Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:18 pm

- O que é?
- Nunca mais, nesta vida, eu vou deixar de fazer o que a minha alma anseia.
Nunca mais, nem que eu tenha que ignorar completamente todas as convenções da sociedade.
Eu não nasci para seguir padrões sociais rígidos.
Nasci para seguir as minhas próprias regras, respeitando a mim e aos outros, claro, mas, acima de tudo, vim para ser feliz.
O meu compromisso nesta encarnação é comigo e não com o mundo.
- Entende agora por que o não de Luís Sérgio a incomodava sobremaneira?
Solange fez sim com a cabeça.
- Tem razão.
O não que escutei dele jamais me machucou ou me fez mal.
Na verdade, o não de Luís Sérgio representava tudo o que eu negava para mim mesma:
minhas vontades, minhas qualidades e, principalmente, as aspirações de minha alma.
Nunca mais vou dizer não para mim, porque eu não quero viver assim, dando suporte aos outros sem antes dar suporte a mim.
- Só você pode tomar conta de si mesma.
- Você abriu meus olhos, minha mente, meu coração - Solange abraçou-a com carinho - Obrigada!
- Confie no senso de sua alma - finalizou Neide.
Você vai vencer!
Penha e Jurandir saíram do cartório com a escritura definitiva devidamente registada.
- Nem acredito que temos um imóvel em nosso nome - exultou Penha, feliz da vida.
- E nunca mais pagaremos aluguer - acrescentou Jurandir.
Agora temos nosso próprio negócio.
Vou fazer aquele botequim render muito dinheiro.
Você vai ver, meu amor.
Vou trabalhar dia e noite, faça chuva ou faça sol.
Não terei um dia de descanso sequer.
- Também não exagere.
Moramos perto da praia.
Quero que você tenha uma vida mais tranquila.
Lembre-se do seu problema nas costas.
Não quero um marido doente.
Jurandir fez um gesto vago com as mãos.
Fingira durante tantos anos e agora não via mais necessidade nem sentia vontade de usar desculpas esfarrapadas para não trabalhar.
Era outro homem, ou pelo menos acreditava que se tornara outro.
- Imagine, Penha.
Agora temos nossa casa, nosso bar, nossa filha pequena, uma vida boa pela frente.
A doença ficou lá em Belo Horizonte.
- Nem me fale mais o nome daquela cidade.
Faz eu me recordar de Melissa, filha ingrata!
- Tem certeza de que não quer mesmo voltar a falar com ela?
- De jeito nenhum. Melissa foi uma ingrata.
Eu a criei com tanto sacrifício...
O que ela e Eugénia fizeram comigo não tem perdão.
E, de mais a mais, elas tentaram envenenar nosso casamento, inventando aquelas histórias escabrosas sobre você e Melissa.
Jurandir engoliu em seco.
O rosto ficou vermelho, contudo, Penha não notou.
Ela continuou:
- Elas foram ordinárias, venais.
A minha própria filha teve o desplante de inventar uma barbaridade daquelas!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:18 pm

Eu nem consigo imaginar.
Fico até com enjoo.
Penha parou de falar e apoiou-se no braço de Jurandir.
Fizeram sinal para um táxi e logo estavam na esquina onde ficava o bar.
Era uma rua movimentada, mas sem muito comércio.
Os vizinhos conheciam uns aos outros, e uma das vizinhas tomava conta de Telma.
O assobradado era bem construído.
O imóvel, na parte de cima, tinha uma sala, cozinha, banheiro, dois quartos e um bom quintal.
Penha colocara ali alguns vasos, fizera um pequeno jardim.
Com parte do dinheiro que a tia deixara na Caixa, redecoraram os cómodos.
- Quero tudo do bom e do melhor - ela exigiu.
Jurandir foi às lojas, negociou os preços com os vendedores.
Compraram geladeira, televisor e um móvel com toca-discos e rádio embutidos.
Penha colocava os discos de samba-canção, bossa-nova, cantarolava pela casa, alegrando o ambiente.
A pequena Telma crescia feliz e, aos dois aninhos, já cantarolava as músicas em voga.
Os vizinhos adoravam ir até a casa de Penha para ver a pequena Telma cantar.
Era um acontecimento.
Tudo corria às mil maravilhas.
O botequim prosperava, Jurandir era benquisto na redondeza, Penha era a esposa exemplar e mãe perfeita.
Telma era uma menina encantadora e a filha que muitos desejariam ter no seio familiar:
bonita, rechonchuda, sempre alegre, educadinha e simpática.
Um doce de criatura.
Foi no aniversário de três aninhos de Telma que algo de estranho ocorreu.
Depois da festinha, as crianças e suas mães foram embora.
Penha foi recolher os restos de doces e salgados da mesa, retirar os pratinhos, copinhos, línguas de sogra e chapeuzinhos quando tropeçou e derrubou um copo ainda cheio de guaraná sobre o corpinho de Telma.
- Meu bebé, desculpe.
Ela correu até a cozinha, apanhou um pano e voltou para limpar a filha.
Telma sorriu e, enquanto passava a mão pelo vestido molhado, balbuciou:
- Mamãe, caiu gualaná.
Penha riu, e Jurandir foi até a sala.
- O que foi?
- Comecei a limpar a bagunça da festinha e não notei um copo cheio de guaraná.
Acabei derrubando-o sobre Telma.
- Não acha melhor tirar o vestidinho?
Eu dou um banho nela.
- Sabe que tem razão?
De nada vai adiantar eu tentar secar.
Eu dei um banho de guaraná na menina.
Telma continuava rindo.
- Papai, mamãe, caiu gualaná.
Penha tirou o vestidinho de Telma, e Jurandir pegou a menina no colo.
- Venha.
Papai vai lhe dar um banho bem quentinho.
- Vou levar o vestido lá no tanque e deixar de molho - tornou Penha, levantando-se e saindo para o quintal.
Telma passou os bracinhos pelo pescoço do pai.
Entraram no banheiro.
Jurandir ligou o chuveiro, puxou a mangueirinha.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:19 pm

Ela se soltou da ducha e Jurandir ficou todo ensopado.
- Papai molhado!
- É. Papai se molhou todo.
Jurandir tirou a camisa, a calça e ficou de cueca.
Sentou Telma no chão, embaixo do chuveiro, e passou a esfregar o corpinho dela com sabonete.
Telma, inocentemente, esticou a mãozinha e tocou nas genitálias de Jurandir...
A compulsão veio de maneira incontrolável.
O corpo de Jurandir estremeceu da cabeça aos pés.
Ele sentiu um excitamento sem igual.
Olhou para a filha, mas não via nada à sua frente.
Levantou-se, trancou a porta do banheiro.
Abaixou a cueca, entrou no reservado do box e sentou Telma em seu colo.
Em seguida, fechou a cortina de plástico e sabe lá deus o que Jurandir fez com a filha.
Penha não notou nada de estranho.
Entretida com a limpeza e com a música alta tocando no aparelho de som, só foi perceber que havia alguma coisa, digamos, um tanto esquisita, quando, meia hora depois, notou que Jurandir e Telma ainda estavam no banho.
Bateu na porta, girou a maçaneta e estranhou a porta trancada.
- Jurandir! - exclamou, numa voz alteada.
- Estamos de saída.
Acredita que, não sei como, a porta emperrou aqui por dentro?
- Hã?
- É. Fiquei chamando você, já faz quase meia hora.
Você estava cantando junto com o disco.
Creio que não tenha me escutado.
- Oh, querido!
Tem razão.
- Bati tanto na porta.
Preciso que me ajude.
Pegue a chave de fenda na última gaveta da pia da cozinha.
Penha correu até a cozinha e Jurandir passou o dedo sobre a cabeça de Telma.
- Papai vai brincar muito com você.
Só que não pode contar para ninguém.
- Não contar.
- Não pode. É segredo.
É uma brincadeira de papai com Telma.
- Tá bom - respondeu, de maneira inocente, sem ter a mínima noção do que o pai fizera com ela.
Penha voltou com a chave de fenda.
- Estou com ela aqui, meu amor.
- Passe-a pela janelinha aí do quintal.
- É alta.
- Use uma cadeira.
- Está bem.
Penha deu a volta, foi até o quintal, encostou uma cadeira na parede, subiu e entregou a chave de fenda pelo basculante.
Jurandir apanhou a ferramenta e fingiu que mexia na fechadura.
Depois de uma cena, girou o trinco e abriu.
Jurandir sorriu e entregou a menina, enrolada numa toalha.
Penha pegou-a nos braços e Telma sorria, mas seu corpinho todo tremia.
Tremia sem parar.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:19 pm

- Ela está tremendo.
- Não notei nada de anormal durante o banho - alegou ele, cínico.
Penha colocou a mão sobre a testa da menina.
- Meu Deus! - exclamou.
Telminha está ardendo em febre.
Melissa bem que tentou persuadir Lina a voltar a viver com ela e Eugénia no sítio, mas em vão.
Lina não quis dar o braço a torcer.
Ela tentou durante um ano, dois anos.
E o discurso não mudava muito.
Era basicamente o mesmo.
- Vamos, tudo será diferente.
Madrinha está arrependida.
- Não quero saber.
- São quase três anos, Lina.
Já não deu para reflectir bastante sobre o ocorrido, esfriar a cabeça?
- Para mim, podem passar dez anos. Acabou.
- Tia Eugénia disse que vai lhe devolver a pedra preciosa.
Lina deu de ombros.
- Pois que fique com a jóia rara.
Dona Eugénia não armou tudo para tê-la?
Pois bem. Agora a tem.
- Não diga isso. Ela não armou nada.
Acho que foi tudo uma grande má interpretação, isso sim.
- Porque, para você, preocupada em ser miss e manequim, tanto faz ou tanto fez.
- Assim você me ofende - a voz de Melissa era de indignação.
Lina abraçou-a.
- Desculpe-me, Melissa.
Eu ainda fico fora de mim com esse assunto.
- Por que não passa uma borracha sobre isso? Já foi.
- Porque não consigo.
- Não consegue ou não quer?
- É a mesma coisa.
- Não é.
Você não perdoa Eugénia, tampouco Aderbal.
Vai morrer acreditando que eles a fizeram de otária.
- E não fizeram?
- Não acredito. Já disse.
Mas é o meu modo de ver.
Ninguém vai mudar o seu.
Ninguém muda ninguém.
Você terá de mudar sua maneira de enxergar essa situação por si só.
- Difícil.
- Lina, vamos esquecer.
Eu e Daniel estamos pensando em nos casar.
- Sério? Já?
- Estamos namorando há quase três anos.
É tempo.
- E o sonho de ser miss?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:19 pm

Melissa riu.
- Tenho algo a lhe confessar.
Mas só posso dizer a você, que é amiga de verdade.
Lina sentiu-se valorizada.
Esboçou um sorriso e indagou, curiosa:
- O que é? Diga!
- Semana passada, uma equipe de fotógrafos da revista Manchete esteve na cidade para uma matéria.
Um fotógrafo estava clicando pontos lá na cidade e eu apareci em uma das fotos.
Fui convidada para fotografar para uma revista de moda.
- Fotografar?
- É. Vestir roupas de costureiros famosos e fotografar fazendo poses - Melissa começou a fazer trejeitos, e Lina achou graça.
- Você leva jeito.
- Claro que levo.
- E Daniel?
- O que tem ele?
- Não se incomoda?
- Nem um pouco.
Muito pelo contrário.
Ele me apoia totalmente.
- Você desejava tanto ser miss...
- É. Desejava - concordou Melissa.
No entanto, hoje, reflectindo melhor, penso que era porque eu via na miss o requinte, o glamour, a vida que eu adoraria ter longe de Belo Horizonte, longe daquela família...
Melissa demonstrou uma ponta de decepção.
Lina abraçou-a novamente.
- Não pense neles.
Faz tempo.
- É. Faz tempo - Melissa recuperou o sorriso.
- Vamos noivar, marcar a data do casamento para daqui a três meses e nos mudar para São Paulo.
Depois vou fazer as fotos e sabe-se lá o que vai acontecer.
- Não vou mais vê-la?
- Claro que vai.
É só ir me visitar.
Não é nenhum mistério ir daqui até São Paulo.
- Eu sei, é que estou acostumada com você por perto.
É minha única amiga. Você e Neide.
- Só tem um probleminha, Lina.
- Qual é?
- Você precisa ir atrás de sua certidão de nascimento.
Sem documentos, jamais poderá sair daqui.
Nunca poderá viajar, sair do Estado.
- Não fale assim.
- É verdade.
Você sabe disso.
- É, eu sei.
A Neide já me preveniu.
- Precisa pensar nesse assunto com carinho.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:20 pm

- Vou pensar - Lina não queria pensar e mudou o rumo da conversa:
- Vai ter festa de noivado?
- Vai. Dona Leonor vai fazer um jantar.
Algo bem simples, só para a família.
Mas eu já disse que você faz parte da minha família.
- Eu vou - afirmou emocionada.
- Então prepare-se, porque tia Eugénia também vai.
Vocês vão ter que conviver.
Lina fez um muxoxo.
Não tinha escapatória.
Para ocultar a contrariedade, perguntou, sem maldade:
- Nunca mais teve notícias de sua mãe, nem daquele infeliz do Jurandir?
Melissa levantou as mãos para o alto.
- Graças a Deus! Sumiram.
Não faço a mínima ideia de como estejam.
- Que nunca mais apareçam em seu caminho!
- Por favor! - Melissa bateu três vezes no batente da porta, a fim de espantar o mau agouro.
Nunca mais!
Eugénia contou mais uma vez o dinheiro da venda da caminhonete.
Colocou numa caixinha, terminou de fazer o almoço e esperou.
O rapaz do cartório veio e, depois de ler o testamento, ele interrogou:
- A senhora tem certeza?
- Tenho. Não tenho parentes.
- Tem uma afilhada.
Não é de sangue, mas pelo que consta há um forte laço afectivo entre ambas.
- Sim. Sou muito ligada a Melissa, mas é uma moça que está para se casar.
O noivo é um rapaz trabalhador, esforçado, de boa família.
Eles não vão se importar de não receber este pedacinho de terra, que não vale nada.
- Bom, em todo caso, está tudo certo, dona Eugénia.
- E o cartório, como está?
Reformado?
- Sim. Já terminamos a reforma.
Demorou quase três anos, mas nem parece que pegou fogo.
O triste mesmo foi perder tantos registos.
Com tempo e perseverança, tudo se consegue.
Ela fez um sim com a cabeça, e o tabelião levantou-se.
- Tem notícias de Hermes? - indagou Eugénia.
- A última notícia que tive, depois que ele vendeu o cartório para o meu pai, foi que se mudou com a esposa para Salvador.
Parece que são muito felizes.
Eugénia sorriu, alegre.
- Sempre torci pela felicidade do Hermes.
Eu o achava tão triste.
- E ele era, de facto, um homem triste.
Até que reencontrou o amor.
Dizem que agora é outro, completamente diferente.
O homem ainda tomou um cafezinho e despediu-se de Eugénia.
Ela leu o documento mais uma vez e sorriu satisfeita.
- Era isso que eu e meu marido queríamos que fosse feito.
Nosso sítio vai para quem merece.
É o mínimo que podemos fazer.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:20 pm

Melissa entrou na cozinha sem bater, sem avisar e foi perguntando:
- Falando sozinha, tia?
- Oi, querida - Eugénia dobrou o papel e o colocou em uma gaveta da cozinha.
Disfarçou e quis saber, num sorriso:
- O que faz por aqui?
- Bateu saudades.
Eu queria ficar mais tempo aqui, contudo, agora que estou me preparando para me casar, preciso ficar mais na casa de dona Leonor.
- Sim, está certo.
- Daniel está trabalhando bastante em São Paulo.
Conseguiu dois dias de folga.
Virá na quinta que vem.
- Estou muito feliz por você, Melissa.
Abraçaram-se.
- Quem era o moço que saiu daqui?
Acabei de cruzar com ele lá no cercado.
- É o rapaz do cartório.
Veio trazer uns papéis do óbito do seu tio.
- Depois de tanto tempo?
- Burocracia.
- Ah, sim - Melissa estava mais concentrada nos preparativos do jantar de noivado.
- E como estão os preparativos?
- Tudo em ordem, tia.
- Quem vai participar do evento? - interrogou Eugénia.
Melissa serviu-se de café.
Sentou-se, colocou a xícaras obre a mesa, demorou a responder.
- Bom, o Luís Sérgio e a Rosana não vêm.
A filhinha deles é doentinha, dá muito trabalho.
- Pobrezinha.
- É. O Daniel bem que queria, porque o Luís Sérgio vai ser padrinho de casamento dele.
Tem também uma tia distante, não sei se virá.
- A Eunice virá?
- Creio que sim.
Ela e o Hermes devem vir.
A Solange, a senhora, a Neide.
Melissa demorou, bebericou o café e finalizou: - e a Lina.
Eugénia sentiu um desconforto.
- Ela vai?
- Não sei, tia.
Eu queria muito que fosse.
Lina é como uma irmã.
- Não sei se devo ir.
- Claro que deve ir.
- Ela não me perdoa.
Como vai ser?
É sua festa de noivado.
Não pode haver clima para dissabores.
- Eu sei. Mas creio que podem levantar a bandeira da paz, pelo menos por um tempo.
- Eu não tenho que levantar bandeira nenhuma.
Quem está com raiva e não quer saber de conversa, de amizade, é a Lina.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:20 pm

- Tem razão.
Melissa levantou-se e abraçou-a.
- Vamos torcer para que tudo dê certo.
Estamos quase no Natal.
Queria que o passado fosse esquecido, e a união voltasse entre a gente.
Sabe, tia, sinto saudades de quando vivíamos as três aqui, junto do tio Aderbal.
- Eu também sinto saudades - Eugénia deixou uma lágrima escapulir pelo canto do olho.
Lina é turrona.
Sente-se injustiçada, traída, sei lá.
Parece que estávamos fingindo o tempo todo.
E é mentira.
Nós gostávamos dela.
Eu ainda gosto.
- Diga isso a ela.
- Ela não me escuta.
Não quer saber de conversa.
- Vou pensar numa maneira de vocês terem uma conversa conciliadora.
- Eu gostaria - um brilho de emoção perpassou os olhos de Eugénia.
- A senhora vai ver, tia.
Tudo vai dar certo.
Elas se abraçaram emocionadas.
Depois, Melissa ajudou-a a fazer um caldo.
Sentaram-se novamente na cozinha para escutar um programa de músicas quando o repórter interrompeu a programação para falar sobre um terrível incêndio que ocorria num circo.
Sabiam que havia mortos, mas não sabiam quantos.
Eugénia levantou-se e desligou o rádio.
Melissa passou as mãos pelos braços.
- Nossa, tia, que horror!
- Deus me livre e guarde!
- Vamos fazer uma oração para os envolvidos?
- Vamos sim.
É sempre bom mandar vibrações para quem está envolvido numa tragédia desse tipo.
As duas deram-se as mãos e fecharam os olhos.
Fizeram uma comovida prece.
Melissa sentiu uma emoção muito forte, chorou.
Eugénia, depois da oração, fez um chá de cidreira.
- Você se impressionou com a notícia.
- É, tia. Eu me impressionei.
Por ironia do destino, na tarde do noivado, Lina torceu o pé enquanto ajudava Neide na arrumação do barracão.
A dor fora tão forte que ela mal conseguia encostar o calcanhar no chão.
Um dos trabalhadores do centro de Neide, que trabalhava no hospital da cidade, foi categórico:
- Vai ter de ficar de molho por uns dias, viu?
Repouso total.
- Eu não gosto de ficar parada.
- Pois vai ter de ficar, vai.
- Não vou - Lina falou e tentou colocar o pé no chão.
Quase desmaiou, tamanha dor.
Era horrível. Ela deu um grito dramático.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:20 pm

- Eu não disse? - insistiu o senhor.
Vai ter de ficar de molho, oras.
- Não tem jeito - observou Neide.
Você estava tão relutante em encontrar-se com dona Eugénia e olha no que deu.
- Nada disso - protestou Lina.
Eu fui virar o móvel - apontou - e torci o pé.
Não tem nada a ver.
- Tem tudo a ver.
Seu subconsciente fez o trabalho certinho.
Olha que bela desculpa para não ir ao noivado.
Vai ter de ficar de molho.
A não ser que a festa seja transferida para cá.
Lina fez uma careta.
- Hum, engraçadinha.
Eu até queria ir.
Neide subiu e desceu o rosto.
- Está certo.
Eu vou acreditar em você - disse com fina ironia.
Sabe que a mim não engana.
Lina calou-se naquele momento.
Ajeitou-se como pôde numa rede ali perto.
Ajudaram-na a deitar-se, colocaram almofadas sob seu tornozelo, passaram uma pomada feita à base de ervas, deixaram-na descansando.
Neide fez as suas orações e sentiu um torpor.
Viu dois guias espirituais que a chamavam:
- Precisamos de você.
- Um minuto.
Ela foi para a salinha de orações, acendeu as velas, fez uma prece e ficou à disposição do plano espiritual.
Telma continuou ardendo em febre.
Não baixava.
O médico já tinha ido até a casa de Penha, receitado medicamentos e nada.
Levaram a menina ao hospital, e nada também.
Penha chegou a pedir ajuda a uma vizinha benzedeira.
Numa tarde, a mulher apareceu.
Era uma senhora gorda , simpática, cabelos curtos, grisalhos.
Dona Hilda bateu na porta, percebeu energias estranhas.
Não disse nada.
Subiu as escadas e, ao cruzar a sala, notou Jurandir sentado no sofá, lendo o jornal.
Ela sentiu tontura.
Era nítida a aura escurecida ao redor dele, assim como as entidades espirituais que o rodeavam, completamente perturbadas e muito ligadas ao sexo.
Hilda respirou fundo, passou pelo corredor e entrou no quarto da menina.
Havia uma entidade atrás de Telma, com a mão sobre o coronário dela, sugando-lhe as energias vitais.
- O que está fazendo? - perguntou Hilda em pensamento.
- Alimentando-me das energias vitais da garotinha - respondeu o espírito, também em pensamento.
Hilda já vira de tudo na vida.
Aquilo era degradante.
Triste mesmo.
O espírito era um homem feito, na casa dos trinta anos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 8:21 pm

Embora soubesse que o corpo físico abriga um espírito que não tem idade, que é eterno, era covardia ele estar ali sugando as energias de uma garotinha de três anos de idade.
Mesmo sabendo que Telma era um espírito que vivera muitas vidas e agora estava tendo a oportunidade de uma nova experiência, havia esquecido o passado, portanto, tinha tão somente três anos de idade.
Se o espírito continuasse ali, Telma não resistiria.
Hilda meneou a cabeça negativamente e declarou:
- Penha, há um espírito aqui.
- Como?!
- É. Um espírito.
Ele está sugando as energias de Telma.
- Aqui é um lar abençoado.
Somos uma família católica, fazemos orações todos os dias.
Hilda lembrou-se de Jurandir na sala.
Não quis ser crítica nem fazer julgamentos.
Apenas pediu:
- Feche os olhos e ore à sua maneira.
- Sim.
Penha fechou os olhos e começou a orar.
Logo, de seu peito começou a sair uma luminosidade que foi clareando o ambiente e incomodando o espírito.
Ele não gostou daquilo.
- Isso me incomoda, mas logo o outro lá na sala vai começar a ter pensamentos libidinosos e eu vou ganhar força.
Aliás, é ele que me mantém aqui - ressaltou, triunfante.
Tudo voltará a meu favor.
- É?
- Sim.
- O que disse? - indagou Penha.
- Estou conversando com o espírito - explicou Hilda.
Continue orando com fé.
Não ligue para o que eu falar.
Penha assentiu, um tanto temerosa, porém continuou a rezar, com mais força.
Não era apreciadora de espiritismo e afins, até tinha certo preconceito, contudo, estava muito preocupada com o estado de saúde da filha.
A fama de Hilda na redondeza era de que fazia um bom trabalho de limpeza na casa das pessoas, principalmente na casa de pessoas enfermas.
Pode ajudar minha filhinha a ficar boa, pensou Penha, como uma boa mãe.
Jurandir não gostou nem um pouco daquilo, mas preferiu ficar na dele.
A culpa o fazia ficar quieto, embora ele fizesse questão de manter um ar de desagrado no rosto.
Telma remexia-se na cama, suava bastante, debatia-se de vez em quando e gemia palavras desconexas.
Hilda fez um tipo de mantra, pronunciou umas palavras em uma língua desconhecida, e logo dois espíritos negros, enormes, vestindo tanga e segurando uma lança em uma das mãos, surgiram no quarto.
Eram fortes, imponentes, altivos, metiam medo pela força que impunham.
Começaram a falar num dialecto africano, originário do Congo.
O espírito ao lado de Telma imediatamente deu um salto para trás e sumiu.
Hilda fez um sinal apontando para a sala, e os dois foram para lá.
Cada um ficou de um lado de Jurandir e fizeram uma limpeza energética nele.
Jurandir começou a bocejar sem motivo, os olhos começaram a lacrimejar, o corpo amoleceu.
Perdeu o ânimo, sentiu uma vontade enorme de dormir.
Largou o jornal, tirou os sapatos, esticou as pernas e deitou no sofá.
Pegou no sono rapidinho.
Assim que adormeceu, Jurandir foi arrancado do corpo pelos dois, digamos, sentinelas do astral.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:29 pm

Jurandir viu uma das lanças e assustou-se.
- O que é isso?
Pelo amor de Deus!
- Você não tem o direito de pronunciar o nome dele, - declarou um dos homens, em português impecável.
- É, - tornou o outro.
E se relar de novo o dedo na menina - apontou para os genitais de Jurandir -, arrancamos com esta lança.
Sem dó nem piedade. Entendeu?
- Fomos claros? - perguntou o outro.
- Fo... foram sim.
Claro que foram - respondeu Jurandir, protegendo o órgão com as mãos.
- Se meter-se de novo com Telma, vai haver intervenção feia.
- Não vou mais fazer nada. Juro.
- Vamos ver.
Falar agora é fácil.
Quero ver depois que voltar para o corpo.
Os dois espíritos falaram, deram as costas e sumiram.
Jurandir sentiu muito medo e voltou correndo para o corpo.
Acordou de um salto, assustado, suando em bicas.
Penha estava ao seu lado.
- Teve um pesadelo, meu bem.
Estava se debatendo no sofá.
- Acho que sim - respondeu, mastigando a pouca saliva, sentindo a boca seca.
Hilda estava à frente dele.
- Eu já vou, Penha.
- Não tenho como agradecer.
A febre sumiu como que por encanto.
- Telma está sem febre? - quis saber Jurandir.
- Está, meu bem. Acabou.
- Que bom!
- Voltarei na próxima semana - prometeu Hilda.
Voltaremos para fazer nova limpeza energética.
Jurandir levantou-se e foi um tanto estúpido:
- Muito obrigado, mas não será necessário.
Agradecemos a sua ajuda, mas não gostamos de macumba.
- Eu não sou macumbeira.
Todos os caminhos levam a Deus.
- O nosso caminho é a igreja. Só a igreja.
- Mas sua filha melhorou com a minha benzedura e...
- E está tudo bem. Muito obrigado.
Que Deus a ajude! Passar bem.
Jurandir praticamente empurrou Hilda escada abaixo.
Penha nada disse.
Ficou quieta no sofá.
Jurandir bateu a porta com força, subiu os degraus aos pulos e quis tirar satisfação:
- Que história foi essa de trazer uma mulher metida com essas crendices aqui em nossa casa?
Penha estava envergonhada.
- Foi uma atitude impensada, eu sei, meu amor.
Só estava preocupada com nossa bebé.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:29 pm

Telminha não melhorava, achei por bem arriscar.
Dona Hilda tem fama de curar as pessoas doentes.
E Telma está sem febre...
- Não faça mais isso.
Não gosto de gente dessa laia dentro da nossa casa.
- Sim, você tem toda razão.
Também não gostei da maneira como ela procedeu.
- O que ela fez?
- Disse que estava conversando com um espírito...
Jurandir levou a mão à cabeça.
- Meu Deus! Telma escutou isso?
- Não sei. Estava delirando.
Acho que não prestou atenção.
Foram surpreendidos com Telma na ponta do corredor:
- Papai, mamãe...
Os dois viraram, e Penha correu a abraçá-la.
- Querida! Você levantou da cama sozinha?
- Foi. Quer dizer... tinha um moço lá.
Penha olhou para Jurandir.
Ele coçou a cabeça.
Sentiu raiva de Hilda.
- Está vendo?
Agora essa menina vai ficar impressionada.
- O que vamos fazer, meu amor?
Estou me sentindo culpada.
Afinal, fui eu quem trouxe essa mulher de terreiro para dentro de casa.
A culpa foi minha.
Estava desesperada, coisa de mãe que quer ver o filho bem!
Jurandir aproximou-se e passou as mãos nas costas dela, enquanto alisava o rostinho de Telma.
- Não fique assim.
Deixe-me pensar...
Jurandir andava de um lado para o outro e pensava, matutava, tentava concatenar as ideias.
- Quem está tomando conta do bar? O Elias?
- É. Ele precisa de uns trocados e...
Jurandir teve um lampejo:
- Já sei!
- O quê?
- Vou descer e volto num minuto.
Jurandir calçou os sapatos, desceu as escadas e correu até o bar.
Voltou cinco minutos depois, esbaforido, com um sorriso estampado no rosto e com dois ingressos nas mãos.
- O que é isso, meu amor?
- Vamos esquecer essa história de benzedeira e aproveitar que Telma está melhor.
Vamos ao circo!
Telma bateu palminhas:
- Palhacinho!
- Sim, meu amor - respondeu Penha.
Palhacinho, picadeiro, elefante.
Vamos nos divertir!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:29 pm

- O Aurélio ia levar o filho, mas surgiu um imprevisto e já tinha perguntado se eu queria ir e levar a Telminha.
- Esses ingressos valem ouro - ajuntou Penha.
Não acha melhor vendê-los?
A cidade toda quer ir à matiné.
- Não. Quero levar minha família.
Hoje é nosso dia. Um dia especial.
Vamos nos preparar.
Penha foi arrumar-se e Jurandir também.
Vestiram roupas bonitas.
Enquanto ela escolhia um vestido leve, pois a tarde estava bem quente, Jurandir foi banhar a pequena Telma.
Ele não abusou da menina, mas olhou para a filha com cobiça.
Imaginou, depois do espectáculo, já que a menina não tinha mais febre e estava bem, voltar a praticar os tais actos abomináveis.
Jurandir não tinha remendo.
Recebera toques da consciência, toques dos espíritos, da vida... contudo, o hábito era maior que a vontade de mudar.
Ele precisaria passar por uma grande transformação para reflectir e mudar.
E, dentro de algumas horas, a transformação chegaria, inexorável, incontrolável.
O circo estava sendo a sensação da cidade.
Não se falava em outro assunto.
A criançada lotava as matinés.
Jurandir entrou carregando Telma nos braços e Penha vinha logo atrás.
- Nós vamos nos sentar bem na frente, querida.
Camarote!
Penha exultou de prazer.
Eles sentaram quase na boca do picadeiro.
Eram os melhores lugares, sem dúvida alguma.
Acomodaram-se.
O espectáculo começou, e todos divertiram-se a valer.
Ninguém sabe ao certo quem gritou fogo.
Mas gritaram.
E, mesmo que ninguém prestasse atenção, logo a lona, feita de algodão revestido de parafina, transformou-se em uma bola de fogo cruel e assassina.
Quem estava nas arquibancadas teve chance de correr e se salvar.
Quem estava no camarote não teve essa sorte.
Praticamente todas as pessoas agrupadas no camarote foram tragadas pelo fogo.
Infelizmente, nessas situações de pânico, as pessoas entram em histeria e inconscientemente adoptam o lema do salve-se quem puder.
Como a maioria do público era composta por crianças, muitas morreram pisoteadas.
Jurandir, ao notar o fogo e a fumaça, viu quando a elefanta saiu em disparada e fez um rombo na tenda, abrindo milagrosamente uma rota de fuga.
Ele pulou e tentou puxar Penha e Telma.
No corre-corre, Penha foi levada pela multidão ensandecida e apavorada, sendo arrastada e pisoteada até a morte.
Jurandir abraçou-se à filha.
- Papai vai salvá-la.
Um pedaço grande de lona caiu sobre eles.
Telma teve morte instantânea.
Jurandir foi atingido no rosto e em toda a parte esquerda do corpo.
A dor foi tão forte que ele perdeu a consciência e apagou.
A tragédia do Gran Circo Norte-Americano - considerado o maior e mais completo circo da América Latina à época - marcou profundamente Niterói e o país naquele fim de dezembro de 1961.
Anos depois, o jornalista Mauro Ventura relataria, em um livro emocionante e detalhado, toda a história sobre o evento, inclusive com depoimentos emocionantes de alguns dos sobreviventes.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:30 pm

Sem sombra de dúvidas, as mais de quinhentas mortes naquela tarde de domingo foram um dos espectáculos mais tristes que aconteceram na face da Terra.
Não demorou muito para Eunice reencontrar Hermes.
Depois que ele recebeu alta do hospital, ela passou a frequentar a casa dele.
Saía do seu turno, passava na casa dele, trocava os curativos.
E conversavam, muito.
- Por que não me procurou depois que sua esposa morreu?
- Primeiro porque tive aquela crise de consciência e a expulsei de minha vida.
- Fiquei muito magoada com sua atitude.
Não conseguia entender.
Logo depois você sumiu, fui cortejada por Paulo, estava carente e deixei-me envolver.
- Então. Este era o outro ponto.
Eu até tive uma recaída.
- Como assim, uma recaída? - Eunice não entendeu.
- Um amigo meu me convenceu de que eu estava sendo muito cruel comigo, me punindo, sendo injusto com meus verdadeiros sentimentos, que eu deveria reconsiderar, parar de me atormentar e procurá-la.
- E por que você não me procurou?
- Porque você estava namorando.
- Você soube por meio de quem?
- Encontrei um conhecido do hospital que comentou.
Eu não achei justo atrapalhar novamente a sua vida.
Daí tive a certeza de que não era para ficarmos juntos.
Sofri, chorei, confesso que foi um dos piores momentos de minha vida - Hermes emocionou-se.
Eunice pousou a sua mão sobre a dele e, passada a emoção, ela considerou:
- Antes tivesse me procurado.
- Porquê?
Eunice sentiu um calafrio.
Rebateu o pensamento negativo que tentava chegar e se instalar em sua mente.
- Não. Não quero pensar, não quero sentir, não quero nunca mais falar sobre isso.
É um assunto que não me pertence mais. Chega!
- Mas...
- Mas nada, Hermes.
Estou muito bem resolvida hoje.
Sei, pelo menos, o que não quero.
Isso está bem claro para mim.
Ele riu, puxou as mãos dela entre as dele e as beijou.
Eunice sentiu um estremecimento.
- E sabe o que quer?
Ela não respondeu de pronto.
- Pois eu sei.
- O que é?
Hermes soergueu o corpo na cadeira, aproximou seu rosto do dela, e os lábios encontraram-se.
Foi um beijo longo, demorado, apaixonado.
Sentiram um calor tomar conta de seus corpos.
Com cuidado, para evitar tocar o braço e parte do rosto envolto com as ataduras, levantaram-se e abraçaram-se.
- Hermes, quanto tempo!
- Eunice, como eu sonhava com isso.
Não tem ideia de como eu desejava reviver este momento.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:30 pm

Achei que nunca mais na vida fosse tê-la em meus braços.
- Eu tenho tanta coisa para dizer e...
- Não diga mais nada.
Ele a beijou com sofreguidão.
Em seguida, puxou-a delicadamente pelo braço e foram para o quarto.
Despiram-se e entregaram-se a uma noite inesquecível de amor.
Três meses depois, Eunice e Hermes se casariam e viveriam uma linda história de amor, que duraria trinta e nove anos.
Hermes morreria primeiro, na véspera do Natal de 1997.
Eunice morreria na virada do ano 2000.
Melissa e Daniel casaram-se em Teófilo Otoni, passaram a lua de mel em Poços de Caldas e alugaram um sobradinho de dois quartos no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.
Insatisfeito com o trabalho no banco, Daniel confessou à esposa:
- Não aguento mais.
Eu não nasci para isso.
- E por que continua lá?
- Porque precisamos pagar nossas contas.
Temos aluguer, comida, despesas...
Logo vamos ter filhos.
Melissa fez um gesto delicado com a cabeça.
- Podemos esperar para ter nossos filhos.
- Eu sei.
Os filhos, podemos esperar, já as contas... vêm todos os meses!
- As fotos na revista deram um bom dinheiro.
- Acha que é a profissão que quer?
- Ser manequim?
- É .
- Por que pergunta, Daniel?
- Porque acho que estamos em um momento de nossa vida que podemos decidir o que queremos, de verdade.
Ainda dá tempo de reflectir melhor sobre a carreira que desejamos.
Ela pensou e mexeu a cabeça:
- Não. Definitivamente, não quero ser manequim.
Passou.
- O que você quer?
- Escrever.
Daniel levantou o sobrolho:
- Escrever? Como assim?
- Escrever artigos.
Coluna de revista, de jornal.
- Quer ser jornalista?
- Sim.
- Escrever sobre o quê, meu amor?
- Sobre comportamento feminino.
As moças não têm com quem conversar.
Elas não podem se abrir com suas mães, tudo é tabu, tudo é preconceito, tudo é feio, tudo é proibido.
- Não estou entendendo...
Melissa respirou fundo, reflectiu e sentiu ser aquele o momento certo para uma conversa séria com o marido.
Ansiava ter esse diálogo com Daniel.
Queria falar sobre sua vida, sobre os abusos dentro de casa, sobre Jurandir, sobre as humilhações...
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:31 pm

Tomou coragem e começou a relatar.
Foram horas de conversa.
Houve choro, emoção, raiva, tristeza, abraços, beijos e admiração.
Muita admiração.
Quando finalmente Melissa terminou de relatar absolutamente tudo, Daniel a olhou de outra forma:
- Você é muito mais do que a mulher dos meus sonhos.
Você é uma guerreira, uma pessoa que não precisaria nem estar comigo.
- Não diga isso, meu amor.
- É a mais pura verdade.
Você é forte, Melissa.
Tem um espírito que exala firmeza, coragem, decisão, justiça, que luta pela verdade, que se põe em primeiro lugar, que não se deixa corromper.
Ela se emocionou.
Daniel prosseguiu:
- Você poderia ter-se feito de vítima, ter aceitado calada os abusos de Jurandir.
Poderia nunca ter me contado nada, com medo de eu abandoná-la e não compreendê-la.
Eu poderia não aceitar.
- Eu sei, sabia que correria esse risco.
- Porque você tem um amor muito maior por si.
Porque, por mais que me ame, antes de tudo, tem profundo amor e respeito por si mesma.
É o que admiro em você.
Eu a amo por tudo isso e muito mais.
Abraçaram-se e beijaram-se com amor.
Daniel prosseguiu:
- Agora entendo e apoio você para se tornar colunista.
Você tem de alertar essas jovens, ser o que sua mãe não foi.
Você tem de ser a ouvinte, a conselheira, a orientadora, a amiga.
Tem de ser uma espécie de irmã mais velha, a tia que não tem preconceitos, a prima que vai orientar sem julgar, sem criticar.
- Isso - tornou Melissa, olhos brilhantes de emoção.
- É o que quero fazer da vida.
Orientar essas meninas com uma palavra amiga, com informação, como se fosse aquela amiga com quem elas se sentem seguras, podem se abrir, e em quem podem confiar, sabe?
Daniel tornou, apreensivo:
- No entanto... há algum periódico que aceitaria uma coluna tão para frentex assim?
- Vivemos uma época que cheira a mudanças.
- Você sente isso?
- Você não sente, amor?
- Não sei.
- Não percebe a mudança no comportamento, as meninas usando minissaias?
- Isso ocorre lá em Londres.
Será que a moda pega aqui?
- Vai pegar. Eu sinto.
Conheci uma colunista muito simpática quando fui ver os negativos para a revista de moda.
Ela me disse que a empresa está para lançar uma revista feminina, quer gente jovem, com novas ideias.
Ela me fez um convite.
Eu vou tentar, arriscar.
- Pois tente.
- Eu quero que você também tente, Daniel.
- É?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:31 pm

- Sim. Nem que eu tenha de fazer bolo e vender na rua.
Não quero vê-lo mais acordar mal-humorado, triste, e sair de casa como se fosse a caminho de enfrentar uma batalha, uma guerra.
Você tem muito potencial.
É apaixonado por uma sala de aula.
- Luís Sérgio está indo bem com a corretora de seguros.
Passou o escritório de contabilidade para a frente e está querendo investir em educação.
Está com vontade de montar um cursinho, a fim de preparar alunos para o vestibular, sabe? - Daniel falava e os olhos brilhavam.
Melissa percebeu o entusiasmo e o incentivou.
- Meu amor, chame o Luís Sérgio para conversar.
- Eu não tenho um tostão.
- Sua mãe não quer que você e suas irmãs vendam o casarão de Teófilo Otoni?
- Sim. Mas mamãe precisa de uma casa.
Precisamos dividir o dinheiro e dar a parte que é dela por direito.
Nada mais justo.
- Tenho certeza de que Eunice não vai querer saber de dinheiro.
Ela e Hermes estão vivendo muito bem em Salvador.
Solange teve o tal sonho revelador, mudou da água para o vinho e vive com aqueles três amigos.
Coisa esquisitíssima.
Daniel não conteve o riso.
- É. Solange ficou maluquinha.
- Maluquinha, mas se encontrou.
Está feliz. É o que importa.
Tenho certeza de que vai querer só a parte dela.
E sua mãe pode comprar um bom sobrado, confortável, com a parte de Eunice.
Você usa a sua parte...
Daniel a cortou:
- Eu queria usar a minha parte para comprar a nossa casa, ou dar entrada.
- Nisso pensamos depois.
Agora o mais importante é a nossa realização profissional.
Depois que estivermos felizes e realizados, depois de correr o mundo, viajar bastante, pensaremos em casa, em filhos.
O que me diz?
Ele a beijou com amor e respondeu:
- Você é quem manda!
Eu concordo com tudo.
Assim foi. Venderam o casarão.
Eunice pegou a sua parte e, generosa, complementou o dinheiro para comprar um confortável sobrado, também na Vila Mariana, para Leonor e Ione.
Leonor aproveitou a bondade da filha e do genro, e não reclamou de ganhar um sobradão de três quartos.
Ficou muito feliz.
Só ficou atarantada quando Daniel pediu demissão do banco.
Aquilo era muito para sua cabeça.
Certo dia, Leonor disse:
- Ione, tive uma ideia.
- Já sei. A senhora vai alugar um dos quartos, né?
- Não. Vamos morar na edícula, lá nos fundos.
- Eu é que vou morar na edícula.
A senhora vai viver aqui no sobradão.
- Ione, estamos velhas.
Uma precisa ajudar a outra.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:31 pm

Já passamos por tantas coisas juntas!
E, de mais a mais, a edícula tem dois quartos, um banheiro, uma salinha, uma cozinha.
- Pequena, diga-se de passagem.
- Ideal para nós duas.
- Não tem escadas.
- Melhor ainda porque, nesta idade, qualquer degrau é um vilão!
Ione riu.
- Vamos viver apertadas.
- Qual nada!
Nesta idade?
Vivemos com pouco.
Chega de ostentação.
- E a casa? É grande!
- Vamos transformar em uma escola.
- Escola?
- Sim. Escola de etiqueta!
Ione meneou a cabeça para os lados.
- Só a senhora mesmo...
- Agora que peguei gosto, vou trabalhar até morrer!
Decoraram a edícula com capricho e gosto.
Transformaram a casa em graciosa escola e logo pipocaram os alunos.
Leonor precisou contratar ajudantes, secretária e duas faxineiras.
Foi um sucesso.
E ela cumpriu o prometido.
Trabalhou até morrer, numa tarde de agosto, quando ainda garoava em São Paulo, em 1977.
Ione morreu um ano depois, também de causas naturais.
Luís Sérgio acreditou e apostou no sonho de Daniel.
Fizeram sociedade e montaram um cursinho.
Logo depois da venda do casarão de Teófilo Otoni, Daniel entrou com a sua parte do dinheiro no negócio e pediu demissão do banco.
O cursinho no começo era algo bem tímido, com meia dúzia de gatos pingados.
Daniel não desistia.
Acordava com bom humor, saía de casa cantarolando, pegava o ónibus e descia no Vale do Anhangabaú como se estivesse descendo rumo ao paraíso.
Logo os alunos começaram a fazer a velha e boa propaganda à base do boca a boca, e o cursinho foi ganhando mais alunos.
Muitos passavam nas melhores faculdades, e a credibilidade do cursinho, por conseguinte, se firmava.
Em cinco anos, aquele cursinho tinha aluno saindo pelas janelas.
E todos disputavam a tapa as aulas de Daniel.
Eram aulas dadas com paixão, com alegria, com vontade, com alma.
Daniel encontrara, finalmente, a sua vocação.
O mesmo ocorrera com Melissa.
Timidamente, respondera uma pequena cartinha para uma leitora que tinha dúvidas sobre menstruação.
O assunto não era tão corriqueiro como nos dias actuais, mas Melissa escrevera de maneira tão didáctica, tão leve, tão agradável, que logo a redacção da revista recebera um monte de cartas, de leitoras de várias idades.
Com o despertar da revolução dos costumes, começou a discursar sobre os novos comportamentos da mulher, de maneira franca, directa, natural.
De uma coluna mensal, passou a ter uma coluna semanal.
Depois pulou para uma coluna diária.
Daí veio o convite para escrever para um jornal respeitado, de grande circulação.
Em seguida, veio o programa de rádio.
Dez anos depois viria o programa de televisão.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:31 pm

E Melissa se tornaria uma das figuras mais carismáticas e queridas da mídia.
Com as carreiras consolidadas, consagradas e realizados na profissão, o casal resolveu chamar a cegonha.
Primeiro veio Maura, em 1971.
Depois, ela engravidou durante os Jogos Olímpicos de 1976 e, enlouquecida com a ginasta de catorze anos que só tirava nota dez e conquistou o mundo, resolveu dar o mesmo nome à segunda filha: Nádia.
E, para sua surpresa, batendo os quarenta anos de idade, em 1981, Melissa teve Bruno, uma maravilhosa surpresa para o casal.
Em vez de ser o clássico filho temporão, mimado e estragado pelos pais, Bruno cresceu um menino independente, alegre e espirituoso.
Formou-se engenheiro químico, envolveu-se com a extracção do pré-sal, casou-se e está louco para ter um bebé.
Solange acreditou ter uma espécie de revelação.
Sonhou com Jesus abraçando-a e depois lhe oferecendo um pão doce:
- É para você.
- Repartir o pão - murmurou Solange.
- É.
Nesse instante alguém a chacoalhou.
Ela abriu os olhos e tacteou:
- Onde estou?
- Na festa.
- Que festa?
O rapaz deu um trago longo no cigarro.
Soltou a fumaça fazendo círculos e entregou um copo de bebida para ela.
Solange soergueu o corpo.
As luzes piscavam, a fumaça estava mais parecendo névoa.
O som era um twist.
- Gosta de dançar?
- Gosto.
- Venha comigo.
Ele apagou o cigarro, levantou-se e estendeu a mão.
Solange abriu bem os olhos e deixou-se conduzir.
O perfume que do rapaz emanava era agradável.
Ele era alto, forte, bonito.
- Eu me chamo Valter. E você?
- Solange.
- É amiga da Mara?
- Sou.
- Se é amiga de Mara, também é minha amiga.
A música terminou, e outra, mais lenta, começou.
Valter a trouxe junto de si e Solange sentiu um frémito de emoção.
Ficaram abraçados e, quando ele tentou beijá-la, Solange não fez resistência.
Acordou, no dia seguinte, deitada sobre um peito cabeludo.
Demorou para concatenar as ideias e lembrar-se de que aquele tórax era o de Valter.
Desde que pegara a sua parte da venda da casa, Solange não sabia que rumo dar à sua vida.
De uma coisa ela tinha certeza:
não queria mais viver em São Paulo.
Pediu orientação a Selma:
- O que fazer?
- Na dúvida, não faça nada.
- Eu quero fazer alguma coisa, trabalhar, mas não quero viver aqui.
- Tem medo de encontrar Luís Sérgio? - indagou Selma.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:32 pm

- Não. De modo algum.
Luís Sérgio faz parte do passado.
Está morto e enterrado.
É que eu me sinto deslocada.
Eunice casou-se e vive com Hermes em Salvador.
Daniel casou-se com Melissa e estão felizes e apaixonados.
Mamãe e Ione agora pensam em criar a escola de etiquetas...
- Você poderia participar dessa empreitada.
- Não - Solange fez um gesto com as mãos.
- Minha vocação é outra.
Meu espírito é livre, não quer ficar amarrado nas convenções sociais.
Você bem sabe que no fundo eu sempre fui diferente, moderna, ousada.
Eu só me segurava, não me permitia ousar.
- Então, ouse.
Solange levantou a sobrancelha:
- Como?
Selma foi clara:
- Ouse.
Deixe sua alma vir para fora e se expressar.
Não tenha medo de ser o que é. Eu sinto, com o perdão da palavra, que você ainda se reprime, tem medo de que os outros falem, comentem, julguem as suas atitudes.
Solange meneou a cabeça, pensativa.
- Tem razão, Selma.
Conversei com Neide sobre isso há alguns anos.
Eu melhorei bastante, mas ainda tem um resquício de cobrança, sabe?
De ser certinha.
- Largue a certinha.
Seja a Solange!
Ela sentiu o corpo formigar.
Uma emoção diferente.
- Você não nasceu mesmo para ficar aqui.
- Por que, então, disse para eu ficar e montar a escola com mamãe?
Selma piscou o olho.
- Para provocá-la, oras.
- Danada!
- Sei que você não suporta o convencional.
Nem o centro espírita serve mais para você.
- Não é isso.
- Claro que é.
Eu e Orlando gostamos do nosso trabalho.
Nosso centro espírita não é convencional, mas, mesmo assim, não serve para você, porque você é livre, não é e não quer ficar amarrada a nada, nem a ninguém.
- Gostaria de conhecer alguém.
- Mas não da maneira tradicional.
Eu não vejo você casada e com filhos, com uma família convencional.
- Não?
- Não.
- E vê como?
- Você terá de descobrir - provocou, maliciosa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:32 pm

E finalizou:
- A luz que mora na sua alma vai guiá-la, minha amiga.
Solange reflectiu por instantes.
- Tem razão.
Em todo caso, isso me aflige sobremaneira.
- Por quê?
- Todo mundo quer viver uma história de amor, quer casar, ter filhos.
- Eu e Orlando não tivemos filhos nem pretendemos tê-los.
- Eu sei, mas casaram de maneira convencional.
Eu não gostaria de assinar um papel para provar o meu amor.
Às vezes me cobro.
- Pare de se cobrar.
Valorize o que sente.
Sempre lhe disse isso.
Não importa se é certo ou errado.
Tem que fazer bem. Para você.
Solange abraçou-a.
- Será que serei feliz?
- Volto a repetir: valorize o que sente.
A felicidade começa aí - apontou para o peito de Solange.
O resto é consequência.
Não esqueça que os iguais se atraem.
- Pensei que fossem os opostos, como diz o ditado.
- Os iguais sempre se atraem.
Pense nisso.
Daquele dia em diante, Solange passou a dar mais atenção aos seus sentimentos.
Começou a valorizar o que sentia, por mais estapafúrdio que aquele sentimento pudesse parecer.
Passou a espantar aquela voz julgadora e cobradora, e sua alma passou a ter espaço para se expressar.
Foi assim que, num determinado dia, saindo do banco, deu um esbarrão em uma garota muito simpática.
Mara era seu nome.
A amizade foi imediata.
As duas logo se tornaram amigas inseparáveis.
Mara também era espiritualizada, mas não queria se prender a religião que fosse.
Fora criada por pais católicos, frequentara a umbanda, o candomblé e depois se envolvera com um rapaz que curtia o Hare Krishna.
Cansara-se de rituais, de incensos, de musiquinhas, de Hare Hare, e estava, no momento, concluindo o curso de filosofia da USP.
Mara dividia apartamento com mais dois rapazes, ali perto da faculdade, na rua Major Sertório.
Um era Valter, formado em contabilidade, o outro era Arthur, formado pela vida, filho de pai rico, com o único objectivo de torrar a gorda herança que o velho lhe deixara ao morrer, havia dois anos.
Solange conheceu um mundo novo.
Mara a levava a tudo quanto era festa, até que resolveu convidá-la para passar uns dias em sua casa.
- Agora que veio em definitivo para São Paulo, vai ficar lá na casa de sua amiga Selma?
- Que foi, está com ciúme?
- Que nada, gata!
É que não tem nada a ver.
Sua amiga é casadinha, tem marido, eles dirigem um centro espírita, são mais centradinhos.
- E daí?
- Daí que somos mais soltas, né?
Meio perdidas na vida.
Eu e você somos farinha do mesmo saco, Solange.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:32 pm

- Não estou entendendo...
Mara acendeu um cigarro, tragou e, ao soltar a fumaça, esclareceu:
- Queremos ser livres, independentes, estar fora deste sistema fajuto de crenças impostas pela sociedade para ser assim, ser assado, vestir isso ou aquilo, namorar, noivar, casar...
Nosso espírito é livre.
Nascemos no planeta para transgredir, para fazer diferente.
Tem muita gente vivendo no convencional.
Vamos viver a nossa loucura sadia.
- Como?
- Deixe que eu lhe mostro.
Mara foi para cima dela, sem pudor.
Solange ficou estática, não moveu um músculo do corpo.
Nunca havia sido beijada por uma mulher antes.
E não é que gostou?
Gostou e aprovou.
No dia seguinte, despediu-se de Selma e Orlando, mudou-se para o apartamento de Mara e instalou-se no quarto da amiga.
- Prepare-se que hoje tem festa, e você vai conhecer os rapazes.
A festa começou.
Solange viu um, dois, três, dez, vinte, um monte de gente chegar e se espremer no pequeno apartamento de dois quartos.
Alguém lhe ofereceu uma pastilha branca, um copo com bebida, e Solange apagou.
Sonhou com Jesus lhe dando o pão doce, conheceu Valter e acordou nua sobre o corpo dele.
Mara entrou no quarto e sorriu maliciosa.
- Bom dia!
Solange puxou o lençol e cobriu o corpo, envergonhada.
Valter remexeu-se na cama, tacteou ao redor, abriu os olhos e sorriu.
- Opa! Bom dia.
- Não é nada do que está pensando - Solange tentou justificar-se.
- Relaxa, gata.
Um rapaz apareceu no corredor e abraçou Mara por trás.
- Oi. Eu sou o Arthur.
Solange deu uma risadinha nervosa.
- Oi.
- Meninos, esta é a Solange, de que tanto falei - apresentou Mara.
- Ah! - Valter ajeitou-se na cama.
Nós nos conhecemos ontem.
Dançamos bastante.
Ficamos juntos.
Solange não sabia onde enfiar o rosto.
- Você é muito bonita! - elogiou Arthur.
- Eu não disse? - ajuntou Mara.
Solange sentiu comichão.
- O que foi, gata? - indagou Mara.
- Parece que eu os conheço de algum lugar. Os três...
Em seguida, Solange espremeu os olhos, encarou novamente Valter, depois seus olhos pularam para Mara e subiram até Arthur.
Será que era possível?
Ela estava apaixonada... pelos três!
Mara parecia ter lido seus pensamentos:
- Eu disse que nós éramos diferentes, gata.
Nós quatro somos e seremos um quarteto para lá de especial.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:33 pm

- Pode acreditar - assegurou Arthur.
- Não tenha medo, meu amor - tranquilizou Valter.
Arthur encostou a porta e ali começou uma história louquíssima de amor entre os quatro.
Solange gostava de Valter que gostava de Mara que gostava de Arthur que gostava de Solange... seguindo a linha da Quadrilha, do poeta Carlos Drummond de Andrade, só que com um final para lá de feliz.
Em 1968, sentindo cheiro de confusão no ar, os quatro entregaram o apartamento da rua Major Sertório, compraram uma Kombi, pintaram o veículo com flores coloridas e desenhos psicadélicos - era a onda hippy que começava a invadir o planeta.
Solange lembrou-se novamente do sonho, e Mara não teve dúvidas:
- Vamos seguir o sonho da Solange.
Vamos embora para a Guanabara!
Rumaram para o Rio de Janeiro.
Com as economias de Solange e a grana farta de Arthur, decidiram-se por dois terrenos enormes, a preço de banana, na distante Barra da Tijuca.
Valter discutiu:
- Vamos para Trindade, em Paraty.
- Ou para São Tomé das Letras - emendou Arthur.
- Já disse:
Guanabara - Solange estava decididíssima!
- Eu vi o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar.
Não posso negar minha intuição.
- Tem razão, gata.
É isso aí - concordou Mara.
- Então, sobe esta Kombi até a Barra da Tijuca - orientou Arthur.
Valter fez sim com a cabeça e seguiram viagem.
Compraram os terrenos.
Um deles transformaram em um sítio, espécie de comunidade alternativa.
Ali tudo era permitido, era o local da contra-cultura, de paz e amor.
Música, muito Raul Seixas e Mutantes, com uma pitada de Novos Baianos.
A alimentação natural e orgânica tornou-se indispensável à sobrevivência deles.
Envolveram-se nos estudos do budismo, do hinduísmo e do xamanismo.
Pregavam o amor livre e a não violência como lemas de vida.
Optaram por não ter filhos.
E a comunidade recebeu o sugestivo nome de Sociedade Alternativa.
Cinco anos depois da ida para o Rio de Janeiro, Solange, Valter, Mara e Arthur selaram a união com um guru espiritual e uma festa que durou um fim de semana inteiro.
Eunice e Hermes foram à celebração e divertiram-se a valer.
Daniel, Melissa e a pequena Maura também.
Selma e Orlando não puderam comparecer porque o centro crescera bastante, e eles tinham muita gente para atender.
Leonor recusou-se a ir.
Achava aquilo tudo moderno demais para a sua cabeça.
O desbunde passou, a onda hippy também.
As costeletas, as barbas e os bigodes sumiram do mapa, a discoteca se foi, Jane Fonda com suas polainas e polichinelos também.
O tempo voou.
O grupo se mantinha firme e forte, e cada vez mais unido.
Solange viajou para os Estados Unidos, conheceu as técnicas de condicionamento físico desenvolvidas por Joseph Pilates e gostou do que viu.
Depois viajou até Esalen, na Califórnia, e deparou-se com ioga, meditação, técnicas de respiração e outros exercícios que ela acreditou serem interessantes para o futuro - dela e da humanidade, que a cada ano tinha chances de viver mais, igual à pilha Duracell.
Solange voltou com uma ideia boa na cabeça e a transmitiu aos companheiros.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:33 pm

Todos ficaram empolgados com a novidade.
Fecharam a tal sociedade, que não era mais tão alternativa assim, cortaram os cabelos, largaram as batas coloridas e trocaram o guarda-roupa por roupas claras, discretas, leves e confortáveis à idade que avançava.
Adoptaram o uso de velas aromatizantes, chás brancos, verdes, amarelos e optaram por um cardápio de alimentação saudável, sem radicalismos.
O Espaço de ginástica corporal, mental e espiritual, tímido no começo, transformou-se num lugar disputado.
Depois veio a ampliação do espaço, a Barra cresceu, venderam o segundo terreno por milhões.
Hoje, senhores setentões de cabelos grisalhos, continuam os quatro morando juntos, dormindo juntos, levando a vida do jeito deles, com as regras deles, vivendo a felicidade segundo o sistema de crença deles.
São muito felizes.
Luís Sérgio prosperara nos negócios.
O escritório de contabilidade crescera sobremaneira, tornara-se atraente, e ele o vendera para uma empresa americana que queria fixar-se no país.
Teve um bom lucro.
O cursinho em sociedade com Daniel prosperava a olhos vistos e ele estava feliz.
Daniel o auxiliara bastante, confiara nele quando mais precisara, e agora ele retribuía a ajuda.
Contratara um administrador de empresas competente que cuidava de toda a parte administrativa e financeira do negócio, deixando Daniel à vontade para planear as aulas, programar o conteúdo das matérias e contratar os professores.
Também estava feliz com a companhia de seguros, pois vendera parte dela para um banco, e a companhia tornara-se bem sólida, atraindo mais clientes.
Alugara um andar inteiro em um prédio moderno que fora entregue havia dois anos.
O escritório, antes espremido em duas salas escuras no centro antigo da cidade, agora estava ali, em um andar alto voltado para o Vale do Anhangabaú.
Luís Sérgio só estava infeliz no casamento.
A cada ano, a relação com Rosana afundava mais.
Parecia entrar num buraco sem fim, num poço que não tinha fundo.
Não havia salvação.
Então, por que ele não se separava?
O problema era a filha.
Quer dizer, Amelinha não era um problema, mas a menina, de saúde frágil desde que nascera, inspirava cuidados e entrava em crise respiratória sempre que Luís Sérgio brigava com Rosana e ameaçava abandonar o lar.
Se cogitava ir embora com Amelinha, Rosana dizia que iria se matar, e a menina passava mal do mesmo jeito.
Era um horror.
Condoído com a situação da filha, aguentava calado.
Entretanto, estava a ponto de explodir.
Frequentava o centro de Orlando e pedia orientação, orava, tomava passe, e a resposta era sempre a mesma:
- Confie na vida.
Ela sempre sabe o que faz, não é mesmo?
No entanto, Luís Sérgio começava a meter um dos pés na revolta e o outro na falta de fé.
Também pudera.
Rosana transformara-se em uma mulher chata, insuportavelmente ranzinza e cruel.
Muito cruel.
Desde que Amélia viera ao mundo, soubera que Luís Sérgio a deixaria a qualquer momento, num piscar de olhos.
Ela sentia, como toda mulher sente, que ele não a amava mais, ou, pior, que ele nunca a amara de facto.
Os poucos casais conhecidos estavam se separando.
Era o tal do desbunde, da revolução dos costumes, da década da contestação.
Rosana não estava gostando nada daquele avanço das ideias, considerava um absurdo as pessoas terem tanta liberdade assim para fazer o que bem entendessem.
Em todo caso, quando o médico entrou no quarto cabisbaixo, triste, cheio de dedos, e diagnosticou que Amelinha tinha os pulmões bem fraquinhos e dependeria de um tubo de oxigénio para sobreviver, Rosana, em vez de sentir tristeza, intimamente vibrou de contentamento.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 8:33 pm

Deus ouviu as minhas preces, disse em pensamento.
Essa criança vai ser a tábua de salvação deste casamento.
E foi. Durante aqueles anos todos, Rosana usava a filha doente para manter o casamento a todo custo.
Quando Amelinha melhorava, ficava boa, Rosana esperava a menina adormecer.
Aproximava-se da cama lentamente e... delicadamente puxava com a unha comprida e afiada a mangueirinha de plástico presa ao nariz da menina.
Não demorava trinta segundos para Amelinha começar a se debater e acordar com os olhos arregalados, sufocando, e Rosana dizia, com voz delicada, enquanto reintroduzia a mangueirinha no nariz:
- Está vendo?
Se não fosse mamãe passar a todo momento para vê-la, você já teria morrido.
Eu me preocupo muito com você, meu tesouro!
Amelinha cresceu acreditando que a mãe realmente estava ali ao lado sempre a ajudando, salvando-a.
- Obrigada, mamãe. Obrigada.
- Por isso, temos de fazer com que papai fique sempre do nosso lado.
- Sim.
E a crueldade não parava por aí.
Rosana tinha seus ataques, chiliques, gritava de propósito com Luís Sérgio, preferencialmente na frente de Amelinha.
- Vai, isso mesmo - vociferava para Luís Sérgio.
Pode ir embora e me deixe aqui com esta criança roxa, doente, praticamente em estado terminal!
Quem sabe, quando vier visitá-la - aumentava o tom na carga dramática -, Amelinha já estará em vias de partir desta para melhor.
Rosana fazia questão de falar essas delicadezas na frente da menina, para horror de Luís Sérgio.
Ele se corroía de culpa.
Olhava para a filha, olhinhos tristes, contorno da boquinha arroxeada, lábios quase azuis, rosto pálido feito cera.
Atirava-se nos pés da filha e dizia que jamais iria abandoná-la.
Amelinha voltava a respirar melhor, Rosana voltava a se sentir melhor.
Só Luís Sérgio não se sentia nem um pouquinho melhor, e assim a vida deles seguia, nessa toada terrível, num caminho doloroso, triste, cujo final não poderia ser feliz.
A cada ano, a situação tornava-se mais complicada.
Amelinha agora estava com catorze anos.
Eram catorze anos de sofrimento, pela filha, que entrava e saía de hospitais a cada quinze dias, e pelo casamento, arrastado, amarrado, em coma.
Luís Sérgio queria acabar com aquele coma e cometer a eutanásia, matar aquele casamento sem vida.
Ele nem suportava mais olhar no rosto da esposa.
Dormiam em quartos separados.
Ele chegou em casa e bateu a porta da sala.
Com o estrondo, escutou do hall:
- Chegou tarde.
Respirou fundo, controlou as emoções.
Não queria briga. De novo, não
Foi lacónico, como de costume:
- Muito trabalho.
- Muito trabalho ou estava com amigas lá na Praça da Bandeira - ironizou Rosana.
- Vê se não enche o saco!
- Olha como fala.
- Fecha esse bico.
- Amelinha! - Rosana gritou da sala.
Papai chegou e está brigando com a mamãe - resmungou chorosa.
De novo, filhinha. Acredita?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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