Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:15 pm

Neide achou graça.
- A boca não morre.
Sabe, Lina, quando morremos, o nosso corpo de carne, este aqui - apalpou-se - para de funcionar; o nosso espírito se desprende desse corpo sem vida e vai viver em outro mundo.
- O que é espírito?
- É o que nos faz vivos.
Sem o espírito ou alma, este corpo - voltou a tocar-se - não vive.
- Vamos para o céu?
- Mais ou menos.
Vamos para um lugar bem parecido com este mundo em que vivemos.
Lá continuamos os estudos, o trabalho, reencontramos alguns entes queridos que já morreram.
- Quando eu morrer, vou poder rever meus pais?
Neide procurava abusar da simplicidade para que Lina entendesse.
- Acredito que sim.
Acontece que a gente morre, daí nosso espírito vai para uma cidade no céu” e por lá fica um tempo, até decidir voltar a viver aqui.
- Por que tanto vai e volta?
A gente nasce e morre um monte de vezes?
- É. Aos poucos, no devido tempo, conversaremos mais sobre o assunto.
- Você tocou no nome do Jurandir.
Como sabe o nome dele se eu não o mencionei uma vez sequer?
- Que Jurandir?
- Você falou dele, Neide, quase agorinha.
- Estávamos estudando geografia.
Um grande ponto de interrogação formou-se no semblante de Lina.
Neide prosseguiu:
- Precisamos estudar mais para a senhorita entrar no ginásio.
Depois, mais crescida, trataremos desses assuntos espirituais.
- Está certo - Lina deu de ombros, mas, em seu íntimo, ficou com aquelas palavras martelando em sua mente.
Eugénia entrou na cozinha, e Neide sentiu um arrepio.
Levantou-se da cadeira de maneira abrupta e, olhando por cima dos ombros de Lina, disse, modulação de voz levemente alterada:
- É imperioso que vá buscar Melissa.
Ela precisa sair daquela casa imediatamente.
Não tenha medo porque tudo vai dar certo.
Eugénia engoliu em seco.
Lina, graças a Deus, não prestou atenção, pois estava arrumando os livros e cadernos, ajeitando-os dentro da pasta.
Neide passou as costas das mãos pela testa.
- Fiquei com uma sede!
- O que você disse, Neide? - indagou Eugénia, perplexa.
- Estou com sede.
Posso tomar mais um pouco de limonada?
Penha deu à luz uma menina.
Telma era uma fofura, calma, sorridente e dormia a sono solto.
Chorava pouco.
Jurandir, por sua vez, afeiçoara-se ao bebé de imediato.
Desde que Telma nascera, Jurandir não encostou mais um dedo em Melissa, tampouco fez algum gesto libidinoso com a língua ou piscou de maneira sedutora.
Era como se Melissa não existisse mais naquela casa.
Ele decidiu, de verdade, ser o marido perfeito, ideal.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:16 pm

Era como se aquele bebé, aquele pedacinho de gente, tivesse a capacidade de anestesiar os seus instintos mais primitivos.
- Eu amo você! - declarou, erguendo Telma.
- Calma, querido. Telma ainda está com a moleira aberta. Devagar.
Ele a beijou e a entregou a Penha.
- É emoção.
É minha filhinha.
É um pedaço de mim...
Foi impressionante a transformação dele, num primeiro momento.
Saía cedo e voltava no fim do dia, sempre com um jornal embaixo do braço, à procura de trabalho.
Como estudara até o terceiro ano primário, estava difícil arrumar um emprego à altura, que pudesse manter a esposa e a filhinha recém-nascida.
- Eu vou voltar a trabalhar, meu bem - devolveu Penha, segurando a bebézinha, que já pegara no sono.
- Não! Chega.
Eu sou o homem da casa.
Eu é que devo trazer o dinheiro.
Você cuida da nossa filha, da nossa casa.
Não quero mais que você faça o que eu deveria fazer.
- Mas e as costas?
O médico sempre nos alertou para você não pegar no pesado...
Jurandir havia esquecido.
Nos tempos em que se encostara em Penha, forjara um atestado com um médico boca de porco lá no centro da cidade.
Arrumara até chapas de pacientes já falecidos, com problemas na coluna, só para continuar encostado, largadão, em casa.
Assim, poderia levar a vida sossegado e abusar de Melissa do jeito que queria e quando queria.
Agora era outro homem.
O passado ficara para trás.
Melissa já não lhe interessava e ele não precisava se esforçar para conter seus impulsos sexuais.
O nascimento de Telma servira como uma rolha de poço que conteria, talvez por muito tempo - assim ele sonhava -, o desejo incontrolável por menininhas.
- Não sou mais um pecador - murmurou.
Agora tenho uma família de verdade - voltou para Penha e falou, num tom amável:
- Vou sair e vou arrumar alguma coisa boa.
Nossa vida vai mudar.
Você vai ver - Jurandir concluiu, apanhou o chapéu, o paletó e o jornal.
Beijou a esposa e a filhinha.
- Adeus, meus amores.
Papai volta mais tarde.
Penha sorriu embevecida.
- É o homem que pedi a Deus!
Melissa saiu da cozinha, cruzou o corredor, passou por Penha e ajuntou com desdém:
- Só falta me dizer que acredita em Papai Noel.
- Você é amarga. Por quê, hein?
Qual é o motivo de tanta rusga com Jurandir?
Ele é um homem tão bom.
Mesmo doente, quer trabalhar.
- Doente? O Jurandir? Essa é boa.
- Ele tem problema na coluna.
Não pode pegar qualquer emprego.
Está se esforçando. Você é maldosa.
Sempre foi. Tem inveja.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:16 pm

Melissa tinha vontade de gritar, arrancar o vestido, abrir as pernas, mostrar à mãe os hematomas, os machucados, falar da humilhação... mas do que adiantaria?
Penha já dera claros sinais de que jamais acreditaria em uma palavra da filha.
Jurandir estava em um pedestal, era o marido ideal e agora estava se transformando no pai do século.
De nada valeria dizer a verdade.
Penha não queria acreditar.
Uma lágrima escapou-lhe pelo canto do olho.
- Cada um enxerga o que quer, como quer.
Eu só lamento você não ter me dado apoio.
- Eu?! - Penha estava indignada.
Você é quem deveria me apoiar.
Fiquei viúva cedo, passamos muito aperto nesta vida.
Até que apareceu Jurandir.
Tudo bem, ele já havia namorado a Eugénia, mas qual é o problema?
Se ela não soube valorizá-lo, problema dela.
Casou-se com um ensebado, que não serve para nada.
- Não fale assim do tio Aderbal.
Ele é um bom homem.
- Um paspalho.
É um bonequinho nas mãos da Eugénia.
Eu não gosto de homem assim, que não tem atitude.
Já Jurandir é diferente.
E ainda tentou ser um bom padrasto.
Você o repeliu.
- Já contei o que ele me fez - Melissa estava com o rosto rubro e os olhos injectados de fúria.
Penha levantou o braço e o tapa veio forte. Plaft!
- Já disse para você parar de falar essas barbaridades sobre Jurandir.
Ainda poderá pagar caro por isso.
Melissa levou a mão ao rosto e meneou a cabeça negativamente:
- Eu vou rezar muito para que Telma não sofra o que eu sofri - finalizou e subiu as escadas.
Penha ouviu a porta do quarto bater com força e balançou a cabeça para os lados.
- Está ficando cada vez mais difícil conviver com esta mocinha aqui em casa.
Melissa está se tornando uma pessoa intratável!
A campainha tocou.
Penha ajeitou Telma no bercinho ao lado do sofá.
O bebé resmungou algo, virou o rostinho e continuou a dormir.
Penha abriu a janelinha da porta.
- Quem é?
- Estou à procura da senhora Penha Menezes de Albuquerque.
- Sou eu.
- Por favor, poderia conversar com a senhora?
Penha observou o homem engravatado, bem-vestido, segurando uma maleta.
Ela abriu a porta e fez sinal para ele abrir o portãozinho de ferro:
- Quem é o senhor?
- Sou advogado.
Meu nome é Gregório Pontes.
Venho do Rio de Janeiro.
É para tratar de assunto de seu interesse.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:16 pm

- Meu interesse?
- É assunto de família.
Penha notou o ar de elegância e o convidou a entrar.
Gregório acomodou-se na poltrona e viu o bercinho.
Penha adiantou-se:
- É minha filhinha.
- Parabéns!
Eu também tenho uma.
Dois aninhos.
- O senhor aceita um café, uma água?
- Não, obrigado.
O meu assunto é rápido.
Deverei ser o mais breve possível.
Penha ajeitou-se na cadeira à frente.
- Pois diga.
- A senhora é sobrinha de Eurídice Campos de Menezes, certo?
- Eurídice é minha tia por parte de pai, mas eu não a vejo há muitos anos, perdemos o contacto e...
Gregório a cortou com amabilidade na voz:
- Tudo bem, dona Penha.
Eu só preciso da sua certidão de casamento.
É casada em comunhão universal de bens?
- Sim, sou.
Por que precisa da minha certidão?
- Para verificar os dados, só isso.
- O que está havendo?
Não estou entendendo.
- Sua tia Eurídice faleceu há um ano e deixou em testamento um imóvel em Niterói para a senhora.
Penha não caiu porque estava sentada.
Levou a mão ao peito:
- Eu tenho uma herança para receber?
- Uma boa herança - Gregório sorriu.
Levei quase seis meses para encontrá-la, porque não tinha como localizar seu endereço.
Sabe, dona Penha, é um estabelecimento comercial, um botequim bem frequentado, em um bom bairro.
É um imóvel de esquina, assobradado, tem até quintal para essa menininha - apontou para o berço - poder brincar à vontade, quando crescer.
- Um botequim?
- Sim. Todo equipado.
Dona Eurídice o reformou pouco antes de morrer.
A casa sobre o bar está mobilada e fechada.
O bar está arrendado a um senhor da região, que paga regiamente o aluguer até que a senhora tome posse do estabelecimento.
Aliás - Gregório puxou da maleta um papel -, aqui está o extracto com os valores pagos até o momento, depositados em uma conta da Caixa.
Quando o imóvel for passado para o seu nome e do seu marido, poderão retirar esse dinheiro.
Penha não podia acreditar.
Era tudo muito bom para ser verdade.
Jurandir chegou em casa e, ao ver Gregório sentado na poltrona, indagou à esposa:
- Quem é ele?
- O nosso anjo da sorte! - respondeu Penha, com lágrimas nos olhos.
O sol estava a pino quando a campainha tocou.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:16 pm

Jurandir, deitado no sofá, com um copo de cerveja na mão, ordenou:
- Atende, Melissa.
- Estou lavando louça.
Daria para o senhor fazer a gentileza de tirar o traseiro do sofá e atender a porta?
- Estou com dor nas costas - provocou.
Custa abrir a porta?
Ela fechou a torneira, limpou as mãos no avental.
Passou pela sala feito um foguete.
- Imprestável!
Um dia ainda vou me livrar de você.
- Ah, já sei por que está nervosa.
É que amanhã vai passar o concurso de miss pela televisão, né?
A princesinha não pode sair de casa antes de ver essa bobeira.
Já escutou ao vivo pelo rádio semana passada.
Qual é a emoção de ver, se já sabe quem ganhou?
- Não me amole.
Já disse que não quero mais que me dirija a palavra.
- Tem razão.
Não vejo a hora de irmos embora para Niterói.
- Já disse que não vou.
Eu não vou com vocês.
- E vai ficar onde?
- Não sei.
Mas a vida está sendo clara:
vocês é que vão para Niterói.
Eu vou seguir o meu destino.
Sei lá, vou ligar para minha tia, vou para um internato, uma pensão, arrumo emprego, mas não vou com vocês.
- Por que fala comigo desse jeito? - Jurandir bebericou a cerveja, estalou a língua no céu da boca e pousou o copo na mesinha.
O que passou, passou.
O passado está lá trás.
Melissa riu com desdém.
- É fácil falar, não?
Depois de fazer de mim gato e sapato, depois de me violentar, me humilhar, você diz para eu esquecer?
- Eu errei.
- E tudo bem?
Errou e está tudo certo?
E eu, Jurandir? Como fico?
Ele não respondeu.
A campainha tocou de novo.
Ele se remexeu nervoso no sofá.
Não queria lembrar-se do passado.
Disse com ironia:
- Vai, vê se atende logo essa porta, Adalgisa Morango.
- A miss que ganhou é Adalgisa Colombo.
Terezinha Morango era a miss do ano passado. Burro.
Ele deu de ombros.
- Vai, vai. Atende essa porta.
Melissa abriu.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:18 pm

Seu coração parecia saltar pela boca.
Esboçou enorme sorriso e não conseguia sair do lugar, tamanha emoção.
Eugénia subiu os degrauzinhos e a abraçou.
- Sou eu, minha querida.
Vim buscá-la.
- Deus escutou as minhas preces! - Melissa sibilou e deixou as lágrimas escorrerem, molhando o vestido da madrinha.
O local era imundo, sujo mesmo.
O cheiro era insuportável, azedo, fétido, como de um esgoto a céu aberto.
A névoa cobria quase tudo.
Os gritos e gemidos eram os sons que cortavam o silêncio.
Um homem tentou se levantar, mas, fraco e agonizante, caiu novamente.
Com voz fraca e rouca, tentou gritar:
- Eunice! Ajude-me!
Tire-me deste lodo!
Por favor, eu quero sair deste inferno.
Eunice caminhou por entre galhos retorcidos e secos.
A névoa densa e acinzentada, mais o odor pútrido, deixavam-na com ânsia.
Estava difícil caminhar e respirar.
- Meu Deus, onde estou?
A voz, a mesma do outro sonho, respondeu:
- Está atendendo ao pedido de Paulo por quê?
- Ele me chama, coitado.
Ele precisa de mim.
- Coitado? Por que coitado?
- Pobre homem.
Deu cabo da própria vida.
Ele não teve culpa.
Foi tomado de grande aflição.
Não posso julgá-lo.
- Também não o estou julgando.
Mas não posso passar a mão na cabeça dele, tratando-o como vítima de uma situação que ele mesmo criou.
- Tem razão. Eu não havia pensado nisso.
- Ele teve, ainda tem e sempre terá livre-arbítrio.
Cada um tem o poder de alterar o próprio destino a cada segundo.
Paulo pode fazer isso agora mesmo.
Por pior que seja, nenhuma dor é maior do que podemos suportar.
Isso já consta nas escrituras sagradas.
- É verdade. Não é novidade.
- Nunca foi.
Entramos na paranóia, acreditamos que o mundo é o culpado pelo nosso infortúnio.
Queremos culpar alguém por nossa falta de sorte, nossa infelicidade.
Por quê? Porque é mais fácil atirar uma pedra do que mudar a maneira de ver, de pensar, de agir.
Mudar um condicionamento pode levar vidas, muitas vidas.
Às vezes, passamos encarnações tentando, tentando, e não conseguimos.
A força do hábito é tão forte, está tão arraigada em nosso ser que é necessário que o espírito tenha muita paciência e boa vontade para poder se libertar e mudar.
- E o que faço, então?
Paulo me chama e sou atraída para cá.
Eu não gosto deste ambiente.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:19 pm

- Ninguém gosta.
É o ambiente que ele criou, junto com outras mentes também emocionalmente doentes.
Não querem mudar e ficam presas na dor, na aflição, na culpa, no arrependimento.
Você é algo bom que ficou na mente perturbada dele.
Por isso a chama, porque alivia o sofrimento.
- Mas não quero.
Não pertenço a este lugar.
- Há algo que liga você a ele.
Tem afinidade aí - a voz mantinha um tom sem alteração, natural, sereno.
- Custo a crer - rebateu Eunice, nervosa.
Eu mudei bastante.
Leio muito, procuro entender novos conceitos, absorvê-los, entender o mundo de outra forma.
Não fico mais presa em um quarto, como fiquei durante quase dez anos.
Agora sou outra pessoa.
Estou até querendo voltar a trabalhar.
- Entretanto - a voz prosseguiu - há uma ponta de vitimismo, de pobre de mim de que você ainda não se desfez.
- Não.
- Reconheça, Eunice.
Seja verdadeira consigo mesma.
Não adianta querer fingir.
Pode fingir para o mundo, mas não para si.
Enquanto não estiver cem por cento livre dessa praga que é o vitimismo, estará com o canal aberto, com uma ponte para que Paulo se ligue a você.
- Não quero me ligar a ele.
Eu não sinto nada por ele.
Quero que ele encontre a paz, a luz, que possa se refazer. Mais nada.
- Se deseja tudo isso de coração, está fazendo um bem enorme a ele.
Agora vamos voltar.
Precisa sair daqui.
As energias deste lugar podem afectar seu perispírito. Venha.
- Eu não consigo ver você.
- Siga minha voz.
Eunice fez sim com a cabeça e seguiu a voz.
Passou sobre caveiras, crânios partidos, pedaços de ossos.
Viu corpos dilacerados, outros em decomposição.
O local era mesmo um pedaço do inferno.
Avistou algo como um portal, um arco de luz.
Antes de passar por ele, teve a nítida sensação de ver Paulo, ou o que fora Paulo.
Era um maltrapilho encolhido num canto, o corpo coberto de sangue que jorrava da altura do peito, as vísceras expostas.
Ele meneava a cabeça e suplicava:
- Tire-me daqui...
Eunice balbuciou:
- Deus tenha piedade de você.
Fique em paz - ela falou e pulou o arco.
Ao passar, tudo se transformou.
O ar era respirável, sem odor.
A vegetação era verde, parecia estar num bosque.
Eunice respirou fundo e exalou profundo suspiro.
Olhou ao redor e viu um moço simpático a sorrir.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:19 pm

- Sente-se melhor?
Ela reconheceu a voz.
- Você!
Agora a voz tem rosto!
- Sim.
- Por que tanto mistério?
- Não tinha mistério nenhum.
Você não me via porque não tinha olhos de ver.
- Não entendi.
- Não me via porque não conseguia.
Não estava em sintonia energética para me ver.
Sua cabeça andava pesada, você estava muito perturbada.
Eu sempre estive ao seu lado, contudo, você não se permitia me ver.
- É meu anjo da guarda?
Ele riu.
- Sou um amigo espiritual.
Um colega do lado de cá, do invisível.
Meu nome é Estêvão.
- Estêvão. Bonito nome.
Parece que eu o conheço.
- Claro que conhece, Eunice.
Somos amigos de longa data.
Não reencarnei ainda porque estou me preparando.
- Vai voltar?
- Todos nós vamos.
Estamos num ciclo de muitas reencarnações.
- Escuto muito que alguns já estão na última encarnação, que outros não reencarnarão mais na Terra.
Estêvão riu de novo.
- O homem precisa e precisará reencarnar muitas vezes.
Temos muito o que aprender ainda.
Muita coisa para desvendar, muitas experiências para aprimorar nosso espírito, muitas ilusões para arrancar do nosso campo mental, muitos pedaços de nossa alma a ser resgatados.
Isso levará mais alguns milhares de anos.
Ocorre que alguns acreditam que estamos num grau de superioridade e chegamos ao estágio máximo de evolução.
Não nego que estamos em ritmo acelerado de crescimento tecnológico, mas, no tocante ao crescimento moral e emocional, ainda somos muito infantis.
- Estamos no jardim da infância.
- Mais ou menos.
Você está entendendo o sentido da vida, Eunice.
Como afirmou Kardec, ficaremos por muito tempo num estágio contínuo entre nascer, morrer, renascer, porque esta é, de facto, a lei.
Não temos como escapar dela.
Eunice estremeceu e exalou novo suspiro.
- Senti agora como se um peso fosse arrancado de mim.
- O espírito de Paulo foi recolhido.
Levado para um local de tratamento.
- Ele vai melhorar?
- Não sei. As irmãs estão cheias de ódio.
Não o perdoam.
A mãe já o perdoou e tenta convencer Cordélia e Maria Antonieta a perdoá-lo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:19 pm

- Que tragédia!
- Se você olhar a linha do tempo deles, verá que houve muitas outras tragédias envolvendo os quatro.
Um dia vão se cansar e compreenderão que a violência não é o melhor caminho para resolver os desentendimentos.
- Onde está aquela mulher?
- Aquela mulher tem nome - corrigiu Estêvão.
- Desculpe-me. É que ela me atormentou tantos anos.
- Outro caso de afinidade.
Já conversamos a respeito.
Não há vítimas.
E obsessão só existe porque há afinidade entre encarnado e desencarnado. Só por isso.
- Como está Doroteia?
- Segue bem.
Recuperou-se com facilidade.
Está se refazendo e logo vai participar de cursos.
Estudar é a melhor coisa que se pode fazer para entender melhor como funcionam as leis da vida.
- Por que eu não me lembro disso?
Por que tenho de esquecer de tudo quando volto ao mundo?
- A sua mente fica esquecida, mas seu espírito não se esquece de nada.
Conforme você o alimenta com conhecimento, mais ele vai lhe abrindo a porta que dá acesso a tudo o que você já aprendeu em outras vidas e também durante a vida no astral.
Quando estamos ligados à nossa essência, estamos ligados à essência divina.
E, ligados à essência divina, temos acesso a todo conhecimento.
Ele vem de todas as formas, seja por meio de um livro, de uma aula, de um programa, de um amigo, de um professor, de um curso...
- Entendi. Como essa moça que apareceu em nossa casa.
- Como essa moça - replicou Estêvão.
Neide é um espírito muito lúcido, de profunda inteligência e bondade.
Reencarnou com o propósito de ajudar e despertar a consciência dos seres, além de ter óptima mediunidade de cura.
- Gostei dela.
- Ela também gostou de você.
- Estou ficando cansada.
- Precisa voltar ao corpo. Descansar.
Amanhã será um novo e glorioso dia.
- Vou rezar pela alma de Paulo.
- Faça o que seu coração achar melhor.
Mas não sinta pena.
A pena nos liga negativamente ao outro.
Isso não é bom. Para ninguém.
- Vou procurar não me esquecer disso.
Despediram-se.
Eunice voltou ao quarto.
Estêvão voltou para a sua cidade astral.
Encontrou Maruska, que também regressava da Terra.
- Acabei de me encontrar com Lina.
- Fui ver Eunice.
- Sabe que Melissa vai chegar hoje?
Não vai mais viver com Jurandir.
Estêvão abriu largo sorriso, mostrando os dentes alvos e perfeitos.
- Tinha certeza.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:19 pm

Melissa não precisava mais passar por tanto sofrimento.
Já estava cheia de sofrer por uma paixão doentia.
Se ela passasse, digamos, por essa prova e soubesse escolher com inteligência, seria premiada.
- É. O prémio dela veio para Teófilo Otoni.
Os dois riram.
- Quando vão se encontrar? - indagou Estêvão.
- Logo. Creio que não vai demorar muito.
O importante é que ela se livrou do ciclo repetitivo que vinha mantendo com Jurandir e Penha.
Agora Melissa segue sua jornada sem eles por perto, por enquanto.
Estêvão fez sim com a cabeça.
Maruska, conhecendo profundamente o amigo, perguntou:
- Está preocupado com Eunice, não?
- Se disser que não, estarei mentindo.
- O que foi?
Não cortou os fios energéticos que a ligavam a Paulo?
- Sim. Isso foi um trunfo. Vencemos.
Ela também se livrou da obsessão de Doroteia, que segue em tratamento e está se recuperando muito bem.
- Então...
Estêvão levantou o braço e fez um gesto com a palma da mão.
Uma tela se abriu no ar e Maruska viu um rosto.
Ela meneou a cabeça, feliz:
- Não acredito!
- Eu também não.
Pensei que não fossem voltar tão cedo.
- Diante das probabilidades, eles não iriam se encontrar tão cedo.
- Os superiores alegaram que mudaram de ideia.
Acreditam que Eunice tem condições de reencontrá-lo.
- Sinto que ela está pronta.
- Eles estão acelerando o processo.
Disseram que estão fazendo em uma vida o que levaria três.
Indo mais rápido.
- Se é pelo melhor, então vamos torcer pela felicidade dos dois.
- Isso mesmo.
Abraçaram-se e uma luz brilhante formou-se ao redor deles.
Na manhã seguinte, Daniel pediu uma ligação para a telefonista.
Depois que conversou com seu amigo em São Paulo, desligou o aparelho e correu até a sala.
Leonor lia um romance de Agatha Christie, e Solange tentava estudar O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.
Ele entrou eufórico, elas nem notaram.
Daniel as chamou e nada.
- Ei!
Solange levantou lentamente os olhos.
- Estou entretida com os ensinamentos deste livro.
- Mãe, olhe para mim!
Leonor olhou sobre os óculos.
- Impossível deixar de ler.
Estou quase no fim.
Já leu O homem da roupa marrom?
- Não tive tempo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:20 pm

As duas entretidas com livros, e eu aqui para contar uma grande novidade.
- Pois diga - a voz de Leonor era natural.
- Quanta emoção! - exclamou Daniel, contrafeito.
- Meu filho, sei que vai a São Paulo para fazer a prova do banco.
Conseguimos vender as últimas jóias de família, temos um dinheiro aplicado na poupança para passar alguns meses...
- Vou procurar emprego esta semana - completou Solange.
E Eunice também.
A Ione está trabalhando sem receber um tostão.
Somos abençoados.
É por isso que estamos assim, calmas e serenas.
- Também quero ajudar.
- Imagine, mamãe.
Você não tem que fazer nada - protestou Daniel, com veemência.
- Não. Sou uma mulher que aprendeu muita coisa na vida.
Viajei muito com seu pai, conheci muitos países, muitas culturas e estive pensando...
- Em quê? - perguntou Solange, curiosa.
- Em dar aulas.
- Aulas? - os irmãos questionaram em uníssono.
- É. Aulas.
- De quê, mãe? - indagou Daniel.
- Aulas de delicadeza.
- Como assim, mamãe? - quis saber Solange.
- Ora, com tanto conhecimento que tive convivendo com a alta sociedade, posso ensinar uma moça de família a se comportar, cumprimentar uma pessoa, como se sentar, se portar à mesa, escolher talheres, copos etc.
- A senhora foi amiga de Amy Vanderbilt.
Tem até o livro de etiquetas escrito e autografado por ela.
- Sim. Posso tirar muita coisa do livro e adaptar ao jeito brasileiro.
- Mamãe, acho que encontrou a sua vocação - disse Daniel, animado.
- Posso ajudá-la a preparar as aulas, se quiser - completou Solange.
Posso montar as fichas, procurar recortes de revistas, dactilografar manuais.
- Fico feliz que me apoiem.
É muito bom sentir-se útil, ainda mais na minha idade.
- Quero aproveitar o momento para anunciar uma óptima e grande novidade - comunicou Daniel.
- Diga.
- A possibilidade de intermediar a compra do escritório de contabilidade para o meu amigo.
É mais um dinheirinho que poderá entrar e nos ajudar.
Leonor fechou o livro com o marcador.
Em seguida tirou os óculos e os colocou sobre a mesa de centro.
Ajeitou o corpo no sofá.
Solange fez o mesmo.
Fechou o livro de Kardec e soergueu o corpo na poltrona.
Leonor indagou:
- O que pretende fazer?
Não estou entendendo essa novidade.
Não estava para fazer a prova para o banco?
Leonor não era lá fã de novidades e modernidades.
Daniel tentou tranquilizá-la.
- Estava, mãe.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:20 pm

- E o que vem a ser esta novidade, de ser intermediário na compra de um negócio?
- Como assim? - retrucou Solange.
- Olha só - Daniel estava empolgado.
Recebi uma boa proposta.
É para arrendar um escritório modesto, pequeno, no centro da cidade, em São Paulo.
Tem poucos clientes, mas tem potencial.
Era muito mal administrado.
Luís Sérgio percebeu a minha ansiedade, viu que estou aflito para trabalhar, e pediu para eu analisar os documentos, ver se está tudo em ordem e...
Leonor o cortou com doçura:
- Quem lhe fez a proposta, meu filho?
- O Luís Sérgio, mãe.
- Luís Sérgio, filho do Gilberto Pimentel?
- Ele mesmo.
Leonor remexeu-se na cadeira.
- Confia nele?
- Por quê?
Só porque o papai e o pai dele tiveram rusgas no passado?
Luís Sérgio foi o único amigo que não me virou as costas.
Sempre me apoiou, mesmo quando ficamos sem nada.
- É verdade - observou Leonor.
Ele nunca lhe deu as costas.
- Não senti coisa boa - rebateu Solange.
Não gostei de ouvir o nome de Luís Sérgio.
Ele não é flor que se cheire.
- Eu sei bem por quê - devolveu Daniel.
Leonor o censurou:
- Não diga mais nada, por favor.
- Mamãe, ficamos aqui, cheios de dedos.
Solange não é mais uma garotinha.
Está até estudando as leis espirituais, não é mesmo? - provocou, encarando a irmã.
Solange encolheu-se na poltrona.
Leonor olhou para Daniel e em seguida para Solange.
- Ainda sente alguma coisa, filha?
- Não sinto nada - respondeu, seca.
- Mesmo?
- Ora, mamãe.
Por que deveria sentir algo por um pulha?
Solange falou, levantou-se de um salto e subiu correndo para o quarto.
Daniel levantou-se, mas Leonor foi categórica:
- Deixe-a, meu filho.
- Ela não está bem, mamãe.
- Ainda não superou.
- Foi um namorico bobo, sem pretensões.
- Solange pode ser uma menina para a frente, de vanguarda, como se diz.
Mas no fundo é uma romântica incorrigível.
Nunca aceitou o não de Luís Sérgio.
No fundo, é igualzinha a Eunice.
Só que Eunice reagiu de uma forma, e Solange, de outra.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:20 pm

Uma reage com tristeza, a outra reage com raiva.
- Não havia percebido isso.
- Note. Solange tem os mesmos padrões que Eunice.
- Acha então que eu devo evitar o encontro com Luís Sérgio?
São negócios, mamãe.
- Não, de forma alguma.
Vá e, quando possível, traga-o para uma visita.
- Se eu o trouxer aqui, a Solange me mata!
- Será? Não sei.
Gostaria muito de ver a reacção dela.
É muito fácil dizer aos outros o que fazer.
Sua irmã agora está nessa fase.
Diz o que Eunice deve fazer, como eu devo me comportar, o que você deve ler, como Ione deve cozinhar... vamos ver como vai reagir ao se ver frente a frente com Luís Sérgio.
- A senhora é terrível!
Daniel abraçou a mãe com carinho.
- Eu quero vê-lo feliz, meu querido.
Sei que vai ser.
- Gostaria de me apaixonar, contudo, fiquei tão decepcionado com as meninas da nossa cidade, tão fúteis, tão venais.
Só querem saber de carrões, de status, de dinheiro.
- Na hora certa, virá uma moça especial.
Tenho certeza. É só aguardar.
Daniel beijou-lhe a testa e subiu.
Leonor apanhou novamente o romance de Agatha Christie e deixou-se entreter pela leitura.
Jurandir entornou a garrafa de cerveja goela abaixo, largou-a sobre a mesinha de centro e deu um pulo do sofá.
- Você?!
Eugénia fez que não o viu.
Entrou, passou por ele e continuou a conversa com Melissa:
- Eu e seu padrinho resolvemos que você vai morar connosco.
- Vou subir para arrumar minhas coisas! - exclamou Melissa, animada.
Já!
- Nada disso - interveio Jurandir.
Pensa que aqui é a casa da sogra?
Pensão para moças?
Precisa esperar sua mãe chegar do mercado e...
Eugénia o cortou, com o dedo em riste:
- Não se atreva a nos impedir.
Se fizer isso, eu vou directo ao distrito policial.
Darei queixa de você, infeliz.
Jurandir sentiu o sangue sumir, mas tentou argumentar, ocultando o nervosismo na voz:
- Vai prestar queixa de quê?
Não tem provas.
Eugénia o estapeou no rosto.
Ele sentiu a dor e ficou rubro de raiva.
Tinha vontade de revidar, mas pensou melhor.
Já estavam com quase tudo pronto para irem embora e recomeçarem em Niterói.
Para que iria arrumar encrenca e parar numa delegacia?
Não valia a pena.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:20 pm

- Se continuar a me bater, eu é que vou prestar queixa.
- É um imprestável, tia.
Deixe ele. Vou subir.
Eugénia prosseguiu:
- Não tenho provas, mas sou capaz de fazer um belo estrago.
Você nunca mais vai encostar o dedo em uma criança.
Ele deu de ombros:
- Pode levar essa daí - apontou para o alto da escada.
Ela não me serve mais.
Eugénia perdeu o controle e partiu para cima de Jurandir.
Ele tentou se defender, porém a fúria da mulher era imensa, e suas unhas eram bem afiadas.
Conclusão:
Eugénia conseguiu arranhar bastante o rosto dele.
Nesse instante, Penha entrou em casa.
Tentava equilibrar a pequena Telma em um braço e uma sacola de compras no outro.
Ao ver Eugénia estapeando o marido, jogou a sacola no chão, apertou Telma de encontro ao peito e deu um grito:
- Pare! O que é isso?!
Eugénia olhou para o lado, e Jurandir pôde correr.
Foi até Penha e pegou a criança nos braços, que começava a choramingar.
- Como se atreve a encostar o dedo em meu marido?
- Não vou me esforçar para responder - tornou
Eugénia, fisionomia cansada.
- De nada vai adiantar.
Você não quer enxergar a verdade.
Penha estava nervosa e fez nova pergunta:
- Aliás, de onde surgiu?
O que faz em minha casa?
- Vim buscar Melissa.
- Quem lhe deu ordem?
Melissa não sai daqui.
- Pois vai sair.
Jurandir interveio:
- Deixe ela, meu bem.
Eugénia está fora de si.
- Não estou fora de mim - rebateu Eugénia.
Não vou mais deixar você encostar o dedo na minha afilhada.
- O que essa louca está dizendo? - quis saber Penha, sem entender.
- Seu marido abusou de Melissa - Eugénia estava com aquilo entalado na garganta.
Saiu de uma vez.
Penha meneou a cabeça negativamente.
- Estúpida! E você acreditou?
Melissa encheu sua cabeça de caraminholas.
- Nada disso, Penha.
Acorde para a realidade.
Jurandir é um doente.
- Claro que sim! É isso.
Você ficou com dor de cotovelo porque perdeu Jurandir para mim.
Agora quer se vingar, estragar meu casamento.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:20 pm

- Longe disso - Eugénia rebateu.
Fui eu quem terminou com Jurandir.
- Não foi o que ele me disse - Penha replicou e olhou para o marido.
Jurandir balançava o bebé e fez sinal negativo com a cabeça.
Dissimulou, falando baixinho:
- Eugénia nunca aceitou o término de nosso noivado.
Se eu ainda tivesse comigo as cartas que ela me escreveu, implorando para eu voltar aos seus braços... - suspirou.
Eugénia arregalou os olhos:
- É mentira! Tudo mentira!
Jamais escrevi uma linha para você.
Ainda mais implorando para voltar para mim.
Que calúnia!
- Prove - provocou Penha, desafiadora.
- Não! - vociferou Eugénia.
Quem tem que provar é o seu marido.
Jurandir mente - Eugénia aproximou-se de Penha e a segurou pelos braços:
- Pelo amor de Deus, acredite em mim.
Eu não vim até aqui a troco de nada.
- Será que não veio acabar com a nossa paz? - emendou Jurandir.
Não aceitou o nosso término, casou-se com o primeiro paspalho que apareceu.
- É facto - emendou Penha.
Aderbal é um nada, um boçal.
- Não quero mais escutar suas besteiras - encerrou Eugénia.
Melissa desceu as escadas com uma mala.
Penha fuzilou-a com os olhos.
- Agora que preciso de você, que sua irmã nasceu e vamos mudar de cidade e de vida, vai me abandonar, como se aqui fosse um albergue?
- Mãe, você não quis acreditar em mim.
- Ela não quer ver, querida - garantiu Eugénia.
Penha está cega.
Não percebe que está casada com um monstro.
- Monstro que você namorou por bastante tempo - acrescentou Penha com desdém.
- Mãe, eu sou grandinha, quase uma mulher.
- E prefere viver naquele buraco, naquele fim de mundo, em vez de ir viver em outra capital?
Acha que lá no meio do mato vai ter a chance de ser miss ou de ter um futuro promissor? Nunca.
- Não quero pensar nisso agora.
- Ela quer acabar com a gente, Penha.
Quer desarmonizar nosso lar.
Melissa nunca me aceitou como padrasto.
- É verdade - concordou.
Melissa mudou muito desde que casamos.
- Mudei porque...
Eugénia fez não com a cabeça.
- Mudou por quê? - indagou Penha - Vamos, fale.
- Sua filha não vai falar mais nada.
- Pode ir - Penha fez sinal com a mão e abriu a porta.
Vá embora mesmo. De uma vez.
E nunca mais volte.
Se arrepender-se, o problema é seu. Ingrata!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:21 pm

Melissa deixou uma lágrima escorrer pelo canto do olho.
De nada adiantava querer convencer a mãe.
Estava cansada de lutar.
No fundo, gostaria que o relacionamento com Penha não azedasse dessa forma.
O que fazer?
Sua mãe preferia viver em meio à ilusão.
Paciência.
Eugénia ajudou Melissa a carregar a mala.
Quando estavam atravessando o portãozinho, Penha disparou cruel:
- Não soube criar sua filha, deixou Estela morrer.
Você não teve competência para agarrar homem nem para criar filho.
É uma inútil, uma recalcada.
Só espero que também não mate Melissa.
Eugénia abaixou a cabeça e deixou as lágrimas escorrerem.
Melissa abraçou-a.
- Não escute, tia.
Minha mãe não sabe o que diz.
Está enfeitiçada.
Penha prosseguiu com a crueldade:
- Estou cansada de tentarem me derrubar.
Vocês não passam de duas invejosas.
Querem me destruir só porque me dei bem na vida.
Tenho um marido lindo, que me ama, e uma filhinha adorável.
Serei dona do meu próprio negócio, viverei numa cidade bonita, numa capital famosa, perto do mar.
Já você... - finalizou num tom de deboche.
Melissa desfez-se do abraço e subiu os degraus.
Chegou até a soleira e apontou o dedo em riste para a mãe:
- Nunca mais ouse tocar no nome de Estela.
Eu a proíbo!
- Vai me desafiar?
- Não. Eu não discuto com uma mulher venal.
O tapa veio forte. Plaft!
Melissa levou a mão ao rosto e Penha a empurrou:
- Saia daqui.
Nunca mais ponha os pés nesta casa.
De hoje em diante, você morreu para nós.
E faço questão de que você jamais saiba o nosso endereço em Niterói.
Espero que nunca mais nos encontremos nesta vida.
Nunca mais. Suma!
Penha girou nos calcanhares e bateu a porta com força.
Melissa desceu os degrauzinhos em lágrimas.
Abraçou-se a Eugénia e apanhou a mala.
- Obrigada por me salvar.
- Podemos ir à delegacia.
- De que vai adiantar, tia?
As marcas físicas já sumiram, e minha mãe vai desmentir tudo.
Só vai aumentar a vergonha que sinto.
Para que mais constrangimento?
Para nada.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:21 pm

- Pobrezinha - Eugénia a abraçou novamente.
- Sei que morar no sítio não é como viver em Belo Horizonte.
Mas você será amada e não viverá mais sob constante ameaça.
- Isso é o que importa.
Quero viver ao lado da senhora, tio Aderbal e Lina.
- Não me conformo.
Sua mãe não acreditou nem em você, nem em mim.
- Está cega, iludida.
Um dia ela vai acordar e ver quem é o verdadeiro Jurandir.
- Está com fome?
- Um pouco.
Eugénia consultou o relógio.
- Pensei que fosse demorar e comprei passagem para o fim da noite.
- Podemos ir ao cinema.
- Depois de tudo o que presenciei, não é má ideia - ajuntou Eugénia.
Nada melhor que um filme para nos fazer esquecer esses momentos nada agradáveis.
Faz tempo que não assisto a uma sessão.
- Podemos pegar a sessão das seis no Cineteatro Brasil.
Melissa fez sinal e tomaram a condução.
Desceram nas proximidades da Praça Sete de Setembro.
O burburinho de carros e pessoas era surpreendente.
Eugénia olhou para a multidão de gente e para os carros, bondes e ónibus que cruzavam a avenida.
- Tem certeza de que vai se acostumar com a quietude do mato?
- Vou, tia. E a cidade está tão pertinho.
Fazendo um pouco de esforço, dá até para ir a pé.
- Tem razão.
A cidade está bem pertinho do nosso recanto.
- Eu troco toda essa deliciosa bagunça pelo amor de vocês.
Abraçaram-se novamente.
Melissa perguntou:
- A que horas parte o trem?
- Às onze.
Ela deu um pulinho de contentamento.
- Tia, vamos até a confeitaria, fazemos um lanche, depois podemos assistir a Assim caminha a humanidade.
- Ainda está em cartaz?
- Filme bom demora para sair do circuito.
- Tem razão.
- A fita tem duração de três horas.
Há um intervalo de quinze minutos.
A senhora aguenta?
- Aguento, sim.
Deve ser bom, né?
- Eu já vi, tia.
É bom demais da conta!
- E vai ver de novo?
- Claro! É tão lindo!
Sabia que esse foi o último filme do James Dean?...
Eugénia pegou uma alça da mala e Melissa pegou a outra.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:21 pm

Foram conversando, caminhando entre as pessoas.
Eugénia, por um instante, esqueceu-se dos minutos desagradáveis por que passara.
Animou-se com o entusiasmo de Melissa e sorriu, sem deixar de agradecer à sua santa de devoção.
Era bem cedinho.
O sereno da madrugada ainda se fazia presente quando Aderbal e Lina saltaram da caminhonete.
- O trem vai chegar logo?
Aderbal fez sim com a cabeça.
- Vai. Logo.
- Estou com tanta saudade da Melissa.
- Vai ter tempo de matar a saudade.
Vão ficar juntas por muito tempo.
- Ela é como uma irmã para mim, sabia?
- Claro que sabia - ele riu.
Foram caminhando.
Aderbal sentiu uma pontada no peito.
Levou a mão ao local da dor.
- O que foi? - indagou Lina, preocupada.
- Nada.
- O senhor ficou branco feito cera.
- Nada não - Aderbal falou e encostou o corpo na parede.
Fechou os olhos e respirou fundo.
- O senhor não está passando bem.
- Estou, querida.
Não é nada de mais.
Aderbal respirou fundo mais uma vez, soltou o ar e a dor passou.
- Não é nada.
Dorzinha de gente que está ficando velha.
- O senhor não é velho.
- Um pouco.
Já passei dos cinquenta.
- Pode chegar até os cem.
- Não creio.
- Queria que o senhor e dona Eugénia durassem para sempre.
- Infelizmente isso não é possível, minha querida - Aderbal passou delicadamente o dedo no queixo de Lina.
Todos nós vamos morrer um dia, inclusive você.
No seu caso, só quando for bem velhinha.
- A Neide disse que a gente vive e morre muitas vezes.
O senhor também acredita nisso?
Ele deu de ombros.
A dor havia passado, e voltaram a caminhar.
- Tive uma educação católica, porém nunca frequentei a igreja.
Não sou devotado como Eugénia.
Acho muito pouco viver só uma vida.
Não faço ideia do que aconteça depois que nosso coração para.
Mas não consigo imaginar Estela morta.
- Não?
- Não. Ela morreu tão jovenzinha.
Não teve a chance de crescer, namorar, casar, ter filhos.
Se vivemos e morremos muitas vezes, então Estela vai ter a oportunidade de viver o que não teve tempo. É justo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:21 pm

- Meus irmãos também morreram pequenos - ajuntou Lina.
Não acho justo que eles não tenham tido a chance de tomar sorvete ou estudar.
- Tem razão.
Eu achava que Neide pudesse lhe fazer mal...
Lina o cortou.
- Mal? Nunca!
Neide é uma óptima professora e excelente pessoa.
Tem me ensinado coisas que nunca aprenderia na escola.
- Como o quê?
- Como valores, respeito, amor à vida, paciência...
Aderbal passou a mão sobre os cabelos dela.
- Você é especial.
Você foi um grande presente que Deus me deu.
- Digo o mesmo - ela falou e apertou a mão dele, de maneira carinhosa.
Ficaram na plataforma, observando o movimento das pessoas, dos carregadores, até que se ouviu o apito, e logo Eugénia e Melissa saltaram.
Lina e Aderbal apressaram o passo.
Enquanto Eugénia cumprimentava o marido, Melissa abraçava Lina.
- Não sabe como estou feliz de ver você aqui - declarou Lina, sinceramente emocionada.
- Eu também - devolveu Melissa, abraçando-a com carinho e também muito emocionada.
Aderbal caminhou em direcção à mala, porém Lina o deteve.
Abaixou a voz:
- O senhor está cansado.
Não deve fazer esforço.
Ele tentou se desenvencilhar, porém ela foi mais rápida.
Agarrou a mala e foi empurrando.
Aderbal meneou a cabeça para os lados, num sorriso.
- O que tem aqui? - indagou Lina.
Roupas pesadas!
- Não - Melissa correu até ela e pegou uma alça para ajudar a carregar.
É que eu trouxe algumas revistas.
Acha que eu ia deixar para trás a minha colecção?
As duas riram e levaram a mala, cada uma segurando uma alça, até a caminhonete.
Eugénia e Aderbal iam mais atrás, abraçados.
- Viu a felicidade estampada no rosto delas? - perguntou Eugénia.
- Vi. Notei como ficaram felizes.
Você também está com uma boa aparência.
Saiu daqui tão cabisbaixa, para baixo...
Eugénia lembrou-se do dia anterior.
Saíra aflita e ansiosa, querendo chegar o mais rápido possível a Belo Horizonte e arrancar Melissa do convívio com Jurandir.
Ela afastou os pensamentos com a mão e disse:
- Está tudo bem.
- Penha não retrucou?
- Não.
- Estranho.
- Ela acabou de dar à luz - ajuntou Eugénia, tentando desanuviar a desconfiança que queria se instalar na cabeça de Aderbal.
E, de mais a mais, Melissa é praticamente uma mulher.
Precisa nos ajudar a cuidar melhor de Lina.
- Vai ser bom para todo mundo - ele falou e levou novamente a mão ao peito.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 28, 2016 8:22 pm

- Querido, está se sentindo bem?
- Um pouco cansado - ela iria falar, mas ele rebateu rápido:
Quando você sai, fico meio perdido.
- Foi só uma noite.
- Estou acostumado com você, minha velha.
Só com você.
Eles se abraçaram com carinho.
Depois, entraram na caminhonete, as meninas subiram na caçamba, e partiram para a chácara.
Jurandir ligou o aparelho de tevê e bateu nas laterais.
- Porcaria de aparelho! - grunhiu.
- O que foi, meu bem? - perguntou Penha, enquanto trocava a fralda de Telma sobre a mesa da cozinha.
- Esse chuvisco me irrita.
Não consigo ver nada.
- E de que adianta bater no aparelho?
- O pessoal do bar disse que é assim que se faz para melhorar a imagem.
Penha deu de ombros e terminou de vestir a bebé.
Pegou-a nos braços e a levou para o alto.
- Como está linda a minha menina!
Beijou Telma nas bochechas, enquanto a menina esboçava um sorriso.
Jurandir deu mais uma batida na televisão, depois ajustou a antena. Irritado, desligou o aparelho.
- Melhor ler jornal.
Cadé sua bolsa?
- Está na cadeira embaixo da escada - respondeu Penha.
Você vai sair, amor?
- Vou comprar o jornal da noite.
Quer alguma coisa?
- Deixe-me ver...
Estamos quase de mudança.
Bom, o açúcar está no fim.
Pode passar no armazém do seu Ernesto e trazer um pacote?
- Sim.
Jurandir apanhou uns trocados e saiu.
Já estava escuro, mas a noite estava agradável.
O clima era perfeito para um passeio, uma brincadeira de rua.
As crianças do quarteirão jogavam bola, pulavam corda, brincavam animadas.
Os mais velhos estavam sentados em cadeiras confortáveis, alguns na calçada, outros na varanda.
Jurandir cumprimentou a todos.
Uma das vizinhas o chamou:
- Venha cá.
Ele foi e ela perguntou:
- Eu vi Melissa sair de mala e cuia.
Estava acompanhada por uma mulher que não conhecemos.
- É a madrinha dela - esclareceu.
- Hum. Ela vai ficar fora muito tempo?
- Vai, sim, senhora.
- Sei. E você?
Vai aonde?
- A Penha pediu para eu ir ao armazém comprar açúcar.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:33 pm

E também quero ver se já saiu o jornal da noite.
Gosto de estar por dentro das notícias.
A mulher sorriu, embevecida.
Achava - ela e todas as mulheres do quarteirão - Jurandir um homem fino, elegante e muito bonito.
Um pão, como se dizia na época.
Ele viu uma menina, com cerca de dez anos de idade, pulando corda.
Conforme ela saltava, a saia levantava.
Ninguém notava, pois estavam todos envolvidos na brincadeira.
No entanto, os olhos de Jurandir cravaram as perninhas da garota.
Ele mordiscou os lábios.
Ficou tonto de prazer, mas pensou na filhinha e controlou os impulsos.
Não. Eu consigo me controlar.
Não preciso disso, pensou.
Mas ouviu uma voz lhe perguntar:
- Por que se controlar?
Vai deixar de brincar?
Vai fazer o que com o desejo reprimido? Explodir?
Não posso. Não quero. - respondeu Jurandir em pensamento.
- Bobagem.
Você vai mudar de cidade.
Ninguém mais vai saber de você.
Aproveite. Encare como uma despedida - insistiu a voz.
Jurandir passou a língua pelos lábios.
Sentiu as pernas fraquejarem e uma onda de prazer esquentar-lhe o corpo.
A senhora não percebeu e fez mais uma pergunta, contudo, nesse momento Jurandir já havia atravessado a rua e nem prestou atenção no que ela dissera.
Ela cutucou o marido, na outra cadeira:
- Penha é uma mulher de sorte.
Tem um homem que vale por mil.
Nunca vi um esposo tão dedicado.
Você bem que podia se espelhar nele.
- Eu?! Por que eu, uai?
- Porque você não levanta esse traseiro da cadeira por nada.
Quantas vezes pedi para você ir até o armazém comprar...
Enquanto eles discutiam, Jurandir dobrava a esquina.
A cabeça fervilhava com as cenas da garotinha pulando corda, a calcinha aparecendo...
Nuvens escuras o envolviam.
Ele comprou o jornal e, quando ia entrar no armazém, viu outra garota, parecida com a que pulava corda, dobrando o outro quarteirão.
Jurandir não comprou o açúcar.
Pegou as notas e trocou-as por balas e chocolates.
Saiu do armazém a passos rápidos.
Atravessou a rua e viu a menina subir no ónibus.
Correu, fez sinal para o motorista e subiu.
Pagou a passagem e sentou-se ao lado dela.
Esperou um pouco e, com voz macia e jeitos milimetricamente estudados, ofereceu a ela as balas e os chocolates.
Enquanto a menina, sorriso cativante, apreciava os doces, Jurandir tinha em mente os pensamentos mais sórdidos e doentes.
Hoje eu vou me dar bem - pensou, atormentado.
Só hoje. É a minha despedida.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:34 pm

Os dias passavam rápidos, divertidos e leves.
Tudo era motivo de alegria.
As meninas estavam sempre grudadas.
Melissa ajudava nos afazeres domésticos, poupando a tia dos trabalhos pesados.
Lina a auxiliava.
À tarde, enquanto Lina estudava com Neide, Melissa e Eugénia folheavam as revistas que ela levara na bagagem.
- Olhe, tia.
Essa é a nova Miss Brasil. Adalgisa Colombo.
- Linda.
- De morrer! - suspirou.
- Pena que você não pôde assistir ao evento pela televisão.
- Não tem problema.
Ouvimos pelo rádio, e a senhora me comprou a edição especial da revista.
Estou feliz do mesmo jeito.
Foi como se eu tivesse assistido.
Eugénia folheou mais uma página.
Melissa conhecia tudo e falava com naturalidade, explicando os concursos de beleza feminina, suas etapas, condições etc.
- Você gosta mesmo desses concursos?
- Adoro, tia.
O meu sonho é poder participar de um concurso de miss.
- Como funciona?
Melissa explicou, com detalhes, todo o processo.
Ao finalizar, Eugénia lançou nova pergunta:
- Por que não tenta o concurso do clube, na cidade?
- Porque esse tipo de concurso requer prática e habilidade, tia.
- Pode começar a treinar em concursos menores.
- Tio Aderbal não seria contra?
- Claro que não.
Estamos falando de um concurso de beleza.
Por que seria contra?
Melissa deu de ombros.
- É que lá em casa mamãe sempre disse que é uma actividade de moças sem juízo, coisa de mulher venal.
Ela me chamou de pecadora e tudo o mais.
- Um concurso que enaltece a beleza não pode ser pecaminoso.
- Bom que a senhora pense diferente.
- Vamos esperar a aula acabar.
Neide conhece o pessoal da cidade e poderá nos dar dicas.
A moça exultou de alegria.
- Eu ficaria muito feliz!
- Vamos fazer um bolo.
Você me ajuda?
- Claro, tia. Será um prazer.
Passaram da varanda para a cozinha.
As meninas terminavam a aula.
Lina levantou-se e abriu um largo sorriso.
- Eu já sei ler sem tropeçar.
Querem que eu leia?
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:34 pm

- Sim - responderam Eugénia e Melissa, juntas.
Lina apanhou o livro e leu: A Terra, o planeta que nós habitamos, é um astro.
É um dos nove planetas do nosso sistema solar.
Ocupa o terceiro lugar em afastamento do Sol, e o quinto, em tamanho.
- Leu sem derrapar! - exclamou Melissa.
- Está aprendendo direitinho - emendou Eugénia.
- Lina tem facilidade para aprender.
Como tem gosto por geografia, estou ensinando-a a ler com este livro - apontou.
- Logo poderei ingressar no ginásio e depois cursar o científico.
- Não consegui trazer na bagagem os livros da escola que lhe prometi.
- Não tem problema, Melissa.
A Neide comentou que a biblioteca da escola é pequena, mas tem bons livros.
Poderei usá-los desde que cuide deles direitinho.
- Isso mesmo - apoiou Neide.
Eugénia as convidou:
- Nós vamos fazer um bolo de fubá.
- Preciso ir - disse Neide.
- Por favor, não vá. Fique - pediu Lina.
- Tenho de corrigir provas para a escola e depois me preparar para o atendimento no barracão.
- Eu queria dar uma palavrinha com você, Neide.
Pode ser?
- Claro, Melissa. O que é?
- Eu gostaria de participar de um concurso de beleza.
Se é que tem algum na cidade...
- Claro que tem.
As inscrições começam semana que vem.
Melissa mordiscou os lábios, ansiosa.
Eugénia interveio:
- Não disse que Neide conhece tudo e todos?
- Mais ou menos - tornou Neide, num gracejo.
- Eu preciso de uma professora que me ensine boas maneiras, me ensine a desfilar.
Será que tem uma professora assim aqui na cidade?
- Tem.
- Quem é? - indagou Eugénia.
- Dona Leonor Pereira do Couto - respondeu Neide, prontamente.
- Dona Leonor?
A que mudou para o casarão?
- É, sim.
- Por que daria aulas? - quis saber Eugénia.
- Deve ter dinheiro. Bastante.
- Depois que o marido faleceu - redarguiu Neide -, dona Leonor descobriu que estava falida.
- Que pena!
- Um de seus filhos, Daniel, está em São Paulo.
Fez a prova para o Banco do Brasil e está aguardando ser chamado para trabalhar.
Nesse meio-tempo, está ajudando um amigo a concretizar a compra de um negócio.
É um rapaz de boa índole, está empenhado em recomeçar do zero, tem garra e vontade de vencer na vida.
- Dona Leonor tem mais filhos?
- Duas filhas, dona Eugénia - assentiu Neide.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:34 pm

- Eunice e Solange.
As duas estão procurando emprego.
Solange, no entanto, vai prestar concurso para preencher vaga na escola em que lecciono.
Ela se formou professora.
Eunice está tentando uma vaga no hospital.
- Meninas esforçadas, pelo jeito - rebateu Eugénia.
Entretanto, eles não ficaram na miséria.
- Não ficaram na miséria, mas tinham um padrão de vida de gente bem rica, muito além do que podemos imaginar.
É muito difícil adaptar-se com bem menos.
- Eu sempre vivi com tão pouco. Nunca reclamei - considerou Lina.
- Vivemos de acordo com o que acreditamos.
Cada um é responsável por si e vai viver as experiências necessárias para aprimorar o espírito.
Dona Leonor ficou durante anos presa aos conceitos rígidos da sociedade.
Mudou bastante sua maneira de encarar a vida, e seus filhos também estão tendo a oportunidade de ver a vida com outros olhos, dando outro sentido à jornada de cada um - completou Neide.
- Como pode?
Ter tudo de mão beijada e de repente perder assim...
- São experiências para fortalecer o espírito, dona Eugénia.
Quanto mais me deparo com essas situações, mais acredito em reencarnação.
- Difícil acreditar.
Será mesmo?
Tenho tantas dúvidas.
Neide aproximou-se e pousou a mão sobre o braço de Eugénia.
- No fundo, a senhora sabe que somos eternos e vivemos várias vidas.
Por questões de crença, prefere não investigar, estudar e entender melhor as leis que regem a vida.
A modulação da voz de Neide estava levemente alterada.
Lina sabia que ela estava com alguma presença espiritual, pois, quando Neide falava nesse tom, sentia-se um aroma floral no recinto.
- Dona Eugénia - acrescentou Lina -, a senhora não diz que, quando morrer, vai encontrar a Estela?
- Tenho fé que sim.
- Pois, então.
A Neide tem me falado muita coisa bonita durante as aulas.
- Depois você também me ensina? - pediu Melissa.
- Claro - Neide voltou à mesa, abriu a bolsa, apanhou um exemplar de O Livro dos Espíritos e o colocou nas mãos de Melissa.
- Leia. Este livro vai tirar muitas dúvidas que assolam sua mente e perturbam seu sono.
Sei que passou por momentos difíceis, constrangedores.
Você fez escolhas inteligentes, avançou etapas e procurou não passar mais pela dor.
Venceu. Mas a vida só nos traz essas experiências para nosso espírito amadurecer.
Melissa não movia um músculo.
Eugénia estava surpresa, pois nunca conversara com Neide sobre os problemas íntimos de família, somente os assuntos superficiais.
Neide concluiu:
- Agora sua vida vai tomar outro rumo.
Você vai ser muito feliz e vai realizar alguns sonhos.
Melissa segurou o livro e abraçou-a.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho.
- Obrigada, Neide.
Do fundo do meu coração.
- De nada, querida.
Bom, mudando de assunto, eu vou conversar com dona Leonor sobre as aulas de boas maneiras e postura.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:34 pm

Ao longo da semana, trarei as novidades.
Neide despediu-se de Melissa e Eugénia.
Ao passar a mão sobre os cabelos de Lina, estremeceu.
Teve uma visão.
Respirou fundo, abriu e fechou os olhos.
- Minha querida, precisa ser firme em seus propósitos.
Não se deixe levar pela vingança, tampouco pelo comentário maledicente dos outros.
Esse tipo de sentimento distorce nosso senso de realidade e nos afasta do nosso objectivo de vida.
Você é uma menina bonita, inteligente e tem tudo para vencer.
Reflicta sobre isso - falou, apanhou a bolsa, os livros e saiu.
Melissa sentou-se e folheou o livro.
Lina moveu a cabeça para os lados.
- A Neide fala cada coisa sem nexo!
E eu sou de me deixar levar pela vingança?
Eu já vinguei a morte dos meus pais e do meu irmão.
O Jurandir não vai mais atrapalhar a vida da Melissa.
Não sei por que me deixaria levar pela vingança.
De quê? Contra quem?
- Ainda é uma mocinha - ajuntou Eugénia.
- Talvez Neide tenha lhe dado um recado para o futuro.
- Não entendi.
- Não tem problema - Eugénia riu.
Um dia vai lembrar.
Agora que a senhorita já sabe ler, quer me ajudar a preparar o bolo?
- Sim, senhora.
- Pegue no armário um punhado de erva-doce.
Vamos.
- Mãos à obra!
Neide estava saindo da escola quando encontrou Solange.
Cumprimentaram-se e Solange disse, alegre:
- Fui aprovada!
- Que beleza!
- Começarei a leccionar no próximo semestre.
- Isso é muito bom. Parabéns!
- Obrigada.
- Noto uma leve preocupação em seu semblante.
- Não consigo esconder - Solange riu, nervosa.
- Não consegue.
Você é um livro aberto, Solange.
Suas energias são tão claras, tão transparentes.
Não há como esconder o que sente.
- Isso é bom ou ruim?
- Nem bom nem ruim.
Simplesmente é.
Você não é de fingimentos.
- Meu irmão está de amizade com um rapaz que não tem boa índole.
A energia dele não é boa.
Tenho medo que Daniel se dê mal.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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