Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:15 pm

Luís Sérgio sentiu o ódio subir pela garganta, e a saliva amargou:
- Está louca?
Não podemos deixar Amelinha nervosa.
O médico pediu, aliás, exigiu!
Ela pode ter outra crise.
Rosana deu de ombros.
- E eu com isso?
- Ela é sua filha, oras.
- Sim, mas quem tem os pulmões fracos é ela, não sou eu.
- Você é má.
Não acredito que esteja cometendo uma barbaridade dessas com a própria filha!
- Pois estou - Rosana encheu o peito de ar:
- Os meus pulmões são fortes - e gritou:
- Amelinha!
A garota chegou se arrastando na sala, carregando o tubo de oxigénio; uma mangueirinha de plástico saía dele e subia até as narinas.
Amelinha tinha a expressão de uma personagem de filme de terror.
As extremidades dos olhos e dos lábios eram arroxeadas, os cabelos negros eram compridos e escorridos, caídos sobre os ombros.
- Papai... - balbuciou ofegante:
- O que está acontecendo?
Luís Sérgio correu até a filha e a abraçou.
- Meu amor, não foi nada.
Papai só estava discutindo umas bobagens com a mamãe.
Rosana nada disse.
Mirava o esmalte nas unhas das mãos.
- Filha, gostou do esmalte vermelho?
- Gos... gostei.
- Mamãe vai pedir para a manicura pintar suas unhas da mesma cor, viu?
Luís Sérgio encarou Amelinha:
- Está muito ofegante.
Quer ir ao pronto-socorro?
Ela meneou a cabeça negativamente.
- Não. Só estou cansada.
Estava bem, quase dormindo, mas mamãe gritou e eu me assustei.
Ele sentiu nova fisgada de ódio e procurou ocultá-la.
Abraçou novamente a jovem:
- Está tudo bem.
O abraço de Luís Sérgio sempre acalmava a filha.
Amelinha sentia-se protegida nos braços do pai.
Ele sorriu ao percebê-la melhor:
- Perdeu o sono?
- Hum, hum.
- Quer ver novela?
Ela arregalou os olhos, contente.
Rosana fez um muxoxo.
- Está tarde.
E, de mais a mais, novela das dez não é para Amelinha.
É para gente adulta.
Luís Sérgio ignorou o comentário da esposa e delicadamente puxou a filha, carregando o tubo de oxigénio e sentando-a confortavelmente no sofá.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:15 pm

Acomodou-se ao lado dela e entre os dois deitou a maquininha de oxigénio.
Pousou a mão sobre as dela.
- Venha. Vamos assistir juntos.
Amelinha baixou a voz e confidenciou:
- Adoro Os Ossos do Barão, papai.
Assisto escondida no quarto.
- Eu também gosto - ele respondeu, em outro sussurro.
E o melhor é que aqui na sala - confidenciou - podemos assistir em cores.
Rosana levantou-se irritada.
- Não vai ver a novela com a gente, mamãe?
- Não - respondeu seca.
Estou com uma terrível enxaqueca.
Vou me deitar.
Luís Sérgio sorriu e agradeceu. Intimamente perguntou:
Até quando vou ter de suportar essa mulher?
Até quando?
Fazia mais de dez anos que Lina deixara o sítio e nunca mais vira Eugénia.
Notícia da mulher, ela não deixava de ter, porque Neide sempre visitava Eugénia e fazia questão de comentar:
- Ela envelheceu muito, está com artrose, tem dificuldade para caminhar.
Eu coloquei uma das meninas, filha do Sandoval, para viver lá no sítio e ajudá-la nas pequenas tarefas.
Lina lembrou-se de quando chegara, mocinha, com a mesma idade da filha do Sandoval.
Sentiu uma pontinha de saudade, contudo, procurou não deixar transparecer.
Neide percebeu e intimamente sorriu.
- Podíamos fazer uma visita a Eugénia.
- Não. O passado está morto.
Não quero contacto.
Já disse.
Prefiro viver aqui, no meu canto, ajudando você a organizar o barracão.
- Você não participa dos trabalhos...
- Mas limpo, arrumo, organizo as filas - observou Lina.
Sou uma boa voluntária.
Só quero trabalhar, ajudar, em troca de casa e comida.
Mais nada.
- Tem tanto para aprender, por que ficar presa aqui?
Por que tem tanto medo de se soltar no mundo?
- Não tenho medo.
- Claro que tem.
Sua mentora me falou.
- Minha mentora - Lina fez um gesto com a mão.
- Eu nunca vi essa mentora.
E ainda me diz que ela é russa.
Como pode?
- Como pode o quê?
- Eu ter uma mentora que viveu do outro lado do mundo?
Eu vivo aqui, no meio do mato, no meio do Brasil.
Acho difícil acreditar no que diz.
- Pode não querer acreditar, mas, no fundo, você sente que é verdade.
Lina nada disse.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:15 pm

Mordiscou os lábios.
Imediatamente viu o rosto de uma loura linda, olhos grandes, expressivos.
O rosto sumiu, e ela balançou a cabeça.
Neide perguntou:
- O que foi?
- Nada.
Sandoval chegou esbaforido ao barracão.
Neide o olhou e pressentiu o pior.
Lina indagou, assustada:
- O que foi, Sandoval?
- Dona Eugénia teve um ataque.
Está muito mal.
Pediu para falar com você, Lina.
Neide a encarou, séria:
- Agora é com você...
Lina sentiu um frio na espinha e o peito oprimido.
- Meu Deus!
O que faço?
- Não sei.
Faça o que sente, não o que pensa.
- Se ela morrer...
- Deixe de pensar, já disse.
Sua mentora está atrás de você.
Lina olhou para trás e nada viu.
Neide prosseguiu:
- A russa está sugerindo, só sugerindo, que você vá até o sítio.
- É. Meu coração está apertado e não consigo tirar dona Eugénia da cabeça.
Também devo isso a Melissa.
É minha amiga.
- Se não for por você, então faça por Melissa.
Vá até lá.
Converse com Eugénia.
Acerte as contas de uma vez.
Lina não hesitou.
Num impulso, apanhou a bolsa e deixou-se conduzir por Sandoval.
Neide, intuída pelos guias espirituais, foi junto.
Chegando ao sítio, foram directo para o quarto, que estava iluminado somente pela luzinha do abajur sobre o criado-mudo.
Encontraram Eugénia deitada na cama, adormecida, as mãos enrugadas e contorcidas.
Cibele, filha de Sandoval, acabara de trocar-lhe as roupas.
- Eu a ajudei a banhar-se - disse a menina.
- Acabei de trocá-la e penteá-la - completou chorosa.
- Ela não está bem. Nunca vi dona Eugénia assim.
Parece que... - a menina não quis concluir.
- O que ela teve? - indagou Lina.
- Uma pontada no peito.
Depois sentiu dor nas juntas, escorregou, eu praticamente a trouxe arrastada até aqui.
Ela disse que o coração está fraco e não vai resistir.
Depois do banho, deitou-se, pediu para chamar você e cochilou.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:16 pm

Lina iria falar, mas Neide declarou, categórica:
- Não pense que Eugénia fez uma encenação.
Lina ruborizou porque estava achando isso mesmo, e Neide prosseguiu:
- Ela está mal.
Estou aqui para ajudar a fazer a passagem dela para o outro plano.
Eugénia vai morrer a qualquer momento.
Cibele deu um passo para trás, aterrada.
Fez o sinal da cruz.
- Pode ir, Cibele.
Nós ficaremos aqui no quarto, em oração - avisou Neide.
A menina foi conduzida por Sandoval para fora da casa.
Neide puxou delicadamente Lina pelo braço e aproximaram-se da cama.
Eugénia não se movia, o ar saía com dificuldade e Lina espantou-se com a sua aparência.
- Não se esqueça de que anos se passaram - lembrou Neide.
- Ela está envelhecida - apiedou-se Lina.
Lembra a dona Bibiana.
Eugénia tinha os cabelos todos brancos.
O rosto estava com muitas rugas, a pele perdera completamente o viço.
Neide aproximou-se e sussurrou:
- Eugénia, sou eu, Neide.
Aos poucos, Eugénia delicadamente abriu os olhos.
Olhou ao redor e, ao fixá-los em Neide, sorriu.
- Você está aqui.
Que bom!
- Trouxe uma visita.
Ela deu um passo para o lado, e o rosto de Lina apareceu reflectido na luzinha do abajur.
Os anos haviam passado, o rosto havia mudado, mas os olhos eram os mesmos.
Eugénia a reconheceu:
- Lina! Você finalmente veio me ver.
Depois de tantos anos.
Está uma mulher feita.
- Estou aqui, dona Eugénia.
- No meu leito de morte.
- Não fale assim.
- Eu vou morrer.
Estava esperando você aparecer.
Lina sentiu um estremecimento pelo corpo.
- Vai ficar boa.
Eugénia esboçou um sorriso.
Estava bem cansada, a respiração estava um tanto entrecortada:
- Vou ficar depois que fechar os olhos para sempre.
Meu espírito precisa se libertar deste corpo cansado.
Sabe, tenho sonhado com Estela.
Quero ficar com minha filha.
- Vai ficar - tranquilizou Neide.
Vai ficar.
- Lina, eu quero que você me perdoe de uma vez por todas e esqueça tudo o que aconteceu.
- O passado ficou para trás.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:16 pm

- Quero que fique mesmo.
Sem mágoas.
- Sim.
- Ali - apontou para uma caixa sobre a cómoda - está tudo o que deve ficar com você e com Neide, depois que eu morrer.
- O que tem ali?
- A sua libertação, a sua independência.
- Não estou entendendo.
- Quero que você assuma a identidade de Estela.
Pegue a certidão de nascimento dela e saia pelo mundo com um nome, com direito a ter outros documentos.
- Mas Estela morreu - objectou Lina, a contragosto.
- Morreu e o cartório pegou fogo.
Você poderá ir morar em uma cidade bem longe daqui, onde ninguém saiba que Estela morreu.
Poderá viver sua vida, se casar, viajar, fazer o que quiser.
- Não tenho dinheiro...
- Naquela caixa tem a solução para isso também.
É uma caixa mágica? - pensou Lina, com certa ironia.
Mas o momento não era para isso.
Eugénia estava sendo sincera, queria resolver suas pendências e estava sendo de uma generosidade fora do comum.
Lina percebeu a sinceridade e sentiu-se tocada, de verdade.
Sem perceber, instintivamente, ajoelhou ao lado da cama, abraçou-se a Eugénia e sentiu o corpo quentinho, o cheiro de perfume que havia muito não sentia.
Deixou que as lágrimas corressem livremente.
- Por favor, Lina, me perdoe.
E peça ao padre para que celebre a minha missa de sétimo dia na Igreja da Imaculada Conceição.
É meu último desejo.
- Dona Eugénia, eu também peço perdão.
Fui muito dura, deixei-me levar pelo orgulho, pela dureza dos pensamentos.
Infelizmente, tive uma vida difícil e tenho um jeito seco de lidar com situações e principalmente com gente.
A senhora, seu Aderbal e Melissa foram as únicas pessoas que de facto se preocuparam comigo.
Hoje eu sei como foi difícil para a senhora ter de enfrentar o dia a dia sem ter sua filha ao seu lado.
É uma mulher forte.
Eu a admiro por isso.
Prometo que virei visitá-la amiúde.
Quanto à missa de sétimo dia, vai demorar bastante para acontecer, mas eu prometo sim e...
Neide, logo atrás, olhos marejados, tocou-lhe gentilmente as costas:
- Querida, por favor, deixe-a.
- Agora não, Neide.
Eu preciso dizer mais coisas.
Dona Eugénia foi uma das pessoas mais importantes que eu tive nesta vida.
Ela foi como uma mãe para mim.
Precisa saber disso e...
- Sim, eu sei. Ela sabe.
Mas agora não é o momento.
- Por quê?
Eu preciso dizer.
- Dona Eugénia acabou de morrer.
Passada a missa de sétimo dia de Eugénia, celebrada na Imaculada Conceição, como ela pedira antes de morrer, Lina foi até o sítio com Neide para pegar a caixa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:16 pm

- Não sei se é hora de abrir - disse receosa.
- Como não?
Está com medo de quê?
- Não sei, Neide.
- Vamos.
Eugénia teve seu perdão, morreu nos seus braços, fez uma passagem tranquila.
Os meus guias ajudaram o espírito dela a se desligar do corpo físico e a levaram para um posto de tratamento no astral.
Estela a espera com ansiedade para poderem ficar juntas antes de planearem as actividades para nova etapa de vida, porquanto a mudança é necessária.
A vida nos empurra para a frente, não tem como ficar parado no tempo, não importa em qual dimensão.
Então, de que tem medo?
Lina sorriu.
- Tem razão.
Ela abriu a caixa e lá havia alguns papéis.
Obviamente, encontrou a certidão de nascimento e a cédula de identidade de Estela.
Também havia uma cópia do testamento, em que Eugénia deixava o sítio para Neide.
- Agora você vai poder ampliar os tratamentos espirituais, como sonhou! - exultou Lina.
- É - tornou Neide, emocionada.
Eugénia foi de uma generosidade ímpar.
Vou transformar aquele sítio em um grande centro de tratamento espiritual.
Um marco de referência na área. Você verá!
No fundo da caixa, um saquinho de couro.
- O que é isso? - quis saber Neide.
Lina nem quis abrir. Já imaginava...
E sua imaginação estava certa.
Eugénia mantivera a pedra preciosa guardada por todos aqueles anos.
- A César o que é de César - declarou Neide.
Emocionada, Lina tirou a pedra do saquinho e ficou contemplando-a por um bom tempo.
Lembrou-se do sonho com Bibiana, da ida até a casa da velhinha, a saída do sertão, a morte dos pais, o encontro com Aderbal, a chegada à cidade... todos os acontecimentos daqueles anos vieram num flash, de forma rápida, e ela se abraçou a Neide.
- E agora? - indagou, um tanto insegura.
- Se seguir o caminho indicado pelo coração, poderá mudar o curso dos acontecimentos e triunfar.
Mas, se persistir nos impulsos e deixar que as ideias dos outros sejam mais fortes que suas convicções... - ela estremeceu, porém Lina não percebeu.
Neide apertou-a contra o peito e acariciou seus cabelos.
A vida sempre sabe o que faz, querida.
Eu gosto muito de você...
Neide não concluiu e Lina também não insistiu.
Estava muito tocada com tudo aquilo, pois sabia que sua vida mudaria.
Ela queria ir embora.
E partiria dali a alguns dias.
Uma nova etapa de vida se iniciava ali.
Com a doação das terras, Neide pôde construir e ampliar os trabalhos espirituais de cura.
Em seu centro, médicos desencarnados brasileiros vinham prestar auxílio aos pacientes.
Nada de facas ou utensílios cirúrgicos.
Os médiuns usavam gaze, algodão, álcool, mercúrio, pomadas feitas com ervas - indicadas e misturadas sob supervisão espiritual -, cromoterapia e passes.
Muitos passes.
O centro cresceu, agigantou-se.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:16 pm

Neide viajou o mundo, conheceu outros médiuns, outros métodos de cura, outras filosofias espiritualistas, encantou-se com o trabalho de cura de algumas comunidades africanas e conheceu práticas xamânicas na América do Norte.
Trouxe conhecimento e gente preparada e qualificada para trabalhar em seu centro.
Neide fez amizade com Orlando e Selma, e os dois centros espíritas firmaram parceria, tanto na terra quanto no céu...
Até hoje, quando Orlando tem algum caso sério que necessita de tratamento de cura, envia o paciente de São Paulo para Minas Gerais.
E os resultados têm sido surpreendentes.
Lina, depois de pegar os documentos, levou a pedra preciosa até um negociante de confiança e renome.
Como era de se esperar, valia um bom dinheiro.
Não era uma fortuna, mas o suficiente para Lina dar rumo à sua vida, começar a andar com as próprias pernas.
- Lembre-se: não dê ouvido ao comentário maledicente dos outros.
- Sempre me diz isso, Neide.
Por que está repetindo agora que estou de partida?
- Intuição.
- Sou mulher feita - Lina riu.
Sei me virar.
Já apanhei muito da vida.
Sei me defender.
- Pode se defender fisicamente - advertiu Neide, séria.
Estou falando de escutar os outros.
Cuidado com o que escuta.
Filtre os pensamentos.
Ainda é muito impulsiva.
- Pode deixar.
- Cuidado com a sede de justiça e de vingança.
Isso poderá significar o seu fim.
- Aprendi a me controlar.
- Será? Se alguém tentar prejudicá-la, como vai reagir?
- Ninguém vai me prejudicar. Nunca mais.
- Como pode ter certeza?
- Eu tenho - Lina afirmou, convicta.
- A vida nos testa, Lina.
- Pois que me teste, então - rebateu, voz desafiadora.
- Ficou anos trancafiada aqui, como se tivesse medo de encarar o mundo - considerou Neide.
Ainda não sinto que esteja pronta.
Lina fez um muxoxo.
- Está querendo estragar a minha partida para São Paulo.
- Não é isso, minha querida.
Eu desejo toda a felicidade do mundo para você.
Quero que seja feliz, que viva a vida, experimente, ame, saboreie cada momento.
Mas noto que você ainda dá mais atenção ao que os outros dizem e deprecia o que sente.
Lina não disse nada.
Ficou pensativa.
Neide talvez tivesse razão.
Agora não era hora de pensar nisso.
- Quero rever Melissa - desconversou.
Não aguento mais trocar cartas com ela.
Quero conhecer a filhinha dela...
Neide percebeu que Lina queria parar por ali e não forçou mais.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:16 pm

Iria sempre vibrar para que acontecesse o melhor para ela.
Que a vida sempre a ajude, minha querida, pensou.
Depois de tantos anos vivendo no interior, Lina agora caminhava, novamente, sozinha.
Mas era diferente.
Não era mais uma menina, tinha dinheiro e um pouco mais de confiança.
Não queria dar o braço a torcer, porque Neide tinha razão em um ponto:
Lina não mudara o seu jeito de encarar os factos.
Continuava a ter sede de vingança e justiça quando se sentia lesada, prejudicada.
- Ora, quem vai me prejudicar? - indagou para si, enquanto abria a janelinha do ónibus com destino a São Paulo e deixava o vento balançar os cabelos, com a mente cheia de planos e ideias para uma nova etapa.
Chegou à estação rodoviária numa manhã ensolarada.
Encantou-se com os losangos coloridos da fachada do prédio em contraste com o sol e nem ligou para os ambulantes espremidos na calçada, vendendo de tudo; também não se espantou com aquele bando de gente disputando o entorno da praça com um monte de carros, ónibus e muita buzina e fumaça.
Gostou da confusão.
Lina encantou-se com a cidade.
Já tinha andado por Belo Horizonte, anos antes.
Gostava do burburinho, do falatório, do barulho de buzina.
Atravessou a praça Júlio Prestes, fez sinal para um táxi, entrou e deu o endereço de Melissa.
O encontro foi emocionante.
Depois de um abraço que pareceu durar horas, Melissa a olhou de cima a baixo várias vezes:
- Transformou-se em uma mulher bonita.
- Obrigada.
- Mesmo. Claro que precisa de uns ajustes de produção.
Eu vou ajudá-la.
- Imagine.
Você tem casa, marido, filha...
- Estou acostumada - brincou Melissa.
- E Daniel?
- Ele sai cedo para as aulas.
- Trocamos muitas cartas, minha amiga, mas agora quero conversar, saber de você, ter notícias de todos!
Dona Leonor, Solange, Eunice...
Melissa colocou água para ferver, pegou o pote de café.
Estava muito feliz de ver Lina ali.
- Preciso actualizá-la.
Solange vai se casar, mas vai ser um casamento diferente.
- Como assim?
Melissa riu e começou a contar.
Lina ruborizou num primeiro momento, depois riram à beça, começaram a falar besteira e se divertiram a valer.
Até que a pequena Maura acordou, e Lina subiu com Melissa para pegá-la.
O dinheiro que Lina tinha não era lá grande coisa e não dava para comprar uma casa na Vila Mariana.
E, ainda, ela queria parte daquele dinheirinho aplicado na poupança para os primeiros meses, até encontrar um emprego que pudesse cobrir suas despesas básicas.
Depois de muito procurar, Lina comprou um conjugado no centro da cidade.
Gostou. Era um edifício na Duque de Caxias, e Lina tinha tudo à mão.
Aplicou o dinheiro na poupança e tinha uma vida bem regrada, gastava pouco.
Começou a procurar emprego e pediu ajuda a Daniel.
- Quem sabe ela não pode ficar no lugar da Suzete? - sugeriu Melissa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:17 pm

- E - ele considerou. - Suzete vai sair de licença.
Pode ser uma boa.
Lina é de confiança.
- Está com muita vontade de trabalhar e aprenderá o serviço com rapidez - completou Melissa.
Ela é bem esperta, inteligente.
- Você me deu uma óptima ideia.
Depois de uma semana, numa visita que Lina fez à amiga, Melissa comentou:
- Daniel pediu para você passar lá no cursinho.
Às onze e meia.
- Será que tenho chance, amiga?
- Claro! Você preenche todos os requisitos, Lina.
- Estou tão empolgada!
- Vai dar certo, você vai ver.
O endereço é este aqui...
Melissa passou o endereço.
Não ficava muito longe de onde Lina morava.
Ela podia ir a pé, se quisesse.
Saiu da casa de Melissa, tomou a condução até sua casa, arrumou-se com apuro e, como a temperatura estava amena, foi caminhando até o endereço.
Encontrou Daniel, que já a esperava com outro funcionário.
Lina estava um pouco nervosa, mas fez a entrevista numa boa e, por fim, Daniel afirmou:
- A vaga é sua.
- Mesmo? - ela exultou de felicidade.
- Sim. Mas o salário é baixo.
- Sem problemas.
Suzete, que vai se afastar, me contou quanto ganha.
O valor está óptimo para mim, cobre perfeitamente os meus gastos.
Não terei de mexer na poupança.
Estou muito feliz, Daniel.
- Mas só daqui a uns três meses você deverá começar, Lina.
- Também sei disso.
- Em todo caso, estamos em novembro.
O emprego deverá ser para meados de fevereiro ou comecinho de março.
- Sem problemas.
Eu tenho mais que o suficiente para me garantir até lá.
Assim poderei arrumar minha casinha, comprar o que falta, decorar...
E visitar a Melissa.
- Você e Melissa.
Melissa e você - ele riu.
Meu Deus! Como vocês se gostam!
- Eu adoro sua esposa. Mesmo.
A Neide diz que temos ligações de outras vidas. Eu acredito.
- Eu também acredito - Daniel consultou o relógio e arregalou os olhos.
Menina, eu aqui de papo e tenho de entrar para mais uma aula, antes do almoço.
- Pode ir.
Eu vou esperar a Suzete, conversar mais um pouquinho e também já vou.
Despediram-se.
O funcionário voltou para a sala da administração.
Daniel virou no corredor para entrar numa das salas e começar a dar aulas.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:17 pm

Lina caminhou por entre a recepção do cursinho.
Gostou de ver aquela garotada andando de um lado para o outro, conversando, carregando livros, pranchetas, mochilas, flertando, sorrindo.
- Como é bom ser jovem! - suspirou.
Ela fechou os olhos e deu um encontrão num homem que acabava de chegar, esbaforido.
Lina perdeu o equilíbrio e foi ao chão.
Ele se abaixou sem graça e lhe estendeu a mão.
- Mil perdões.
- Não tem de quê.
- Eu vim correndo, precisava falar com o Daniel.
- Ele acabou de entrar na sala - apontou, enquanto ajeitava o vestido e tentava se recompor.
Ele a mediu de cima a baixo.
Achou a moreninha bem interessante.
- Você não é aluna.
Quer dizer, é novinha, mas nunca a vi por aqui.
Lina riu.
- Estou aqui para preencher a vaga de recepcionista.
- Por quê?
A Suzete foi demitida?
- Não. Ela está grávida...
- Está grávida?!
- Pelo jeito, você não vem muito aqui...
Ele sorriu sem graça.
- Não venho mesmo.
Só venho muito de vez em quando.
Estendeu a mão:
- Prazer. Luís Sérgio.
- Oi. Eu me chamo Lina.
Suzete chegou, Luís Sérgio viu o barrigão, envergonhou-se.
Fazia meses que não aparecia no cursinho.
Mas por que aparecer?
Daniel tomava conta de tudo direitinho, havia mais dois funcionários que o ajudavam, e a corretora, agora associada ao banco de investimentos, estava indo muito bem.
Luís Sérgio usava o tempo de sobra para ficar com Amelinha, tentando manter a filha o maior tempo possível afastada do convívio nocivo com a mãe.
Luís Sérgio não entendeu se foi carência, instinto, desejo ou se aquilo que estava sentindo naquele exacto momento tinha algum nome.
Afinal de contas, desde que o casamento tomara aquele rumo pavoroso, ele não se envolvera com mulher alguma.
Era um homem íntegro, dedicado à filha, aos negócios, e não era mais do tipo que se afogava em bebida ou mulheres de vida fácil.
Havia um monte, até de vida não fácil, que tentara seduzi-lo.
Amigas de Rosana, inclusive, tentaram conquistá-lo e quiseram levá-lo para a cama, mas Luís Sérgio não se interessara.
E agora aparecia essa moreninha do interior de Minas, com sotaque, simplesinha, mas com um jeitinho simpático, que o cativou sobremaneira.
Lina também sentiu algo que não sentira por homem nenhum, nem quando tivera total liberdade para namorar quem quisesse em Teófilo Otoni.
Parecia coisa de novela.
Eles saíram do cursinho batendo papo, esticaram no restaurante do Moraes, ali perto.
Trocaram o famoso filé com alho por um bife suculento acompanhado com uma porção imensa de batatas fritas e uma cerveja.
Depois, foram caminhando sem destino pela cidade, Luís Sérgio mostrando um ponto aqui, outro ali.
Lina havia estudado alguns anos com Neide, decidira não entrar na escola - por conta da falta de documentação, mas era letrada e se interessava.
Luís Sérgio observava que ela era simples, porém inteligente.
Ao passarem pela Vieira de Carvalho, Lina quis um docinho.
- Quindim, de preferência.
O sangue é nordestino, mas o coração é mineiro.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:17 pm

Luís Sérgio riu.
Entraram na doceria Dulca, e Lina fez questão de pagar.
Ele percebeu que ela era simples, inteligente e também independente.
Começou a gamar.
- Parece que estou em casa - ela se derreteu.
- Este quindim está uma delícia!
- Também vou provar um - emendou Luís Sérgio.
Saíram, continuaram a caminhar.
Luís Sérgio acendeu um cigarro, o papo continuou agradável, dali esticaram para um hotelzinho embaixo do Minhocão.
Foram dois meses de paixão avassaladora.
Lina ficou enlouquecida, a ponto de espaçar as visitas e praticamente deixar de ter contacto com Melissa.
- A gente tinha mais contacto quando ela morava longe - reclamou Melissa.
- Acabou de chegar.
A cidade é grande, atractiva.
Lina é jovem, conheceu um rapaz, vai saber - contemporizou Daniel.
- Pode ser...
Rosana percebeu a variação gritante no humor do marido.
Luís Sérgio chegava em casa bem-disposto, alegre, com um sorriso estampado no rosto.
Era irritante.
Ela suspeitava de que havia contribuição feminina nessa história, mas ficou na dela.
Até que veio o Natal e Luís Sérgio inventou uma reunião de emergência com o banco de investimentos justamente no dia 25, depois do almoço.
- Reunião no dia de Natal, Luís Sérgio?
- São investidores japoneses.
- E vão tratar de investir o dinheiro do Papai Noel? - perguntou, com ironia, querendo explodir de ódio.
- Eles não ligam para datas. São executivos.
Calhou de ser dia 25.
- Estranho. Muito estranho - ela disse para si.
Mas tudo bem.
A semana transcorreu normalmente, combinaram de passar o réveillon no Guarujá, na casa dos pais de Rosana, uma bela casa no alto do morro da Enseada.
- Se ele arrumar uma desculpa esfarrapada, de última hora, é porque tem mulher - avisou Consuelo, amiga com mestrado em traição.
- Ele não faria isso.
É um sufoco levar Amelinha para a praia.
Tem que ir oxigénio, tubo extra, enfermeira... ele não é louco de me aprontar uma dessas.
Eu sou capaz de fazer a menina ter um piripaque na descida da Anchieta só para ele morrer de remorso.
- Você não seria capaz disso!
Consuelo levou a mão à boca, horrorizada.
Ela era fútil e terrível, mulher que sofria com as traições do marido, mas nunca, jamais, usara os filhos para resolver seus problemas conjugais.
Rosana subiu e desceu os ombros, com desdém e frieza.
- Sou capaz de coisas que você nem imagina, Consuelo.
Eu faço qualquer coisa para manter meu casamento.
Qualquer coisa.
Consuelo delicadamente afastou-se de Rosana.
Foi espaçando as ligações, os convites e sumiu.
Tinha medo de gente assim.
E tinha toda razão para ter.
A frase de Consuelo, infelizmente, ficou matutando na cabeça de Rosana:
Se ele arrumar uma desculpa esfarrapada, de última hora...
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:17 pm

Luís Sérgio arrumou. De última hora.
Rosana descia no dia depois do Natal, com Amelinha, oxigénio, cachorro, enfermeira, empregada e família.
Era um comboio que descia a serra.
Depois ainda havia o martírio da fila imensa para a balsa, já em Santos, para chegar até o Guarujá.
- O escritório vai fechar dia 30.
Eu vou ficar para o inventário e pegarei a estrada logo depois do almoço, no dia 31.
- Quero só ver - ela resmungou.
Ao meio-dia de 31 de dezembro, Luís Sérgio ligou e avisou.
Aparecera um problemão de última hora, mas no dia seguinte ele estaria lá para almoçarem juntos.
- Ao menos vamos ter o primeiro almoço do ano juntos!
Rosana desligou o telefone e teve vontade de estrangular o marido.
Mordeu o lábio inferior com tanta força que sentiu o gosto amargo de sangue.
Chupou o sangue, olhou para a filha com raiva:
- Nem você, doente e moribunda, está segurando Luís Sérgio em casa.
O problema é pior do que eu pensava - rilhou os dentes de ódio.
Amelinha sentiu repentina falta de ar, tamanha lufada de energia pesada que Rosana lhe dirigira.
A enfermeira aproximou-se e aumentou a saída de oxigénio.
- Isso, Amelinha.
Respire. Isso.
Inale com calma.
Vamos, meu bem.
A menina acalmou. Rosana foi até a varanda.
Encarou o marzão à frente:
- Eu vou descobrir e vou acabar com essa vagabunda.
Amanhã mesmo começo a fazer o meu jogo.
Luís Sérgio fez reserva num restaurante afastado, na Cantareira, e dormiram a noite da virada do ano num chalé, ali na serra.
Na manhã seguinte, desceram para a capital e foram caminhar no parque do Ibirapuera.
Luís Sérgio tinha certeza de que não seriam vistos ou percebidos, pois os amigos em comum estavam fora da cidade.
Ele estava com um boné, óculos escuros, shorts, camiseta e ténis.
Lina vestia camiseta e shortinho, calçava um par de sandálias.
Estavam de mãos dadas, felizes e contentes, fazendo planos para o futuro.
Luís Sérgio não contara sobre Rosana, sobre o casamento ruim, evitara falar sobre a filha, sobre a doença.
Queria preparar Lina, conhecê-la melhor para depois lhe contar sobre sua vida.
De que adiantaria despejar na moça todos os seus problemas agora, de uma só vez?
Primeiro - pensava ele - era necessário estabelecer e fortalecer o relacionamento.
Depois, aos poucos, com o namoro engatado, ele revelaria a Lina, em doses homeopáticas, a sua real situação.
Eles se abraçaram, e ele a beijou com ardor.
- Tem mesmo de ir?
- Sim. Prometi à minha família que iria descer.
Meu pai - mentiu - exigiu que eu vá almoçar com ele e mamãe.
É o primeiro almoço do ano.
- Poderia me levar.
- Num outro momento.
É primeiro de janeiro.
Primeiro dia do ano.
É um costume nosso, coisa de família.
Prometo que ano que vem você estará lá, sentada ao meu lado.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:18 pm

Lina riu.
- Está bem.
Prometo que ficarei em casa, esperando você.
Beijaram-se novamente.
Uma mulher de cabelos crespos abriu e fechou a boca várias vezes.
Era uma amiga que frequentava o mesmo clube que Rosana.
Ou aquele homem era irmão gémeo de Luís Sérgio ou...
Mafalda não resistiu.
Futriqueira de carteirinha, voltou correndo para casa, ali perto, e sacudiu o marido, adormecido pelo excesso etílico da festa da virada.
- O que é?
- Eu vi o marido da Rosana lá no parque atracado com outra.
- Teve uma visão, Mafalda - murmurava, mastigando a saliva.
O Luís Sérgio está no Guarujá... - o homem voltou a dormir.
Mafalda balançou a cabeça negativamente.
Correu até a sala, pegou o caderninho de telefone e discou.
Uma empregada atendeu, e ela pediu para falar com a patroa.
Rosana escutou tudo como se tivesse levado uma bofetada e em seguida tivesse engolido uma carteia de barbitúricos.
Meio zonza, largou o fone no chão.
O pai lhe perguntou:
- Aconteceu alguma coisa, filha?
Coisa típica de mulher violentamente traída em seu orgulho que não deixa transparecer o que sente, Rosana respirou fundo, recolocou o fone no gancho, levantou a cabeça e sorriu para o pai:
- Não, papai. Está tudo bem.
Uma amiga, a Mafalda, queria uma receita de farofa doce.
Coisa de cardápio de ano-novo.
O homem se afastou e não percebeu uma veia saltada querer explodir no canto da testa de Rosana.
Ela engoliu a raiva, o ódio.
E assim passou o dia, dissimulando.
Subiram a serra, ela permaneceu quieta o tempo todo. Luís Sérgio percebeu e indagou:
- O que foi?
- O peru não estava bom. Mamãe exagerou no sal.
De novo...
No dia seguinte, Rosana foi até o escritório de um detective.
Uma semana depois, tinha nas mãos o nome de Lina - que para Rosana foi apresentada como Estela, fotos de Lina com Luís Sérgio, enfim, tudo que pudesse comprovar efectivamente o relacionamento extra-conjugal do marido.
- Quero que descubra tudo o que puder sobre essa tal de Estela.
Tudo. Pago o que for preciso.
O detective, jovem e querendo ganhar confiança, aumentar a clientela e a credibilidade, fez o serviço direitinho.
Descobriu sobre Estela/Lina e até conseguiu o atestado de óbito de Estela.
- Então meu marido se relaciona com uma morta - disse para si, irónica.
Agora eu acredito no mundo dos espíritos - e gargalhou.
Gargalhou até perder o ar e sentir nova onda de raiva e ódio.
Muito ódio.
Era fim de mês.
Rosana iria acabar uma vez por todas com aquele caso de verão.
Decidida, esperou o fim da tarde e ligou para o escritório de Luís Sérgio.
- Amelinha está mal.
- Ligue para o médico.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:18 pm

- Não sei - a voz dela era lacónica.
Melhor vir para cá.
Nunca vi Amelinha nesse estado - do nada fez uma voz chorosa.
Teatro total. - Parece que vai... que vai...
- Parece o quê?
Rosana desligou o telefone.
Luís Sérgio ficou atónito.
Ligou para Lina.
- Estou esperando você, meu bem.
- Não poderei ir.
- Porquê?
- Surgiu um imprevisto.
Meu pai está mal e...
Lina desligou o telefone um tanto contrariada.
Mas entendia.
Se Luís Sérgio tinha um pai doente, fazer o quê?
Rosana pousou o fone no gancho.
- Idiota. Acreditou. Eu poderia estar na novela das oito. Eu sou demais.
Levantou-se com um sorriso sinistro no canto dos lábios, foi até o quarto da filha.
Amelinha dormia e a respiração estava regular.
Ela se aproximou e retirou a mangueirinha do ar e contou:
- Um, dois, três...
Em instantes, a menina começou a respirar com dificuldade.
Logo, o ar começou a faltar, e Amelinha começou a se debater.
Arregalou os olhos, atónita.
Rosana calmamente recolocou a mangueirinha nas narinas.
- Se mamãe não estivesse aqui, não sei o que seria de você, meu bem. Sempre eu a salvá-la. Sempre eu.
Rosana recolocou a mangueira nas narinas da filha, mas baixou a quantidade de oxigénio, fazendo Amelinha sentir-se cansada.
Amelinha sentiu um calafrio pelo corpo.
Na sequência, Rosana levantou-se, apanhou a bolsa, consultou o relógio:
- O paspalho logo vai chegar. Óptimo.
Tomou um táxi e foi para o centro da cidade.
Antes, pediu para o motorista parar numa floricultura
Ao voltar para o carro, o motorista fez um esgar de incredulidade ao encará-la pelo retrovisor.
- O que foi? - ela interrogou.
- Nada. É que...
- É que nada.
Segue a corrida.
Estou pagando para você correr e não para olhar ou fazer comentários. Anda.
- Sim, senhora.
O rapaz balançou a cabeça, fez o sinal da cruz e seguiu o trajecto.
Parou no meio-fio.
- Vai logo, dona.
A avenida é movimentada.
Não. Você fica -- Rosana tirou algumas notas da bolsa.
Fique com isso.
É uma parte da corrida.
Só para garantir.
Vou entrar no prédio, entregar essas flores e voltarei em dez minutos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 8:18 pm

- Não posso ficar parado.
Já estão buzinando atrás de mim.
- Pois ande, dê uma volta, sei lá.
Fique rodando, dando voltas no quarteirão.
- Vou ter de manter o taxímetro ligado.
- Tudo bem. Eu pago.
Rosana saiu, pisou duro na calçada em frente ao prédio de Lina.
Chamou o porteiro com um sorriso falso e pediu para interfonar.
- É entrega de flores.
O porteiro ligou, Lina atendeu e pediu para subir.
- Eu entrego - ele disse.
- Não. Por favor.
Na nossa empresa, fazemos questão de entregar.
E não vou me demorar.
O motorista vai aguardar - apontou para trás.
O porteiro mediu Rosana de cima a baixo.
Era uma mulher elegante, bem-vestida.
E viu por trás dos ombros dela o táxi ainda parado na guia.
- Pode subir, senhora.
Sexto andar. Sessenta e seis.
- Sessenta e seis - repetiu para si, em tom jocoso.
- Se tivesse mais um seis, diria, como nas escrituras, que é o número da besta.
Mas, como são só dois, diria que é o número da tonta.
Ela riu e pegou o elevador.
Subiu com o arranjo.
Havia comprado uma coroa, típica das usadas em velório.
Até que tinha tido senso de humor... negro.
Precisava extravasar seu ódio.
Senão, iria explodir, ter um ataque, ou coisa pior.
Lina abriu.
Rosana foi entrando e empurrando-a com a coroa.
- Aqui então é o antro de amor!
Neste cubículo.
Quanta decadência!
Lina não entendeu.
- O que é isso?!
- Feche a porta.
- Não fecho.
Não sei quem é você.
- Vai saber. Já, já.
Ou quer um escândalo?
- Olha lá! - Lina estava se enervando.
- Olha lá, digo eu!
Espere um pouco - Rosana fez cena.
Com quem estou falando?
Com a Estela ou com a Lina?
Lina estremeceu.
Quem era aquela mulher?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:08 pm

O que fazia com aquela coroa de flores nas mãos?
Fechou a porta e encostou as costas no batente.
- Quem é você?
- Esposa do Luís Sérgio Rosana disparou sem rodeios.
Lina demorou um pouco para concatenar as ideias.
- Não pode ser. Impossível.
Rosana gargalhou.
- Impossível?!
Eu sou a esposa traída, e você se passa por vítima?
Por favor, tenha vergonha nessa cara!
- Ele me disse que é solteiro, tem um pai doente.
- Pai doente? Sei.
Rosana jogou a coroa sobre o sofá.
- A coroa de flores é para selar o fim dessa sem-vergonhice.
É o enterro do caso.
Abriu a bolsa, tirou uma pasta.
Lá havia fotos do detective, os documentos que provavam que Lina estava usando documentos de uma pessoa falecida etc.
Depois, tirou fotos do casamento com Luís Sérgio e fotos de Amelinha, atirando-as sobre uma mesinha.
- Veja por si só.
Quem está se casando comigo nas fotos?
O lobo mau?
Lina, trémula, apanhou as fotos.
Embora tiradas havia quinze anos, não restava dúvida de que o noivo era mesmo Luís Sérgio.
Depois Amelinha, a filha.
E fotos recentes dos três juntos.
Rosana não parava de tagarelar:
- Amelinha nasceu doente.
É uma mocinha que requer cuidados constantes.
Se souber que o pai tem um caso, ela morre.
Quer ser a responsável por uma morte? Quer?
Lina meneava a cabeça, negativamente.
- Não. De forma alguma.
Claro que não.
Ele não me contou nada...
- Nunca iria contar.
Porque ele sempre faz isso - mentiu.
Ele conhece uma mulher, a seduz, passam um tempo juntos e depois ele a abandona, porque tem Amelinha.
Enquanto existir Amelinha, ele nunca vai nos abandonar.
Entende que você foi um joguete, um brinquedo, uma boneca para satisfazer um pai desesperado, um marido carente?
Lina deixou as lágrimas escorrerem livremente.
- Ele não faria isso comigo.
Disse que me ama, de verdade.
- Mentira! - Rosana tinha vontade de stapear Lina, mas conteve-se.
Ele diz isso para todas.
Olha o que fez com a pobre Suzete - mentiu de novo, venenosa.
- Suzete?!
- A recepcionista da escola.
Pobrezinha. Então você não sabe?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:08 pm

- O quê? Não vai me dizer...
- Suzete está grávida de Luís Sérgio.
E Daniel é conivente, protege o amigo.
Lina sentiu enjoo.
Aquilo tudo era surreal.
- Não pode ser!
- Mas é.
- Vou falar imediatamente com Luís Sérgio. Agora!
O sentimento de justiça veio forte.
Lina não ia deixar as coisas ficarem assim.
Rosana não podia permitir que eles se encontrassem.
Pensou, pensou e ameaçou:
- Não. Você vai falar com ele amanhã.
Só amanhã. No trabalho.
- Não. Vou hoje mesmo.
- Já disse. Amanhã.
- Ninguém diz o que tenho ou o que não tenho que fazer - gritou Lina.
Posso ter errado, mas também fui enganada.
Não sabia que Luís Sérgio era casado.
Eu vou me afastar dele, pode ter certeza, porque sou uma mulher direita.
Rosana riu com desdém.
- Uma mulher que dorme com um homem casado não é direita.
- Já disse que não sabia.
- Pois agora sabe.
E não vai falar com ele hoje.
Ele está cuidando da nossa filha, que não está bem.
Amelinha teve outra crise forte.
Talvez tenha de ser internada.
Lina sentiu pena.
Rosana prosseguiu:
- Só vai falar com ele amanhã, caso contrário...
- Caso contrário?
- Eu vou à polícia e conto sobre sua identidade.
Sabia que usar identidade de gente morta é crime?
Falsidade ideológica.
Pois bem. Eu meto você no xadrez.
Lina estremeceu.
- Não, por favor.
- Não quero prender você, queridinha.
Só quero que se afaste de nossa vida.
Para sempre.
Amanhã, cedinho, você vai até o escritório e vai dizer na cara do Luís Sérgio que tem de viajar, que vai partir, que vai sumir, que conheceu outro, sei lá.
Mas vai lá dizer, para que a dúvida não corroa Luís Sérgio...
Rosana consultou o relógio, impaciente.
- Está tarde. Preciso ir.
Apanhou as fotos, entretanto, uma delas, a do casamento, ficara embaixo do sofá.
Ela não percebeu e saiu, batendo o salto, sentindo-se quase vingada.
Só se sentiria vingada, de facto, quando o marido chegasse em casa com aquele aspecto triste e carregado de sempre.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:09 pm

- Não vejo a hora de ele chegar em casa com aquele ar cansado, triste, irritado, deprimido. Amanhã será um dia especial. Não perderei por nada deste mundo a carinha dele quando abrir a porta de casa. Daí saberei que ela o deixou - disse entre dentes, enquanto descia o elevador.
Lina fechou a porta e caiu de joelhos. Chorou à beça. Não podia acreditar naquilo. Apanhou uma bebida, encheu o copo, jogou-se no sofá. Picou a coroa de flores.
Passou a madrugada em claro, nervosa, triste, remoendo aquela cena em sua sala.
Houve um momento, durante a madrugada, em que ela notou a foto embaixo do sofá. Lina pegou o retrato em preto e branco, olhou a foto do casal sorridente e chorou ao passar o dedo sobre o rosto jovem de Luís Sérgio.
- Meu querido, por que mentiu para mim? Por quê?
Seus olhos percorreram a foto e fixaram-se no rosto de Rosana. Era familiar.
- Conheço esse rosto, de algum lugar...
Lina espremeu os olhos. Mas a dor era grande. As ideias estavam embaralhadas na mente e ela mal conseguia concatená-las. Estava difícil juntar ali os pensamentos.
De repente veio a palavra queridinha e Lina voltou a ver a foto. Lembrou-se de Rosana.
- Claro! É a moça que namorava o amigo do Daniel.
Mas eu não conheci o amigo do Daniel. Meu Deus!
Lina levou a mão ao peito, depois à testa, e as lágrimas correram insopitáveis.
Daí vieram a raiva, o ódio.
Não de Rosana.
Ela não tinha nada a ver com aquilo. Pelo contrário.
Era uma mulher que fora traída, que tinha uma filha doente.
Luís Sérgio é que era um canalha, um aproveitador.
Ele, sim, é que deveria pagar, assim como Olério, Tenório, Jurandir...
- Se eu pudesse, teria pegado e matado esse Jurandir - disse entre lágrimas.
Só para fazer justiça à minha amiga Melissa.
Isso é passado.
Agora meu ódio está todo concentrado em Luís Sérgio.
Ele me paga.
Pensa que me fez de otária?
Ele vai ver só o que eu farei com ele. É hoje!
O sol começava a surgir.
Era sexta-feira, primeiro dia do mês de fevereiro.
Uma manhã ensolarada, bonita até.
Lina estava horrível. Não dormira nada.
O espírito de Maruska tentara contacto, entretanto, como ela não dormira, não houve maneira de inspirar-lhe pensamento algum, transmitir-lhe nada de positivo.
Lina estava presa numa aura de ódio, vingança e justiça a qualquer preço.
- Ao menos vamos tentar inspirar-lhe uma cartinha - sugeriu Estêvão.
Melissa não pode ficar sem saber.
- Sim - tornou Maruska.
Os dois fecharam os olhos, fizeram uma vibração positiva.
Lina sentiu um pouquinho da amorosidade dos espíritos amigos.
Mesmo atormentada, esboçou umas linhas.
- Vou acabar com esse maldito.
E vou viajar por uns tempos, ou vou sumir.
Preciso avisar Melissa.
Ela é a única pessoa com quem me importo na vida.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:09 pm

E escreveu um bilhete para Melissa:
Amiga,
Vou viajar por uns tempos, ou por muito tempo, não sei.
Estou precisando ficar comigo, seguir meu destino longe daqui.
Em respeito à nossa amizade, por favor, não me procure.
Só saiba que eu a amo. Muito.
Um beijo do tamanho da nossa amizade.
Lina

Lina tomou um banho demorado.
Enjoada, tomou um sal de frutas. Melhorou.
Colocou um par de óculos escuros, pegou uma bolsa, com a foto do casamento dentro, e rumou para o prédio onde Luís Sérgio tinha o escritório.
Chegou lá e entrou.
Já sabia o andar e, naqueles tempos, não se dava nome nem havia o costume de ser anunciado na recepção.
Lina, assim como um monte de gente que entrava e saía, caminhou e se espremeu num dos elevadores.
A porta fechou, com ela e mais oito passageiros.
Ao chegarem ao décimo nono andar, ela saiu e perguntou para uma mocinha na recepção:
- Preciso falar com Luís Sérgio.
Ele me disse que trabalha neste andar.
- Sim. Um momento.
A moça foi até a mesa, pegou o telefone e discou.
Voltou e informou:
- Lamento, mas liguei para a casa dele e a empregada disse que Luís Sérgio perdeu a hora.
Vai se atrasar.
É muito urgente?
- É.
Lina estava impaciente, mas não iria arredar pé.
- Olha, se quiser, pode subir mais cinco andares e esperar.
Lá tem uma sala de reunião e poderá ficar mais confortável.
- Ele vai demorar muito?
A moça consultou o relógio:
- Uns quarenta minutos.
- Vou subir. Obrigada.
Lina girou nos calcanhares, caminhou até os elevadores e apertou o botão.
Começou a ouvir uma gritaria.
Gente subindo pelas escadas, correndo no escritório.
A porta de um dos elevadores abriu e ela foi empurrada.
Mais outros se espremeram, totalizando treze passageiros.
Um deles ordenou, muito nervoso:
- Sobe para o último andar!
Lina, apertada entre doze estranhos aflitos, quis saber:
- Por quê?
O que está acontecendo?
- O prédio está pegando fogo!
Lina engoliu em seco.
Sentiu ao mesmo tempo um calorão no corpo e um frio na espinha.
Não chegou a conversar com Luís Sérgio.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:09 pm

Ela e os doze ocupantes do elevador morreriam carbonizados, segundos depois.
O incêndio do Joelma, ocorrido naquela sexta-feira, 10 de fevereiro de 1974, é considerado um dos mais trágicos registados no país até hoje, com um saldo de 189 mortos.
Quando grandes tragédias estão para acontecer, espíritos no astral são informados com tempo necessário para agrupar os envolvidos encarnados no evento.
Pouco antes do acontecimento fatídico, espíritos amigos juntam-se para agrupar os que precisam estar naquele momento, naquele lugar, assim como afastar os que não devem estar ali.
São exemplos as pessoas que perderam justamente aquele voo cujo avião acidentou-se, ou deixaram de entrar naquele prédio que desabou.
A certeza de que continuam vivendo depois da morte, conservando a individualidade e tudo quanto aprendemos nesta ou em outras vidas, conforta e estimula a busca pelo conhecimento todos os dias da nossa existência.
Os espíritos, no entanto, agrupam-se solidariamente para ajudar no resgate.
Médicos, enfermeiros e outros tantos, com o real desejo tão somente de auxiliar o próximo, unem-se e montam postos de atendimento, como ocorre aqui no planeta depois de um desastre de grandes proporções.
Os pronto-socorros são erguidos, os espíritos recém-desencarnados para lá são levados e atendidos até que se recuperem e possam ser designados para suas colónias astrais de origem.
Sempre recebem a visita do espírito de um parente ou amigo querido para buscá-lo.
Aquele que aceita o facto de ter morrido parte para a cidade de origem numa boa, sem problemas.
Aquele que entra em desequilíbrio e histeria tem o tratamento estendido até que possa absorver melhor o impacto da nova realidade.
Quem não aceita a nova condição, revolta-se, é livre para fazer o que bem entender.
O plano espiritual não é uma prisão, tampouco um cárcere privado onde o desencarnado é obrigado a ficar contra sua vontade.
Longe disso.
Ele é livre para seguir seu caminho, obviamente, mas tem de zelar sozinho por sua segurança dali para a frente, sem contar com o apoio dos mentores, que não podem, de forma alguma, interferir nas decisões de ninguém, por mais disparatadas que elas possam parecer.
No astral, o espírito pode sair e ir para onde quiser, inclusive voltar ao planeta, entretanto, aqui, infelizmente, não é mais o lugar ideal para ele viver.
Depois que todos os desencarnados de determinada tragédia são encaminhados, o pronto-socorro é desfeito, e os espíritos voluntários partem para outro trabalho de resgate.
E assim seguem, ajudando e socorrendo, uns unindo-se à corrente de Bezerra de Menezes, outros à de Eurípedes Barsanulfo, de Batuíra, de André Luíz e Meimei, de Santa Clara e da Ordem das Clarissas, e até a grupos formados no plano astral de outros países, como os de Florence Nightingale, grupo de espíritos liderados pela abnegada enfermeira, do qual Maruska fazia parte.
Era uma amizade entre Maruska e Florence, que se solidificara na época da Guerra da Crimeia, em meados do século 19.
Essa história daria outro belo romance...
Lina abriu os olhos e tentou reconhecer onde estava.
Não era o seu apartamento.
Assemelhava-se a uma barraca de acampamento militar.
Ela se lembrou do seriado Mash, e o moço, em pé ao seu lado, sorriu.
- Onde estou? - indagou, um tanto confusa.
- Num posto de socorro, montado especialmente para resgatar pessoas nesse estado.
Ele levantou o queixo.
Lina ergueu os olhos e depois o rosto.
Não era bem uma barraca.
O local era imenso, parecia mais um galpão, um ginásio.
Deveria haver ali umas duzentas macas.
- O que é isso?
- Um pronto-socorro.
- Então eu me queimei.
- Queimou. Bastante.
- Quem é você?
- Eu me chamo Estêvão.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:09 pm

Ela espremeu os olhos.
- Eu me lembro de você.
- Já nos encontramos antes.
Ela se lembrou do choquinho quando apertou a mão dele, num sonho que tivera muitos anos antes.
Sorriu. Sentiu segurança.
- Por que está aqui comigo?
- Estou a pedido de Maruska.
Lina não se lembrou de nada.
Cabeceou, os olhos giraram, fecharam, e ela adormeceu.
Passou um dia, uma semana, um mês...
Era soro e sono.
Só. Depois de muito tempo abriu os olhos, bem desperta.
Uma loura bem bonita estava ao lado da cama.
Era a moça dos sonhos. Lina sorriu.
- Eu conheço você!
- Claro, meu amor.
Sou eu, Maruska.
- Estou tão confusa ainda.
Um moço apareceu aqui, falou comigo...
- Estêvão.
- É. Estêvão. Muito simpático ele.
- É. Ele é ligadíssimo na Melissa.
Está querendo voltar.
Se tudo correr bem, será filho dela daqui a uns anos.
- Voltar? Não estou entendendo.
Lina remexeu-se na cama, soergueu o corpo.
Maruska ajudou-a a se ajeitar e colocou o travesseiro atrás das costas dela.
Nesse instante, Bibiana entrou no ambiente.
Lina arregalou os olhos e, mesmo perturbada, acreditando ainda estar num sonho, abriu um largo sorriso e sentiu forte emoção.
Estendeu os braços, e Bibiana fez o mesmo.
- Meu tesouro! Quanta saudade!
Como é bom poder abraçá-la de novo.
Lina não continha a emoção.
- Quanta felicidade!
Estar com você de novo, Bibiana.
- Vim vê-la. Saber como tem reagido.
- Estou bem. Quer dizer...
Lina encarou Maruska, depois seus olhos foram para Bibiana.
Olhou para as macas espalhadas pelo amplo espaço, viu aquela movimentação toda, contudo, o número de macas havia diminuído bastante.
Embora o silêncio ali reinasse, percebia uma ou outra pessoa mais nervosa, um ou outro revoltado, em desequilíbrio.
Imediatamente essas pessoas eram dali retiradas.
Ela não demorou muito para alinhar os pensamentos e reflectir:
- O incêndio!
Eu estava no elevador e...
Bibiana assentiu.
Maruska interveio:
- Isso. Você morreu no incêndio.
- Morri?
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:10 pm

As duas assentiram.
- Acabou?
Maruska foi quem elucidou:
- Esta etapa encarnatória acabou.
A Lina não existe mais.
Só ficarão as lembranças e as experiências.
- Eu tinha assuntos a terminar.
- Não tem mais nada - acrescentou Bibiana.
- Acabou, acabou.
Agora é momento de reflexão, de rever o que foi bom e o que não foi, de aprender a controlar melhor certos impulsos, rever crenças, ver o que foi melhor e o que não foi.
É um balanço que pode levar alguns anos para finalizar.
- Não se preocupe - tornou Maruska.
Estaremos ao seu lado, ajudando-a no que for preciso.
- Eu tenho que conversar com Luís Sérgio, tirar satisfações.
- Não tem que nada, Lina.
- Ele me enganou, Maruska.
- As coisas não são bem assim - ela procurou contemporizar.
Faz seis meses que você veio para cá.
- Seis meses? Achei que...
- Não. Você dormiu bastante.
Com o devido tempo, saberá tudo o que aconteceu e poderá pensar melhor no que fazer - ponderou Maruska.
- Não. De forma alguma - o semblante de Lina foi se alterando.
- Não fique assim - pediu Bibiana.
Se persistir nesse estado de desequilíbrio emocional, nada poderemos fazer.
Você terá de sair daqui do acampamento e sabe Deus para onde será atraída.
Lina não escutava.
Parecia estar em transe.
Os impulsos pareciam incontroláveis. De novo.
- Luís Sérgio tripudiou sobre meus sentimentos, brincou com meu coração.
Como querem que eu siga em frente sabendo que ele está lá, no mundo, livre, leve e solto?
- Não é bem assim, Lina. Esqueça.
Deixe essa raiva junto ao fogo que consumiu seu corpo físico.
A mudança existe sempre, nada fica parado, tudo se transforma.
Vamos andar para a frente e deixar para trás as coisas que nos incomodam.
Maruska e Bibiana tentaram, contudo, Lina não deu ouvidos.
Uma raiva surda brotou em seu peito e foi incontrolável.
Num segundo ela sumiu, desapareceu do acampamento.
- O que faremos? - indagou Bibiana.
- Vamos orar e torcer para que um dia ela volte.
Fizemos o que foi possível, minha amiga - tornou Maruska.
Lina viu-se arrancada do acampamento e atirada num vácuo, no tempo e no espaço.
Abriu os olhos e parecia ter saído de um transe.
Maruska e Bibiana haviam sumido.
O acampamento havia sumido.
Ela ouvia gritos.
Só gritos. Sentiu enjoo e dor de cabeça.
A energia do local agredia seu corpo perispiritual, recém-desencarnado.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:10 pm

Olhou ao redor e procurou imaginar onde estava.
Lembrou-se das conversas com Neide.
- Será que estou no umbral?
Será que vim mesmo para o inferno?
Ela fechou os olhos com medo.
Só que as vozes continuavam gritando... e eram familiares, conhecidas.
- Eu conheço essas vozes - disse para si, olhos ainda fechados.
Lina abriu um olho, percebeu melhor o ambiente.
Não era o umbral, mas um quarto.
Aterrada, viu Luís Sérgio, colérico, com o dedo em riste no rosto de Rosana.
Lina puxou os joelhos contra si e os abraçou.
Prestou atenção.
- Você não presta - ele dizia, nervoso.
Não vale nada.
- Não adianta ficar assim.
Sua raiva não vai trazer sua filha de volta.
- Você podia ter me ligado antes.
Por que demorou tanto?
- Agora me culpa?
Eu tenho culpa de Amelinha ter contraído meningite e ter morrido?
Luís Sérgio andava de um lado para outro do quarto, irritado, atormentado.
Passava nervosamente as mãos pelos cabelos, as lágrimas escorriam.
- Estamos passando por um surto de meningite.
Amelinha tinha os pulmões fracos.
Os médicos nos alertaram.
Você bem que podia...
Rosana o cortou de maneira seca:
- Alertaram, mas ela era fraca, meu Deus!
O que fazer?
- É. Tem razão. O que fazer?
Nada. Não há mais nada a fazer.
Luís Sérgio foi até o guarda-roupa, apanhou a mala em cima do móvel e jogou-a sobre a cama.
- O que está fazendo?
- O que deveria ter feito há dezasseis anos. Ir embora.
- Já sei.
Agora que a filha moribunda morreu, vai atrás daquela vagabunda.
Até rimou: moribunda com vagabunda.
Luís Sérgio voltou-se e deu um tabefe no rosto de Rosana.
Plaft. Ela levou a mão ao rosto. Ardeu.
- Nunca, mas nunca mais, fale de nossa filha nesse tom.
Se voltar a falar de Amelinha, eu juro que quebro você inteira.
Rosana afastou-se, nunca o vira daquele jeito, naquele estado alterado.
Luís Sérgio estava colérico e prosseguiu:
- E tem mais:
Lina não é uma vagabunda.
É a mulher que amo.
Eu gosto dela. De verdade.
Rosana riu com desdém.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:10 pm

- Faz seis meses que a vagabunda sumiu.
Até a amiga dela, a Melissa, acha que ela se perdeu na vida.
Vê se acorda, Luís Sérgio.
Aquela mulher usa nome falso, é pilantra, deve estar querendo armar uma para cima de você.
Abre teu olho.
- Abrir meu olho?
O que ela pode querer de mim?
Perdi meu escritório, três funcionários meus morreram no incêndio do Joelma, minha filha morreu faz quinze dias, e a mulher que amo vai querer arrancar de mim o quê?
Você é uma das criaturas mais repugnantes que conheci em toda a vida.
Nunca deveria ter me envolvido com você.
É mesquinha, cruel e má.
Rosana sentiu uma ponta de ciúme, mas não tinha como argumentar.
Achara muito atrevimento de Lina não ter ido falar com Luís Sérgio como combinado.
No entanto, ela sumira.
Vai ver ficou com medo de que eu fosse à polícia, pensou.
Num primeiro momento, alimentou expectativas de tudo voltar à normalidade.
Só que Amelinha piorava, veio o inverno, o surto de meningite, a morte.
Agora esse casamento não durava nem com reza brava.
Rosana sabia que era o fim, que seria inútil manter Luís Sérgio preso a ela.
Tinha de se conformar.
Ele também já não era mais aquele moço bonito e galante de anos antes.
“Luís Sérgio está ganhando barriga.
E ficando grisalho.
O tempo passa e as pessoas ficam velhas.
Cansei, pensou.
Ela já estava farta.
Mas era cruel e precisava provocar.
Tinha de espezinhá-lo.
- Aquela pilantra, se amasse você de verdade, estaria por aqui.
Por onde anda?
Ele não respondeu. Estava triste.
Gostara mesmo de Lina e achava muito estranho ela ter desaparecido.
Quando Daniel comentou que uma grande amiga de Melissa havia sumido sem deixar rastros e pronunciou o nome Lina, Luís Sérgio gelou.
Até pensou em conversar com Daniel, mas a tragédia do incêndio o abalara profundamente.
Achou melhor ficar quieto, sem se abrir nem mesmo com seu melhor amigo.
Quando Daniel o chamou para irem até o apartamento de Lina, vislumbrou ali a possibilidade de, quem sabe, encontrar um bilhete escrito para ele, uma carta, uma pista que pudesse levá-lo até ela.
Mas nada.
Entraram no apartamento dela, encontraram o bilhete escrito para Melissa.
Concluíram que Lina fora viajar, espairecer, reflectir sobre a vida e queria distância de todos.
Luís Sérgio saiu do apartamento com um aperto no peito.
E nunca mais tivera notícias dela.
Rosana o cutucou nos braços:
- Está no mundo da lua?
Estou falando com você!
E então? Por onde anda a pilantra?
Luís Sérgio fechou a mala, apanhou uns documentos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:10 pm

- Não tenho mais nada para falar com você.
O advogado vai procurá-la para tratar do desquite.
- Já falei com papai.
Esta casa é minha.
E vou querer pensão e...
- Cale a boca! - ele vociferou.
Você terá tudo o que a lei lhe permitir.
Nem mais nem menos.
Pode ficar nesta casa.
Ela só me traz recordações tristes.
Não quero mais viver aqui - ele aproximou tanto o rosto do dela que Rosana sentiu sua respiração.
Luís Sérgio declarou com amargura:
- Desejo a sua infelicidade, pelo resto de sua vida.
Virou as costas e foi embora.
Rosana levantou o sobrolho, ajeitou o cabelo no espelho e não gostou do que viu.
Telefonou para o salão de beleza:
- Quero marcar corte e tintura dos cabelos, pé e mão.
Lina ouviu tudo e não podia acreditar.
- Ele gosta de mim!
Rosana é que foi má.
Ela distorceu tudo.
Maruska estava certa.
Passou por Rosana e deu um tapa no rosto dela.
Rosana não sentiu o tapa, mas sentiu repentina dor de cabeça.
- Essa conversa desgastante com Luís Sérgio me deu um princípio de enxaqueca.
Preciso de um comprimido e me deitar, antes de ir para o salão.
Lina saiu correndo atrás de Luís Sérgio, mas a energia na rua era densa, muito pesada.
Ela passara seis meses recebendo tratamento num posto de atendimento no astral, seu perispírito ainda estava sensível às energias pesadas do planeta.
Lina sentiu tontura, fraqueza, seus olhos embaçaram, e ela desmaiou.
Luís Sérgio saiu de casa para nunca mais voltar.
Separou--se de Rosana, esperou por Lina, mas ela não apareceu.
O tempo passou.
Como homem não é de ferro, e Luís Sérgio havia comido o pão que o diabo amassou na mão daquela mulher pavorosa, apesar de não esquecer Lina, um dia ele se deu a chance de recomeçar a vida.
Comprou um apartamento perto do parque do Ibirapuera, passou a ser adepto da corrida, muito antes de ela cair no gosto popular, e conheceu Manuela, uma jornalista, ex-aluna da Cásper Libero, ex-católica, ex-hippie, ex-presa política, ex-casada, ex-tudo.
Trabalhava na mesma revista que Melissa, escrevia sobre economia e política.
Os dois se entrosaram, engataram namoro e decidiram viver juntos.
Com a aprovação da lei do divórcio, casaram-se.
Manuela engravidou na sequência, e nasceu Amanda, uma menina linda, fofinha, que inicialmente tinha uma asma terrível, mas, com tratamento no centro espírita de Orlando e posteriormente com algumas viagens até o centrão de Neide lá em Teófilo Otoni, a menina recuperou-se completamente, tendo uma infância e adolescência normais.
Amanda cresceu grudada com o pai.
Luís Sérgio tinha adoração pela filha.
Eles gostavam de brincar e correr no parque.
Nádia era sua amiguinha.
Elas cresceram juntas e eram inseparáveis.
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