Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:34 pm

Neide fechou os olhos por um instante e, ao abri-los, falou com modulação de voz alterada:
- Não se envolva com assuntos que não lhe competem.
Está pegando carga negativa dos outros de graça.
- Não é isso.
É que eu conheço a fama do Luís Sérgio.
Ele não tem carácter.
- Você o está julgando.
Quem é você para julgar?
Ele vai participar da sua vida? - enfatizou.
- Não, mas vai participar da vida do meu irmão.
Eu me preocupo com Daniel.
- Seu irmão é bem crescidinho para cuidar de si mesmo.
- Mas se algo ruim vier a acontecer...
- Não acredita no poder de Deus?
Agora tem que controlar tudo?
Quem você acha que é?
Só porque leu um punhado de livros sobre espiritismo e espiritualidade em geral acredita que pode resolver as dores do próximo e consertar o mundo?
Que pretensão é essa, Solange?
- Não é isso.
- Claro que é.
Cuide de si, dos seus pensamentos, do que sente.
Preste atenção em seus sentimentos, não dê atenção aos pensamentos negativos, espante-os.
Faça uma selecção dos pensamentos que chegam até sua mente e escolha ficar com os bons.
Isso, sim, é o que lhe compete.
Agora, preocupar-se com os outros, com o que vai acontecer, é querer ser Deus, ser a maravilhosa, ser a salvadora da família.
Não queira ser mártir, senão você vai acabar como uma.
- Bom...
- Todo mártir acaba mal.
Bem mal. É o que você quer?
- Não! - protestou com veemência.
Quero ser feliz.
- Então trate de cuidar da sua vida.
- E quanto ao meu irmão?
Não devo alertá-lo?
- Alertá-lo de quê?
Cada um é responsável por si.
E vamos entrar fundo na frase de Émile Coué:
Todos os dias, sob todos os pontos de vista, eu vou cada vez melhor.
- Tem razão.
Estou lendo tanto, estudando tanto e, no fim das contas, colocando nada em prática.
- Pôr em prática requer muito treino e habilidade.
É um exercício diário e constante, querida.
Solange fechou os olhos, soltou os braços e mentalizou a frase, pronunciando palavra por palavra.
Depois, exalou profundo suspiro.
Neide a levou até uma salinha vazia e ministrou-lhe um passe.
Solange sentiu como se fosse tirada uma tonelada de seu corpo.
- Nossa! Estou me sentindo tão leve.
Não imaginei que estivesse tão pesada.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:35 pm

- Mas estava.
Meu guia está dizendo que suas formas-pensamento têm ficado muito densas porque se preocupa demais com os outros.
- Depois que passei a estudar sobre o mundo espiritual, senti a necessidade de proteger, de defender a minha família.
Minha mãe e meus irmãos não entendem muito do assunto.
- E deu para ser a heroína que vai ficar sempre de prontidão para salvá-los de todos os males?
Solange baixou os olhos envergonhada.
- Tento fazer o meu melhor.
- O seu melhor é cuidar de si mesma.
- Isso é egoísmo.
- Não. Egoísmo é querer que os outros cuidem de você, que o mundo lhe dê atenção e lhe faça todas as vontades.
Isso, sim, é egoísmo.
Agora, cuidar de si, valorizar o que sente, ligar-se na luz e promover a paz interior é um dever e uma responsabilidade de cada um de nós.
Se conseguir fazer uma pequena parte que seja deste trabalho, já estará dando um grande passo rumo ao seu crescimento espiritual.
Solange fez que ouviu e tentou defender-se:
- Eunice ficou muitos anos sofrendo com interferências espirituais negativas.
- Tudo aconteceu para que ela pudesse amadurecer e tornar-se mais forte.
A vida não desperdiça oportunidades.
Cada um passa por aquilo que precisa para livrar-se de crenças que atrapalham o crescimento e emperram a felicidade.
- Daniel está muito próximo de Luís Sérgio.
Não gosto dessa amizade.
- Por que será?
- Já disse.
A amizade de Luís Sérgio não é boa para meu irmão. Eu sinto.
- O que você sente é pessoal, não tem nada a ver com energia ruim.
- Claro que tem.
- Você é uma moça inteligente e lúcida, Solange.
Sinto que é uma moça de bom coração, generosa e boa amiga.
Entretanto, é humana, tem sentimentos e, bem sei, sentir-se desprezada não faz bem a ninguém.
Os olhos de Solange arregalaram num primeiro momento, depois embaciaram.
Ela levou as mãos ao rosto e o cobriu, chorosa.
- Desculpe-me, Neide.
Eu me faço de forte.
Procuro ser uma moça inteligente, bem-humorada, alegre, boa filha, boa irmã.
Meu coração anda em frangalhos e tentei ocultar esse peso preocupando-me com a família...
- Acreditando que, com a preocupação familiar, esse sentimento ruim iria dissipar-se.
- É.
- E ele não foi embora.
Dá para perceber.
É só olhar para a coloração de sua aura.
Você tenta passar a imagem de uma moça alegre e bem resolvida, mas está triste e desiludida.
- Para mim, o amor não existe.
- Como não?
Só porque recebeu um não de Luís Sérgio?
Solange arregalou novamente os olhos.
- Como sabe disso?!
- Não interessa.
Está claro que a aversão que sente por ele é pessoal, é por despeito.
Ele não é um rapaz de má índole.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:35 pm

Simplesmente não quis cortejá-la, e você ficou tremendamente magoada e ferida em seus sentimentos.
- É verdade.
Nunca fui tão humilhada em toda a minha vida.
- Não seja tão dramática.
Luís Sérgio simplesmente não se sentiu atraído por você.
Acontece. Você precisa entender.
- Levei um fora e ainda deveria entender?
Essa é boa!
- Sim. Por que agora você tem de ser o centro das atenções?
Solange não respondeu de pronto.
A respiração ficou entrecortada.
De facto, Neide tinha razão.
Luís Sérgio tinha lá seu jeito espertalhão de ser, gostava de tirar vantagens das situações, mas não era mau carácter.
Ela estava exagerando, iria rebater, porém, Neide prosseguiu:
- Você é igualzinha a Eunice.
- Jamais!
Nunca seria igual a minha irmã!
- É sim. Igual.
Por isso nasceram na mesma família.
Solange iria falar, mas Neide a cortou:
- Ocorre que Eunice é dramática e triste.
Preferiu entregar-se à depressão e não reagiu.
Deixou-se levar pelos caminhos tortuosos da obsessão, atraindo amigos infelizes que vibravam no mesmo teor energético que ela.
Você reagiu na raiva, no ódio.
- É facto. Não deixo nenhum homem se aproximar de mim.
Sinto raiva só de perceber que estou sendo cortejada.
- Porque acha que vai ser rejeitada novamente.
- Sim - Solange continuava chorosa.
- Esse é um padrão de defesa que você criou.
Seu espírito atraiu Luís Sérgio para que pudesse fortalecer seu amor-próprio, sua auto-estima.
Qual é o problema de escutar um não?
Por acaso você gosta de todas as pessoas que conheceu nesta vida?
- Não, claro que não!
Tem pessoas com as quais me afinizo, outras não; tem gente por quem também não nutro simpatia alguma.
- Por que Luís Sérgio deveria gostar de você?
Solange não soube responder de pronto.
- Pense e reflicta, querida.
Não culpe o mundo por sua infelicidade.
Assuma a responsabilidade por suas fraquezas e reaja.
A vida está estimulando sua inteligência para que você se liberte das ilusões que distorcem a realidade e abra caminho para atingir a verdadeira felicidade.
- Não quero sofrer.
- Tudo depende do modo como você vê a vida.
É só uma questão de interpretação.
Leia mais, pesquise mais e peça ajuda para que amigos espirituais inspirem você a encontrar respostas que serenem seu coração.
- Prometo que vou fazer isso.
- Óptimo. Agora vamos.
Tenho muita gente para atender hoje.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:35 pm

- Importa-se de eu ir com você ao seu barracão?
- De forma alguma. Será um prazer.
- Vou passar em casa e avisar.
Você vem comigo?
Aproveitamos e fazemos um lanche rápido.
- Está bem.
Na semana seguinte, Neide chegou com a boa-nova:
dona Leonor estava disposta a dar aulas para Melissa.
- Estou muito feliz, mas também um pouco desanimada.
- Não entendi. Por que o desânimo?
- Porque - ela baixou o tom da voz - não tenho dinheiro.
- Podia pedir para dona Eugénia - interveio Lina.
- Não. Eu já moro aqui de graça.
Ademais, tio Aderbal não tem tantos recursos.
- É verdade - ajuntou Lina.
- Você pode conversar com dona Leonor e oferecer algo em troca das aulas - sugeriu Neide.
- Como o quê?
O que uma mulher tão refinada como dona Leonor vai querer de mim?
- Ora, dona Leonor perdeu praticamente toda sua fortuna.
Foi obrigada a se desfazer de todos os seus bens e só lhe sobrou o imóvel aqui na cidade.
Só tem uma empregada, embora o casarão precise de mais empregados, porque é grande demais.
Ione já está com certa idade e não consegue dar conta de tudo.
- Eu não tenho medo de trabalho - respondeu Melissa.
Faço qualquer coisa para me tornar mais culta, mais refinada.
Será que dona Leonor aceitaria que eu fizesse faxina na casa dela, ajudasse a empregada, em troca das aulas?
- A minha intuição diz que sim - tranquilizou Neide.
Mas vou adiantar o assunto com ela hoje à tarde.
Tudo bem assim?
Melissa abraçou-a.
- Não tem ideia de como fico feliz.
Quando poderemos ir até lá para conversar?
- Dona Leonor pediu que você fosse conversar com ela amanhã, às dez da manhã.
- Eu sei onde fica o casarão.
Estarei lá no horário.
- Que bom!
Dona Leonor não gosta de atrasos.
Se chegar na hora marcada, vai ganhar pontos.
- Eu posso ir junto? - indagou Lina.
- Receio que não - respondeu Melissa, voz triste.
- Melhor você ficar aqui e ajudar a madrinha.
Afinal, tio Aderbal não tem passado muito bem.
- Ele precisa procurar um médico.
Urgente - avisou Neide.
Há um espírito aqui, em forma de mulher, que me pede para lhes dizer isso.
Seu Aderbal precisa ir ao médico, caso contrário, o corpo físico dele não vai suportar.
Lina levou a mão à boca, e Melissa deu um passo para trás.
- Está dizendo que tem um espírito aqui? - quis saber, olhando para os lados.
- Sim.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:35 pm

- E fala dessa maneira?
- De que maneira?
- Ora, Neide.
Para você, parece que é tudo tão natural.
- E é. Você não começou a ler O Livro dos Espíritos?
- Dei uma folheada.
- Leia com atenção.
Verá que não há nada de anormal em acreditar na existência dos espíritos.
Ao contrário, só ajuda a esclarecer uma série de fenómenos que a ciência ainda desconhece.
Ainda haverá um tempo em que o assunto será tratado de maneira totalmente natural.
- Tenho medo.
- Porquê?
- Medo de ser perseguida, de puxarem a coberta da cama, por exemplo.
Neide sorriu.
- Não há razão para ter medo.
Os vivos são mais perigosos.
Os mortos podem, obviamente, incomodar-nos com suas energias, boas ou ruins.
Das duas, uma:
ou você vai sentir boas sensações, ou mal-estar. Mais nada.
- Eu também tenho mais medo dos vivos - interveio Lina.
Conheci gente muito ruim neste mundo.
Neide sentiu pequena tontura.
Percebeu uma coloração escura atrás de Lina.
Imediatamente pediu para as meninas lhe darem as mãos.
Em seguida, fez uma oração.
A nuvenzinha escura sumiu e, quando abriram os olhos, Melissa perguntou:
- O que aconteceu?
- Nada - respondeu Neide.
Fiz uma oração para melhorar a energia do ambiente - e, virando-se para Lina, tornou, séria:
- Não guarde rancor no coração.
O que passou, passou.
Se viveu situações desagradáveis, foi porque o seu espírito precisava dessa experiência para crescer.
Perdoe seus inimigos.
Lina estremeceu e permaneceu muda.
Pensou nos dois homens que fora obrigada a matar para sobreviver.
Neide prosseguiu:
- Você se defendeu, fez o seu melhor.
Como ainda é radical e tem atitudes extremistas, atraiu uma situação de vida ou morte, bem extrema, em que não havia alternativa senão matar ou morrer.
Caso contrário, não estaria aqui, agora.
Pense:
a morte não é o fim, e eles não entendem direito o que aconteceu.
Um deles, muito perturbado, acredita piamente que você é a culpada pela infelicidade dele.
Ainda se encontra em um nível de entendimento muito pequeno da vida.
A melhor maneira de ficar longe dessas energias é praticar o perdão, o desapego.
Liberte-se do passado.
Você agora está em outra etapa, vivendo outras experiências, interagindo com outras pessoas.
Abençoe a sua vida e tudo ficará melhor.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:36 pm

Lina fez sim com a cabeça, e Melissa apertou sua mão, como a lhe transmitir forças.
- Coragem, amiga.
Estou do seu lado.
- Sim - respondeu Lina, acabrunhada.
Não quero mais me lembrar das coisas tristes que aconteceram.
É que elas ficam presas na minha cabeça.
Vira e mexe, aparecem e me atormentam.
Neide prosseguiu:
- Seja mais forte.
Você precisa dominar a sua mente, não o contrário.
Este é um dos grandes exercícios que a reencarnação nos proporciona.
Aprenda a ser dona das suas vontades.
- Tem razão - concordou.
Saí do sertão sem eira nem beira.
Sobrevivi e fui acolhida com carinho por um casal que me trata como filha.
E ainda ganhei uma irmã - disse emocionada, olhando para Melissa.
- Pense nessas coisas boas que a vida lhe deu - concluiu Neide.
Quando pensamos no bem e permanecemos no bem, o mal não pode nos alcançar.
Não há como. As energias são tão distintas como óleo e vinagre.
Não se misturam - ela consultou o relógio e despediu-se:
- Preciso ir. Lina, não deixe de resolver as equações e Melissa, por favor, chegue na hora.
As duas fizeram sim com a cabeça.
Neide foi embora, e Melissa indagou:
- Você ainda tem raiva daqueles homens?
- Um pouco.
- Ainda sinto raiva do Jurandir.
Por que é tão difícil perdoar quem nos fez mal?
Lina não respondeu.
Abraçaram-se e foram continuar suas tarefas.
À noite, quando elas se deitaram, fizeram suas orações.
Disseram boa-noite uma para a outra e adormeceram.
No meio da madrugada, Lina desprendeu-se do corpo.
Abriu os olhos perispirituais e viu Maruska com outro espírito ao lado da cama.
Sorriu e levantou-se.
- Maruska! Que saudades!
Abraçaram-se. Maruska apresentou o amigo:
- Este é Estêvão, um amigo de Melissa.
Lina o cumprimentou e, ao tocarem as mãos, ela sentiu um choquinho.
Puxou a mão para si.
- Ui!
- É a emoção do reencontro - tornou Estêvão, emocionado.
- O seu rosto não me é estranho - observou Lina.
- Estêvão mantém a aparência de duas vidas atrás - considerou Maruska.
Foi uma encarnação que o marcou positivamente.
- Por quê? - quis saber Lina.
Você não foi feliz na última vida?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:36 pm

Ele meneou a cabeça negativamente:
- Não. Não fui.
Cometi muitos desatinos e tento minimizar os danos da minha desatenção.
Eu deveria ser mais firme com pessoas queridas e não fui - explicou, enquanto seus olhos pousavam sobre o corpo adormecido de Melissa, na outra cama.
- Você gosta da Melissa, né?
- Gosto. É um amor diferente, fraternal, puro, incondicional - Estêvão falava tentando ocultar a emoção.
Reencontrar Lina havia lhe despertado emoções havia muito adormecidas.
Sentia também grande carinho por ela.
- Passei o dia sentindo um peso estranho.
Estou com algum problema?
- Não - respondeu Maruska.
- Alguém que não gosto está ligado em mim?
Estêvão pigarreou e elucidou:
- Há um espírito que tenta se aproximar para influenciá-la de maneira negativa.
- Só pode ser um dos homens que... - ela não concluiu.
- Não importa, por ora - aquiesceu Estêvão.
- Precisa fortalecer seu pensamento no bem para afastar essas energias ruins.
- Só isso?
Ele riu.
- Ficar ligado apenas no bem é um trabalho árduo para o encarnado.
O planeta está cheio de energias densas, formas-pensamento negativas que rondam o ambiente, esperando o momento certo para influenciar as pessoas.
- Qual é o momento?
- Quando ficamos com raiva, tristes, magoados ou chateados.
Tudo o que faz você se sentir mal é porta aberta para essas energias atrapalharem seu corpo mental.
Não aceite essas ideias negativas.
Empurre-as de sua mente.
Diga: Este pensamento não é meu.
Defenda-se, oras.
Maruska interveio:
- Haverá mudanças, logo mais.
- Que mudanças? Boas ou ruins?
- Mudanças, simplesmente.
Você é que irá classificá-las como boas ou ruins.
Tudo depende da maneira como enxergamos os desafios que a vida nos impõe.
A sua vida vai mudar, assim como a de Melissa.
- Não gosto de mudanças.
- Não adianta gostar ou não gostar.
A vida trabalha independentemente de nossos gostos.
Os desafios são impostos para o nosso crescimento.
Só lhe peço que não se deixe levar pela conversa dos outros.
Ouça sempre o seu coração, em primeiro lugar.
Será que consegue compreender?
- Sim. Sei que ouvir a mim mesma é um grande exercício.
Em todo caso, vou me lembrar disso ao acordar?
- Por certo.
Não toda nossa conversa, mas haverá sensações que vão inspirá-la a tomar as melhores decisões.
Agora eu e Estêvão precisamos ir.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:36 pm

- Já?
- Logo vai amanhecer.
Está na nossa hora.
Despediram-se e, ao tocar a mão de Estêvão, Lina sentiu novo choquinho.
Eles riram, ela voltou à cama e deitou-se.
Maruska passou delicadamente a mão sobre a testa de Melissa.
Estêvão abaixou-se e sussurrou no ouvido dela:
- Querida, não tenha medo.
Tudo vai dar certo.
Doveriye zhizrí.
- Isso mesmo - sorriu Maruska.
Confie na vida - repetiu as mesmas palavras, agora em português.
Beijaram-na e partiram.
Na manhã seguinte, Lina despertou e, ao abrir os olhos, sentiu tremendo bem-estar.
Levantou-se, aproximou-se da cama de Melissa e cutucou-a com delicadeza.
- Hora de acordar.
Melissa revirou-se na cama, bocejou e esfregou os olhos.
- Já?
- É cedo, mas hoje é um dia especial.
Você vai à casa de dona Leonor.
Não está ansiosa?
Melissa abriu os olhos e sentou-se.
Enquanto se espreguiçava, falou:
- Olha, eu tinha certeza de que demoraria para pegar no sono.
E tinha também certeza de que acordaria louca para levantar da cama e me arrumar para o primeiro encontro.
Contudo - ela passou a mão na testa -, é estranho...
- O que é estranho?
- Eu me sinto tão calma, tão serena.
É como se toda a ansiedade tivesse sido arrancada do meu corpo.
Sabe, sonhei com um moço bonito.
Ele passou a mão na minha testa e disse para eu não ter medo.
Que tudo ia dar certo.
Para eu confiar na vida.
- Eu não me lembro de ter sonhado.
Ontem senti o corpo pesado, cansado, mas acordei bem, estou me sentindo disposta.
Você vai à casa de dona Leonor, e eu vou ajudar dona Eugénia com o almoço.
Tem um monte de roupa para lavar e passar.
- Neide vem a que horas?
- Depois do almoço.
- Vai dar tempo de lavar as roupas?
- Claro. Ainda é bem cedinho.
Depois do café, vou terminar a lição de casa.
Agora precisamos arrumar um vestido bem bonito.
Lina pensou e abriu o guarda-roupa.
Havia um vestido com estampa florida.
Ela o apanhou:
- Este vestido é perfeito.
O que acha?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:36 pm

- Não sei - Melissa hesitou. - É da Estela.
- Não! - Lina desfez a confusão.
Este é de dona Eugénia.
Você já está com corpão de mulher - Melissa riu - e os vestidos de Estela não lhe servem mais.
Ainda servem para mim, mas para você, não.
- Não sei se a madrinha vai gostar.
- Vamos perguntar.
Não custa nada.
- Tem razão.
Elas fizeram a toalete e foram para a cozinha.
Eugénia e Aderbal ainda não haviam acordado.
Procuraram manter silêncio.
Melissa preparou o café.
Lina foi ao barracão separar as roupas.
Acendeu o fogo, preparou as roupas brancas para fervura.
Voltou à cozinha e Eugénia estava à mesa.
- Bom dia!
- Bom dia, Lina.
Acordaram cedo.
- Temos muito o que fazer hoje, dona Eugénia.
A Melissa vai sair logo mais e...
Eugénia a cortou:
- Não gosto dessa ideia.
- Por quê, tia? - indagou Melissa, enquanto coava o café.
- Porque não acho certo.
Você vai ser empregada de dona Leonor?
- E o que é que tem? - ela deu de ombros.
Ela vai me ensinar uma porção de coisas.
- Eu conversei com Aderbal ontem à noite.
Ele concorda que paguemos uma pequena quantia, ou que a gente ofereça produtos aqui do sítio, leite, coalhada fresca, ovos, verduras, legumes...
- De jeito maneira, tia.
Sou jovem e não tenho medo, tampouco vergonha, de trabalhar, seja no que for.
Vou aprender uma porção de coisas, vou ser independente, ganhar dinheiro e vou ampará-la, sempre.
Eugénia emocionou-se com o carinho:
- Vocês duas são como filhas para mim.
- Sabemos disso - observou Melissa.
- Dona Eugénia - interveio Lina -, podemos pegar aquele seu vestido florido que está no guarda-roupa da Estela para a Melissa usar?
- Claro! Mas será que cabe?
Melissa é bem mais esbelta.
Melissa mordiscou os lábios.
- Tia, não quero dar trabalho.
- De forma alguma.
Você trouxe poucas roupas de casa.
- Eu tenho outros dois vestidos que nunca usei - tornou Eugénia.
Não tenho o corpo lindo que você tem, mas, se precisar fazer ajustes, a Lina costura como ninguém.
- Isso é. Eu sou bem rápida.
Ajusto num minuto!
- Obrigada pelo apoio, Lina.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 29, 2016 8:36 pm

Melissa levou o bule fumegante até a mesa e beijou Eugénia na bochecha.
- Madrinha, não sei como agradecer.
- Não disse que vai me amparar?
Pois, então!
Caíram na risada.
Aderbal entrou sorridente:
- Qual é a piada?
- Nada, tio. Assuntos de meninas!
Ele as cumprimentou e se sentou.
- Melissa, vou ter de sair para fazer uma entrega e apanho você às nove e meia para irmos até a casa de dona Leonor.
Pode ser?
- Sim, senhor. Estarei pronta.
Passava das nove quando Aderbal encostou a caminhonete e correu até a casa.
Lina finalizava os ajustes do vestido que Melissa usaria.
Eugénia terminava de pentear Melissa.
Ele entrou na cozinha e gritou:
- Eugénia, venha já!
A sós, por favor.
Melissa borrifou um perfume suave no colo e nos pulsos.
- Por que tio Aderbal chamou só a senhora?
- Deve ser assunto de adultos - comentou Lina.
- Estranho - observou Melissa.
Eles nunca conversaram escondidos da gente.
Lina deu de ombros.
- Vamos terminar de preparar você para o encontro.
Quero que fique bem bonita para impressionar dona Leonor - falava, com um alfinete nos dentes, enquanto terminava de fazer um último ajuste na cintura de Melissa.
- Está bem.
- Depois, quando voltar, você me conta tudo?
- Claro que conto.
- Conta tudo mesmo, Melissa?
Não me esconde nada?
Melissa riu.
- Não. Não vou esconder nada.
Pode deixar.
Agora abra aquela gavetinha e pegue um pó para eu passar mais um pouco no rosto.
Eugénia saiu apressada até o barracão.
- O que foi, querido?
Por que essa cara?
Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu!
Você nem imagina o quê.
- Com essa cara, deve ter acontecido algo grave.
Você não fica vermelho à toa.
- O Hermes, lá do cartório.
- O que tem ele, Aderbal?
- Não sei ao certo.
Parece que logo cedo um funcionário pegou no sono, o cigarro escorregou pelos dedos e... o cartório pegou fogo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:14 pm

Eugénia levou a mão à boca.
- Santo Deus!
Como ele está?
- Sofreu muitas queimaduras.
- O estado dele é grave?
- Parece que não corre perigo.
Mas... - ele fez uma longa pausa, suspirou e tornou:
Uma boa parte dos documentos foi queimada.
- Quer dizer...
Ele baixou o tom de voz:
- Nunca fomos buscar a certidão de óbito de Estela.
- Sempre protelei.
Fiquei dois anos enrolando você.
A culpa foi minha - tornou Eugénia, num choramingo.
Aderbal abraçou-a.
- De forma alguma estou aqui para culpá-la, minha querida. Não.
- Não? Não está bravo comigo?
- Não. A dor ainda é muito grande.
Eu também não sei se conseguiria olhar para um atestado de óbito com o nome de nossa filha ali escrito.
Eugénia afundou o rosto no peito do marido.
- Oh, Aderbal. E agora?
Não sei como vamos fazer.
- Por certo, com o tempo, farão outra.
Entretanto, Eugénia, isso me levou a pensar...
- Em quê, querido?
Aderbal estava um tanto constrangido, mas, ainda abraçado a Eugénia, disparou:
- Vai ficar difícil conseguir uma certidão para Lina.
Eu estava pensando aqui com os meus botões numa alternativa bem simples.
- Quer que Lina use a certidão de Estela, é isso?
Ele fez sim com a cabeça.
- É crime, Aderbal.
Lina não pode se passar por uma pessoa que já morreu.
É falsidade ideológica.
- Eu sei. Eu sei.
Por outro lado, se não temos a certidão de óbito e não a requerermos novamente... - ele hesitou -, Lina pode usar a certidão de nascimento, sim.
E a foto da cédula de identidade, bem, ninguém dá importância para a foto, não é mesmo?
Depois, lá na frente, posso levar Lina até o órgão de Segurança Pública de outro Estado e tirar uma nova cédula de identidade.
Ninguém vai saber, ninguém vai questionar.
- Como não?
Sei que os cartórios não se comunicam entre si; sei que, se quiser, Lina pode levar a certidão de nascimento de Estela e tirar uma cédula de identidade em cada Estado.
Mas as pessoas aqui na cidade conheceram Estela.
Como faremos?
- Precisaremos manter segredo, por enquanto.
E, se levarmos mesmo este plano adiante, teremos de ir embora.
Mudar daqui.
- Preciso pensar melhor.
E, pelo que consta, Lina é dois anos mais jovem que Estela.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:15 pm

- Dois anos é pouco.
Ninguém duvidaria se Lina dissesse que vai completar dezasseis.
Catorze ou dezasseis, a diferença é pouca.
Eugénia moveu a cabeça para os lados.
- Não sei.
Não acha melhor a gente esperar?
- Por quê?
O cartório vai levar um bom tempo para voltar à normalidade.
A reforma talvez leve anos, se quer saber.
Não pensamos em adoptar Lina?
- Pensamos.
Seria o caminho legal.
- No entanto, precisaríamos fazer uma escritura pública e, mesmo assim, precisaríamos de, ao menos, ter a certidão de Lina.
Eu teria de voltar àquela cidade.
Não quero mais pôr os pés lá.
Não depois de tudo o que aconteceu.
Aderbal sentiu o corpo estremecer.
Eugénia o abraçou com força.
- Você não teve culpa de nada.
Eu praticamente o obriguei a ir até aquele fim de mundo, atrás do que acreditei ser nossa mina de ouro.
Foi um equívoco.
- Ou equívoco foi ver aqueles homens matando uma família e não poder fazer nada?
O remorso me corrói e...
Eugénia levou o dedo até os lábios do marido, silenciando-o.
- Não diga mais uma palavra, Aderbal.
Não quero mais que toque neste assunto. Nunca mais.
- Se passar a usar os documentos de Estela, Lina poderá ser nossa filha.
De maneira directa.
- É contra a lei.
- Não estamos fazendo nada de mal.
Não estamos prejudicando ninguém, muito pelo contrário.
Queremos ajudar Lina.
É o mínimo que posso fazer depois de...
Eugénia levou novamente o dedo até os lábios dele.
- Pare de tocar neste assunto! - ela baixou o tom e rilhou os dentes de raiva.
Imagina se Lina escuta um dedo desta conversa?
Imagina o que pode acontecer?
- Não. Nem quero imaginar.
Ela não iria entender.
- Pois bem. Pare de falar sobre isso.
Eugénia afastou-se e se recompôs.
Aderbal perguntou:
- Vamos, ao menos, pensar na possibilidade de Lina virar Estela?
- Não sei.
Vou acompanhar você e Melissa até a cidade.
- Porquê?
- Quero que me deixe na igreja.
Vou rezar. Pedir à minha Nossa Senhora da Conceição para me dar uma luz, me inspirar a tomar a decisão mais acertada.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:15 pm

- Ao menos vai considerar?
- Claro que vou. Lina já está connosco há meses.
Precisamos tomar providências.
Aderbal abraçou e beijou Eugénia com ternura.
- Obrigado.
Eugénia sorriu.
- Preciso terminar de ajeitar as coisas.
Lina vai ficar sozinha.
Não quero que Melissa se atrase.
Eugénia voltou para a cozinha.
Melissa estava pronta, aguardando.
- Demoraram, hein, tia?
O que conversavam?
- Coisas minhas e de seu tio.
- Nunca foram de segredos.
- Todos nós temos segredos.
- Quanto mistério! - brincou Lina.
- Não tenho tempo para gracinhas.
Vou à cidade com Melissa e Aderbal.
- Também quero ir - pediu Lina.
- Não. Você fica para adiantar o almoço.
Lina fez cara de poucos amigos.
Melissa beijou-a no rosto.
- A Neide virá depois do almoço para lhe dar aulas, e eu chegarei no fim da tarde com um monte de notícias.
Não fique chateada.
- Não gosto de ficar sozinha.
- São só algumas horas - tornou Eugénia, enquanto apanhava a bolsa sobre a mesinha na sala e ajeitava os cabelos no espelho do corredor.
- Está bem.
Prometo que vou segurar a ansiedade.
Aderbal chegou a porta da cozinha e levou a mão ao peito.
- O que foi? De novo as dores?
- Um pouco. Cansaço.
- Já disse que precisamos consultar um médico.
Até a Neide falou que você tem de ir atrás de um.
- Nada de médico.
Estou bem. Um pouco cansado.
Vamos, estamos atrasados.
- Se eu dirigisse, poderia ir e levar Melissa.
- Não. Eu quero levar Melissa e conversar com dona Leonor.
Quero saber com quem nossa afilhada vai conviver.
- Pelo que já soube lá das frequentadoras da igreja, dona Leonor é uma mulher fina e educada.
- Não interessa. Não importa.
Quero ter um dedinho de prosa com ela. Mais nada.
- Está certo.
Depois do encontro, podia tentar uma consulta com o médico.
Aderbal fez não com a cabeça e um gesto solto com a mão.
Os três despediram-se de Lina e entraram na caminhonete.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:15 pm

Enquanto Aderbal dava partida, Lina indagou:
- Os lençóis já estão quarando, dona Eugénia.
O que preparo para o almoço?
- Por favor, querida, vá até o quintal e apanhe um punhado de alecrim para temperar o frango.
Hoje poderá ser arroz, salada e frango ao molho, temperado com alecrim.
- Alecrim? Como ele é?
Eugénia sorriu e apontou para a horta.
- Está vendo aqueles ramos bem verdinhos ao lado dos pés de alface?
Lina fez sim com a cabeça.
- É alecrim.
Pode apanhar um punhado de galhinhos.
Aderbal acelerou.
Lina fez tchau com a mão, sorriu e caminhou para o jardim.
Ao abaixar-se, sentiu pequeno mal-estar.
Passou a mão sobre a testa e notou o suor escorrendo pelo rosto.
- Nossa, que tontura!
Deve ser o sol. Está bem forte.
Enquanto apanhava os galhinhos de alecrim, Lina sequer poderia imaginar que o espírito de Olério estivesse próximo, despejando nela toda a sua carga energética de ódio.
- Você me tirou do mundo dos vivos.
Agora eu vou tratar de trazê-la para o mundo dos mortos.
Pode apostar.
Eunice estava feliz.
A mudança de cidade, de ares, fizera-lhe enorme bem.
O rosto estava mais corado, a pele ganhara viço, ela sorria.
É, Eunice sorria. E tinha um lindo sorriso.
Saía amiúde, caminhava pela redondeza e conseguira um trabalho de meio período no hospital perto de sua casa.
Ia a pé, andava apenas algumas quadras.
Já fizera amizade com alguns vizinhos e gostava de passar pela igreja de vez em quando.
Não era assídua frequentadora, mas sentia-se bem lá.
Gostava do silêncio, do murmúrio das orações, das mulheres com véus, rosários, tercinhos, missal nas mãos.
Apreciava os jovens namorados que entravam só para ficar de mãos dadas durante as missas, sentados nos últimos bancos, procurando disfarçar a emoção e fingir que prestavam atenção às palavras do padre.
Naquela manhã, ao chegar ao hospital, percebeu uma movimentação diferente na recepção.
Deu de ombros.
Afinal, era um hospital, onde coisas boas podiam acontecer, como um nascimento ou uma cirurgia bem-sucedida, ou coisas não tão agradáveis, como dor e morte.
Como de costume, Eunice foi até o vestiário, colocou seu avental e não notou a cara amarrada de uma das enfermeiras.
- Bom dia.
- Só se for para você, Eunice.
- O que foi, Ester?
- Não soube?
- O quê?
- O cartório da cidade pegou fogo agora cedo.
Não ouviu o barulho de sirene, de nada?
- Não notei.
Percebi as pessoas mais agitadas, mas não pensei que...
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:15 pm

Ester a cortou:
- Um funcionário morreu.
Eunice levou a mão à boca.
- Sério?
- É. Foi tentar pegar uns documentos antigos, certidões, sei lá.
Mas aspirou tanta fumaça que não resistiu.
Outros dois foram para a enfermaria.
Um está meio inconsciente.
Não sei se vai partir desta para a melhor.
O outro sofreu queimaduras leves, mas passa bem.
Estava levando essa gaze para terminar o curativo e...
O médico entrou nervoso:
- Ester, o paciente inconsciente está precisando de atendimento urgente.
Preciso de você imediatamente lá na enfermaria.
- Eu ia fazer o curativo no paciente que se queimou.
Ele encarou Eunice e respondeu:
- Deixe que a novata faça.
É só um curativo.
Venha comigo. Rápido.
Ester entregou a gaze, o estojo com mercúrio e outros apetrechos para Eunice.
Enquanto corria atrás do médico pelo corredor, avisou:
- O paciente está no segundo quarto à esquerda.
A porta está entreaberta.
O nome dele é...
Eunice não ouviu.
E também nem precisava.
Só havia dois quartos à esquerda do corredor.
Se era o segundo, não tinha como errar.
Ela ajeitou o coque - aprendera a arrumar os cabelos em coque, pois davam melhor aspecto para executar o serviço - arrumou a caixinha e foi até o quarto.
Bateu levemente e entrou.
O homem estava com o rosto virado para o lado oposto.
A parte que Eunice podia ver estava queimada, em carne viva.
Ela fez uma expressão de dor e sentiu compaixão.
- Bom dia.
Eu vim no lugar da Ester para fazer o curativo.
- Dói muito.
A voz era rouca, cansada, triste.
Eunice sentiu um aperto no peito.
Seria pela voz rouca ou...
Não deu tempo de pensar.
Ele voltou o rosto para ela.
Ambos arregalaram os olhos e, surpresos, gritaram ao mesmo tempo:
- Hermes?!
- Eunice?!
Ela largou a gaze, o estojo, deixou o vidro de mercúrio espatifar-se no chão.
- Não pode ser!
Não pode ser! Você?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:16 pm

Eunice deu um grito histérico e saiu apalermada pelo corredor do hospital.
O coque se desfez e, descabelada, ganhou a rua e correu, correu até sentir que os pulmões fossem explodir e o coração, saltar pela boca.
Olhou para a esquina e viu a Imaculada Conceição.
Com lágrimas nos olhos, tremendo feito folha ao vento, entrou na igreja e correu até cair aos pés do púlpito.
Chorou convulsivamente.
Eugénia, que acabava de entrar, correu até o altar.
- Meu bem, o que aconteceu?
Demorou para Eunice concatenar os pensamentos.
Quando o choro diminuiu, olhou para Eugénia e sibilou, entre soluços:
- O passado voltou para me atormentar!
Depois de deixar Eugénia próximo da igreja e quase atropelar uma doida que cruzava a rua sem prestar atenção por onde passava, Aderbal estacionou a caminhonete na calçada.
- Viu que mulher mais doida?
- Não sei, tio.
Parecia mais desesperada do que doida.
- Será?
- Ela foi na direcção da igreja.
Acho que estava desesperada mesmo.
Aderbal deu de ombros e nada disse.
Ao descerem do carro, Melissa notou uma senhora no degrau da varanda.
- Quem é aquela? - perguntou baixinho.
- Deve ser a empregada.
- O senhor a conhece?
- Não.
Caminharam, passaram pelo portão e chegaram aos degraus. Ione os cumprimentou.
Estendeu a mão:
- É seu Aderbal, não?
- Sim. Prazer.
- Olá. Sou Ione - ela falou e encarou Melissa.
Sorriu.
- Neide falou muito bem de você, mocinha.
Dona Leonor quer muito conhecê-la.
- Estou um pouco insegura.
- Não precisa ficar.
Dona Leonor é uma mulher sofisticada, mas não morde.
Não é arrogante, tampouco prepotente.
Tenho certeza de que vai gostar muito dela.
- Espero.
- A Neide disse que você é uma moça simpática.
Devo admitir que também é bem bonita.
- Obrigada.
- Vamos entrar, por favor.
Ione abriu a porta e entraram no jardim de inverno.
Em seguida, abriu outra porta, que dava para um hall bem amplo.
Melissa olhou ao redor.
Mesmo com a tinta gasta nas paredes, o ambiente era sofisticado, decorado com bom gosto.
Ela abriu um sorriso e elogiou:
- Os móveis são muito bonitos.
Que casa agradável!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:16 pm

- Procuramos manter a alegria no ambiente.
Melissa gostou da resposta.
Ione fez um sinal para outra porta.
Aproximou-se, bateu levemente e abriu.
- Dona Leonor?
A moça está aqui.
Leonor tirou os óculos, colocou-os sobre a mesa do escritório.
Levantou os olhos e sorriu.
Havia se preparado com esmero para aquela primeira aula.
Nem acreditava que ela, uma dama que só se preocupara em cuidar da casa, do marido e da educação dos filhos - como se isso já não fosse um grande trabalho -, agora estava dando aulas!
Nesse dia, prendera os cabelos em um belíssimo coque.
Usava um vestido azul-marinho, de corte recto, e um colar de pérolas.
A maquilhagem estava bem discreta, o perfume era delicado.
Os olhos grandes, negros e enigmáticos chamaram a atenção de Melissa.
Ela é uma dama.
De verdade, pensou.
- Bom dia.
- Bom dia, dona Leonor - replicou Aderbal.
Leonor levantou-se e foi até eles.
- Como vai o senhor?
- Bem, obrigado.
Vim trazer minha afilhada pessoalmente porque queria saber com quem teria aulas.
- Titio! - protestou Melissa.
- Seu tio tem razão - observou Leonor.
No lugar dele, eu faria o mesmo.
Uma jóia como você, tão bela, tão linda, não pode ser levada a qualquer lugar.
Aderbal agradeceu com um aceno.
Melissa corrigiu:
- Aqui não é qualquer lugar.
- Eu sei. Você agora sabe.
Mas quem poderia garantir?
Seu tio fez isso na melhor das intenções.
Era o que Aderbal precisava escutar.
Sentiu segurança e gostou muito da sinceridade de Leonor.
Era uma mulher muito fina, naturalmente elegante, mas não era arrogante, como as damas da sociedade, as poucas, diga-se de passagem, que conhecera na vida.
Ele se adiantou e se despediu:
- Bom, deixo Melissa em boas mãos.
Preciso voltar aos meus afazeres.
Também tenho um amigo que se acidentou no incêndio do cartório e...
Leonor comentou, entristecida:
- Eu soube do incêndio. Uma tristeza.
Soube que um funcionário morreu.
- É. Uma pena.
Agora preciso ir.
Aderbal despediu-se.
Melissa beijou o tio, e Ione o acompanhou até a saída.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:16 pm

- Eu voltarei no fim do dia, conforme o combinado.
- Sim, senhor.
É só encostar a caminhonete e entrar pelos fundos.
A porta da cozinha está sempre aberta.
Se Melissa ainda estiver em aula, eu lhe preparo um café.
- É muita gentileza.
Até mais ver. Tenha um bom dia.
- Igualmente.
Ione rodou nos calcanhares e voltou para seus afazeres.
Aderbal saiu de lá com uma óptima sensação.
- Bom - disse para si -, agora preciso ir até o hospital visitar meu amigo Hermes, saber como ele está.
Na saleta, Leonor mediu Melissa de cima a baixo, de maneira elegante e discreta.
- Seja bem-vinda, Melissa.
- Obrigada, dona Leonor.
- Bonito nome. É de onde?
- Nascida e criada em Belo Horizonte.
- Hum. E o que veio fazer nesta cidade?
- Ajudar meus padrinhos - ela respondeu rápido.
Não gosto de ver tio Aderbal e tia Eugénia sozinhos no sítio.
- Bonito de sua parte.
Neide disse que eu iria gostar de você. Acertou.
- Eu queria muito conhecê-la.
E aprender. Estou muito ansiosa, gostaria de saber o que vou aprender de facto.
- Tudo que seja relacionado a boas maneiras.
Um curso de etiqueta.
- Acompanhei alguma coisa pelas revistas.
- As revistas mostram pouco.
Eu vou lhe mostrar bem mais!
Leonor foi até a estante e apanhou um livro bem grosso.
Trouxe-o e mostrou:
- Muito do que vou ensinar está aqui.
Melissa apanhou o volume pesado e leu.
- Está escrito em inglês.
- Eu o traduzo para você.
É o livro de etiqueta de Amy Vanderbilt. Um clássico.
Eu fui ao evento de lançamento, com meu finado marido.
Foi a última viagem que fizemos ao exterior.
Parece que foi ontem - ela suspirou resignada.
Como eu poderia imaginar que, depois de alguns anos, ficaria sem um tostão?
- A senhora esteve em Nova York?
- Sim. Foi lá que comprei este livro de etiqueta.
Fiz muitas viagens para os Estados Unidos, para a Europa.
Também conheci o Marrocos e o Egipto.
Os olhos de Melissa brilharam emocionados.
- Adoraria conhecer todos esses lugares.
- E poderá conhecê-los.
Garanto que terá tempo e, se Deus quiser, dinheiro, para conhecer lugares lindos espalhados por este planeta abençoado.
- A senhora fala de um jeito tão sereno.
No seu lugar, eu estaria desesperada.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:16 pm

Leonor deu de ombros.
- E o que fazer?
Emílio meteu os pés pelas mãos, fez maus negócios.
Eu não o culpo. Afinal de contas, o dinheiro era dele.
Da família dele, quero dizer.
Depois que veio a lei fechando os cassinos, passei um bom tempo revoltada.
Imagine ficar viúva, perder seus bens, ver seu património ser corroído, os amigos sumirem, os credores baterem à porta e o oficial de Justiça tomar a casa onde você viveu toda uma vida.
Jamais poderia imaginar que estivéssemos na bancarrota.
Posso ter perdido o dinheiro, mas jamais perderei a classe - ela falou e piscou para Melissa.
- Seu marido nunca conversou com a senhora a respeito da real situação financeira?
- Não era costume.
Emílio nunca quis discutir os problemas financeiros connosco.
Em casa, ele só queria ser esposo e pai.
- Adoraria conhecê-lo - disse Melissa.
Leonor apontou para uma tela em óleo na parede, atrás da escrivaninha.
- Este é meu finado marido, Emílio Pereira do Couto.
Melissa aproximou-se para ver a pintura com mais clareza.
- Perdão, mas seu marido foi um homem muito bonito.
- Devo concordar com você.
Emílio passava e as mulheres suspiravam - acrescentou entre risos.
Esta pintura foi feita logo que casamos.
- Gosto do tom de sua voz.
Fala de maneira cadenciada.
Parece estar sempre de bem com a vida.
E olhe que, pelos problemas que já enfrentou, deveria estar arrancando os cabelos.
Leonor riu.
- Já quis arrancá-los, se quer saber.
Emílio me deu três filhos maravilhosos.
Eunice, Daniel e Solange.
Eunice veio logo depois do nosso enlace.
Três anos depois veio Daniel e, dez anos depois, uma grata surpresa:
fiquei grávida de Solange.
- Adoraria conhecê-los.
- E vai. Eunice e Solange moram comigo.
Estão trabalhando.
Daniel fez prova e foi chamado para preencher vaga em um banco, lá em São Paulo.
Está também ajudando um amigo a organizar um escritório de contabilidade que acabou de arrendar.
É um rapaz dedicado, que não tem medo de trabalho.
Como vê, não posso reclamar dos meus filhos.
E ainda tenho Ione, que está comigo há vinte anos.
É praticamente membro da família.
- Ione é muito simpática.
Mas, como disse anteriormente, a senhora transmite muita paz.
- Porque passamos por problemas mais sérios do que a perda financeira.
Num momento oportuno, você saberá o que aconteceu com nossa filha Eunice.
Por conta dos problemas que ela enfrentou, fomos obrigados a nos abrir para o conhecimento espiritual.
Em São Paulo, minha caçula Solange passou a frequentar um centro espírita e fizemos amizade com o dirigente desse centro.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:17 pm

Ele nos indicava livros, vinha em casa de vez em quando, conversávamos bastante sobre espiritualidade.
- Da mesma forma que Neide tem ensinado a mim, talvez.
- Deve ser.
Conheci Neide logo que me mudei para cá.
E sei que nada é por acaso.
Neide já me disse coisas muito semelhantes às que Orlando me dizia em São Paulo.
- Orlando...
- Orlando, o dirigente do centro espírita - tornou Leonor.
Por meio de conversas edificantes, comecei a entender como a vida funciona de facto.
Entendi muita coisa que aconteceu comigo, com minha família.
O conhecimento da espiritualidade arrancou-me o véu das ilusões, libertando-me das amarras do ódio, das mágoas.
Hoje não culpo ninguém pelo que aconteceu.
Estou aqui, viva, pronta para aprender, para recomeçar e aprender.
Só tenho um pouco de dificuldade em acompanhar a modernidade.
É televisão, satélite, construção da nova capital...
- Mesmo assim, é uma mulher de fibra. Nobre.
Uma verdadeira dama.
E, se quer saber, gostei muito de conhecê-la, dona Leonor - confessou Melissa.
- Também gostei de você, menina.
Agora que nos conhecemos, quer começar?
- Mas já?
- Por que não?
Combinei com seu tio para vir apanhá-la no fim do dia.
Temos bastante tempo.
- Gostaria de saber o que vou fazer em troca das aulas.
- Isso eu lhe explico depois - Leonor piscou para ela.
Vamos para a saleta de estudos, aqui ao lado.
Ione apareceu, e Leonor perguntou:
- Melissa, aceita uma água, um café?
- Uma água, por favor.
Leonor pediu:
- Ione, traga a água e, por favor, nos chame para o almoço quando for meio-dia e meia, sim?
- Sim, senhora.
Ela se voltou para Melissa e a puxou delicadamente pelo braço:
- Venha, minha menina.
Vou ensiná-la a ser mais que uma miss, mais que uma manequim.
Vou ensiná-la a ser uma dama.
Uma verdadeira lady.
- É tudo o que mais quero, dona Leonor.
Eugénia a custo levou Eunice até o banco da primeira fila.
Algumas pessoas afastaram-se, outras fizeram o sinal da cruz.
Eugénia meneou a cabeça de forma negativa.
- Nem mesmo dentro de um templo sagrado essas pessoas têm um pingo de piedade ou compaixão.
Quanta hipocrisia!
Uma senhora aproximou-se:
- Precisa de alguma coisa?
- Parece que a moça teve um destempero. Só isso.
- Estou melhor - Eunice conseguiu dizer, por fim.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:17 pm

Eugénia fez um sinal de agradecimento e a mulher se afastou.
Eunice encarou Eugénia:
- Desculpe-me. Fiz uma cena.
- Não precisa desculpar-se.
O que mais quero é que fique bem.
- Já estou bem.
Preciso voltar ao trabalho.
- Nesse estado? Nem pensar!
Precisa ir para sua casa, recompor-se.
Amanhã poderá voltar ao trabalho.
- Não avisei meu chefe, ninguém.
Saí feito uma doidivanas do hospital.
Poderei até ser demitida.
- Não creio.
Você deve ter tido uma boa razão para ter feito o que fez.
Tudo se resolve, e amanhã será um novo dia.
As palavras de Eugénia a tranquilizaram.
Eunice abraçou-se a ela.
- Obrigada.
Nem a conheço, mas confesso que a senhora caiu do céu.
- Imagine. Não caí de lugar algum.
Estava aqui pertinho mesmo.
Meu marido quase a atropelou.
Você parecia bem desorientada.
- Sabe, eu fiquei mesmo.
Esperei por este reencontro tanto tempo, treinei no espelho, fiz leituras, conversei mentalmente com ele, mas, ao reencontrá-lo, tomei um susto.
Foi um choque.
Fiquei sem palavras, a boca travou, as palavras sumiram, o sangue gelou...
Eugénia percebeu que Eunice falava de um rapaz.
Foi discreta.
- Não precisa dizer nada.
Você é jovem, ainda tem muita coisa para viver.
- Não sou tão jovem assim.
- Nem precisa me dizer sua idade.
As mulheres não gostam de revelar - as duas riram.
Mas você tem um rosto tão bonito, uma pele tão suave, alva, sedosa.
Eunice sorriu e mostrou os dentes brancos e perfeitos.
- Bondade sua.
- Gostaria de tomar um refresco?
- Adoraria. Não queria chegar em casa neste estado - Eunice ajeitou os cabelos, prendendo-os novamente em coque.
Nem nos apresentamos.
Meu nome é Eunice.
- Prazer, querida.
Eu sou Eugénia.
- A senhora é daqui da cidade?
- Não. Sou de Uberlândia, depois vivi em Belo Horizonte.
Casei-me, mudei para cá, tive uma filha...
- Eugénia consultou o relógio. - Aderbal, meu marido, virá me buscar daqui a pouco.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:17 pm

Moramos num sítio aqui pertinho da cidade.
Não gostaria de passar a tarde connosco?
Aderbal vai precisar voltar à cidade para pegar nossa afilhada, que está estudando.
- Sabe que seria uma óptima ideia?
- Importa-se de andar em uma caminhonete velha?
Você tem jeito e porte de moça fina.
Eunice riu.
- Fui criada e educada no luxo, dona Eugénia.
Entretanto, minha família perdeu tudo e tivemos de recomeçar do zero.
Como vê, estou trabalhando.
Eu moro no casarão perto da praça.
Eugénia colocou o dedo no queixo.
- Espere um pouco...
Você é filha da dona Leonor?
- Sou. Por quê?
A senhora a conhece?
- Não, mas é uma grande coincidência!
- O quê?
- A minha afilhada está estudando com sua mãe!
- Não me diga!
A jovem que ia começar a ter aulas de etiqueta hoje é sua afilhada?
- Sim. A Melissa.
- Nossa, mas este mundo é muito pequeno...
Saíram da igreja feito duas comadres, amigas de longa data.
Aderbal já esperava Eugénia na esquina.
Quando a viu, reconheceu a moça. Espantou-se.
Eugénia fez uma expressão com os lábios que ele já conhecia e apresentou:
- Aderbal, esta é Eunice, filha de dona Leonor.
- Prazer. Nossa afilhada está estudando com sua mãe.
- Dona Eugénia me falou.
Que coincidência!
- Eunice vai almoçar connosco, querido.
Aderbal nada entendeu.
Iria fazer uma pergunta, mas Eugénia foi rápida e o beliscou no braço.
Ele entendeu o recado e fechou o bico.
Eunice nada percebeu e entrou feliz na caminhonete.
Aderbal deu partida e seguiram para o sítio.
Chegaram.
Eugénia foi mostrar o jardim e a horta para Eunice.
Lina perguntou a Aderbal:
- Quem é aquela moça?
- Filha da dona Leonor.
- A mesma dona Leonor que está dando aulas para a Melissa?
- É.
- Por que ela está aqui?
- Não faço a mínima ideia, Lina.
Pergunte a Eugénia.
Aderbal falou e voltou à caminhonete.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:18 pm

Precisava retornar à cidade.
Despediu-se da esposa e das moças com um aceno e acelerou.
Lina deu de ombros.
Estava cansada, com enjoo.
Eugénia entrou na cozinha e apresentou Eunice a Lina.
Elas se cumprimentaram, e Lina sentiu mais cansaço ainda.
Eugénia olhou ao redor.
Lina não tinha feito absolutamente nada.
- O que ficou fazendo enquanto estávamos fora?
- Hã? O quê?
- Lina, o que está acontecendo?
- O... quê?
Eunice sentiu um frio na espinha e percebeu a presença de um espírito.
Apressou-se em dizer:
- Dona Eugénia, a senhora é católica, né?
- Sou.
- Por acaso, acredita em espíritos?
- Por que está me perguntando isso?
Antes de Eunice responder, Lina desfaleceu.
Por sorte, Neide tinha acabado de chegar.
Enquanto Eunice batia levemente no rosto de Lina para que acordasse, Eugénia declarou, aflita:
- Ela desmaiou de repente.
- Ela já vai se levantar - afirmou Neide, voz firme.
Em seguida, olhou para a frente, fixou um ponto e ordenou:
- Afaste-se dela imediatamente!
Uma luz saiu do peito de Neide e juntou-se a outra luz que vinha do alto, cruzando o teto da cozinha, formando uma bola de luz que ofuscava a visão do espírito preso a Lina.
Ele deu um salto e rilhou os dentes:
- Esta luz me queima, mas não vai durar muito tempo.
Daqui a pouco eu volto, maldita! - resmungou e disparou para fora.
A luz foi se desvanecendo, Lina abriu os olhos e Eunice a apoiou sobre as pernas.
- Como se sente?
- Estou um pouco tonta, sentindo mal-estar.
- Você se alimentou pouco no café da manhã.
Comeu quase nada.
- Não é isso, dona Eugénia.
Estou sentindo essa moleza desde que saíram.
Quando fui apanhar os raminhos de alecrim na horta, comecei a passar mal.
Neide e Eunice trocaram um olhar significativo.
Eugénia prosseguiu, ainda sem entender:
- Será que é porque as regras vieram?
É natural que sinta indisposição nesses dias - enfatizou.
- Não. Não é isso.
Antes, à noite, eu sonhava com uma mulher bonita, que me visitava e me falava belas palavras.
De uns tempos para cá, não me recordo do que sonho e acordo com quebradeira pelo corpo todo.
Hoje até acordei bem, mas depois que peguei o alecrim, senti uma moleza esquisita.
É como se o meu corpo fosse tomado por uma força estranha, pesada.
- Acho que um bom chá de capim-santo vai ajudar.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:18 pm

Eugénia levantou-se, saiu da cozinha e atravessou o barracão, passando pelo espírito desorientado.
Sentiu um calafrio, passou as mãos pelos braços, fez sinal negativo com a cabeça.
- Impressão minha.
Tudo bobagem.
Alcançou a horta e apanhou um punhado de folhas para o chá.
Enquanto isso, a dor de cabeça de Lina aumentava.
Ela não percebia, mas o espírito de Olério, do lado de fora, tentava lhe sugar as energias vitais.
- Já disse - vociferou ele, colérico.
Você vai vir para cá.
Vai ficar doente e vai morrer.
E sabe quem vai ser o anjo da morte que vai lhe dar as boas-vindas?
Eu! - Olério soltou uma gargalhada que ecoou pelo ambiente.
Lina não escutou a gargalhada, mas sentiu o mal-estar aumentar.
Eunice percebeu a energia e Neide ouviu a risada sinistra.
- Estou surpresa de vê-la aqui, Eunice.
- Depois conversamos, Neide.
Não imagina o que me aconteceu hoje.
Mas, agora, precisamos ajudar esta menina.
- O que eu tenho? - indagou Lina, confusa.
- Nada de mais, meu bem - acalmou Neide.
- Vamos fazer uma oração juntas?
- Vamos.
As três deram-se as mãos e fizeram uma prece.
A conexão energética entre Olério e Lina fora novamente interrompida.
Ele gritou lá de fora:
- Malditas!
E, antes de dar nova investida, sentiu uma força sugá-lo para baixo da terra.
Olério nem teve tempo de gritar por socorro. Sumiu.
Neide, em pensamento, agradeceu ao guardião que acabava de chegar.
- Esse é o meu trabalho - respondeu ele, voz soturna, batendo continência.
Estarei aqui vigilante.
Se precisar de mais alguma coisa, é só chamar pelos guardiões.
- Obrigada.
Eugénia entrou com as folhas nas mãos, e elas terminaram a oração.
Lina estava mais corada.
- Como se sente? - perguntou Eunice.
- Bem melhor.
Pelo menos não estou mais enjoada.
Eugénia colocou a chaleira com água para ferver.
- Deite-se um pouco na cama - sugeriu.
- Isso mesmo - reforçou Neide.
Vou lhe aplicar um passe.
Eugénia levantou o sobrolho, mas nada disse.
Neide pediu:
- Eunice, preciso de você.
- De mim?
- Sim. Tem uma boa mediunidade.
- Sofri tanto com a obsessão...
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 01, 2016 8:18 pm

- Por isso mesmo.
Aprendeu bastante.
Leu, entendeu e está mais forte.
Você é médium de incorporação.
- Eu?!
- Sim. Não se espante.
Todos nós somos.
Eugénia prestava atenção e mordiscava os lábios, curiosa.
- Não acham melhor levar a menina até o quarto?
O chá está quase pronto.
- Vamos - disse Neide.
Lina saiu amparada por ela e Eunice.
Eugénia já havia dado abertura para o conhecimento espiritual, mas estava achando tudo muito fantasioso.
Claro que, depois da morte de Estela, passara a questionar a vida e a morte.
Não aceitava mais determinados conceitos e queria entender o porquê de sua filha não estar mais convivendo com ela e o marido.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho.
A saudade veio forte.
- Como é duro ficar longe de você, filha. Como dói.
Uma brisa suave tocou-lhe o rosto.
Estela, em espírito, sussurrou-lhe:
- A certeza de que a vida continua depois da morte é o melhor remédio para quem perdeu alguém que ama.
Era como se Eugénia estivesse conversando consigo mesma:
- Eu não consigo aceitar.
- Mamãe, não aceitar só traz dor e sofrimento.
A morte é irreversível.
Todos nós passaremos por ela.
Faz parte da vida no planeta.
Todos os seres vivos vão ter de passar pela morte, não tem como escapar.
A morte só fecha um ciclo e inicia outro melhor.
Não se esqueça:
aceitar o que não se pode mudar traz calma e renovação, serena o coração.
- Estou cansada de chorar.
- Não chore.
Pense em mim com alegria.
Eu estou bem. Só estou em outra dimensão.
Aqui é o nosso verdadeiro mundo.
Depois de um tempo, quando seu espírito estiver amadurecido e tiver passado pelas experiências que desejou, você voltará para cá e poderemos nos reencontrar.
E estaremos mais fortes, mais lúcidas, mais felizes, porque avançamos etapas, conseguimos vencer e nos desfazer de crenças, dissabores, inimizades que somente atrapalhavam o nosso crescimento.
Eugénia acalmou-se e lembrou-se de Estela com alegria.
Imediatamente, viu-a pequenina, brincando ali na cozinha, arrastando uma boneca pelos braços, rindo, enchendo a casa de alegria.
Eugénia sorriu.
- Fomos tão felizes!
- Ainda somos. A morte não é o fim.
A vida continua, mamãe.
Agora vá viver, cuidar mais de si, enfrentar seus medos, vencer suas fraquezas, aprender a ser feliz.
É para isso que reencarnou.
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