Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 8:59 pm

Treze almas
Marcelo Cezar

Pelo espírito Marco Aurélio

AO MEU IRMÃO, MAURO.

A imagem do meu irmão ardendo em chamas ainda é viva em minha mente.
Quando o acidente aconteceu, éramos garotos, e eu me lembro o quanto ele lutou para viver.
As feridas deixadas pelo fogo foram quase nada perto das que ele teria de enfrentar pelo caminho, muitos anos depois.
Ainda dói e não cicatriza.
Ele combate suas tristezas, medos e revoltas à sua maneira, e eu o admiro por isso.
É o jeito Mauro de ser.
Ele acha que entendo de muita coisa só porque escrevo em parceria com os colegas desencarnados.
No entanto, meu irmão, um ano e meio mais velho, é quem sempre foi o génio lá de casa.
Eu o amo e o respeito por ser do jeito que é, por falar o que pensa e o que sente, por ser inteligente para caramba, além de ter um humor extraordinário e dominar qualquer assunto.
Ele é uma enciclopédia que consulto a todo momento.
Esse cara, além de ser um grande homem, em todos os sentidos, é uma das forças que me sustentam nesta vida.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 8:59 pm

ROMANCE INSPIRADO PELO ESPÍRITO MARCO AURÉLIO

O sol ainda não se recolhera, tingia o céu em tons de laranja e vermelho, tornando aquele entardecer na capital paulista bucólico e aprazível.
Amanda e Nádia entraram no centro espírita às seis em ponto.
O local já estava apinhado de gente, como de costume, mas havia ali uma energia tranquilizadora, que convidava à reflexão e à quietude.
Elas se dirigiram à fila de passes em silêncio, esperaram, entregaram a ficha.
Depois de alguns minutos, entraram em uma salinha, onde havia algumas pessoas vestidas de branco, em pé atrás de cadeiras colocadas em círculos, que sorriam para os que entravam.
As duas mulheres e mais dez pessoas foram entrando e se acomodando.
Sentaram-se.
Uma música suave encheu o ar, e uma luzinha azul dava um toque calmante ao recinto.
Depois de um passe revigorante, Amanda e Nádia receberam um copinho com água, beberam e foram para o salão de palestras.
Elas adoravam as palestras proferidas por Orlando.
Era um velhinho que beirava os noventa anos, alto, olhos esverdeados, cabelos brancos e fartos, penteados para trás, traços marcantes, de quem fora muito bonito no passado.
Ele falava com voz grave, sem atropelos, com lucidez e eloquência surpreendentes.
Ninguém diria a idade que tinha.
Aparentava bem menos.
Andava com segurança e elegância, o corpo erecto, nem um milímetro curvado.
O sorriso não desgrudava dos lábios.
- Se eu tivesse um avô - comentou Amanda - seria assim, como o Orlando.
- Concordo - respondeu Nádia.
Ele é muito fofo, além de ser muito elegante e inteligente.
Orlando não gostava que o chamassem de senhor ou doutor. Simplesmente Orlando.
Era casado havia mais de cinquenta anos com Selma, uma senhora de setenta e poucos anos, bonita, cabelos graciosamente pintados de castanho-claro, olhos verdes e profundos, de uma mediunidade estupenda.
O casal mantinha o centro espírita havia muitos anos.
Era um centro diferente do convencional, sem ligação com nenhuma entidade, federação ou algo do género.
Orlando era um livre-pensador, de mente bem aberta, lia Kardec em francês, viajara o mundo e conhecera outras correntes espiritualistas que estudavam seriamente a reencarnação.
Em seu centro, além dos tratamentos convencionais, também se fazia uso de cromoterapia, de cristais e de ervas.
No plano astral do centro, espíritos de padres, freiras e médicos transitavam por entre pretos-velhos, caboclos e índios.
Era um espaço sem preconceitos, que encarnados e desencarnados frequentavam por afinidade e gosto, com o objectivo comum de promover a ampliação de consciência das pessoas, manter o equilíbrio emocional e preservar a paz interior.
Nas aulas, sempre lotadas, os alunos aprendiam que as energias que a pessoa irradia são responsáveis por tudo o que ela atrai em sua vida e que as energias negativas grudam no ser, diminuem sua força e seu stoque de boas energias, deixando o corpo susceptível às doenças. Orlando sempre fazia questão de reforçar em suas palestras:
- É preciso inteligência para não se deixar envolver pela energia negativa, seja dos encarnados, seja dos desencarnados.
Orlando e Selma sofreram reprimendas, mas sempre receberam ajuda e apoio dos bons espíritos.
Os dirigentes desencarnados da casa sempre os orientavam:
- Não liguem para a crítica nem para o julgamento dos outros.
Enquanto eles criticam, vocês estudam, pesquisam, trabalham e ajudam.
Vocês é que estão em sintonia com o plano espiritual superior.
Esqueçam as convenções do mundo.
Orlando escutava, assimilava e colocava em prática as orientações dos mentores, fortalecendo sempre o pensamento no bem.
Conclusão: o centro espírita, antes um espaço pequeno, que atendia meia dúzia de pessoas, agora atraía gente de todos os cantos do país.
Até uma rede inglesa de televisão rodara um documentário sobre o centro e sobre a vida de Orlando e Selma, o que despertou o interesse de pesquisadores norte-americanos que estudavam e investigavam com seriedade os fenómenos paranormais.
Ele e a esposa conheceram Neide, uma espírita de mediunidade também extraordinária, que fazia um óptimo trabalho de cura em Minas Gerais.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:00 pm

A amizade e a parceria brotaram espontaneamente.
Quando havia algum caso mais sério de doença, Orlando enviava o paciente para Minas.
Se o paciente não tinha recursos, Orlando conseguia uma maneira de juntar o dinheiro necessário para custear a viagem.
Tudo dava certo. Sempre.
Às vezes, em casos mais graves, Neide vinha até São Paulo, atendia o paciente na residência ou no hospital, e se hospedava na casa do casal amigo.
Orlando e Selma optaram por não ter filhos.
Preferiam dedicar-se em tempo integral às actividades do centro, que eram muitas.
Amanda e Nádia eram frequentadoras do centro, e a mãe de Nádia, Melissa, fora amiga de Neide nos tempos em que tinha morado em Minas, muitos anos atrás.
- Como está seu pai? - indagou Nádia.
- Na mesma, amiga - respondeu Amanda, entristecida, dando de ombros.
Está lá, no quarto do hospital, esperando a morte chegar.
- Triste, não?
- Mas o que fazer, Nádia?
Ainda bem que eu creio na vida após a morte.
A mudança sempre existe e sempre é para melhor, embora, às vezes, ela venha de forma dolorosa.
A resistência faz com que a vida traga um desafio mais forte. Nada fica parado.
- Eu a admiro! - Nádia apertou delicadamente a mão da amiga.
- Se eu não for forte e não aceitar as coisas como são agora, então de nada adiantaram esses anos que aqui viemos.
- Você está coberta de razão, Amanda.
Não temos mesmo o que fazer.
- Já entreguei nas mãos de Deus - tornou, sincera.
- Em todo caso, se quiser, posso dormir no hospital, revezar.
- Imagine! Você tem marido e filhos, Nádia!
- Você também.
- Contratei enfermeiras que se revezam.
E papai não vai se demorar para partir. Eu sinto.
- Acha mesmo?
- Acho. Se mamãe estivesse viva - Amanda reflectiu -, talvez ele tivesse enfrentado a doença de outra forma.
Mas não. O câncer o está corroendo por dentro.
Os médicos disseram que ele deveria ter morrido há quase um mês, acredita?
Eu não entendo o porquê de tanta resistência.
- Será que algum espírito o prende aqui?
- Não sinto isso quando estou lá no quarto dele.
Não percebo nada ruim.
- Não acha melhor perguntar ao Orlando?
- Ele é tão ocupado, Nádia.
Melhor não perguntar.
Vamos aproveitar e orar, pedir aos espíritos que ajudem papai a se desprender do corpo o quanto antes e ir embora deste mundo.
Oitenta anos, estado terminal.
Chega, né?
- Tem razão.
Amanda remexeu-se no banco e comentou, baixinho:
- Preciso lhe confidenciar uma coisa.
- O quê?
- Ontem aconteceu algo inusitado.
- O que foi?
- Papai não tem mais falado, há dias.
Estava sentindo muitas dores, os médicos aumentaram a dose de morfina, e ele está praticamente inconsciente.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:06 pm

- Sei.
- Mas... Nádia... ele balbuciou um nome.
- Um nome?
- É. Ao passar no hospital hoje cedo, como faço todos os dias, encontrei a enfermeira da noite deixando o turno.
E ela me contou.
- Será que ela não deu um cochilo e sonhou?
- Não. Ela disse com todas as letras: Lina.
- Lina?
- Sim. Comentou que papai passou a noite toda gemendo e pronunciando esse nome: Lina.
- Estranho.
- Eu não conheço ninguém com esse nome.
Na minha família, pelo menos, não conheço ninguém.
- Não é o nome da primeira esposa do seu pai? - indagou Nádia.
- Não. Pelo que sei, o nome da primeira esposa do papai era Rosana.
- E da filha dele?
Seu pai teve uma filha, não teve?
- Sim, mas o nome dela era Amélia, Amelinha - Amanda falou e sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
- Que sensação estranha! - tornou Nádia.
- É. Estranha.
- Sente-se bem?
Quer uma água?
- Aceito.
Nádia levantou-se e foi buscar a água.
Ela adorava Amanda.
Eram amigas desde sempre, desde que nasceram.
As famílias eram amigas, e elas tinham a mesma idade.
Cresceram juntas e não se desgrudavam por nada.
Embora casadas e com dois filhos cada uma, eram como unha e esmalte, do tipo que se ligavam todos os dias, falavam-se a todo instante, mesmo que fosse para comentar o capítulo da novela do dia anterior.
Elas se gostavam de verdade.
Nádia voltou e entregou o copo a Amanda, que bebeu e sentiu-se melhor.
De repente, perceberam uma sombra imensa sobre elas.
Amanda levantou os olhos assustada e... sorriu.
Era Orlando, enorme, com o sorriso de sempre estampado nos lábios.
- Como vão, meninas?
- Tudo bem, Orlando? - perguntou Nádia.
- Vou indo, e você? - completou Amanda.
Ele foi directo:
- Meu guia mandou um recado para você, Amanda.
- Para mim?
- Sim. É sobre Luís Sérgio.
- Papai está com um obsessor, não é?
Por isso não desencarna.
Orlando meneou a cabeça negativamente.
- Não. Seu pai está preso porque está atormentado com situações mal resolvidas.
- Situações de vidas passadas? - questionou Amanda.
- Não. Desta vida mesmo - respondeu Orlando.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:06 pm

- Luís Sérgio já deveria ter desencarnado.
Como tudo ocorre na hora certa, no tempo certo, logo ele vai se permitir ir.
Quando seu espírito decidir que acabou, acabou.
- Mas o tumor está devorando o corpo dele - interveio Nádia.
- O corpo físico está sendo consumido pela doença, mas o espírito está lúcido e tem o poder de decidir quando cessa a vida, conscientemente ou não - observou Orlando.
Luís Sérgio está preso na culpa, no remorso.
- O que podemos fazer? - quis saber Amanda.
- Precisamos ir até o hospital e conversar com seu pai.
- Ele não escuta.
Está inconsciente.
- Conversaremos com o espírito dele.
Depois faremos uma oração.
No entanto, preciso que Neide venha nos ajudar.
Terei de chamá-la.
E Melissa também precisará vir.
- Mamãe?! - perguntou Nádia, surpresa.
O que minha mãe tem a ver com isso?
- Tudo - respondeu Orlando.
Sua mãe vai nos ajudar no processo de desenlace de Luís Sérgio.
- Como?
- Sua mãe foi muito importante para alguém que vai libertar Luís Sérgio da matéria.
- Quem? - inquiriu Amanda, curiosa.
Orlando olhou para as duas e sorriu:
- Lina.
Amanda e Nádia arregalaram os olhos.
- Quem?! - insistiu Amanda, segurando o braço de Nádia, para não cair.
- Lina - Orlando repetiu, calmamente.
As duas se entreolharam e balançaram a cabeça, estupefactas, curiosíssimas.
Amanda não podia acreditar naquilo.
Como Orlando soubera de Lina?
Por que Luís Sérgio balbuciara aquele nome durante toda a noite anterior?
Afinal de contas, quem era Lina?
Seria preciso voltar no tempo, precisamente ao sertão nordestino, no finzinho da década de 1950, para saber quem tinha sido aquela mulher que mexera com a vida de tanta gente...
O sol, impiedoso, não dava trégua.
Parecia um olho raivoso a fulminar tudo o que estivesse ao seu alcance.
O dia começava abafado e, ao meio-dia, a sensação que se tinha era a de se estar vivendo dentro de um imenso forno.
Para muitos, a impressão era a de que se vivia literalmente no inferno.
O calor do sertão nordestino é assim:
quente demais, abafado demais, ardido demais.
O ano começara e nem sinal de chuva. Nada.
Fazia meses que não caía uma gota de água do céu.
Lavradores e agricultores perderam a colheita; os animais minguavam até morrer.
O cenário era triste, desolador.
Jovelino nascera e crescera no Ceará, em uma cidade que era puro deserto. Chovia a cada dois, três anos.
Todavia, esta seca estava se arrastando havia tempos; era pior do que a de 1915, afirmavam os mais velhos, que se lembravam com pesar da seca que os castigara havia mais de quarenta anos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:06 pm

Jovelino não tinha alternativa.
Precisava ir embora, mesmo que sem rumo.
Dos quatro filhos, dois já tinham morrido de fome.
Cícera, a esposa, era um trapo de gente.
O pouco de farinha e rapadura que conseguiam a duras penas ia directo para a boca dos outros dois filhos.
- Não dá mais para ficar aqui, mulher.
- E o que fazer?
Já rezei pedindo um pouco de água. Janeiro chegou e nada.
- Vamos embora.
- Para onde, Jovelino?
Cinira mais os filhos foram para o Amazonas.
A barca virou e não sobrou ninguém.
Eu não quero subir - fez um gesto com os dedos, apontando para o Norte.
- Vamos descer.
- Será que aguentamos?
Jovelino tirou o chapéu de couro e limpou o suor que encharcava seu rosto.
Meneou a cabeça:
- Pior do que a vida que estamos tendo não vai ser.
Certeza. Amanhã seguimos viagem para baixo.
O compadre Ribamar disse que estão construindo uma cidade no meio do nada, lá para os lados de Goiás.
- A viagem vai ser muito longa.
As crianças não vão aguentar mode não comem há dias.
- Do jeito que está, vamos morrer.
Melhor arriscar.
Só sobramos nós aqui.
- Aqui parece uma cidade fantasma.
Nem alma tem.
O sol espantou os vivos e os mortos.
Jovelino fez o sinal da cruz:
- Melhor arriscar.
- Está certo.
- Tenho duas garrafas de aguardente.
Vou ver se troco por comida no armazém.
Partimos por estes dias.
Durvalina, a mais velha, contava catorze anos de idade.
Tinha um bom coração e era dotada de enorme senso de justiça.
Nos últimos dias apresentava sono agitado, alguns pesadelos.
Embora entre um agito e outro sonhasse com Bibiana, antiga moradora do vilarejo, benzedeira, por quem ela nutria muito carinho e que morrera havia alguns meses, Durvalina geralmente acordava com a respiração entrecortada, ofegante, gemendo palavras sem nexo.
Naquela noite, acordou num solavanco.
Passou as costas das mãos pela testa suada.
Tacteou o chão, voltou a adormecer.
Assim que entrou em sono profundo, sonhou com Bibiana.
Era como se a velhinha estivesse ali, ao lado dela, viva.
- Estou com medo, Bibiana.
Parece que algo muito ruim vai acontecer.
- Seu espírito pressente as mudanças.
Sua vida está para mudar de maneira radical.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:06 pm

- Vou morrer, como meus irmãos?
- Não. Não é o seu momento.
- Por que esta sensação desagradável?
Bibiana, olhos azuis profundos e brilhantes, encarou-a e, enquanto alisava os cabelos de Durvalina, disse com voz amável:
- Quando estamos vivendo situações de incerteza na vida, é natural essa sensação desagradável, porque você não tem controle de nada, não sabe o que vai acontecer.
- Tenho medo.
Painho e mainha querem pegar a estrada e partir rumo ao desconhecido.
Não sei aonde vamos parar.
Gosto de ter controle da situação.
Sempre fui assim.
- Está na hora de mudar, minha querida.
- Não quero.
Não admito injustiças. Isso me tira do sério.
Bibiana meneou a cabeça para os lados e exalou um suspiro.
- Tantas vidas levadas ao extremo, Durvalina, para quê?
Para lhe trazer dor?
Não acha que está na hora de sentir a essência divina, confiar nas forças universais e deixar que a vida se encarregue daquilo que você não tem condições de mudar?
- É muito difícil.
Durante muitos séculos, fui guerreira.
Matei e morri por justiça, para proteger minha tribo, meu povo, meu país...
- Tornou-se forte, cresceu por caminhos tortuosos.
Agora está em uma posição em que tem condições de rever essas crenças extremistas.
De nada adianta ser inflexível, adoptar posturas rígidas, porque a vida muda a cada segundo, a vida muda a todo momento, é flexível.
- É difícil, Bibiana. Muito difícil.
- Ora - tornou Bibiana sorridente -, mas não é impossível.
Veja - ela achegou-se mais a Durvalina e passou o braço pelos ombros da menina -, o dia a dia no planeta é um eterno desconhecido.
Você tem uma falsa sensação de segurança, no entanto, a vida encarnada não funciona da maneira como imaginamos.
Tudo pode mudar num piscar de olhos.
A morte, por exemplo, chega sem avisar, não é mesmo?
Durvalina apoiou a mão sobre a da velha senhora:
- Disse que eu não ia morrer.
Estou com medo.
- Vamos mudar de assunto - tornou Bibiana.
O meu tempo é curto.
Hoje vim vê-la por outro motivo.
- Qual?
- Preciso que vá até minha casa.
Sob a minha cama, há um saco costurado bem rente ao estrado, quase imperceptível.
Ao abri-lo, vai encontrar uma caixinha.
Quero que pegue o que tem dentro dela.
- O que tem dentro da caixinha?
- Um saquinho.
Amarre-o no pescoço.
- É um patuá?
É para me dar sorte?
Bibiana riu.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:07 pm

- Num primeiro momento, sim.
Amarre-o no pescoço.
É um saquinho de couro.
Depois, no momento oportuno, vou inspirá-la a guardá-lo em outro lugar.
- Está bem.
em certeza de que vou me lembrar de todo o sonho?
- Somente do essencial.
Vai se lembrar de pegar o saquinho de dentro da caixa.
É o que importa.
Precisa fazer isso antes que outra pessoa o faça.
- Quem?
- Ninguém que você conhece.
Deixe de ser curiosa.
- Está certo. Estou com saudades da senhora.
- Eu também, meu tesouro - Bibiana a beijou na testa.
Agora precisa voltar e descansar.
Logo o sol vai nascer.
- Está bem.
- E não se esqueça de controlar seus impulsos.
Faça a sua parte e deixe a justiça divina fazer o resto.
- Vou tentar. Juro que vou.
No dia seguinte, bem cedinho, Durvalina acordou e, com muitas partes do sonho ainda frescas na memória, pulou da cama e arrumou-se com o intuito de ir à casa de Bibiana.
Encontrou o pai também de saída.
- Aonde vai?
- Até a casa de dona Bibiana.
Jovelino olhou-a de soslaio.
- Mode fazer o quê?
A casa está fechada.
Veio um parente distante dia desses, perguntou, entrou na casa, vasculhou e saiu meio decepcionado.
Não se lembra do homem?
- Não.
- Ele passou pelo armazém.
Sua mãe viu.
Durvalina lembrou-se imediatamente da caixa.
Será que o homem está atrás da caixa? - Pensou.
Desconversou:
- Dona Bibiana coleccionava revistas de cantoras de rádio.
Vou ver se sobrou alguma para levar na viagem.
- A casa ficou vazia.
- Eu vou dar uma espiada, pai.
Só uma espiada.
- Não gosto que entre na casa dos outros.
- Ela já morreu. E gostava de mim.
Se a casa está vazia, que mal há?
- Está bem. Mas nada de entrar na casa.
- Está certo.
Só vou espiar - mentiu, obviamente.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:07 pm

Jovelino meteu o chapéu na cabeça e saiu com as garrafas de aguardente.
Durvalina correu na direcção oposta até a casa de Bibiana.
Ao se aproximar, viu uma poeira densa se levantar e não conseguiu enxergar o veículo que se afastava.
Só escutou o ronco do motor.
Cobriu o rosto para não deixar o pó de terra vermelha entrar nos olhos.
Ao abri-los, nada.
Nem poeira, nem carro, nem barulho.
Aproximou-se da varanda e notou a porta entreaberta.
Mordiscou os lábios apreensiva.
- Será que entro?
Sentiu um friozinho na barriga.
Ouviu uma voz sussurrando em seu ouvido, forte e determinada:
- Entre!
Imediatamente Durvalina empurrou a porta e entrou.
A casa estava praticamente vazia.
Os poucos móveis estavam cobertos com panos.
Ela atravessou a sala, dobrou o corredorzinho até o quarto e entrou.
Só havia a cama, nenhum outro móvel no cómodo.
Durvalina abaixou-se e começou a tactear o estrado.
Sentiu o tecido grosso e abaixou a cabeça.
Estava bem costurado.
Ela olhou ao redor, levantou-se e foi até a cozinha.
Havia alguns talheres sobre a pia e ela apanhou uma faca.
Voltou ao quarto, rasgou o tecido e a caixinha caiu no chão.
Era pequena, parecia uma caixinha comum de jóia.
Abriu-a e tirou dela um saquinho, bem pequeno, de couro.
Ela apertou-o e sentiu ser algo parecido a um caroço de azeitona.
Sorriu e o amarrou como um colarzinho em volta do pescoço.
Durvalina guardou a caixinha dentro do saco, levou a faca até a cozinha, depois saiu e fechou a porta.
Quando estava afastada da casa, não percebeu que um homem, dentro do veículo, a uns bons metros de distância, olhava para ela com ar de interrogação e se perguntava, passando o lenço sobre o rosto vermelho e suado:
- Eu revirei a casa toda e não encontrei nada.
A velha não tinha nada de valor.
Mas então... Que diabos essa menina foi fazer lá dentro?
Preciso segui-la e tentar descobrir...
Naquela mesma semana, enquanto o sol forte continuava a castigar a terra e seu povo, Jovelino e Cícera pegaram alguns pertences, um pouco de comida que haviam conseguido em troca das garrafas de aguardente, amarraram na mula e seguiram viagem.
Donizete, cinco anos, apertando a mão da mãe, caminhava com os olhos grudados no chão; às vezes, parava um pouco, choramingava de fome.
Estava bem magrinho, era só botar reparo no menino que se contavam as costelas.
Durvalina apanhava um punhado de farinha fresquinha e metia na boca do moleque.
- Vamos, Donizete.
Aguente firme.
Painho disse que vamos para uma cidade nova.
- Lá tem água?
- Deve de ter.
- Muita água?
- Sim. Agora coma, querido.
O menino engolia a massaroca devagarinho, sorria, e continuavam seguindo viagem.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:07 pm

No terceiro dia, encontraram um bezerro bem magrinho no caminho.
Donizete e Durvalina correram até ele.
- É de verdade, pai! - exclamou Donizete, alegre, enquanto tocava no animal.
- Precisamos comer - acrescentou Cícera.
Senão morreremos de fome.
Jovelino puxou o facão e matou o bicho.
Os filhos ajudaram-no a arrancar as entranhas.
Donizete tinha tanta fome que não esperou.
Abocanhou um punhado das tripas e, mesmo sentindo o gosto amargo de sangue, mastigou e engoliu.
Quando o pai puxou o facão, Durvalina afastou-se.
Sabia que o animal iria morrer, mas a fome era tanta...
Escondeu os olhos com as mãozinhas encardidas.
Nunca gostou de matar bicho, tinha pena.
Só que naquele momento era questão de sobrevivência.
Não dava mais para se manter em pé à base de rapadura apenas.
O estômago doía.
Vencida pela fome, Durvalina comeu um pedaço de tripa, a contragosto.
Depois de assar algumas partes do animal e servir os filhos e a esposa, Jovelino comeu alguns nacos de carne.
Sentindo-se mais revigorados, deitaram-se sobre a terra morna e dura.
- Amanhã seguimos mais um pouco.
- De barriga cheia, vamos chegar lá - emendou Cícera, sorrindo.
Durvalina sentiu uma forte dor no estômago.
- O que foi? - perguntou Cícera.
- Acho que a comida não desceu bem.
Estou enjoada e com dor de barriga.
- Corre até o arbusto - apontou o pai.
- Pelo jeito vai sair por cima e por baixo - completou a mãe.
A menina acelerou o passo e se escondeu atrás de um arbusto espinhento.
Levantou o vestidinho puído e agachou.
O enjoo passou, Durvalina respirou fundo, olhou para o céu e viu uma estrela.
- Deus, me ajude.
Não aguento mais tanta privação.
Quero uma vida melhor - suplicou e deixou uma lágrima escapar.
De repente, ouviu-se uma gritaria, e dois homens mal-encarados acercaram-se da família.
- Roubaram e mataram nosso animal! - vociferou um deles.
Jovelino tentou defender-se.
Levantou-se num salto e argumentou, humilde:
- Não! Não roubamos nada.
O bezerro estava no caminho.
A fome era tanta!
Tenha piedade - apontou para Donizete.
Meu menino estava passando fome.
Olha como ele é mirradinho e...
Era uma dupla de matadores.
Cruéis e sem compaixão.
Agiram de maneira rápida.
Durvalina deitou-se atrás de outro arbusto ressequido e ficou à espreita.
Viu quando a luz da lua reflectiu na lâmina afiada de um dos homens.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:07 pm

O facão desceu e atingiu em cheio o menino.
Donizete estava adormecido e tão fraquinho que mal sentiu o golpe.
A morte foi instantânea.
Cícera arrastou-se e jogou-se sobre o corpo do filho, numa tentativa tardia de protegê-lo.
Logo, ela e Jovelino também estavam estirados no chão, olhos arregalados e estáticos, fitando o nada, o sangue a escorrer pelo canto dos lábios.
Durvalina engoliu em seco.
Subitamente sentiu o desejo de vingança, de justiça.
Mataram meu irmãozinho, um garoto inocente, pensou, entre lágrimas.
Eles vão se ver comigo.
Levantou-se rápido e correu.
O mais forte dos homens avançou e alcançou-a.
- Não carece de ter medo mode não vou lhe matar.
- Matou meu irmão! - protestou, nervosa, olhos rancorosos.
- O pequeno estava por um fiozinho.
Não ia aguentar. Estava sofrendo.
- Por acaso é Deus? - gritou ela, enraivecida.
O grandalhão deu uma cusparada para o lado e gargalhou.
- Atrevida! - e meteu um tabefe no rosto de Durvalina.
Ela cambaleou e caiu.
O outro veio logo atrás:
- Deixe ela, Tenório - e, aproximando-se, interrogou: - Quantos anos tem?
Durvalina aproveitando-se de seu estado raquítico e desnutrido, mentiu sem pestanejar:
- Dez.
- As regras já vieram?
Ela fez não com a cabeça, mentiu de novo.
Se eles soubessem que ela já menstruava, na certa iriam estuprá-la.
- Não. Tinha de mentir.
Era questão de sobrevivência.
Ela repetiu, agora com voz mais infantil:
- Ainda não.
Acabei de completar dez anos.
- E daí que ainda não é mulher? - perguntou Tenório.
- Nada disso, homem - respondeu Olério.
Se abusarmos de menina pura, não entraremos no céu.
- A gente cria ela até ficar formosa.
O que me diz?
- Pode ser.
Tenório fixou os olhos no pescoço dela.
- O que é isso aí? - apontou.
Durvalina levou a mão até o saquinho e respondeu rápido:
- Um patuá. Foi mainha quem fez. Para me dar sorte.
- Funcionou. Pelo menos ainda está aqui, viva.
- Chega de conversa - cortou Olério.
Agora vamos dormir mode que o dia vai clarear e seguiremos viagem.
Durvalina estava muito abalada.
Não se importava se eles lhe pedissem o saquinho.
Sabia que eram dois matadores, assassinos profissionais.
Não hesitaria em lhes dar o que quer que fosse.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:08 pm

Estava mais interessada em preservar a própria vida.
Ao longe, com a claridade lunar, viu os três corpos ensanguentados e estirados no chão.
- Mataram minha família - murmurou entre dentes.
Mas eles me pagam.
Vão ter o troco. Juro que vão.
Olério, o menos cruel, puxou-a pelo braço e a fez deitar-se sobre um pedaço de pano de cor indefinida de tão encardido que estava.
Descansaram. Durvalina, porém, não conseguiu pregar o olho.
Passou o resto da madrugada fazendo orações, entrecortadas por cenas em que matava cada um dos dois de uma maneira, várias vezes.
Seu espírito havia vivido muitas vidas entre guerras, disputas, cruzadas.
Durvalina reencarnara muitas vezes com o objectivo de defender a honra, a pátria, a religião, os pobres, os necessitados.
Tinha um bom coração, contudo era inflexível.
Em suas últimas experiências terrenas, tudo ocorrera na base do oito ou oitenta, do vai ou racha.
Não havia meio-termo.
Se ela gostasse de alguém, defendia a pessoa com unhas e dentes, até morreria no lugar dela se preciso fosse.
Entretanto, se não gostasse, era capaz de matar, sem hesitar, sem ter um pingo de remorso pelo ato praticado.
Entretanto, a consciência se expande, o espírito amadurece, a vida cria recursos para o indivíduo crescer e aprender por meio de suas próprias experiências.
O espírito de Durvalina estava cansado de tanta rigidez e ansiava por mais flexibilidade a fim de sofrer menos.
Pedira para reencarnar longe da Europa, desejava novos ares.
Os espíritos decidiram que ela podia, sim, renascer em outro continente, mas não tinha como deixar de reencontrar afectos... e desafectos.
Agora era a hora da lição de casa.
Estaria Durvalina preparada?
Só o tempo iria dizer.
Quando o sol deu as caras e tornava-se insuportavelmente quente, os homens seguiram viagem e arrastaram Durvalina com eles.
- Ao menos enterrem minha família - pediu ela, chorosa.
Tenório balbuciou algo ininteligível e Olério concordou.
- Tem razão.
Vamos fazer uma cova.
Enquanto os corpos eram atirados em uma vala rasa, Durvalina deixou as lágrimas escorrerem e fez sentida prece, uma das inúmeras que aprendera com Bibiana.
Uma brisa fresca tocou o seu rosto.
Em seguida, foi como se escutasse lá dentro da cabecinha:
- Coragem, meu tesouro.
Mais um pouco e logo nova etapa vai se iniciar.
Seu espírito pediu, Deus atendeu.
Agora siga em frente. Com fé.
O espírito em forma de mulher beijou-a na testa e desvaneceu no ar.
Os dias correram céleres e igualmente quentes.
Desceram o Piauí, cortaram a Bahia e, semanas depois, pararam em uma cidadezinha ao norte de Minas Gerais.
Durvalina seguira o tempo todo sem abrir a boca.
Não conversava e, quando sentia medo, rezava; quando sentia ódio, também rezava.
Algo dentro dela dizia para aguentar firme e seguir confiante, sem esmorecer.
- Não sossego enquanto não fizer justiça.
Não posso deixar que eles continuem matando impunemente.
- Esta tarefa é de Deus - sussurrou-lhe uma voz.
Durvalina deu de ombros e, como se estivesse falando consigo mesma, respondeu:
- É tarefa minha.
Mexeram com a minha família - ressaltou.
Eu vou resolver, do meu jeito. E ponto final.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:08 pm

Chegaram ao Jequitinhonha e acamparam nos arredores.
Havia uma cachoeira.
Durvalina arrancou o vestido puído e tirou o colarzinho de couro.
- Não sei o que tem aqui dentro.
Na dúvida, abriu o saquinho e tirou o que havia dentro.
Era uma pedrinha transparente e brilhante.
- Nossa, parece um pedacinho de vidro.
Por que será que dona Bibiana pediu para eu guardar isso?
Durvalina deu tratos à bola.
Guardou a pedrinha no saquinho e o enrolou no vestido; em seguida, atirou-se na água refrescante.
Bebeu, banhou-se, lavou os cabelos.
Havia tanto tempo que não via ou sentia água fresquinha no corpo todo!
- Estou no paraíso - sorriu contente, enquanto batia palmas e brincava com a água fresca e cristalina.
Tenório, bêbado, arrancou as vestes, entrou na água e achegou-se à menina.
- Vem.
- Não quero - ela se afastou.
- Estou mandando.
Chegue junto.
- Sinhó Olério disse para não chegar perto de mim.
- Ele não está aqui.
Vai, abre essas pernas. Rápido.
Ela meneou violentamente a cabeça.
- Não!
Tenório avançou.
Durvalina, percebendo a ameaça, teve um lampejo e viu ali uma maneira de iniciar seu plano de vingança.
Por uma questão de instinto, misturado ao ódio, alcançou uma pedra com enorme rapidez e desferiu um golpe certeiro na cabeça de Tenório.
O homem tonteou e perdeu o equilíbrio.
Durvalina aproveitou que ele estava alcoolizado e desorientado.
- É agora! - ciciou, rangendo os dentes de raiva.
- Ou ele, ou eu.
Montou sobre Tenório e bateu na cabeça dele, sem dó nem piedade.
Quando ele parou de se debater e o corpo boiou inerte na água, ela o empurrou com os pés, atirou a pedra ao longe e voltou à beirada.
Jogou as roupas dele na água, mas antes pegou o facão que estava preso ao cinto.
Exalou longo suspiro.
- Maldito!
Durvalina deixou uma lágrima escorrer.
Fez uma prece e lembrou-se de seus pais e de seu irmãozinho.
Viu os três estirados no chão, o sangue escorrendo...
Imediatamente soergueu o corpo, balançou os cabelos.
Olhou para trás, Tenório continuava inerte, cabeça afundada na água.
Estava morto.
Durvalina fez o sinal da cruz, vestiu-se e foi até o acampamento.
Olério roncava e mastigava a saliva ao mesmo tempo.
- Poderia matar esse aí agora, mas não.
Tudo no seu devido tempo.
Estou cansada.
Preciso comer e dormir um pouco.
Qualquer movimento estranho - ela passou os dedos pela lâmina afiada do facão - eu já sei como agir.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:08 pm

Agora me sinto mais forte.
Ela apanhou um punhado de farinha e rapadura.
Comeu um pouco e adormeceu, com o facão escondido sob o vestido e o saquinho de volta ao pescoço.
- Cadé o Tenório? - quis saber Olério, enquanto a sacudia.
Durvalina demorou um pouco para concatenar as ideias.
Levantou-se de um salto e respondeu, firme:
- Está se banhando.
- Até agora?
Olério deu uma cusparada no chão e foi até a cachoeira.
Durvalina sabia como proceder.
- Agora preciso terminar o serviço.
Puxou o facão, correu até a beira do riacho.
Estava escuro ainda e Olério não conseguia enxergar muita coisa.
- Tem certeza de que ele está aqui? - perguntou, enquanto olhava para trás.
Já chamei e não responde.
Estranho.
- Ele estava enchendo a cara.
Deve estar com o sono pesado, de tanto beber.
- Pode ser.
Já disse para Tenório não abusar da cachaça.
Ele insistiu e gritou. Nada.
Estava desconfiando.
Durvalina percebeu e apontou para um canto escuro:
- Ali! Olhe ele ali.
Não falei que ia se banhar e tirar um cochilo?
Olério confundiu o amigo com a figura de um tronco estendido no chão.
Deu de ombros.
Arrancou a roupa e entrou na água.
Durvalina escondeu-se atrás de umas folhagens.
Olério cantarolou, assobiou e, ao sair, Durvalina estava na sua frente, expressão séria no rosto.
- O que faz na minha frente, mocinha?
Não vê que estou pelado?
- E daí?
- Eu tenho uma menina da sua idade.
Já disse que não abuso de criança.
- Mas matou meu irmãozinho - rebateu ela, numa voz rancorosa e forçosamente infantil.
- O menino era pele e osso.
Eu só fiz uma caridade.
Transformei um garoto faminto em um anjo do Senhor.
Durvalina ficou mirando-o de cima a baixo.
Olério sentiu um excitamento.
- Está me deixando doidinho.
Se continuar me olhando...
Ela ensaiou um sorriso safado - lembrou-se de Marialva, uma quenga lá do vilarejo -, caminhou lentamente até seu corpinho quente encostar em Olério.
Com uma mão escondeu o facão nas costas e, com a outra, levantou o vestido.
- Pode provar.
- Não!
- Me faz mulher.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 21, 2016 9:08 pm

Olério estava sem diversão havia muito tempo.
Durvalina abaixou o vestido, esticou a mão e o tocou.
- Gosta assim?
Ele fechou os olhos.
- Menina, o que é isso?
- É bom, não acha? - insinuou Durvalina, acariciando-o.
- Isso é bom demais - assentiu Olério, olhos ainda fechados.
É desse jeito que gos... - não terminou de falar.
Com a outra mão, Durvalina cravou-lhe o facão no peito.
Olério grunhiu, perdeu o equilíbrio e caiu para trás.
Ela se jogou sobre ele, fazendo o facão rasgar-lhe as carnes do pescoço até o umbigo.
- Isso é pelo meu irmão Donizete, filho do cão!
Essa outra é pelo meu pai... e essa - rasgou novamente o homem, com toda a força que tinha - é pela minha mãe.
Em seguida, percebendo que o sangue esguichava e escorria por todo lado, e Olério não mais se mexia, ela saiu de cima dele e indagou para si:
- Está morto?
Nada. Só escutou o eco de sua voz e o barulho das águas.
Entrou no riacho, banhou-se, colocou novamente o vestido.
Mais calma, apanhou uma sacola com um pouco de mantimentos e foi-se embora, sem olhar para trás.
No caminho, Durvalina sentiu algo estranho, muito estranho.
Sentiu um incómodo no peito.
- Foi bom - disse para si.
Eu me vinguei.
Fiz justiça com as próprias mãos.
- E? - era como uma voz interior a lhe interrogar.
- E o quê?
- Como se sente?
Bem? Gostou?
- Não é isso.
Eu fiz justiça. Só isso.
- E trouxe sua família de volta?
- Não, mas...
- E por acaso você sabe se eles eram casados, se tinham família também?
Chegou a pensar nisso?
Durvalina não pensara em nada.
Ficara cega de raiva, quisera fazer justiça, vingar a morte de seus pais e de seu irmãozinho.
Sua mente estava perturbada, as ideias embaralhadas.
Era a primeira vez, depois de muitas vidas, que ela começava a perceber que vivemos de acordo com as leis que impusemos a nós mesmos e tudo acontece de acordo com o que acreditamos.
Deus não pune nem é juiz de ninguém, nós somos os nossos próprios juízes e os nossos próprios algozes.
Durvalina não notou, pois estava absorta em seus pensamentos mais densos.
Um raio cruzou o céu e fez um barulho ensurdecedor, como se anunciasse uma tempestade.
Porém, não choveu, não caiu uma gota de água.
Eram os pensamentos atribulados de Durvalina que tinham a capacidade de construir... ou de destruir.
Caberia a ela saber usar essa força poderosa no decorrer de sua jornada.
Já estava entardecendo quando Durvalina avistou uma caminhonete aproximando-se da estradinha.
A poeira levantou rapidamente e seus olhos ficaram embaçados por um momento.
Ela fez sinal e o carro parou.
Sorriu para o senhor que dirigia.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:16 pm

Devia ter uns cinquenta anos.
Cabelos brancos e ralos.
Olhos apertados e escuros escondiam-se por trás de um par de óculos de armação preta e de um rosto simpático e avermelhado.
- O senhor pode me dar uma carona?
- Vai para onde, menina?
- Qualquer lugar.
- Qual é o seu nome?
- Durvalina.
- Cadé seus pais?
- Morreram.
Ele arregalou os olhos.
- Como assim?!
- A gente fugiu da seca.
Depois dois homens apareceram e mataram meu pai, minha mãe e meu irmão.
O homem sentiu forte emoção.
Conteve-se.
- Fizeram mal a você?
- Não. Não deixei.
- Onde estão?
Ele falou e abriu a porta do veículo. Desceu.
Durvalina, num impulso, atirou-se em seus braços e enterrou a cabeça no peito dele.
- Eu matei. Tive que matar.
Eles queriam me pegar... - contou chorando.
- Shhh! Calma, minha filha - ele dizia, enquanto a apertava de encontro ao peito.
Agora você está salva.
Ela se afastou e estancou o choro.
- Tem certeza?
- Sim.
- Mesmo?
- Não vou deixar ninguém lhe fazer mal.
- Eu vim do sertão.
Vou para qualquer lugar.
Ele fez sinal gracioso com as mãos, apontando para o interior da caminhonete.
- Suba.
- Esse bicho de lata é seguro?
Depois de um riso alto, ele afirmou:
- É um bicho velho, mas pode confiar.
Garanto a você que é mais seguro que mula.
Ela sorriu e entrou.
- Esta estrada vai para onde?
- Teófilo Otoni.
Durvalina deu de ombros.
Nunca ouvira falar.
Não conhecia nada, jamais saíra do seu vilarejo.
Sua vida até ali fora marcada por tristeza, sofrimento, miséria e dor.
Nem sabia ao certo o dia em que nascera.
Não tinha certidão de nascimento, nada.
Fizeram a viagem em silêncio.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:17 pm

O senhor - Aderbal era seu nome - ficou condoído com o estado de Durvalina.
Depois de horas de viagem, chegaram a um posto.
- Sente fome?
Ela fez sim com a cabeça.
- Vamos comer alguma coisa.
Durvalina nunca comeu tanto.
Mastigou devagar para que o estômago se acostumasse com a comida farta.
Lembrou-se dos pais, e as lágrimas desceram.
Aderbal limpou as lágrimas dela com as costas da mão.
- Por que está triste?
- Lembrei dos meus pais.
- Gostava deles?
- Acho que sim - foi a resposta curta e correcta, pois Durvalina crescera em um ambiente em que a demonstração de afecto era tão rara quanto a água.
- Quantos anos tem?
- Mainha dizia que estou com catorze.
Aderbal sentiu certo estremecimento pelo corpo.
Durvalina notou e perguntou:
- O que foi?
- Nada - e, tentando ocultar a emoção, ajuntou:
Parece menos.
As regras já vieram, certo?
- Já, sim senhor. Há três anos.
- Tem certeza de que os homens não abusaram de você?
- Sim. Eu menti.
Disse a eles que ainda não tinha me tornado mocinha.
Ele sorriu da esperteza de Durvalina.
Após terminarem o lanche, ele perguntou:
- O que é isso no pescoço?
Ela passou a mão e lembrou-se de Bibiana.
Sentiu saudade.
Ao mesmo tempo, estava tão triste, havia passado por tanta desgraça.
Parecia que seu espírito tornara-se mais forte. Ela nem pensou.
A boca falou:
- É um amuleto da sorte.
Foi benzido por uma antiga moradora do meu vilarejo, para me dar protecção.
Ela conversava com os espíritos, e eles pediram para ela fazer este amuleto para mim.
É o meu patuá.
Quem tocar nele pode ficar doente, pode até morrer.
Durvalina disse isso com tanta convicção, com os olhos tão vivos e brilhantes, que Aderbal levou as costas para trás e quase caiu da cadeira.
Ao mesmo tempo que ela falava, era como se ele visse outra pessoa.
Sentiu um grande desconforto e procurou desviar os olhos do saquinho.
Pigarreou, desconversou e indagou, meio em transe:
- Quer ir passar uns tempos comigo?
Ela o olhou desconfiada.
- Como assim?
- Não é nada do que está pensando.
- E estou pensando em quê?
Aderbal sorriu.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:17 pm

- Eu tenho esposa.
Gostaria que você fosse passar uns tempos com a gente.
Você não tem parentes, tem?
- Não.
- Tem lugar para morar?
- Também não.
- Então... Se não for comigo, será encaminhada para um orfanato.
- Vou para qualquer lugar, desde que não seja o sertão.
- Você vai gostar da minha casa.
- Pode ser. A sua casa não fica no sertão, fica?
Porque nunca mais quero voltar para lá.
Aderbal riu.
- Não moro no sertão. Já disse.
A minha cidade se chama Teófilo Otoni.
Fica perto. Vamos chegar ao anoitecer.
- É só o senhor e sua esposa?
- Sim.
- Ela não vai reclamar?
- Eugénia é uma mulher triste, tem um temperamento difícil, mas creio que você vai cativá-la.
- Tem filhos?
Os olhos de Aderbal brilharam emocionados.
Ele fitou um ponto distante e depois respondeu:
- Tive. Uma menina.
- Onde ela está?
Aderbal apontou para o alto.
- No céu, eu creio.
Tinha a sua idade quando morreu. Catorze anos.
- Sinto muito. Faz tempo?
- Já se foram dois anos.
- Ela morreu de quê?
- Tuberculose.
- O que é?
- Depois explico.
Durvalina notou o semblante carregado e percebeu
o desconforto. Tentou animá-lo.
- O senhor perdeu uma filha e eu perdi os meus pais!
- Para ver como é a vida - ele devolveu, num sorriso forçado.
Durvalina terminou o guaraná, limpou a boca com gosto.
- Posso ser sua filha? - disparou, inocente.
Aderbal levantou-se e a abraçou.
Enquanto as lágrimas teimavam em descer, asseverou, trémulo:
- Claro! Eu a aceitaria como filha, Durvalina.
Ela meneou a cabeça negativamente:
- Durvalina, não.
Prefiro que me chame de Lina.
- Porquê?
- Porque vou começar outra vida.
Se vou começar outra vida, quero ter outro nome.
E, se quer saber, nunca gostei de Durvalina.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:17 pm

- Não?
- De jeito algum.
Não acha Lina mais simpático?
- Acho. Tem algum documento?
- Não. Onde eu morava não tinha lugar para registo.
Painho dizia que, quando a gente ficasse maior, iria para uma cidade grande tirar documentos.
- Precisamos providenciar isso.
Eu tenho um amigo que é dono de cartório.
Ele poderá nos ajudar.
- Seria bom.
Aderbal pagou a conta e logo seguiram viagem.
A conversa agora estava descontraída.
Durvalina, ou melhor, Lina, daqui por diante, perguntava sobre a vida de Aderbal, sobre Eugénia e sobre a filha morta.
Descobriu que a menina se chamara Estela.
Aderbal, por sua vez, cravou Lina de perguntas.
Queria saber como cresceu, como era sua família, como tinha sido a vida no sertão.
Lina nem percebeu quando a caminhonete estacionou em frente a um portãozinho de madeira azul.
- Chegamos.
- O senhor mora aqui no mato?
Ele riu.
- É um sítio.
Eu vivo e trabalho aqui.
A cidade está logo atrás daquele morro - apontou.
- Bem pertinho.
Um pulo. Dá para ir de bicicleta e, se tiver boas pernas e disposição, dá para ir a pé.
Lina desceu do carro e aspirou o ar.
Encheu os pulmões.
- Já estou adorando o mato.
Cresci sem quase ter visto verde.
- Aqui você vai ter muito verde para ver, plantar e colher.
Uma mulher de estatura média, cabelos presos em coque, aparentando quarenta e poucos anos, aproximou-se do portão.
Olhou para Aderbal e dele para Lina.
Levantou o queixo, como se estivesse fazendo uma pergunta.
- A pobrezinha estava na estrada, sozinha, sem eira nem beira.
- Não vai me dizer que ela vai ficar, vai? - a voz de Eugénia era seca e amarga.
- Por uns tempos.
Você não tem reclamado de dor nas costas?
Cuidar da casa é pesado demais.
A Lina poderá nos ajudar.
- Claro que posso - ela se adiantou e se postou à frente de Eugénia, num largo sorriso.
Posso ajudar.
Sei cozinhar, pregar botão, varrer chão.
Deixa eu ficar, deixa?
Eugénia encarou-a com ar de poucos amigos.
Lina levantou os olhos, que eram de súplica.
A mulher até sentiu compaixão, mas era dura e não queria demonstrar uma gota de sentimento.
Fechou o cenho.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:17 pm

Recompôs-se e indagou, nervosa:
- Mais uma boca para alimentar, Aderbal?
- Uma boca pequena.
- É sim, senhora.
Eu como pouco.
Veja como sou pequenina.
Aderbal sorriu, Eugénia não achou graça alguma.
- Vá se banhar - apontou para um banheirinho anexo á casa.
Há quanto tempo não toma um banho?
- Poucos dias.
Sei que estou encardida, suja.
Mas, se me der um sabão, juro que vou ficar limpa e cheirosa.
- Vamos, mulher, pegue o sabão para a moça - mandou Aderbal.
Eugénia bufou, meneou a cabeça e girou nos calcanhares.
Entrou na casa e voltou com a barra de sabão e uma toalha.
- Vai logo.
O jantar vai sair daqui a pouco.
Ela resmungou e, quando Lina entrou no banheiro, Aderbal balançou a cabeça, numa negativa:
- Por que a tratou com tanta frieza?
- Frieza? Eu?!
- É nítido. Veja, a mocinha acabou de perder os pais e um irmão.
Veio do sertão, passou fome, muitas necessidades.
Ela deu de ombros.
- Lina tem catorze anos - Eugénia estremeceu e Aderbal continuou:
- Não acha coincidência ela ter a idade de nossa filha?
- Não acho nada.
Porque, se Estela estivesse viva, estaria com dezasseis.
- Nossa filha morreu com catorze.
- E daí?
- Daí que essa mocinha passou por momentos terríveis.
Mal começou a vida e já perdeu toda a família.
- Cada um que carregue a sua cruz.
- Não pense de forma tão mesquinha, Eugénia.
- Cada um tem os seus momentos terríveis.
Eu perdi a minha filha.
- Estela se foi porque era a hora dela.
- Não me venha com esse discurso idiota - Eugénia alteou a voz.
Faz dois anos que acordo todos os dias e chamo Estela para o café.
Não perco esse hábito - ela falou e a voz tremeu.
Aderbal abraçou-a com carinho.
- Sei, minha querida.
O que fazer?
Lina não tem nada a ver com isso.
Eugénia se desfez do abraço e resmungou:
- Tem. Por que Deus não levou essa menina?
Não era mais fácil matá-la e arrancá-la desse mundo horrível onde vivia?
Por que Ele veio justamente bater na nossa porta e levar a nossa filha?
- Pensei que Lina pudesse nos trazer alegria.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:18 pm

- Eu me tornei uma mulher amarga e descrente.
Não tenho mais idade para conviver com uma criança.
- Ela não é criança, já é uma mocinha e precisa de alguém que lhe dê orientações, seja uma boa amiga.
Você sempre foi terna.
- A minha ternura se foi no dia em que enterramos nossa filha.
- Lina parece ser boa pessoa.
- Sei. Para você, todo mundo é bom.
- Até que se prove o contrário.
- Por isso está sempre sendo levado na conversa.
- Ora essa, Eugénia.
Essa discussão não vai levar a lugar nenhum - Aderbal estava cansado.
Meneou a cabeça numa negativa e exigiu:
- Vamos parar por aqui.
Eu vou tirar as caixas da caminhonete, e você vai terminar o jantar.
- Bom, e daí?
- E daí o quê?
- A viagem, oras?
Valeu de alguma coisa?
- Não.
- Não é possível, Aderbal.
- Eu fiz o melhor que pude, Eugénia.
- Era eu que devia ter ido, sabia?
Você sempre foi um molenga.
- Alto lá! Falando assim, você me ofende!
- A mulher das cartas foi categórica, Aderbal.
- Ela levou a gente na conversa.
Quis arrancar dinheiro.
- Não quero mais tocar nesse assunto com você - tornou Eugénia, exasperada.
Perdemos a oportunidade de ter um futuro melhor. Só isso.
Perdemos a filha e agora perdemos a chance de ter um futuro melhor.
Você não faz nada direito, não faz nada...
Eugénia virou-se de costas, resmungando, torcendo nervosamente as mãos no avental.
Assim que entrou na cozinha, viu Lina saindo do banho.
O vestido da menina era um pedaço de tecido puído, encardido.
Contrafeita, Eugénia foi até o quarto de Estela e pegou um vestido no armário.
Olhou ao redor.
Deixara-o exactamente igual ao dia em que Estela morreu.
Eugénia entrava lá uma vez por semana, para tirar o pó.
Abria a janela, deixava o ar fresco renovar o ambiente e em seguida fechava-o, não sem antes praguejar contra deus e o mundo.
Assim que puxou o cabide, viu uma caixa pequena no fundo do armário.
Eugénia estremeceu.
- Esta caixa não deveria estar aqui - disse, nervosa.
Colocou o vestido sobre a cama e pegou a caixa.
Sentou-se no banquinho da penteadeira e abriu-a.
Era uma mistura de cartas e fotos antigas, tudo amarelado pelo tempo.
Eugénia leu uma carta, depois passou os olhos sobre outra.
Uma lágrima desceu pelo canto do olho.
No fundo, encontrou uma foto bem antiga.
No retrato aparecia ela abraçada a outro homem, também jovem, bem-apessoado.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:18 pm

- Ah, Jurandir, por que você se tornou um doente da alma? - ela perguntou e balançou a cabeça, inconformada.
Nossa vida poderia ter sido diferente.
Eugénia suspirou. Lembrou-se da juventude, de quando se apaixonara por Jurandir, um rapaz de Uberlândia.
Namoraram e, quando ficaram noivos, Eugénia percebeu que ele tinha tara por meninas novinhas.
Procurou espantar os pensamentos maliciosos.
No entanto, passado um tempo, durante um almoço em família, flagrou Jurandir tocando uma garotinha de maneira lasciva.
A cena horrorizou Eugénia, e ela rompeu o noivado.
Jurandir tentou se defender, botou a culpa na bebida e jurou que jamais faria aquilo de novo.
A intuição bateu forte e Eugénia manteve-se firme em sua decisão.
Passado um ano do rompimento do noivado, ela conheceu Aderbal.
Em três meses estavam casados e de mudança para Teófilo Otoni.
Eugénia sorria e cantava pela casa.
Era uma mulher feliz.
Estela nasceu, bem mirradinha, bem fraquinha.
Cresceu inspirando cuidados e aos doze anos contraiu tuberculose.
Quando levaram a menina para tratamento em Campos do Jordão, era tarde demais.
Estela morreu, e todo sorriso, assim como toda cantoria, acabou.
Eugénia fechou o cenho e não se permitia esboçar um sorriso que fosse.
Nem quando tinha vontade de dar um.
Para piorar a situação, sua prima Penha, viúva de longa data, envolvera-se justamente com seu ex-noivo, o tal Jurandir.
Penha tinha casado e engravidado.
O marido morrera num acidente de trem e ela tivera Melissa.
A menina era um ano mais velha que Estela.
Estava agora com dezassete anos.
Quando Melissa completou dez anos, Penha casou-se com Jurandir.
Para evitar o encontro com ele, Eugénia mandava dinheiro para Melissa comprar as passagens e ir passar o feriado de Páscoa em sua casa.
Depois que Estela morreu, dois anos atrás, Eugénia apegou-se mais ainda a Melissa.
Os pensamentos causaram-lhe dor de cabeça.
Eugénia soltou novo suspiro.
- Preciso jogar tudo isso fora.
Nem sei por que vieram parar no quarto de Estela.
Juntou tudo, fechou a caixa, apanhou o vestido sobre a cama e foi até a cozinha.
Lina estava sentada na cadeira, cotovelos sobre a mesa.
Eugénia sentiu vontade de sorrir, mas manteve-se firme.
Não queria amolecer.
Amanhã ela vai embora, e eu vou ficar sozinha de novo.
Chega de dar amor e não receber nada em troca, pensou, triste.
Eu dou amor e a vida me tira. Chega.
Respirou fundo e entregou o vestido a Lina.
- Tome.
- Para mim?
- Não, para o espírito santo - respondeu com ironia.
Lina não entendeu o sarcasmo.
Sorriu e imediatamente tirou o próprio vestido e colocou o de Estela.
Ficou bem largo.
- Eu posso fazer os ajustes, dona?
- Dona Eugénia.
- Posso, dona Eugénia?
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:18 pm

- Se não quiser ficar igual a um saco de batatas, tem agulha e linha naquela caixa sobre a máquina - apontou para o canto da cozinha, onde havia uma máquina de costura.
Lina foi até lá, e Eugénia foi até o barracão ao lado da cozinha.
Nesse barracão, ela costumava ferver os lençóis em um fogão a lenha.
Aproveitou que ainda havia um resto de brasa e jogou todo o conteúdo da caixa nele.
- Eu me liberto do passado - disse para si.
Em seguida, guardou a caixa vazia numa prateleira e voltou à cozinha para servir o jantar.
Quando Lina se sentou para tomar a canja, o vestido já estava ajustado.
- Ela leva jeito para costura - observou Aderbal.
- Mainha me ensinou a pregar, dar ponto, bordar.
Eu ia na casa de dona Bibiana e ajudava ela a coser.
Eugénia sentiu leve tremor e não disse uma palavra.
Aderbal manteve-se impassível.
Depois do jantar, Aderbal levou Lina até a sala e improvisou uma cama com colchonetes, lençóis e coberta.
- Hoje você dorme aqui.
- Sim, senhor.
Lina acomodou-se.
Fazia tanto tempo que não dormia sobre algo tão macio, que pegou no sono em minutos.
Aderbal e Eugénia foram para o quarto e se deitaram.
Eugénia fez uma prece, virou de lado na cama e adormeceu.
Lina despertou com batidas de panelas na cozinha.
Abriu os olhos e passou as mãos neles.
Levantou-se e olhou pela janela.
O dia já começara fazia tempo.
Ela se apressou em arrumar os lençóis e deixar a sala em ordem.
Depois foi para a cozinha.
Eugénia batia os bifes sobre uma tábua de madeira.
- Bom dia, dona Eugénia.
Ela nem virou a cabeça.
Continuou batendo os bifes.
- Ainda não tirei a mesa do café por sua causa.
Sente-se e tome seu café.
- Não estou acostumada com café.
- Aqui não é o Nordeste.
Não tem rapadura nem tapioca, tampouco farinha branca.
Vai ter de mudar os hábitos, mocinha.
Sente-se e aprenda a tomar café com leite.
Tem um pãozinho na cesta.
E manteiga no pote de vidro.
Lina assentiu e sentou-se.
Apanhou o bule, colocou café na caneca.
Estranhou a mistura com leite.
- Gosto ruim - fez uma careta.
- Põe açúcar que melhora - respondeu Eugénia, continuando a bater os bifes.
Lina encheu a caneca de açúcar, mexeu.
- Agora está melhor.
Pegou o pãozinho e passou manteiga.
Comeu com gosto.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:18 pm

Terminado o desjejum, ela se levantou e começou a tirar a mesa.
- Onde guardo isso?
- Lá.
- E isso? - mostrava outra coisa.
- No armário logo ali - Eugénia apontava.
Lina guardou tudo, apanhou a toalha e levou para o quintal.
Sacudiu as migalhas no galinheiro e voltou.
- Posso colocar os pratos para o almoço?
- Ainda é cedo.
- Quer ajuda?
- Não.
- Posso fazer alguma coisa?
Quero ajudar.
Eugénia bufou.
Largou o martelo sobre um bife, enxugou as mãos no avental.
- O que sabe fazer?
- Qualquer coisa.
O que não souber, eu aprendo.
Sou rápida.
Eugénia pensou e sorriu, maliciosa.
- Lá atrás, no barracão - apontou -, tem um monte de roupa.
Sabe lavar e quarar roupa?
- Sim, senhora.
Ajudava dona Bibiana lá no sertão.
Ela era velhinha e não tinha muita força.
Eu fazia todo o serviço de casa para ela.
Depois ganhava um doce, às vezes uns trocados.
- Sei - Eugénia falou e voltou a bater os bifes.
Lina saiu para o quintal e caminhou até o barracão.
Lá havia um tanque, uma mesa velha, um ferro de passar e uma cesta com muita roupa suja.
Ela sorriu e começou a separar as roupas.
Ao longe, Eugénia observava.
- Vamos ver o quanto essa menina aguenta.
Logo, logo, vai desistir de tanto serviço.
Ela vai implorar para o Aderbal deixá-la partir.
Dou dois dias para ela sumir daqui.
Por isso, não vou abrir meu coração.
Chega de sofrer.
Eugénia falou num tom sentido e voltou a bater os bifes, agora com mais força.
As lembranças da filha vieram-lhe a mente.
Não tardou para que as lágrimas escorressem.
De formação católica, Eugénia deixou de ir à igreja e de acreditar em religião que fosse depois que Estela morreu.
Seu coração endureceu e ela se tornou uma mulher amarga.
Amarga, triste e desiludida da vida.
Lina começava a amolecer seu coração.
Mas ela foi dura consigo mesma.
- Por que Deus tirou minha filha, tão linda e tão jovem? - questionava-se constantemente.
A manhã passou, o almoço foi servido e, ao olhar para o calendário pregado na parede, sorriu.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:18 pm

- Melissa virá e tudo poderá mudar.
A celebração da Páscoa aproximava-se.
Eugénia contava nos dedos o dia da chegada de Melissa.
- Melissa vai me ajudar a tirar essa pirralha daqui de casa - suspirou, convicta.
Aderbal chegou em casa no finzinho da tarde.
Homem simples, era um faz-tudo:
de electricista a encanador e bombeiro, de pintor a pedreiro.
Muito devotado ao trabalho, nas horas vagas plantava sementes, cultivava uma bela horta em seu pequeno sítio.
Sempre que as verduras cresciam, ele as colhia e saía para vendê-las.
Naquele dia, em particular, havia vendido tudo o que colhera e toda a produção de ovos.
Estava feliz.
Entrou em casa e sentiu o cheiro de canja.
- De novo?
- É o que temos - protestou Eugénia.
Eu ia deixar uns bifes para você comer agora à noite, mas essa mocinha morta de fome comeu três bifes.
Três bifes, Aderbal! - exclamou, nervosa.
- Ela não come direito desde que nasceu.
Precisa se alimentar bem.
Viu como é mirradinha?
Precisa recuperar peso.
- Sim, concordo.
Precisa se alimentar bem.
Não exagerar, como fez.
- Logo passa, ela vai se adaptar.
Calma, mulher, Lina acabou de chegar.
- E daí?
- É uma outra vida.
Aliás, ela está tendo uma nova vida.
Outro clima, outra cidade, outras pessoas, outros hábitos.
Tudo isso leva um tempo de adaptação.
Ela logo se acostuma e ficará tudo bem.
A mulher não respondeu.
Voltou para o fogão e, com uma colher de pau, mexia a sopa na panela.
- Falando nela, cadé a Lina?
- No barracão, lavando roupa.
- Não acha que ela é muito novinha para isso?
Eugénia virou o corpo e meteu as mãos na cintura.
- Aderbal!
Essa menina diz ter catorze anos.
Na idade dela, eu fazia muito mais coisas para minha mãe.
Estela, embora com saúde debilitada, também me ajudava nos afazeres domésticos.
- Isso é verdade.
Mas lavar tanta roupa, o dia todo?
Não é um trem pesado?
Ela deu de ombros.
Aderbal abriu a porta e chegou ao quintal.
Os varais estavam carregados de roupas.
Foi até o barracão ali do lado.
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