Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:20 pm

- É um motivo para festejar.
Agora você vai ganhar um irmãozinho ou, quem sabe, uma irmãzinha.
Deveria estar feliz - tentou contemporizar Eugénia.
Ela também não tinha gostado de saber da novidade, no entanto, não queria que Melissa se voltasse contra a mãe.
Contudo, Melissa estava possessa.
E procurou mudar o assunto:
- Gostei muito da Lina.
- Quando ela chegou, confesso que não fui muito simpática.
Imagine seu padrinho trazendo a tiracolo uma garota magra, encardida, vinda lá do sertão.
Fiquei receosa.
Depois, com o passar do tempo, ela foi me cativando.
É uma boa moça.
- Ela tem família?
- A família dela morreu todinha.
Podia acontecer o mesmo com a minha, Melissa pensou, mas não disse.
- Ela vai viver aqui?
- Sim. Aderbal está providenciando o registo dela.
Acredita que Lina não tem certidão de nascimento?
- Por que vocês não a adoptam? - sugeriu Melissa.
Eugénia remexeu-se nervosamente na cama.
- Não sei.
- Tia, a Estela morreu, e essa menina apareceu na porta da sua casa.
- Eu a acolhi.
Não preciso ser mãe dela.
- Por que não?
Eu adoraria ser sua filha.
Eugénia emocionou-se.
- Verdade?
- A senhora é adorável.
Já a minha mãe...
- Penha sempre foi voluntariosa.
Deu muito trabalho desde sempre.
- Não tem um pingo de juízo.
Casou-se com um pé-rapado e agora, depois de anos, resolveu engravidar...
Eugénia queria concordar, porém não queria criar confusão na cabeça da moça.
Argumentou simplesmente:
- Você não gosta do Jurandir.
- Não! - exclamou com uma convicção desconcertante.
- Ele é seu padrasto.
É como se fosse seu pai.
- De maneira alguma! - protestou Melissa.
Nunca conheci meu pai e não é por isso que tenho de aceitar Jurandir.
Ele não é e nunca vai ser meu pai! Nunca!
Eugénia arregalou os olhos.
Jamais vira Melissa falar daquela forma.
Procurou contemporizar.
Levantou-se da cama, pegou a mala e colocou-a sobre uma cómoda.
Abriu-a e, em silêncio, foi apanhando peça por peça e colocando-as nos cabides.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:20 pm

A simpatia entre Lina e Melissa foi imediata.
A amizade sincera brotou espontânea e natural.
Depois do almoço, Eugénia e Aderbal foram descansar na varanda.
Melissa convidou Lina para ir ao quarto.
- Posso ir, dona Eugénia?
- Claro!
- Tenho roupa para passar.
- Querida - Eugénia falava de maneira carinhosa -, você não é nossa empregada.
Ajuda nos afazeres domésticos, mas não é empregada.
Aproveite a companhia de Melissa.
Lina abriu um sorriso, e Melissa puxou-a pela mão.
- Venha. Trouxe algumas revistas.
Tenho uma só com as fotos das misses.
- O que é isso?
- É um concurso de beleza que elege, obviamente, uma representante da beleza da mulher brasileira.
A eleita vira miss.
- Tem tanta mulher bonita neste país.
Só uma é eleita?
- Só uma. Eu tenho alguns posters da Miss Brasil do ano passado, Terezinha Morango.
Lina riu.
- Uma mulher com fruta no nome!
- É - concordou Melissa, também rindo.
Ela é linda. Venha ver.
As duas entraram no quarto e encostaram a porta.
- Viu como elas estão se dando bem?
- Aderbal, eu nem acredito - respondeu Eugénia.
- Eu sempre acreditei.
Lina é um encanto de pessoa, e Melissa tem um bom coração.
- Teremos dias de felicidade nesta casa.
- Notei tristeza nos olhos de Melissa.
Ela está muito sensível.
- É natural. Penha está grávida.
É uma mudança e tanto para Melissa.
- Não sei, não.
Viu como Melissa quase não me abraçou?
- Já disse, meu bem.
É uma grande mudança.
A chegada de um bebé muda a rotina de uma casa.
Melissa é quase uma mulher.
Acho que tem medo de tornar-se uma babá ou coisa do tipo.
Porque, você sabe, Penha é bem folgada, pode deixar a criança aos cuidados de Melissa e sair com Jurandir pelo mundo.
- Pode ser - considerou Aderbal.
Fico contente que ela vá ficar aqui ao menos durante esta semana.
Vai fazer bem a ela e também a Lina.
- Parece que se conhecem há tempos.
- É verdade - Aderbal aproveitou o momento.
- Será que não podemos começar a reavaliar a situação de Lina?
- Como assim?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:20 pm

- Adoptá-la seria a primeira opção.
É uma menina adorável, sem família.
- Mas...
Aderbal a cortou com amabilidade:
- Querida - ele se aproximou e a abraçou -, até hoje eu também não superei a morte de Estela.
E creio que nunca irei superar.
Contudo, o tempo passa, a vida segue, e não temos opção a não ser rezar para que ela esteja bem, onde quer que esteja, e Deus continue nos dando forças para viver com um pouco de paz e serenidade.
Eu e você conseguimos driblar a dor e, do nosso jeito, temos levado nossa vida.
Embora eu seja céptico em relação à espiritualidade, você é católica.
- Briguei com o padre e deixei de ir à missa depois que Estela morreu.
- Você é cristã.
Acredita que não existem coincidências na vida.
Por que Lina apareceria em nossa vida agora?
Não vê que é um presente de Deus?
- Não é presente coisa nenhuma - exasperou-se.
- Ela acabou caindo aqui porque você teve pena.
- Não é bem assim.
- É sim - Eugénia tremia nervosa.
Você tem a consciência pesada.
Viu o que não quis, agora sente-se na obrigação de fazer algo por ela.
- É só uma mocinha.
Como nossa filha.
- Ela não é a Estela.
Aderbal aproveitou para desviar o assunto.
Pensou rápido e emendou:
- Não. E nem quero que ela substitua nossa filha ou apague Estela do nosso coração.
Nunca iremos esquecer Estela.
Ela sempre será o anjo bom que Deus nos emprestou por um período.
Devemos agradecer porque fomos felizes em tê-la como filha, mesmo por pouco tempo.
Agora temos a felicidade de poder ensinar a Lina tudo o que queríamos ensinar à nossa filha e não pudemos.
- Tenho medo, meu bem.
- Medo de quê?
- De que algo ruim possa acontecer a essa menina.
- Um raio não cai duas vezes na mesma casa.
Se Deus a mandou para cá, não vai querer que ela nos deixe.
- E se aparecer um parente e levá-la embora?
- Pelo que soube, ela não tem ninguém.
- Nordestino tem sangue quente.
Você sabe bem do que estou falando.
Tenho medo de que apareça aqui...
- Um matador? - completou Aderbal, dando risada.
- Não ria de mim!
- Não estou rindo de você - Aderbal a beijou e apertou-a de encontro ao peito.
Você é minha esposa, a mulher que amo.
Foi uma mãe fantástica.
Os olhos de Eugénia brilharam emocionados.
- Fiz o possível para ser uma boa mãe.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:20 pm

- E pode voltar a ser.
O amor de mãe não acaba nunca.
- Tem razão.
- Que tal darmos um pouco de amor para Lina?
Tenho certeza de que nos fará um bem imenso, além de fazer um grande bem a ela também.
- Está certo - Eugénia falou enquanto enxugava as lágrimas.
Você disse que havia duas opções.
Uma era adoptar Lina.
- Sim.
- E a outra?
Aderbal mordiscou os lábios, apreensivo.
Não sabia qual seria a reacção da esposa.
Permaneceu pensativo por instantes e, antes de dizer alguma coisa, Eugénia segurou a mão dele e sugeriu:
- Conversar com Hermes.
Talvez fique mais fácil registá-la como filha.
- Como assim?!
O que foi que disse?
- Registar Lina como nossa filha.
- Será que escutei direito?
Eugénia falava com modulação de voz suave:
- Não temos filhos.
Essa menina não tem certidão de nascimento, os pais morreram.
Em vez de adoptá-la, podemos registá-la como filha legítima.
- Tem certeza?
Você faria isso? - indagou, estupefacto.
- Sim. Em todo caso, vou esperar passar a semana.
Quero ver bem de perto o relacionamento entre Lina e Melissa.
No domingo de Páscoa, eu lhe direi o que faremos.
Aderbal beijou-a inúmeras vezes.
- Não sabe quanta felicidade está me dando.
- Claro que sei.
E vou cobrar juros. Muitos juros!
Os dois riram, e Eugénia prosseguiu:
- Vamos nos atrasar para a missa.
- Você deixou de ir e...
Eugénia pousou delicadamente os dedos nos lábios do marido.
- Disse bem: deixei. Agora vou voltar.
E hoje é Domingo de Ramos.
Quero trazer uns ramos abençoados pelo padre.
Quero que o amor, a paz e a protecção reinem nesta casa.
Que nós dois possamos ser, de novo, pais maravilhosos!
No decorrer da semana, Lina e Melissa viviam grudadas.
Faziam tudo juntas e, no meio da semana, já trocavam confidências, mas Lina ainda não se sentia confortável em falar sobre as mortes de Olério e Tenório.
Preferia esperar.
Eugénia apareceu no barracão e informou-as de que iria fazer compras na vendinha ali perto.
Voltaria logo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:21 pm

Melissa esperou a tia fechar o portão e disse a Lina:
- Estamos sozinhas.
Podemos conversar.
- Você me disse que tem um assunto sério para me contar - tornou Lina.
- Sim. Mas você é muito novinha.
Não sei se entenderia.
- Catorze anos?
Não conta a vida que tive e o que passei até agora?
- É verdade.
Você é bem madura para a idade que tem.
- Pode se abrir comigo.
Sempre quis ter uma irmã para conversar e dividir os assuntos.
Os olhos de Melissa marejaram.
Ela começou a tremer.
- O que foi? - indagou Lina, assustada.
- É terrível falar sobre isso, mas não tenho com quem desabafar.
- Desabafe comigo.
Estou ouvindo.
- Meu padrasto.
- O que tem ele?
Melissa atirou-se nos braços de Lina.
Enquanto as lágrimas desciam insopitáveis, seu corpo sacolejava.
Depois de acalmar-se um pouco, ela confessou com amargura:
- Jurandir abusou de mim - fez um sinal com as mãos e apontou para o ventre.
Lina entendeu.
Levou a mão à boca.
- Meu Deus!
Ele faz essas coisas de marido e mulher com você?
- Fez. Pensei até em me matar.
- Não diga isso! Por favor.
- O que fazer?
Estou perdida, Lina.
- Você conversou com sua mãe?
Melissa deu uma risada irónica, melancólica, triste.
- Tentei. Quando comecei a contar, mamãe me deu um tapa na cara e disse que eu estava louca para acabar com o casamento dela.
Não acreditou em mim.
Falou que eu inventei tudo para afastá-la de Jurandir.
O tempo foi passando, ele parou de me amolar.
Mas o que mais me dói são os olhares que ele me lança.
Sinto náuseas só de pensar.
- Precisamos conversar com dona Eugénia e seu Aderbal.
- Não, Lina. Não faça isso!
- Por que não?
- Tenho medo e vergonha. Muita vergonha.
- Não pode ter vergonha.
Não fez nada de mau.
Você foi violentada.
Esse cão dos infernos não pode ficar impune.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:21 pm

- Não quero contar nada para os padrinhos.
Agora não.
- Será?
- Você vai me prometer que não vai falar nada para os padrinhos. Jura?
- Juro. Claro. Mas não seria melhor...
Melissa a cortou:
- Não! Minha mãe é tão ardilosa que pode fazer a cabeça deles, e como me ameaçou da última vez...
- O que sua mãe disse?
- Se eu continuasse inventando essas barbaridades, ela me internaria num sanatório.
- Não!
- É, Lina. Estou sem saída.
Se eu contar, ela é capaz de me internar para sempre num sanatório.
- Quando esse verme se aproximar, não pode gritar?
- Ele fazia isso comigo quando mamãe saía.
Depois só ficou nos olhares maliciosos.
- Como assim?
- Ah, quando me vê, ele passa a língua pelos lábios, me manda beijinhos, pisca...
Já pedi para ele parar.
- Converse novamente com sua mãe.
- Se mamãe me ameaçou com a internação em sanatório, Jurandir jurou que, se eu abrir o bico, ele mata mamãe e o bebé que está para nascer.
- Ele ama sua mãe.
Não seria capaz de matá-la.
Nem o bebé. Isso é sacrilégio.
- Como não?
Ele é um parasita.
Uma sanguessuga.
Não trabalha, é sustentado por ela.
Finge que tem problema nas costas e passa o dia no bar, jogando conversa fora.
- Se ele é sustentado por sua mãe, não pensaria em matá-la.
Está querendo assustá-la.
- É. Pode ser.
Mas de que adianta?
Se a minha mãe não acredita em mim, quem iria acreditar?
- Eu acredito.
E tenho certeza de que muita gente iria acreditar em você e ficar com raiva desse infeliz.
As duas se abraçaram, e Melissa ficou um pouquinho mais calma.
- Não quero voltar para casa.
- Precisamos fazer alguma coisa, Melissa.
Ele não pode ficar solto cometendo esses desatinos.
- Fico imaginando uma maneira de sumir.
- Sumir?
- É. Perto do Natal vou completar dezoito anos.
Serei maior e vou cuidar da minha vida.
- Não tem medo de seu padrasto ir atrás de você?
- Não. Ele nunca mais vai tocar o dedo em mim.
- Isso. Defenda-se.
Faça como eu.
Lina contou sobre a morte dos pais, do irmão.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:21 pm

Depois tomou coragem e relatou a terrível viagem ao lado de Olério e Tenório.
- Eu tive de me virar.
Nunca pensei que pudesse chegar a matar.
Mas era eu ou eles.
- O seu sofrimento é bem maior que o meu.
- Sofrimento não se mede - respondeu Lina, com voz firme.
Cada um precisa passar por determinadas situações de vida a fim de que o espírito se fortaleça para viver a plenitude.
Melissa arregalou os olhos.
Era nítido que havia alguém falando por meio da amiga.
- Juntas, vamos vencer nossos medos.
- Isso, Melissa!
Vamos vencer.
E eu vou defendê-la.
Pode acreditar.
Melissa abraçou-se a ela.
- Obrigada.
Mil vezes obrigada.
- Eu juro que se encontrasse esse... qual é o nome do infeliz?
- Jurandir - balbuciou com desprezo.
- Se eu encontrasse esse Jurandir na minha frente, juro que capava e depois matava.
Ou só capava. Mais nada.
Só para ele aprender a nunca mais abusar de gente inocente.
Patife. Ordinário.
Melissa não percebeu, mas naquele momento Lina já abria e anotava em seu caderninho mental o nome de Jurandir.
Poderia levar um mês, um ano ou uma década, mas um dia ela iria cruzar o caminho dele e dar-lhe uma lição.
Ah, se esse patife voltar a mexer com Melissa, juro que vou atrás dele pensou Lina.
Melissa estava envolvida na emoção.
Não percebeu o estado de Lina e considerou:
- Desculpe-me por me abrir.
Eu não queria falar sobre isso, mas estava a ponto de explodir.
- A sua confissão deu oportunidade para que eu também pudesse me abrir.
Só contei esse episódio da morte dos assassinos para seu Aderbal, quando ele me deu carona na estrada.
- Fique sossegada.
Será um segredo nosso. Só nosso.
- Isso mesmo - ajuntou Lina.
Pensativa, ela considerou:
- E se for conversar com um padre?
- De que vai adiantar?
Um padre não pode revelar o que se diz em uma confissão.
Lina abraçou-a novamente.
- Eu estou aqui para ajudar você.
- Obrigada.
Melissa afastou-se e enxugou as lágrimas.
Lina sugeriu:
- E se fôssemos viver juntas?
- Você quer viver comigo?
- Sim. Mas como iríamos nos virar?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:21 pm

- Estou guardando o dinheiro da mesada mais uns trocos que junto quando ajudo a dona do bar perto de casa.
É pouco, mas é alguma coisa.
- E fazer o quê, Melissa?
- Ir embora.
Pegar o trem daqui até a Bahia.
- Nem pensar!
- Por quê?
- Não quero mais ir para cima - Lina fez um gesto com os dedos.
- Podemos ir para Salvador.
É uma cidade grande, acolhedora.
- Não quero mais ir para cima.
Daqui, só para os lados.
Ou para baixo.
- Para o Rio de Janeiro ou para São Paulo. Pode ser?
- São cidades muito grandes, pelo que sei.
São cheias de oportunidades!
Gosto de barulho.
- Eu arrumo um emprego, a gente vai morar numa pensão para moças.
- Boa ideia.
- Quem sabe eu não ganhe um concurso de beleza?
- Gostaria de ser miss?
- Talvez - Melissa suspirou.
Miss Brasil ou, quem sabe, Miss Universo.
Ou até ser manequim.
- Você tem tudo para ser miss.
Eu poderei ser sua dama de companhia.
O que acha?
- Seria fantástico.
Nós percorreríamos o mundo, frequentaríamos festas, bailes, conheceríamos o universo do glamour, da riqueza, da sofisticação.
- E dona Eugénia e seu Aderbal?
- A gente continua vindo na Páscoa.
Eles são como pais para mim.
Em todo caso, pense nisso.
É a única maneira de eu me livrar de Jurandir.
Para sempre.
Lina abraçou-a com força.
- Conte comigo.
E, se Jurandir voltar a encostar um dedinho que seja em você, por favor, me avise.
- Sim.
Lina enfatizou, olhos duros:
- Você me avisa mesmo?
- Sim. Só tenho você para me ajudar, Lina.
Se Jurandir voltar a me amolar, eu a avisarei.
- Obrigada.
Depois de três reuniões espirituais na casa de Leonor, Eunice aceitou a possibilidade de mudar de residência.
- Mas tem de montar o quarto do mesmo jeito na outra casa. Igualzinho.
- Pode deixar, mana - garantiu Daniel, com suavidade na voz.
Daniel era o filho do meio e, agora, o homem da casa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:21 pm

Nascera três anos depois de Eunice e formara-se em contabilidade.
Enquanto aguardava para fazer a prova para o Banco do Brasil, cuidava de quitar, dentro do possível, as dívidas que o pai contraíra antes de morrer.
Emílio, vindo de tradicional família de cafeicultores do Estado, havia trocado o plantio de café pelo de algodão com a quebra da Bolsa de 1929.
De lá em diante, meteu-se numa sucessão de maus negócios.
Até que um amigo lhe propôs mudar radicalmente o escopo dos negócios e partir para o ramo do entretenimento:
- O negócio é cassino, Emílio!
Cassino é que dá dinheiro.
Com uma filha de três anos e com outro filho prestes a nascer, Emílio estava desesperado.
- Calma, meu bem - tentou tranquilizá-lo a esposa.
- Vai dar tudo certo.
Emílio ganhou convite e foi à inauguração do Cassino da Urca, no Rio de Janeiro.
Ficou maravilhado.
Depois conheceu o Atlântico, em Santos, que já era famoso e existia havia mais de uma década.
Daí quis montar o maior e mais luxuoso cassino da América Latina, em São Paulo, igual ao da Urca.
Só que faltava dinheiro.
Emílio conseguiu, com um amigo director, passar numa prova para o Banco do Brasil.
Dava para manter as despesas em dia, mas era muito pouco.
Ele foi se arrastando nessa vida até o comecinho da Segunda Guerra.
Logo depois, Leonor engravidou de novo.
- Agora eu tenho de arriscar - decidiu.
Procurou um amigo, propôs o negócio.
O investidor gostou da ideia.
Emílio colocou o casarão da família como garantia, deu outros bens, tudo para que seu sonho de grandeza se realizasse.
O cassino foi construído num terreno enorme, comprado a prestações, numa região nobre da cidade.
Emílio não economizou nos acabamentos, tampouco na decoração.
Tudo veio de fora do país.
O luxo reinava desde o ralo da pia dos sanitários até os lustres de cristal dependurados nos salões.
Levou mais de cinco anos para ficar pronto.
No meio da obra, um dos sócios quis desistir, houve uma confusão e, como não tinha dinheiro, ele passou para Emílio a escritura de uma casa no interior de Minas.
Sem saber bem o porquê, Emílio tratou de registar o imóvel em nome dos três filhos.
E esqueceu o documento em uma das gavetas do escritório de casa.
Faltando um mês para a inauguração, Emílio não contava com um detalhe que arruinaria não só a sua vida financeira, mas a sua vida como um todo: o presidente da República simplesmente decretou o fim dos jogos de azar e acabou com os cassinos da noite para o dia. Assim, num estalar de dedos, num simples decreto.
Emílio afundou-se em dívidas, perdeu tudo.
E escondeu da família, pois considerava uma vergonha que sua mulher e seus filhos soubessem a verdade.
Fez um monte de empréstimos em bancos, pegou dinheiro com agiotas.
Ocultou o quanto pôde, omitiu o facto por três longos anos, até ter o ataque cardíaco e cair duro no chão do banheiro de casa.
O coração de Emílio não aguentou tanta carga de emoção e pifou.
Além da crise financeira, existia ainda o drama de Eunice, a filha mais velha, que o atormentava havia um ano, aumentando ainda mais as suas aflições.
Outro quiproquó que será desenrolado aos poucos, ao longo desta história.
De tudo o que aconteceu, Emílio só se esqueceu de um pequeno detalhe: a vida não termina depois da morte do corpo.
E continuava atormentado... e atormentando...
Olhos verdes e sorriso sempre cativante, Daniel entrou na sala e anunciou:
- Mamãe, vamos nos mudar neste fim de semana!
- Tem certeza de que aquela casa em Teófilo Otoni é nossa?
Está tudo dentro da lei?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 24, 2016 8:22 pm

- Sim. Não há problema algum.
A casa é nossa.
Ninguém vai nos tirar de lá.
Fique sossegada.
Leonor abraçou-se ao filho e deixou uma lágrima escapulir pelo canto do olho.
- Eu quero ir embora de São Paulo.
Não quero mais ficar aqui.
Não me sinto mais fazendo parte desta cidade.
Tenho a impressão de que não conheço ninguém.
- Depois que perdemos tudo, parece que não somos nada, não é?
- Não é verdade - ela protestou.
- Eu sei disso, mamãe.
Mas é a verdade.
Pode até incomodar, porém é maravilhosa.
Leonor não entendeu.
Secou a lágrima com as costas das mãos e encarou o filho.
- O que está querendo me dizer, Daniel?
- A verdade machuca, mas cicatriza.
A mentira pode não machucar na hora, mas depois dói e nunca cicatriza.
Aferida fica lá, purulenta, aberta, doendo sempre.
A mentira nos aprisiona, nos paralisa, enquanto a verdade pode até nos assustar, mas nos move para a frente, porque nos dá dignidade, nos empurra em direcção a Deus!
- Que palavras lindas, meu filho!
- Aprendi com a Solange.
- Sua irmã é a caçula e tem sido o pilar desta casa.
A princípio, briguei muito com ela, porquanto suas ideias espiritualistas eram muito modernas para a minha mente.
Depois passei a compreender melhor muita coisa e, se não fosse ela ao meu lado, não sei se aguentaria tantos dissabores.
- Aguenta, dona Leonor.
É uma mulher forte.
Sempre a admirei, não só pela beleza e elegância, mas também pela força que tem.
Leonor enrubesceu.
- Verdade?
- Sim. Quando papai era vivo, eu notava que a senhora tentava até se impor, tentava de certo modo transmitir suas ideias, tentava ajudá-lo, mas papai era turrão e não lhe dava ouvidos, talvez subestimasse a sua inteligência.
Deu no que deu - Daniel levantou os ombros - e agora estamos tentando sair desse lamaçal.
- Teremos uma vida com privações.
Você e suas irmãs foram criados no luxo, no conforto.
Não é justo que agora tenham de passar por necessidades.
- Qual é o problema?
Eu não vejo a situação dessa forma.
Estou feliz, porque me sinto útil.
Ao menos estou fazendo algo, descobrindo, a cada dia, o quanto tenho de potencial aqui latente, pronto para ser bem usado - ele levou a mão ao peito e sorriu.
- Está mais amadurecido.
Solange também.
Eu tenho muito orgulho de vocês - Leonor emocionou-se.
Daniel abraçou-a e beijou-a várias vezes no rosto.
Ione entrou na sala com uma bandeja e xícaras.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:55 pm

- Trouxe um chá para a senhora.
- Obrigada, Ione.
Levou chá para Eunice?
- Deixei a bandeja sobre a mesinha ao lado da poltrona.
Mas ela está lá, sentada, fitando o nada.
Pelo menos hoje me perguntou quando vamos nos mudar.
- Ela perguntou? - um brilho de emoção perpassou os olhos de Leonor.
- Sim, senhora.
Notei uma pequenina mudança no semblante.
Depois do último encontro com seu Orlando e a menina Selma, Eunice está um pouco diferente.
- Eu também notei, mamãe - ajuntou Daniel.
- Eunice está mudando e vai mudar ainda mais.
- Tomara.
Fico tão nervosa, eu me sinto tão insegura.
- Por quê?
- Eunice é a filha mais velha, deveria estar casada, com filhos, cuidando da família.
Está com trinta anos e nada.
Uma vida perdida.
- Não fale assim.
Ione fez sinal e saiu.
Daniel fez a mãe sentar-se e sentou-se a seu lado.
Pegou na mão de Leonor e disse com ternura:
- Cada um cresce do seu jeito, mamãe.
Eunice passou por experiências muito desagradáveis, e nós vamos ajudá-la a superar a dor e a perda.
Veja pelo lado positivo:
vamos nos mudar, sair daqui e ir para o interior, outra cidade, outro Estado.
Quem sabe essa mudança não será benéfica para ela?
- Não será! - uma voz grave fez-se ouvir na porta da saleta.
Daniel e Leonor voltaram os rostos para a porta e arregalaram os olhos.
Eunice estava ali, parada, fitando o nada, com a modulação de voz alterada, meio pastosa.
Os olhos eram frios e endurecidos.
Os braços estavam caídos ao longo do corpo.
- Nada vai fazer com que eu mude de ideia.
Eunice não pode sair daqui.
Se sair, eu perderei o controle sobre ela.
Isso não pode acontecer, está fora de meus planos.
Leonor balançava a cabeça, confusa.
Não entendia nada.
- Eunice, o que está falando?
Por que diz essas coisas?
- Irmã - Daniel levantou-se do sofá eufórico -, você finalmente saiu do quarto.
Há quanto tempo não descia?
- Estou dando um aviso - Eunice continuava fitando o nada, como se não houvesse ninguém na sala.
Estou sendo amiga.
Vocês podem ir embora, mas ela fica.
Não quero mais que venham com grupinhos de oração.
Se voltarem a trazer gente rezando aqui dentro, eu acabo com esta casa.
Não estou para brincadeira.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:55 pm

- Eunice - Leonor estava pálida -, isso são modos de falar com seu irmão?
- Mãe, acho que Eunice não é... a Eunice!
Leonor meneou a cabeça de maneira negativa.
- Não entendi.
Solange entrou na saleta, esbaforida.
Procurou recompor-se.
Logo atrás vinham Orlando e Selma.
- O que está acontecendo? - indagou Leonor.
- Eunice incorporou o espírito de seu obsessor.
Um ponto de interrogação desenhou-se no rosto de Leonor.
Daniel franziu o cenho.
- Então Eunice não está aí, é isso?
- Eunice está.
Mas a presença do espírito é tão forte que ela não teve como segurá-lo.
Foi praticamente obrigada a lhe dar passagem.
É ele quem está falando, por meio dela, entende? - adiantou-se Selma.
- Não - Leonor foi taxativa.
- Depois explico melhor, mamãe - tornou Solange.
- Aproveitemos que o grupo de médiuns está em oração lá no centro, ligado com os espíritos superiores, enviando-nos vibrações positivas.
Nós aqui vamos tentar fazer o possível para que tudo volte ao normal.
Agora preciso que todos se dêem as mãos e fechem os olhos.
- Nós? - questionou Daniel.
- É - tornou Orlando.
Eu, Selma, Solange, você e dona Leonor.
Ah, a Ione também.
Solange deu uma saidinha e foi à procura da empregada.
Eunice deu uma risada soturna.
- Não vai adiantar.
Eu até sinto uma energia branca tentando entrar na casa, mas não vão conseguir me tirar daqui.
Eu não vou me afastar.
Demorei tanto para encontrar Eunice, agora que meu plano de vingança começa a dar certo, eu tenho de deixá-la ir? Não.
Daniel e Leonor não disseram nada.
Fecharam os olhos e deram-se as mãos.
Imediatamente Leonor começou a fazer uma prece conhecida.
Daniel fez o mesmo e em seguida Ione chegou e juntou-se ao grupo.
Orlando fez uma sentida prece, abriu os olhos e interrogou, voz firme:
- Por que você está aqui?
- Tenho contas a ajustar com Eunice.
Coisas entre mim e ela. É particular.
Não tenho nada contra você ou esta família.
- Por que está se sentindo tão fraca?
- Não sou fraca.
- Mas sente-se fraca.
Sente-se impotente, esquecida, mal-amada.
Por que carrega esse sentimento de não valor?
Por que essa baixa auto-estima está corroendo seu corpo emocional?
- Não é nada disso. O que está dizendo?
O espírito, em forma de mulher, não esperava uma abordagem desse tipo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:56 pm

Estava acostumado com orações, com pedidos de perdão em nome de Jesus, com frases decoradas do Evangelho e outras receitas triviais que muitos médiuns acreditam ser indispensáveis para uma, digamos, boa doutrinação.
Entretanto, o espírito à frente de Orlando tinha vivido muitas experiências terrenas, reencarnado muitas vidas, amado e sofrido, como todos nós.
A única diferença era que, no momento, ele estava perdido, sentindo-se vítima, injustiçado, tentando encontrar um responsável por seus insucessos.
Eunice havia cruzado o caminho de Doroteia nesta vida actual, não havia nada de acertos de vidas passadas.
Doroteia era recém-casada, vivia um casamento infeliz, mas não tinha coragem de se separar.
Naqueles tempos, uma mulher desquitada, ou seja, separada, não era vista com bons olhos pela sociedade.
Era uma época em que as pessoas valorizavam sobremaneira o que a sociedade pensava, em detrimento de seus desejos e vontades.
Infelizmente daí resultaram muitas tragédias, suicídios, doenças, casamentos infelizes e desencarnes pavorosos.
Aos poucos, a sociedade começou a perder força porque os espíritos começaram a reencarnar mais fortes, mais lúcidos, menos presos às convenções do mundo, sem as amarras da hipocrisia, seguindo os desígnios da alma.
Doroteia poderia, como algumas mulheres já mais avançadas e lúcidas faziam, assumir o controle da própria vida, dar-se força e seguir seu caminho; talvez até pudesse encontrar outro homem que a amasse de verdade.
Contudo, ela preferiu manter as aparências, e seu espírito foi se apagando, diminuindo a própria luz.
Antes uma mulher bela e atraente, Doroteia tornou--se uma mulher fria e triste.
A doença veio rápido.
Logo ela estava presa a uma cama.
Não demorou muito para que o marido se enrabichasse por outra.
E quem era a moça? Eunice.
A paixão veio forte, e eles não resistiram ao calor do momento.
Entregaram-se de corpo e alma àquela paixão que desnorteia e amortece os sentidos.
E atire a primeira pedra quem nunca viveu - ou sonhou viver - uma paixão arrebatadora.
Eunice amou aquele homem com todas as suas forças, com todo o sentimento.
No entanto, Doroteia foi ficando cada vez mais fraca e morreu.
O marido, tomado por remorso, decidiu romper o relacionamento, pois acreditava que não era digno de viver uma história de amor.
- Se minha mulher morreu por falta de amor, eu tive culpa - costumava dizer.
E não posso me permitir ser feliz. Nunca mais.
Depois do enterro e passado o tempo de arrumar a papelada, ele vendeu a casa, saiu do emprego, da cidade e da vida de Eunice. Sumiu.
Doroteia despertou no astral inferior muito doente e nervosa, perturbada.
Não podia imaginar, sequer supor, que continuasse viva depois de ter tido enterro e ganhado um túmulo.
- Isso é desumano!
Por que não me avisaram quando estava vivendo no mundo?
- Porque nunca quis saber - respondeu uma antiga moradora da região umbralina.
- Não é justo. Eu fiquei doente, morri.
E agora meu marido está livre para amar aquela mulher?
- Negativo. Seu marido rompeu com ela.
Está triste e abatido.
- Bem feito! Que morra de remorso!
Enquanto eu era consumida pela doença e pela dor, ele fornicava com aquela bandida, destruidora de lares.
- Ele não vai voltar para ela.
- Quem garante?
Ela quase o tirou da minha vida.
Por que não iria atrás dele de novo?
- Será? Quer que eu vá investigar?
- Como assim?
- Ver o que ela anda fazendo, pensando.
Eu consigo me deslocar daqui até o mundo.
- Se eu estivesse bem, iria com você.
Olhe meu estado.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:56 pm

- Não está nada bem.
Vou chamar um amigo meu, curandeiro de primeira.
Ele vai dar um jeito nesses machucados e aliviar sua dor.
Resumindo a história, alguns anos depois, por conta de outro facto que iria abalar profundamente a vida de Eunice, Doroteia a encontrou e começou a obsediá-la, com medo de que Eunice reencontrasse seu marido.
No entanto, Doroteia esqueceu que o tempo passou e já haviam decorrido mais de dez anos.
Selma colocou a palma da mão sobre a nuca de Eunice.
Orlando meneou a cabeça:
- Qual é o motivo de tanta raiva acumulada?
Por que seu coração está tão carregado de mágoas?
- Eu estou assim porque ela...
Orlando não a deixou continuar e emendou:
- Diga-me: o que você sente quando pensa em sua doença?
Qual é o sentimento que lhe vem quando se vê naquela cama, doente?
Doroteia soltou um suspiro longo:
- Frustração. Raiva.
- Raiva de quê?
- Raiva de não ter vivido os melhores anos da minha vida.
Joguei minha juventude fora.
- Feche os olhos.
- Hã?
- Vamos, feche os olhos.
Doroteia os fechou, e Orlando prosseguiu:
- Isso. Agora pergunte para o seu espírito:
por que sinto tanta frustração?
Por que tenho tanta mágoa?
Imediatamente Doroteia respondeu:
- Porque não fiz o que queria.
- E por que não fez?
- Porque achava que tinha de seguir o mundo.
Os outros eram mais importantes do que eu.
Minha mãe já dizia e...
- Pois bem - ponderou Orlando.
Agora diga:
eu não sou minha mãe e não penso como ela.
Eu sou livre para pensar do meu jeito.
Doroteia repetiu palavra por palavra.
Orlando prosseguiu, firme:
- Afirme: eu sou o que há de mais valioso nesta vida.
Eu, o meu espírito, em primeiro lugar.
Doroteia repetiu mecanicamente.
- Assim não.
Diga com convicção, com força, ligada com o seu espírito.
Vamos, Doroteia, declare!
A voz encheu a sala com uma força que arrepiou a todos.
- Eu sou o que há de mais valioso nesta vida.
Eu me coloco em primeiro lugar!
Doroteia falou e automaticamente seu espírito desgrudou-se de Eunice.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:56 pm

Daniel amparou a irmã, que caiu semi-inconsciente, e a deitou no sofá.
Leonor olhava tudo estupefacta.
Orlando, com modulação de voz levemente alterada, sugeriu:
- Isso, Doroteia, largue Eunice, largue os outros, largue o mundo.
Fique só com você.
Doroteia abraçou-se, agachou o corpo e caiu num pranto de arrancar-lhe soluços de quando em vez.
Um espírito iluminado, muito simpático, apareceu na sala acompanhado de outro e sorriram para Orlando.
- Obrigado. Agora vou levar Doroteia para um lugar de descanso.
É hora de você trabalhar com Eunice. Até mais.
- Qual é o seu nome? - perguntou Orlando, mentalmente.
- Estêvão.
Ele sorriu e acenou enquanto os dois espíritos desvaneciam no ar.
Orlando exalou profundo suspiro.
Em seguida, aproximou-se de Eunice e, com Selma, ministrou-lhe um passe.
Leonor olhava tudo com espanto e admiração.
Já estava lendo O Livro dos Espíritos, fazia perguntas para a filha, começava a entender melhor sobre mediunidade e sobre encarnados e desencarnados.
Ler era uma coisa, presenciar o fenómeno mediúnico era outro completamente diferente.
Muitas dúvidas acerca da vida e da morte dissiparam-se naquela noite.
Daniel e Orlando levaram Eunice para o quarto.
Ione trouxe uma jarra com água e copos.
Selma serviu-se e tomou de um só gole.
- Obrigada! - agradeceu, depois de passar as costas das mãos pelos lábios.
Estava precisando.
- Você operou um milagre, querida - constatou Leonor, emocionada.
Nem conhece minha filha e veio aqui prestar auxílio.
- Imagine, dona Leonor.
Sou amiga de Solange.
Vim porque meu coração pediu.
Tive vontade de ajudar Eunice.
É muito bom fazer o bem, não importa a quem.
- Selma tem me ensinado muita coisa, mamãe.
Ela entende muito de mediunidade.
- Pois venha nos visitar mais vezes, até nossa mudança.
- Virei com gosto.
Orlando e Daniel desceram.
Leonor levantou-se segurando as mãos:
- E então?
- Está dormindo placidamente, mamãe.
Nem parece que passou pelo que passou.
- Ela vai dormir bastante, tenho certeza - acrescentou Orlando.
Amanhã, darei uma passadinha para saber como ela está.
- É muita gentileza - tornou Leonor.
- Virei com prazer. Agora preciso ir.
Logo vai começar nossa reunião no centro.
Despediram-se e, já na rua, Selma olhou para o sol, que ainda se punha, e indagou, curiosa:
- Por que disse que tínhamos reunião no centro?
Ainda é tão cedo!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:56 pm

Orlando sorriu tímido e completou:
- A tarde está linda e gostaria de convidá-la para tomar um sorvete. Aceita?
Selma sentiu um calor gostoso aquecer-lhe o peito.
Os olhos brilharam emocionados, e ela respondeu com um lindo sorriso:
- Aceito.
Orlando esticou o braço, e Selma entrelaçou o braço dela no dele.
Caminharam, a conversa fluiu agradável até chegarem à sorveteria, não muito distante dali.
A harmonia reinava na casa e, depois que chegaram da procissão, Eugénia tomou uma decisão:
- Lina vai dormir no quarto de Estela.
- Fico feliz que tenha mudado de opinião, meu amor.
Mas o quarto tem só uma cama.
- Lina dorme praticamente no chão da sala.
Hoje ela dorme no quarto, com o que tem.
Amanhã vou com você até a cidade e compramos outra cama.
Vamos arrumar o quarto de maneira que as duas fiquem confortáveis.
É um cómodo grande.
Aderbal abraçou-a com carinho.
- Lina vai ficar muito feliz.
- Eu sei e, antes que me pergunte, já vou responder.
Depois que Melissa partir, Lina continuará no quarto.
Nada de construções lá no quintal.
Se quiser, eu deixo você reformar o barracão.
Mais nada. O lugar dessa menina, de hoje em diante, será no quarto que foi de nossa Estela.
- Não vejo a hora de contar a novidade.
- Pois não vamos perder tempo.
Imagino que ambas estejam no quarto, tagarelando e vendo as revistas de misses.
Eugénia entrou de mansinho.
Lina estava deitada de bruços na cama, com as pernas para o alto, os cotovelos apoiados no colchão.
Melissa estava ajoelhada no chão.
Elas folheavam uma revista e riam.
- De que tanto riem?
Melissa levantou-se e correu até Eugénia.
- Veja, tia, como a nossa miss é linda.
Eugénia apanhou o exemplar da revista Manchete e leu.
- Receita para ser Miss Brasil?
A revista ensina isso?
- Ensina, tia.
Quem sabe eu não possa ser miss um dia?
- Gostaria?
- Ah, deve ser uma grande emoção ser escolhida a mulher mais linda, mesmo que o encanto dure só um ano.
Eugénia meneou a cabeça.
- A beleza passa, vai embora rápido.
O que fica, o que vale para toda uma vida, é a beleza interior, a beleza de coração, a pureza de sentimentos. Isso sim!
- Mas não podemos ter as duas belezas? - quis saber Lina.
Eugénia riu.
- Podem. Na idade em que estão, podem tudo.
Eugénia aproximou-se de Lina e sentou-se na beirada da cama.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:57 pm

- Querida, conversei com Aderbal e resolvemos que você vai passar a dormir neste quarto a partir de hoje.
- Não!
- Por que não? - ela se surpreendeu com a negativa.
- Porque, se eu dormir aqui, a Melissa não vai ter onde dormir.
- Não tem problema, querida - respondeu comovida.
Melissa vai dormir na cama, e você vai dormir aqui ao lado - apontou.
Amanhã eu e Aderbal vamos providenciar outra cama.
- Vou ficar no quarto de... de... - ela gaguejou.
- De Estela? - completou Eugénia.
- Sim.
- Claro. Tenho certeza de que, onde quer que Estela esteja, se sentirá muito feliz em saber que seu quarto vai ser ocupado por uma mocinha tão especial como você.
Lina abraçou-a e beijou-a no rosto.
- Obrigada.
Depois sentou-se na cama e começou a chorar.
Melissa aproximou-se de Lina e passou as mãos sobre os ombros dela.
- Por que chora?
- Estou feliz.
Dona Eugénia e seu Aderbal têm feito muito por mim.
E agora tenho a sua amizade.
Eu choro de felicidade.
As três abraçaram-se, emocionadas e felizes.
Num canto do quarto, o espírito de uma jovem, cujo halo de luz ultrapassava os limites físicos do cómodo, sorria feliz e emocionada.
- Obrigada, mamãe.
Sabia que a sua rabugice duraria pouco tempo.
Na noite anterior à partida, Melissa fechou o cenho.
Eugénia quis saber, Aderbal assuntou, mas nada.
Ela se limitou a dizer que morreria de saudades.
- Estou triste, Lina.
- Não fique.
- Não quero voltar para aquela casa.
O ambiente me oprime. Tenho nojo daquele homem.
- Quer que eu vá com você?
- Deus me livre e guarde!
- Porquê?
- Jurandir é um pervertido, um doente.
Gosta de meninas da sua idade.
Fico com receio de Jurandir se engraçar com você.
Lina levantou-se e estufou o peito.
Meteu as mãos na cintura, em posição desafiadora:
- Pois esse abestado que se meta comigo.
Eu bato no cão e ainda dou um chute certeiro ali, bem no meio das pernas.
Ah, se dou!
E depois ainda o capo e dou as partes para os cachorros comerem.
Melissa achou graça.
- Só você para me fazer sorrir numa hora dessas.
- Pois, se eu fosse você, faria o mesmo.
- Como?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:57 pm

- Quando ele olhar para você com cara de bobo, todo melado, dê um chute no meio das pernas.
- Ele pode reclamar com minha mãe.
- Duvido. Ele está fazendo coisas erradas.
Pode ameaçar você, mas não tem coragem de ir até sua mãe.
Inverta o jogo.
- É. Posso bater, arranhar...
- Não. Nada de machucados que apareçam.
Daí, sim, ele poderá dizer à sua mãe que você é louca e agressiva.
O jogo pode virar contra você.
Se der um chute bem dado, certeiro, ele não vai ter do que reclamar.
Só vai sentir dor, muita dor.
- Ah... dor é o que eu queria que Jurandir sentisse.
Muita dor.
- Pois faça isso.
Melissa pensou um pouco.
- Você vai estudar só ano que vem?
- Seus padrinhos vão me arrumar uma professora particular.
Eu mal aprendi a ler e escrever.
Querem me preparar para eu passar no curso de admissão.
Dona Eugénia diz que sou inteligente e tenho condições de cursar o ginásio.
Já estou passando da idade.
Daqui a pouco já estou com idade para o científico.
- É mesmo.
Se quiser, eu posso lhe emprestar os livros que utilizei na escola.
Eu guardei todos.
- Eu adoraria.
- Vou providenciar e mandar pelo correio.
- E quando eu vou vê-la de novo?
Só na Páscoa do ano que vem?
- Não. Vou arrumar maneiras de vir mais vezes para cá.
Agora, mesmo com Jurandir por perto, seria bom ter você comigo por alguns dias.
- É ?
- Vai ter concurso de miss.
A TV Itacolomi não vai transmitir ao vivo; contudo, já sei que o concurso vai ser transmitido pelo rádio e passar na televisão na semana seguinte.
É uma boa desculpa para você passar uns dias comigo.
- Ver televisão? - os olhos de Lina brilharam animados.
- É. Igual àquela que vimos na loja outro dia, quando fomos à cidade comprar sua cama.
Mamãe comprou uma à prestação.
O Jurandir pediu...
As duas riram, e Lina advertiu:
- Seu Aderbal disse que custa muito caro.
Comentou também que não se acostumou com a modernidade.
Prefere o rádio.
E, de mais a mais, parece que aqui não tem... não tem...
- Sinal.
- É. Foi isso que ouvi.
- Vamos conversar com o padrinho.
- Vamos!
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:57 pm

Era bem cedinho, ainda havia cerração.
Melissa, triste, chegou a estação ferroviária.
Não desejava, de forma alguma, ir embora.
A semana na companhia de seus padrinhos e de Lina ajudou-a a esquecer o tormento que estava sendo sua vida naquele momento.
Aderbal foi entregar a mala ao carregador, e Eugénia abraçou-a.
- Poderia voltar de ónibus.
A viagem seria mais rápida.
Melissa escolheu o trem porque queria que a viagem fosse demorada.
Bem demorada.
Aderbal emendou:
- Um ano passa rápido.
- Tia, eu não queria voltar - queixou-se chorosa.
- Precisa. Sua mãe está grávida.
Logo vai precisar de sua ajuda.
- Ajuda para quê?
- Ora, você é moça, pode ajudá-la nos afazeres domésticos, enfim, pode e será de grande valia.
Não quer acompanhar o crescimento de seu irmãozinho?
Ou irmãzinha?
- Tem razão - concordou, esboçando um sorriso tímido.
- Se quiser - interveio Lina, sussurrando -, comento com dona Eugénia sobre a nossa conversa.
- Que conversa? - indagou Eugénia.
- Melissa gostaria que eu estivesse com ela torcendo no concurso de miss.
- E quando é isso?
- Daqui a dois meses - respondeu Melissa.
Será que até lá Lina já terá documentos e poderá viajar?
- Não sei ao certo.
Em todo caso, conversarei com Aderbal.
- Tia, eu adoraria que Lina passasse uns dias ao meu lado.
Vou morrer de saudades.
- Daremos um jeito - Eugénia falou e abraçou-a mais uma vez.
Aderbal aproximou-se, e Melissa despediu-se de todos.
Lina abraçou-a forte e sussurrou mais uma vez:
- Não se esqueça: se Jurandir se engraçar com você, dê aquele chute que ensaiamos.
Melissa apertou o corpo contra o de Lina:
- Sim. Pode deixar que vou fazer direitinho.
Assim que chegar em casa, vou escrever uma carta só para você.
- Se ele encostar um dedo que seja em você, escreva-me contando.
Eu prometo que darei um jeito.
- Obrigada, querida.
Ouviram o apito, e Melissa subiu no vagão.
- Vai sentir saudade, não? - perguntou Aderbal a Lina.
- Muita. Melissa já é como uma irmã para mim.
- Não precisa exagerar.
Acabaram de se conhecer - tornou Eugénia, enquanto caminhavam até a caminhonete.
- É o que sinto.
Da mesma forma que sinto um bem enorme ao lado da senhora e do seu Aderbal.
- Está preparada para assumir o quarto de Estela? - interrogou Aderbal, percebendo a emoção nos olhos embaciados da esposa.
- Estou. Vou cuidar dele com o maior carinho do mundo.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:57 pm

Eugénia esperou Lina ajeitar-se no banco e confessou ao marido, baixinho:
- Estou começando a gostar dela, de verdade.
- Sabia que isso iria acontecer, mais dia, menos dia.
- E me dói no coração saber...
Aderbal pousou o indicador nos lábios da esposa.
- Não precisa dizer nada.
Não fizemos por mal.
- Fizemos sim.
- Não. Quisemos ir atrás de algo que estava supostamente perdido, sem dono.
Foi só uma coincidência ter esbarrado naquelas pessoas.
- Mas não ajudamos.
Quer dizer, você não moveu um dedo para ajudar.
Isso me mata, Aderbal.
Os olhos de Eugénia marejaram.
Ela não conteve o pranto, levou as mãos ao rosto e Lina, inocentemente, meteu a mão na buzina.
- Por que tanta demora?
Vamos logo para casa!
Aderbal abraçou a esposa.
- Agora não é hora para ficar assim, Eugénia.
Não se torture.
Estamos fazendo um bem danado a essa menina.
Ela praticamente se tornou nossa filha.
Foi um presente de Deus.
Nem imaginávamos que as coisas sairiam dessa forma.
Está tudo indo tão bem...
- Tem razão - assentiu ela, secando as lágrimas com as costas das mãos.
Fiquei emocionada.
A partida de Melissa mexeu comigo.
- Entre na caminhonete.
Vamos para casa.
Entraram no veículo.
Eugénia acomodou-se ao lado de Lina e sorriu.
Aderbal deu a volta, sentou-se e deu partida.
Seguiram o caminho de casa em silêncio.
Antes de ir para o trabalho, Orlando passou na casa de Leonor. Ione o recebeu com alegria.
- Dormimos todos muito bem, seu Orlando.
- Que bom! Terminamos a reunião ontem à noite com uma prece especial direccionada a esta casa.
- Funcionou.
Logo no café, dona Leonor comentou que fazia meses não dormia tão bem.
- Para você ver como orar faz bem para a mente e para o ambiente.
- Tem razão, seu Orlando.
A partir de hoje, vou rezar com fé.
- Faça isso, Ione.
Leonor apareceu no hall e cumprimentaram-se.
Orlando entregou seu chapéu a Ione e Leonor o conduziu directamente ao quarto de Eunice.
- Ela ainda dorme?
- Sim, Orlando. É normal?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:58 pm

- É. Eunice estava presa a energias muito negativas e seu corpo estava bastante debilitado.
Ainda vai ficar alguns dias assim, cansada, como se tivesse saído de uma cirurgia.
- Sei.
Entraram no quarto.
Solange o cumprimentou com um aceno.
Orlando sentou-se numa cadeira perto da cama.
Fechou os olhos, fez uma prece.
Alguns minutos depois, Eunice despertou e, aos poucos, tacteou em volta, tentando perceber o ambiente onde estava.
Conforme a luz do abajur ia ficando um pouco mais intensa, ela pôde reconhecer Solange, sentada à sua frente.
Sorriu e perguntou:
- Estou no meu quarto?
- Está - Solange respondeu e lhe entregou um copo com água.
- Beba.
- Estou um pouco zonza.
- É normal.
Solange ajudou Eunice a soerguer o corpo.
Colocou os travesseiros na beirada da cama, e a moça recostou-se neles, bebericando a água.
Em seguida, Eunice fitou Orlando e assustou-se.
Ele sorriu.
- Quem é você?
Um médico?
- Não. Sou amigo da família.
Vim para uma visita.
Leonor ajoelhou na cama e tomou a mão da filha.
- Orlando é um bom amigo, querida.
- Nunca o vi antes.
- Na verdade, sou amigo da sua irmã, Solange.
- Ah! - Eunice mexeu a cabeça e não estava concatenando os pensamentos direito.
Leonor apressou-se em perguntar:
- Como se sente?
- Melhor. Bem melhor. Mais leve.
Parece que um peso muito grande foi arrancado de mim.
As cenas vêm em fragmentos, não em sequência.
- Você estava sendo influenciada por um espírito - avisou Solange, com delicadeza na voz.
Como se diz na linguagem espírita, estava obsedada ou obsediada.
- Pobrezinha - tornou Leonor.
Minha filha estava sendo obsedada!
Uma vítima das trevas.
- Eunice não foi vítima de nada nem ninguém - rebateu Solange.
- Como não?
Ontem vimos Orlando mandar um espírito para bem longe daqui.
Ele, ou ela, não estava importunando sua irmã, influenciando-a negativamente, mantendo-a presa neste quarto?
Pois bem, Eunice não tem culpa.
- Tem toda a responsabilidade.
- Está querendo me dizer que a culpa pela obsessão é de Eunice?
Não posso admitir que atribua a culpa de uma obsessão à sua irmã.
Ela sempre foi uma boa pessoa.
Nunca fez mal a uma mosca.
Esse espírito foi quem entrou em nossa casa e grudou nela.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:58 pm

- Por que são espíritos afins.
O espírito e Eunice pensam e sentem da mesma forma.
Ninguém atrai ninguém, encarnado ou desencarnado, por acaso.
Está tudo certo, dentro da lei da afinidade.
Cada um atrai aquilo que tem a ver com seu teor de crenças, pensamentos, ideias.
Uma pessoa violenta nunca vai atrair uma pessoa pacífica e vice-versa.
Uma pessoa generosa nunca vai ter afinidade com um sovina.
Uma pessoa bondosa nunca vai atrair uma que seja gananciosa.
Por quê? Porque os opostos não se atraem, mamãe.
Só o que é afim se atrai.
O bem atrai o bem, o bom atrai o bom, o belo atrai o belo.
- Sua irmã ficou muito abalada por conta daquele... bem... daquela...
- Sei, não precisa dizer.
Sei que não gosta de tocar no assunto.
Mas foi Eunice quem atraiu esses fatos para a vida dela.
Algum aprendizado ela tem que tirar disso.
- O que aprender com uma tragédia?
Não vejo o menor sentido.
- Eu vejo muitos - interveio Orlando.
Leonor voltou o rosto para ele e arregalou os olhos:
- Perdão. O que disse?
- Eu vejo muitos pontos positivos, dona Leonor.
Uma grande tragédia pode ajudar nosso espírito a dar um grande salto em seu trajecto de evolução.
Simples assim, sem grandes lucubrações.
Eunice tentava acompanhar a conversa.
Cravou os olhos em Solange e questionou, temerosa:
- Tem certeza de que tinha mesmo um espírito?
Ligado a mim?
- Sim.
- Por acaso, era... - Eunice estava com medo de perguntar.
- Paulo? - completou Solange.
- É. Era ele?
- Não. Não era ele - respondeu Orlando.
Eunice fechou os olhos e sentiu grande alívio:
- Quem era?
Orlando a fitou e esclareceu:
- Era uma mulher.
Muito nervosa, descontrolada, perturbada mesmo.
Estava muito irritada com você.
- Eu nunca fiz mal a ninguém.
- Pode ter feito em outra vida.
- Difícil acreditar.
Se fiz mal a alguém em outra vida, deveria me lembrar.
É injusto não me recordar e sofrer - respondeu Eunice, ajeitando o corpo entre os travesseiros.
- Eunice tem razão - emendou Leonor.
De que adianta ser influenciada, atacada, por um espírito a quem até possa ter feito mal, se não sabe o que fez?
- Porque não importa o que fez, se foi mal ou não.
Aliás, o conceito de bem, mal, ruim etc. é muito pessoal - observou Orlando.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:58 pm

A moral cósmica, que rege a vida espiritual, é bem diferente da moral humana.
As leis dos homens são falíveis, têm prazos de validade, evoluem, crescem e caducam de acordo com a maturidade da sociedade.
Há alguns anos, uma pessoa de pele negra era considerada inferior, era escravizada.
Vivemos isso até quase o fim do século passado.
No início deste século 20, a mulher começou a lutar por igualdade de direitos, algo antes impensável.
E assim os valores, as crenças, os conceitos do que é bom, certo, errado e justo vão se modificando ao longo do tempo.
- Mas as leis espirituais são imutáveis - tornou Solange.
- Exactamente.
É só ler O Livro dos Espíritos, de Kardec.
As perguntas e respostas são perfeitas, inquestionáveis.
O que muda, sim, é a interpretação, porque nós estamos crescendo e arrancando a cada dia um pouquinho mais do véu da ignorância e do preconceito.
Afinal, nascemos no planeta para a felicidade.
E só poderemos ser felizes se não houver julgamento ou preconceito de nenhuma espécie.
O respeito é a base de uma convivência sadia, que fortalece as bases efectivas de uma sociedade harmoniosa e feliz.
- E o que isso tem a ver com a minha obsessão?
Nada - protestou Eunice.
- Tudo - rebateu Orlando.
Começa pelo respeito a si mesma.
Se você tivesse respeito por si, por sua vontade, se colocasse você em primeiro lugar, já teria criado condições de evitar a aproximação desse espírito.
Segundo, a atracção com esse tipo de energia se dá quando não estamos fazendo o nosso melhor, ou seja, quando já sabemos fazer o melhor e não o fazemos.
- Não entendi.
- Vou procurar ser mais didáctico.
Imagine que você sabe que roubar não é bom.
O seu espírito sabe disso.
A sua consciência aprendeu, ao longo de vidas, que roubar, tomar dos outros deliberadamente, sem permissão, não é bom, não vale a pena.
- Mas há muitos que roubam e se dão bem.
Vejo muitos que não são presos - protestou Leonor.
- Sim. E isso sempre vai acontecer.
Porque aqui é um mundo de experiências.
A Terra é um planeta fantástico, para que possamos estar sempre aprendendo.
E há espíritos que não têm consciência de que roubar é um ato doloso, que lesa o próximo.
Acreditam que estejam fazendo um bem para si mesmos, porquanto acreditam que é natural roubar, tirar do próximo.
A vida não faz nada porque eles ainda não têm um grau de maturidade para perceber de forma diferente.
Um dia, lá na frente, vão aprender.
Orlando bebericou um pouco de água e prosseguiu:
- Imagine um ladrão que, de repente, tomou consciência de que roubar não é um ato digno.
Ele aprendeu que tirar do outro é prejudicial, que, se tirar do outro, alguém também poderá tirar dele, enfim, ele começa a tomar consciência de que existe a lei do retorno, de que a vida funciona como um bumerangue, que amanhã ele poderá também ser roubado.
Daí, depois que ele já sabe que isso não é bom, vai lá e comete o delito.
O que acontece?
Ele vai preso porque a vida não o protege mais.
- A vida só protege os burros, é isso?
- Não, Eunice.
Não é questão de ser burro.
A vida protege aqueles que desconhecem o que estão fazendo.
É diferente.
- Eu sempre fiz o meu melhor.
Só porque fui ludibriada por um homem, tive de pagar esse alto preço?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:58 pm

- Eunice soltou um fio de voz.
- Você faz muito drama, isso sim - emendou Solange.
- Solange! - Leonor exclamou.
- É verdade, dona Leonor.
Eunice sempre fica nessa posição cómoda de vítima.
Não faz nada para melhorar.
- Porque não estão na minha pele.
Você mal me conhece.
- E por que deveríamos estar? - indagou Solange.
Vai passar o resto da vida presa num quarto?
Chorando pelo que não viveu?
Chorando pelo homem que a abandonou?
Lamentando pelo homem que se matou por não poder desposá-la?
- Chega! - gritou Leonor.
Você foi longe demais.
Sua irmã acabou de passar por um momento tão delicado, estava sendo atacada por um espírito, e você agora a agride com palavras tão rudes?
Que atrevimento é esse?
- Estou só falando a verdade.
Eunice levou as mãos ao rosto e começou a chorar.
Orlando pegou o copo com água e lhe entregou:
- Beba, Eunice.
Vai lhe fazer bem.
- Quero morrer.
- Isso, deseje mesmo morrer.
Porque você não tem mais nada para fazer nesta vida.
Estou cansada de pisar em ovos com você.
Vamos mudar nesta semana e cansei de tratá-la como uma débil mental.
Leonor iria falar, mas Solange rodou nos calcanhares e saiu, batendo a porta.
Leonor sentou-se na cama e abraçou Eunice.
- Não fique assim, querida.
Não dê ouvido a eles.
- Sou um estorvo, mamãe.
Deveria ir para um convento.
- Não diga uma coisa dessas.
- O que a vida me reserva? Nada.
Orlando, pacientemente, levantou-se e pediu que Leonor saísse da cama.
Aproximou-se de Eunice e, olhos penetrantes, declarou:
- Você está melhor.
Não se deixe abater.
Eunice sentiu uma onda de calor tomar-lhe o corpo.
Em seguida, Orlando fechou os olhos, esfregou as mãos e ministrou um passe revigorante nela.
Eunice acalmou-se e, aos poucos, adormeceu.
Orlando fez nova prece, agradeceu aos mentores espirituais e, quando saía do quarto, Leonor indagou, aflita:
- Vai ser sempre assim?
- Tudo depende dela, dona Leonor.
- O que fazer?
- Mudar o jeito de ser.
- Como?
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 25, 2016 8:59 pm

- Quando Eunice sair da posição de vítima e descobrir que pode dirigir a própria vida, comandar o destino, vai ser outra pessoa.
- Será?
- Tudo é possível.
Vamos pedir o melhor, mentalizar o melhor, sempre.
Em seguida, ele passou o braço pelo ombro de Leonor, transmitindo-lhe confiança, e desceram as escadas.
Era comecinho de noite quando Melissa chegou a Belo Horizonte.
Esperou os passageiros mais afoitos descerem.
- Tomara que ninguém tenha vindo me buscar - murmurou, enquanto esfregava as mãos, nervosa.
Passou um tempo, ela desceu.
Olhou ao redor e não viu rosto conhecido. Sentiu alívio.
- Como sou boba!
Não avisei quando chegaria.
Como mamãe ou aquele infeliz poderiam saber que estou aqui? - ela riu, nervosa.
Apanhou a mala e caminhou até o ponto de ónibus.
Tomou a condução e saltou três pontos antes do usual.
Queria fazer hora e demorar a chegar.
Caminhou vagarosamente e chegou a sua rua.
Olhou para a casa e notou só uma luzinha acesa.
- Mamãe não gosta de pouca luz - estranhou.
Ela deu de ombros.
Destrancou o portãozinho de ferro, contornou um jardinzinho que precisava urgentemente de trato e encostou a mão na maçaneta.
A porta estava destrancada.
Entrou. O silêncio reinava.
Acendeu a luz do corredor e caminhou até a sala.
Colocou a mala ao lado do sofá.
Ao virar-se, deu de cara com Jurandir.
Arregalou os olhos, aturdida:
- De onde surgiu?
- Estava na cozinha, enteada querida - respondeu, com voz melosa.
Os olhos dele estavam cheios de cobiça.
A voz, um tanto pastosa por conta do álcool.
A proximidade fazia Melissa sentir aquele cheiro forte que ele exalava.
Ela sentiu asco.
Afastou-se e foi para o canto.
- Onde está minha mãe?
- Oi. Calma.
Boa noite para você também.
Cadé os modos?
Perdeu-os em Teófilo Otoni?
- Só quero saber onde está minha mãe.
- No hospital.
- Aconteceu algo grave?
- Nada de mais.
Coisas da gravidez - ele falou e continuou se aproximando, passando a língua pelos lábios.
- O que quer? Afaste-se.
- De facto, você está velha para mim.
Sabe como é, passou de quinze anos, eu perco o interesse.
Se tivesse doze, catorze, seria diferente.
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