Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 7:59 pm

- Então, saia de perto de mim.
- Não. Eu não posso fazer besteira aqui na redondeza.
Se pegar uma garotinha, corro risco.
Sua mãe está grávida, não quer intimidades comigo.
Estou morrendo de desejo - Jurandir disse e passou a mão no baixo-ventre.
- Arrume uma mulher da vida. Vire-se.
- Não tem menina na rua.
E também tenho de pagar.
Estou sem dinheiro.
- Isso não é problema.
Eu sei onde mamãe guarda uns trocados para emergências e...
Não deu tempo de defesa, de dar o chute que Lina ensinou, nada.
Jurandir sacou do bolso um pano embebido em éter e o enfiou no rosto de Melissa.
Ela não teve tempo de concluir a frase nem de se debater.
Desfaleceu. Ele a segurou e a colocou sobre o sofá.
Trancou a porta da sala, depois a da cozinha.
Apagou as luzes e deixou um abajurzinho aceso sobre o móvel do corredor.
Sorriu malicioso.
- Sua mãe só volta amanhã.
Claro que eu preferia uma menininha, mas não estou com tempo para escolher.
Enquanto isso - ele falava e Melissa continuava desmaiada, sem nada escutar - vamos matar saudades.
Eu e você vamos ter bons momentos juntos.
Mais uma vez.
Desceu o vestido dela e despiu-se com rapidez.
Logo Jurandir estava deitado sobre Melissa e ficaria assim, violentando-a, sem dó nem piedade, até o dia chegar.
Chegando em casa, Eugénia foi para a cozinha preparar o jantar.
Lina saltou da caminhonete e a acompanhou.
Aderbal foi até o galinheiro.
- O que vai fazer? - Lina perguntou a Eugénia.
- Juntar as sobras do almoço e fazer uma janta caprichada.
- Posso ajudar? - Lina perguntou a Eugenia.
- Claro! Pegue as travessas lá no armário - apontou.
Enquanto Lina apanhava as travessas, Eugénia comentou:
- Senti Melissa muito triste.
Na noite anterior à partida de Melissa, Lina dormira mal.
Tivera pesadelos, vira Melissa chorando, um homem de aspecto repugnante gargalhando e rindo.
Lina teve ímpetos de matá-lo, mas uma força a puxava para trás, e ela nada podia fazer.
Acordou com a cabeça pesada.
O dia caminhava arrastado.
Depois que se despediu de Melissa na estação, lembrou-se do pesadelo, e agora sua cabeça latejava.
Sentia o peito oprimido.
- Prometi a Melissa que não falaria, mas algo me diz que devo dizer.
Meu peito está tão dolorido - suspirou.
Eugénia chamou sua atenção:
- Ei, estou falando com você.
- O que disse, dona Eugénia?
- Melissa estava muito triste. Por quê?
Lina hesitou um pouco.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:00 pm

- Bom, ela não queria ir embora.
- Nunca a vi desse jeito.
Sabe se é por causa da gravidez de Penha?
- Não. Melissa até está contentinha com a chegada de um bebé.
- Não entendo.
Por que será que, mesmo feliz em sua companhia, eu a pegava triste pelos cantos, prestes a chorar?
Lina mordiscou os lábios.
- Não sei...
Eugénia parou seus afazeres, encarou Lina e quis saber:
- Vamos. Se vai fazer parte da minha família e viver no quarto que era de Estela, não vou admitir mentiras.
- Não estou entendendo.
- Alguma coisa está acontecendo com Melissa.
Meu coração de mãe não me engana.
- Ela não é sua filha.
- É como se fosse.
Ela, você...
Gosto muito de Melissa e a conheço bem.
Tem coisa aí.
Lina abaixou a cabeça, envergonhada.
- Não é nada.
- Vamos aproveitar que Aderbal foi cuidar das galinhas.
Vamos, me diga - tornou, impaciente.
Os olhos de Eugénia estavam cravados em Lina.
A menina pigarreou, disfarçou.
Em sua mente, escutou uma voz amiga:
- Conte, Lina. Pode contar.
Eugénia é de confiança e vai ajudar.
Lina respirou fundo e puxou Eugénia pelo braço.
Seu coração parecia querer saltar pela garganta.
Estava aflita.
- Vamos até o quarto de Estela.
- Pode chamar o quarto de seu - ela brincou.
- Está certo. Vamos até o meu quarto.
Lina não riu, seu semblante estava pálido.
Eugénia entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
Sentaram--se na cama.
Lina, delicadamente, apanhou as mãos de Eugénia.
- Promete, jura por tudo quanto é mais sagrado, que não vai dizer nada para seu Aderbal?
- Não posso prometer.
Não sei o que vai me contar.
E, de mais a mais, se for algo grave, terei de contar.
- Não! Por favor.
- Mas terei.
- Oh, dona Eugénia.
Nem sei como começar.
- Pelo começo. Vamos.
- Difícil.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:00 pm

- Desembuche.
Eu não vou ficar brava.
Quero o melhor para Melissa.
- Está certo.
- Conte.
- Bom, a Melissa está sofrendo de verdade.
- Percebi. Sabia. Por quê?
- Porque o padrasto abusa dela.
Eugénia, num primeiro momento, não entendeu.
- Ele é folgado?
Quer que ela faça tudo para ele?
- Não - Lina meneou negativamente a cabeça.
- Ele abusou, machucou.
- Bateu nela?
- Pior.
- Como assim?
- Ele faz com Melissa coisa de marido e mulher - sussurrou, envergonhada.
Se Eugénia estivesse em pé, fatalmente teria caído.
Suas pernas falsearam.
Ela levou a mão à boca, horrorizada.
Sentiu um gosto amargo descendo pela garganta, tamanho o enjoo.
- Minha Nossa Senhora! Não é possível.
- É, sim.
- Lina, tem certeza do que está me contando?
- Tenho.
- Jura?
- Juro. Ela chorou muito.
Disse que o Jurandir faz isso há anos.
Ela morre de vergonha e nojo, sente-se humilhada.
Diz que agora ele parou de molestá-la, mas a olha com cobiça.
Ela está a ponto de cometer uma besteira.
- Melissa deveria contar isso para Penha!
- O pior é que já contou.
- Contou? Como?! - Eugénia estava nervosa, o suor escorrendo pela testa.
- Contou, e dona Penha bateu nela.
Disse que era invenção, que Melissa estava procurando um jeito de destruir o casamento dela.
- Não posso crer.
Sei que Penha sempre foi meio doidivanas, mas não acreditar na própria filha?
É inadmissível.
- Ela não queria voltar para casa porque não suporta mais a presença de Jurandir.
Ela teme que ele volte a fazer barbaridades com ela de novo porque ele bebe, perde a noção das coisas e...
- Maldito! - Eugénia vociferou e levantou-se.
- O que a senhora vai fazer?
Eugénia não respondeu de pronto.
Andava de um lado para o outro do quarto, esfregando as mãos.
Estava muito nervosa.
- Não conte para seu Aderbal.
Melissa ficaria muito envergonhada.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:00 pm

- Não tem do que se envergonhar. Ela é vítima.
- E agora, o que pretende fazer?
Eugénia continuou a andar de um lado para o outro do quarto, esfregando as mãos e mordiscando os lábios.
- Tem razão - disse, voz carregada de desapontamento.
- Por ora, não posso conversar com Aderbal.
Ele tem o coração fraco.
Se eu lhe contar um dedinho disso, é capaz de ter um treco.
- Vamos até lá buscá-la.
Eu dou uma lição naquele cão.
- Não, minha filha.
Você não pode se meter com aquele traste.
Não quero você envolvida nessa história.
- Temos de fazer alguma coisa.
Melissa não pode mais viver lá.
- Tem razão, Lina.
É isso mesmo o que vou fazer.
- Se eu tivesse documentos, iria com a senhora.
- Já disse. Quero você longe disso.
Eugénia estava visivelmente abalada.
Lembrou-se novamente da época do seu namoro com Jurandir, dos olhares de cobiça que ele lançava à meninada.
Sempre desconfiara de que ele tinha uma queda por crianças.
Tentara apagar as lembranças desagradáveis da mente, entretanto, tudo em vão.
Elas voltavam agora com mais força, mais vivas, nítidas, como se tivessem acontecido há algumas horas.
Ali começou o tormento de Eugénia.
Se tivesse tomado atitude anos atrás, além de terminar o noivado, Jurandir estaria preso ou longe dali.
Eu sou a culpada de Melissa ter sido violentada, pensou.
- O que a senhora disse? - indagou Lina.
- Nada. Estou pensando, pensando.
- A senhora está pálida.
Vou até a cozinha buscar um pouco de água com açúcar.
Enquanto Lina corria até o outro cómodo, Eugénia continuava naquele martírio.
- Se eu tivesse feito alguma coisa, ao menos esse crápula não teria molestado minha afilhada.
Sem contar outras meninas que devem ter cruzado o caminho dele ao longo desses anos.
As lágrimas desceram rápidas.
Eugénia tremia. As cenas vinham fortes.
Novamente se lembrou da cena em que Jurandir tocava uma menininha, o que lhe causara repulsa e o imediato término do noivado.
- Meu Deus!
Eu terminei o noivado e fiquei quieta.
Deveria ter feito alguma coisa, impedido esse infeliz de continuar a praticar essa barbaridade.
Preciso proteger a minha Melissa.
Preciso, preciso...
Ela não falou mais.
Sentiu uma tontura e caiu sobre si.
Lina chegou ao quarto com o copo de água e saiu gritando por Aderbal.
Encontrou-o fechando a portinha do galinheiro.
- O que foi, querida? - perguntou ele, sem perceber o rosto pálido e os olhos arregalados de Lina, praticamente querendo saltar das órbitas, tamanho espanto.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:00 pm

- A dona Eugénia...
Acho que morreu!
A noite de sono foi um tanto agitada.
Eunice sonhou primeiro com o espírito de Paulo.
- Você não o amava - disse uma voz.
- É verdade - respondeu Eunice.
Eu não o amava.
Deixei-me levar porque ele me aceitou.
Eu não era mais pura.
- Iria se casar só porque ele a aceitava?
Só por isso?
- É - Eunice olhava para os lados e não via ninguém.
Estava sozinha, num quarto vazio, branco, todo branco.
A luz chegava a ofuscar-lhe a visão.
- Como iria descer tanto?
E a auto-estima?
Onde está o amor por si mesma?
Mesmo não amando o moço, iria se casar?
Iria viver ao lado dele por toda uma vida, infeliz, sem sentimento, sem prazer?
- Ao menos eu não seria motivo de escárnio da sociedade.
- Você e a sociedade.
Ainda presa aos conceitos do mundo?
Quer dizer que o mundo vale muito mais do que seus sentimentos?
Ainda pensa assim? Ainda?
- Não. Não quero mais pensar assim.
Eu me livro desse tipo de sentimento.
Por isso não quero mais saber do Paulo.
- E o outro?
- Que outro?
- O outro, oras.
O que a deixou impura.
O que você amou.
Aquele a quem você se entregou.
Ainda sente alguma coisa por ele?
Eunice começou a tremer.
- Não sinto.
- Não sente? Nada?
- Não... na... nada.
- Que bom!
Então ele pode passar aqui na sua frente sem problemas.
Posso trazê-lo até aqui?
- Também não é assim.
Não quero mais vê-lo.
Nunca mais.
- Você não o perdoou.
- Claro que eu o perdoei.
Só não quero mais vê-lo na minha frente.
É um direito que eu tenho.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:00 pm

- Mas eu vou trazê-lo até você.
- Não vai.
- Vou.
- Não.
- Então... - a voz riu.
Eu vou levar você até ele!
Eunice acordou com um grito, a testa empapada de suor.
Nos dias que se seguiram, o sonho foi se desvanecendo da mente, e ela foi se acalmando, ajudando Ione e Leonor a arrumar as malas e empacotar o pouco de louças e objectos que levariam.
O dia da mudança estava se aproximando.
Solange chegou em casa com Selma.
Cumprimentaram Leonor.
Ione adiantou-se em perguntar:
- Vou preparar um refresco.
Está bem quente.
Aceitam?
- Obrigada, Ione.
Aceito - disse Selma, voz gentil.
Solange passou o braço pelas costas da irmã.
Eunice sorriu.
- Está preparada para mudar-se?
- Sim. Quero sair daqui.
Solange e Leonor trocaram olhar significativo.
Selma tirou um livro da bolsa e o entregou a Eunice.
- Trouxe este livro para você.
Eunice o apanhou e leu o título:
Os mensageiros, de Chico Xavier.
Antes de dizer alguma coisa, Selma prosseguiu:
- Solange me disse que você gostou de Nosso lar.
- Sim. Gostei da leitura.
Um pouco rebuscada, precisei ler com a ajuda de um dicionário, mas aprendi bastante.
Ao menos comecei a entender melhor o mundo espiritual.
- Este livro é a continuação de Nosso lar.
- Não sabia que havia uma continuação.
- Pois há.
Depois deste há outros, em sequência, até chegar a Acção e reacção.
Saiu faz poucos meses.
- Há muitos livros para ler.
Não pode reclamar - observou Solange.
- A leitura espiritualista me agrada.
- Agrada, faz bem e aumenta o grau de lucidez.
Tudo o que for para nos fazer bem é bem-vindo - ajuntou Selma.
- Tem razão.
Selma tirou outro livro da bolsa, embrulhado em papel de seda, com um laço bem-feito.
- Este é um presente de despedida.
- Para mim? - indagou Leonor.
- Sim, senhora.
Solange me disse que também tem se interessado pelos estudos espiritualistas e que gosta muito de romances.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:01 pm

- Adoro.
Leonor deixou uma travessa de prata sobre a mesa e apanhou o pacote.
Abriu e havia dois livros.
Um era de Agatha Christie.
- Como sabe que gosto dela?
- Um passarinho me contou! - Selma levantou o queixo em direcção a Solange.
O outro exemplar era A vingança do judeu, do Conde de Rochester.
- A senhora vai adorar este romance.
É um clássico da literatura espírita.
Leonor folheou o livro e sorriu.
Beijou Selma no rosto.
- Obrigada pela gentileza, querida.
Prometo que vou devorá-los.
Ione voltou com uma bandeja, uma jarra com refresco, copos e uns docinhos.
- Fiz uma limonada.
Serviram-se e acomodaram-se no sofá.
- Vamos descansar um pouco - pediu Leonor.
- Estamos desde cedo empacotando nossas coisas.
Estamos cansadas.
Em determinado momento da conversa, Eunice indagou a Selma:
- Por que perdoar é tão difícil?
- Não é difícil, porque, antes de mais nada, precisa perdoar a si mesma.
- Hã? Não entendi.
- Eunice, o perdão só tem valor quando começa por nós.
Somos muito rudes connosco.
Temos a mania de nos colocar para baixo, de nos culpar.
Sempre encontramos um motivo para nos inferiorizar. Pode ver.
Há um bichinho, uma voz na cabeça, que adora nos colocar para baixo.
Desde sempre.
Nós somos nosso verdadeiro carrasco.
- Tem razão.
Eu me condeno, me chamo de burra.
Sempre me culpo por ter me entregado àquele galanteador de quinta.
Se eu não fosse otária, talvez minha vida tivesse sido outra.
- Está vendo?
De que adianta se culpar?
De nada.
Quer dizer, culpar-se traz mais dor e sofrimento para você.
O seu espírito está cansado de apanhar.
Chega de se fazer sofrer.
Está na hora de aprender a ser sua amiga.
Você deve se dar apoio, atenção, carinho, entendimento, força, amor.
Isso significa colocar-se em primeiro lugar.
- Não é egoísmo?
- Não. É dignidade espiritual.
Deus lhe deu a consciência.
O seu espírito está reencarnando, vida após vida, para alargar essa consciência, tornar-se cada vez mais uma pessoa de bem, ligada na essência divina, arrancando o véu das ilusões do mundo e percebendo os verdadeiros valores do espírito.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:01 pm

Só notamos os verdadeiros valores quando estamos no bem e só podemos estar no bem quando nos tratamos bem.
E, quando nos tratamos bem, tratamos o outro bem.
Se nos respeitamos, também respeitamos o outro.
Se nos amamos, também podemos amar o outro.
Como podemos exigir que alguém nos ame se não nos damos amor?
Como exigir que alguém nos respeite se nós somos os primeiros a nos xingar e nos humilhar?
- Nunca pensei assim.
- Pois precisa.
Está na hora de rever a maneira como você se vê.
Queremos que o mundo nos trate melhor.
Mas estamos nos tratando melhor?
Estamos nos dando condições de ser pessoas melhores?
Somos amigos de nós mesmos?
- Eu me sinto traída - uma lágrima escapou pelo canto do olho de Eunice.
- Por quê?
Porque ele não pôde ficar com você?
- Ele não quis.
- Ele não quis ou não pôde?
Quem sabe?
Há uma enorme diferença entre querer e poder.
Depende das circunstâncias.
- Não sei.
Tudo ficou muito confuso na época.
- Você sabia que ele era casado.
Eunice mordiscou os lábios e enrubesceu.
Selma disse firme, fitando-a:
- Não vou passar a mão em sua cabeça, Eunice.
Também não serei um carrasco.
Só quero que veja os factos como são, sem fantasias ou dramas.
Você se apaixonou por um homem casado.
Sabia dos riscos.
Eunice deixou as lágrimas escorrerem livremente.
- Meu coração não foi lógico.
- O coração não é mesmo.
Sentimento é assim, vai e escolhe.
Não pensa. Dá um negócio na gente.
Você sente e, quando vê, já escolheu.
- É, isso é verdade.
- Acreditou que ele fosse largar a esposa e vocês fugiriam sobre o lombo de um camelo pelo deserto, como Marlene Dietrich e Gary Cooper numa linda cena do filme Marrocos.
Eunice riu enquanto secava as lágrimas.
- Acho que sim. Eu amei tanto aquele homem.
Você não faz ideia, Selma.
- Amou? Será que ainda não o ama?
Eunice não respondeu.
Abaixou a cabeça e apanhou o copo.
Bebericou o refresco e ficou a pensar.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:01 pm

Leonor levantou-se e olhou de soslaio para o relógio no hall:
- Precisamos continuar com o nosso trabalho.
- Está no meu horário.
Tenho de almoçar e trabalhar - devolveu Selma.
Vai ao centro hoje, Solange?
- Vou, sim.
Quero aproveitar enquanto não me mudo.
Depois, vai saber quando voltarei a frequentar um local como este.
- Mais rápido do que imagina - Selma ajuntou enquanto apanhava a bolsa e o casaquinho.
Solange indagou:
- O que foi que disse?
- Eu a espero às oito, em ponto.
Selma a beijou no rosto e despediu-se de Eunice e Leonor.
- Essa menina é muito inteligente - observou Leonor.
- Transmite uma paz! - acrescentou Eunice.
- Gostei dela.
- É uma boa amiga - finalizou Solange.
Depois de muita oração, paciência e boa vontade, não necessariamente nessa ordem, Leonor e seus filhos, com Ione, partiram de São Paulo numa manhã bem cedinho.
Na noite anterior, fizeram um jantar de despedida.
Convidaram Orlando e Selma.
O jantar correu agradável.
Perceberam um brilho diferente nos dois.
Ao fim do jantar, Orlando anunciou:
- Pedi a mão de Selma em casamento.
Solange abraçou a amiga, emocionada.
Leonor os cumprimentou com efusividade, e Daniel fez o mesmo.
Leonor chamou Ione.
- Pegue aquele vinho que sobrou - ela riu.
A última garrafa.
Vamos celebrar a união de vocês e a nossa partida.
Eunice esboçou um sorriso, mas por dentro sentiu uma ponta de inveja.
- Por que eu não me dou bem no amor?
Por quê?
Será que tem a ver com vidas passadas?
Será que estou pagando por ter cometido desatinos?
Como se estivesse lendo seus pensamentos, Orlando respondeu:
- Ninguém paga por nada.
Você não está sofrendo por conta de vidas passadas.
Eunice levou um susto e até levou a mão ao peito.
- O que disse?
- Ninguém paga nada.
Não existe débito de vidas passadas.
- Sempre ouvi, quer dizer, algumas leituras que fiz...
- Esqueça essas leituras.
Não esqueça que quem escreve os textos é um encarnado.
Mesmo que esteja inspirado por um espírito, por mais iluminado que seja, todo texto passa pela mente de um médium.
Não há como não ter a mistura do que o espírito quer transmitir com o que o médium pensa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:01 pm

- O que vivo hoje não é o resultado do que vivi no passado?
Não estou colhendo o que plantei?
- Sim. Estamos falando de escolhas.
Entretanto, você pode mudar o rumo dos acontecimentos a cada segundo.
A sua vida é um livro em branco em que você vai escrevendo conforme faz suas escolhas.
- Certas ou erradas - completou Daniel.
- Não - corrigiu Orlando.
Simplesmente escolhas.
Não importam se são certas ou erradas.
O que é bom para você pode não ser bom para mim e vice-versa.
Cada um deve saber o que é bom para si.
Se fizer bem, óptimo, continue adiante.
Se não fizer, então pare, reflicta, mude.
A vida é solta, ela é como uma massa de modelar.
Você pode moldar o que quiser, como quiser, do jeito que quiser.
Mas você - Orlando enfatizou - precisa dar um rumo, fazer uma escolha, seja ela qual for.
E, claro, ser o único responsável pela consequência dessa escolha.
Por isso digo, lá no centro, que somos cem por cento responsáveis por tudo aquilo que atraímos em nossa vida.
- É uma forma bem peculiar de encarar a vida - observou Leonor.
- Ao menos tira-se o drama e consegue-se enxergar os factos com maior clareza, permitindo que você faça suas escolhas com mais responsabilidade.
Afinal, se você aceitar que não há vítimas no mundo, que tudo na vida acontece para fortalecer o espírito, o senso de realidade, de bondade e de justiça mudam completamente.
- Isso é - respondeu Eunice.
Eu não estava vendo por essa óptica.
- Precisa ver.
Só assim será capaz de defender-se das energias desagradáveis que tentam perturbar o seu sono, tirar a sua paz.
- Eu rezo.
- Não adianta.
Precisa sentir aí no coração - apontou.
- Você tem de se dar a chance de parar de se criticar.
Está na hora de pedir perdão a si mesma, Eunice.
O passado passou.
Os desacertos afectivos já se foram, estão lá atrás.
Eles foram necessários para que você acordasse e aprendesse a amar a si mesma, aprendesse a se colocar em primeiro lugar.
Eunice sentiu uma profunda emoção.
Os olhos embaciaram.
Solange sentiu o mesmo.
Aquilo mexeu com ela, mas não queria pensar.
Não naquele momento.
- Eu quero ser feliz - declarou Eunice, com convicção.
- Tem todo o direito. Pode e deve.
Mas precisa cultivar bons pensamentos, ter bom humor, alegria pela vida.
Se começar a introjectar essa alegria dentro de você, tenho certeza de que logo teremos boas notícias.
Um brilho de emoção perpassou os olhos dela.
Eunice pousou a mão sobre a de Orlando.
- Obrigada.
Você e Selma foram muito importantes para eu voltar à vida.
Ione chegou com o vinho.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:02 pm

Daniel abriu a garrafa, serviu as taças e brindaram.
Despediram-se e tiveram uma agradável noite de sono.
Era finzinho de tarde quando chegaram a Teófilo Otoni.
Não era uma mansão, mas também não era uma casa mediana.
Tratava-se de um casarão, muito bem construído, imponente até.
Chamava a atenção de quem passava.
Ficava no centro da cidade, fora construído no início do século e agradara a todos.
- Melhor do que eu esperava - admitiu Leonor, sorrindo, assim que desceu do carro.
- Melhor do que na foto - emendou Solange, animada.
Fica perto de tudo.
- Muito movimento - observou Eunice.
Não sei se vou me acostumar ao barulho.
Embora morássemos em uma cidade grande e agitada, nossa rua era bem tranquila.
- Vocês vão se acostumar.
A cidade é acolhedora, as pessoas são gentis - tornou Daniel, enquanto retirava as malas do bagageiro.
- Quisera trazer nossos móveis... - a voz de Leonor denotava tristeza.
- Mamãe - observou Solange, enquanto passava o braço pelo ombro de Leonor - a mobília lá de casa era antiga e pesada.
- Eram móveis de família.
- Era hora de desapegar.
O passado ficou para trás, no seu devido lugar.
Agora é hora de olhar para a frente, uma nova etapa se descortina - ela cutucou Leonor de leve e apontou com o queixo.
Leonor acompanhou e notou Eunice abaixada na beira do jardim, apanhando algumas flores.
- As coisas vão mudar, para melhor.
A senhora vai ver.
- Assim espero.
Caminharam até a entrada.
Ione abriu o portão de ferro, e uma moça muito simpática as esperava.
- Olá, dona Leonor.
Meu nome é Neide.
Sou filha do seu Deoclécio.
Leonor meneou a cabeça.
Daniel foi até elas.
- Mãe, seu Deoclécio é o caseiro que cuidou da casa enquanto não vínhamos.
- Ah, sim - estendeu a mão.
Prazer.
- Eu vim para dar uma ajeitada na casa - completou Neide.
Um toque feminino...
Abri as janelas, deixei o sol entrar, retirei os lençóis que cobriam a mobília.
Desde a semana passada, cada dia limpava um cómodo.
Não é uma casa pequena, mas também não é um castelo - ela riu.
Em todo caso, fiz o meu melhor e procurei deixar a casa arrumada, perfumada e com boas energias.
A última palavra chamou a atenção de Solange.
Ela se achegou ao grupo e apresentou-se.
- Olá.
Neide lhe estendeu a mão e sorriu:
- Você tem óptima sensibilidade.
- Como sabe?
Aliás, você falou em energias.
Isso me chamou a atenção.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:02 pm

- Sou médium - tornou Neide com naturalidade.
- Eu frequentava um grupo espiritualista em São Paulo - comentou Solange.
Senti muito quando tive de me mudar para cá.
Pensei que fosse difícil encontrar um centro ou alguém e, assim que chego, logo de cara, já encontro uma médium.
- Na porta de casa - redarguiu Daniel.
- Nada é por acaso - alegou Neide.
Na verdade, eu os estava aguardando.
Leonor, Solange e Daniel trocaram um olhar significativo.
Ione foi caminhando em direcção à casa com algumas sacolas e, antes de entrar, voltou o rosto e acenou para Neide, sorrindo:
- Se precisarem de algo, é só me chamar.
Neide apontou para Eunice, que continuava abaixada colhendo flores, e comentou com Leonor:
- Sua filha precisa de nosso carinho e de nossa atenção.
- Eunice está curada.
A obsessão passou, graças a Deus - tornou Leonor.
- É verdade - respondeu Solange.
O pessoal do centro espírita fez uma série de orações e tratamentos espirituais.
Eunice livrou-se dos obsessores e agora está bem.
- Ela se livrou dos obsessores, mas ainda está presa a antigos padrões de pensamentos que fatalmente irão fazer com que ela atraia novas companhias desagradáveis.
Afinal, somos sempre responsáveis pelo que atraímos, seja bom ou ruim.
Por isso, precisa mudar seu jeito de pensar.
- Eunice melhorou bastante.
Ela agora só pensa coisas boas.
- Até se reencontrar com o passado.
- O passado está esquecido.
Ela se livrou das culpas, tem reflectido bastante sobre a postura de vítima.
Leu os livros de Émile Coué, está estudando os livros de Chico Xavier e está mais sorridente, inclusive! - completou Solange.
- A minha mediunidade - explicou Neide - abriu-se quando eu tinha doze anos.
Minha família, católica e muito humilde, nada entendia e nada pôde fazer para me ajudar.
Eu fui levada por uma tia a um centro espírita em Pedro Leopoldo e lá fui atendida.
Aos poucos, os meus guias espirituais foram me indicando livros, cursos e, assim, eu me transformei em uma espiritualista independente.
Sou admiradora dos livros de Allan Kardec, como também estou aberta a toda forma de conhecimento que possa ampliar cada vez mais a minha consciência e aumentar meu grau de lucidez para as verdades do espírito.
- Então conhece o trabalho de Émile Coué? - indagou Leonor, desconfiada.
- Sim. Costumo citar uma frase famosa do professor Coué em minhas aulas de mediunidade:
Todos os dias, sob todos os pontos de vista, eu vou cada vez melhor.
Leonor levou a mão à boca.
Estava impressionada.
À sua frente estava uma moça com pouco mais de vinte anos de idade, bonita até, mas vestida de maneira simples, com gestos bem delicados, postura humilde.
No entanto, exalava carisma, tinha uma voz doce, serena, transmitia uma paz e uma sabedoria que ela, mesmo tendo viajado o mundo e conhecido gente da mais alta sociedade, nunca havia visto antes.
- Fico contente que pense dessa forma - respondeu Daniel.
Eu preciso voltar a São Paulo, resolver uns assuntos, quem sabe...
Neide o cortou com amabilidade na voz:
- Passar na prova do banco.
Você pensa muito em segurança.
Se permitir-se alçar voos mais altos, poderá fazer o que realmente gosta.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:02 pm

- E o que seria? - provocou Daniel.
- Dar aulas.
Daniel abriu e fechou a boca.
Como Neide poderia saber disso?
Leonor arregalou os olhos e perguntou, admirada:
- Meu filho, é verdade?
Você quer ser professor?
Ele demorou para responder.
Fitou Neide de cima a baixo.
Como ela poderia saber de um sonho guardado a sete chaves?
Meio sem graça, respondeu:
- É, mamãe. Gostaria de leccionar.
É um sonho que tenho guardado a sete chaves, mas, desde que perdemos tudo, penso no concurso público, em um salário fixo vitalício, entende?
- Você não é o seu pai - interveio Neide.
Não se compare a ele. Você é você.
Outra história, outras crenças, outra vida.
Faça e concentre-se naquilo que deseja, de coração.
O resto, bem, deixe nas mãos de Deus.
Ele vai orientá-lo.
Daniel não conseguia articular som.
Demorou para responder.
- Eu ia a São Paulo para prestar a prova, ajudar um amigo para ver se vale a pena ele arrendar um negócio e...
Neide o cortou com docilidade:
- Seu amigo tem o caminho dele, do jeito dele.
Ajude-o no que precisar.
- Não gosto do Luís Sérgio - interveio Solange.
- Não é bom amigo.
- Eu gosto - afirmou Daniel, dando os ombros.
- É um moço que tem ambição, vontade de crescer, prosperar.
Faz parte do ser humano, não? - ajuntou Neide.
Quem aqui não pensa em enriquecer, ter um bom padrão de vida, ter casa, conforto, dar boa educação para os filhos?
Ninguém respondeu.
Neide prosseguiu:
- Não julguem o próximo.
Cada um faz o que sabe.
Ninguém dá o que não tem.
Luís Sérgio precisa de uma mulher forte ao seu lado, que pense da mesma forma que ele.
Haverá um momento em que terá de fazer escolhas muito difíceis.
A vida desse homem não será nada fácil.
Solange sentiu uma raiva surda brotar dentro de si.
- Tomara que seja bem difícil - rilhou os dentes.
- O que disse? - perguntou Leonor.
- Nada, mamãe. Preciso entrar.
Estou cansada da viagem.
Prazer, Neide. Até mais - falou e entrou.
Leonor ruborizou:
- Desculpe-me.
Solange não costuma ser tão mal-educada.
Não sei o que deu nela.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:02 pm

- Também não sei - completou Daniel.
- Deixe estar - finalizou Neide.
Preciso ir. Está ficando tarde.
Eunice fizera um lindo arranjo com as flores, levantou-se e foi ao encontro deles.
Assim que seus olhos fixaram os de Neide, ela abriu um largo sorriso.
- Essas flores são para você e seu mentor.
- Obrigada.
Eunice entregou as flores e entrou na casa.
- Viu? - disse Daniel.
Eunice está óptima.
Neide concordou com a cabeça, enquanto pensava:
estão preocupados com Eunice, mas ela está e vai ficar cada vez melhor.
Boas surpresas a esperam!
Infelizmente, não percebem que Solange está se afundando na perturbação mental.
Preciso vibrar por esta menina e, assim que possível, ter uma conversa com ela.
Neide concluiu as ideias e despediu-se da família:
- Estou sempre na cidade, na parte da manhã. Sou professora primária e dou aulas naquela escola - apontou para um colégio a algumas quadras dali.
Fiquem com Deus.
Ela dobrou a esquina e Daniel balançou a cabeça para os lados:
- Mamãe, gostei muito de termos mudado para cá!
Estou com a sensação de que muita coisa boa vai acontecer.
Penha chegou em casa e foi logo procurando o sofá.
Jurandir acomodou-a e ofereceu:
- Quer uma água?
- Não. Quero descansar.
Não encontro posição confortável.
- Mais alguns meses e logo esse bebezinho sairá daí de dentro - falou, num tom meloso que encantou a esposa.
Jurandir tinha uma capacidade impressionante de se transformar em um homem bom e generoso na frente de Penha.
Não que ele fosse ruim.
Ele era um doente da alma.
Vivera muitas vidas perdido nos liames da lascívia, seduzindo e deixando-se seduzir, ora reencarnando como homem, ora como mulher, tentando encontrar um ponto de equilíbrio para o seu espírito.
Havia algumas vidas, seu espírito, atormentado e cansado do vício em sexo, pedira para enfrentar e vencer os impulsos sexuais.
Se ele procurasse ajuda psicológica e espiritual, talvez tivesse êxito na superação de seus desejos torpes.
Quando o desejo tomava conta de seu corpo, Jurandir ficava cego e deixava-se envolver por espíritos que vibravam na mesma sintonia.
E, diga-se de passagem, o planeta está infestado de espíritos perdidos e atormentados em consequência do sexo desenfreado.
Penha, insegura e com medo de ficar sozinha, não notava os mínimos sinais que poderiam fazê-la enxergar o verdadeiro Jurandir.
Preferia acreditar que ele era o homem perfeito, sem vícios ou defeitos.
Ela se recostou sobre algumas almofadas e perguntou:
- Onde está Melissa?
- No quarto.
- Nem vai descer para me cumprimentar?
- Está estudando.
- Estudando o quê? O novo manual para concurso de miss?
- Deixe-a. Vou cuidar do seu jantar.
- Filha ingrata. Nem veio me ver. Deve estar com raiva porque vamos ter nosso bebé. Eu estraguei essa menina. Filha única, sabe como é.
- Não, meu amor.
Ela me disse que está indisposta, naqueles dias - baixou o tom de voz.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 26, 2016 8:02 pm

- Ah, Jurandir, se não fosse você... não sei o que seria de minha vida.
- Estou aqui e sempre estarei ao seu lado - ele apanhou a mão dela e acariciou.
A porta do quarto estava entreaberta.
Melissa escutou a conversa e um ódio surdo brotou em seu peito.
Sentiu vontade imediata de matar Jurandir.
Naquele momento, em sua mente, desfilavam inúmeras maneiras sórdidas de acabar com o infeliz.
Triste, desiludida, sentindo dor física e moral, encostou a porta, passou o trinco e jogou-se na cama.
Se ele voltar a me atacar, eu vou me matar, pensou, entre lágrimas e soluços.
Depois de um tempo, cansada e abatida, Melissa adormeceu.
Estêvão, um espírito amigo, espécie de mentor ou anjo da guarda de Melissa, aproximou-se e passou delicadamente a mão sobre o rosto dela.
- Pobre menina.
Eu nada posso fazer, a não ser inspirá-la para não cometer desatinos.
Quisera eu dar um fim nessa história e livrá-la dessa crueldade.
- Não pense dessa forma - interveio Maruska.
- Sei que não há vítimas no mundo.
Sei mais do que ninguém que colhemos o que plantamos.
Por mais duro que seja, essa é uma verdade irrefutável.
- Melissa deixou-se levar pelos caminhos perigosos da sedução.
Sempre a usou de maneira equivocada, provocando desajustes em seu perispírito.
Ela tem melhorado a cada encarnação.
Agora quer usar a beleza de maneira sadia, sem segundas intenções.
- Já notei isso.
No entanto, estar ao lado de Jurandir... me dá náuseas ver o que esse pobre homem faz com ela e com as outras.
- Jurandir, por mais que tenha melhorado, ainda está longe do que consideramos ser um grau de total desprendimento das paixões mais vulgares.
Seu espírito está em outro nível, mas, como Deus está sempre ajudando a todos, Jurandir tem a chance de mudar.
E um dia vai tomar consciência e não cometer mais esse tipo de desajuste.
- Melissa não merece.
- Não se esqueça de que ela o seduziu em última encarnação.
Ela foi madrasta de Jurandir e o iniciou no sexo quando ele tinha nove anos de idade.
O menino mal sabia o que estava fazendo.
Era uma encarnação em que Jurandir poderia ter recebido orientação para abrandar a paixão desvairada.
Lembre-se de que Melissa não só o seduziu, mas também despertou novamente a lascívia no espírito dele.
Claro que cada um é responsável por suas escolhas; todavia, Melissa contribuiu para Jurandir seguir novamente pelo tortuoso caminho do sexo desenfreado.
- Não precisa me lembrar.
Eu estava entre eles.
Poderia ter feito alguma coisa. Fui fraco.
- Não. Fez o melhor que pôde.
Agora a vida lhe deu a chance de acompanhar Melissa e ajudá-la a não cair em tentação.
Da mesma forma, deve vibrar para que Jurandir consiga ajuda e equilíbrio.
- Tem razão.
- Você disse que ela não merece.
Ninguém merece sofrer.
A vida não pune ninguém, apenas educa.
A vida faz com que os desafectos reencarnem juntos, próximos, a fim de resolverem as pendências negativas do passado.
Melissa pediu para voltar ao lado de Jurandir.
- Ela quer matá-lo ou matar-se.
Isso me preocupa.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:12 pm

- Melissa é esclarecida e tem livre-arbítrio.
Está angustiada e é natural que tenha esses pensamentos por ora, ainda mais passando por situação tão delicada.
Ocorre que ela tem o amor de Eugénia e Lina.
Cabe a nós fazer a nossa parte: inspirar Eugénia a levar Melissa para sua casa e colaborar para Melissa aquietar seu coraçãozinho angustiado.
Vamos, ajude-me. Fechemos os olhos.
Estêvão concordou. Fechou os olhos.
Maruska fez uma prece bonita e pingos de luz começaram a penetrar o quarto, como se fossem floquinhos de neve.
Logo as formas-pensamento negativas foram dissipadas e a serenidade reinou ali.
Os dois espíritos abriram os olhos, e Estêvão sorriu:
- Ela está melhor - abaixou-se e beijou Melissa na testa.
Durma bem e tenha bons sonhos.
Lembre-se de que há muitos que a amam e estão torcendo para você superar esta fase tão difícil.
- Bibiana nos espera - avisou Maruska.
Precisamos ir.
Estêvão concordou.
Os dois sumiram no ar.
Mesmo com tantos dissabores, Melissa teve uma noite de sono tranquila.
Aderbal deitou Eugénia sobre a cama.
Lina trouxe amoníaco, e ele aproximou o frasco das narinas da mulher.
Eugénia arregalou os olhos e cravou as unhas no marido.
- O que aconteceu?
- Você desmaiou, minha querida.
Ela levou a mão à testa.
Abriu e fechou os olhos.
Olhou ao redor.
- Sente-se melhor?
- Sim.
- O que aconteceu? - a voz de Aderbal estava carregada de preocupação.
Eugénia olhou ao redor e, por trás do ombro do marido, viu Lina.
A menina meneou a cabeça de maneira negativa e balbuciou algo como agora não.
Eugénia entendeu e, um tanto a contragosto, redarguiu:
- Eu me abaixei para pegar um botão e levantei-me muito rápido.
Senti tontura e caí.
Daí me lembrei de que mal comi hoje.
Aderbal sorriu.
- Meu coração não anda lá tão bom.
Veja se não me dá mais sustos assim.
Você é o meu porto seguro - ele falou e beijou-a no rosto.
Eugénia deixou uma lágrima escorrer pelo canto do olho.
- Eu o amo, Aderbal.
- Eu também a amo, minha querida.
Lina sentiu forte emoção.
Aproximou-se e indagou:
- O que acha de eu fazer um chá de cidreira?
- Óptima ideia! - ajuntou Aderbal.
- Não precisa.
- Imagine, dona Eugénia.
Eu apanho umas folhas lá perto do barracão.
Faço num instante.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:12 pm

Lina saiu.
Aderbal apaziguou a esposa:
- Vai dar tudo certo.
- O que vai dar certo?
- Hã?
Eugénia olhou para o marido com desconfiança.
Ela não podia ver, mas atrás de Aderbal estava o espírito de Estêvão a inspirá-lo.
- O que você falou, meu querido?
- Que um chá de cidreira vai lhe fazer tremendo bem...
Eugénia, naquela noite, rezou muito.
Pediu aos seus santos que protegessem sua afilhada.
- Nossa Senhora da Conceição, proteja a minha afilhada!
Pegou o terço e rezou com fé.
- Amanhã vou à igreja acender uma vela e comungar.
O chá, a amorosidade do marido e o carinho de Lina trouxeram-lhe bem-estar e acalmaram seu coração.
Eugénia não percebeu, mas a sinceridade com que orou criou uma energia de paz e harmonia ao redor dela e em volta da casa, atingindo beneficamente Aderbal e Lina.
Naquela noite, todos dormiram bem.
Durante a madrugada, Lina sonhou.
Estava no mesmo banco, no mesmo jardim, sentindo o ar puro misturado ao perfume que agradavelmente inundava o ambiente.
Maruska aproximou-se e ela se levantou:
- Estava com saudades.
- Eu também, minha querida - devolveu Maruska, enquanto lhe afagava os cabelos.
- Estou melhor, a vida ao lado de dona Eugénia e de seu Aderbal é melhor do que eu poderia imaginar.
- Eles a querem muito bem.
- Sinto isso, apesar de que, antes, achava que estivessem querendo me tirar algo.
- E queriam.
- Minha intuição estava certa!
- Certíssima.
- O que era, Maruska?
- Nada que valha a pena saber agora.
O que importa é que Eugénia queria algo, e Aderbal foi atrás.
A vida, sábia, fez com que vocês três pudessem se reencontrar e estar juntos novamente, mesmo que por pouco tempo.
Toda reaproximação é válida, não importa de que maneira esse reencontro foi provocado.
- Eles me queriam mal?
- Não se trata disso.
Eugénia ainda tem resquícios de vingança.
Confesso que são poucos, mas ainda os tem.
Ela teve um deslize e, por conta disso, accionou o mecanismo que facilitou o reencontro entre você, ela e Aderbal.
- Mas...
- No tempo certo, você saberá o real motivo.
- Está bem, Maruska.
Na verdade, o que mais me incomoda é saber que Melissa corre risco ao lado daquele homem.
- Riscos, todos nós corremos, minha querida - Maruska devolveu com docilidade.
A ligação entre Melissa, Jurandir, Penha e o bebé que está por vir tem sido conflituosa há tempos.
- Ela é só uma moça. Por que tem de sofrer?
- Ela não tem de sofrer nada.
Veja só: ao reencarnar, somos chamados a movimentar nosso poder interior, o poder do amor, do carinho, do respeito, da força, da coragem.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:13 pm

Tudo é provocado pelo nosso poder de crença.
Vivemos aquilo em que escolhemos acreditar.
- Ela ainda não é maior de idade.
- Contudo, o espírito é bem antigo, já passou por inúmeras experiências.
Melissa agora tem o poder de transformar o próprio destino.
- Transformar como?
- De acordo com aquilo em que deseja acreditar, você constrói o seu roteiro de encarnação.
Melissa precisava retornar ao planeta ao lado de Penha e Jurandir.
Ela atrapalhou muito a vida de Penha em outros tempos e cometeu desatinos com Jurandir que não cabe, por enquanto, revelar-lhe.
Para superar outros desafios, melhorar seus potenciais, Melissa solicitou aos nossos superiores reencarnar ao lado deles para resolver a situação da melhor maneira e livrar-se do que se conhece como carma.
- Carma?
- É. Situações idênticas ou muito parecidas que se repetem ao longo de muitas vidas.
Melissa escolheu acabar com o ciclo vicioso de paixão, sedução e posse entre ela e Jurandir.
- Ele é asqueroso!
- Melhor para ela.
Imagine se, mesmo nesta triste situação, ela nutrisse algum sentimento de desejo por ele.
Não seria pior?
- É. Seria.
- Pois veja: a vida criou situações desagradáveis para estimular Melissa.
Se não há desafio, você não muda.
É uma característica do nosso espírito acomodar-se em uma situação confortável.
Às vezes, um acontecimento imprevisível muda o rumo dos acontecimentos, obrigando-nos a tomar atitudes, fazer alguma coisa, reagir.
Acho que a palavra é esta - Maruska levou delicadamente o dedo no queixo e reflectiu, depois tornou a dizer:
- Reagir!
- O mesmo que aconteceu comigo? - indagou Lina.
- Quer dizer, se nada tivesse acontecido com meus pais, se a chuva tivesse aparecido, se tivéssemos tido colheita...
então eu estaria ainda morando no meio do sertão e, muito provavelmente, passaria a vida toda lá, sem conhecer outras cidades, sem conhecer Melissa, dona Eugénia...
- Mais ou menos isso - ajuntou Maruska.
Dessa forma, Melissa vai usar o arbítrio, reconhecer o poder interior para livrar-se de Jurandir e Penha de uma forma que não fique mais presa a eles de maneira negativa.
Depois, terá condições de seguir seu caminho com mais firmeza, mais dona de si.
Fazendo a parte que lhe cabe, logo Penha e Jurandir não serão mais um estorvo em sua vida.
Não dessa forma.
- Quer dizer que, se Melissa seguir o coração, vai ter atitudes melhores?
- Sim.
- E vai se livrar dos dois de uma só vez?
- Não diria se livrar, mas, se for para se encontrar em novas etapas reencarnatórias, será só para o melhor.
Poderá haver até um conflito aqui e ali, mas nunca mais será para o pior.
- Tenho medo de que, ao saber desse segredo terrível, seu Aderbal tome atitudes drásticas.
- Ele não vai tomar.
- Seu Aderbal é calmo, no entanto, parece um rio.
Calmo na superfície, mas um turbilhão nas profundezas.
É esquentado.
Se mexer com ele, não sei do que é capaz.
Sinto até medo.
- Aderbal não vai fazer nada.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:13 pm

- Como tem tanta certeza?
- Porque tem muita coisa para acontecer.
Eugénia não vai tomar atitudes precipitadas.
- Você prevê o futuro?
- Não - Maruska riu.
É como se eu pudesse enxergar as alternativas na minha frente.
De acordo com a escolha de cada um de vocês, eu sei o que, provavelmente, irá lhes acontecer.
- Se for ruim, tem como evitar?
- Infelizmente, não.
A experiência é única, é do espírito.
Nós não podemos interferir na vida de ninguém.
Podemos, obviamente, inspirar bons pensamentos, sugerir boas ideias, mais nada.
- Se Jurandir é um doente, o bebé que vai nascer não corre perigo?
- Riscos, todos correm, a partir do momento em que dão o primeiro grito e o primeiro choro.
Em todo caso, esse espírito que retorna ao planeta é uma tentativa de ajudar Jurandir.
- Ajudar?! Como? - Lina deu um salto.
- Calma, querida.
Trata-se de um espírito que Jurandir ama de paixão, no bom sentido.
Ele tem tudo para se tornar um óptimo pai, mudar de verdade.
Será um espírito bem adiantado que poderá, sim, transformar Jurandir em um homem efectivamente ligado ao bem.
- Duvido.
- Todos podem mudar, Lina.
- E se Jurandir não mudar?
Maruska levantou os ombros.
- Como disse, todos nós corremos riscos.
Jurandir, Penha e o bebé que está por vir pediram esse reencontro.
Estão se esforçando pelo melhor.
Se Jurandir não mudar seu jeito de ser, há a possibilidade de o bebé não viver muito tempo.
- Morrer na infância, como meu irmão Donizete?
- Devemos dar tempo ao tempo, Lina.
Você está querendo accionar a chave das probabilidades: e se isso?, e se aquilo?
As duas sorriram.
- Desculpe. Estou enchendo-a de perguntas.
Vamos rogar a Deus que os ilumine e os fortaleça para que vençam.
Só isso.
Não podemos esquecer que a vida não desperdiça nenhuma oportunidade.
Está tudo certo.
- Mas o que ele fez com Melissa é imperdoável.
- Não queira se meter.
Você já arrumou tanta encrenca, já se esfolou tanto por conta de atitudes impensadas.
Por que vai arrumar mais confusão?
- Porque é muita crueldade. Não admito.
- Não vai mudar nada, minha querida.
Tudo no planeta ocorre de acordo com o grau de evolução do homem.
Um dia vai melhorar, como já melhorou bastante, porque a humanidade vai aprendendo, sempre.
- Então quer dizer que está tudo certo?
- Sim. Está tudo certo, porque Deus não erra, Lina.
Você é que vê erro e não entende.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:14 pm

E o que não entende, você acha que é errado.
Olha, se você pudesse sentir o pensamento de Deus, ia ver que está tudo certo do jeito que está, que é isso mesmo que Deus quer.
Porque, se Ele não quisesse assim, já teria mudado.
- É confuso para assimilar num primeiro momento... mas não é que você tem razão?
- Entenda que está tudo certo.
Feche os olhos e sinta isso, meu bem.
Lina obedeceu Maruska.
Fechou os olhos. Respirou fundo.
Depois de reflectir, abriu os olhos e sorriu.
- Sabe, Maruska, estou gostando de viver com seu Aderbal e dona Eugenia.
- Que bom!
- E meus pais?
Como estão?
- Continuam em tratamento num posto de socorro aqui perto do planeta.
- Por que tanta demora?
- Cada um tem um tempo para despertar e ter condições de seguir seu caminho no mundo espiritual sem raiva, ódio ou sentimentos negativos similares.
Seus pais ainda não tomaram real consciência do desencarne.
Assim que estiverem em melhores condições de perceber e aceitar essa realidade, mais lúcidos e conscientes, eu a avisarei.
- Obrigada.
- Agora precisa voltar.
Está na minha hora. Tenha bons sonhos.
Maruska beijou-lhe a testa e a conduziu até a cama.
Assim que Lina retornou ao corpo, o espírito sumiu, deixando um rastro de luz calmante no ambiente.
Nos dias que seguiram, Eugénia rezou muito, depois foi ao confessionário, abriu-se com o padre e tomou uma resolução.
Aliviada, saiu da igreja decidida.
Enquanto descia a escadaria, disse entre dentes:
- Não vou contar a Aderbal sobre os problemas de Melissa.
Ele tem o coração um tanto fraco e pode passar mal.
Tem aquele jeitão calmo, mas é esquentado.
Pode ter um acesso de fúria e sabe Deus o que é capaz de fazer! - ela fez o sinal da cruz e continuou:
- Vou convencê-lo, com jeitinho, a trazer Melissa para cá.
Ela vai morar connosco.
Simples assim.
Abriu um largo sorriso e foi encontrar Aderbal no mercado.
- Já fiz as entregas, Eugénia.
- Tem mais alguma coisa para fazer, querido?
- Não. Podemos ir.
- Então vamos para casa.
- Não precisa passar no armarinho?
Não ia comprar renda para bordar o vestido da Lina?
- A Neide vai levar.
Aderbal fez um muxoxo.
Eugénia o encarou:
- O que foi?
- Tem certeza de que essa moça é boa influência para Lina?
- Por que pergunta, Aderbal?
- Dizem que Neide não bate bem das ideias - ele abaixou o tom de voz.
Ela conversa com espíritos.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:14 pm

Eugénia deu de ombros.
- E daí?
- Você é católica!
Como pode acreditar nessas coisas?
- Porque, depois que nossa filha morreu, eu passei a enxergar a vida de outra forma.
Comecei a questionar a vida e a morte.
Procurei abrir minha cabeça para serenar meu coração.
- E voltou a igreja.
Frequenta missa.
Não acha uma contradição?
- Não, meu marido. Não acho.
Eu adoro os rituais da Igreja, sinto-me bem com as palavras do padre Dória.
Sei que posso encontrar Deus em qualquer lugar, deitada na minha cama, por exemplo, porque Deus se encontra aqui - apontou para o coração.
Contudo, vir até aqui, sentir a energia benéfica do templo sagrado, me faz enorme bem.
Sou devota de Nossa Senhora da Conceição, acredito em milagres e também em espíritos.
Que mal há nisso?
Aderbal abraçou-a e beijou-a.
- Cada dia que passa, eu a amo mais.
- Que bom! - Eugénia falou e soltou uma risada bem gostosa.
Saíram de braços dados.
Entraram na caminhonete e logo estavam na chácara.
Lina colocava os pratos na mesa.
- Trouxe a renda?
- A Neide vai trazer - tornou Eugénia.
Quero saber se está pronta para a aula de hoje.
- Claro que estou!
Aprendo com rapidez.
Neide é uma óptima professora.
- Ela não tem colocado caraminholas na sua cabeça, tem?
Lina não entendeu a pergunta de Aderbal.
Eugénia saiu na frente:
- Deixe as duas em paz.
Neide é uma óptima moça e tem feito enorme bem à nossa menina.
- Nossa menina!
Olha como está falando!...
- E não é verdade?
Antes, andávamos tristes, cabisbaixos, remoendo a nossa dor, chorando a perda de nossa filha, sufocando-nos em lágrimas de tristeza.
De repente, a vida trouxe Lina até nós.
- Mas você relutou - Aderbal disparou enquanto xeretava as panelas no fogão.
- Relutei e pensei melhor.
Agora temos Lina, a companhia de Neide e logo...
- Logo o quê?
Eugénia piscou para Lina e completou:
- Depois do almoço vamos ter uma conversa séria.
- O que está tramando? - quis saber, curioso.
- Tramando coisa boa.
Enquanto Lina estiver tendo aula, iremos até o quarto conversar.
Vou lhe fazer uma proposta que será difícil você recusar.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:14 pm

- Eu não recuso nada vindo de você - respondeu Aderbal.
Assim não vale!
Os três riram a valer.
O almoço foi servido.
A alegria reinava no ambiente.
Às duas da tarde, conforme o combinado, Neide chegou para a aula.
Morena e bem magrinha, semblante sereno, não aparentava ter o conhecimento e o carisma que tinha.
No entanto, era só abrir o sorriso, começar a falar, e as pessoas ficavam paralisadas, tamanho o fascínio que suas palavras lhes despertavam.
Neide era filha de um casal de lavradores que morava na redondeza.
O pai dela, Deoclécio, trabalhava também como caseiro.
Seu último trabalho tinha sido no casarão de dona Leonor.
Com o dinheiro juntado nos últimos anos e com a ajuda dos outros filhos, já casados, tinha arrendado uma chácara e viviam da plantação e venda de hortaliças.
Neide se formara professora e dava aulas para crianças na cidade.
Quando conheceu Lina e soube de sua história, prontificou-se em alfabetizar a menina, para que logo pudesse prestar a admissão e frequentar o ginásio.
A família de Neide era católica, contudo, certa vez, ela, mocinha, passou a ver e receber mensagens dos espíritos.
Uma tia percebeu que a mediunidade de Neide se abrira e a levou até o centro espírita presidido por Chico Xavier, na cidade de Pedro Leopoldo.
A moça encantou-se com o médium e com os ensinamentos dele e de seus guias espirituais.
Sua sensibilidade aflorou e, dali em diante, interessou-se em estudar mais sobre a mediunidade e o mundo dos espíritos.
Neide comprou os livros de Allan Kardec, estudou várias correntes espiritualistas e tinha facilidade em ver os espíritos e comunicar-se com eles.
Conversava sobre o assunto com tanta naturalidade que seus pais, católicos praticantes, escutavam-na com atenção, e toda pergunta que a Igreja não lhes respondia a contento, Neide procurava elucidar sob a óptica espírita.
A fama da menina cresceu, e seu pai construiu um barracão na chácara para Neide fazer o Evangelho e dar passe nos interessados.
Devido à sua mediunidade fantástica e guias das mais variadas falanges espirituais, recebia cada vez um número maior de pessoas para atendimento, principalmente para realizar trabalhos de cura.
Lina adorava as aulas de alfabetização.
Sentia-se bem ao lado de Neide e aprendia com rapidez, porquanto a didáctica desenvolvida pela jovem lhe despertava o interesse sobre todas as matérias apresentadas.
- Fez a lição, Lina?
- Sim. Está tudo aqui.
Consigo ler melhor também.
- Mesmo?
- E estudei os continentes africano e asiático.
- Muito bem! Está adiantada.
- Gosto de geografia.
Neide abriu o mapa-múndi:
- Quero ver se estudou mesmo.
- Aposto um refresco - sugeriu Lina.
- Combinado. Vamos lá.
Que país é este? - Neide apontou no mapa.
- É... Ceilão.
- E este?
- Rodésia do Norte.
- Parabéns!
- Estou com uma dúvida nos colectivos.
- Vamos terminar geografia, depois estudaremos os colectivos.
De um canto da cozinha, Eugénia as observava com gosto.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:15 pm

Sorriu e foi até o quarto.
- Aderbal, Lina está aprendendo rápido.
- Ela é esperta. Fico feliz.
Sente-se aqui ao meu lado.
Eugénia deu a volta na cama e acomodou-se, cruzando as pernas.
- O que quer conversar comigo? - perguntou Aderbal.
- É sobre Melissa.
- O que tem ela?
- Gostaria que ela viesse viver connosco.
Ele soergueu o corpo e ajeitou os travesseiros atrás das costas.
- Por quê? - indagou com ar preocupado. - O que aconteceu?
Eugénia forçou uma expressão tranquila.
- Recebi uma carta de Penha - mentiu.
Disse que está preocupada porque não pode dar tanta atenção a Melissa, pois o bebé está prestes a nascer, e pediu encarecidamente que a nossa afilhada fique aqui uns tempos, até o bebé nascer e ficar maiorzinho.
Aderbal deu de ombros.
- Não vejo problema algum.
Melissa gostaria de ficar aqui?
- Claro! Ela está ansiosa por nossa aprovação.
- Não sei. Aqui é meio de mato, não tem diversão.
- Melissa é diferente das outras moças. É caseira.
- Vive com a cabeça no mundo das misses e das manequins.
Eugénia riu e concordou.
- Sonho de mocinha.
Ela é estudiosa e pode terminar os estudos na cidade.
Estamos bem pertinho de tudo.
- Isso é. Bom, eu passo o dia todo com a caminhonete para cima e para baixo.
Fico contente que você tenha mais companhia.
- Vai ser bom para Lina.
- Quando vamos a Belo Horizonte?
- Eu vou.
- Como assim? Sozinha?
Por quê, Eugénia?
Ela mordiscou os lábios e pensou rápido:
- Porque você tem muito trabalho aqui.
- Não e...
Ela o cortou com amabilidade:
- Sim, sim.
Teremos mais uma boca para alimentar.
Você cuida dos negócios, do dinheiro, dos pequenos serviços.
Graças a Deus, os clientes o procuram a todo momento.
Deixe que eu cuido das meninas.
Vou em um dia e volto no outro. Bem rápido.
Preparo as refeições para você e Lina.
Ela só terá o trabalho de esquentá-las.
- Está bem.
- Então você concorda?
- E eu discordaria de você, meu amor? Nunca.
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Ave sem Ninho

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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:15 pm

Eugénia o beijou várias vezes.
- Eu o amo tanto.
Não sei o que seria da minha vida sem você.
Abraçaram-se.
Eugénia, forçando a animação estampada nos lábios, fazia planos para a chegada de Melissa.
Em seu íntimo, não via a hora de acabar com aquela sensação ruim que insistia em permanecer em seu peito e oprimir seu coração.
Melissa precisava de sua ajuda.
Eugénia não voltaria para casa sem a afilhada a tiracolo.
Nem que tivesse de chamar a polícia.
Minha Nossa Senhora da Conceição vai me ajudar, pensou.
Vou trazer Melissa para cá, bem longe de Jurandir.
Depois de tomarem uma limonada, Neide considerou:
- Concentre-se mais nesses países.
- A África é muito grande.
- A Europa também é.
- Foi mais fácil.
Parece até que eu já estive lá.
- Você gosta - observou Neide.
E só vamos ter aula de geografia na semana que vem.
Você terá tempo de sobra para decorar os países e as capitais.
- Eu teria aula todo dia.
- Também gostaria de lhe dar aula todos os dias - Neide disse e passou os dedos delicadamente pela bochecha rosada de Lina.
Tenho de dar aula na escola e atender as pessoas que vão ao barracão.
- Eu posso ajudar você.
- Ainda não.
Com o passar do tempo, quem sabe? - Neide a fitou e interpelou:
- Por que tanta sede de justiça?
- O que disse?
- Você é jovem, mas seu espírito me entendeu.
Por que tanta sede de justiça?
Não veio nesta encarnação para guerrear.
Ao contrário, veio para começar a se alimentar de paz.
Por que ainda tem os rompantes de justiça e vingança?
- Eu os matei porque era questão de sobrevivência - respondeu com os olhos marejados.
- Não falo dos matadores, Lina.
Você os atraiu porque seu espírito já estava com essa sede de justiça.
Estou falando dessa vontade que tem agora.
Quem é este homem que deseja punir?
Lina engoliu em seco.
- Não... é que... bom, ele fez mal à minha amiga.
- E merece morrer por isso?
Agora você virou Deus?
- Ele não pode ficar impune.
Merece sofrer.
- Você decide e cuida da sua vida - enfatizou Neide.
A vida dele é responsabilidade dele.
Se for se meter com ele, poderá arrumar uma grande encrenca.
Eu vejo dois caminhos na sua vida.
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Re: Treze almas - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 27, 2016 8:15 pm

Estou vendo-os agora - Neide fitou um ponto qualquer da cozinha e observou, séria:
- Se realizar seu desejo de vingança, vai mexer na cadeia de outros encarnados, depois terá de arcar com o resultado dessa escolha, ou seja, terá de colher amanhã o fruto amargo dessa semente, reencarnando ao lado deles e de maneira nada agradável.
Lina sentiu um calafrio pelo corpo.
- Eu só quero reparar o mal que ele cometeu.
- Você nem sabe quem é Jurandir - a voz de Neide estava com modulação alterada.
Nem sequer sabe quais são os planos de encarnação dele.
Nem supõe por que ele tem essa fixação por Melissa.
Se eu abrisse aqui o passado deles, você teria outro juízo de valor.
- Então me mostre.
- Por quê? Intrometida!
Você deve cuidar da sua vida, garota.
Cuide do que é seu, dos seus sentimentos, do seu coração, vigie seus pensamentos.
Deixe os outros com os outros.
Pare de querer ser a heroína, a justiceira.
Isso só poderá lhe trazer mais dor.
Lina sentiu o peito oprimido.
Nunca ouvira alguém lhe dar uma reprimenda daquelas.
Neide prosseguiu:
- Por outro lado, se esquecer esse homem, esse desejo de vingança, seu caminho poderá ser outro.
- Melhor ou pior?
- Depende do seu ponto de vista.
- Você me confunde.
Neide riu.
- Aproveite que você é jovem e tem toda uma vida pela frente.
Cultive bons pensamentos, ligue-se cada vez mais ao coração.
Faça o que tem vontade, use sua inteligência sempre a seu favor.
Seja sempre sua amiga e, em vez de aniquilar os outros com desejos de vingança ou justiça, procure aniquilar os pensamentos mesquinhos que corroem a alma.
Esses devem ser perseguidos e destruídos.
Aproveite a chance que a vida lhe deu:
uma nova família, uma nova vida!
Lina abriu um sorriso e, instintivamente, abraçou-se a Neide.
- Obrigada!
- Você tem um bom coração, Lina.
É guerreira, desde Tróia.
Mas tem um bom coração.
Lina assentiu.
Tomou um gole de refresco e indagou:
- Você vê e fala com os mortos?
Neide franziu a testa.
- Como assim?
- Outro dia escutei seu Aderbal comentando que você vê e conversa com as almas.
É verdade?
- Sim.
Lina arregalou os olhos, animada:
- Quer dizer que quem morre continua falando?
A boca não morre?
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