreve.
Desta vez, perguntei quem era esse guia. Ela não sabia.
Questionou-me, perguntando se eu tinha algum irmão desencarnado.
Ela disse que esse espírito estava me iluminando e que mesmo sua passagem para a outra vida fazia parte de um plano divino.
Hoje sei que, embora não tenha sido Joe o espírito que me inspirou e escreveu este livro, ele ajudou no processo despertando meu interesse pela espiritualidade, oferecendo várias provas da sobrevivência, aproximando de mim pessoas que contribuíram para que eu descobrisse a verdade.
Senti vontade de escrever, e daí nasceu este livro.
Talvez esse seja o plano divino.
Se eu vejo meu guia enquanto escrevo? Eu gostaria.
Se eu o ouço enquanto escrevo?
Somente um ténue e fraco sussurro.
Se eu sinto sua presença? Sim, eu sinto.
Muitos anos atrás, quando voltei a Syracuse, em Nova Iorque tomei conhecimento de que Joe enviara várias mensagens através da médium Margaret Tice, e algumas falavam sobre nossa passagem para o outro mundo.
Este livro é uma mensagem muito simples, mas verdadeira.
Uma mensagem de fé, de esperança, de vida, de amor e de redenção.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:44 am

Meu nome é Bob

William Shakespeare uma vez escreveu:
"O que é um nome?
O que nós chamamos de rosa, com um outro nome teria o mesmo perfume."
Portanto, se você quiser, pode me chamar de Bob.
Quem eu sou não é muito difícil de explicar.
Na esfera de seu mundo, algumas vezes sou chamado de "luz".
Quando pessoas reencarnadas na Terra fazem aquilo que nós aqui chamamos de "uma rápida visita de volta" (ou seja, quando ficam entre a vida e a morte), algumas afirmam terem encontrado uma luz.
E sabe de uma coisa?
É a descrição certa!
A luz que reconforta, orienta, purifica e protege.
É a luz que espera cada um que regressa da Terra, quando ultrapassam o outro lado do portão, lado este que nós chamamos de morte.
(Que desagradável nome é este — morte.
Prefiro chamar de chegada, mas, como Shakespeare disse, o que é um nome?)
Bem, eu sou isso... A luz!
E eu não sou o único, há inúmeros outros.
Todos nós temos a mesma missão, e isso é muito complicado...
Nós não somos simplesmente um enxame de místicos vagalumes dizendo:
— Ei, venham, acompanhem-nos em direcção à salvação e à redenção.
Ao contrário: estamos aqui para acolher, ensinar e explicar.
Essa é nossa missão neste estágio de nossa evolução.
E nós temos essa missão, não apenas para ajudar, mas para aprender com aqueles que ajudamos, como você!
Resumindo, minha tarefa é tanto ensinar quanto aprender.
Minha tarefa tanto é mostrar o caminho quanto achar o caminho.
Minha tarefa é guiar e pedir para ser guiado.
Este livro faz parte também dessa tarefa, e, se você estiver disposto, nós iremos ver o que o espera quando você estiver no limiar da esfera terrestre pronto para atravessar o portão que o levará para a outra vida.
Mas esta não é a única razão pela qual estou escrevendo este livro.
(Não, não tenho nenhuma ambição de estar na lista dos dez mais vendidos.)
Quero mostrar a vocês a verdade que se esconde neste outro lado do portão e ao mesmo tempo ajudá-los a compreender o que é a vida no lado em que estão agora.
Porque é nesse lado que reina o desespero, o sofrimento e a desesperança.
A esfera terrestre.
É nessa esfera que você se encontra agora e há uma razão para isso.
Você está na Terra para aprender, crescer e descobrir a divindade brilhante que existe em cada alma humana.
Você está no lugar onde eu estive muitas vezes, muitos anos atrás, para superar e tirar proveito da dor, do sofrimento, das mágoas, tristezas e amarguras que as densas vibrações da Terra oferecem.
A Terra existe porque é uma escola, e vocês são os alunos.
Você está literalmente na Terra para aprender com seus erros e com seus triunfos.
Eu vivi na Terra muitas vezes.
Minha última encarnação foi alguns anos atrás.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:44 am

Na verdade, não importa quando, o que importa é o que foi minha vida, porque não existe nenhuma vida irrelevante.
Ninguém tem uma vida inexpressiva, nós estamos todos conectados uns aos outros.
Repartimos a mesma luz; nós somos uma parte do mesmo criador.
Esta é uma lição que muitos habitantes do plano terrestre ainda não aprenderam.
Minha última encarnação na Terra foi nos Estados Unidos da América, no estado de Kansas.
Vivi numa fazenda.
Depois que meus pais morreram, fiquei sozinho.
Eu não tinha irmãos nem irmãs.
Vivi uma vida muito solitária, mas essa escolha foi feita por mim mesmo, muito antes de nascer.
Foi uma existência na qual eu tive a chance de observar e entender as verdades que a Terra pode oferecer:
o ciclo da vida, o curso natural dos acontecimentos e o relacionamento de todos os seres vivos.
Longe de qualquer cidade, de qualquer povoado, eu vivia em alguns poucos acres de terra, onde desfrutava da companhia das plantações que eu cultivava e dos animais que eu criava.
Fisicamente, eu tinha mais ou menos um metro e oitenta de altura, era um pouco gordo e, quando desencarnei, tinha uma vasta cabeleira ondulada, embora já bem grisalha.
Trabalhava na lavoura e ganhava o suficiente para pagar as poucas contas que eu tinha.
Alimentava-me com o que plantava e também com as trocas que fazia com os vizinhos.
Estava com setenta e cinco anos de idade quando atravessei o portão passando para este lado.
Quando cheguei em casa, com a ajuda da "luz", eu vi os objectivos que eu mesmo escolhera antes de encarnar.
E agora, de volta, eu via o que realmente tinha feito.
Na Terra, algumas religiões chamam isso de "o julgamento final".
Só que não é Deus quem nos julga.
Nós julgamos nós mesmos.
Eu fiz um inventário de minha encarnação em Kansas, e, enquanto eu fazia isso, pude ver até o fundo de minha alma.
Orientado carinhosamente por meus espíritos mentores, pude captar todas as vidas que eu tinha vivido até então.
Como no cinema, as cenas de todas essas vidas foram passando diante de mim, e eu vi claramente os triunfos, as tristezas, as forças e fraquezas que fazem
parte de mim.
Estou aqui por algum tempo.
E, ao contrário de um mito muito popular na Terra, não fiquei sentado em uma nuvem branca e fofa, ouvindo os anjos cantar.
Eu recebo os espíritos da Terra quando eles chegam aqui pela primeira vez, e, depois de um tempo, ajudo-os a viajar pelos caminhos de escolhas e decisões sem fim.
Agora vou contar algumas histórias sobre espíritos que encontrei.
Por intermédio de suas jornadas você pode encontrar alguns novos significados para sua própria vida.
Sei que a vida na Terra pode parecer fútil e sem esperanças, porque quando estamos encarnados nos esquecemos de onde viemos, para onde vamos e parte do que somos.
Todos os espíritos precisam encontrar um jeito próprio, e a sua própria hora, para descobrir o caminho que o liberte das futilidades e das desesperanças da vida.
A escola da vida não é uma escola fácil.
Seus corredores estão impregnados de vibrações negativas que a humanidade criou através dos tempos e que desafiam nossas fraquezas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:45 am

Suas trilhas são pontuadas de muitas tentações, invejas, privações, tristezas, ódios, rancores, desgostos, sofrimentos, cujos resultados colhemos e nos empurram para a necessidade de modificar nossas atitudes para melhor se quisermos viver bem e encontrar a paz.
Somente quando deixamos esses sentimentos negativos para trás, a divina luz que floresce na alma de todo ser humano se manifesta e nos sentimos unidos ao criador.
Bem, se eu tivesse de dizer a vocês que eu realizei tudo isso, que minha alma está em perfeita harmonia com Deus e o universo, eu estaria mentindo.
Eu ainda estou muito longe de me tornar um espírito elevado.
Há muitos mistérios para eu desvendar, e muitas qualidades que preciso ainda conquistar, muito embora, neste momento, eu já tenha conquistado um nível de sabedoria que me permite ajudar pessoas, e é isso o que desejo fazer.
Ajudando você, estarei ajudando a mim mesmo.
Nós precisamos ajudar um ao outro, porque não pode haver perfeição e harmonia na criação de Deus se todos nós não fizermos parte de um todo.
A luz divina de nossas almas precisa crescer como uma só luz.
Não poderá haver harmonia se uma simples alma humana for deixada de lado.
O que antes foi um só não poderá vir a ser um conjunto novamente se uma simples peça estiver faltando.
Portanto, eu me sento no portão e recebo os novos viajantes que chegam.
Meu espírito necessita de empatia e compaixão, e este é o motivo por que estou aqui.
Existe uma forma melhor de desenvolver essas qualidades do que ajudando aqueles que estão perdidos, confusos e perturbados?
Antes de começarmos juntos nossa jornada, há algumas coisas que você precisa saber.
Primeiro e o mais importante:
o facto de eu estar morto não faz de mim um santo.
E também não tenho todas as respostas.
Vamos dizer que eu esteja mais iluminado do que você está neste momento porque estou olhando de um ângulo diferente.
Sou apenas uma alma humana, como você. Só isso.
Segundo: eu não sou muito bom em datas, sabe... essas coisas de dias, meses e anos.
Esse tipo de coisa é um pouco diferente aqui.
Quero dizer, o que o ano de 1865 tem a ver com a eternidade?
Terceiro: conforme você vai passando por estas páginas, deixe de lado suas crenças e julgamentos terrestres.
Procure ver através dessas crenças apenas a verdade.
Algumas noções do que é verdadeiro podem ser encontradas na maior parte das religiões, nos folclores e tradições do mundo.
Deus colocou a verdade assim: homem, o contra-senso.
Esse contra-senso nada mais é do que a tentativa do homem de lidar com coisas que ele não compreende.
Perdi um bom tempo matutando sobre aquilo que deveria escrever e como eu queria que fosse dito.
Você vai encontrar quatro espíritos diferentes aqui, e através da jornada de suas vidas espero que você compreenda alguma coisa sobre sua própria vida.
Escolhi contar as histórias de pessoas comuns na esperança de que você possa se identificar com elas.
Sempre me diverti com algumas pessoas que afirmam acreditar na reencarnação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:45 am

Todas elas são unânimes em afirmar que numa vida anterior elas foram reis, rainhas ou pertenciam à corte de Cleópatra, rainha do Egipto.
(Algumas vezes fico a imaginar quem eram os cavalariços, os escravos, já que todo mundo pertencia à nobreza.)
Em nossas histórias, você vai encontrar o rico e o pobre, o poderoso e o humilde.
Espíritos exactamente como você.
Algumas vezes, entre as histórias que vou narrar, falarei com você directamente.
É uma tentativa de tornar este livro — usando um termo que está muito em moda agora na Terra — interactivo.
Exactamente porque essa interactividade na verdade não pode acontecer (a propósito, grande parte dessas bobagens que eles tentam lhe enfiar garganta abaixo não é interactividade), eu usarei as conversas que tive com um jovem espírito que encontrei alguns anos atrás e estão gravadas em minha memória.
Esse espírito agora se encontra em uma nova esfera, mas, quando o encontrei, ele tinha muitas perguntas.
Algumas podem ser muito parecidas com as suas.
O nome desse espírito era Maryanne.
Eu esclareci muitas dúvidas dela e ela, em troca, preencheu um grande vazio em minha alma.
Você irá encontrá-la brevemente.
Mas vamos em frente.
Aqui, a esperança é de que o difícil se torne simples, o misterioso se torne claro, e o confuso o óbvio.
Que Deus o abençoe, agora que você está iniciando esta nova jornada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:45 am

Borunda Ni

O que sobrou da tribo africana ioruba vive agora no país que chamamos de Nigéria.
Os iorubas são um povo antigo, místico e hoje muitos de seus descendentes vivem em alguns lugares da América do Sul e do Caribe.
Arrancados de suas choupanas em suas aldeias e jogados como gado amontoado nos conveses de navios malcheirosos, eles chegaram ao Novo Mundo como escravos.
Despojados de seu passado e sem nenhuma esperança no futuro, eles literalmente trouxeram com eles a roupa no corpo e a sua religião no coração.
Passaram séculos, mas sua crença no sobrenatural sobreviveu.
Hoje sua religião é chamada de santeria, a religião dos santos.
No Brasil, na América Central e no Caribe, onde quer que os iorubas sintam as chicotadas da escravidão, a santeria e todas as suas variações são ainda praticadas.
Os iorubas acreditam no poder de sete divindades, cada divindade governando um aspecto diferente da vida de uma pessoa.
Eles colocam grande fé no poder do mundo espiritual, e, por meio de um ritual elaborado e colorido, chamam os espíritos para intervir na vida terrestre.
Borunda Ni é dessa tribo e é o mais alto sacerdote da religião ioruba.
Ele habita um remoto povoado encravado num canto da moderna Africa de hoje.
A rotina diária desse povoado mudou muito pouco desde que seus antepassados foram raptados de suas casas e jogados no Novo Mundo.
Borunda Ni não conheceu electricidade, água encanada, televisão ou jornais em sua isolada casa tribal.
Ele, contudo, conheceu as outras esferas: a da Terra e a do espírito.
Alguns podem achá-lo selvagem e outros podem ir à televisão pedir contribuições para salvar sua alma ignorante.
Sua história mostrará como as almas são realmente salvas.
Borunda Ni voltou ao mundo astral em 1970.
Eu esperava por ele, para ser sua luz e saudá-lo quando ele cruzasse a linha entre os dois mundos.
Como é meu costume, antes que um espírito fizesse a rápida — e quase sempre imperceptível — passagem da esfera terrestre para esta, eu tentava conhecer suas vidas.
Dava uma olhada em sua folha corrida do mesmo modo que um professor analisa o boletim escolar de um aluno.
(Você pode chamar esse fichário da vida do jeito que você quiser:
Arquivo Akásico, onde fica registado minuciosamente tudo que acontece no dia-a-dia, ou O Livro da Vida; são a mesma coisa.)
Você se recorda das histórias que falam dos anjos da guarda?
Em todas as religiões encontramos alguma coisa sobre isso: que existe um grande livro em que o anjo anota todas as suas boas acções em tinta dourada e as acções não tão boas em letras pretas.
Essa folha corrida é mais ou menos isso.
Excepto que eu tenho diante de meus olhos todas as vidas que a alma viveu, desde os primórdios dos tempos.
(E, a propósito, os anjos da guarda existem mesmo.
Mas esqueça as asas brancas batendo.
Desculpe, esqueça também as harpas.)
Mas, como estava dizendo, dei uma olhada na folha de Borunda e vi que suas horas na Terra estavam chegando ao fim lentamente e sem sofrimento.
Eu queria estar pronto quando seu tempo chegasse, porque ele não chegaria nem um minuto antes nem um minuto depois. Ninguém chega.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 11:45 am

Sua morte foi sem dor.
Ele simplesmente morreu de velhice, sua alma abandonou um corpo exausto e gasto.
Sua esposa, filhos e netos estavam todos ao seu redor na cabana, fazendo-lhe companhia quando ele se desligou da vida na Terra para entrar na vida espiritual.
Sua morte foi tranquila, sem esforço e bonita.
Eu também estava lá.
Algumas vezes, para facilitar a passagem do espírito para este lado, nós criamos um cenário que a pessoa espera encontrar.
Com Borunda, essa transição seria fácil, porque suas crenças estavam muito perto da verdade.
Quando sua hora chegou, ele despertou de um sono profundo e encontrou a si mesmo na choça de um povoado, exactamente igual à que ele tinha deixado alguns segundos atrás.
Piscou os olhos e se encontrou fixando o tecto de sapé da cabana.
Depois de alguns instantes ele olhou em torno de si.
Tudo parecia estar exactamente como era de esperar:
a lança, as máscaras, os arcos, as peles.
Todas as suas coisas conhecidas estavam em seus lugares.
Simplesmente entrei.
Quando quero, posso aparecer de forma bem dramática, mas naquele caso não havia necessidade de espectáculo.
Fui até onde ele estava e me ajoelhei a seu lado.
— Olá, Borunda, seja bem-vindo de volta — eu disse.
Ele virou de lado e apoiou a cabeça na mão.
Olhando para mim, disse:
— Não o conheço, e você vem dizendo bem-vindo de volta?
Aqui é minha casa!
Eu estou nela. Quem é você?
— Borunda, venha comigo.
Vamos dar uma olhada ali fora.
Eu apontei com a mão a entrada da choupana, de onde poderíamos ver o centro da aldeia.
— Por favor, vamos.
Borunda, o homem magro e alto, levantou-se e caminhou até a entrada da choupana.
Nessa caminhada, ele foi observando cada detalhe da choupana e percebeu que alguma coisa estava fora do lugar neste seu mundo familiar.
Eu gostaria de ajudá-lo a abrir as portas, mas ele teria de fornecer as chaves.
Borunda olhou para o meio da aldeia seca e empoeirada.
Ele viu diante do imenso céu azul e branco um garotinho nu, correndo e rindo à frente de sua mãe, que descia por uma estradinha de terra.
O menino brincava com alegria, tentando agarrar as borboletas coloridas que voavam rápidas por todos os lados.
Borunda sorriu e disse:
— Então é isso, não é?
Esta é minha aldeiazinha num dia quente de verão há muitos e muitos anos, e aquela mulher é minha mãe.
Ele olhou para o céu, para as montanhas e as árvores.
Ouviu o canto dos passarinhos vibrante e claro na mais perfeita harmonia e os ruídos da floresta, como jamais havia ouvido antes.
Borunda virou-se para mim, e seus olhos encontraram os meus.
Com a voz baixa, quase num sussurro, ele formulou a pergunta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:48 am

Era uma pergunta cuja resposta ele já sabia:
— Se aquele menino sou eu, e essa é minha pequena aldeia, então quem sou eu realmente?
Onde nós estamos agora?
Voltei para o lugar onde os espíritos vivem?
Se for isso, onde é meu lugar?
Para onde vou?
— Bem-vindo de volta — repeti.
Sim, você veio para o lugar onde os espíritos vivem, o lugar onde a jornada de nossa vida começa e termina.
Esta é sua casa verdadeira, o lugar onde você se conscientiza da verdade.
Ele entendeu.
Na vibração da Terra, os iorubas têm conhecimento dos espíritos e sabem sobre o poder deles.
Eles não sabem tudo, mas sabem o necessário e têm alguma ideia de reencarnação.
Borunda Ni praticava a crença dos iorubas, e, em razão disso, seu progresso aqui seria mais fácil e mais rápido.
Ele sabia que tinha deixado para trás, na Terra, seu corpo físico, seus filhos, filhas, netos e esposa.
Com ele, agora, estavam sua mãe, que havia "voltado para casa" quando Borunda ainda era apenas um adolescente; seu pai, que deixou a Terra lutando contra um ataque da tribo vizinha; e um filho que tinha morrido de febre amarela.
Borunda abraçou-os e uma suave aura branca desprendeu-se deles e o envolveu.
Eram energias reconfortantes de boas-vindas ao lar.
— Você veio a este lugar para descansar, meu filho — sua mãe disse, abraçando-o com sua luz.
Ele a viu do jeito que ele se lembrava dela, excepto que ela agora estava mais jovem e não estava maltratada pela idade, pelas doenças ou pela vida.
Seu filho, que havia morrido com três anos de idade e embora já fosse adulto, ele o viu como um garotinho, exactamente do jeito que se lembrava dele.
Ver os espíritos em sua forma humana torna mais fácil esses encontros.
No decorrer do tempo, nós os vemos não como um reflexo da antiga vida terrestre, mas como realmente são.
Pouco depois, quando as lágrimas da reunião tinham acabado, Borunda virou-se para mim e perguntou:
— Todos eles aqui eu conheço.
Mas quem é você, é meu guia?
A religião ioruba diz que todos nós temos um guia espírito, que nos ajuda e nos protege através da vida.
Guias, anjos da guarda, protectores... é surpreendente o número de verdades que as religiões terrestres e até o folclore têm em comum.
— Não, não sou seu guia.
Você irá encontrá-lo mais tarde — eu disse.
Minha tarefa é ajudá-lo a deixar o passado para trás, mostrar-lhe o presente e prepará-lo para o futuro.
Ele aprovou com a cabeça.
Sua jornada seria muito fácil.
Tinha ouvido sobre a estrada e ainda na Terra vislumbrara muito rapidamente seu destino.
Agora, no entanto, era hora de repousar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:48 am

Maryanne

A cidade de Los Angeles, na Califórnia, é como uma fotografia em preto-e-branco.
Do aspecto esbranquiçado de seus edifícios de idade indefinível ao asfalto negro de suas ruas e auto-estradas, Los Angeles é uma cidade sem características, sabor ou personalidade.
Fui levado até lá por causa de Maryanne.
Eu estava com ela numa manhã quente e abafada no bairro pobre da cidade.
Ela era uma menina negra com quinze anos de idade.
Quando a vi pela primeira vez, ela estava usando as cores verde e vermelho de uma gangue de rua de seu bairro.
Naquele dia haveria uma guerra em uma esquina qualquer da cidade em preto-e-branco.
Como na maioria das guerras, a luta seria para definir as fronteiras, o império e o poder.
O episódio daquela manhã poria em confronto as cores verde e vermelho de Maryanne contra as cores azul e branco de uma outra gangue.
O prémio: controlar uma rua e a honra de poder vender os venenos para as pessoas injectarem em seu corpo, fumarem ou cheirarem.
Maryanne estava do lado errado na guerra daquele dia.
A bala de um revólver de cinquenta dólares, comprado num barzinho do bairro, dilacerou seus pulmões.
Ela se afogou no próprio sangue.
Eu estava lá quando a bala atingiu seu alvo, pondo um fim à sua curta vida neste planeta.
Mas ela nem tomou conhecimento de minha presença.
No caso dela, não havia uma luz no fim do longo túnel.
Sua morte foi por demais violenta, rápida e inesperada.
A bala com a velocidade da luz, que cortou uma vida de quinze anos, não deu a ela tempo de se preparar.
Não houve um aviso prévio.
O espírito simplesmente ignorou a morte de seu corpo.
Embora seu corpo estivesse morto, o espírito de Maryanne continuava vivendo sua vida na Terra, sem saber que ela havia passado para uma outra esfera e entrado em uma vibração diferente.
Ela ficou frustrada e cheia de raiva porque sua mãe ignorava sua existência, não a via ou conversava com ela; seus irmãos e irmãs faziam o mesmo; e os amigos de seu bando falavam dela no passado.
A Maryanne terrestre não existia mais, e a Maryanne espírito ainda não sabia que seu corpo estava morto e ela continuava viva.
Vagando pelo asfalto negro daquela cidade em preto-e-branco, Maryanne desesperadamente procurava uma reconexão com sua vida terrestre.
Todos os dias ela corria loucamente de sua casa até a rua e os becos familiares.
Depois voltava para casa e corria outra vez até o quarteirão de seu bando.
Ela conhecia a rotina da vizinhança, as árvores, as casas e os edifícios abandonados, que tornam o centro de Los Angeles vazio e decadente.
Ela conhecia as pessoas e ficava observando como elas viviam suas vidas no dia-a-dia.
Sua mãe rezando por uma filha morta, seus irmãos e irmãs indo e voltando da escola, seus amigos bebendo, dopando-se e festejando.
Nada tinha mudado, excepto que ela não fazia mais parte daquilo tudo.
Eu estava com ela nessa jornada que parecia um pingue-pongue de louco.
Indo de um lado para o outro, sem descansar um só minuto, sempre procurando, nunca achando, sem descanso, sem alívio.
Ela não podia me ver.
Seu espírito estava ainda preso à vibração da Terra.
Em vão e desesperadamente, desejando ser parte daquilo que tinha ficado para trás, ela não tinha nem mesmo começado a questionar onde estava e por quê.
Não havia nada que eu pudesse fazer, excepto estar com ela enquanto ela perambulava pela cidade em preto-e-branco, mandando vibrações de amparo e despertamento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:48 am

Clara

Uma vida comum em uma pequena cidade chamada Jessup, no estado da Pensilvânia.
Uma vida que muitos chamariam de medíocre e outros de sem razão de ser.
Clara Paolucci acordava invariavelmente às sete horas da manhã, de segunda a sexta-feira, para pegar o ônibus das oito horas, que a levaria para seu trabalho que começava às oito e meia, no prédio sujo e cinzento de uma fábrica de roupas.
Ela dava duro numa máquina de costura, cozendo roupas até as quatro da tarde, quando terminava seu horário.
Ela então pegava uma carona com uma de suas colegas de trabalho ou pegava o mesmo ônibus de volta para casa.
Salvo algumas pequenas excepções, essa foi sua vida durante mais de vinte e cinco anos, desde que seu marido morrera nas minas de carvão da Pensilvânia.
Ela era jovem quando ele desencarnou, mas jamais voltou a casar.
Clara tinha uma filha e quatro netos que moravam em um outro estado.
Sendo assim, ela se levantava às sete, voltava para casa pouco depois das quatro, jantava, via televisão e ia dormir após assistir ao noticiário das onze horas.
No dia seguinte ela se levantava de novo às sete, pronta para enfrentar mais um dia comum de sua vida igualmente comum, naquela cidadezinha da Pensilvânia.
Mas ela também, como todos nós, era um espírito, e portanto sua vida não podia ser considerada insignificante, ainda que desse essa impressão.
Quando Clara estava com sessenta e dois anos de idade, ela pegou o ônibus das oito horas da manhã, mas naquele dia ela não desceu diante do prédio sujo e cinzento da fábrica de roupas.
Clara desceu em frente ao edifício da Previdência Social, retirou sua aposentadoria e foi embora.
Com o que recebia da previdência e com a poupança que tinha no banco, Clara Paolucci levava uma confortável vida de aposentada.
Seu mundo se resumia à sua sala de estar.
Irmãos, irmãs, amigos e netos iam até lá para visitá-la, e, quando eles iam embora, ela se deitava em seu sofá, pensando no vazio de sua vida.
Clara não era uma mulher instruída.
Mal havia terminado a oitava série, mas, como era muito introspectiva, passava muitas noites no sofá de sua sala de estar, questionando os porquês da vida: por que fora, poderia ter sido, seria dali para a frente, e assim por diante.
Ela tinha comprado uma televisão colorida da nova marca Motorola Quasar.
Em 1969 era considerada uma das melhores.
De seu sofá, em sua sala de estar, ela viu o homem descendo na lua, garotos americanos morrendo numa guerra num lugar chamado Vietname e desordeiros queimando a bandeira de seu país.
Ali, em sua cidadezinha de Jessup, na Pensilvânia, ela estava isolada de toda essa loucura.
Sua sala de estar havia se tornado seu mundo.
Na época em que o escândalo de Watergate foi denunciado na TV, ela descobriu um caroço embaixo de seu braço direito.
O médico de sua cidade enviou-a para um especialista em Scranton, que lhe disse que ela estava com linfossarcoma.
O médico estava optimista, porque eles haviam diagnosticado a doença em sua fase inicial.
— Acho que posso manter isso sob controle — disse ele.
Explicou que linfossarcoma era um câncer que se espalhava lentamente e que com medicação, com exames de sangue mensais e checapes periódicos, ela poderia viver uma vida normal por muitos anos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:48 am

É, de facto, ela viveu mais oito anos!
Clara, durante esse período, vivia dizendo a seus amigos como ela era grata a Deus e ao presidente Kennedy, que tanto tinha ajudado os aposentados.
Deitada em seu sofá, na sala de estar de seu mundo, Clara olhava para os anos que tinha passado neste planeta.
Ela pensava em sua vida, em sua morte que se aproximava e também naqueles que tinham morrido antes dela.
Ela não era mórbida, triste ou melodramática, mas, quanto mais pensava, mais sua vida lhe parecia vazia.
As peças não se encaixavam, o modelo não se completava.
Diante da luz artificial de sua TV, Clara viajava no tempo.
Ela pensava em sua infância como filha de imigrantes italianos.
Sua mãe teve nove filhos, um exagero.
Na verdade, ela nunca tivera infância.
Ela começou a trabalhar com oito anos de idade e se casou aos catorze, com um homem vinte e um anos mais velho que ela.
Em seu quarto, quando o sono não vinha durante a madrugada, ela se perguntava:
— Afinal de contas, o que tinha sido minha vida?
Pensava em seu falecido marido.
Ele foi um homem bom, decente e honesto.
Mas ela nunca o amou.
Agora, muitos anos depois, ela percebeu que havia casado com ele simplesmente para sair da casa de sua mãe.
Quando seu marido ainda estava vivo, ela conheceu Frank, o único homem que amou de verdade.
Mas ela estava casada e com uma filha, e em sua pequena cidade da Pensilvânia, no meio do período de Depressão, um divórcio ou mesmo um simples caso amoroso era simplesmente inconcebível.
Então seu marido faleceu, vítima do pó de carvão das minas onde trabalhava.
Clara ficou viúva aos quarenta anos.
Sua única filha estava casada naquela época, e já lhe tinha dado um neto.
Ela estava, então, livre para começar uma nova vida com Frank.
Ele queria casar com ela.
Mas isso não aconteceu.
Os parentes dele se colocaram no caminho.
Ele tinha dinheiro. Os parentes não.
As sobrinhas e sobrinhos não queriam perder o tio rico e o lugar no testamento dele.
Assim Clara o perdeu e continuou vivendo sua vidinha solitária.
Todas as noites, durante seus últimos oito anos, ela pensava nos "nuncas" de sua vida.
A medida que o câncer propagava seu veneno, ela ia ficando cada vez mais resignada, não só com sua vida mas também com sua morte.
Praticamente no final, quando já estava dando seu último suspiro, Clara ainda se perguntava por que sua vida tinha sido assim tão vazia.
Durante a crise dos reféns iranianos, Clara fez sua última viagem de Jessup a Scranton.
E dessa vez não foi no costumeiro ônibus.
Sua filha levou-a de carro pelo mesmo caminho que o ônibus percorreu durante tantos anos, passando pelo prédio sujo e cinzento da fábrica de roupas onde Clara havia trabalhado, para deixá-la internada no hospital Mercy de Scranton.
Naquele mesmo dia, poucas horas depois de ter dado entrada no hospital, Clara passou para o outro lado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:49 am

Sua filha, genro e netos estavam com ela no momento em que ela cruzou a linha invisível.
Eu, claro, estava do lado de cá... esperando por ela.
Porém eu não fui o primeiro a encontrar Clara.
No momento em que seu corpo sucumbiu ao câncer, seu marido, uma irmã, um irmão e sua mãe estavam em pé, reunidos ao lado de seu leito no hospital, esperando que ela deixasse o corpo.
Mesmo antes do desligamento, enquanto ela estava entre a Terra e o plano espiritual, Clara os reconheceu e soube de imediato que sua hora havia chegado.
Mas, para ela, o cumprimento mais importante foi o de seu neto Joe.
Ele tinha sido atropelado por um carro poucos anos antes.
E agora o garoto de doze anos de idade estava ali em pé, ao lado do leito de hospital de sua avó, aguardando-a para guiá-la de um mundo para outro.
— Oi, nona — disse ele, abraçando-a.
Eu estava esperando você chegar.
A luz do menino era clara e branca, pertencendo às mais altas vibrações desta esfera.
Sua luz confortou Clara. Mas Clara estava confusa.
Somente alguns minutos antes, ela estava morrendo no leito de um hospital, e agora estava sendo abraçada por seu neto, cuja morte ela pranteou dolorosamente anos atrás.
Clara definitivamente não sabia como lidar com tal situação:
neto, mãe, marido, irmã e irmão.
Todos ali reunidos no quarto branco do hospital.
Ela viu a enfermeira fechando os olhos de seu corpo e sua filha começando a rezar.
— O que vocês todos estão fazendo aqui? Joe, onde você esteve?
Olhe, é a sua mãe que está ali, veja!
Louisa, Louisa, olhe, ele voltou.
Ele voltou para casa! Eles cometeram um engano.
Joe, diga para sua mãe que você está de volta.
Clara chorou. Seu neto tinha voltado da morte.
Tinha havido algum engano e agora todo mundo estava feliz outra vez.
O jovem espírito sorriu para ela e sua luz inundou o quarto.
— Nona, ouça...
Veja quem mais está aqui. Não sou só eu.
Somos todos nós.
Enquanto ele falava, em volta dela se juntaram seu marido, irmã, irmãos e mãe.
— Clara — disse seu marido —, o menino... não foi ele que voltou para casa... é você quem está voltando...
Clara olhou em volta e viu que ela não estava mais no quarto do hospital.
Ela estava em casa, de volta à sua pequena sala de estar, sentada em seu sofá com seu neto e seu marido.
Sua irmã e seu irmão estavam em pé de um lado do sofá e sua mãe do outro.
Clara viu todos eles.
A sala era a mesma que ela havia deixado poucas horas antes.
As cortinas brancas, as paredes bege, o sofá e as poltronas cinza, as fotos de seus netos, incluindo as de Joe, sobre seu aparador colorido e o cinzeiro de Atlantic City em sua mesinha dourada de café.
Tudo estava exactamente no mesmo lugar.
Excepto as visitas.
Todos eles tinham morrido anos atrás, mas ali estavam eles em sua sala.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:49 am

Seu neto disse:
— Nós viemos para ajudar você...
Nós sempre estivemos a seu lado...
De onde você está, vó, é só um passo até aqui...
Quando cheguei neste lugar, eu também estava muito confuso...
Aquele carro bateu em mim tão rápido que eu me desencarnei num segundo.
Eu não sabia onde me encontrava...
Você não me via, e chorava tão desesperadamente porque eu tinha morrido. Morrido?
Eu estava a seu lado, mas você não conseguia me ver.
Vovó, você morreu e veio para aqui. Mas aqui é lá.
A mãe de Clara, que estava assistindo, entrou na conversa, falando errado, porque era assim, exactamente, que Clara esperava ouvi-la falar.
— Oi, Clara, você tá mais viva do que nunca. Pera procê vê, fia.
Eu estava prestando atenção em tudo e achei que tinha chegado o momento de me intrometer.
Até ali, eu tinha ficado afastado do grupo em um canto, onde eu podia ouvir tudo, mas não podia ser visto.
— Eles estão com a razão, Clara.
Em breve você vai descobrir isso sozinha.
Dê uma olhada em volta, olhe para eles.
Eles parecem mortos para você?
A propósito, Clara, como você está se sentindo?
A dor foi embora, a respiração está mais fácil...
Você não está se sentindo um pouco mais leve?
Ela ficou surpresa ao me ver, um rosto estranho no meio de sua família.
— Quem é você, um médico?
— Bem... De certa forma, sim.
Achei que aquela não era a hora ainda de dar uma explicação mais longa.
Por que aumentar a confusão dela?
— Meu nome é Bob — acrescentei.
Clara encarou a mim e aos outros por um momento.
Eu podia dizer por sua aura que ela não estava fugindo de si mesma.
Ela estava somente tentando compreender essa nova situação.
Sua aura mostrava que ela estava se ajustando, e até com certa felicidade.
Conduzi Clara para fora de sua sala.
Em breve o sol estaria brilhando na esfera terrestre e eu achei melhor ir para um outro lugar por alguns momentos.
Seus amigos e parentes encarnados logo estariam chegando para dar as condolências para sua filha e eu queria tirar Clara daquele lugar.
Claro que ela estaria livre para gravitar de volta para lá se quisesse, mas eu pensei que seria melhor dar o fora naquele momento.
Clara e eu subimos uma pequena clareira de gramas verdes e macias e de frondosas árvores ao redor.
Um dia lindo e ameno de verão veio ao nosso encontro e uma luz silenciosa e tranquila encheu a pequena pradaria onde nos encontrávamos.
— É lindo aqui, não é, Clara?
Sei que não fui muito original, mas eu só queria quebrar o silêncio.
— Então é isso. Eu morri.
É aqui que eu vou ficar?
Eu fui boa ou fui má?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:49 am

Isto aqui é o céu ou o inferno?
Bem, essa pergunta não era nova ou original também.
Na verdade, essa é a primeira pergunta que todos fazem quando chegam aqui.
Todos querem saber se ganharam ou perderam o jogo.
Bem, lá vou eu fazer meu discurso, pensei.
— Antes de tudo, Clara, você não está morta.
Pode usar essa palavra se quiser.
As pessoas na Terra estão habituadas com ela, portanto por enquanto vamos usá-la.
Seu corpo estava doente e deixou de funcionar.
Ele morreu, mas você continua viva.
Assim que me sentei na grama, eu a convidei a fazer o mesmo.
Então olhei para o céu e continuei falando.
— Você esteve na Terra quase setenta anos, mas, desde que você nasceu, nunca esteve tão viva quanto agora.
Neste momento o importante é acreditar.
Mais tarde você entenderá.
Eu vi sua aura, cujo brilho revela as emoções do espírito.
Imaginei que ela estivesse aceitando tudo isso.
Não havia nenhum sinal de revolta ou resistência.
— Clara, ouça...
Você não está no céu nem no inferno.
A propósito, o céu e o inferno são apenas palavras, e não existem em um lugar determinado.
São palavras que as pessoas usam.
Esse céu e essa coisa de inferno têm causado muita confusão ao longo dos anos.
Sei que você não é de frequentar igrejas, mas não se preocupe, porque isso não faz diferença.
Por falar nisso, você se recorda do que Cristo disse quando estava na Terra?
Ele disse que "há muitas moradas na casa de meu pai".
Bem, aqui é uma dessas moradas.
Clara perguntou se eu era Deus e como eu sabia que ela não era de frequentar muito a igreja.
Eu ri. Não saberia dizer se ela estava falando sério ou simplesmente tirando sarro da minha cara.
— Não, não sou Deus, mas todos nós somos parte dele:
você, eu e todas as almas que você vai encontrar.
Isso serve para aqueles que ainda estão na Terra e também para aqueles que você conhecerá de outros planos dispersos dentro do universo.
Não há um inferno eterno.
Deus não condenaria algo que é parte de si mesmo a uma pena perpétua sem remissão.
O inferno é a consciência daquilo que está faltando; faz você desejar toda a beleza e a harmonia que estão à sua volta, ainda que você não tenha como fazer parte delas.
Ela respondeu:
— Sei o que você quer dizer.
Senti falta de um bocado de coisas em minha vida na Terra.
Vivi sozinha e triste.
Era esse tipo de vida que estava reservado para mim?
Só existe uma maneira de responder uma pergunta como essa:
com a verdade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:49 am

— Sim — respondi —, tudo que acontece tem uma razão de ser.
Há coisas que precisam ser assim e outras que não, mas no final tudo se encaixa, tudo faz sentido.
Muito em breve você vai perceber isso.
Clara olhou para mim e pude ver uma pequena lágrima em seu rosto.
— Senti falta de tantas coisas, como senti!
Sempre desejei saber o porquê de tudo, a razão de minha vida e o que ela realmente significava.
Durante sua vida na Terra, Clara nunca foi uma mulher ávida por dinheiro ou sexo.
Ela não era movida pela ambição do poder ou da fama.
Ela queria amor, mas nunca teve.
Essa foi a lição de sua vida.
Mais tarde, nós voltaremos a falar sobre ela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:49 am

Conversas com Maryanne

Cada pessoa se adapta ao mundo dos espíritos de um modo diverso porque somos diferentes.
Tão logo deixamos nossos corpos e passamos para o outro lado, nossas experiências, expectativas e esperanças nos acompanham porque são parte de nosso espírito.
Eu me lembro, e isso já faz um bom tempo, quando apareceu um daqueles pregadores que costumam vociferar sobre os males do inferno.
Durante anos ele percorreu as estradas empoeiradas de remotas províncias, nos mais isolados vilarejos e povoados canadenses, mostrando sua visão de Deus, da moralidade e da vida após a morte.
Ele era um homem bom, que realmente acreditava no que pregava.
Era também um dos poucos que colocava em prática o que ensinava.
Ele costumava dizer a seus fiéis:
— Na outra vida, Jesus estará lá para nos receber, sentado em um trono ao lado de Deus todo-poderoso, com a espada da justiça na mão.
Quando esse pregador chegou aqui pela primeira vez, o que foi que ele encontrou?
Um Jesus louro, de olhos azuis, sentado ao lado de um severo Deus de cabelos brancos, que julgava todos.
Com o passar do tempo, já mais preparado, ele lentamente descobriu uma vida espiritual muito mais rica do que ele havia imaginado.
A chegada de Maryanne aqui foi diferente.
Primeiro: a morte dela foi violenta e repentina.
A vida foi bruscamente arrancada de seu corpo por uma arma comprada em algum bar.
Segundo:
Maryanne nunca pensou muito em sua vida na Terra nem na vida após a morte.
Por isso, chegou confusa e irritada com as vibrações ainda ligadas
na Terra. Seu espírito estava aqui, mas, ao mesmo tempo, prendia-se ao dia-a-dia de sua antiga vida.
Alguns chamam isso de purgatório.
E, de certo modo, é verdade.
A alma está na ilusão, não progride, não está consciente para começar uma vida nova no astral.
Eu estava ao lado dela durante esse tempo.
Porém ela não podia me ver ou ouvir.
Como eu disse, suas vibrações ainda não estavam em sintonia; ela ainda estava ligada à esfera terrena.
O tempo foi passando.
Mas não como na Terra.
Portanto não posso dizer se foi muito ou pouco tempo, se foram algumas semanas, meses ou anos.
Aqui o tempo é como o som de um metrónomo, aquele aparelho usado pelos músicos que dita o ritmo que eles devem seguir.
É constante e não muda.
Se você pudesse fazer uma gravação, o metrónomo iria soar da mesma maneira se tocado para a frente ou para trás.
Tic, tic, tic... o som constante do metrónomo, o incessante e imutável som do tempo.
Mas, um dia, Maryanne conseguiu sentir minha presença.
Então eu apareci.
Não como uma luz branca brilhante e ofuscante, mas como alguém que ela encontraria em qualquer esquina de seu antigo bairro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 10:50 am

Eu tinha mais ou menos um metro e oitenta de altura, quarenta e cinco anos e era negro.
Eu estava usando uma camiseta e jeans rasgados.
Fisicamente, eu não era nada diferente dos outros milhares de negros que viviam nos bairros pobres de Los Angeles.
Eu estava encostado numa caixa de correio, quando ela virou a esquina e literalmente deu um tropeção em mim.
— Ei, mina, olha pra onde você anda!
Pra que a pressa? Você não vai pra lugar nenhum!
Ela não sabia se me xingava, se continuava a andar ou se ficava ali para tentar entender quem eu era.
Afinal de contas, eu era a primeira pessoa que falava com ela desde que havia desencarnado.
Ficou ali parada, tentando me entender.
Olhou-me de um jeito sério, observou-me da cabeça aos pés, seus olhos fixados em mim, o único cara que a viu, a escutou e soube que ela existia.
— Eu perguntei aonde você vai.
Por que essa pressa?
— Quem é você? Eu te conheço?
Eu nunca te vi por aqui antes!
Aquela não era a hora de contar a Maryanne a verdade.
Ela não estava preparada, então simplesmente respondi:
— O negócio é o seguinte: eu já tinha visto você por aqui e achei que tava na hora da gente bater um papo.
Ela me olhou desconfiada, então fiquei preocupado, porque talvez eu a tivesse assustado.
Queria que ela confiasse em mim o quanto antes para poder fazer meu trabalho.
— Escuta, Maryanne, achei que você ia gostar de conversar com alguém.
Te vi indo daqui pra lá e de lá pra cá, como se tivesse fugindo ou procurando alguma coisa.
— Mano, você acertou em cheio!
Tô tentando entender onde que eu tô.
Tudo parece igual, mas ninguém fala comigo.
É como se eu não tivesse aqui, você me entende?
Minha própria mãe e as crianças, todo mundo age como se não me visse.
Eu grito para eles, tento tocar neles, mas não consigo.
Será que tô drogada?
— E como! É coisa pesada!
Vem comigo, mina, vamos dar uma volta.
Notei que o desespero e a frustração haviam tomado conta dela.
Ela era apenas uma garota de quinze anos, assustada, confusa.
Então começamos a caminhar lado a lado, pelas ruas semidesertas, passando por lojas vazias do bairro, pelos carros e residências abandonados, tudo aquilo que faz parte daquela região de Los Angeles.
Andamos por terrenos vazios em que o lixo crescia junto com o mato, até que chegamos ao beco onde, em uma outra dimensão e em um outro tique do metrónomo, Maryanne havia morrido.
Estendi meu braço, e minha mão encontrou sua pequena mão.
Delicadamente fechei minha mão sobre a dela ao perguntar se ela se lembrava daquele lugar.
Ela não disse uma palavra.
Mas não precisava dizer nada.
Eu sabia que ela se lembrava.
Trazendo-a para mais perto, eu lhe perguntei se ela sabia o que tinha acontecido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:55 am

Ela olhou para baixo, para o lugar onde certa vez seu corpo, ali estendido, estava cercado por uma poça vermelho-escura.
Então, quase sussurrando, ela respondeu.
Ela disse somente:
— Por quê?
— Porque tinha de acontecer, Maryanne!
— Por que eu?
Nenhuma indignação, nenhuma raiva, somente uma tristeza amarga e melancólica.
— Maryanne, você não é o primeiro espírito — e duvido muito que seja o último — que me faz essa pergunta.
Acredite em mim, ou melhor, confie em mim.
Você mesma, mais tarde, saberá a resposta para sua pergunta.
Não neste exacto momento, mas você saberá, e esse dia não está muito distante, eu lhe prometo.
Ela me perguntou onde estávamos.
Sabia que não estávamos realmente naquele beco.
Havia sentido de alguma forma que estávamos em um lugar diferente.
— Sabe, apesar de eu não saber onde que tô, acho que tô morta, certo?
Desta vez, ela não estava mais fazendo uma pergunta, estava afirmando.
— Descobri isso há pouco tempo, mas quero que alguém me confirme.
Eu seria sua confirmação.
— Você poderia dizer que está morta.
É por isso que nem sua mãe nem os outros podem vê-la ou escutá-la.
Você deixou a Terra, mas seu espírito continua vivo.
Sim, você pode chamar isso de estar morta, mas tenho certeza de que você descobrirá uma palavra melhor, depois de algum tempo por aqui.
Ela fez um sinal de indiferença, encolhendo os ombros, e logo em seguida perguntou se eu era um daqueles anjos da guarda, "como se vê nos filmes".
— Mais ou menos. Digamos que eu seja um anjo temporário.
Ela queria saber o que iria acontecer em seguida.
Expliquei que poderíamos fazer quase tudo que ela quisesse.
Disse-lhe que deveríamos conversar, mas, antes de tudo, a primeira coisa que deveríamos fazer era sair daquele beco.
— O que aconteceu aqui terminou.
É hora de largar isso tudo.
Ela concordou. Ninguém é forçado, convencido ou pressionado a fazer alguma coisa deste lado.
O livre-arbítrio é respeitado porque vai abrir as portas ao progresso e à evolução da alma.
Nenhum anjo da guarda ou um espírito iluminado pode lapidar a alma de outro.
Cada espírito tem de fazer isso por conta própria.
Uma luz pode iluminar o caminho, mas o trabalho é por sua conta!
Quando estávamos voltando para a esquina onde nos encontramos, Maryanne parou de repente, como se tivesse esquecido algo naquele beco.
Ela tinha uma dúvida e essa dúvida acabou se tornando o início de algumas conversas longas e interessantes.
Ficou claro que ela levara a sério o que eu tinha dito sobre a necessidade de conversarmos.
— Eu morava nesse bairro. Dá uma olhada.
É imundo, e quando fica quente esse lugar fede.
Cheira a podridão.
Quando a gente tava naquele beco, você me disse que lá era o lugar onde eu tinha que morrer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:56 am

Isso quer dizer que eu tinha que viver aqui também?
Só pude responder que sim; era o destino dela.
Ela olhou bem em meus olhos, e então pude ver sua raiva, ódio e frustração.
Parecia que ela estava me culpando pelo modo como viveu e morreu.
— Que papo furado!
Sabe, meu chapa, quando eu morava nesse buraco, parecia que não tinha outra saída.
Não importava o que eu fizesse, tudo terminava numa cagada, e então eu me ferrava.
Que tipo de destino é esse?
Dá um tempo! Eu nunca tenho direito a nada?
Sinceramente, essa era uma pergunta difícil e eu tinha a sensação de que havia mais coisas por vir.
Por que ela não começou a conversa com algo fácil como "Os anjos têm sexo?"...
Essas perguntas sobre destino são complicadas.
Alguns acontecimentos têm de acontecer, mas nós temos escolhas.
Não somos reféns do destino.
Mas como é que eu poderia passar isso para uma garota de quinze anos que mal tinha começado a entender onde estava?
Então tive uma ideia.
— Ei, esta rua é próxima da rua onde você morava.
Que tal darmos uma passada lá? Você se incomoda?
Ela concordou e então começamos a caminhar.
Conforme caminhávamos, mil pensamentos vieram à minha cabeça.
Eu tinha a sensação de que Maryanne havia ouvido um monte de "papo furado" durante sua curta vida.
Eu sabia o que eu queria dizer, mas, para que ela confiasse em mim, eu teria de usar as palavras certas.
Chegamos à esquina do quarteirão onde ela morava.
Ela fez um sinal com a cabeça para atravessarmos a rua.
Sua casa era a terceira à esquerda.
Era ali que ela morara, com uma mãe que cheirava cocaína, e seus sete irmãos.
— Tudo bem, nós não temos de entrar lá.
Podemos ficar por aqui.
Mas quero que você faça uma coisa.
Então, lentamente mas com firmeza, eu disse a ela para pensar sobre aquela rua.
Pedi para que ela se imaginasse saindo de casa, entrando num carro e dirigindo naquela mesma rua.
— Feche seus olhos e imagine isso.
Você está a caminho de sua escola ou indo à casa de algum amigo.
Perceba, Maryanne, como você passa pelas mesmas casas, lojas, esquinas e cruzamentos dia após dia sem prestar atenção.
Se está num carro, você está atenta às placas, aos semáforos e aos carros à sua volta.
Mas o resto passa despercebido.
Com os olhos fechados, ela fez o que pedi, mas disse que nada disso fazia sentido para ela.
Ignorei o que ela disse e continuei:
— A maioria de nós, quando encarnamos na Terra, corremos durante toda a nossa vida.
Nós galopamos através dela, sempre tentando chegar a algum lugar.
Mas não damos muita atenção ao que está acontecendo pelo caminho.
Eu também era assim em algumas de minhas encarnações passadas.
Foi por meio de longas e difíceis lições que aprendi o que agora tentava explicar a ela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:56 am

— Maryanne, nós ficamos tão desesperados para chegar a algum lugar que acabamos esquecendo a razão de estarmos aqui.
Antes mesmo de poder escolher algo, temos de entender o porquê.
Exactamente como você, que está dirigindo seu carro, a maioria das pessoas não percebe a cor das casas, o tamanho das árvores ou as nuvens no céu.
Nós não prestamos atenção aos sinais que a vida nos manda.
Os acontecimentos não ocorrem por acaso, e você é livre para reagir do jeito que você quiser.
Mas o modo como você reage é que determina os resultados.
Ao sentir que eu estava conseguindo fazer com que ela entendesse isso tudo, continuei:
— Cada momento que você viveu na Terra aconteceu especialmente para você.
Talvez tenha compartilhado algum momento com um amigo, mas cada alma tira desse acontecimento algo de que precisa para crescer.
Não existe "bom" ou "mau".
Como poderia existir, se tudo é parte do mesmo plano de ensinamento da Terra?
Algumas lições podem ser mais difíceis, outras mais fáceis, mas tudo acontece porque é para acontecer.
Maryanne não disse nada.
Ficou de pé a meu lado, com os olhos fechados.
Até então, nenhuma discussão.
Pelo menos ela estava ouvindo, e isso era bom.
Sentei-me na guia e, olhando para ela, continuei:
— Agora, somente por um minuto, finja que a vida é esta rua da qual nós estávamos falando.
Todos os dias você passa apressada por ela, andando sempre em frente.
Não olha para os lados e não vê os quarteirões passando.
Você também não nota as pessoas, os prédios nem os sinais.
Como esta rua, nossas vidas têm quarteirões diferentes, prédios diferentes, pessoas diferentes.
Do mesmo modo que você tem de pegar esta rua para chegar aonde deseja, você também deve viver esta vida para chegar ao destino final.
E esse destino, Maryanne, não é a casa de algum amigo, um shopping ou um escritório.
É a unidade com a força criativa que nos criou.
Nós não chegamos lá passando rapidamente pelas placas ao longo do caminho.
O que nós não conseguimos ver e aprender em uma vida repete-se na outra.
Ela abriu os olhos e percebeu que eu não estava mais a seu lado.
Olhou à sua volta para me achar.
Então olhou para baixo e me viu sentado a seu lado na guia.
Balançando a cabeça, ela riu com amargura.
Disse que eu fazia a vida parecer muito simples, mas a seguir perguntou onde estava a justiça.
— Tudo bem, cara, vamos pegar essa rua e comparar com as ruas do outro lado da cidade.
Minha rua é cheia de lugares legais e grandes aventuras: casas cheias de drogados, bêbados, ladrões, assassinos.
Com certeza, esse lugar é um verdadeiro parque de diversões!
Minha mãe é uma drogada cuidando de um bando de crianças que passam necessidade.
Não sei quem foi meu pai, e a parte mais chata é que eu não tô nem aí, já não faz nenhuma diferença saber.
Então esse era o meu destino:
nascer e morrer nessa merda?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:56 am

Ela continuou:
— Bem, tem uma outra rua.
Não é longe daqui. E sabe o que tem lá?
Palmeiras e grama cortada.
As crianças que moram lá realmente andam de carro e vão para o shopping.
Não vem com esse papo de escolhas!
Eu não tinha escolha, eu nasci na favela e morri na favela.
Ela continuou a falar, suas palavras cortavam o ar com raiva e amargura.
— Por que as minhas lições foram mais difíceis do que as dos garotos brancos do outro lado da cidade?
Porque eu devia sofrer mais do que eles?
Porque é que eu fiquei na bandidolândia e eles ficaram na Disneylândia?
Ela se calou.
Como eu tinha dito antes, essas perguntas sobre destino são complicadas.
— Maryanne, suas lições foram escolhidas por você antes mesmo de você ter nascido.
Seu destino foi traçado devido às lições que você tinha de aprender.
Sim, você escolheu uma estrada dura e uma rua difícil.
Porém nunca se compare aos outros; todos nós temos nossos próprios infernos para vencer.
Cristo disse que não somos nós que devemos julgar, e Confúcio escreveu que nenhum homem deveria julgar um outro antes de caminhar com os sapatos dele.
Ambos disseram a mesma coisa:
cada espírito tem seu destino, e ele é único.
Eu não sabia se estava atingindo meus objectivos.
Não sabia dizer se estava quebrando seu muro de raiva e frustração.
O que eu disse, contudo, serve para você que está na esfera terrestre:
pare e pense sobre o porquê.
Você não está em sua rua por acaso.
Você não está na Terra por acaso, como não estão seus vizinhos, amigos, colegas de trabalho e mesmo os tão chamados inimigos.
Nós estamos amarrados uns aos outros por acontecimentos que ocorreram em outras vidas:
amizades antigas, rivalidades, amores, ódios, ciúme e mágoas.
Eu tinha de deixar claro para Maryanne que, caso ela quisesse continuar sua vida, ela teria de cortar os laços de raiva, ódio e frustração.
Enquanto ela não fizesse isso, iria ficar imersa nas vibrações inferiores.
Perguntei se ela se lembrava do pai-nosso.
Ela disse que sim e perguntou então se eu queria que ela fizesse essa oração.
Respondi que isso não era necessário, mas pedi para que reflectisse sobre uma específica parte dessa oração.
— Jesus nos ensinou a orar da seguinte maneira:
"Perdoe nossas ofensas assim como nós perdoamos quem nos tem ofendido".
Maryanne, nós não perdoamos quem nos fez uma maldade só porque somos almas generosas.
Não, nós perdoamos porque desse modo cortamos essa eterna prestação de contas.
Só então podemos nos libertar de nossas ruas, dos mesmos prédios, dos mesmos quarteirões e da pressa que nos faz chegar aos becos sem saída.
Uma vez tendo perdoado, poderemos continuar com o verdadeiro sentido de nossa vida:
o avanço e aperfeiçoamento de nosso espírito eterno.
Maryanne ficou em silêncio.
Eu esperava que ela estivesse começando a entender.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:56 am

Ernst

Um vazio escuro e silencioso.
Um ponto estéril na criação.
Não há luz, som, tato ou cheiro.
Foi nesse lugar que um espírito chamado Ernst foi acordar.
Sua vibração levou-o para essa escuridão.
Sua última lembrança da Terra tinha o gosto amargo de uma cápsula de cianureto.
Depois veio o suspiro em busca de ar e a imagem sem brilho e distorcida de seus capturadores à sua frente.
E agora o vazio, sem luz para recebê-lo, sem amigos, sem família, somente a presença vazia de si mesmo.
Esse vazio não era uma punição, mas uma consequência.
Aqui só há nosso próprio julgamento.
Não há pretos ou brancos, céu ou inferno, nem condenação eterna.
Os acontecimentos são consequências da viagem de cada um.
Todos viajamos pelas estradas da vida.
Há uma direcção, iluminação, orientação, esclarecimento.
Alguns os usam e outros não.
Há várias estradas e curvas diferentes, porém nenhuma é errada e nenhum caminho é mais correto ou mais abençoado que outro.
Antes de encarnar na Terra, Ernst vivia em um mundo inferior.
A Terra não é o único lugar onde os espíritos encarnam.
Alguns mundos são mais evoluídos que a Terra, possuem vibrações leves, onde almas altamente desenvolvidas se reúnem.
Outros são menos desenvolvidos, com uma vibração mais densa e mais pesada, para onde as almas que ainda estão engatinhando pelo caminho são atraídas para progredir.
Ernst viveu em um desses mundos inferiores e, quando o período de sua encarnação terminou, ele com seus guias decidiu que estava na hora de ele encarnar na Terra.
Ernst havia progredido, suas vibrações estavam afinadas com a Terra, então ele nasceu lá.
Quando ele morreu, passou pelo vazio.
Sua atracção para aquele lugar não foi um castigo, assim como sua transição de um mundo inferior para a Terra não foi uma recompensa.
Deus não castiga ou recompensa ninguém.
Somos nós que criamos nosso próprio céu e nosso próprio inferno.
A primeira vida de Ernst na Terra se deu na Alemanha.
Ele tinha alcançado um ponto em sua evolução espiritual que o capacitava a fazer escolhas.
Na Terra existem as ideias de certo e errado, de moralidade e de imoralidade.
O bem e o mal existem.
Somos livres para fazer escolhas entre esses conceitos.
Nossas escolhas se tornam acções, que criam as consequências.
Nossas almas aprendem pelos resultados que elas provocam.
Ernst estava nascendo em um período e em um lugar em que as escolhas seriam muito simples e fáceis, havia uma clara separação entre a luz e as trevas.
Ele fez suas escolhas e o mundo sabe de suas acções.
Ele se juntou ao partido nazista e fez parte da elite do Terceiro Reich.
Ernst acreditava estar do lado da verdade.
Nós sabemos de suas decisões, de sua vida e da história que ele e outros deixaram no passado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A PASSAGEM - Bob / Richy Medeiros

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 4 1, 2, 3, 4  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum