Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:10 pm

Casaram-se no mesmo dia, na mesma igreja, com o mesmo padre, mesma festa.
Só não dividiram o noivo...
Amanda casou-se com um engenheiro da Poli, tiveram um casal de filhos.
O menino era afilhado de Nádia, que, por sua vez, casou-se com um dentista e tiveram duas filhas.
Uma delas, obviamente, era afilhada de Amanda.
Rosana continuou levando a vida de sempre.
E, conforme o tempo foi passando, a implicância com os parentes, com os empregados e com os pouquíssimos amigos foi aumentando, assim como a feiura, a rabugice, a impaciência, a amargura e a chatice.
Ela se transformou em uma pessoa extremamente inconveniente, chata, daquelas que as amigas, ao cruzar na rua, faziam de conta que não tinham visto, fingindo não reconhecer.
Ela foi sendo esquecida, foi reclamando cada vez mais da vida.
Os pais morreram, os homens não queriam mais saber dela.
Os problemas de saúde começaram a se tornar uma rotina, até que Rosana foi diagnosticada com Alzheimer.
Internada por uma sobrinha em uma casa de saúde, Rosana nem percebeu a mudança.
A sobrinha, mais interessada na casa do que na saúde da tia, depois de assinada a procuração, pegava o dinheiro no banco, pagava a casa de saúde e nem queria saber se Rosana passava bem ou mal.
- Ela que apodreça e mofe ali até morrer - era o edificante ditado de Jéssica, a sobrinha que seguia a mesma linhagem da tia.
Coisa de família, de iguais.
Estava no sangue.
Um dia, na clínica, uma paciente teve uma crise séria e tiveram de interná-la no hospital.
Rosana estava mais para lá do que para cá, tomando uma medicação fortíssima, de tarja preta.
Não se lembrava do que fizera havia cinco minutos, mas a sua memória do passado era perfeita.
Ela entrou no quarto da companheira e viu sobre a cómoda uma bicicletinha em miniatura.
Pegou o objecto e não havia quem tirasse aquilo das mãos dela.
Já fazia dois anos que ela segurava a bicicleta.
Até nas crises mais fortes, mesmo sob forte efeito de medicação, Rosana não largava a bicicleta.
Certo dia, uma das enfermeiras cutucou a outra:
- Sabe por que ela segura essa bicicleta?
- Não sei.
- Já perguntou?
- Tenho medo.
Ela é nervosa, tem cara feia, carrancuda, de quem quer briga.
É uma velha com cara de gente ruim.
- Tem razão. Mas eu vou perguntar.
A moça, com ar gentil, aproximou-se delicadamente.
- Tudo bem, dona Rosana?
Ela não tinha mais os dentes, também estava sem a dentadura e mastigava a língua.
- Tudo.
- Por que guarda esta bicicleta?
- Porque a Lina pediu.
- A Lina?
- É. Ela pediu.
Ela pediu para eu guardar a bicicleta.
Eu não guardei. Agora vou guardar.
Estou com a bicicleta.
Ela vem pegar a qualquer momento.
A enfermeira levantou com ar piedoso.
- E então? - quis saber a outra.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:11 pm

- Biruta total.
Ela diz que está guardando a bicicleta porque uma tal de Lina vem buscar.
A outra moveu a cabeça para os lados.
- Coitada.
E não tem um parente que vem visitá-la.
- Que pena!
E assim Rosana permaneceria, por muito tempo, nas lembranças do passado e sem noção do presente.
Morreria muitos anos lá na frente, bem doente, segurando a bicicletinha.
Melissa acordou num sobressalto.
Sonhara de novo com Lina.
- Ela não está bem - disse para Daniel.
- Meu amor - tornou ele, enquanto alisava o ventre dela, avolumado.
Está indisposta. Faz dias que não tem uma posição boa para dormir.
Logo o bebé vai nascer.
É normal que tenha sonhos ruins.
- Não. Foi real.
Eu estive com Lina, tentei chegar perto, mas não deixaram.
Lina não me viu, porque está numa outra faixa de energia, compreende?
- Não - Daniel sorriu. - Não compreendo.
Como assim?
- Estou grávida, não posso transitar por qualquer lugar.
Parece que não posso ir aonde Lina está.
- Será que ela se perdeu no mundo?
- Não acho possível.
- Ela lhe deixou um bilhete, sumiu.
A Caixa tomou o imóvel, levou a leilão, e o pouco dinheiro que havia no banco também foi bloqueado, depois que a certidão de óbito de Estela veio a público.
- Vai ver que ela ficou com medo.
- Se tivesse medo, teria pegado um orelhão e ligado.
Teria aparecido aqui em casa.
Teria ido até a Neide.
- Tem razão.
- Escute, Lina é uma mulher, não é uma criança.
Se precisar da gente, virá nos procurar.
Agora trate de se levantar e alimentar esse barrigão.
Melissa sorriu e Daniel ajudou-a a se levantar.
Ela fez a higiene matinal, colocou um vestido largo, florido, calçou um par de chinelos confortáveis, pois os pés estavam inchados, e desceu.
Maura terminava o café da manhã, despediu-se da mãe com um aceno a distância, frio.
- Ei, quero um beijo.
Maura voltou e a beijou, a contragosto.
Daniel sorriu e sussurrou:
- É natural que ela sinta ciúme.
O médico disse que isso passa.
- Está bem.
Contudo, à medida que o tempo passava, o relacionamento de Melissa e Maura tornava-se um tanto conflituoso.
Seria necessário muito carinho, muita paciência, muito entendimento.
Ainda bem que uma das bênçãos da reencarnação é o esquecimento.
E Melissa só tomaria conhecimento das diferenças com Maura muitos, mas muitos anos à frente, depois do desencarne de ambas.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:11 pm

Seria chocante descobrir que Maura era a reencarnação de Penha, sua mãe, morta no incêndio do circo de Niterói.
Em todo caso, Melissa despediu-se da filha e do marido.
Sentou-se para tomar seu café.
Alisou o ventre com amor e sentiu um carinho profundo por aquele serzinho que logo viria ao mundo.
Estava ali, entre uma torrada, um café com leite e divagações da vida, quando a empregada entrou, olhos arregalados de susto e medo.
- O que foi, Zefa?
- Tem um homem lá na porta.
Deus do céu!
- O que tem?
- Diz que quer falar com a senhora.
- É conhecido?
- Sei não - Zefa fez o sinal da cruz e bateu na mesa da cozinha.
Se o capeta tem um filho, acabou de aparecer. Vá ver.
Melissa levantou-se receosa.
Não gostava de atender estranhos.
Estavam sozinhas, ela e a empregada.
No estado avançado de gravidez, não podia se defender; aliás, tinha medo de sofrer alguma coisa.
Com passos lentos, caminhou até a sala, desencostou a porta e olhou na direcção do portão.
- Pois não?
O homem estava de chapéu, óculos escuros, casaco.
Não dava para ver nada.
Conforme se virou, deu para notar o rosto deformado, a pele repuxada.
Ele tirou os óculos e avançou o degrau.
Mesmo a certa distância, Melissa o reconheceu.
O instinto materno fê-la levar as mãos até o ventre, defendendo seu feto.
- Jurandir!
- Não se assuste.
Não vim lhe fazer mal.
Zefa apareceu atrás de Melissa.
- Quer que eu ligue para a escola e chame seu Daniel? - indagou baixinho.
- Não será necessário.
- Eu vou ser rápido.
Ficarei aqui mesmo no portão.
- Pode subir - Melissa fez um sinal.
Conforme Jurandir aproximou-se mais e tirou o chapéu, ela pôde ver melhor e assombrou-se.
O aspecto era repugnante.
O rosto estava praticamente irreconhecível.
Não havia mais cabelos, somente um tufo de fios esbranquiçados desgrenhados e ensebados que caíam sobre a testa.
O olho esquerdo era de vidro, todo branco; não havia orelha esquerda, e o lábio era todo retorcido para baixo.
Jurandir andava com dificuldade e rastejava uma das pernas.
- Eu só vim porque precisava lhe entregar isso.
Melissa apanhou um envelope pardo.
- O que é?
- As certidões de óbito de sua mãe e de sua irmã.
Melissa levou um susto.
- Minha mãe morreu?
Telma... Como? Quando?
- Faz mais de quinze anos.
Morreram no incêndio do circo em Niterói.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:11 pm

- Foi uma tragédia...
- Sim. Uma tragédia.
Eu deveria ter morrido.
Elas deveriam ter sobrevivido.
Contudo, a vida me puniu. E eu continuei vivo.
Perambulei esses anos todos tentando achar você.
Foi Neide quem me deu seu endereço.
Eu precisava vir aqui para lhe trazer as certidões.
Aí também está o endereço do cemitério onde elas foram enterradas, caso queira visitar os túmulos.
Melissa estava muito chocada para articular palavra que fosse.
Até vislumbrara um reencontro, um momento em que, muitos anos depois, pudesse meter o dedo em riste e falar um monte de impropérios para Jurandir.
Mas o que via à sua frente era uma massa disforme, um ser humano atormentado, atarantado, desencaixado, fora de si.
Antes de ela dizer alguma coisa, ele comunicou:
- Adeus, Melissa. Perdão.
Eu não soube dominar os meus impulsos.
Quem sabe nos reencontremos, em nova oportunidade?
Falou, virou com dificuldade e saiu rastejando, cabisbaixo.
Ela abriu o envelope e lá estavam as duas certidões de óbito.
Penha e Telma morreram no mesmo dia, no distante ano de 1961.
Uma lágrima escapou-lhe pelo canto do olho.
Melissa viu Jurandir dobrar a esquina arrastando o corpo com dificuldade, meneou a cabeça e entrou em casa, consternada.
- Quer um copo de água, dona Melissa?
Ela fez que sim e sentou-se no sofá, pensativa.
Um monte de cenas vieram-lhe à mente e Melissa chorou bastante.
Chorou muito.
Pediu perdão a si, perdão à vida e desligou-se de Jurandir.
- Que Deus tenha misericórdia de você!
Naquele mesmo instante, Jurandir atravessou a rua com dificuldade.
Estava farto e cansado de ser alvo de comentários maledicentes e motivo de piada do mundo.
Havia feito o que tinha de fazer.
Não precisava mais continuar assim.
- Chega! - disse entre dentes. - Acabou.
Dirigiu-se ao ponto de ónibus, fez sinal, tomou a condução e saltou na avenida Ipiranga.
Caminhou algumas quadras e, atormentado pela consciência pesadíssima, não escutou os gritos, tampouco deu bola para o motorista do caminhão que tentava desviar inutilmente.
Jurandir morreu atropelado na esquina da Ipiranga com a São João, naquele cruzamento imortalizado na canção de Caetano Veloso.
Foi muito triste.
Voltar para onde?
Lina não sabia para onde voltar nem para onde ir.
Depois de vagar por um bom tempo, naturalmente seu espírito foi atraído até o cemitério onde tinha sido enterrada.
Cruzou a entrada e sentiu-se conduzida para a outra extremidade.
Fechou e abriu os olhos.
Viu-se diante de um túmulo.
Olhou ao redor e estavam enfileirados, afastados dos demais.
Lina contou. Eram treze.
Sentou-se em frente a um deles, que a atraiu.
Ficou observando.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 8:11 pm

Abraçou-se aos joelhos e começou a pensar nos últimos acontecimentos, na conversa de Luís Sérgio com Rosana, nos seus impulsos, no abraço de Bibiana e no carinho de Maruska.
Sentiu-se só, profundamente só.
Os dias foram passando, o tempo, de certa maneira, foi passando, e Lina não soube precisar quanto teria passado.
Olhou para o alto, sentiu a energia do sol e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu sede.
Alguém lhe estendeu a mão com um copo de água.
Lina só viu a mão e o copo.
Nem virou o rosto.
Apanhou o copinho de plástico e bebeu devagar, mas com vontade.
Passou as costas das mãos nos lábios e agradeceu.
- Obrigada.
Nem faço ideia de quanto tempo não bebia um copo decente de água.
- Não há de quê.
Se precisar, é só pedir mais.
Lina sentiu o ar fresco e fixou os olhos naquele túmulo em particular.
- Você foi enterrada aí - disse a voz.
- Onde?
- Bem em frente. Neste túmulo.
Ela teve uma sensação estranha. Sentiu um calafrio.
Levantou-se, olhou, perscrutou o local.

Depois viu a placa de metal e leu:
Somente Deus conhece seus nomes
Descansem em paz
2 de fevereiro de 1974
Incêndio do Edifício Joelma

Lina sentiu um nó na garganta. Chorou.
- Que homenagem bonita!
- Feita por pessoas que nem conheceram você e os demais - continuou a voz.
Foi um acto de amor e solidariedade.
Ela fungou e secou as lágrimas com as costas das mãos.
- Por que eu não vejo você?
- Porque é dia ainda.
Quando anoitecer, eu vou aparecer e então você vai poder me ver.
- Tenho medo de escuro.
A voz riu.
- Por favor.
Você é praticamente uma alma penada.
Quem está vivo é que deveria ter medo de você.
Não o contrário, concorda?
- Eu não sou alma penada - respondeu, nervosa.
- E é o quê?
Anjinho do Senhor?
Pensa que está aqui por quê?
Lina não respondeu de pronto.
Nem ela sabia ao certo porque fora atraída até ali.
Deu de ombros e ficou quieta.
Estava cansada de brigar.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:40 pm

- Deveria estar em tratamento e ter seguido para outras dimensões, como os outros doze colegas - apontou para os demais túmulos.
- Não estou entendendo.
O que eu tenho a ver com esses outros túmulos?
A voz riu.
Era uma risada grave.
- Você é famosa.
Ninguém sabe seu nome, mas é famosa.
- Eu?! - Lina estava surpresa.
- É. Você e os demais.
- Não fiz nada que pudesse me tornar famosa em vida.
Aliás, nem certidão de nascimento eu tive, acredita?
- Sim.
E, no entanto, depois de morta, ganhou fama.
Lina começou a se irritar.
Caminhou de um lado para o outro, passando pelas treze covas, torcendo as mãos e balançando a cabeça de maneira negativa.
Depois parou e tentou fixar os olhos em direcção à voz.
Parecia estar conversando com o ar.
- Escute aqui.
Melhor explicar direito essa história.
Não estou entendendo patavina.
- Você e seus colegas aí ao lado - apontou - morreram carbonizados dentro de um dos elevadores do Edifício Joelma.
- Eu sei que morri no Joelma.
- Então é isso.
Vocês morreram lá, espremidos.
Os legistas não conseguiram identificar os corpos, as famílias não vieram atrás, e foram enterrados aqui como os treze sem nome do incêndio.
Por isso a placa - apontou.
- Sei.
- Ocorre - a voz prosseguiu - que muita gente, comovida com a situação, começou a vir aqui e rezar, pedir por essas almas, incluindo a sua, é claro, para que pudessem descansar em paz.
Lina sentiu-se tocada.
- As pessoas vinham aqui assim, sem mais nem menos?
- É. Vinham.
E aí começou a formar uma energia boa, uma energia bonita, uma forma-pensamento nutritiva.
- Hum... - Lina fez um muxoxo.
A voz fez que não ouviu e continuou:
- As formas-pensamento que você cria, além de acompanhá-la, ficam também no ambiente.
Quando um tipo de pensamento é muito cultivado, muito vivido num grupo, num determinado lugar, forma-se uma egrégora.
É um conjunto de formas-pensamento, uma espécie de nuvem bem grande, que vive sobre um lugar, sobre um objecto.
As egrégoras podem se formar nas nossas casas, na empresa em que você trabalha, no seu negócio, nas escolas e assim por diante.
Os lugares santos, lugares em que Jesus passou durante sua vida neste planeta, por exemplo, estão carregados de egrégoras boas, assim como algumas igrejas e templos sagrados.
Aqui onde estamos também.
- Num cemitério? - questionou Lina, surpresa.
- Sim. Depois explico melhor.
- Mas há lugares onde a egrégora é pesada, ruim?
- Com certeza.
Por exemplo, a casa daquele vizinho que, quando bebe, bate na mulher e nos filhos, tem uma egrégora de medo, de revolta, tem uma energia muito ruim, de desequilíbrio.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:40 pm

Geralmente, hospital é um lugar onde a egrégora também é pesada, porque as formas-pensamento que lá estão são densas, de doença, de aflição, de desespero e morte.
- Tem uns bem bonitos, bem decorados.
- O hospital pode até ser bonito, ter uma decoração moderna e elegante, possuir um atendimento com padrão sofisticado, ter enfermeiras graciosas, médicos competentes, gente muito simpática.
Entretanto, com o tempo, o lugar vai ficando impregnado dessas formas-pensamento, e a nossa sensibilidade percebe isso.
- Sei - Lina estava interessadíssima.
- Outro exemplo de egrégora pesada foi o local onde o Joelma foi construído.
Eu disse foi, no passado, porque não é mais.
É uma história bem interessante, para você entender bem o que são egrégoras.
- Pode me contar?
- Sim. Muito antes da construção do edifício, existiu ali um pelourinho.
Naquele espaço, os escravos eram açoitados e mortos de maneira cruel.
Isso ocorreu durante os séculos 17 e 18, de forma rotineira.
O tempo passou, veio a libertação, mas a energia trágica, negativa, cheia de ódio e vingança ficou ali no local.
Depois, com a urbanização da capital, no início do século 20, o centro da cidade foi expandido e ali, onde hoje está o edifício e outros arranha-céus, havia casinhas bem charmosas.
Era um local totalmente residencial nos anos 1940.
Lina nem piscava.
A voz, numa modulação suave, porém firme, prosseguiu:
- Numa dessas casas, morava uma senhora com três filhos: duas moças e um rapaz.
Paulo era professor universitário, moço culto, educado.
Envolveu-se com uma moça que pertencera à sociedade, Eunice.
Ele se apaixonou perdidamente por ela, mas Eunice vinha de uma relação afectiva mal-sucedida, não era mais virgem e, para os padrões da época, isso era um passaporte para a condenação eterna e para a solteirice.
- Os padrões sociais da época eram muito rígidos, não permitiam que um homem pudesse se unir a uma mulher que já tivesse se deitado com outro.
Paulo não quis se casar porque Eunice não era mais pura.
É isso?
- Os padrões eram rígidos, sim - tornou a voz para Lina.
Mas Paulo não ligou, aceitou Eunice.
O problema, num primeiro momento, foi o pai dela.
Emílio tinha ciúme da filha e foi ele quem abriu o bico para dona Benedita, mãe de Paulo.
- Como pôde fazer isso?
- Emílio inventou uma história, disse que Eunice estava usando Paulo para se livrar dos comentários, que ela não amava Paulo..., enfim, envenenou a cabeça da mulher.
Mãe é mãe, e a de Paulo não foi diferente.
Benedita fez da vida do filho um inferno.
Paulo revoltou-se, propôs a Eunice que fugissem, mas ela não aceitou.
Não queria deixar a família, queria conversar com dona Benedita, contudo, Paulo não conteve os impulsos e adoptou medidas extremas.
- O que ele fez? - indagou Lina, curiosíssima.
- Eunice rompeu com ele e, desesperado, Paulo matou a mãe e as irmãs.
Jogou os corpos no poço que mandara construir nos fundos da casa.
- E nunca descobriram?
- Os vizinhos acharam estranho a falta de movimentação, porquanto Cordélia e Maria Antonieta sempre iam cedo à missa, todas as manhãs.
Uma vizinha suspeitou, deu queixa.
Depois Paulo declarou à polícia que a mãe e as irmãs tinham ido visitar parentes no Sul e haviam morrido num acidente.
Certa noite, a polícia apareceu na casa para averiguar, saber mais sobre o tal acidente, visto que até então a polícia do Paraná não informara nada sobre acidente ou morte da mãe e das irmãs de Paulo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:40 pm

Quando foram até o quintal e se aproximaram do poço, Paulo, pressentindo o perigo de ser descoberto, fingindo naturalidade, pediu licença para ir ao banheiro.
Trancou-se no cómodo, pegou um revólver que guardava no armário do banheiro e meteu uma bala no peito.
Morreu na hora.
- Nossa! Encontram os corpos?
- Sim. A polícia e os bombeiros acharam os corpos de Benedita, Cordélia e Maria Antonieta já em avançado estado de decomposição.
Um dos bombeiros, tempos depois, morreu de infecção cadavérica.
- Que horror! Que tragédia!
- Durante pouco mais de vinte anos, o astral do lugar acumulou mais energia trágica, negativa, cheia de ódio e vingança, impregnando e contaminando, inclusive, o solo.
Construíram o edifício no local.
O resto é história.
Lina estava boquiaberta.
- O fogo...
- Consumiu muito dessa energia, facilitando a limpeza energética.
Houve uma renovação no ambiente.
Com o passar do tempo, as pessoas vão conseguir, com as suas novas formas-pensamento, limpar essa energia e destruir de vez a egrégora negativa.
- Muita gente morreu.
Vai me dizer que morreram por conta de uma limpeza energética? - a voz dela era de indignação.
- Não. Isso é transformar o ser humano em nada, em brinquedo da vida.
Acontece que Deus não brinca em serviço.
- Não entendi.
- A vida na Terra é curta.
Ninguém dura duzentos anos, ainda - a voz replicou.
- É verdade.
- Quando você nasce, já tem consciência de que um dia vai morrer, acreditando ou não em Deus ou em reencarnação.
Esse é um facto concreto.
E cada um morre de um jeito, uns mais cedo, outros mais tarde, uns mais jovens, outros mais velhos.
A vida no planeta é assim.
Não adianta querer que seja diferente.
- Eu queria.
- Mas ela não é.
Aceitar o que não se pode mudar é um dos caminhos da sabedoria.
De que adianta dar murro em ponta de faca?
Para sentir mais dor?
Se você está encarnado no planeta, já sabe:
vai desencarnar a qualquer momento.
- E por que essas tragédias?
Eu não entendo o porquê.
- Depende da maneira como olha a situação.
Nenhuma morte é bem-aceite, seja individual ou colectiva.
Contudo, a morte colectiva, os desencarnes em grande quantidade de gente, causa comoção porque são muitas pessoas ao mesmo tempo.
Impressiona, comove, nos faz perceber que a vida é curta, nos faz reflectir sobre uma série de posturas, nos faz sentir mais solidários, mexe com nossos sentimentos mais íntimos, começa a cutucar o nosso espírito, independentemente de crença ou religião.
Quando você vê um desastre de grandes proporções, que mata sem respeitar idade, raça, género, condição económica ou orientação sexual, nivelando todos, percebe que há algo mais forte que comanda o universo.
- A morte é uma transformação.
É o que começo a vislumbrar.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:41 pm

- Sim, exacto.
Ilusão é pensar que a vida seja tão pequena que termine com a morte.
O espírito é eterno.
No universo nada se perde, tudo se transforma.
As pessoas no planeta estão acostumadas a valorizar a dor e o sofrimento.
E esta valorização negativa chegou a tal ponto que tudo aquilo que acontece de bom é visto com desconfiança pelo ser humano.
O mundo está assim porque muita gente se recusa a acreditar na força do bem.
E o que me diz de agrupamento de pessoas que conseguem coisas boas?
- Como assim?
- Por intermédio de associações e organizações que promovem acções de crescimento e bem-estar, que ajudam no ensino, no desenvolvimento, na qualidade de vida, na saúde.
Há grupos espalhados pelo mundo que promovem tão somente o bem-estar dentro da colectividade.
Há também casos de empresas que se instalam em determinada cidade, oferecendo progresso para a região e melhoria da qualidade de vida para seus habitantes.
O mecanismo de atracção não é diferente.
- Bom, olhando por esse lado...
Em todo caso, as mortes do Joelma têm a ver com essa egrégora negativa?
- Não. Juntou-se a fome com a vontade de comer.
O ambiente precisava de uma limpeza energética.
Veja:
o fogo é uma forma de purificação, e a limpeza pelo fogo foi capaz de destruir a energia que estava concentrada no local havia trezentos anos.
Já houve um avanço.
Em relação às mortes, vamos falar mais sobre desencarnes colectivos.
- Desencarnes colectivos?
- Sim. Mortes de grupos afins, de espíritos reencarnados que têm objectivos de vida bem parecidos e morrem, por esse motivo, de maneira semelhante.
A vida reúne essas pessoas.
É o que chamamos de desencarne com dia e horário agendados.
- Isso pode ser feito?
- Sim. Se analisar pelo ponto de vista individual, sem acreditar que a vida continua, é uma tragédia sem proporções; do ponto de vista espiritual, digamos que são tempestades passageiras do destino.
O desencarne colectivo provoca revolta e dor nos encarnados.
Diante da espiritualidade, tais processos são desencadeados por forças da natureza que unem as pessoas de acordo com o momento de vida delas, afinidades.
Afinal, todos nós temos de partir, não importa quando.
- Por que morrer assim? - protestou Lina.
Tanta gente junta.
É muito triste.
Dois espíritos aproximaram-se.
Um deles, muito simpático, apresentou-se.
- Olá. Meu nome é Jaime.
- Oi, sou Lina.
- Eu morri no incêndio do Joelma.
- Mesmo?
- Sim. Meu amigo, Stéfano - apontou com o polegar para o lado - também.
- Estão enterrados aí? - apontou para os jazigos.
- Não. Fomos velados e enterrados por nossas famílias.
- E os que foram enterrados aqui ao meu lado?
- Foram resgatados logo após o incêndio e levados para o pronto-socorro onde você também estava internada.
Depois, cada um seguiu com um familiar para suas cidades astrais de origem.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:41 pm

- Sabem por que morreram ali?
Jaime fez sim com a cabeça e explicou:
- No meu caso e no do Stéfano, em outras vidas fomos corsários, piratas que ateavam fogo em embarcações e cidades, sem dó nem piedade, na conquista de presas fáceis.
Ao retornar ao astral, com o espírito afundado na culpa, eu, Stéfano e alguns amigos pedimos o retorno à Terra para o desencarne colectivo em incêndio sem escapatória, inexplicável sem a reencarnação.
- Deus os puniu - ela replicou, rancorosa.
- Deus não tem nada com isso.
Foi a nossa consciência atormentada que não viu outra saída senão passar por situação semelhante para ficar em paz.
- É o tal do faz, paga.
- Depende da interpretação.
Há espíritos que encaram essas experiências de outra forma, preferem entender de outra maneira, acreditam que não precisam passar pela mesma situação.
Cada um é um.
Vim aqui falar de mim e de alguns amigos meus só para esclarecê-la.
- Tem muita história do nosso passado que ainda desconhecemos - emendou Stéfano, ao lado.
As civilizações mais antigas matavam por matar, cometiam crimes bárbaros, hediondos mesmo, porque não conheciam as leis de Deus.
Com o passar dos séculos, tocados pela luz das escrituras sagradas, os homens começaram a tomar consciência de outros valores, surgiram as noções de justiça, fraternidade, irmandade, respeito, igualdade de raças...
- Até hoje há crimes e guerras.
O homem ainda mata - protestou Lina.
Não percebo tanto avanço assim.
- Sim, porquanto os processos de auto-punição se intensificaram com a tomada de consciência; contudo, se olhasse agora à sua frente toda a história da humanidade, veria que avançamos bastante.
O homem evoluiu muito.
Hoje há muito mais gente interessada em ajudar e crescer do que em destruir.
Muitos também perceberam que não precisam mais sofrer para evoluir.
Infelizmente, para a mente humana, o negativo ainda chama mais atenção que o positivo.
Esse padrão de pensamento está mudando.
- Além do mais - voltou a falar Jaime -, nem todos os que morreram no incêndio do Joelma eram piratas como nós.
Como eu disse, cada caso é um caso.
Fomos lá atraídos por afinidade energética.
Cada um com um propósito específico.
Veja você, por exemplo.
- O que tem eu?
- Não foi pirata, não ateou fogo em cidades.
- Morri lá por quê?
- Embora o fogo tenha feito parte do seu passado, precisa reconhecer que, no dia da tragédia, estava com raiva, com ódio.
- Estava mesmo - concordou Lina.
- Energia de ódio é explosiva, é combustão pura.
Você foi atraída até lá.
Se tivesse pensado diferente, se tivesse se ligado ao seu guia espiritual, talvez tivesse mudado de ideia, talvez tivesse dormido até tarde, perdido a hora e, quando acordasse, o incêndio já tivesse começado.
Poderia ter sido poupada, ter tido um fio a mais de vida, ganhado uns anos, quem sabe?
- E por que não tive?
Jaime coçou a cabeça e sorriu.
Olhou para seu companheiro e fez um sinal com o queixo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:41 pm

- Precisamos partir.
Só viemos porque o guardião pediu para esclarecê-la, para entender que os mais de cento e oitenta desencarnados no incêndio tinham de morrer naquele dia e naquela hora.
Cada um vai saber, no momento certo, por que desencarnou dessa forma.
Eu e Stéfano tivemos esse esclarecimento, e você, assim como os demais, também terá, no devido tempo.
- Muito embora - tornou Stéfano - não importe para o espírito o motivo.
- Como não? Claro que importa!
Eu me importo - contra-argumentou Lina.
- Não, minha amiga.
Chegará um momento em que você não vai mais ligar para o porquê.
Vai se interessar tão somente pela sensação que a experiência provocou em seu espírito.
E seguir adiante, porque, dessa experiência toda, você aprende que a morte não tem volta.
- Por essa razão - completou Jaime -, controle os impulsos, mantenha o equilíbrio, pois as coisas acontecem sempre do jeito que elas têm de acontecer.
Espero que você tenha assimilado, compreendido, e logo possa sair daqui e ir em busca da sua felicidade.
Isso é o que importa para todos nós, encarnados e desencarnados.
- O quê? - perguntou Lina.
- A felicidade, minha pequena - frisou Jaime.
- Só a felicidade. O resto é balela.
Eles se despediram e sumiram.
Certa tarde, com ar cansado, Lina perguntou:
- Por que só conversa comigo durante o dia?
- Porque, quando o sol se põe, você se recolhe e deita no túmulo.
- Tenho medo de andar aqui à noite.
Ouço vozes, gemidos.
- São almas atormentadas, espíritos presos ainda ao corpo de carne.
- Por que você não as ajuda a sair, a se libertar?
- Não posso.
É tarefa do próprio espírito.
Enquanto não sair do estado de loucura, parar de se punir, e pedir ajuda sinceramente, eu e meus assistentes não podemos fazer nada.
- Os gemidos são terríveis.
Outro dia teve um que gritou aqui - apontou para um dos treze túmulos.
- Gritou tanto, mas tanto, que um dos coveiros assustou-se.
Achou que era uma das almas do incêndio, jogou água sobre a lápide.
O grito cessou.
- Porque o espírito assustou-se.
Você bem sabe que não há nenhum desencarnado do incêndio preso aqui.
- Só eu.
- Porque quer, Lina.
Está aqui porque quer.
- Estou insegura. Tenho medo de sair.
- Um dia perderá o medo.
Ela sentou e apoiou o queixo nas mãos.
- Gostaria de partir.
- Pode ir. É livre para fazer o que quiser.
- Não sei para onde - ela abaixou a cabeça, entristecida.
Depois de reflectir, perguntou:
- Por que não tive mais um tempo na Terra?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:41 pm

- De que adiantaria?
Você não iria mudar, estava viciada em padrões que só lhe traziam dor e sofrimento.
Lembre-se de que, mais uma vez, naquele dia, por mais que tentasse, não controlou os impulsos, foi inflexível.
- Sempre fui uma mulher de extremos.
Comigo é oito ou oitenta.
Sempre foi assim, no vai ou racha.
- E o que adiantou ser tão resistente?
Achou que isso fosse sinal de segurança? - ela fez sim com a cabeça, e ele prosseguiu:
- Você não sentiu a vida com profundidade, foi de um lado para o outro, nunca quis parar para sentir, reflectir, dar-se a chance de mudar seu jeito de ser.
Na vida, não podemos ser muito definidos, precisamos ser mais maleáveis, flexíveis, porque a vida muda a cada momento, a cada segundo.
Se a vida é flexível, também precisamos aprender a ser.
- Senti-me traída.
Rosana me disse um monte de coisas horríveis.
Eu me abalei.
- Problema seu.
Quem mandou dar ouvidos a ela?
Lina sentiu-se ofendida.
- Está vendo? - tornou a voz.
Você é fraca.
Deixa-se levar na conversa, envolve-se no comentário dos outros, não toma posse dos seus pensamentos.
O que os outros dizem vale mais do que o que sente.
Se ouve algo de que não gosta, fica nervosa, irrita-se com facilidade e altera todo seu campo de energia, ficando vulnerável ao ataque de formas-pensamento negativas de encarnados e desencarnados.
- Faço tudo errado, mesmo - resmungou chorosa.
- Não. Não existe certo e errado.
Nada está errado.
Se eu afirmar que você age errado, estaria julgando.
Ora, quem sou eu para criticar ou julgar?
Sou um espírito como você, que também está preso ao ciclo das reencarnações, vivendo, experienciando, aprendendo.
Não quero apontar o dedo para ninguém.
Quero ajudar, esclarecer e confortar.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho de Lina e ela deixou que o pranto corresse livremente. Escureceu.
Lina não correu para o túmulo, perdida em suas dores.
A voz foi tomando forma.
Transformou-se em um homem alto, muito alto, com mais de dois metros de altura, elegante, porte atlético, rosto quadrado, furinho no queixo e olhos grandes, negros e profundos.
Vestia um conjunto preto, com uma capa elegante, também preta.
Ele a abraçou e Lina aconchegou-se naquele corpão que lhe transmitia confiança, serenidade e segurança.
Sentiu-se protegida.
Ele continuou a falar, agora com a modulação mais suave:
- Quero que você pare de sofrer, porque cada vez que você escuta o comentário do outro e se irrita, toda vez que vai ao extremo e se machuca, provoca dor em seu espírito.
Eu gostaria que você não sentisse dor, só isso.
- Como foi bom conversar com você...
- João.
- Prazer, João.
Com o tempo, Lina percebeu o quanto aquele canto do cemitério teve sua egrégora, ou sua nuvenzinha de energia, cada vez mais condensada com boas energias.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:42 pm

Os túmulos eram visitados, as orações se multiplicavam, a romaria era contínua.
Logo, alguém apareceu e agradeceu pela graça alcançada.
Depois outro foi lá e também agradeceu, deixando flores; outro alguém agradeceu e mandou confeccionar uma pedra de granito pelo milagre alcançado.
Surgiram outras pedras, outras placas, mais vasos de flores ao redor e sobre os túmulos.
Detalhe interessante:
havia um pedido para não se acenderem velas sobre os túmulos.
No lugar delas, eram - e ainda são - colocados copos com água.
A administração do cemitério cercou os túmulos, depois construiu uma capelinha e um velário.
Actualmente, as pessoas conhecem aquele local do cemitério como o cantinho das treze almas.
Muita gente faz suas orações, pede uma cura, um emprego, um relacionamento afectivo...
Os pedidos são os mais diversos.
Lina ficou ali por livre e espontânea vontade, trabalhando como voluntária, por trinta e oito anos ininterruptos.
Aprendeu de cor a oração das treze almas e juntava-se àqueles que oravam com fé:
- Ó minhas treze almas benditas, sabidas e entendidas...
Consolou mães que perderam filhos, orou por doentes terminais, chorou ao lado de maridos que perderam esposas, de esposas que perderam maridos, de amores que perderam seus amores; exultou de alegria com as graças alcançadas; aprendeu, com cada caso, dia a dia; reflectia sobre seu próprio processo de crenças e naturalmente passou a controlar seus impulsos, investindo em atitudes melhores.
Agora, não era mais impulsiva e sedenta de justiça e vingança como antes.
Gastara toda essa energia de impulsividade doando para as pessoas aflitas, desesperadas e necessitadas.
Esta foi a maneira que seu espírito encontrou de sentir-se útil, de ficar em paz consigo mesmo.
Ela trabalhava sob a supervisão de João Caveira, o chefe do cemitério e supervisor do crematório, e de dona Maria Quitéria, um espírito evoluidíssimo, de uma competência singular, respeitada e admirada no astral superior, e temida no astral inferior.
Maria Quitéria conta com sete assistentes.
Esses espíritos, que se revezam até hoje, anotam os pedidos, tentando interceder, ajudar, fazer o que for possível e que for o melhor para cada um, sem interferir no processo reencarnatório do indivíduo.
Não é tarefa fácil.
Há um número muito grande de espíritos envolvidos nesse processo, todavia, o facto é que funciona, porque se juntam a boa vontade dos espíritos com a fé do encarnado que pede.
Uma noite, Lina sonhou com Melissa.
Sentiu saudades, uma vontade louca de correr e abraçá-la, mas não pôde chegar perto dela.
- Porquê?
- Porque ela está grávida - esclareceu uma assistente de Maria Quitéria.
Grávidas não podem entrar aqui.
A energia daqui não faz bem ao bebé.
- Eu só queria abraçá-la.
Estou com saudade da minha amiga.
Melissa, ao longe, acenava e não conseguia andar, sentia-se paralisada.
Lina estava intrigada.
- Uma mulher grávida não pode frequentar um cemitério?
- Claro que pode.
Porém, no caso de ela dormir e seu perispírito sair para fazer uma viagem astral, podem ocorrer várias situações.
- Quais?
- A gestante pode sair para encontrar amigos encarnados, ir ao encontro de desencarnados queridos, e o espírito do bebé permanece no ventre dela, lá no corpo físico.
Pode acontecer de ela se desprender do corpo físico e carregar o bebé consigo, e ainda há o caso em que a mãe vai para um lado, e o espírito do bebé vai para outro a fim de receber energias mais subtis, dependendo dos objectivos propostos para a nova etapa reencarnatória do bebé.
- Interessante - tornou Lina, com o dedo no queixo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:42 pm

- Entretanto, percebo que Melissa veio sozinha.
O bebé dela não veio junto.
Então, por que ela não pode se aproximar?
Eu só queria lhe dar um abraço, mais nada.
- Melissa poderia entrar no cemitério, poderia andar pelas alamedas e até abraçar você - a assistente de Maria Quitéria era bem didáctica.
Todavia, você - enfatizou - não está bem, em termos energéticos.
- Eu sei - reconheceu Lina, cabisbaixa.
Tenho altos e baixos, meu estado de desequilíbrio emocional é patente.
- Nesse abraço, Melissa poderia pegar uma carga mais densa de energia sua e, apesar de uma boa limpeza energética, transmitir algum resquício dessa energia pesada para o bebé.
- Não quero prejudicar o bebé de minha amiga, de maneira alguma.
- Então... nada de abraços.
Dê apenas um aceno.
Um dia, lá na frente, poderão se abraçar.
Vamos - incentivou a assistente -, mande um beijo.
O que conta não é o acto, mas a intenção.
- Amo minha amiga.
- Aproveite e jogue neste beijo toda a vibração de amor que sente por ela.
Lina deixou escapulir uma lágrima.
Emocionada, fechou os olhos, levou uma das mãos aos lábios, beijou-a e devolveu no ar, em direcção a Melissa.
- Fique bem, minha amiga.
E Lina aprendia todo dia...
- Você tem capacidade de atrair boas energias para a sua vida.
Você tem potencial para isso, pode acreditar.
- Acho tudo meio complicado, dona Maria Quitéria.
Estou muito aflita com aquela senhora que pede pela mãe doente no hospital, mal à beça.
Estou preocupada com ela.
Maria Quitéria tinha a voz firme:
- Está aflita hoje, minha filha?
- Muito.
- Então não vai trabalhar.
- Como não? - Lina estava a ponto de indignar-se.
Aquela doente precisa de mim! Vai morrer!
- Com essa energia de preocupação que você tem, ela vai morrer rápido.
- Hã? Como assim?
- Se quer que ela viva, não trabalhe hoje.
Espere melhorar sua energia, ficar bem.
Depois ajude.
- Dona Maria Quitéria!
- Minha filha, preocupação é energia ruim, promove ligações negativas com as pessoas.
Sua aflição não vai ajudar no processo de cura da mãe dessa mulher.
Mande luz, amor para ela; aí sim você poderá ajudar.
- Só?
- Acha pouco? Amor não preocupa.
Se estiver preocupada, vai passar energia de preocupação.
Pensa que a doente não vai pegar isso? Pega sim.
- Então não vou ajudar, vou atrapalhar.
- É, vai atrapalhar.
Agora, se você fizer uma ligação positiva com a doente, poderá fazer uma doação para ela.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:42 pm

- É que a doença dela é terrível e... - Lina estava impressionada.
Maria Quitéria a cortou, seca:
- A doença é dela, é problema dela, é lição na vida dela.
Imagine-se ao lado dela lá no hospital, beijando-a e abraçando-a com muito amor, muita luz.
Se conseguir fazer isso, óptimo, senão, eu chamo um dos assistentes.
Lina emudeceu e fez sim com a cabeça.
Fechou os olhos e encostou a palma da mão na mulher ajoelhada ali aos pés do túmulo.
Em seguida, conseguiu ver a mãe da mulher na cama do hospital.
Sorriu e abraçou, mental e amorosamente, a doente.
Maria Quitéria assentiu.
- Isso. Aproveite que está no bem do seu coração, com esse sentimento de bondade, e espalhe energia do bem no ambiente, lá no hospital.
A doente vai sentir essa energia, esse sentimento puro de amor, imediatamente.
Lina fez tudo mentalmente.
Depois que terminou, Maria Quitéria ensinou, séria:
- Você não pode dar nada de bom se não estiver no bem.
O aprendizado era diário.
A cada dia, uma nova experiência de vida.
Lina sorvia cada palavra de Maria Quitéria com todos os sensores da alma ligados.
Seu espírito vibrava de contentamento.
Ela aprendia, sua consciência se ampliava, sua lucidez aumentava, e seus impulsos se abrandavam.
Maria Quitéria surpreendia, dia após dia:
- As pessoas vêm aqui porque ainda não entendem que têm força, que são mais fortes do que qualquer forma-pensamento, que são criadoras.
Você, Lina, é apenas um canal, um meio para que elas possam utilizar essa força criadora.
Na verdade, a própria pessoa realiza o milagre.
O poder de fé delas é que cura, transforma, faz as modificações necessárias para o crescimento delas mesmas.
- Começo a entender.
- Agora esse vai ser o seu exercício diário.
Toda pessoa que aqui chegar e pedir, você vai se aproximar dela e sussurrar em seu ouvido:
Você é mais forte do que qualquer forma-pensamento, porque você é criador.
E, se você é criador, pode criar coisas boas e impor com convicção, com firmeza.
Você vive de tudo em que acredita.
E Lina transmitia, todo santo dia, a frase para qualquer um que lá chegasse, fosse ao pé de um dos túmulos, fosse na capela das treze almas.
Chegou um ponto em que aquilo ficara tão forte em seu espírito que ela naturalmente acreditou que podia criar coisas boas e impor suas vontades com firmeza, sem extremos.
Um dia, Maria Quitéria a viu meditando, e um círculo brilhante formou-se ao redor, com uma iluminação intensa.
Ela fez sinal para um dos assistentes:
- Pode chamar Maruska.
Lina está pronta para partir.
Melissa escutou Amanda e os olhos marejaram.
- Tem certeza de que Luís Sérgio balbuciou este nome?
- Sim. Lina - Amanda foi categórica.
- Não pode ser.
Por que ele diria o nome dela?
- Eles não se conheceram, mãe? - perguntou Nádia.
- Que eu saiba, não.
Depois que Amelinha morreu, Luís Sérgio se separou de Rosana, conheceu Manuela, engataram namoro e foram morar juntos.
Quando veio a lei do divórcio, eles se casaram e você nasceu - contrapôs, encarando Amanda.
- Onde Lina entra nessa história? - Nádia estava curiosa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:42 pm

- Talvez seja esse o motivo pelo qual Orlando quer que você vá até o hospital - arriscou Amanda.
- Vou, claro.
Quando será o encontro?
- Selma ligou e disse que Neide virá amanhã.
O encontro deverá ser sábado, mamãe - interveio Nádia.
Melissa sorriu.
- Neide! Uma boa amiga.
Faz anos que não a vejo.
- Eu ligo avisando o horário - disse Nádia.
- Preciso ir. Tenho de pegar as crianças na escola.
- Vou junto - emendou Amanda. - Tenho que pegar meus filhos também.
Despediram-se. Melissa voltou para a sala, pensativa.
Apanhou um porta-retratos.
Lá estava ela, Daniel e os três filhos:
Maura, Nádia e Bruno, seu preferido.
Ela beijou o retrato e sentou-se, abraçando-se ao porta-retratos.
Sentiu uma saudade imensa de Lina.
Há quanto tempo não pensava na amiga querida?
Será que Lina morrera?
- Onde você se meteu?
Para onde você foi depois que deixou aquele bilhete?
Eram tantas perguntas sem respostas, fazia tantos anos que Lina partira que Melissa nem mais sabia o que pensar.
De repente, uma brisa suave tocou-lhe o rosto.
O espírito de Lina aproximou-se e parou próximo dela.
Maruska foi categórica:
- Nada de abraços e beijos, por ora.
Senão vai se emocionar.
- Estou querendo tanto abraçá-la!
- Depois que contar sua história, poderá encontrá-la em sonho, mais uma vez.
- Só mais uma vez? - queixou-se Lina.
- Sim. Depois, se tudo seguir conforme o combinado, você terá muitos anos ao lado dela.
- É verdade. Bruno e a esposa, num primeiro momento, concordaram em me receber como filha.
- Bruno é um bom moço.
Ele tem imenso sentimento de gratidão por você.
- Por mim? Eu nem o conheço - admirou-se Lina.
- Não se lembra de Estêvão, amigo espiritual de Melissa?
Lina espremeu os olhos para se lembrar.
- Estêvão?! Ele é Bruno?
- Sim. É um espírito que tem afinidade incrível com Melissa.
E garanto que será um óptimo pai.
Dessa vez você não vai ter do que reclamar!
Lina sorriu encabulada.
Soprou um beijo para Melissa e partiram.
Melissa levou a mão à bochecha e deixou uma lágrima de saudade escapar pelo canto do olho.
Na cidade astral, Lina estava contente.
Tentava entender e saber o que ocorrera naqueles anos todos que estivera ausente.
- Foram praticamente quarenta anos fora, trabalhando, dedicando-me a uma actividade gratificante, que enriqueceu sobremaneira meu espírito e o marcará positivamente pela eternidade.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:42 pm

- Por isso deixamos você lá, aos cuidados de João Caveira e Maria Quitéria - observou Maruska.
- Serei eternamente grata a esses espíritos.
Eles abriram a minha mente, serenaram meu coração.
Hoje sou outra, completamente diferente.
Conversaram mais um pouco.
Lina estava curiosa:
- Sei que Maura é a reencarnação de Penha.
- Por isso o relacionamento difícil dela com Melissa.
- E Nádia?
- Não faz ideia?
- Não.
- É Telma.
- A irmãzinha!
- Sim, Lina.
Telma e Amelinha tiveram uma curta encarnação.
Agora têm a chance de viverem muitos anos.
- Não posso deixar de me lembrar do Jurandir.
Maruska fez um gesto vago com a mão.
- Não cabe a nós julgar o comportamento de ninguém.
O dia que você tiver acesso às várias vidas de Melissa, Penha, Telma e Jurandir, vai entender muita coisa.
Em todo caso, não interessa o que aconteceu no passado.
- Não? Pensei que isso tivesse de ser valorizado.
- Não. De que adianta reviver situações dolorosas?
Importa entender o porquê de seu espírito atrair tal situação.
Se você precisa viver uma situação desagradável, é porque precisa aprender alguma coisa.
Ora, não é melhor parar, reflectir e ver o que a vida quer lhe mostrar?
- Simples assim?
- É. Porque a maioria das pessoas não para a fim de reflectir, não se dá um minuto para valorizar o que sente.
Você escuta o outro, mas não se permite escutar a si mesmo.
- Tem razão.
- Maura está namorando um advogado.
Vai engravidar.
Receberá Jurandir como filho.
Lina ficou pensativa por instantes.
Depois indagou:
- Dona Eugénia, seu Aderbal?
Cadé eles?
- Reencarnaram.
São filhos de Amanda.
- Amanda... que é a reencarnação de Amelinha, e Nádia, que, por sua vez, é a reencarnação de Telma.
- Por certo.
- E as filhas de Nádia, eu as conheço?
- Uma das meninas, sim. Bibiana.
Lina emocionou-se.
- Bibiana! Tão querida.
- A outra é a reencarnação de Estela, de quem você usou o nome por pouco tempo.
- Quanta mudança!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:43 pm

- A vida não pára - ponderou Maruska.
Nada fica parado.
Lina queria saber mais.
- Rosana ainda está viva, certo?
Solange também está encarnada?
Maruska riu.
- Solange vive a vida do jeito dela, de acordo com a verdade do espírito dela.
- Eunice e Hermes?
- Vivem numa cidade astral aqui perto.
Não têm planos de reencarnar, por enquanto.
Eunice procura ajudar Doroteia, primeira esposa de Hermes, que está reencarnada há trinta anos.
- Eunice é mentora de Doroteia?
- Mais ou menos.
Digamos que é uma amiga querida, que procura inspirar bons pensamentos, ajudar Doroteia a permanecer no caminho do bem.
- Dona Leonor?
- Está tentando ajudar Emílio.
Ele ainda está atormentado, culpa-se pelo que aconteceu com Paulo e sua família.
- Mas Emílio não matou ninguém.
- Não matou, contudo envenenou a cabeça de Benedita, mãe de Paulo.
Emílio não se perdoou e está perdido em um lugar de difícil acesso.
Leonor gosta muito dele e, com a ajuda de Ione, está empenhada em trazê-lo até nós, demore o tempo que for.
- Falando em Paulo...
- Ele e as irmãs voltaram ao planeta.
Reencarnaram no Rio de Janeiro, em uma comunidade.
Dona Benedita, a mãe, deverá reencarnar em breve.
Vai ser filha de Paulo.
- Será um relacionamento difícil.
Já vislumbro um relacionamento conflituoso entre pai e filha.
- Por isso é que há a bênção do esquecimento - considerou Maruska.
- Meus pais?
- Vivem no Haiti.
Lina surpreendeu-se.
- Haiti?
- Sim. Cícera, Jovelino, Donizete, Olério e Tenório.
Estão todos lá, vivendo novas experiências, aprendendo a dominar os impulsos.
- Sei o que é isso.
- O que atrapalha muito a conquista do domínio é a baixa valorização das pessoas.
Não aproveitam tudo aquilo que podem fazer por si mesmas, acabam por ter uma vida com consequências muito difíceis.
Assim como você, um dia eles também vão dominar os impulsos, deixar de ser extremistas, e sentirão a profundidade do espírito.
E, antes que me pergunte, eu já respondo:
eles sobreviveram ao terramoto de 2010.
- Foi um grande desencarne colectivo.
- Houve uma grande mobilização aqui do astral.
Muitos países juntaram-se para ajudar no resgate dos milhares de desencarnados.
- Eu aprendi da maneira mais difícil - tornou Lina.
Mas foi assim que aprendi, Maruska.
Com o erro e com o acerto de todo mundo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:43 pm

- Perceba como é importante melhorar a sua auto-estima, como é imperioso valorizar as oportunidades e trabalhar na sua firmeza, naquilo que é possível.
Faça as coisas da sua maneira, na persistência, entendendo que o melhor trabalho é aquele que você faz por si.
- Entendi. Antes, acreditava que precisava ser bem rígida comigo.
Não sabia diferenciar rigidez de firmeza.
- Explique melhor - incentivou Maruska.
- Nesses anos todos, ajudando as pessoas a atingir suas graças, seus milagres, percebi que uma pessoa rígida é teimosa, é dura.
Já uma pessoa firme aprende que ordem e disciplina não são forçadas; é o tipo de pessoa que persiste no bem.
Ninguém está empurrando o bem em você, mas é o bem que você sabe.
Persistir no bem não é teimosia, mas firmeza.
Persistir no bem é assumir a responsabilidade do melhor para você.
- Isso mesmo!
Viu como aprendeu? - parabenizou Maruska.
- E acordo todos os dias com a frase que aprendi com dona Maria Quitéria:
O bem não é para pensar, é para sentir.
Maruska concordou com a cabeça e reflectiu sobre as sábias palavras.
- Estou muito orgulhosa de você!
- Eu também.
- Está na nossa hora.
Chegaram ao quarto.
Orlando e Selma estavam ali, cada um de um lado da cama.
Lina comoveu-se ao ver Neide.
Bem envelhecida, mas ainda bem lúcida, porte elegante, cabelos brancos presos em coque, Neide permanecia na ponta da cama, mãos pousadas sobre os pés do doente.
Os olhos de Lina vagarosamente atingiram o rosto do moribundo.
Não havia ali nem um sinal do Luís Sérgio que ela conhecera.
- Tem certeza de que estamos no quarto certo?
- Sim. É ele.
Imagine um homem com oitenta anos de idade e doente há quatro, sendo consumido por uma doença cruel e irreversível.
Lina aproximou-se.
Neide percebeu sua presença.
Sorriu e mentalmente disse um oi.
- Oi, Neide - respondeu Lina.
Amanda e Nádia entraram no quarto.
Melissa veio logo atrás, acompanhada de Daniel.
Assim que Lina a viu, sentiu as pernas falsearem.
Maruska apoiou-a nos braços.
- Coragem e força.
Agora você não pode esmorecer.
- Eu me emociono.
É como se fosse minha irmã.
Queria tanto abraçá-la! Só isso.
- Quando terminarmos, poderá lhe dar um abraço.
Prometo.
- Está bem.
Melissa sentiu uma forte emoção.
Neide abraçou-a feliz.
- Quanto tempo, minha amiga.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 8:43 pm

- Fico feliz em vê-la.
Está tão bem!
- Você também, Melissa.
- Estou tão emocionada.
- Há alguém aqui no quarto que muito a ama.
Deseja falar.
- Quem?
Orlando e Selma estenderam as mãos.
Nádia ficou ao lado de Orlando, e Amanda ao lado de Selma.
Fizeram o mesmo e os quatro começaram a orar.
Daniel sentou-se numa cadeira no canto do quarto, em estado meditativo.
Neide começou a falar:
- Sou eu, Melissa. Lina.
Melissa deu um passo atrás.
- Lina?!
- Sim, querida. Sou eu.
Não estou mais no mundo há quase quarenta anos.
Morri no dia em que lhe escrevi o bilhete.
- Meu Deus! Como?
O que aconteceu?
- Morri no incêndio do Joelma.
Até Daniel levantou-se de um salto.
Estavam todos interessados.
Orlando e Selma, acostumados com essas manifestações, mantinham-se em prece.
Neide prosseguiu:
- Agora não importa saber o que eu estava fazendo lá.
Como eu usava os documentos de Estela, e você jamais teria imaginado que eu pudesse estar ali, não reclamaram meu corpo, não me identificaram, e eu fui enterrada como uma alma sem nome.
Fui resgatada, acolhida, e agora, passados tantos anos, estou me preparando para voltar à Terra.
Vim aqui porque, antes de voltar, precisava lhe dar a certeza de que havia desencarnado e ajudar Luís Sérgio a desatar os nós que o prendem ao corpo físico.
- Qual é a sua ligação com Luís Sérgio?
Que eu saiba, vocês não se conheceram nesta vida - disse Melissa, sinceramente.
Maruska levantou a sobrancelha, e Lina sorriu.
Não havia necessidade de entrar em detalhes.
O que importava, naquele momento, era serenar o coração de Melissa e ajudar no processo de desligamento de Luís Sérgio, mais nada.
Neide respirou fundo e respondeu, simplesmente:
- Nossa ligação vem de outras vidas.
Sou só uma amiga que quer ajudar, mais nada.
Vim porque precisava encontrá-la, dizer-lhe que já não estou mais no mundo dos vivos, que meu espírito está bem, e logo Luís Sérgio será recebido por nós de braços abertos.
Agora preciso ir.
- Já? - Melissa queria que Lina continuasse ali.
Mesmo sem vê-la, podia sentir a presença da amiga.
Lina sussurrou no ouvido de Neide e ela repassou:
- Lembre-se, Melissa, do que conversamos e prometemos há muitos anos:
Juntas, vamos vencer nossos
Agora preciso ir. Fiquem com Deus.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 8:36 pm

Neide exalou profundo suspiro e abriu os olhos.
Nádia, Amanda e Daniel a encaravam, esperando mais alguma palavra.
Melissa não continha a emoção.
- Era a Lina, sei que era.
Essa frase no final... é coisa nossa...
Daniel passou o braço pelo ombro dela.
- Pelo menos agora acabaram as dúvidas, meu amor.
- É. Acabaram - e, virando-se para Neide:
- O que mais Lina tem a dizer?
- Ela não vai dizer mais nada - e, encarando Luís Sérgio, sentenciou:
- Ele vai desencarnar daqui a alguns dias.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 8:37 pm

EPÍLOGO

Naquela noite, Luís Sérgio, mesmo inconsciente, dormiu bem.
Três dias depois, morreu.
Amanda já esperava, mas, como filha, sentiu bastante a partida do pai amado.
Depois de uns meses, estava com a vida seguindo seu rumo, cuidando da casa, do marido, dos filhos, cultivando e fortalecendo a amizade com Nádia e frequentando cada vez mais o centro espírita.
Melissa começou timidamente a frequentar o centro.
Antes ia com Nádia e Amanda.
Depois, Daniel quis ir junto.
Ele já poderia ter se aposentado, mas era apaixonado pela sala de aula.
Continuava activo, cuidando do cursinho.
Conversara com Amanda sobre a partilha dos bens, mas ela não queria saber.
Assinara uma procuração e deixara tudo nas mãos de Daniel.
Confiava muito no tio de coração.
A vida de Melissa mudou depois do encontro com Lina.
Ela teve a certeza de que a vida continua depois da morte do corpo físico.
Sonhou com Lina, viu a amiga bem, e Lina lhe disse que ia reencarnar.
No sonho, Lina adiantava que seria sua neta, mas, quando acordava, Melissa não se lembrava desse detalhe em particular.
- Acordou contente hoje, meu amor - tornou Daniel.
- Fiquei feliz.
Passei anos na dúvida, querendo ter notícias de Lina.
Sei que poderia ter contratado um detective, poderia ter ido além.
Mas estava no auge da carreira, Maura era muito pequena e nosso relacionamento já era meio tenso.
Em seguida nasceu Nádia e, perto dos quarenta, engravidei de Bruno.
Perdi a noção do tempo...
- A vida foi seguindo seu curso.
No fundo, a vida lhe transmitia serenidade, porque Lina estava bem, não corria perigo.
- Sim. Daí o inventário da casa da sua mãe ficou pronto, e suas irmãs, num acto de generosidade sem precedentes, doaram-nos a parte delas da casa.
Daniel deixou passar um brilho emotivo pelos olhos.
- Eunice e Solange foram espectaculares.
Como nunca quiseram ter filhos, acharam justo que as nossas crianças tivessem um lar de verdade, uma casa boa para crescer.
Viemos morar aqui, na escola de etiquetas de dona Leonor.
Quem diria?
Melissa sorriu e abraçou Daniel.
E prosseguiu:
- Foram tantos acontecimentos, tantas coisas acontecendo em nossa vida, e fui-me esquecendo da minha amiga.
Se eu soubesse que ela havia morrido, poderia ter feito alguma coisa, providenciado o reconhecimento de seu corpo, pelo menos.
Ela foi enterrada como indigente!
- Não se impressione.
Está se ligando aos conceitos do mundo.
Teve provas mais do que concretas de que Lina está viva em espírito.
A forma como morreu, como foi enterrada, não interessa.
O que importa é que ela está bem e diz que vai voltar.
Melissa aconchegou a cabeça no peito do marido:
- Tem razão, querido.
Eu aqui, presa nos conceitos do mundo, e Lina pronta para recomeçar uma nova etapa.
- Então! Deixe de pensar bobagens.
Agora vamos, estamos atrasados para a festinha de nossa neta.
- Vou terminar de me arrumar.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 8:39 pm

Melissa subiu as escadas, foi para o quarto arrumar--se para a festinha, sentindo o peito leve, a alma cantando de alegria, e com a certeza de que a vida continua.
No astral, Lina estava impaciente.
Andava de um lado para outro, esfregando as mãos, mordiscando os lábios.
Maruska apareceu e encarou-a, com seus olhos profundos e vasta cabeleira loura:
- Meu bem, o que foi?
- Luís Sérgio despertou.
Está consciente. Deseja ver-me.
- E por que tanta aflição?
- Estou nervosa.
Tantos anos se passaram.
- Qual é o problema?
- Não sei. Estou sentindo algo diferente, algo estranho.
- Como se o conhecesse bem antes de ele ser Luís Sérgio...
- É isso! - concordou Lina, aliviada.
Eu sei que o conheço de outra vida, mas não consigo me lembrar.
A nossa ligação em última encarnação foi forte e intensa.
Ficamos pouco tempo juntos.
Não pude me despedir.
- Agora terá um tempo para ficar ao lado dele, ajudá-lo a se recuperar.
- Não muito.
Devo partir daqui a um mês, começarei o treinamento para voltar ao planeta.
- Entendo.
Um mês para ficarem juntos é um bom tempo.
- Acha?
- Melhor que nada.
Vocês ficaram afastados trinta e oito anos.
Não acha que um mês juntos é um presente da vida?
- Se eu olhar por esse ângulo...
- Procure sempre olhar pelo lado bom, Lina, não importa a situação.
- Tem razão. Aprendi tanto lá no cemitério.
Vi muita gente aflita e aprendi que aflição não ajuda em nada.
- Pois bem. Acalme o coração.
Aqui não é um lugar para desequilíbrio energético.
- Sim.
Lina fechou os olhos, respirou fundo, procurou livrar-se dos pensamentos aflitivos.
Lembrou-se das orientações de dona Maria Quitéria, fez exercícios corporais, balançou o corpo, trouxe à tela mental cenas de paz, harmonia e, por fim, imaginou caindo sobre si uma luz branca, suave.
- Agora tem condições de visitar Luís Sérgio - observou Maruska.
Vamos. Ele a espera.
Lina assentiu e deu a mão para Maruska.
Caminharam por um bosque florido, perfumado.
Lina encantou-se com alguns pássaros que pulavam de galho em galho e, quando percebeu, estava diante de um campo aberto.
Parecia um parque. As pessoas passeavam alegres.
Algumas andavam de mãos dadas, outras sozinhas, outras em grupos.
Algumas estavam sentadas em toalhas estendidas sobre a grama verde.
O clima era ameno, o sol deixava o ambiente mais leve, agradável.
Maruska conduziu Lina até uma árvore.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 8:39 pm

Nela estava um homem sentado, com a cabeça apoiada nas mãos, imerso em seus pensamentos.
Ela fez sinal.
Lina aproximou-se.
Abaixou-se e fez:
- Psiu!
Luís Sérgio levantou os olhos e exclamou surpreso:
- Lina!
- Como vai, meu querido?
Ele não disse nada.
Abraçou-a, e os dois beijaram--se com ardor.
Luís Sérgio falava com a voz que a paixão tornava rouca:
- Não tem ideia de quanto tempo fiquei à sua espera!
- Muita coisa aconteceu...
E Lina contou toda sua história.
Luís Sérgio emocionou-se, chorou e também contou a sua.
Falou sobre a morte de Amelinha, sobre a separação, depois contou sobre o desespero por não encontrar Lina, o desânimo, o segundo casamento, o nascimento de Amanda, a viuvez, a doença.
- Agora ficaremos juntos!
Nada vai nos separar.
- Não. Não é assim, querido.
- Como não?
- Eu vou voltar.
Preciso voltar.
- Vamos ficar separados? De novo?
Maruska os interrompeu:
- Não. Dessa vez, não ficarão separados.
Quer dizer, há grande chance de ficarem juntos.
- Mas, se Lina vai voltar... não estou entendendo - objectou Luís Sérgio, confuso.
- Ela precisa voltar porque já está na hora.
Você acabou de chegar, tem muito o que reflectir, tem toda uma vida para rever.
Se tudo correr bem, quem sabe daqui a uns anos você não tem a oportunidade de voltar também?
- É?
- Sim, Luís Sérgio.
O mundo hoje está bem avançado nos costumes.
As pessoas não levam mais em consideração a idade, a cor da pele, a condição social - ponderou Maruska.
Houve uma evolução na maneira de pensar.
As pessoas têm cada vez mais se aproximado por afinidade, por gosto, por livre e espontânea vontade.
Por que uma mulher mais madura não pode relacionar-se com um rapaz mais jovem?
- Tem razão. É verdade.
- E quem disse que Lina vai reencarnar como mulher e você como homem?
- Isso também pode mudar?
- Tudo pode mudar, meu querido.
O corpo humano se adapta às necessidades do espírito.
Nada mais, nada menos.
- E Manuela gostaria de revê-lo - tornou Lina, serena.
- Manuela...
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 8:39 pm

- Não se preocupe, Luís Sérgio.
O espírito de Manuela é avançado, está envolvido em outras actividades, em movimentos sociais.
Não tem planos para reencarnar.
É uma amiga que o quer muito bem; torce para que você e Lina se acertem.
Virá visitá-lo e vocês poderão conversar bastante - ele enrubesceu e Maruska prosseguiu:
- Não fique envergonhado.
Pode continuar tecendo planos para reencarnar em breve e reencontrar-se com Lina.
- Tenho muito o que aprender - ele não sabia o que dizer.
- Você é lúcido, inteligente.
Aprenderá rápido.
Maruska olhou para o horizonte e considerou:
- Precisa voltar para seu quarto, Luís Sérgio.
Em breve, marcaremos nova visita.
O casal levantou-se e um enfermeiro veio apanhar Luís Sérgio.
Ele se despediu de Maruska e abraçou-se a Lina.
Beijou-a com ardor.
- Logo voltaremos a nos ver.
Eu a amo.
- Também o amo.
Despediram-se, e Luís Sérgio partiu, acenando para as duas.
- Ele remoçou bastante - observou Lina.
- Sim, mas o perispírito foi bastante afectado pela doença.
Por isso precisará ficar aqui alguns anos.
Não poderá partir por enquanto.
- Entendo.
Foram caminhando e voltaram pelo bosque.
Lina sentiu o aroma delicado das flores e perguntou:
- Estava aqui matutando e gostaria de saber a minha ligação com Luís Sérgio.
Não consigo me recordar.
Por quê?
- Porque sofreram muito em última vida, antes desta passagem pelo Brasil.
- Eu bloqueei a memória. É isso?
- Sim. Mas vou lembrá-la, rapidamente.
Voltemos até o Império Russo, em meados do século 19.
Lina estremeceu.
Seu corpo sentiu um formigamento.
Maruska prosseguiu:
- Você, Melissa e Rosana eram irmãs.
Você e Melissa eram inseparáveis, enquanto Rosana era a irmã preterida, indesejada.
Rosana conheceu um jovem soldado.
Ivan era um moço bem-apessoado, e eles ficaram noivos.
Você se apaixonou por Ivan e fez de tudo para ficar com ele.
Melissa tentou dissuadi-la, mas você não quis escutá-la.
Arquitectou, sozinha, um plano para afastá-lo de Rosana.
Contratou um casal de camponeses e prometeu-lhes uma grande quantia em dinheiro para sequestrarem Rosana.
No princípio eles não queriam, mas precisavam do dinheiro para comprar a terra dos latifundiários, por conta da reforma camponesa.
O plano não deu certo e, por um descuido seu, Rosana morreu num incêndio.
Você pôs a culpa no casal, eles foram condenados e presos.
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