Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:19 pm

Lina estava fervendo algumas peças.
- Oi.
Ela levantou a cabeça e sorriu.
- Oi, seu Aderbal. Como vai?
- Estou bem, querida. E você?
- Terminando de ferver esses lençóis.
Depois deixo de molho e amanhã coloco no sol para ficarem mais brancos.
- Desde que horas está aqui?
- Não sei. Acho que desde que acordei.
Parei para o almoço, comi três bifes!
Ele riu. Ela prosseguiu:
- Depois voltei para cá.
- É muito tempo.
Deveria parar para descansar.
- Que nada! Estou bem. Adoro ser útil.
- É uma boa menina.
Gosto de você, viu?
- Eu também gosto do senhor.
E da dona Eugénia também.
É que ela é nervosa, né?
Ele abaixou a cabeça para não mostrar o sorriso.
Pigarreou:
- É, tem razão. Agora vamos.
Deixe o serviço e vamos jantar.
Depois você vai descansar e amanhã vai pegar mais leve no batente.
- Hã? - ela não entendeu.
- Venha, por ora.
- Sim, senhor.
Lina apagou o fogo, mexeu os lençóis e apagou a luz do barracão.
Antes, porém, apanhou uma foto e entregou a Aderbal.
- O que é isso?
- Estava caída no chão.
O fogo não apagou tudo.
Aderbal olhou para a foto e reconheceu o rosto de Eugénia.
Havia um braço que passava por trás dos ombros dela.
Mas era impossível ver quem era.
O rosto da outra pessoa havia sido consumido pelo fogo.
Aderbal mordiscou os lábios.
- Só havia esta foto?
- Também havia um papel bastante queimado, mas eu o joguei de volta na fogueira.
- Vamos para dentro.
Lina assentiu.
Afastou o tacho das brasas, lavou as mãos no tanque e seguiu Aderbal, em silêncio.
Entraram na cozinha.
Eugénia estava sentada.
- Vamos, sentem-se logo.
A canja vai esfriar.
Ele se aproximou e entregou a foto a ela.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:19 pm

- O que é isso?
- O quê?
- Essa foto. É você.
Eugénia sentiu um frio na barriga.
Engoliu em seco.
- É. Sou.
- E por que essa foto estava lá nas brasas do barracão?
- É... é que eu fui limpar o quarto de Estela e achei umas velharias.
- Foto a gente não joga fora.
- Eu não gostava dessa foto - respondeu rápida.
- Quem a estava abraçando?
- Como? - ela fez a pergunta para ter tempo de pensar.
- Quem está aí abraçado a você?
- Um vizinho lá de Uberlândia.
Aderbal ia fazer nova pergunta, mas Eugénia rebateu:
- Esta foto é coisa do passado.
Agora está na hora de tomar a canja.
Se demorar, vou ter de esquentar de novo.
Aderbal sentou-se na cadeira, ressabiado.
Eugénia respirou fundo, picotou a foto, e jogou-a no lixo.
Lina começou a falar sobre o dia agitado que tivera, e logo Aderbal esqueceu a foto.
Eugénia sentiu tremendo alívio.
Eunice não saía do quarto.
Nem por decreto.
Nem se a casa estivesse pegando fogo.
Por nada e por ninguém.
A mãe já tentara de tudo.
Trouxera padre, fizera corrente de oração com algumas senhoras da igreja, pedira encarecidamente a Deus...
Entretanto, a filha não cedia, não escutava, não queria saber de conversa.
Eunice decidira que nunca mais na vida sairia daquele quarto. Nunca mais.
Acordava pontualmente às seis da manhã, fazia a higiene, depois se arrumava, como se fosse sair para trabalhar.
Usava sempre o mesmo vestido: preto, comprido, de gola alta.
Sapatos pretos, luvas pretas e casquete preto.
Nada de maquilhagem.
- Mulher decente não usa maquilhagem - costumava ouvir do namorado.
- É verdade - disse para si.
Mulher decente não usa maquilhagem. Talvez um pouco de pó.
E um pouquinho de brilho nos lábios.
E olhe lá! Tudo bem discreto.
Depois de se vestir, ela se sentava elegantemente em uma poltrona próximo da janela.
Ali permanecia sentada durante o dia todo, mirando o infinito.
Às vezes sorria, às vezes deixava uma lágrima escapar pelo canto do olho, às vezes fitava por horas o horizonte, sem ao menos piscar os olhos.
Era impressionante. Parecia estar em transe.
A empregada levava o café, o almoço e o jantar no quarto.
Eunice comia bem pouco.
Quase nada. Já era nítida sua magreza.
O tom pálido da pele preocupava a família.
Naquela manhã, Leonor, sua mãe, perdeu a compostura.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:19 pm

Mulher educada, fina e muito elegante, estava à beira de um ataque de nervos.
Não sabia mais o que fazer.
Estava desesperada.
Entrou no quarto escuro quase aos berros:
- Assim você me mata!
Não aguento mais tanta tristeza.
Eunice permanecia imóvel na poltrona.
Sem virar o rosto, olhos fixos no nada, respondeu:
- Não tenho motivos para ser alegre.
- Eu posso arrumar vários.
Começo a elencá-los agora mesmo.
Por favor, vamos dar uma volta.
Podemos ir até o jardim, respirar um pouco de ar puro - Leonor falou e foi até a janela, empurrando as cortinas e deixando a claridade invadir o quarto.
Levantou a guilhotina da janela e uma brisa suave invadiu o ambiente.
Eunice permanecia na mesma posição.
- Não quero sair daqui.
- Só um pouco, meu bem.
- Paulo me disse que hoje vai se atrasar.
- Por favor, minha filha.
Eu não sei mais o que fazer.
Padre António já veio e disse que seu caso é sério.
Conversou com o arcebispo Dom Motta e pensam em levar seu caso para o papa.
Eunice deu de ombros.
- Deixe padre António longe disso.
Ele tem a Igreja de Santa Efigénia para cuidar.
O meu caso nada tem a ver com isso.
Leonor ia falar, mas ouviram um ranger de portas, e Solange entrou no quarto, rindo.
Aproximou-se de Eunice e beijou-lhe a testa.
- Como tem passado, irmãzinha?
- Bem.
Ela se virou para Leonor e sorriu:
- Mamãe, precisamos fazer aquilo - baixou o tom de voz.
Leonor meneou a cabeça.
- Não. Não gosto de me meter com esses assuntos.
Prefiro que padre António vá pelos caminhos do exorcismo.
Mais seguro.
- Não creio.
São quase dez anos e Eunice não sai desse estado catatónico.
Depois que passei a frequentar o centro espírita com Selma, comecei a enxergar as coisas de outra forma.
O caso de Eunice é um clássico de obsessão.
- Não gosto de ver você metida com esse tipo de assunto.
Em todo caso - Leonor considerou -, depois de saber que o local é dirigido pelo filho daquela famosa dama da sociedade, fico menos preocupada.
- Um dia vou levá-la comigo.
Vai gostar de Orlando.
Ele tem os traços bonitos do pai e o refinamento da mãe - ajuntou Solange.
E tenho certeza de que Eunice está presa a espíritos infelizes.
Leonor custava a crer.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:19 pm

- Coitada! Como pode dizer uma barbaridade dessas, Solange?
Só mesmo uma menina desmiolada como você!
- Eunice entristeceu-se sobremaneira depois da morte do Paulo.
Penetrou fundo na tristeza, alimentou a depressão e acabou entrando numa faixa de energia de afinidade com espíritos cujo teor de pensamentos é o mesmo que o dela.
Simples assim.
Leonor levou a mão ao coração.
- Isso! Perfeito!
Agora vem me dizer que, além do baque que sua irmã sofreu, ela é culpada por estar nesse estado?
É isso mesmo que está me dizendo?
Eunice ainda é culpada por estar assim?
- Não é questão de ser culpada, mas de ser responsável por ter atraído essa massa de energia densa que está ao seu redor - Solange sentiu um arrepio desagradável percorrer-lhe o corpo.
Passou as mãos pelos braços como se estivesse arrancando essas energias ruins.
Balançou a cabeça e fez mentalmente uma breve prece.
Fechou os olhos, mentalizou uma luz lilás e logo o quarto tornou-se um ambiente energeticamente menos pesado, por assim dizer.
Leonor começou a bater os dentes de raiva.
Abraçou Eunice e beijou-lhe a fronte.
- Não escute sua irmã.
Ela é muito jovem.
Não conhece a vida e, por conseguinte, fala muitas bobagens.
Além do mais, foi... - Leonor não terminou.
Solange sentiu o sangue subir.
- Quer me desestabilizar.
Quer dizer que, só porque Luís Sérgio me dispensou, eu fiquei biruta?
É isso?
Leonor continuou quieta.
Solange fez um esforço hercúleo para não cair no desequilíbrio.
Fechou os olhos e pediu mentalmente ajuda espiritual.
Precisava pensar no bem-estar de Eunice.
Era o que importava no momento.
Leonor deu de ombros e continuou:
- Você vai ficar boa.
Vou pedir para o padre António rezar nova missa em nome do Paulo e sua família.
Tudo vai melhorar.
Em seguida, passou por Solange e a puxou pelo braço.
- Venha comigo, mocinha.
Perturbou demais a sua irmã.
Agora trate de deixá-la em paz.
Solange balançou a cabeça para os lados.
Respirou fundo, beijou Eunice e sussurrou em seu ouvido:
- Você não pode me escutar, mas seu espírito pode.
Deixe de se apegar às ilusões e aceite a verdade.
A verdade dói, mas cura.
Você tem muita coisa boa para viver.
Eu estarei ao seu lado, sempre.
Abraçou-a com carinho e saiu.
Eunice sentiu um pequeno tremor pelo corpo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 22, 2016 8:20 pm

Por um instante, seus olhos faiscaram e um brilho se fez.
Mas logo sumiu e ela voltou ao estado de sempre.
Um espírito que estava bem próximo, energeticamente ligado a ela, sorria satisfeito:
- Isso mesmo, querida. Nada de ceder.
Você é minha e vai definhar até morrer e voltar para o lado de cá.
Não vai demorar muito...
Na sala, Leonor tinha ímpetos de dar uns sopapos na filha.
- Hoje você foi longe demais, Solange.
Longe demais!
- Por quê, mamãe? Só quero ajudar.
Eunice está perdendo as energias vitais.
Logo seu corpo físico não vai resistir e ela poderá desencarnar.
Isso eu não vou permitir.
- Desencarnar... Palavra mais aviltante!
Não permito que use essas expressões vulgares na minha santa casa.
- Não são vulgares. São espíritas.
Leonor levou a mão à boca.
- Dê graças a Deus que seu pai não está mais entre nós.
Quanta decepção, Solange.
Como você pôde se transformar numa jovenzinha tão petulante e doidivanas?
Ione, a empregada, entrou com uma bandeja.
- Dona Leonor, aqui está o chá.
Também trouxe alguns petiscos.
- Não teremos almoço hoje? - indagou Solange.
Ione fez uma negativa com a cabeça enquanto Solange dizia:
- Sei. Mamãe fica preocupada com o meu interesse pelo espiritismo enquanto estamos sem dinheiro para comprar comida.
É isso mesmo?
Leonor ruborizou, Ione rebateu:
- Seu irmão está tentando arrumar um empréstimo e...
Leonor a censurou:
- Não diga mais nada, Ione.
- Sim, senhora.
Com licença. Voltarei para a cozinha.
Se precisarem, é só chamar.
Ione saiu e encostou a porta da saleta.
Solange acomodou-se no sofá.
- Então nossa situação está pior do que eu imaginava.
- Não... não é bem assim.
- Como não, mamãe?
Estamos sem nada.
Leonor levou as mãos ao rosto e sentou-se no sofá.
As lágrimas corriam insopitáveis.
Solange aproximou-se e abraçou-a:
- Não se desespere, mamãe.
- Como não?
- Não fique assim. Tudo se resolve.
- Como? Perdemos tudo.
Absolutamente tudo.
Seu pai morreu e nos deixou atolados em dívidas e mais dívidas.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 8:59 pm

- Temos nossa casa, alguns imóveis.
Poderemos vendê-los e...
Leonor a cortou:
- Não, filhinha.
Preciso lhe contar a verdade.
Os imóveis foram tomados pela Justiça.
Este aqui deverá ser entregue logo.
Seu irmão saiu hoje cedo para negociar o prazo de entrega e de nossa saída do imóvel.
Não temos para onde ir.
O menos pior é que Daniel terminou a faculdade, vai fazer uma prova no Banco do Brasil, e você concluiu o normal.
- Viu? Posso ser professora.
Daniel poderá ser funcionário público.
Vamos nos manter.
- E o padrão que tínhamos?
- De que vale, mamãe?
O que importa é estarmos unidos, juntos.
Nunca liguei para a sociedade e seus valores superficiais.
Onde estão suas amigas?
Só sobraram as beatas lá da igreja, mais por pena que por amizade.
Leonor limpou as lágrimas com um lencinho de renda.
Fungou delicadamente e respondeu:
- Percebi, tarde demais, que não tenho amigas de verdade.
Quando descobriram que perdemos tudo, todas desapareceram.
Outro dia estava com Ione na rua, e duas fingiram não nos ver.
Antes, corriam para me abraçar.
- Não ligue para essas pessoas.
Elas não trazem nada de bom para sua vida.
- É verdade. Contudo, estou preocupada com sua irmã.
Essa nossa mudança...
Como vamos tirar Eunice daqui?
Como vai reagir a tanto movimento?
Ela vai ter de sair daquele quarto.
- Esse é um assunto que a senhora precisa deixar sob minha responsabilidade.
- Você falou em espiritismo.
Nossa vida anda tão complicada, Solange.
Não me venha com mais problemas, filha.
- Não, mãe. Eu não venho com problemas.
Eu vou trazer a solução! - respondeu, com um sorriso enigmático.
- Tenho medo.
- Sei disso. Tudo o que desconhecemos nos causa certo receio.
É natural. Digamos, por hipótese, que a vida continue após a morte.
O que a senhora acha disso?
- Bom, fui criada para acreditar que morremos e acabou.
Vem algo na minha cabeça de catecismo... se fui boa vou para o céu, se fui má vou para o inferno.
Solange deu uma risadinha e segurou nas mãos de Leonor.
- Qual é o seu conceito de bom e ruim?
- Acho que, quando você é uma boa pessoa, faz o bem para os outros, ajuda na igreja, então vai para o céu.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 8:59 pm

- E se não agiu de acordo com o que a sociedade exige, vai para o inferno.
Seria isso? - complementou Solange.
- Mais ou menos isso. Penso dessa forma.
- A vida não funciona assim, mamãe.
- Não?
- Não dessa forma.
- O padre disse.
- Lamento informar, mas não é assim.
A vida é perfeita, é Deus em acção.
Tudo acontece para o nosso melhor.
- Mesmo uma situação ruim?
Olhe o que está acontecendo connosco.
- Sim. Às vezes, passamos por uma situação desagradável para despertar os potenciais do nosso espírito que estão sem uso.
Quando não usamos a nossa força, a vida cria situações para que sejamos forçados a usá-la.
- Não entendi.
Solange franziu o cenho.
Seu semblante tornou-se mais firme.
Ela estava séria, mas falava com amabilidade.
- A senhora é um espírito que reencarnou repleto de aptidões, habilidades diversas.
É uma mulher cheia de potenciais, gostos e virtudes.
É determinada, tem poder de escolha.
Passou a maior parte da vida sob as asas do papai, deixando que ele decidisse tudo, tomasse todas as decisões.
Nunca deu palpite, nunca pôde decidir, escolher, fazer nada que lhe agradasse.
Ele sempre vinha em primeiro lugar.
- Fui criada dessa forma.
O homem sempre deve vir em primeiro lugar.
Aliás, os outros devem vir em primeiro lugar.
Depois, posso pensar em mim.
- A vida quer que você se coloque em primeiro lugar.
Se agir assim, vai se valorizar e tudo o que estiver ligado a você será valorizado:
suas coisas, seu trabalho, sua vida em geral.
Quando nos colocamos em primeiro lugar, estamos dando sinal claro à vida de que merecemos ser valorizados e, naturalmente, tudo começa a crescer ao nosso redor: as nossas conquistas, o nosso dinheiro, o nosso prestígio, a nossa inteligência, a nossa perspicácia, o nosso grau de conhecimento, de inteligência, de bondade, a nossa tolerância...
Tudo o que for bom cresce de maneira exponencial em nossa vida.
E obviamente nos tornamos pessoas melhores e nos relacionamos de maneira melhor com os outros.
- E?
- E isso é contagiante, mamãe! - revidou Solange, empolgada.
Porque os outros se beneficiam, absorvem essa energia e também passam a se comportar dessa forma.
É um elo de prosperidade cósmica que se forma no mundo.
Por isso determinados lugares do planeta são mais bem desenvolvidos do que outros, porque há um padrão de pensamento de que o bom e o melhor devem ser valorizados em detrimento do ruim e do pobre.
Leonor sentiu agradável sensação de bem-estar.
- De onde tirou essas palavras?
- Tenho aprendido por meio de livros de cunho espiritualista.
Sabe, um tempo depois de papai ter morrido, senti uma tristeza muito grande, e uma amiga minha, a Selma, me levou até o centro espírita que ela frequenta.
- E você se sentiu bem lá?...
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:00 pm

Leonor não terminou de falar.
- Sim. Me senti. Fui bem acolhida.
Conversei com um rapaz que me deu orientação, me disse umas palavras carinhosas e me levou até uma sala de passes.
Depois ouvi uma palestra, ganhei um livro, e tudo começou a mudar na minha vida.
- Percebi que você tem aceitado essa mudança brusca de nossa vida de maneira assustadoramente natural.
Pensei que fosse rebelar-se.
Estava esperando o momento da revolta.
- Não. Eu entendi que nada é por acaso.
Se quer saber, o dinheiro não era meu. Era do papai.
Foi ele quem construiu a fortuna e foi ele quem a deixou escorrer pelo ralo.
Cabe a mim, ao Daniel e a Eunice encontrarmos o nosso ideal, a nossa vocação, e seguirmos a vida com nossas próprias pernas.
- Eunice será eternamente dependente de nós.
Sua irmã teve uma vida errada.
Deu um mau passo no passado, envolveu-se com dois homens errados.
Olhe no que deu.
Está perdida para sempre.
- Para sempre é muito tempo, mamãe.
Eunice ainda vai sair dessa.
- Não acredito.
Daqui a pouco completam dez anos que seu pai morreu, e ela continua assim.
- Calma. Dê tempo ao tempo.
Solange beijou a mão de Leonor.
Serviu-lhe uma xícara de chá.
Depois saiu da sala, foi até o quarto e apanhou o livro.
Trouxe-o e o entregou à mãe.
- Creio que está na hora de começar a ler, mamãe.
Tome o tempo que quiser.
Tenho certeza de que a senhora vai gostar muito mais desse do que o outro, de Amy Vanderbilt.
Leonor riu.
Apanhou o exemplar e exalou profundo suspiro de contrariedade ao ler o título:
O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.
Alguns dias depois, deitados na cama, antes de apagar o abajur, Aderbal considerou:
- Vamos trazer Lina para o quarto de Estela.
Até quando essa mocinha vai dormir na sala?
- Não sei, mas no quarto de Estela ela não fica.
- Por que tanta birra?
- Não é birra - Eugénia levou a mão ao peito.
É o quarto da minha filha.
Não posso colocar uma estranha para dormir lá.
- Sei, querida.
Era o quarto de nossa filha - corrigiu.
Não é mais.
- Sempre será.
- Precisamos olhar para a frente.
Sei que é triste não ter mais nossa Estela aqui connosco, contudo, de que adianta manter o quarto intocável?
- Para eu me lembrar.
- A gente lembra com isso - apontou para a cabeça.
E também com o coração.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:00 pm

Eugénia respirou fundo:
- Está certo.
Melissa virá passar o feriado de Páscoa.
Vai dormir no quarto de Estela.
- Ela poderá dividir o quarto com Lina.
- Nem pensar!
Minha afilhada precisa de privacidade.
O lugar dessa menina - fez um gesto vago com a mão - é lá fora.
Ela não é nossa filha, não é parente.
- Mas...
- Por favor, Aderbal - ela o cortou, secamente.
Não quero me exasperar com você.
E, de mais a mais, quem me diz que essa menina vai ficar aqui por muito tempo?
- Já disse que pretendo adoptá-la.
- Nem passando por cima do meu cadáver. Nunca!
- Por quê?
- Não quero.
Tenho esse direito, não?
- Ela precisa de certidão, precisa de documentos.
- Fale com o Hermes, do cartório.
Ele pode entrar em contacto com o cartório da cidade dela.
E, qualquer problema, é só dar a ela um registo de nascimento.
Coisa simples.
Não precisamos chegar à adopção para essa menina ter uma certidão.
- Eu queria tanto - ele suspirou.
- Vai continuar querendo.
Eu não tenho que engolir uma filha postiça nesta altura da vida.
Estamos ficando velhos.
- É remorso.
Eugénia coçou a cabeça, pensativa.
- Tudo o que você me contou... é verdade mesmo?
Não tem fantasia aí na cabeça?
- De forma alguma.
Eu acompanhei praticamente tudo.
Você não pediu para eu averiguar, seguir, ir atrás...
Eugénia deu de ombros e mudou de assunto:
- Chega, Aderbal. Hora de dormir.
- Está bem, você é quem sabe.
Mas pense no quarto.
- Não. Já disse.
O quarto só será usado por Melissa, quando ela vier.
Se preferir, já que o remorso o está corroendo, construa um quartinho para Lina ao lado do barracão.
No quarto de Estela, não.
A voz de Eugénia saíra praticamente esganiçada.
No fundo, ela até queria que o quarto fosse habitado.
O medo de sofrer era maior.
Lutou para não dizer sim e dar razão ao marido.
Aderbal sabia ser impossível convencer Eugénia, por ora.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:00 pm

Talvez construir um quartinho com um banheiro para Lina não fosse má ideia.
O quintal era grande, depois havia o cercado que dava para as plantações da horta e do pomar.
Se diminuísse um pouco o galinheiro...
Bom, amanhã pensarei no que fazer.
Pensando nisso, Aderbal beijou Eugénia no rosto, virou-se de lado, disse um boa-noite e adormeceu, sentindo um peso menor no coração.
Eugénia demorou para conciliar o sono.
Seu instinto maternal queria correr e abraçar Lina, enchê-la de carinhos, beijos e outros mimos.
Desejava ensinar Lina a escovar os cabelos cem vezes de cada lado, como aprendera e ensinara a Estela.
Entretanto, a razão também queria se fazer valer.
Era uma voz soturna, autoritária.
Dizia que ela iria sofrer de novo, que Lina logo chegaria à idade adulta e iria embora:
- Você vai ficar velha, e ela vai partir.
Para que dar amor?
Outra voz, mais doce, afirmava com convicção:
- Lina não é Estela e jamais vai substituir sua filha.
Aproveite este presente da vida, deixe o amor represado de mãe fluir novamente.
Esqueça a sua mente. Ouça seu coração.
Ele tem voz. Eu sou a voz do seu coração.
Eugénia deu mais atenção a esta segunda voz.
Fechou os olhos e fez uma sentida prece.
Logo adormeceu e, mesmo sentindo uma pontinha de remorso, deixou-se embalar por doces sonhos.
Lina deitou-se na caminha improvisada.
Fez uma oração que aprendera com dona Bibiana.
Do seu jeitinho, pediu pela alma dos pais, dos irmãos e mandou um beijo para dona Bibiana.
Cansada de tanto lavar e quarar roupa, dormiu rápido.
Sonhou que estava em um jardim bem florido, bonito e perfumado.
Ela olhava para seu corpo e via logo atrás um cordão acinzentado que saía de sua nuca e perdia-se de vista.
Ela achou graça e caminhou pelas alamedas repletas de flores perfumadas.
Fechou os olhos, aspirou o ar perfumado.
Ouviu uma voz atrás de si:
- Oi, Lina. Como está?
Ela se virou e sorriu.
- Eu conheço você? Seu rosto me é tão familiar!
- Sim, conhece.
De outras experiências no mundo terreno.
A mulher, bonita e de traços delicados, abraçou-a e beijou-lhe a testa.
- Como você se chama?
- Maruska.
- Maruska - ela repetiu e ficou pensativa.
Seu rosto e seu nome... eu me lembro vagamente.
- Fomos muito ligadas em outras vidas.
- Não me lembro.
- A reencarnação apaga as memórias passadas.
- Sinto algo bom quando estou perto de você.
Maruska passou delicadamente os dedos sobre a franja de Lina.
- É amor. As lembranças podem ser apagadas a cada nova encarnação, mas o sentimento de amor permanece, para sempre.
Lina, instintivamente, abraçou-a.
Maruska sentiu uma grande emoção.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:00 pm

Ficaram abraçadas por um bom tempo, e Lina, depois do abraço carinhoso, perguntou:
- O que fomos?
- Isso não vem ao caso, por ora - desconversou Maruska.
O importante é que você está viva, cheia de novas experiências, livre para decidir o seu destino.
Lina se entristeceu.
- Viva? Passar por tudo isso tão jovem?
Nasci na miséria, até o momento tive uma vida cheia de privações e tive de matar para continuar viva.
- Não era necessário.
Contudo, seu espírito, guerreiro, ainda acredita que precisa fazer justiça.
É um mecanismo que está ligado no automático.
Aos poucos, por meio de algumas encarnações seguidas, vai se libertando dos valores rígidos e extremistas, ajudando o espírito a quebrar a ilusão.
- De que adianta?
Isso só machuca.
- Este é o objectivo!
A ilusão provoca dor porque mostra que você está agredindo a sua própria natureza, entende?
Quando compreender que não precisa mais fazer justiça, sairá desse patamar denso de energia para um mais subtil, rumo a uma evolução mais sadia.
Fique sossegada porque tudo é vivência, nada está errado.
- Não penso que estou errada.
Só não estou mais gostando de ser assim.
- Isso é bom.
Mostra que seu espírito está pronto para dar novo salto de consciência.
Para que sofrer se tem a inteligência, não é mesmo?
- Quando eu gosto, faço tudo pela pessoa, você bem sabe.
Já quando não gosto...
- Chega de extremos.
Só levam o indivíduo a sentir dor e remorso.
O melhor é ligar-se com o coração.
Se não gosta, não tenha amizade, não conviva, solte, liberte-se da pessoa.
- Falar é tão fácil.
- Porque é fácil.
Você é quem complica, porque deixa a cabeça interferir com um monte de pensamentos negativos - Maruska passou delicadamente a mão sobre os cabelos de Lina.
Importa que agora está vivendo uma nova fase.
- Dona Eugénia não gosta de mim - Lina retrucou.
- Não se trata de gostar ou não.
Eugénia precisou passar por difíceis provas.
Seu espírito anda amargurado, mas logo vai passar, e ela vai olhar para você de outra maneira.
- Outra maneira?
- É. Mais amorosa.
A vida sabe o que fazer para nos arrancar das amarras da tristeza.
Eugénia precisa reagir.
Você pode ser o remédio de que ela tanto precisa para voltar a ser feliz.
- Será?
- Continue agindo com naturalidade.
Não perca a cabeça, não se irrite, não entre na sintonia negativa dos outros.
Aprenda a perdoar.
- Eu vivo de bem com a vida.
Se notar, verá que eu lido muito bem com o jeito seco da dona Eugénia.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:00 pm

- Não me refiro a Eugénia.
- Não?
Maruska fez uma negativa com a cabeça.
- Ivan e Anna decidiram regressar ao mundo, prontos para nova encarnação.
- Como?
Maruska sorriu.
- Feche os olhos.
Lina os fechou.
Maruska colocou suavemente a palma da mão sobre a testa da menina.
- Lembra-se agora?
As cenas vieram de maneira rápida.
Lina via-se em outros trajes, com outras características físicas.
Estava na frente do que deveria ser um palacete.
Ao lado dela havia um homem com uma tocha nas mãos.
O fogo era incontrolável.
As labaredas lambiam e engoliam as paredes e ele parecia estático, enquanto uma moça, lá dentro, gritava por socorro.
Lina abriu os olhos e sua respiração oscilou.
- Meu Deus! Foi terrível o que aconteceu!
- Eu sei. Nós sabemos.
- Eu a vi queimar viva. Eu deixei.
Não fiz nada - Lina levou as mãos ao rosto, num gesto de desespero.
- Não fique assim - tornou Maruska.
Não se torture mais pelo passado.
O que passou, passou.
- Não consigo. Eu só vou melhorar no dia em que passar por isso.
- Não deseje isso, Lina. Não precisa.
Você tem inteligência suficiente para superar esse triste acontecimento de outra forma.
Há maneiras bem menos doloridas de enfrentar o problema.
- Prefiro à moda antiga.
- Sabe que não precisa.
- Anna não me perdoou.
- Quem sabe, agora, em nova etapa, vocês encontrem uma maneira de passar uma borracha sobre os desatinos e seguirem com o coração em paz?
- Fui fraca. Deixei-me enganar.
Caí na conversa dos outros.
Quis atrapalhar a vida dela.
- O seu espírito aprendeu a se escutar, meu amor.
É bom dar ouvido aos comentários dos outros, desde que sejam positivos e nos elevem a alma.
No entanto, escutar palpites negativos e dar trela a comentários mesquinhos e maledicentes atrapalha o nosso raciocínio, distorce o nosso senso de justiça, e enveredamos por um caminho tortuoso e dolorido.
- E como foi dolorido!
- Importa que aprendeu, mesmo que pela mão pesada da dor. Anna também está diferente.
- Ela era minha irmã.
Não nos dávamos bem, mas era minha irmã.
- O tempo agora é outro.
Você gostaria de se aproximar dela, para aliviar a consciência?
- Adoraria.
- Óptimo - tornou Maruska, animada.
Nem que seja por pouco tempo?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:01 pm

- Sim. Mas não sei se vou conseguir.
- Você pediu para nascer longe da Europa.
Queria viver do outro lado do mundo, longe de todos que conhecera.
Entretanto, seu pedido só foi atendido desde que outras duas pessoas estivessem por perto.
Anna seria uma delas.
- E a outra?
- Não gostaria de revelar-lhe agora.
- Não minta para mim, Maruska.
- Não se atormente.
Tudo ocorre no tempo certo.
- Meu espírito não me engana.
Sinto que Ivan deverá voltar, não?
Maruska fez sinal afirmativo com a cabeça.
Lina sentiu o estômago contrair-se.
Levou a mão ao peito.
- Meu Deus!
Eu fiz toda aquela crueldade porque quis ter Ivan para mim, na marra.
- Será? Foi isso mesmo?
- Foi. Claro que foi - afirmou convicta.
A paixão cega fez eu cometer aquela loucura.
- Por isso, os três precisam se reencontrar.
Nem que seja por pouco tempo.
- Para quê? Para sofrer?
Rasgar a cicatriz e abrir nova ferida?
- Enquanto você não superar esse sentimento de animosidade, terá de reencontrá-los.
Lina suspirou, resignada.
- Tem razão.
Eu voltei para vencer meus medos e superar minha inflexibilidade.
- Isso mesmo! Chega de ser a justiceira!
O que interessa é que você passou por situações bem desagradáveis e as superou.
O caminho a percorrer ainda é árduo, mas haverá compensações bem positivas.
Não se esqueça de que estou ao seu lado.
- Obrigada - agradeceu Lina, abraçando-a.
Aos poucos, recordo-me de você.
Eu a conheci no astral, em um posto de socorro, certo?
- Sim - Maruska mentiu, pois não precisava, naquele momento, confundir a cabecinha de Lina.
Depois do seu desencarne, a nossa amizade aqui no astral se fortaleceu e eu a ajudei a preparar-se para retornar.
- Você é meu anjo da guarda?
Maruska abriu um lindo sorriso.
- Não. Sou um espírito que tem muito o que aprender.
Ocorre que, do lado de cá da vida, tudo é mais fácil de ser analisado e compreendido.
O pensamento é uma arma poderosa, tanto para construir quanto para destruir.
Nesta dimensão onde estou, a força do pensamento move tudo, para o bem ou para o mal.
Estou tentando me firmar no bem.
Sou aprendiz de anjo da guarda.
Lina riu.
- Você me faz muito bem.
- Por isso a trouxe até aqui.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:01 pm

- Os meus pais desta vida estão bem?
- Um pouco perturbados, mas seguem em tratamento.
Seus irmãos também estão bem.
Logo, todos eles vão retornar ao planeta.
- Tão rápido?
- É. Vocês não vão se reencontrar.
Eles têm outros objectivos de vida.
Vão reencarnar em outro país.
- Eu me sinto insegura.
- Não tenha medo.
Acabou de ganhar um lar.
Ainda vai viver um tempo com esta família que a acolheu.
Mais à frente, seguirá seu caminho, respeitando os anseios de sua alma.
Precisa aprender a dar valor ao que sente e não ao que escuta.
- Não entendi.
- Você nunca escutou a voz do coração aliada à inteligência.
Sempre agiu de maneira impulsiva, extremista, e os resultados não foram os melhores.
Haverá um tempo em que precisará passar por experiências que ajudem você a não dar ouvido aos outros e entregar a justiça nas mãos de Deus.
- Aqui eu me sinto mais inteligente, mais forte.
- E mais lúcida - emendou Maruska.
O ambiente do mundo astral não tem o peso do mundo terreno.
Logo, as percepções aqui são mais subtis e aguçadas.
Agora você precisa voltar ao corpo.
Já vai amanhecer.
- Eu queria ficar aqui ao seu lado para sempre.
Maruska a abraçou com carinho.
- Eu também adoraria.
É por pouco tempo.
A vida na Terra corre rápida e, num piscar de olhos, você estará de volta, mais forte, mais segura e mais lúcida.
- Só tenho uma pergunta.
- Pois faça.
- Anna e Ivan vão voltar quando?
- Eles já voltaram.
Lina susteve a respiração.
- Já?! - indagou, incrédula.
- Não ligue para isso.
Alimente seu espírito com vibrações positivas e saiba que tudo acontece para o melhor.
Confie na sabedoria da vida.
Lina fez sim com a cabeça e acalmou-se.
Abraçaram-se de novo e Maruska disse:
- Ya tebya lyublyu.
Sem perceber que havia compreendido a frase em russo, Lina respondeu:
- Eu também a amo.
Lina despertou com um sorriso maroto no canto dos lábios.
Abriu os olhos e, embora não lembrasse patavina do encontro com Maruska, sentiu um bem-estar indescritível.
Levantou-se, dobrou os lençóis e o colchonete.
Arrumou a sala e foi até a cozinha.
Eugénia e Aderbal ainda dormiam.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:01 pm

Ela consultou o relógio cuco na parede do corredor.
Não eram seis da manhã, mas o sol mostrava timidamente a cara.
Fez o café, esquentou o leite e arrumou a mesa.
Eugénia entrou na cozinha.
- O que é isso?
Lina aproximou-se.
- Bom dia, dona Eugénia.
Fiz o café e esquentei o leite.
Não sei onde a senhora guarda as broas de milho e os pães.
A manteiga, eu achei.
Antes de Eugénia dizer alguma coisa, Lina beijou-a no rosto.
- Estou muito feliz aqui.
A senhora é como uma mãe para mim.
A frase, dita de maneira espontânea, pegou Eugénia de surpresa.
Ela tentou conter a emoção, embora uma lágrima insistisse em descer pelo canto do olho.
- Ora, menina, quem mandou fazer o café?
Poderia se queimar no fogão.
Lina deu de ombros.
- Ontem passei o dia lavando e fervendo roupas.
Estou acostumada. Sente-se, por favor.
- As broas e os pãezinhos estão ali - apontou para um armário.
Aderbal gosta que esquente os pães no forno.
- Sim, senhora.
Lina pegou a travessa com as broas e colocou-a sobre a mesa.
Em seguida, apanhou um pote com pãezinhos, deitou-os sobre uma bandeja e colocou-a no forno.
Aderbal entrou na cozinha.
- Bom dia.
- Bom dia - respondeu Eugénia.
- Olá, seu Aderbal. Dormiu bem?
- Muito bem, mocinha. Muito bem.
- Eu também.
Tive um sonho lindo.
- Conte-me - ele pediu, enquanto se sentava à mesa.
- Não me recordo.
- Como pode dizer que foi lindo se não se recorda?
- questionou Eugénia.
- Só me lembro do rosto bonito de uma mulher.
Não me recordo do que conversamos.
Foi lindo porque acordei bem, feliz, como há muito tempo não acordava.
Aderbal considerou:
- Hoje vou visitar meu amigo Hermes.
Vou ao cartório para ver seus documentos, Lina.
- Preciso ter documento?
Aderbal riu.
- Claro! Saiba que, pelo facto de não ter certidão de nascimento, você não existe.
- Eu existo! - ela exclamou, convicta. Apalpou-se.
- Veja, estou aqui.
Até Eugénia esboçou um sorriso.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:01 pm

Aderbal tentou explicar:
- Você existe, obviamente.
Legalmente, não existe.
Ela não entendeu.
Eugénia interveio:
- O negócio é que você precisa desse papel para frequentar uma escola, viajar, trabalhar, casar, entende?
- Acho que sim.
- Tenho uma entrega grande para fazer e um conserto de pia - tornou Aderbal.
Depois do almoço, dou uma passadinha no cartório.
Aos poucos tudo vai se acertando.
- Quer dizer que eu posso continuar aqui com vocês?
- Pode.
Lina virou o rosto para Eugénia.
- Tudo bem, dona Eugénia?
Eu posso ficar na sua casa?
Ela fez sim com a cabeça.
Aderbal levantou-se.
- Pois bem.
Vou falar com o Marcondes da loja de materiais e saber quanto vamos gastar.
Quero levantar o quartinho de Lina o quanto antes.
- Um quarto só para mim?
De verdade?
- Sim. Um quarto e um banheiro.
Só para você.
Vai ficar uma graça! - Aderbal encostou os dedos na orelha.
Lina gostou do gesto e o repetiu.
- Vai ficar uma graça!
Ele se despediu e saiu.
Eugénia começou a tirar a mesa, e Lina foi para o barracão lavar roupas.
Eugénia a observou até sumir no barracão.
Lembrou--se de Estela.
- Filha, se você estivesse aqui, eu até poderia criar essa mocinha.
Uma voz agradável se fez ouvir.
Eugénia acreditava estar escutando os próprios pensamentos.
- Justamente pelo facto de Estela não estar aqui é que você precisa criá-la.
Lina veio para alegrar seu coração.
Não dê força ao orgulho.
Estela está em outra dimensão, vivendo outras experiências.
Um dia vão se reencontrar e poderão traçar outros planos para viverem próximas.
Por agora, concentre-se em Lina.
Você prometeu que a ajudaria.
Não se recorda?
Obviamente que Eugénia não se recordava.
Mas naquele momento sentiu um calor brotar do peito.
Fez intimamente uma prece dirigida à filha.
Depois, viu Lina estender roupas no varal e sorriu.
Eram mais de seis horas quando Aderbal encostou a caminhonete na porta de casa.
Desceu e foi directo ao barracão.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:02 pm

- Oi, Lina.
- Já voltou, seu Aderbal?
- Passa das seis.
Ela deslizou as costas da mão sobre a testa.
- Nossa! Eu nem vi o tempo passar.
- Almoçou?
- Hum, hum. Dona Eugénia me serviu.
Depois eu a ajudei a lavar a louça e voltei para o barracão.
Veja - ela apontou as roupas - estão praticamente prontas para passar.
- Amanhã você faz isso.
- O senhor é quem sabe.
- Agora vamos entrar. Precisamos conversar.
- Algum problema?
- Não. Nada grave.
Lina apanhou as roupas no varal.
Dobrou-as e ajeitou-as sobre uma mesa.
Seguiu Aderbal.
Entraram pela cozinha, Eugénia preparava o jantar.
- Voltou tarde.
- Demorei com as entregas, depois o conserto da pia não era tão fácil como imaginava.
Daí passei no Marcondes - justificou-se.
Semana que vem ele vai mandar areia, cimento e tijolos.
Contratei o Sílvio, filho do Moacir, para me ajudar a levantar o cómodo.
Ele também entende de encanamentos.
Disse que faremos o quarto mais o banheiro rapidinho - e, voltando-se para Lina:
- Você já pensou na cor das paredes do seu quarto?
- Cor?
- É. Que cor você quer nas paredes?
Ela fez um gesto gracioso, pousando o indicador no queixo.
- Hum, eu gosto de azul. Bem clarinho.
- Azul? - contestou Eugénia.
É cor de menino!
Tem que pintar o quarto dela de amarelinho, verde ou cor-de-rosa.
- Gosto de azul.
- O quarto vai ser azul - garantiu Aderbal.
Lina sorriu e o abraçou.
Em seguida, correu até Eugénia e lhe deu um beijo no rosto, pegando-a de surpresa.
- Obrigada.
Não sei como vou retribuir tanto carinho.
- Continue sendo essa garota adorável.
Não deixe que o tempo e as circunstâncias abalem a sua essência.
Você tem o coração puro - Aderbal falou e foi se trocar.
Eugénia passou os dedos sobre a bochecha.
O beijo de Lina a fez se lembrar de Estela.
“Meu bebé, quanta saudade, pensou, enquanto acompanhava Lina com os olhos marejados.
Ao chegar ao centro espírita, Solange encontrou Selma no jardim que ladeava a entrada.
Cumprimentaram-se, e Selma considerou:
- Orlando deseja falar-lhe no fim da reunião.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:02 pm

- Algo importante?
- Sim. É sobre Eunice.
- Que bom! Fico aliviada.
Daniel conseguiu estender o prazo de entrega da casa, mas temos só um mês.
- E já conseguiram alugar outra casa?
Solange abriu largo sorriso:
- Nem te conto!
Parece coisa de radionovela!
- Mesmo? O que foi?
- Daniel estava arrumando uns papéis lá em casa, vendo o que mais havia de dívidas para pagar e tudo.
De repente, não é que encontrou a escritura de uma casa que não foi pega pela Justiça?
- Como assim?
- Uma casa que meu pai recebeu como forma de pagamento.
Não sei ao certo.
Mas ele registou essa casa no nome de Daniel, em meu nome e no nome de Eunice.
Embora possamos, eventualmente, ter problemas legais, levaria muitos anos para que algo ruim pudesse nos acontecer, entende?
Temos condições de lutar e manter essa casa.
E, de mais a mais, é o único bem que temos.
A Justiça não pode nos colocar no olho da rua.
- Isso é muito bom, menina.
E em que bairro fica?
- Fica em outra cidade.
Na verdade, em outro Estado!
- Onde fica essa casa?
- Em Teófilo Otoni, Minas Gerais - respondeu Solange, com um sorriso encantador, mostrando os dentes alvos e perfeitamente enfileirados.
No fim da reunião, Orlando chamou Solange para uma conversa reservada.
Selma fez sinal para ir embora, e ele a chamou:
- Por favor, Selma, não vá.
Pode ficar.
- Eu?
- Sim. Precisaremos de sua ajuda.
Orlando as conduziu até uma saleta ali mesmo no centro.
Era fim de tarde, o sol estava se pondo, e algumas pessoas começavam a chegar para os trabalhos da noite.
A saleta era confortável, porém simples.
Havia uma poltrona, uma escrivaninha, duas cadeiras e uma estante com muitos livros.
Ele fez sinal, e as moças sentaram-se nas cadeiras.
Orlando sentou-se na poltrona.
Ele era um homem alto, elegante, bonito, voz grave.
Tinha uns trinta e poucos anos de idade e nunca se casara.
Era um homem reservado, que se dedicava com afinco aos estudos de Kardec e da mediunidade.
Selma o olhava com admiração e com uma pontinha de desejo.
Ela estava com dezanove anos, havia terminado o curso normal e começaria a dar aulas numa escola ali perto.
Vinha de uma família classe média.
Ela tinha olhos verdes, grandes e expressivos.
A sua sensibilidade tinha despertado havia dois anos, e sua família frequentava o centro amiúde.
Ela sorriu para Orlando:
- O que tem a nos dizer?
- É sobre minha irmã, não é?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:02 pm

Solange estava um pouco ansiosa.
Era uma moça bonita.
Os olhos eram amendoados, os cabelos desciam até os ombros, cortados à moda.
Vestia-se com apuro e era naturalmente elegante.
Sentia por Selma profundo carinho.
Orlando olhou-a firme e declarou:
- Sim. Contudo, você precisa nos ajudar.
Não pode ficar ansiosa, tampouco sentir medo.
- Confesso que, às vezes, sinto uma opressão, um peso quando estou no quarto de Eunice.
Mas é só no quarto dela.
- São as energias que a circundam - tornou Selma, voz levemente alterada.
Eunice entrou em estado profundo de tristeza e tem atraído uma horda de espíritos tão tristes quanto ela.
- Por acaso - essa era uma pergunta que Solange há muito desejava fazer - o espírito de Paulo está preso a ela?
- De certa forma - respondeu Orlando.
Paulo não está com Eunice.
Depois que morreu, o espírito dele entrou em profundo estado de desequilíbrio, mas num estado tão profundo de perturbação que até o momento não nos foi possível chegar perto para auxiliá-lo.
- E, cabe ressaltar - acrescentou Selma - as irmãs dele estão em profundo estado de ira.
Elas não o perdoam.
E isso dificulta o trabalho de amigos espirituais que tentam ajudá-los no astral inferior.
- E a mãe dele?
- Dona Benedita recebeu auxílio e actualmente vive com parentes em Nosso Lar.
Está em tratamento ainda.
Embora tenham se passado dez anos aqui no nosso tempo, ela ainda sente um pouco das perturbações.
Logo estará melhor e poderá ajudar seus filhos a encontrarem a paz e se prepararem para um novo ciclo reencarnatório.
- Terão de reencarnar juntos? - quis saber Solange.
- Provavelmente.
- É muito sofrimento.
Imagino o que viverão!
- Não pense dessa forma.
Cada dor e cada sofrimento tem sua razão de ser na justiça mais que perfeita de Deus.
Não se esqueça de que cada erro é um aprendizado e, a cada desafio enfrentado, ganhamos experiência.
Instintivamente, Solange fez o sinal da cruz.
- Isso, meu bem - Selma fez sim com a cabeça - ore por eles.
Não os condene. Principalmente Paulo.
Não nos cabe julgar, afinal, não sabemos o porquê de ter tomado atitude tão desesperadora.
Quando isso acontece no mundo terreno, em vez de ficarmos ligados ao drama e à tragédia, precisamos nos ligar em orações e pedir paz para os envolvidos.
Afinal de contas, cada um é responsável por si e terá, mais dia, menos dia, de arcar com o resultado de suas escolhas.
Paulo vai sair do estado de perturbação e precisará encarar os factos.
No entanto, não há ninguém destinado ao sofrimento eterno, porque um dia sentirá o apelo do bem no coração e emergirá das trevas para a luz.
- Será que ele vai ser perdoado?
- Melhor perguntar - tornou Orlando:
- Será que ele próprio será capaz de se perdoar?
Esta é a tarefa mais difícil para o espírito.
Entendemos até a atitude do outro.
Somos capazes de perdoar o próximo.
Entretanto, temos sério problema em perdoar a nós mesmos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 23, 2016 9:02 pm

- Mas eu pensei... bom, que ele estivesse ligado a Eunice.
- Mentalmente, sim - esclareceu Selma.
Como ela também está perturbada, acaba por pegar um pouco da perturbação dele.
É natural. Porém, o espírito que a está atormentando, no momento, é outro.
Se o espírito de Paulo estivesse ao lado de Eunice, garanto que sua irmã não estaria mais entre nós.
Solange sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
- Meu Deus!
- Sim. É nossa responsabilidade zelar pelo nosso bem-estar.
Os espíritos amigos, os espíritos superiores podem nos ajudar, mas eles fazem por meio de nós.
Por isso, precisamos estar bem para que eles façam, para que eles realizem alguma coisa de útil para conseguirmos ficar na paz.
Eunice está presa ao vitimismo.
Ficou presa no drama, acredita que a vida não tem sentido, julga-se usada, traída e abandonada.
Culpa o primeiro namorado e seu pai pelo fracasso do segundo relacionamento amoroso.
- Meu pai? Não pode ser!
- Sim, Solange.
Eunice culpa Emílio pelo término do relacionamento com Paulo.
Se quiser ir mais longe, Eunice culpa seu pai pela tragédia toda que acometeu a vida dela.
- Quer dizer que o plano mental de Eunice está atrapalhando um bocado de espíritos, além de atrapalhar o próprio crescimento dela.
- Os espíritos me dizem que seu pai também colaborou para que isso tudo se desenrolasse dessa maneira.
- Desconheço - tornou Solange séria.
Papai sempre foi reservado.
- É - concordou Orlando.
Você tem razão.
Orlando não iria prosseguir.
Os espíritos foram categóricos:
Emílio havia participado da trama que infelicitara Eunice.
De que adiantaria mexer neste vespeiro agora?
O importante era ajudar Eunice a sair daquele estado obsessivo.
Ele piscou para Selma e afirmou:
- Precisamos ir até sua casa com um grupo de voluntários para fazer uma limpeza energética no quarto, pois o ambiente está carregado de formas-pensamentos negativos que fazem com que tais espíritos ali permaneçam.
Assim, poderemos criar condições para Eunice repensar suas crenças e permitir mudar-se para a nova residência.
- Vamos para uma cidade pequena em Minas Gerais.
Fico assustada.
- Minas Gerais é um dos lugares mais bem preparados para lidar com essas energias - ajuntou Selma.
- Mesmo?
- Sim. Não é à toa que Chico Xavier faz seus trabalhos mediúnicos em Minas.
- Não conheço nada nem ninguém em Teófilo Otoni - rebateu Solange, desalentada.
- Confie na vida.
Sabe que ela faz tudo pelo melhor - acrescentou Orlando.
- Tem razão.
Mamãe está lendo O Livro dos Espíritos.
Tem feito perguntas, e eu tenho respondido à medida que posso.
Selma riu bem-humorada:
- Você sabe muito, querida.
Seu espírito é muito livre, livre até demais.
- Não entendi - replicou Solange, balançando o rosto.
- Um dia vai entender - prosseguiu Orlando.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:19 pm

- O seu espírito - elucidou Selma - veio preparado para abraçar a espiritualidade de maneira natural, sem dogmas ou doutrinas.
Leonor é um espírito lúcido, mas ainda preso às convenções do mundo.
Ela está despertando a consciência para a realidade espiritual e juntas vão ter condições de ajudar Eunice a se libertar dessas energias perniciosas que sufocam o espírito e o impedem de crescer e ser feliz.
- O que mais quero - Solange estava emocionada, - é ver minha irmã bem.
Ela era uma moça cheia de vida.
Eu sempre me espelhei nela porque é a irmã mais velha.
Sempre achei Eunice um primor, o meu referencial.
Quando eu ainda era uma garotinha, ela se trancou naquele quarto e, a cada dia que passa, eu vou me esquecendo daquela mulher bonita, falante, alegre, cheia de entusiasmo.
- Ela pode voltar a ser assim - enfatizou Selma.
- Precisamos de tempo, de paciência e oração.
- Vamos nos dar as mãos - sugeriu Orlando esticando os braços - e fazer uma oração em prol de Eunice, pedindo aos espíritos amigos que derramem sobre ela gotas de paz e de serenidade.
Que Eunice possa descansar um pouco, por enquanto.
Fizeram uma linda prece e, imediatamente, luzes coloridas saíram de seus corações e foram, como um raio, até o quarto de Eunice.
Ela estava na poltrona, cabeça levemente apoiada sobre o ombro, cochilando.
Sentiu uma brisa leve tocar--lhe o rosto e, sem abrir os olhos, esboçou um sorriso.
O espírito ao seu lado sentiu uma tremenda dor de cabeça e imediatamente saiu do recinto, nervoso.
- Eu saio, mas eu volto. Ah, se volto.
Não é assim que vão me tirar daqui - declarou e saiu, furioso, pela janela, desaparecendo no ar.
O domingo amanheceu nublado.
Lina despertou e correu até a janela.
- Sem sol! - exclamou.
Será que vai chover?
Ela adorava a chuva.
Cada gota que caía do céu era um motivo de comemoração e a ajudava a esquecer e enterrar o passado de seca e miséria.
Havia se habituado à rotina da casa.
Acordava todos os dias antes de Eugenia e Aderbal, inclusive aos domingos.
Fazia o café, esquentava o leite, colocava a mesa, esquentava as broas e os pãezinhos.
Eugenia tinha adorado essa iniciativa.
Podia ficar um pouco mais no aconchego dos braços do marido.
Nesse dia, porém, ela e Aderbal acordaram mais cedo do que o habitual.
Assim que entraram na cozinha, Lina os cumprimentou, surpresa:
- Por que acordaram tão cedo?
E hoje não é feriado?
- O Hermes, do cartório, vai dar uma passadinha aqui - respondeu Aderbal.
- Tenho tanta pena desse homem.
- A gente nem sabe direito a história dele, Eugenia.
- Na cidade todo mundo comenta.
- Futriqueiras de plantão, isso sim.
- Imagine. O homem era médico, formado.
Largou a profissão assim, do nada?
E o pai deu um cartório de presente?
Também do nada?
Como um homem sai de São Paulo e vem viver aqui?
- Sei lá.
- Viu como Hermes é triste?
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:19 pm

- É verdade. Tem cara de cachorro abandonado, sem dono.
Tem cara de cachorro sem dona, devo corrigi-lo.
Vamos tratar da nossa vida -- desconversou Aderbal.
Eugenia torceu as mãos no avental. Abriu um sorriso.
- Melissa deve chegar logo.
- Sua afilhada não ia chegar na hora do almoço?
- Quero deixar tudo em ordem.
Faz tempo que Melissa não fica aqui connosco.
Quero que ela tenha uma boa impressão.
Você pode me dar uma ajuda?
- Claro, dona Eugenia.
- Quero deixar o quarto de Estela em ordem.
Aderbal queria dizer que o quarto de Estela sempre estivera em ordem, mas não quis ferir os brios da esposa.
Estava contente porquanto Eugenia começava, timidamente, a conviver melhor com Lina.
Tomaram o café e, enquanto elas foram preparar o quarto para Melissa, Aderbal recebeu Hermes.
Era um homem de estatura média, nem feio nem bonito.
Poderia ser atraente, não fosse o semblante abatido, os olhos tristes, os lábios contraídos.
Aderbal se lembrou da conversa com a esposa e notou:
Hermes era um homem triste.
Exalava tristeza. Mas por quê?
A pergunta ficou ali em sua cabeça, rodando, quando comentou:
- O café ainda está quente, aceita?
- Aceito - concordou Hermes.
- Por que esta cara?
- Foi a que Deus me deu.
E a vida é assim, um dia após o outro, sem graça, sem novidades.
- Você é dono de um cartório.
Tem dinheiro, tem posição.
Poderia ter a mulher que quisesse.
Hermes fez um esgar de incredulidade.
Praticamente uma cara de repulsa.
- Deus me livre e guarde!
Aderbal estranhou e conteve-se.
Será que Hermes não gostava de mulher?
Ele não tinha nada a ver com isso.
Tentou fazer troça com a situação:
- Passou dos trinta, é sozinho.
Nunca pensou na possibilidade...
Hermes o cortou com secura, como se estivessem conversando sobre outro assunto:
- Aderbal, não é tão fácil assim fazer o registo de nascimento.
Preciso de duas pessoas adultas, conhecidas da menina, para começar.
Aderbal levou um tempo para firmar o pensamento e lembrar que Hermes tinha ido ao sítio para falarem de Lina.
Balançou a cabeça para concatenar melhor as ideias e, depois de um gole de café, considerou:
- Eu e Eugénia. Não serve?
- Preciso também dos documentos dos pais.
- Não sei se eles tinham.
- Se não tinham, deveremos entrar em contacto com o cartório da cidade da mocinha.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:19 pm

- Não queria que Lina voltasse às origens.
Ela iria se lembrar de acontecimentos tristes.
- Precisamos ir até a cidade dela.
Ir até aquela cidade?
Não. Aderbal não iria para lá.
De jeito nenhum.
Precisava fazer qualquer coisa, demover Hermes dessa ideia.
Pensou rápido e perguntou, à queima-roupa:
- E se os pais também não tiverem certidão?
Eram pessoas miseráveis, muito pobres.
- Eu já disse que o caminho mais fácil seria você e
Eugénia reconhecê-la como filha.
- Eugénia diz que não quer adoptá-la.
- Se você e Eugénia aceitassem ser pais de Lina, o caminho seria bem mais fácil.
- É ?
- Sim. Eu faria uma certidão retroactiva, colocando vocês como pais.
- Melhor do que adoptar.
- Não é melhor nem pior.
Adoptar seria o mais adequado, porque faríamos tudo de acordo com a lei.
Mas, como a menina não tem parentes vivos que poderiam vir a reclamá-la, creio que Lina passar a ser sua filha - ressaltou - não seria problema.
- Não deixa de ser uma saída bem interessante.
- Ademais, vocês não têm filhos, tampouco parentes próximos.
- Eugénia prometeu que tudo o que é nosso vai para Melissa.
- Podem fazer um acordo.
Conversem com sua afilhada.
- Não sei - Aderbal não conseguia concatenar os pensamentos.
Melissa é uma boa menina.
A mãe é meio doidivanas.
É uma boa mulher, porém se casou com um desclassificado e é cega de paixão.
- Bom - Hermes terminou seu café -, precisa pensar se vale a pena ir até a cidade da mocinha.
Como sugeri, se aceitassem Lina como filha, eu teria condições de ajeitar tudo.
Não estamos prejudicando ninguém.
Muito pelo contrário.
Estamos dando uma família para essa garota órfã.
- Vou pensar em tudo o que me disse - observou Aderbal.
- Agora preciso ir.
Um bom domingo para vocês - despediu-se Hermes, ar cansado e passos arrastados.
- Desejo o mesmo para você - retribuiu Aderbal.
- Até breve.
Despediram-se e Aderbal voltou para a cozinha.
- Depois que Eugénia falou... esse homem é muito triste mesmo.
Parece que o coração fora-lhe arrancado.
Aderbal serviu-se de mais um pouco de café e, com a caneca nas mãos, passou pelo corredor que dava acesso aos quartos.
Qual não foi sua surpresa ao ver Eugénia e Lina juntas, sentadas sobre a cama de Estela, conversando e rindo baixinho, como se fossem amigas de longa data.
- Hermes tem razão.
Lina bem que podia ser nossa filha - murmurou.
Perto da hora do almoço, Aderbal foi até o centro da cidade apanhar Melissa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:19 pm

- Deixa eu ir junto com você?
- Você vai pôr a mesa - ordenou Eugénia.
- Ah! - Lina fez um muxoxo.
- Fique aqui - pediu Aderbal.
Logo voltarei.
- Está bem.
- Melissa vai passar uma semana aqui.
Terá tempo de sobra para conhecê-la.
- Estou ansiosa.
- Ansiosa?
De onde tirou essa palavra?
- Ouvi seu Aderbal falar outro dia.
Achei bonita.
Eugénia moveu a cabeça para os lados.
- Você me surpreende!
Lina sorriu e ajeitou a mesa.
Foi ao jardim, apanhou umas flores.
Eugénia as colocou no vaso.
- A sua sobrinha vai adorar! - exultou Lina.
- Assim espero - disse Eugénia, com gosto.
Meia hora depois, Melissa chegou.
Era uma jovem bonita, embora seus olhos demonstrassem tristeza.
Os cabelos anelados estavam cortados à moda.
Vestia-se com apuro.
Tinha traços elegantes e refinados.
O rosto era bem clarinho, e algumas sardas coloriam seu nariz.
Ela entrou e foi directo até Eugénia, abrindo os braços.
- Tia, quanto tempo!
Abraçaram-se efusivamente.
Melissa escondeu o rosto no ombro de Eugénia e caiu no pranto.
- Ora, ora - Eugénia passou delicadamente as mãos sobre os cabelos da afilhada.
Por que tanta emoção?
- Desculpe-me pelos excessos.
Eu deveria me conter.
- Conter-se por quê? - perguntou Aderbal, que se aproximava com a mala.
Melissa sentiu leve repulsa.
Aderbal percebeu e não entendeu.
Ela já o havia cumprimentado com certa frieza quando descera do ónibus.
Aderbal olhou de esguelha para Eugénia, e ela fez ar interrogativo.
Melissa estava sensível demais, muito diferente da última Páscoa.
- É quase uma mulher - considerou Aderbal.
- É natural que esteja mais sensível.
Afinal de contas, nós nos vemos somente uma vez por ano.
- Deveria vir mais vezes - pediu Eugénia.
- Eu queria mesmo era ficar aqui para sempre.
- Você tem sua mãe...
Melissa o cortou:
- Ela está grávida, tia! - Melissa costumava chamar carinhosamente Eugénia de tia.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:19 pm

- E nem nos avisou? - comentou Eugénia, indignada.
- Nesta altura da vida, eu com quase dezoito anos, e ela resolve ter filho.
E ainda por cima do Jurandir!
- Não me conformo.
Penha esperando um filho do Jurandir.
Quanta desfaçatez!
Aderbal interveio:
- Nada de confusão, Eugénia. Você prometeu.
Ela girou os olhos e ensaiou um sim.
Melissa prosseguiu:
- Está lá, toda contente da vida.
Eu não me sinto mais parte daquela nova família - enfatizou.
Lina voltou do barracão.
Entrou na cozinha e, ao ver Melissa, sentiu uma emoção sem igual.
Melissa sentiu o mesmo e abriu um largo sorriso.
Aderbal fez a apresentação:
- Lina, esta é nossa afilhada, Melissa.
Lina fitou-a e sentiu um frémito de emoção.
Era como se estivesse reencontrando uma pessoa muito querida, de quem gostasse muito, de verdade.
Seus olhos chegaram a marejar.
Melissa sentiu o mesmo e, num impulso, abraçaram-se.
Eugénia e Aderbal trocaram um olhar significativo.
Sorriram.
As meninas deram um caloroso abraço, e Melissa perguntou, sem malícia:
- Quem é essa mocinha tão simpática?
- Eu sou a Lina.
Vim lá do sertão e...
Eugénia interrompeu-a com doçura:
- Depois contamos a você a história dela.
Vamos para o quarto levar sua mala.
Vai ficar até o fim da outra semana, como de costume?
- Sim. Na verdade, eu queria ficar aqui para sempre - repetiu.
Eugénia abraçou-a.
- Meu amor, você tem casa, tem família.
- Família eu não tenho.
- Como não?
- Agora que mamãe está grávida, acabou.
- Sua mãe está querendo dar um herdeiro para Jurandir.
Eugénia falava sem convicção.
Achava o cúmulo Penha ter se envolvido justamente com seu ex-noivo.
Nunca engolira o casamento deles.
Ainda bem que Aderbal não sabe de nada, pensou, aliviada.
Eugénia percebeu uma lágrima escorrer pelo canto do olho da garota.
- O que foi, querida?
- Agora que mamãe está grávida, tem me tratado mal.
- Está sensível.
- Não sei. Sinto-a muito diferente.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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