Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 8:16 pm

Não mexa comigo.
Já tive de lidar com tipos bem piores que o seu - ela falou e lembrou-se de Jurandir.
Se aproximar-se de mim mais uma vez, juro que arranco esses pelos espalhados pelo seu rosto.
Rosana passou a mão no rosto.
- Não tenho pelos no rosto!
- Vai catar coquinho no mato.
Quando meu sangue sobe pelas veias, eu não me responsabilizo pelos meus actos.
Rosana fingiu chorar, e Ione apareceu na ponta da escada.
- O que foi?
Antes de Rosana falar, Melissa se antecipou:
- Essa tosca quer me dar ordens, arranhou meu braço.
Pensa que é o quê?
Ione sentiu o peito explodir de alegria.
Queria rir a valer, mas conteve-se.
Caminhou até Rosana.
- Está bem?
- Estava. Essa daí - apontou - acabou com meu dia.
- O café está servido.
- Não vou me sentar com essazinha.
- Problema seu - Melissa deu de ombros.
Estou morrendo de fome.
- Luís Sérgio já está na copa - redarguiu Ione.
- Tem certeza de que não vai descer?
Rosana olhou para Melissa e sentiu ciúme.
Melissa percebeu e encarou Ione:
- Quem é Luís Sérgio? - indagou, bem mole, fazendo beicinho, de propósito.
Antes de Ione responder, Rosana deu uma fungada, balançou os cabelos, apertou o nó do lenço, ajeitou os óculos escuros e desceu.
Ione passou por Melissa e piscou:
- É isso aí, minha menina.
Não deixe que a riquinha metida a besta monte em você.
- E ela pensa que eu sou mula?
Ela que venha com mais gracinhas para cima de mim.
Eu juro que parto para cima.
Sem dó nem piedade.
Ione riu satisfeita e desceram para o café.
Melissa entrou na copa e saudou:
- Bom dia, dona Leonor.
- Bom dia, Melissa.
Dormiu bem?
- Muito bem.
Luís Sérgio levantou-se e a cumprimentou:
- Prazer. Luís Sérgio.
Antes de Melissa responder, Rosana entrou rápido na copa e frisou, afectada:
- Meu noivo.
Melissa deu uma risadinha e sentou-se.
Rosana sentou-se também e só observava.
“E não é que ela aprendeu direitinho a ter boas maneiras? - pensou, enciumada.
Leonor quebrou o silêncio.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 8:16 pm

- Hoje não teremos aula.
- Por que não? - quis saber Melissa, enquanto cortava delicadamente uma fatia de queijo branco.
- Daniel chegou de viagem e estou com visitas.
Quero que você fique connosco.
Luís Sérgio interveio:
- Podemos passear.
Quero dar umas voltas, conhecer a cidade.
- Faremos isso em dez minutos.
Não deve ter nada para conhecer.
A cidade tem o tamanho de um ovo - desdenhou Rosana.
- Como não? - retrucou Melissa e, voltando-se para Luís Sérgio, perguntou com entusiasmo:
Gosta de arquitectura?
- Aprecio.
- Precisa conhecer prédios antigos, a fonte na Praça Tiradentes, a Igreja Matriz, da Imaculada Conceição.
- Há muito o que conhecer - ele considerou.
Rosana sentiu nova pontada de ciúme.
Não quis deixar barato:
- Queridinha, você deixou de falar o principal, que a cidade é conhecida pela extracção e lapidação de pedras preciosas.
Melissa ignorou o comentário.
- Gosta de cinema, Luís Sérgio?
- Gosto sim.
- Podemos ir ao Cineteatro Vitória.
Rosana grunhiu. Levantou-se.
- Aonde vai? - indagou Leonor.
- Estou indisposta - e, encarando o noivo, exigiu:
- Luís Sérgio, vamos até a varanda?
Preciso de ar fresco.
Ele fez sim com a cabeça e saiu praticamente arrastado por ela.
Leonor meneou a cabeça e sorriu:
- Você deixa Rosana desconfortável.
- Eu?
- É. Está na cara que ela é muito insegura e sente muito ciúme do noivo.
- Pobre Luís Sérgio.
- Uma pena.
Pobre moço, mesmo.
- Ele é tão atraente.
Poderia ter a moça que quisesse.
- Achou ele bonito? - interrogou Leonor.
- Ela pode ficar tranquila.
Não senti absolutamente nada ao vê-lo.
Se quer saber, sinto pena dele. Isso sim.
- Rosana demonstra ser uma pessoa manipuladora, fria e possessiva.
Luís Sérgio não tem jeito de ser igual a ela.
- Os opostos também se atraem. Fazer o quê?
Riram e Leonor pediu:
- Poderia ir chamar Daniel para mim?
- Onde está seu filho?
- No escritório, consultando alguns documentos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 8:16 pm

- Claro. Praticamente terminei meu café.
- Não. Vá chamá-lo e volte para nos fazer companhia.
- Tem certeza, dona Leonor?
Não quer que eu ajude Ione na cozinha para adiantar o almoço?
- De forma alguma.
Quero que passe o fim de semana como se fosse alguém da família, uma hóspede.
Nada de aulas, nada de lidas domésticas.
- Está bem.
Se a senhora pede, é uma ordem.
Melissa levantou-se e girou nos calcanhares.
Foi até o escritório.
Bateu na porta com delicadeza.
Ouviu lá de dentro:
- Entre.
Ela correu as portas.
Daniel estava sentado, cotovelos sobre a escrivaninha, concentrado na leitura de um documento.
Sem tirar os olhos do que lia, disse:
- Ione, daqui a pouco vou tomar o café.
Só mais dez minutos.
- Desculpe-me - tornou Melissa, voz suave.
Eu não sou a Ione.
Ele levantou lentamente o rosto e, ao vê-la, sentiu um tremor, um choquinho pelo corpo todo.
Não conseguia articular som.
Melissa aproximou-se e perguntou:
- Aconteceu alguma coisa?
- O quê?
- Você está pálido.
Não está passando bem?
Ele se remexeu na cadeira e ajeitou o corpo.
Abriu um sorriso contagiante.
- Não. Eu pensei que fosse Ione e...
Melissa estendeu a mão:
- Prazer. Eu sou Melissa, a aluna-hóspede de sua mãe.
Ele se levantou de chofre e a cumprimentou:
- Prazer. Daniel.
Melissa notou a mão suada.
- Está sempre com essa cara assustada?
Ele riu e procurou ser o mais natural possível:
- Não. Desculpe-me.
É uma moça encantadora.
- Obrigada.
- Mamãe comentou por alto, em uma carta, que você deseja ser miss.
É verdade?
- Sim.
- Por quê?
Ela deu de ombros.
- Porque gosto.
Quero participar desses concursos de beleza para ter a chance de viajar, conhecer pessoas diferentes, outros países, outras culturas.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 8:16 pm

O mundo é fascinante.
Adoro minha cidade, mas quero conhecer o mundo.
- Não precisa ser miss para conhecer o mundo.
- Por ora, quero participar de concursos de beleza.
Depois que experimentar, verei se quero seguir ou não.
- É determinada.
- Bastante.
- Namora?
Melissa notou o interesse.
Respondeu de maneira descontraída:
- Não. Não tenho namorado.
Daniel abriu um sorriso imenso e nada disse.
Ela prosseguiu:
- Sua mãe pediu que eu viesse chamá-lo para o café.
Não podemos demorar.
- Tem razão. Vamos, por favor.
Ele fez um gesto educado com a mão, e Melissa foi na frente.
Ao chegarem à copa, Leonor notou o contentamento estampado no rosto do filho.
Ela sorriu interiormente, e perguntou, simpática:
- Agora você conhece Melissa, em carne e osso.
- Eu sou de verdade - ela brincou.
- Mamãe fez muitos comentários positivos a seu respeito nas correspondências que trocamos.
Ela encarou Leonor:
- A senhora nunca me disse nada.
- Você é uma garota especial.
Sabe que, nesse tempo de convivência, acabei por me afeiçoar a você.
É como se fosse mais uma filha.
Melissa corou e agradeceu, comovida.
- Obrigada.
- E é muito bonita - ajuntou Daniel.
- Ela vai ganhar qualquer concurso de beleza - afirmou Leonor.
- É o que mais desejo!
- E se aparecer um príncipe no meio do caminho? - quis saber Daniel.
Leonor percebeu a intenção do filho.
“Meu Deus, ele está indo mais rápido do que eu poderia imaginar, pensou, animada.
Melissa bebericou o café com leite e, ao pousar delicadamente a xícara sobre o pires, considerou:
- Primeiro, não acredito em príncipes.
Daniel fez um muxoxo:
- Não acredita no amor?
- Claro! Acredito, sim.
Mas não tenho sonhos infantis de que vou conhecer um príncipe encantado.
- Não é sonho.
Toda mulher quer conhecer um homem e se apaixonar, se casar, constituir família.
- Nem toda mulher pensa assim.
- Uma pena! - volveu, cabisbaixo.
Depois que se tornar miss, não vai querer se casar? Nunca?
- Não sei. Ainda preciso ganhar um concurso, sentir a emoção - Melissa fitou um ponto indefinido na copa.
Depois que realizar esse sonho, quem sabe eu não me apaixone?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 8:16 pm

- Ah, então pensa em conhecer um homem.
- Claro. Entretanto, no momento, esta não é a minha prioridade.
- Ao contrário de Rosana - retrucou Leonor.
Pela primeira vez na vida, Daniel desejou que uma moça pensasse como a noiva de seu amigo.
- Rosana é vidrada no Luís Sérgio. Apaixonou-se.
Melissa iria retrucar, dizer que não, mas não achou de bom-tom fazer um comentário desse tipo.
Limitou-se a dizer:
- Cada um com seus sonhos.
- É - tornou ele, novamente cabisbaixo.
Cada um com seus sonhos.
- Você namora? - perguntou Melissa.
- Ele estava de enrosco com a filha dos Prates, família tradicional de São Paulo - disse Leonor, contrafeita.
- Não, mamãe. Pode esquecer.
Estou completamente solteiro - disparou, olhando de esguelha para Melissa.
Ela riu e, instantes depois, Rosana entrou na copa, apática.
- Vamos dar um passeio.
- Também quero ir - tornou Daniel.
Estou com saudades de caminhar pelas ruas de Teófilo Otoni.
- Por que não convida Melissa? - sugeriu Leonor.
Rosana revirou os olhos e bufou.
Daniel animou-se:
- Vamos?
- Não sei.
Preciso me arrumar.
- Está óptima assim.
- Não.
Leonor acrescentou:
- Use aquele vestido estampado, com a fita de gorgorão.
Rosana interveio, irritada:
- Se não trabalha e não tem dinheiro, como é que pode ter um vestido desses?
- Elementar, queridinha - Melissa desdenhou, com graça.
A minha madrinha costura muito bem e me fez o vestido de lonita.
Rosana trincou os dentes e nada disse. Melissa tornou:
- Vou subir e me trocar.
Desço em quinze minutos.
No sítio, tudo seguia a rotina.
Lina deu de comer às galinhas, ajudou na preparação do almoço e foi para o barracão.
Eugénia apareceu e a puxou pelo braço:
- Venha.
- O que foi, dona Eugénia?
- Nada. Hoje você vai descansar.
- Não. Tem muita coisa para fazer.
- Negativo.
Vamos almoçar e, mais tarde, você vai me ajudar a arrumar de vez o guarda-roupa de Estela.
- É?
- Sim.
- Se a senhora insiste...
Lina acompanhou-a.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:23 pm

Aderbal encostou a caminhonete.
Desceu pálido, corpo alquebrado.
Eugénia correu até ele.
- O que aconteceu, querido?
- Nada - ele desconversou.
Estou um pouco cansado.
- Tomou seus remédios?
- Tomei - mentiu.
- Se tomou os remédios e sente dor, precisamos ir ao médico.
- Não vou conseguir dirigir.
Eugénia mordiscou os lábios, nervosa.
- Eu bem que deveria ter aprendido a dirigir. E agora?
- Agora nada - ele pousou a mão sobre a dela, tentando acalmá-la.
Não fique preocupada.
Preciso descansar. Logo passa.
Aderbal caminhou com dificuldade até o quarto.
Deitou-se na cama.
Eugénia cerrou as cortinas, e o quarto ficou na penumbra.
- Vou fazer um chá de capim-santo.
- Não precisa, minha querida.
É só eu descansar. Passa.
- Deixarei a porta entreaberta.
Qualquer coisa, por favor, me chame.
- Pode deixar.
Aderbal virou a cabeça para o lado e, mesmo com dor e formigamento pelo corpo, adormeceu.
Eugénia foi até a cozinha.
- Seu Aderbal não está nada bem, né? - perguntou Lina.
- Não, querida. Não está.
- Quer que eu passe na casa de Neide e pegue a bicicleta emprestada?
Posso ir até a cidade, chamar o doutor Almeida.
- Não é má ideia.
- A cidade é perto, dona Eugénia, e eu sei pedalar muito bem.
- Aprendeu como?
Onde? - indagou desconfiada.
- A Neide me ensinou.
- Ela teria que lhe dar aulas.
- Eu fiz aula de bicicleta também.
Eugénia abaixou o rosto para rir.
Estava cada vez mais encantada com Lina.
- Faça isso agora, Lina.
Não gostei da cara do Aderbal.
- Ele está sentindo muita dor, não?
Eugénia fez sim com a cabeça.
- Pode deixar.
Vou imediatamente.
Lina fechou a torneira, enxugou as mãos e tirou o avental.
Calçou as sandálias e correu até a chácara de Neide, ali perto.
Pegou a bicicleta emprestada e foi para a cidade.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:23 pm

Melissa desceu as escadas, e Daniel não conteve a admiração.
- Está radiante! - elogiou, olhos brilhantes de emoção.
Ela desceu os degraus com elegância, já praticando-o que Leonor lhe ensinara.
Luís Sérgio saiu da saleta e abriu a boca.
- Uau! Que espectáculo!
Rosana veio logo atrás e o cutucou com força:
- Que espectáculo é esse? De circo?
Ele pigarreou e abaixou os olhos, sem encará-la:
- Só estava admirando.
- Pode admirar de boca fechada.
Aliás, em boca fechada não entra mosquito.
Sábio ditado.
- Olhar não arranca pedaço.
- Mas a minha mordida pode arrancar, Luís Sérgio - vociferou Rosana.
Muito engraçadinho para o meu gosto.
Ele fungou e engoliu a contrariedade.
Daniel percebeu.
Que será que ele aguenta os impropérios de Rosana? - pensou.
Melissa desceu o último degrau. Sorriu.
- Não precisa dar pito no seu noivo.
- Ninguém me diz o que eu tenho ou não tenho de fazer - rebateu, nervosa.
- Por que você é tão insegura?
- O que foi que disse? - indagou, irritada.
- Isso mesmo - redarguiu Melissa.
E repetiu:
- Por que tanta insegurança?
Acha que vou me atirar nos braços do seu noivo só porque ele me fez um elogio?
Rosana iria responder, todavia, Daniel deu o braço para Melissa e falou baixinho, enquanto caminhavam para a saída:
- Não ligue.
Rosana é possessiva.
- Que horror!
Não gosto desse tipo de comportamento.
- Você não é possessiva?
- Não.
- E se gostasse de alguém?
- Também não agiria assim - respondeu Melissa, com naturalidade.
Quem ama liberta, jamais prende.
- Você é muito diferente das garotas que conheci até hoje.
Geralmente querem namorar, prender a gente, botar uma coleira no pescoço, como a Rosana faz com o Luís Sérgio.
- Eu jamais faria isso.
Aposto que você deve ser bem disputado.
Ele riu.
- Depois que o mundo soube que estávamos praticamente falidos, os interesses foram minguando.
- Acho óptimo.
- O quê?
- Que não haja interesseiras rondando você.
- Espere um pouco.
Você está querendo dizer que sou interessante?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:23 pm

- E não é? - ela devolveu a pergunta.
Daniel não soube o que responder.
Sentiu um calor invadir o peito e abriu um lindo sorriso, mostrando os dentes brancos e perfeitos.
Caminharam até a calçada onde estava o carro.
Rosana puxou Luís Sérgio pelo braço.
- Pare de me testar na frente dos outros.
- Eu gosto de deixar você nervosa.
- Olha o meu estado. Imagine o que pode acontecer.
Não posso tomar susto nem passar nervoso.
Ele balançou a cabeça.
- Só estava admirando a moça.
Ela é bonita, não podemos negar.
E está muito bem-vestida. Só isso.
- Você tem de ter olhos só para mim - exigiu Rosana.
- Olhar não mata, meu bem.
Só estou admirando.
- Eu o conheço muito bem, Luís Sérgio - ela abaixou a voz.
Se eu não tivesse engravidado, você teria me largado, como fez com tantas outras.
- Sou homem de palavra - ele devolveu, contrariado.
- Se aconteceu, paciência.
Eu me comprometi a casar.
Portanto, pare de ficar nervosinha quando elogio uma mulher.
- Pois bem...
Luís Sérgio a cortou e apontou para o casal à frente:
- E tem mais.
Não percebeu que Daniel está caidinho por Melissa?
- Será?
- Não vá me dizer que não percebeu?
Um está interessado no outro. Veja.
Rosana ficou pensativa.
Passou a prestar atenção... e não é que Luís Sérgio estava certo?
Melissa e Daniel estavam trocando olhares enamorados.
Uma a menos para me dar dor de cabeça, pensou, enquanto entrava no veículo e acomodava-se no banco da frente, ao lado do noivo.
Durante o trajecto, Melissa observou que Rosana estava mais calma, mostrando amabilidade, sendo cordial.
Luís Sérgio estacionou o carro.
Desceram e foram para a confeitaria.
As meninas pediram milk-shake, os rapazes preferiram guaraná.
Rosana puxou o assunto:
- Luís Sérgio arrendou um escritório de contabilidade e uma corretora de seguros.
- Também não é assim - respondeu ele.
- Tudo isso? - perguntou Melissa.
- Oportunidade de bons negócios, apenas - tornou ele, envergonhado.
- Luís Sérgio é um homem de sorte - interveio Daniel. - E um bom amigo.
- Amigos sempre fomos.
- E você me mostrou que é meu amigo de verdade.
Depois que ficamos sem um tostão, você foi o único que não nos deu as costas.
- Porque nunca fui seu amigo por conta de sobrenome ou fortuna.
Para mim, você sempre foi o meu amigo Daniel.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:24 pm

Nunca me importei se você tinha dinheiro ou não.
E, além do mais, venho de uma família sem sobrenome importante.
- E qual é o problema? - indagou Melissa.
- As pessoas dão muito valor ao sobrenome, sobretudo em São Paulo.
Daniel nunca se importou.
Sempre me aceitou pelo que sou, nunca se importou com o facto de eu ser filho de imigrantes.
Isso é que é amigo de verdade.
Por isso - Luís Sérgio estava emocionado - sempre estarei ao lado dele e vou ajudá-lo no que for preciso.
Daniel é mais que um amigo.
É um irmão.
- Obrigado, amigão - devolveu Daniel, também emocionado.
Também gosto muito de você.
Sabe que pode contar comigo para o que der e vier.
Rosana não estava gostando da melação.
Bebericou do seu milk-shake, fez barulho com o canudinho, de maneira proposital, e retrucou:
- Luís Sérgio é tão generoso e bom que está de compromisso sério comigo.
- Se fosse outro - ajuntou Melissa -, você já teria sido descartada - e, antes que Rosana retrucasse, ela tornou:
- Tem gosto para tudo, não é mesmo, Luís Sérgio?
- Eu gosto da Rosana - ele disse, sem muita convicção.
E minha mãe a adora.
Daniel sorriu:
- Difícil alguém se dar bem com sua mãe.
Aquela mulher é muito dura.
- Igual a mim - rebateu Rosana.
Por isso nos damos bem.
- Você é de onde? - quis saber Luís Sérgio.
- Nasci em Belo Horizonte - respondeu Melissa.
- Faz um tempo que deixei os meus pais e vim morar com meus padrinhos.
São pessoas simples, levam uma vida bem tranquila.
- Por que não vive com sua família? - indagou Rosana, maliciosa.
Algum problema?
Melissa procurou manter ar natural.
Susteve a respiração e respondeu:
- Mamãe ficou viúva muito cedo, antes de eu nascer.
Quando eu era pequena, ela conheceu outro homem, se casaram e há pouco tempo ela teve uma filhinha.
Eu não me senti fazendo parte dessa nova família.
Rosana fez um muxoxo e voltou à sua bebida.
- Seus padrinhos moram num sítio, não? - era a vez de Daniel.
- Aqui perto - ela apontou.
Podemos marcar um passeio.
O lugar é lindo.
Cheio de árvores, pássaros, flores... e tem uma pequena cachoeira nos fundos.
- Não gosto de mato - retrucou Rosana.
Sou bem urbana.
- Vai ser gostoso conhecer o sítio - animou-se Luís Sérgio.
Eu gosto de mato.
- Eu também - ajuntou Daniel.
Rosana deu de ombros.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:24 pm

- Está certo.
Se todos decidem pelo sim, de que adianta eu dizer não?
Melissa manteve-se calada.
Apanhou o canudinho e bebericou seu milk-shake.
Daniel bebeu um gole de guaraná e piscou para ela.
Luís Sérgio percebeu o clima de romance e sugeriu:
- Que tal irmos ao cinema?
- Óptima ideia! - tornou Daniel, animado.
- Adoro cinema - disse Melissa.
- Aprecio com moderação - respondeu Rosana.
- Como, com moderação?
Não entendi.
- Não gosto de filme nacional, queridinha - esclareceu Rosana, já dominada pela arrogância.
- Pois fique sabendo que justamente nesta semana trouxeram filme novo do Mazzaropi.
- Adoro os filmes dele! - exclamou Daniel.
- Se todos decidem pelo sim...
- De que adiante dizer não? - Rosana fez um muxoxo.
Caíram na gargalhada e Rosana não achou graça nenhuma.
Levantaram-se e caminharam na direcção do cinema.
Daniel e Melissa iam na frente, sorridentes e falantes.
Mais atrás, Luís Sérgio arrastava Rosana, emburrada e com uma tromba enorme.
Enquanto Luís Sérgio comprava os ingressos na bilheteira, Melissa voltou o rosto para o lado oposto e viu Lina pedalando na rua.
- O que Lina faz aqui? - indagou para si, franzindo o cenho.
- Quem? - perguntou Daniel.
Melissa apontou, e Rosana quis saber:
- Conhece?
- É a menina que mora connosco no sítio.
Melissa afastou-se do grupo e a chamou.
Lina reduziu a velocidade e parou na guia.
- O que foi?
- Seu Aderbal não está bem - respondeu ofegante.
- Está com dores?
- Sim. Dona Eugénia está aflita.
Pediu para eu localizar o doutor Almeida.
- O consultório dele é logo ali.
- Não podemos perder tempo.
- É tão grave, Lina?
- Acho que sim.
Melissa foi até o grupo.
- Desculpem-me, mas não poderei ficar com vocês no cinema.
- O que aconteceu? - indagou Daniel.
- Meu padrinho está passando mal.
Vamos chamar o doutor Almeida.
- Eu o conheço.
É um médico conceituado - considerou Daniel.
- Podemos ir até o consultório dele agora?
Rosana não estava com vontade de participar.
Todavia, ficara feliz por não ter de assistir ao filme nacional.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:24 pm

Viu o rosto de Melissa contrair-se e disse:
- Eu e Luís Sérgio ficaremos aqui.
Vou avisá-lo para devolver os ingressos.
- Está certo - respondeu Daniel.
Ele e Melissa estugaram o passo.
Antes de acompanhá-los, Lina pediu a Rosana:
- Poderia tomar conta da bicicleta para mim?
Depois venho buscá-la.
- Pode deixar, queridinha - assentiu Rosana contrafeita.
Tomarei conta - ela falou e nem prestou atenção na bicicleta.
Que levem esta latinha velha embora daqui!
É um favor que fazem - murmurou, num misto de riso e descaso, e voltou à bilheteira.
Luís Sérgio batia um papo descontraído com a vendedora.
Rosana bufou, correu até ele e o beliscou:
- Que conversa tão animada é essa? - perguntou indignada.
- Que conversa?
- Não me faça de tonta, Luís Sérgio.
Eu vi a maneira como você estava conversando com essa aí.
O que deu em você?
Resolveu virar um pervertido?
- Essa aí, não. Tenho nome.
Sou casada - a moça mostrou o anel no dedo.
- Sem-vergonha! - exclamou e puxou Luís Sérgio para um canto.
Devolva os ingressos.
- Por quê? O que eu fiz de errado?
Eu não estava paquerando a vendedora e...
- Quieto, Luís Sérgio!
Parece que o tio, padrinho, sei lá o quê da Melissa está passando mal e foram buscar um médico.
A sessão caipira foi suspensa.
Devolva os ingressos para a oferecida da bilheteira.
- Ela não é oferecida.
É uma vendedora simpática.
Só isso.
- Simpática, sei.
- Pare com seus ataques de ciúme.
- Você vai ver o que eu faço aqui.
Boto fogo neste cinema.
Sabe do que sou capaz, Luís Sérgio.
- Eu sei... - ele anuiu, desalentado.
O rapaz caminhou de volta à bilheteira e, gentilmente, explicou à vendedora o motivo da devolução.
A moça, solícita, fez a troca, devolveu o dinheiro e, quando ele virou de costas, a vendedora fez uma careta para Rosana.
- Feia!
- É você - gritou Rosana, descendo as escadas.
- Feia e pobre.
- Pare com isso, Rosana.
Olha a compostura.
- Argh!
- Eu não fiz nada.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:25 pm

- Você se faz de besta, de bobo.
É dissimulado, mas eu bem sei que você olha de canto de olho para as mulheres.
Não pode ver um rabo de saia.
- Não é bem assim.
- É sim - ela alteou a voz.
- Vai querer brigar?
- E se quiser? - desafiou, nervosa.
- Está bem.
Se quiser, podemos terminar tudo agora.
Já não chega o nosso descuido?
Não quero que se torne uma mulher desconfiada e amargurada.
Rosana levou as mãos ao rosto.
- É muita pressão.
Sinto-me uma leviana.
Jamais deveria ter me deitado com você.
- Ei! Não fique assim - considerou Luís Sérgio.
- Venha cá.
Ela se aproximou e ele a abraçou.
- Perdi a virgindade, tornei-me uma mulher desonrada.
Culpo-me todos os dias por ter me deitado com você.
Jamais deveria ceder à tentação.
- Calma. Não fique descontrolada.
- Deveria... tirar.
Ele ruborizou.
- Não diga isso!
Sabe que sou contra.
Você está gerando um filho nosso.
Rosana sabia que Luís Sérgio vinha de uma formação católica e era naturalmente contrário ao aborto.
Ela falava por falar, só para mexer com os brios dele, para parecer vítima da situação, uma pobre coitada, indefesa.
Ele não percebia que ela falava só para provocá-lo.
Eu vou ter que pôr no mundo este infeliz que cresce dentro de mim.
Paciência. Tudo faço e farei para ter você junto de mim - pensou Rosana, fria.
Luís Sérgio não percebia o jogo dela e caía feito um patinho.
Abraçava-a e pedia para ela ter calma.
Ele fora o primeiro e único homem de Rosana e se sentia responsável em desposá-la.
Era uma questão de honra, coisa típica da educação que recebera, além de outro pequeno detalhe...
- Não fique assim.
Vamos nos casar e teremos nosso filho.
Tudo vai se resolver.
- Obrigada - ela falou e enterrou a cabeça no ombro dele.
Luís Sérgio sorriu, contrafeito.
O pequeno detalhe que o prendia a Rosana:
ele estava sendo ameaçado pelo pai e pelo tio.
Se não parasse com a vida de prazeres, com os jogos, as bebidas e as mulheres, não lhe dariam o dinheiro para comprar o escritório de contabilidade e o de seguros.
Ele queria muito ter seu próprio negócio, porém não tinha um tostão.
Rosana aparecera em sua vida em boa hora, mas não era a mulher que Luís Sérgio idealizara ter ao seu lado.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:25 pm

Rosana, mais serena, passou pela bicicleta largada na praça e sorriu:
- Ainda não roubaram?
Adoraria ver a cara de desespero daquela fedelha! - disse para si, bem baixinho, enquanto se recompunha nos braços de Luís Sérgio.
Ele, por sua vez, não prestara atenção no que Rosana dissera nem na bicicleta ali abandonada.
Seus olhos fixavam-se em cada moça bonita que atravessava a calçada.
Doutor Almeida os atendeu e declarou, ar severo:
- Se dona Eugénia pediu que viessem me chamar, é porque Aderbal deve estar muito mal.
- Está, sim, doutor - observou Lina.
Muito mal.
- Precisamos ir de carro - ele disse.
- Podemos usar o carro de Luís Sérgio - interveio Daniel.
- Está certo.
Vou pegar minha maleta e saímos em cinco minutos.
- Sim, senhor.
Daniel foi até Luís Sérgio pedir o carro emprestado.
Enquanto isso, na porta do consultório, Melissa abraçou Lina.
- Estou com uma sensação ruim, um aperto no peito.
- Eu também. O que é isso?
- Não sei, querida.
Mas não é bom sinal.
- Acha que o seu Aderbal... - ela não conseguiu terminar a frase.
Lina a censurou:
- Não diga nada.
Agora não é hora de dizer nada.
Vamos rezar.
- Está certo.
Luís Sérgio entregou a chave do carro para Daniel.
- Não se preocupe connosco.
Eu e Rosana voltaremos a pé.
Afinal, a casa de vocês fica só a algumas quadras de distância.
- Obrigado, meu amigo - tornou Daniel.
- As meninas estão lá na porta do consultório desorientadas.
Preciso acompanhá-las.
E não podemos perder tempo.
- Tudo bem. Podem ir.
Luís Sérgio enlaçou Rosana, rodaram nos calcanhares e saíram em direcção à casa de Leonor.
Daniel chegou com as chaves.
Doutor Almeida saiu carregando a maleta médica.
- Vamos, doutor.
O carro está logo ali - apontou.
Entraram no veículo.
Doutor Almeida foi na frente.
As meninas sentaram-se atrás, mãos dadas.
Fecharam os olhos e rezaram.
Enquanto isso, Almeida indicava o caminho do sítio para Daniel.
Chegaram e, tão logo Daniel estacionou, Eugénia correu até o portão.
- Doutor, por favor.
Ele está com a respiração ofegante e suando em bicas.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:25 pm

- Calma, dona Eugénia.
Deixe-me vê-lo, por favor.
Ela abriu caminho, e Almeida entrou.
Foi directo para o quarto.
Melissa saiu do carro e, chorosa, abraçou Eugénia.
- Oh, tia! Como ele está?
- Nada bem, minha querida.
- Eu deveria estar aqui.
Não podia ter ficado tanto tempo na casa de dona Leonor.
- E de que adiantaria?
Graças a Deus, você estava lá.
Caso contrário, como doutor Almeida chegaria tão rápido?
- Ela tem razão - observou Lina.
Melissa apresentou Daniel.
- Tia, esse é o Daniel, filho da dona Leonor.
- Olá.
- Olá, dona Eugénia - ele apertou a mão dela com delicadeza.
Sinto muito nos conhecermos num momento tão aflitivo.
- Vamos, entrem.
Lina avisou:
- Depois vou até a casa de Neide dizer que amanhã devolvo a bicicleta.
Deixei com aquela moça, a...
- Rosana - completou Daniel.
- É. Acho que é.
Pedi para ela tomar conta para mim.
Entraram na casa e Eugénia foi directo para o quarto.
- E então, doutor?
- Ele precisa ser internado.
Imediatamente.
- Posso ajudá-lo a carregar o paciente até o carro - ofereceu-se Daniel.
- Por favor, meu jovem.
Vou precisar da sua ajuda.
Estou ficando velho e não tenho tanta força para carregar um touro feito Aderbal.
- Eu ajudo, sem problemas.
- Vai dar tudo certo, querido - disse Eugénia a Aderbal.
Ele fez sim com a cabeça.
Melissa quis ir junto.
- Não, querida.
Você e Lina ficam aqui.
- Eu vou com a senhora - pediu Lina.
Daí aproveito e pego a bicicleta de volta.
- E vai voltar sozinha?
- Não tem problema.
- Vamos logo - tornou Almeida.
O tempo urge e precisamos chegar o mais rápido possível ao hospital - e, virando-se para Daniel, prosseguiu:
- Precisamos carregá-lo. Já!
- Sim, senhor.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:25 pm

Lina tranquilizou Melissa:
- Eu volto rápido.
Vamos ficar juntas.
- Está bem.
Aderbal pediu para ficar a sós com Eugénia.
- Não temos tempo - doutor Almeida foi categórico.
- Preciso só de um dedinho de prosa com ela, doutor.
Por favor.
- Está bem. Seja rápido.
Saíram do quarto, e Eugénia encostou a porta.
Correu até a cama.
- O que foi, querido?
- Aconteça o que acontecer, você precisa ter uma conversa com Lina.
- Isso agora, Aderbal?
- Por favor - ele levou a mão ao peito.
- Não fique assim - ela estava chorosa.
- Precisamos contar, Eugénia.
Ela merece saber.
- Não. Para quê?
- Porque é a verdade.
A verdade deve ser dita.
- Quando você voltar do hospital, conversaremos melhor.
Agora precisa tratar da saúde.
- Não. Eu não posso morrer com isso entalado na garganta.
- Você não vai morrer!
- Eugénia, Lina precisa saber que você é prima distante de Bibiana, que você sabia de uma possível jóia escondida na casa dela.
Eu fui até lá, procurei, segui a família de Lina, vi aqueles homens matarem os pais e o irmãozinho dela e não pude fazer nada...
Aderbal falava entre soluços:
- Não posso mais compactuar com esse silêncio.
É ele que está me matando.
- O que poderia fazer?
Como iria salvá-la?
Eles eram assassinos!
- Eu sei, mas poderia ter chamado a polícia, ter feito alguma coisa.
O facto é que não fiz absolutamente nada, entende?
Deixei a menina a míngua, na mão daqueles matadores frios e cruéis.
Eles poderiam tê-la matado, Eugénia, ou feito coisa muito pior.
- Não mataram!
Você a seguiu, fingiu estar à toa na estrada, trouxe-a para cá.
Acabei me afeiçoando a ela.
Lina ganhou um lar, uma família.
Acabamos lhe fazendo um bem.
Nunca quisemos lhe fazer mal.
- Precisamos ser claros, transparentes.
Ela tem de saber a verdade.
E, em troca, vamos lhe dar a certidão de nascimento de Estela.
É o meu último desejo...
A pontada agora veio forte e fatal.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:26 pm

Aderbal levou a mão ao peito e deu um grito de dor.
Arregalou os olhos, que ficaram estáticos fitando o nada.
As mãos caíram pesadas sobre a cama.
Eugénia deu um grito:
- Não! Por favor, Aderbal.
Não morra!
Daniel e doutor Almeida entraram no quarto.
Almeida afastou Eugénia, que chorava convulsivamente.
Daniel a abraçou, e Almeida constatou:
Aderbal estava morto.
Passada uma semana do enterro de Aderbal, Melissa decidiu permanecer no sítio.
- Não, querida.
Você tem que seguir sua vida.
Fique no casarão.
- Não, senhora - protestou. - Agora somos nós três.
- Tem o sonho de ser miss ou manequim.
Estava se dando tão bem com dona Leonor.
- Agora precisamos estar juntas - ressaltou Melissa.
- Não quero que emperre sua vida por minha causa.
- Não estou fazendo nada que não queira, tia.
Estou decidida.
Eugénia a beijou no rosto, comovida.
- Obrigada pelo carinho.
- Onde coloco as roupas do seu Aderbal que estavam para passar? - indagou Lina.
- Não precisa passá-las - interveio Eugénia.
- Vamos doá-las.
Vou levá-las para o barracão da Neide.
Tem muitos homens que mal têm o que vestir.
As roupas serão bem-vindas.
Lina deu de ombros e as separou em um canto.
Dobrou-as com jeito. Eugénia a encarou.
Será que conversamos? - se perguntou.
Precisamos conversar.
Ela entregou a colher de pau para Melissa:
- Vá mexendo até atingir o caldo.
Depois, mexa mais cinco minutos e desligue.
- Sim, senhora.
Eugénia caminhou a passos vagarosos até Lina.
Respirou fundo e considerou:
- Precisamos conversar.
- Diga, dona Eugénia.
- Conversa particular.
- Fiz algo errado?
- Não. Só quero conversar.
Está muito ocupada?
- Não muito.
- Vamos para o seu quarto.
Lina achou aquilo tudo muito sério para o gosto dela.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:26 pm

Sentiu leve desconforto.
- Está bem.
Ela largou os afazeres, tirou o avental e o dependurou atrás da porta.
Em seguida, acompanhou Eugénia até o quarto.
Assim que entraram, Eugénia fechou a porta e apontou para a cama:
- Sente-se, por favor.
- Por que tanto mistério?
- Quero que escute tudo, de uma só vez e, por favor, não me interrompa.
Se quiser, poderá me cravar de perguntas no final.
No entanto, deixe-me falar tudo.
Lina assentiu e Eugénia começou:
- Há muitos anos, minha família dividiu-se.
Uma parte tentou a sorte no Nordeste, e a outra parte quis ficar por estas bandas, entre Minas Gerais e Goiás, em busca de ouro e pedras preciosas.
Lina ouvia com atenção.
- Depois de certo tempo, um tio-avô meu instalou-se no Ceará, em uma cidade pequena, e por lá ficou até o fim de seus dias.
Casou-se e teve filhos.
Uma de suas filhas chamava-se Bibiana.
Lina deu um salto da cama e levou a mão à boca, surpresa:
- Bibiana? Dona Bibiana?
- Sim.
Um brilho de emoção perpassou os olhos de Lina.
- A senhora é parente de dona Bibiana!
- Sou. Prima de segundo grau.
- Que mundo pequeno!
- Nem tanto.
Trocávamos cartas e, num determinado momento, Bibiana, já com idade, confidenciou-me que o pai dela havia encontrado, muitos anos atrás, uma pedra preciosa.
Era uma pedrinha bruta, que poderia valer um bom dinheiro, que ela guardava com muito carinho porque era a única lembrança que sobrara do pai.
- E?
- Ocorre que eu fiquei com aquilo aqui, na cabeça - Eugénia levou o dedo até a têmpora -, matutando, sem esquecer.
Quando um primo distante nos avisou que Bibiana havia falecido, imediatamente lembrei-me da pedra e fiz Aderbal ir até o Ceará, lá no sertão, à procura dela.
Lina começou, instintivamente, a juntar os pontos.
De repente, começou a sentir que ela não estava naquela casa por coincidência.
Aderbal e Eugénia estavam de olho nela! Era isso!
- Seu Aderbal... painho me disse que havia um homem na cidade, com um veículo... agora estou me lembrando... à procura da casa de Bibiana.
Então era o seu Aderbal que tinha ido lá.
- Era sim, querida.
Aderbal foi até lá, mas não encontrou nada.
- E depois ele voltou para cá?
Foi isso?
- Não - Eugenia estava envergonhada.
Aderbal achou que você pudesse ter pegado a pedra.
Ele a viu entrar na casa de Bibiana e a seguiu até lhe dar carona no Jequitinhonha.
Lina tentou concatenar os pensamentos.
Os olhos giraram nas órbitas.
- Espere um pouco...
Quer dizer que... seu Aderbal viu os assassinos de minha família?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:26 pm

- Viu.
- Ele viu aqueles homens matarem meus pais e meu irmão?
- Sim - a voz de Eugenia saiu tremida.
- E não fez nada?
- Ele teve medo, Lina.
Como poderia desafiar dois matadores?
- Poderia ter ido à polícia, poderia ter dado um tiro, poderia ter passado com essa lata velha sobre eles, poderia ter feito tanta coisa...
- Eu sei, meu bem.
Ele pediu, pouco antes de morrer, para eu lhe contar tudo o que estou contando.
- Por quê? - a voz de Lina saiu engasgada.
Porque, se ele não pedisse, a senhora não ia me falar nada? É isso?
- Não!
- Se seu Aderbal não pedisse para revelar-me esse odioso segredo em seu leito de morte, a senhora continuaria calada? É isso?
Eugenia não respondeu.
As lágrimas começaram a descer.
- Seu silêncio já diz tudo.
Lina sentia o ar faltar.
A vontade que tinha era de avançar sobre Eugenia e lhe dar uns bons sopapos.
- Como pôde ele, um homem maduro, pai de família, deixar uma moça como eu, indefesa, nas mãos daqueles trogloditas?
Eles queriam me violentar!
Eles poderiam ter me matado!
- Mas não mataram - emendou Eugenia chorosa.
Não mataram. Você está aqui.
Veio para nossa casa, foi acolhida, amada, ganhou um lar, um pai, uma mãe e até uma irmã.
Melissa a adora.
- Não adianta querer que eu fique contente por ter ganhado essas migalhas.
Vocês estão tentando aliviar o remorso, isso sim.
Estão tentando aplacar a culpa que têm.
Deve ter sido por isso que seu Aderbal morreu.
Eugenia a encarou com olhos injectados de fúria.
- Não fale assim de meu marido.
Respeite a memória dele!
Lina riu com desdém.
- Respeito?
Depois do que me foi revelado?
Eu não tenho respeito por nenhum de vocês.
- Por favor, Lina. Entenda.
Lina foi até o guarda-roupa, escancarou a porta e abriu uma gaveta.
Meteu a mão no fundo e de lá tirou o saquinho de couro.
Arrancou a pedra brilhante e cristalina, e atirou no colo de Eugenia.
- É isso o que queria, não é?
Pois tome. Fique com sua pedra preciosa, com sua jóia.
Eugenia pegou a pedra e chorou mais ainda.
- Então você a tinha desde sempre!
- Era só ter me pedido.
Nunca comentaram nada comigo.
- Como você descobriu?
Quem lhe contou sobre a pedra?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:26 pm

- Dona Bibiana.
Quer dizer, o espírito dela.
Eugenia não entendeu.
- Eu sonhei com dona Bibiana, e ela me falou sobre a pedra - explicou Lina, irritada.
Jamais iria imaginar que vocês eram tão gananciosos.
Vai ver que é por isso que Deus levou sua filha.
Eugenia não se conteve.
Levantou-se e o tapa foi forte: plaft!
Lina levou a mão ao rosto.
- Ardeu. E juro que me deu vontade de revidar.
Respeito os mais velhos, mas não sou covarde, não assisto ao assassinato de uma família de braços cruzados - ela falou, apanhou uma sacola e meteu algumas peças de roupa dentro.
- O que está fazendo?
- Vou-me embora daqui.
- Não faça isso, por favor - suplicou Eugenia.
Eu vou lhe dar a certidão de nascimento de Estela, assim como a cédula de identidade.
Logo Estela completaria dezoito anos.
Você poderá ser livre e independente, ir para onde quiser.
- Não quero viver com os documentos de uma morta.
- É o mínimo que posso fazer para me redimir.
E era o desejo de Aderbal.
Por favor, você está com a cabeça quente, Lina.
- Está fervendo, isso sim.
Melissa entrou no quarto.
- Que gritaria é essa?
- Nada, querida - tornou Eugenia.
Ela viu a sacola e o rosto transfigurado de Lina, além dos olhos inchados de Eugenia.
- O que está acontecendo?
- Pergunte à sua madrinha - provocou Lina.
- Estou de saída.
- Aonde vai?
- Passar uma longa temporada com a Neide.
Ela girou nos calcanhares e bateu a porta.
Melissa abaixou-se e perguntou, fitando Eugenia:
- Tia, o que aconteceu?
- Tudo, minha filha.
Tudo! - e desatou a chorar.
Lina jogou a sacola no chão e bateu palmas no cercadinho que dava para o barracão.
Não era dia de trabalhos espirituais, mas havia uma luzinha acesa.
Uma mocinha atendeu:
- Oi.
- Eu queria falar com a Neide - pediu Lina.
- É para atendimento?
- Não. Sou amiga dela.
Meu nome é Lina.
- Ah, você é a aluna que mora no sítio da dona Eugenia?
- Eu mesma.
- Entre, por favor.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 8:27 pm

Lina agradeceu e entrou.
Neide estava no fundo do barracão, terminando de acender velas para seus guias e fazendo orações.
Lina ficou só observando.
Assim que Neide terminou, abriu um sorriso maroto:
- Estava esperando você!
- É?
- Sim.
Neide aproximou-se e beijou-a no rosto.
- Vai passar uns tempos comigo, né?
- Como sabe?
Ela apontou para a sacola.
- Além do mais, a sua mentora já tinha passado por aqui e me informado.
- Mentora?
- É. Uma espécie de anjo da guarda.
Ela veio conversar comigo.
É uma russa, linda.
Lina sentiu um estremecimento pelo corpo.
Lembrava--se vagamente dos seus sonhos com Maruska.
Mas era tudo muito vago, muito fragmentado.
Ela não estava em condições emocionais de reagir positivamente.
Estava fula da vida, isso sim.
- Por que será que esse anjo da guarda não me preveniu dos traidores?
Poderia ter me afastado deles.
- Anjo da guarda não faz o nosso trabalho.
Eles só nos orientam, inspiram, mais nada.
- Grande coisa!
- É uma grande coisa, sim.
Se você estiver bem, conectada com a sua essência, vai conseguir captar o que esse espírito amigo tem a lhe dizer.
Lina fez um gesto vago com as mãos. Estava cansada.
Deixou-se cair sobre uma cadeira e confessou:
- Estou muito triste.
- Ainda está com a sensação de ter sido traída?
- Não, pior.
Apunhalada pelas costas.
- Não vejo motivo para tanto drama.
- Porque não é você quem está passando por isso.
- Venha comigo.
Aqui não é local para esse tipo de conversa.
Lina girou os olhos nas órbitas.
Não queria levantar-se dali, não queria fazer mais nada.
Estava realmente triste e desiludida.
Gostava muito de Eugénia e Aderbal.
E adorava Melissa.
Tomara a decisão de rompimento num impulso, mas não era do tipo que voltava atrás.
Seu orgulho jamais a faria voltar e rever os factos.
Neide a puxou pelo braço e caminharam pelo quintalzão até chegarem a um quartinho de terra batida, com uma mesinha de madeira, algumas figuras de santos, velas coloridas e um quadro enorme de Nossa Senhora pendurado atrás da mesa.
- Que quartinho bonito!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:17 pm

- É bem simples - tornou Neide.
Contudo, a energia é maravilhosa.
É aqui que atendo, faço as consultas, recebo meus guias para passar as orientações de cura.
- Interessante.
- Você já tem inteligência para aprender e lidar com essas energias, conhecer melhor sobre o mundo espiritual.
- Não sei.
- Não é obrigada, mas a vida espiritual é tão rica, tão bonita.
Conhecê-la abre nossa consciência, amplia nosso grau de lucidez e melhora os sensos de nossa alma, ajudando-nos a fazer escolhas mais acertadas, errando menos.
Afinal, queremos viver sem sofrer.
E, para viver sem sofrer, é necessário usar a inteligência e conectar-se com as forças espirituais superiores.
- Não sei se conseguiria.
- Claro que consegue.
Tudo é uma questão de treino e habilidade.
- Agora estou nervosa e irritada.
- De nada adianta estar nesse extremo.
Precisa parar e reflectir.
- Reflectir sobre o quê? Fui traída.
- Está olhando a situação por um único ângulo.
- E por acaso existe outro ângulo que eu deva ver?
- Sim. Toda história tem duas versões.
- Eles só queriam a pedra preciosa, a jóia.
- Agora entendi... você está assim porque se sentiu desprezada.
- Hã?
- É. Eles não queriam você, de jeito algum.
Queriam a jóia, a pedra preciosa.
Você era um nada para eles.
Lina sentiu um ódio surdo brotar no peito.
Neide prosseguiu:
- Como é sentir-se um nada, um ser insignificante?
- Não é bem assim...
- Vamos. Feche os olhos.
Sente-se nessa cadeira - apontou.
Você agora assume que é um nada, um zero à esquerda.
Como seu corpo reage?
Lina sentiu profundo incómodo.
A respiração, entrecortada num primeiro momento, tornou-se mais ofegante, e ela explodiu num grito de raiva:
- Sei que não tenho valor, mas podiam ter consideração por mim.
Era só isso que eu queria.
- Ora, como queria que tivessem consideração, se você mesma jamais se colocou em primeiro lugar?
- Porque isso é errado - Lina abriu os olhos, enxugou as lágrimas, parecia estar um pouco mais calma.
Sempre me disseram que os outros vêm em primeiro lugar.
- Está errado.
Se você não se valorizar, quem vai lhe dar o devido valor?
Ela não soube responder.
Abaixou a cabeça, pensativa.
Neide estava com a modulação de voz firme.
Era nítido que estava com a companhia de um de seus guias.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:17 pm

Continuou:
- Como pode exigir dos outros algo que você mesma não se dá?
- Acho que não sou digna de nada.
- Enquanto pensar dessa forma, não terá nada na vida, nem mesmo um nome.
- Tenho um nome.
Eu me chamo Lina.
- Prove - Neide provocou.
Onde está o documento de identidade?
Você nem existe para o mundo.
Lina não sabia o que dizer.
As palavras de Neide - ou do guia, quem quer que fosse - eram muito duras, porém necessárias para começar a arrancá-la desse mar de ilusões, dessa bolha de plástico que havia criado para não ter contacto com a realidade.
O mundo era amplo, grande, rico, e havia muita coisa para fazer, muito para aprender.
Lina aceitara viver em um mundinho que seu espírito recusava aceitar.
O seu espírito queria mais, muito mais.
Estava na hora de ela mudar.
Antes de ela responder, Neide a tranquilizou:
- Passará um bom tempo aqui.
Eu procurarei ajudá-la no que for possível.
Conte comigo e com nossos amigos espirituais.
Lina levantou-se e abraçou-a emocionada.
- Obrigada.
Eu não quero mais voltar para o sítio de dona Eugénia.
Não quero.
Solange chegou em casa e, mais uma vez, estava difícil encarar Luís Sérgio.
Ela procurava entrar pelos fundos, passava pela cozinha, tirava os sapatos e subia devagarinho.
Naquela tarde teve o desprazer de cruzar com Rosana descendo as escadas.
- Oi, queridinha.
- Oi.
- Por que você sempre entra pelos fundos? - indagou, provocativa.
- Não gosto de aparecer.
- Sei. Luís Sérgio falou de você.
Solange sentiu as faces arderem.
- Falou? O quê?
- Que você ficava grudada no pé dele.
- Nunca fiquei grudada no pé de ninguém - a voz de Solange não era das melhores.
- Não é o que soube.
E, de mais a mais, você não faz o tipo dele nem aqui nem na China.
- Pode me dar licença?
Estou atrasada.
- Para quê? Tem compromisso?
- Estou na minha casa.
Saia da minha frente.
Solange a empurrou com força, e Rosana teve de se equilibrar no corrimão para não cair.
- Grossa! Família grossa.
- O que foi? - quis saber Luís Sérgio.
- A tonta da Solange acabou de chegar.
- Ahã.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:18 pm

- Como ahã, Luís Sérgio?
- Nada.
- Se eu perceber você de olho nela, já sabe.
- Ela não faz meu tipo, você sabe.
Por que tanta implicância?
Rosana fez beicinho.
- Deve ser o meu estado - e passou a mão no ventre.
- Precisamos correr com os preparativos.
Logo essa barriga começa a crescer e todos vão notar.
- Vamos embora neste fim de semana.
- Não aguento mais ficar aqui.
Já estou até o pescoço com esta cidade.
Quero ir embora amanhã. Pode ser?
- Está bem. Amanhã.
Rosana subiu para se trocar.
Não via a hora de voltar para São Paulo e cuidar dos preparativos do casamento.
A tarde em que Aderbal dera carona para Eunice e levara Melissa embora para casa ainda causava frémitos de emoção em Eunice.
Ela se lembraria do episódio por muitos e muitos anos, com riqueza de detalhes, desde o momento em que subira os degraus do jardim até entrar na sala e contar, emocionada, à mãe e à irmã o acontecimento inusitado daquele dia.
- Parece filme! - Leonor empolgou-se.
- Pois é, mamãe.
Pensei que fosse ter um ataque, que fosse sofrer de novo.
Mas, quando dona Eugénia me disse que Hermes está viúvo, não tem filhos e nunca mais se interessou por mulher nenhuma, eu fiquei com esperanças.
- Isso é muito bom.
Torço para que tudo dê certo.
Agora que tantos anos se passaram, vocês estão mais experientes, podem viver um amor maduro, pleno, sem os arroubos da paixão - tornou Leonor, contente.
- Não sei - observou Solange. - Será?
- Por que diz isso? - indagou Eunice.
- Não sei. Será mesmo que Hermes ainda gosta de você?
- Fiquei com essa dúvida me corroendo por dentro.
Mas quando seu Aderbal chegou, comentou que foi visitar Hermes no hospital.
Quando eu soube que Hermes falou, com todas as letras, que nunca me esqueceu, não tive dúvidas de que ainda vale a pena tentar.
- Melhor terem uma conversa.
Não sei se ele ainda pensa como anos atrás.
- Você está muito amarga, Solange.
- É. Também acho - anuiu Leonor.
Solange não respondeu.
Levantou-se e subiu.
- O que deu nela, mamãe?
- Não sei.
Sua irmã anda estranha ultimamente.
Tem conversado pouco, se alimentado muito mal.
Viu como emagreceu?
- É. Tenho notado que ela está mais triste.
Antes, Solange era a alegria da casa, trazia os livros espíritas, os romances, falava com empolgação sobre o mundo espiritual...
O que será?
- Não sei. Para mim, ela está assim por conta daquele não que recebeu de Luís Sérgio.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:18 pm

- Será? Ainda?
- Sim. Creio que Solange ainda não se libertou disso.
- E quando vai se libertar?
- Não sei.
Confesso que não sei.
No quarto, Solange olhava-se no espelho e percebia o quanto havia emagrecido.
Deu de ombros.
- De que adianta manter um corpo bonito?
Ninguém quer saber de mim.
Luís Sérgio não quis saber de mim.
Os homens não querem saber de mim.
Até Eunice, que ficou dez anos presa num quarto, está tendo a chance de ser feliz.
Só eu que não consigo ter essa chance.
Isso é injusto.
Na manhã seguinte, antes de cruzar os portões da escola, Solange encontrou Neide nos corredores.
- Como vai?
- Faz tempo que não nos vemos.
Desde a morte de seu Aderbal - disse Solange, procurando ser breve e desenvencilhar-se de Neide.
A bem da verdade, Solange procurava evitar encontrar Neide pelos corredores da escola.
Tinha medo de ouvir um sermão, uma advertência, um puxão de orelhas do lado de lá, ou algo do género.
Nesse dia, porém, não teve como escapar.
Antes de dar tchau, Neide declarou:
- Não precisa fugir de mim.
Eu não mordo e sou muito reservada.
Não gosto de importunar as pessoas.
Jamais pararia você para dar sermões ou algo do género.
Solange sentiu o rosto arder.
Mordiscou os lábios, apreensiva:
- Imagine! Eu?!
- Não precisa fazer cenas comigo.
Em todo caso, de hoje em diante, pode ter certeza de que não vou mais parar para conversarmos.
Vou cumprimentá-la a distância.
- Nunca disse nada, Neide - balbuciou num fio de voz.
- Nem precisava.
Eu leio os pensamentos, esqueceu?
Solange a puxou pelo braço e a levou até um canto do pátio, antes de cruzarem os portões.
- Mil desculpas. Não quis ser indelicada.
É que, depois daquela nossa conversa sobre Luís Sérgio, fiquei mexida.
E, agora que ele está lá em casa, tenho a impressão de que tudo voltou.
Eu não consegui me desenvencilhar do passado.
Parece que ainda estou presa...
- Está presa em sua mente.
- Como assim?
- O seu problema não é Luís Sérgio, Rosana ou quem quer que seja, mas a sua cabecinha - Neide apontou para a testa.
- Luís Sérgio mexe comigo, sabe?
Toda vez que o vejo lembro-me de ele me falando aquele não, e a Rosana, agora, toda metida, com aquele ar triunfal e...
Neide a cortou sem cerimónia.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:18 pm

- Pare com essa conversa que não vai nos levar a lugar nenhum.
Você precisa, antes de mais nada, aceitar que somos livres para escolher amigos, amantes, parceiros, companheiros, maridos, profissões, alimentos, ou seja, temos o poder de escolha, podemos escolher o que quiser, a hora que quiser e como quiser.
Se Luís Sérgio decidiu que você não era a mulher ideal para ele, vamos bater palmas à sinceridade dele.
- Mas a Rosana não tem nada a ver com ele.
É fútil, manipuladora, fria, vai fazê-lo sofrer.
- Está com dor de cotovelo.
- Assim você me ofende.
- Está cheia de orgulho.
Todo orgulhoso se ofende.
Se fosse humilde e estivesse de bem consigo mesma, cuidando da sua vida, valorizando o que sente, dando atenção aos seus gostos e preenchendo as próprias necessidades, jamais teria tempo para apontar o lado negativo dos outros, ou comparar-se aos outros, o que é pior.
- Comparar-se é saudável.
- Quem disse?
Um louco, talvez!
Comparar-se é o mesmo que negar Deus.
Solange estremeceu.
Neide continuou:
- Óbvio do óbvio!
Se Deus nos fez todos semelhantes, mas com corpos, rostos, ideias e habilidades diferentes, como poderemos nos comparar?
Isso é insano, é desumano.
Todo aquele que se compara está negando a essência divina em si e se afasta cada vez mais da sua verdadeira espiritualidade.
Solange não sabia o que dizer.
- Bom... eu...
- Você não tem problemas com Luís Sérgio, com Rosana, com ninguém.
O seu problema é consigo mesma.
Aceite-se do jeito que é.
- Eu me aceito.
- Não. Não se aceita.
Você, Solange, tem um lado ousado, tem um espírito vanguardista, moderno, muito à frente do convencional.
Está presa a padrões de comportamento que não têm nada a ver com a sua realidade espiritual.
Eu disse sua - enfatizou.
Seu guia, aqui do meu lado, está me dizendo que você veio ao mundo para experimentar, viver novas aventuras, abrir-se ao novo, conhecer, amar, mostrar às pessoas que o diferente também funciona, também pode dar certo.
Solange sentiu um estremecimento agradável pelo corpo, logo depois uma sensação de leveza, como se uma couraça tivesse sido arrancada, e ela pudesse seguir livre pelo mundo, pela vida, leve, solta, cheia de ousadia, dirigindo o próprio destino de acordo com o que sentia, não com o que pensava.
O peito ficou mais leve, a emoção veio forte, e o pranto também.
Ela caiu de joelhos e chorou, chorou como havia muito tempo não chorava.
Neide passou as mãos nos cabelos sedosos de Solange e acrescentou, numa voz amável:
- Isso, Solange.
Siga seu rumo, vá viver do seu jeito.
A vida no planeta é muito curta, passa muito rápido.
Não perca a oportunidade de arriscar, experimentar, atirar-se ao novo.
O espírito adora o novo.
Solange recompôs-se.
Levantou-se e, limpando as lágrimas com as costas das mãos, olhos inchados, disse firme:
- Tenha certeza de uma coisa, Neide.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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