Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:33 pm

Pelo Amor, ou Pela Dor...
Ricky Medeiros

Dedicatória

Em minha opinião, a mediunidade não é nem uma dádiva nem uma bênção.
É um talento para usar da forma que o indivíduo achar.
Como tudo na vida, o médium pode usar seu talento para o bem, para o mal, ou até pode ficar indiferente ao talento.
Na minha vida, conheci três médiuns que, no meu ver, usam seu talento para o bem.
A primeira, Mrs. Margaret Tice, era uma mulher fascinante.
Eu a conheci aos dezanove anos.
Ela era a pastora da Igreja Espírita de Syracuse, Nova York.
Foi ela quem comprovou para mim, pela primeira vez, a continuação da vida.
A segunda é Mareia Fernandes, que conheci aqui no Brasil, mais de três anos atrás.
Mareia usa seu talento para ajudar, confortar e aliviar as pessoas que a procuram.
A terceira é Zíbia Gasparetto, que por meio de seu talento facilita para as pessoas a compreensão do significado de nossas vidas aqui e no outro lado.
Então, dedico este livro para estas três médiuns.
Um pouco de cada uma está nesta obra.
E, além destas médiuns que me abriram as janelas para o outro lado da vida, gostaria de mencionar as pessoas que abrem, todo dia, as janelas para esta vida terrestre:
A minha esposa Sónia.
Por causa dela, estes livros existem hoje.
Para Fernanda e Juliana:
através destas duas meninas eu fico em contacto com tudo que há de novo no mundo.
E, finalmente, para as pessoas que entram em contacto comigo, falando dos meus livros.
Vocês não sabem o bem que fazem para mim.
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Ave sem Ninho

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:33 pm

Sumário

Uma história antes do livro
Uma carta do corredor da morte
Introdução
As histórias espíritas não têm começo nem fim
Eu não quero ver mais
Eu espero por uma missão
A onda
Os últimos vinte minutos de Tom
As rodas do carma giram
Um assassino tem uma alma?
Eu, Bob e o rio do tempo
O fliperama cósmico
O hospital espiritual
Oi, Harry
O começo do fim
O fim do começo
Outro lugar, outra mãe, outro filho
Alguns mitos perigosos
Uma questão de vida ou morte
Um sanduíche de salame
Uma conversa sobre carma
Uma carta para o corredor da morte
O campo de estrelas
Uma carta do corredor da morte
Tom no jardim
Nós visitamos David
Uma conversa com Harry sobre o oculto
Um dia no corredor da morte
Uma fuga da prisão
David lê a carta
Os ecos do porquê
O porquê
A visita
Vejo você em Huntsville, Harry

Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:33 pm

Uma história antes do livro

Os sinais estão ao nosso redor.
As pessoas que leram A Passagem e Quando Ele Voltar lembra que abri o livro contando uma história sobre meu irmão Joe, falecido mais de trinta anos atrás.
Este irmão, durante estes trinta anos, sempre manifestou sua presença ao meu redor.
A história que vou contar aconteceu em 1999, logo depois que o primeiro livro, A Passagem, foi publicado.
Eu estava no Shopping Morumbi, aqui em São Paulo, saindo da ginástica.
Estava descendo a escada rolante do shopping e vi meu livro exibido na vitrine de uma das livrarias.
O livro já tinha atingido o primeiro lugar nas vendas, o que, para dizer a verdade, foi uma grande surpresa e felicidade para mim.
No bolso da camisa, eu estava carregando o disquete do segundo livro, Quando Ele Voltar.
No outro lado da escada rolante, vi o anúncio de um filme que eu queria ver, O Clube da Luta, com Brad Pitt.
Como eu tinha saído da ginástica cedo, percebi que podia pegar a sessão que começava as oito e pouco.
Chegando ao fim da escada rolante, decido ver o filme.
Perguntei mentalmente para meu irmão se o livro que estava escrevendo, Quando Ele Voltar, seria tão bom quanto A Passagem.
O disquete pulou do bolso e caiu no chão.
Quando me abaixei para pegá-lo, ouvi tocar, no sistema de música ambiente do shopping, uma música.
Era He Ain't Heavy, He's My Brother ("Ele não é pesado, é meu irmão"), uma música dos anos setenta dos Hollies, um conjunto inglês.
Agora, tenho de explicar a música.
A primeira vez que fui para uma sessão espírita, em Syracuse, trinta anos atrás, haviam se passado três meses do falecimento de meu irmão Joe.
Eu tinha ido com minha mãe.
Pouco antes de entrar na igreja, essa música tocou no rádio do carro.
Eu comecei a chorar. Minha mãe também.
Naquela noite, dentro daquela igreja espírita, Joe mandou os primeiros recados para nós, por meio da médium, Mrs. Margaret Tice.
Saindo da igreja, duas horas depois, liguei o rádio no carro.
De novo, a mesma canção tocou!
Durante os trinta anos depois da morte dele, sempre associei essa música ao meu irmão.
Por exemplo:
seis anos atrás, na avenida marginal do rio Pinheiros, em São Paulo, eu estava dirigindo meu carro em direcção ao trabalho.
O rádio estava desligado.
Não sei porquê, pensei na história dessa música com meu irmão.
Perguntei a mim mesmo:
"Será que realmente a música tem alguma coisa a ver com meu irmão?"
Naquele instante, liguei o rádio.
Imediatamente He Ain't Heavy, He's My Brother começou a tocar.
Não foi no meio da música, não foi depois de um intervalo comercial, foi no mesmo instante que liguei o rádio!
Bem, agora vamos voltar ao Shopping Morumbi.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:34 pm

Ouvi essa música tocar segundos depois de perguntar sobre o novo livro, momentos depois que o disquete do livro caiu do bolso.
Claro, fiquei emocionado.
Esqueci do filme e fui para casa, onde contei a história para minha esposa, Sónia.
No dia seguinte, fui trabalhar.
Chegando ao escritório, Sónia me ligou e me perguntou que filme eu iria assistir no Shopping Morumbi.
Falei que era O Clube da Luta.
Ela começou a chorar e me contou à notícia que ela tinha acabado de ouvir na televisão:
um jovem, obviamente perturbado, entrou no mesmo cinema do shopping, na sessão que eu ia pegar, com uma metralhadora, abrindo fogo nas pessoas que estava assistindo ao filme.
Não tenham dúvida:
os sinais estão ao nosso redor.

Uma carta do corredor da morte

Em julho de 1998, um prisioneiro do corredor da morte no Texas, Estados Unidos, escreveu esta carta para um jornal.
Agências de notícia de todo o país a divulgaram e eu acidentalmente a achei na Internet.
"A quem possa interessar.
Meu nome é [não publicado].
Sou um prisioneiro do corredor da morte, aqui no Texas.
Minha execução está marcada para 20 de agosto.
Sou culpado dos crimes pelos quais fui acusado.
Não busco me desculpar pelo que fiz.
Eu apenas quero um contacto com alguém aí fora.
Uma carta, um bilhete, qualquer coisa.
Estou com medo de morrer sozinho.
"Então, por favor, envie-me uma carta, se é que existe alguém aí fora que se importa."
O prisioneiro que escreveu esta carta foi executado por uma injecção letal.
Eu não sei se ele recebeu alguma carta ou se alguém estava com ele quando morreu.
No entanto, uma coisa eu sei:
ele é um espírito e ainda vive.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:34 pm

Introdução

Nós todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus.
Esta é uma afirmação agradável de se ouvir, não é?
Afinal, é reconfortante saber que reflectimos nosso Criador.
Mas, se estas palavras são verdadeiras, então a Terra deveria ser um paraíso.
Já que nós somos criações de Deus, não deveria haver razões para ciúme, raiva, ódio ou medo.
Nós todos sabemos que as coisas não são assim.
O que acontece?
Este livro fala de raiva.
De ódio. De medo.
E também fala de perdão e redenção.
Um dos personagens deste livro inspirado é um assassino.
Seu nome é David e seu personagem é baseado nos crimes e nas vidas reais de homens e mulheres que estiveram no corredor da morte em vários pontos dos Estados Unidos.
Ele, também, foi criado à imagem e semelhança de Deus, assim como todos nós.
Seu espírito é menos divino que o nosso?
Mesmo os mais desprezados, odiosos e detestáveis são espíritos imortais, e, se nós não podemos ou não entendemos isso, que esperança há?
Como podemos evoluir como espíritos, sociedade ou como mundos se recusaram a ver que existem laços de divindade em cada um de nós?
É fácil dizer que nós acreditamos em irmandade, humanidade e espiritualidade.
Porém isso é um acto que transcende a fé.
E, como o Mestre Jesus disse, "o que fizeres a um destes meus irmãos, mesmo aos mais pequeninos, a mim o farás".
Não há nada mais desprezível do que um assassinato.
Mas o assassino é nosso irmão, também.
- Como Deus permite que essas coisas aconteçam? - alguns perguntam.
- Como Ele pôde criar tais monstros? - outros dizem.
Eu acho que devemos nos lembrar que "nem mesmo um pardal cairá do céu sem o Seu conhecimento".
Vocês irão conhecer Tom.
Em uma questão de horas, David estuprou e assassinou sua esposa, matou sua filha, depois atirou no peito de Tom.
Uma família inteira exterminada.
Vocês verão a corrente cármica de ocorrências desencadeadas por esses assassinatos.
Devo confessar que este livro não foi fácil de escrever.
De vez em quando, pensava em desistir dele, mas não podia.
Este livro tinha de ser escrito, ainda que apenas para nos ajudar a entender um pouco mais sobre carma, perdão e nós mesmos.
Enquanto escrevia, tive medo.
Em determinado trecho, entrei em sintonia com as vibrações de assassinato, ódio e vingança.
Supliquei orientação e protecção.
Foram-me concedidas.
Fiquei deprimido.
Sabia que era porque estava me envolvendo com a tristeza e raiva das vítimas.
Mais uma vez, roguei orientação e protecção. Elas vieram.
Um dia, enquanto trabalhava em um capítulo deste livro, fui às lágrimas.
O choro durou quase quinze minutos.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:34 pm

Supliquei aos espíritos ao meu redor:
"Se querem que eu escreva, deixem-me em paz.
Ajudem-me, mas não mexam comigo emocional e fisicamente".
Eles me atenderam e me deixaram em paz.
Este é um livro inspirado.
Eu, Ricky Medeiros, escrevi as palavras nestas páginas.
No entanto, as palavras são trazidas até vocês por espíritos de luz que estão ao nosso redor.
Tudo que pedem é que leia, reflicta e amadureça.
A prisão citada neste livro é Terrell, sede do abominável corredor da morte do Texas.
No entanto, tal sector nunca foi efectivamente usado até 1999.
Antes disso, os condenados à morte aguardavam a execução de suas sentenças na prisão Ellis, em Huntsville, Texas.
Eu decidi que a história se passaria na unidade de Terrell, mas usei como base as instalações físicas de um corredor da morte ainda mais odioso e aterrorizante:
o da Prisão Estadual de Oklahoma, em McAleister.
Enquanto o Texas executa mais prisioneiros por ano do que qualquer outro estado americano, o corredor da morte de McAleister sobressai por sua crueldade.
Assim, apesar de ter tomado algumas liberdades dramáticas e literárias, esta é uma história verdadeira.
Mas vocês já devem ter ouvido o ditado:
"A verdade é mais estranha que a ficção".
Mantenha isso em mente enquanto lê este livro.
Também mantenha em mente que nada acontece por acaso; nem mesmo um cruel assassinato.
As histórias espíritas não têm começo nem fim.
Um livro precisa de um autor.
Alguém tem de sentar e dactilografar as palavras que formam as sentenças contando às histórias que fazem o livro.
Não fui eu quem sentou e dactilografou as palavras que vocês estão prestes a ler.
Eu não posso.
Sou um espírito, e, portanto sou desprovido do equipamento básico, como dedos, para dactilografar.
Assim sendo, estou usando alguém de seu plano terrestre.
Ele tem os dedos que eu não tenho.
O que faço aqui além de escrever?
Antes de tudo, meu nome é Maryanne e, na realidade, este livro é uma espécie de bico.
Minha ocupação principal é ser guia.
Existem vários tipos diferentes de guias, mas minha missão é ajudar os que deixaram o plano terrestre (morreram, em outras palavras) a se ajustar à dimensão espiritual ou astral.
Às vezes, é um trabalho fácil; outras vezes, difícil.
Mas é sempre interessante.
Como esta história:
é sobre a minha primeira missão como guia.
Existem alguns autores muito famosos neste plano.
Quando eles descobriram que eu estava inspirando um espírito terrestre a escrever um livro, vieram cheios de conselhos.
Mas, como o objectivo deste livro não é o de ganhar um prémio Nobel de literatura, decidi ignorar a maioria deles.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:34 pm

Eu e o espírito terrestre que está sendo usado queremos apresentar uma história simples, fácil de entender, onde algumas verdades eternas possam ser explicadas.
Então, nada de prémio Nobel!
No entanto, aqui está um dos conselhos que vou seguir:
"Maryanne, uma história deve ter um começo, meio e fim", eles disseram.
Bem, isso pode parecer óbvio, mas não é assim tão fácil quanto aparenta.
Este livro tem muitos começos, porque são muitas histórias:
há a minha história e como cheguei onde estou, há a história do médium, a história do assassino e a história de suas vítimas.
Quando esses escritores viveram na Terra, eles escreveram sobre o dia-a-dia e situações comuns no plano terrestre.
Este livro é diferente:
parte dele se passa aqui nas vibrações espirituais.
As histórias terrestres têm um começo; as histórias espirituais não têm começo.
As histórias terrestres têm um fim; as histórias espirituais são eternas.
Personagens de histórias terrestres vivem em parágrafos bem organizados; personagens espíritas vivem relacionamentos intimamente entrelaçados com carma, que podem às vezes durar séculos.
As histórias terrestres são ficções baseadas em factos; as histórias espirituais são realidades baseadas na verdade.
Mas eu tenho de começar de algum lugar.
Então, a história começa com Harry Clark.
Ele é um médium que nunca quis ser um médium.
Assim eu contarei a vocês sobre mim, e vocês começarão a entender como todas as nossas vidas são inter-relacionadas.
Nada é por acaso, meus amigos.
Finalmente, vocês conhecerão Tom e David.
Pode-se dizer que foram esses dois que reuniram todos nós.
Mas o personagem principal não é uma pessoa, nem sequer é um espírito.
Trata-se de uma força chamada carma.
Entretanto, diferente dos personagens de outros livros, carma não é o herói ou o vilão; ele existe a partir do que nós produzimos.
Enquanto o carma não tem nenhuma fala nesta história, ele nos fala em todos os momentos de todos os dias.
Pode-se dizer que o carma é o personagem principal da vida de todos nós.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:35 pm

Eu não quero ver mais

O pequeno hall acomodaria confortavelmente quarenta pessoas.
Em uma noite comum de quarta-feira, apenas dez ou doze utilizavam as quarenta cadeiras de metal dobrado.
Mas, nesta noite, mais de cem pessoas se acotovelavam no interior da pequena capela, a grande maioria em pé, com as costas contra as paredes.
Todos que estavam ali tinham marcado hora; mais de quinhentos outros foram dispensados ao longo da semana.
Aqueles com sorte o bastante para caber no pequeno cómodo vieram de todos os lados da cidade, de algum modo achando o caminho para aquela pequena, desorganizada casa que sediava a Primeira Igreja Espiritualista de Houston.
A maioria deles nunca havia pisado naquele lado da cidade antes e, possivelmente, jamais o faria novamente.
A multidão estava impaciente.
Era uma noite quente e húmida, mesmo para julho no Texas.
A igreja, que mal tinha dinheiro para consertar suas goteiras, não tinha ar condicionado e a temperatura chegava à casa dos trinta e cinco graus.
Os suados espectadores rezavam para que aquela noite não fosse lembrada apenas por causa do calor insuportável.
Cada uma das pessoas sentadas ou em pé no calorento e sufocante recinto estava lá por uma razão: elas esperavam ansiosamente uma prova.
Prova...
Podia vir numa palavra, numa frase, num sinal, nome, qualquer coisa.
Alguns queriam notícias do pai ou mãe falecidos há tempos; outros procuravam desolados um filho morto, um irmão ou amigo.
Eles assavam naquele ambiente quente e apertado por causa de Harry Clark.
Ele é um médium.
Harry sentou-se silenciosamente na parte da frente do salão, avaliando o público.
O médium não apenas via o grupo ansioso, mas também via e ouvia centenas de espíritos invisíveis no cómodo, enfileirados para serem atendidos.
-- Quero falar com minha esposa.
Diga a ela que estou bem.
Meu nome é Billy - pressionava um espírito plantado em frente a uma moça muito bem vestida.
-- Minha mãe e meu pai estão aqui - um adolescente sussurrava.
Diga a eles que não foi culpa deles.
Eu usava drogas. Estou bem, estou indo bem.
Por favor, peça a eles que tomem conta de Donovan, meu cachorro.
Se disser Donovan, vão saber que sou eu.
Harry concentrou-se no espírito de um jovem e atraente rapaz com as mãos apoiadas em um homem sentado na terceira fila.
-- O nome dele é Jeff.
Eu era seu amigo, nós fomos namorados - disse o espírito.
-- Conte a Jeff que ele está muito doente, mas não deve se preocupar ou ter medo.
Nós estaremos juntos em breve.
O médium anotou mentalmente:
falar com Jeff em particular.
Havia incontáveis outros espíritos trazendo mensagens, e eles, assim como os presentes, esperavam que ele começasse.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:35 pm

Harry faria o possível para atender a todos.
Sentado em sua cadeira e ouvindo parcialmente enquanto o pastor da igreja o anunciava, o médium divagava através do tempo, voltando a quando tinha cinco anos de idade e viu e ouviu espíritos pela primeira vez.
Ele se lembrou de sua mãe contando ao seu pai, depois que o ouviram falando com um de seus "amiguinhos":
-- Isso é normal nessa idade.
Minha mãe disse que eu também tinha coleguinhas imaginários.
Os "coleguinhas imaginários", todavia, ainda estavam com ele quando completou dez anos, e Harry aprendeu a manter suas visões e sussurros para si mesmo.
Harry percebeu que um dos "coleguinhas" estava sempre ao seu lado.
Esse espírito amigo se chamava Bob.
Bob era seu protector:
sempre que os espíritos feios e sombrios se aproximavam, Bob os botava para correr.
-- Pense em mim como o irmão mais velho que você nunca teve - brincava Bob.
Se Harry tinha qualquer dúvida, Bob as resolvia.
Quando o menino fez treze anos, Bob lentamente abriu um pouco mais a janela de Harry para o mundo espírita.
-- Nós não estamos mortos, você sabe.
Alguns de nós estão mais vivos do que você - contou-lhe o espírito.
O garoto de treze anos de idade perguntou a Bob por que alguns espíritos são diferentes dos outros:
-- Uns são amigáveis, como você.
Mas existem outros tipos.
Eles são sombrios e mal-humorados.
Eu não me sinto bem quando eles estão por perto.
Eles me assustam.
Bob riu e descreveu as similaridades entre os planos terrestre e espiritual.
-- Na Terra também não existem pessoas de que você gosta e outras de que não gosta?
Nós temos todos os tipos de espíritos aqui.
Alguns são afinados com as vibrações luminosas e outros não estão prontos ou escolheram não viver em harmonia com a luz.
Bob instruiu Harry a fechar os olhos por um segundo, pedindo ao garoto que imaginasse duas faixas bem distantes entre si e de cores diferentes.
-- Crie a maior distância possível entre as duas faixas - disse o espírito.
-- Que cores elas devem ter? - perguntou Harry.
Bob riu e disse ao menino que podia dar a elas a cor que bem entendesse.
-- Isso não vai fazer nenhuma diferença - explicou.
-- Apenas devem ser cores diferentes e as faixas devem estar bem separadas uma da outra.
Quando Harry informou que a imagem já se formara em sua mente, Bob explicou:
-- Existem espíritos que vivem na faixa de cima e outros que vivem na de baixo.
Está vendo todo o espaço que há entre elas?
Existe ali um número infinito de vibrações e espíritos, dependendo de suas próprias escolhas e níveis de evolução, ocupando todo aquele espaço também.
Logo você vai aprender a lidar com os mais diferentes níveis de espíritos vivendo tanto na Terra como na dimensão astral.
O garoto queria saber mais, e Bob, pressionado, disse:
-- Você tem um talento que por vezes acha que é uma maldição.
No entanto, tem a chance de ajudar espíritos na Terra e do lado de cá.
Depende de você.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:35 pm

O menino perguntou:
-- Por que eu?
Antes de responder, Bob lembrou que estava falando com uma criança.
Muito embora o espírito de Harry tenha vivido incontáveis vezes antes, agora ele estava em um corpo físico de treze anos de idade.
O guia sabia que havia algumas coisas que não podia contar a um espírito cuja personalidade terrestre ainda não estava desenvolvida emocional e intelectualmente.
-- Nada é por acaso.
Há uma razão para tudo.
Harry, você viveu muitas vidas.
A soma total de suas acções, pensamentos e experiências o trouxe até onde está hoje.
Encare desta forma:
cada encarnação é uma peça de tecido, e cada peça é diferente da outra.
Estenda as diferentes peças uma ao lado da outra e as costure.
Logo terá uma colcha.
Peças únicas e separadas formam um todo.
Bob fez nova pausa.
Ele queria contar ao menino sobre uma determinada roupa entre todas as que Harry possuía.
Contudo, mais uma vez, o guia precisou preparar com exactidão o discurso que ia fazer ao garoto.
Além da idade do menino, Bob estava preocupado com algo mais.
Um espírito nascido na Terra precisa se libertar de seu próprio passado.
Um espírito encarnado não carrega com ele nenhuma lembrança de suas vidas passadas porque um espírito tem de ser livre para escolher seu caminho diante das escolhas diárias e constantes que se apresentam a ele.
O livre-arbítrio, em outras palavras, não pode ser influenciado por culpas passadas.
Bob sabia que poderia apenas dar uma dica sobre certo tecido que era parte da colcha de Harry.
-- Sabe aqueles espíritos mal-encarados que você viu, os sombrios?
Você já foi parte daquela vibração - disse o guia gentilmente ao menino.
Harry respirou profundamente, mas não disse nada.
Bob continuou:
-- Não posso lhe dizer mais.
Ainda não é a hora.
Mas o que eu posso dizer é que não se incomode com o que foi um dia; comece a entender o que pode vir a ser.
Seu espírito aprendeu, cresceu e evoluiu fora da escuridão e das vibrações densas.
Você já não é parte deles.
Mas por causa de algumas de suas escolhas no passado, Harry, você está em dívida com a Criação.
Então um talento lhe foi emprestado.
Sua mediunidade não é um presente; é uma ferramenta.
Você a aceitou antes de nascer e pode usá-la do modo que quiser. A escolha é sua.
Harry absorveu as palavras de Bob e exprimiu sua compreensão:
-- Foi-me dado algo que me ajudasse a pagar por algo que fiz.
O garoto ficou satisfeito ao perceber que tudo parecia se encaixar.
-- Isso se chama carma, moleque - brincou Bob.
-- Você tem uma poderosa e preciosa habilidade.
Foi-lhe dada não para prever o ganhador das corridas de cavalo, o resultado da loto ou qual celebridade vai se divorciar no ano que vem.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:35 pm

Num tom mais sério, o guia disse que Harry tinha a chance de ajudar outros a encontrar seus caminhos.
-- Use isso inteligentemente - disse Bob.
-- A escolha é sua.
Você pode usar seu talento para ajudar e pode também ignorá-lo.
Depende de você.
E, sejam lá quais forem às escolhas que fizer, elas também farão parte daquela colcha.
Enquanto o garoto digeria as palavras, o "irmão mais velho" sussurrou:
-- Leia alguns livros.
Aprenda sobre médiuns, reencarnação e carma.
Descubra por si mesmo por que você pode me ver e ouvir enquanto outros não podem.
Isso não é nenhum mistério.
Na verdade, Harry, para você, é tão natural quanto respirar.
Quando completou quinze anos, o rapaz havia devorado cada livro que encontrou sobre paranormalidade, metafísica, fenómenos psíquicos, budismo e espiritismo.
Ele era um expert na vida após a morte, não apenas pelo que leu, mas também pelo que viveu.
Aos dezasseis, ele decidiu contar à sua mãe.
Seu cachorro, Victor, tinha morrido havia poucos dias.
Harry entrou na sala de estar de sua casa, onde sua mãe, Sara, assistia às novelas vespertinas.
-- Mãe, eu tenho de falar com você sobre uma coisa.
O adolescente tinha ensaiado aquele diálogo várias vezes.
Mil pensamentos cruzaram sua mente quando Sara, indiferente, desviou sua atenção da TV para ele.
"Ela vai rir", um dos pensamentos dizia.
"Ela vai pensar que está louco, ela vai chamar um psiquiatra", outro alertava.
"Provavelmente dirá que é uma fase, ela sempre diz isso", apressou-se outro.
-- Claro, o que você quer? - ele ouviu sua mãe responder.
Harry sabia que ela estava se sentindo incomodada.
Sara era fanática pelas novelas da tarde, mas tinha de ser agora ou nunca.
Ele tinha de contar a alguém e seria bom se fosse ela.
O rapaz foi directo ao assunto.
-- Mãe, você sabe o que são médiuns?
Confusa, ela disse que não tinha a menor ideia, e, esperando que Harry fosse embora, manteve um ouvido e um olho pregados no televisor.
Ela estava mais interessada em descobrir se John era mesmo o filho ilegítimo de Susan e se ele era o pai do bebé que Clarissa esperava.
Tomando longo fôlego, Harry respondeu o que ele mesmo havia perguntado.
-- Médiuns são pessoas que vêem e ouvem espíritos - e, indicando a TV com a cabeça, continuou:
- Você sabe, como quando aquela mulher foi ao programa de entrevistas e previu o assassinato do presidente Kennedy.
Jeanne Dixon.
Sua mãe, esquecendo a novela, dedicou a ele sua total atenção:
-- Ela estava no programa de Mike Douglas, ontem.
É uma astróloga, mas eu acho que não é a mesma coisa.
De qualquer forma, isso é tudo bobagem.
Ninguém pode prever o futuro e ninguém fala com fantasmas.
O que se passa com você? - perguntou, voltando a prestar atenção em John, Susan e Clarissa.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:36 pm

O garoto respondeu:
-- Nada. Eu andei lendo muito a respeito, só isso.
Acredite, mãe, existem muitas coisas por aí sobre as quais nós não sabemos nada.
Sara perguntou por que ele estava tão interessado no assunto.
Ele esperou um instante, olhou nos olhos dela e declarou sem mais rodeios:
-- Bem, porque sou um.
-- Um o quê? - sua mãe quis saber.
Ele tinha conseguido captar sua completa atenção.
Agora, aos dezanove anos e sentado naquela igreja, Harry recordava-se de ter conversado com sua mãe até a noite chegar.
Ele contou como viu o espírito de seu cachorro deixar o corpo ao morrer, como sabia que sua tia Betty estava morta antes do telefonema que os avisaria e como soube que sua avó materna estava morrendo de câncer.
-- Eu vejo um mundo que não sei como explicar.
É o mesmo, mas diferente do nosso.
Eu o vejo, ouço e sinto.
Mãe, eles falam comigo: gente que nem sequer conheço.
Vejo espíritos que sofrem, eles me pedem ajuda.
Depois há outros que surgem para me ensinar.
Eles estão todos à nossa volta.
Sara começou a chorar.
Ela achou que seu filho estava tendo alucinações.
Entretanto, quando seu pai chegou, eles interromperam a conversa imediatamente, para retomá-la nos dias seguintes.
Sua mãe partiu da descrença ao medo, do medo à curiosidade, e, com o passar dos anos, ela e o marido aceitaram o dom do filho, ainda que não o entendessem completamente.
Harry ouviu quando o pastor terminou de apresentá-lo.
Em um instante, ele estaria em pé e começaria a transmitir mensagens dos espíritos às pessoas reunidas na pequena igreja.
Ninguém, nem família, amigos ou qualquer outro no salão, tinha ideia de que aquela seria a última vez que Harry usaria seus dotes como médium.
Ele havia tomado a decisão um mês antes: já era o bastante.
Ele estava cansado.
O tão aclamado dom havia arruinado seu casamento:
as pessoas o chamavam altas horas da noite pedindo ajuda.
Sua esposa não sabia lidar com isso:
-- Você vive mais para seus fantasmas do que para mim - acusou, com raiva.
O tão aclamado dom fez dele um neurótico, segundo seus amigos: ele não tinha tempo para si mesmo.
Espíritos estavam sempre pairando ao seu redor, pedindo-lhe que fizesse isso ou aquilo.
Ele literalmente não tinha paz de espírito.
E o tão aclamado dom o deprimiu: ele olhava para um estranho e imediatamente batia uma fotografia mental.
No mesmo momento sabia quais eram suas intenções e se estas eram boas ou ruins.
Às vezes, e isso o deixava aterrorizado, via uma mortalha cinza envolvendo a aura da pessoa.
Este era um sinal frequente de que a energia física do corpo estava se esvaindo e ele sentia que a morte estava bem próxima.
Enfim, basta.
"Depois desta noite, chega. Nunca mais.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:36 pm

Vou silenciar todos eles", disse Harry a si mesmo, enquanto se punha de pé.
Ele não diria uma só palavra à multidão.
Ele ia lhes dar suas esperanças, suas provas e suas mensagens do além.
No dia seguinte, ele simplesmente desapareceria.
Como sempre fazia, Harry iniciou sua prelecção com um pequeno discurso.
-- Oi, meu nome é Harry Clark.
Antes de começar, eu normalmente digo algumas palavras.
E elas são sempre as mesmas, eu não tenho muita imaginação - brincava.
Aos que já estiveram em uma de minhas sessões anteriores peço um pouco de paciência.
O jovem médium contava a eles que logo lhes abriria uma porta para um mundo que não estava escondido, apenas não era visível.
-- Há uma diferença - ele explicava.
Escondido é algo que você não pode conhecer.
Mas vocês estão aqui porque tinham de conhecer este mundo.
Eu espero e desejo que, uma vez que esta porta seja aberta, suas vidas jamais voltem a ser as mesmas.
Harry sabia que o grupo estava preparado e pronto para começar.
Mas, dramaticamente, ele fazia pausas, deixando elevar o nível de ansiedade da plateia um pouco mais antes de prosseguir.
-- Espero que, a partir desta noite, vocês comecem a viver com a certeza de que existe uma vida depois desta, que tiveram muitas antes e terão mais incontáveis ao longo de nossa jornada.
E - finalizava -- talvez vocês comecem a ver que nossos actos, palavras e pensamentos ecoam pelo universo.
Nós somos responsáveis por nossas acções.
Mantenham isso em mente e suas vidas mudarão.
"Bem, esta é a última vez que faço este discursinho", Harry disse a si mesmo quando terminou.
"Estou fechando a porta para sempre", acrescentou de maneira inaudível.
Mas, pelo canto do olho, Harry notou a presença de um espírito que ele não encontrava havia algum tempo.
Era Bob, que conscientemente meneou a cabeça, sorriu e comentou:
-- Como eu disse, Harry, a escolha é sempre sua.
-- Você está mais do que certo - disse
silenciosamente um surpreso Harry ao seu antigo mentor e guia enquanto caminhava até o local em que um casal de meia-idade estava sentado.
Harry ia falar a eles sobre um cachorro chamado Donovan.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:36 pm

Eu espero por uma missão

Eu sou uma guia.
Porém, diferentemente daqueles da Disney World, eu não conduzo turistas através do Reino Animal.
Eu sou uma guia espiritual, ajudando espíritos a se libertar da esfera terrestre.
Há 35 anos terrestres, eu me desencarnei depois de ser morta durante uma disputa do tráfico em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Eu tinha 16 anos, era pobre, negra e revoltada.
Naquela época, eu poderia resumir minha vida na Terra em unia única frase:
"Eu nasci na pobreza, vivi na marginalidade e morri em meio ao ódio."
Também tive um guia que ajudou a achar meu caminho. Seu nome é Bob e eu também posso resumir meus sentimentos em relação a ele em uma única frase:
"Ele foi meu guia, minha luz, e é meu melhor amigo."
Minha passagem da Terra para o plano espiritual não foi fácil.
Quando o tiro repentino brutalmente interrompeu minha vida física, fiquei perdida e confusa.
Meu espírito pensava que ainda vivia na Terra.
Essa característica é comum entre espíritos traumatizados por uma morte violenta e inesperada ou por aqueles que, quando encarnados, jamais pararam para pensar sobre suas vidas espirituais.
Eu me encaixo nas duas categorias:
minha morte foi feroz e repentina, e eu nunca me importei com os porquês de minha vida.
Bob mudou isso tudo.
Eu não sabia, mas ele estava comigo desde o início, e até mesmo testemunhou meu assassinato.
Mas, sabendo que eu não entenderia quem ou o que ele era, Bob esperou até que eu estivesse pronta para se fazer notar.
Para estar pronta demorei quase um ano terrestre.
Eu já estava cansada de andar com pessoas que não sabiam que eu existia e começava a sentir que havia perdido alguma coisa.
Assim, Bob se revelou.
Ainda me lembro da primeira vez que o vi: estava encostado em uma cabine telefónica a poucas quadras da casa de minha mãe.
Ele sorriu para mim.
"Finalmente", pensei, "alguém que sabe que estou viva."
Mas imediatamente me desapontei:
-- A primeira pessoa que me via depois de quase um ano era um sujeito branco, barrigudo, com barba por fazer, cabelos grisalhos e uns sessenta anos de idade.
"Você parecia o dono de uma mercearia decadente", ironizei mais tarde.
Logo percebi que Bob era mais do que um velhote branquelo, e ele logo me mostrou que eu era mais do que uma menina revoltada, negra, de dezasseis anos.
Ele me apresentou um mundo inteiramente novo e eu descobri que o que eu pensava ser real era apenas ilusão.
Lembro de olhar para as ruas que eu pensava conhecer tão bem.
Olhando, como se fosse a primeira vez, as casas rotas com seus gramados despedaçados e as lojas vazias com janelas de tábua abertas e esperanças encerradas.
Foi ali que nasci.
Foi ali que vivi e, finalmente, onde morri.
No entanto, apesar de tudo parecer igual, tudo estava diferente.
Assim como eu.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 02, 2016 1:36 pm

Em um instante, finalmente entendi que não pertencia àquelas ruas, já não vivia naquele quarteirão, nem fazia mais parte do plano terrestre.
Porém não houve alegria, alívio ou felicidade nessa descoberta.
O ódio tomou todo o meu ser.
Odiei minha morte, me revoltei por ter sido assassinada antes mesmo de ter uma chance de viver.
Meu espírito não conseguia aceitar a injustiça dessa curta vida na Terra.
-- Porquê - gritei - eu nasci pobre e negra?
Porque fui morta aos dezasseis anos?
Porquê?
Eu vivi e morri na miséria, enquanto outros tinham coisas com as quais eu só pude sonhar.
Bob ouviu, deixando-me desabafar a fúria que queimava em minha alma.
Ele falou sobre aquela raiva e me ajudou, com o passar dos anos, a entender todo o meu ressentimento, revolta e ódio.
Muitos anos terrestres se passaram desde que perambulei pelas ruas de Los Angeles.
Eu evoluí da minha raiva, amadureci a partir do meu ódio e transformei o ressentimento em compreensão.
Já não vivo mais em Watts, Califórnia.
Actualmente, não vivo em lugar nenhum.
Não tenho um lar, porque não preciso me proteger do frio; não tenho endereço, porque vivo onde meus pensamentos e vibrações me levam.
Agora mesmo, esses pensamentos e vibrações me trazem perto da esfera terrestre, porque é onde meu trabalho está.
Eu sou uma guia, uma luz e orientação para espíritos que perderam seus caminhos.
Fui guia por uns dois anos terrestres, e a história que vou contar é sobre minha primeira tarefa.
-- Lembre-se do que vou lhe dizer, que um dia isso pode lhe servir:
todos os espíritos são iguais, mas cada um de nós é único.
-- Bob disse essas palavras.
Ele veio me ver enquanto eu esperava ansiosamente que aquela missão começasse.
Sempre prestei muita atenção ao que ele dizia.
Ele me ensinou bastante desde aquele encontro numa esquina de Los Angeles.
-- Espíritos são únicos porque temos experiências especiais absorvidas de diferentes encarnações - explicou ele -, mas nós somos iguais porque todos fomos criados igualmente.
Você acredita honestamente que o Criador daria alguma vantagem a alguém?
Eu ri.
Depois de tantos longos anos de estudo, eu sabia que ele estava certo: não poderia existir equilíbrio e harmonia se um simples espírito fosse feito melhor ou mais evoluído que outro.
No entanto, como sempre, Bob levou sua aula adiante.
-- Todos começam iguais.
Cada espírito escolhe se desenvolver em seu próprio caminho, evoluir em si mesmo o brilhantismo de um Einstein, a criatividade de um Michelangelo ou a harmonia inspiradora de um Gandhi.
Eu entendi.
Através da meditação e reflexão, eu soube que todo espírito tem seu único e importante lugar na Criação.
-- Não faz nenhuma diferença se você é um rei ou presidente em uma vida.
Em outra, dependendo do carma e estágio da alma, você pode ser um açougueiro ou uma costureira - acrescentei.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:26 am

-- Isso é verdade - disse Bob, mas alertando:
- Logo você estará lidando com todos os tipos de espíritos.
Você cruzará com alguns que alcançaram a luz e outros que preferem a escuridão.
E você vai descobrir que não há muita diferença entre os dois.
-- Como pode não haver diferença entre a luz e a escuridão? - disparei.
Como sempre, Bob estava me provocando.
Ele adorava fazer discursos excêntricos e, depois, usando seu sorriso de Buda, fazer tudo ter sentido.
Normalmente, eu entrava nessa, e só conseguia rir e esperar por sua explicação.
-- Também vivem dentro de nós - sua voz tornou-se profunda - a maldade de um Hitler, a crueldade de um Estaline e a desumanidade de um Charles Manson.
Os chamados positivos e negativos são parte de cada um de nós.
Fiz menção de protestar, mas Bob levantou sua mão:
-- Só um segundo, ainda não terminei.
Pense nisso:
nenhum espírito tem mais bem ou mal que outro.
Se você acredita que nós todos fomos criados identicamente, então deve aceitar que a luz existe com a escuridão.
As chamadas vibrações pesadas do medo, ódio, revolta e ciúme são reais; nós deveríamos aprender com elas, e não nos tornarmos parte delas.
É por isso que a esfera terrestre, onde você estará trabalhando, existe.
Naquele plano, os espíritos têm de aprender e escolher entre uma vasta gama de vibrações e experiências.
"Viva revoltado, aprenda com a revolta.
Aja com ódio, viva em ódio", meditei.
-- Viva em harmonia, aprenda com a harmonia.
Aja com amor, viva em amor.
Cada espírito faz sua própria escolha.
Mas como poderia escolher se não houvesse alternativas?
Como pode um espírito aprender se não há lições? - argumentou meu amigo.
Como sempre, ele estava certo:
fúria, revolta, ódio, medo são partes de nossa bagagem emocional.
Cabe a nós saber como e quando usá-los e também cabe a nós saber quando não precisamos mais deles.
Bob me lembrou que o carma é o professor imparcial, incontestável e constante.
Pensei que ele ia mudar de assunto, mas vi que estava arquitectando mais sobre o que já tinha dito.
-- As pessoas têm uma ideia errada sobre carma.
E, em tom de brincadeira, acrescentou:
- Provavelmente isso tem a ver com todos aqueles filmes baratos que Hollywood fez sobre Buda.
Eu só pude rir e dizer que Keanu Reeves não estava muito bem no papel, mas, afinal, quem poderia interpretar Buda?
-- Se as pessoas ao menos entendessem - disse ele, aparentando certa frustração - que o carma não é justiça ou retribuição...
Não há julgamento ou retribuição.
Carma é simplesmente a consequência da escolha, acção ou intenção.
Ponto final, isso é tudo sobre carma.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:26 am

Agora que tinha uma ideia de onde ele queria chegar, me adiantei e o ajudei a terminar:
-- Carma é circunstância.
Um espírito, em qualquer situação possível, pode desenvolver seu próprio brilhantismo de Einstein, a criatividade de Michelangelo ou a harmonia inspiradora de Gandhi.
-- Ou pode se conectar as vibrações do ódio, medo e ciúme - disse uma voz que esteve silenciosamente acompanhando nossa conversa.
Uma aura branca e suave contornava o espírito que também viria ser um de meus mestres.
Seu nome era Clara.
Ela e Bob se conheciam porque Bob também havia sido seu guia.
Ela me deu um conselho:
-- Ajude espíritos a entender essa regra básica:
semelhante atrai semelhante.
Eles compreenderão mais facilmente vivendo nas vibrações do amor e harmonia e não mais precisarão ou desejarão qualquer coisa relativa às vibrações pesadas que já foram parte deles.
Bob lançou outra questão:
-- E o que acontece quando você não precisa de algo?
Eu e Clara juntas respondemos:
-- Você se livra disso.
E Clara acrescentou:
-- Ajude-os a se livrarem das correntes de revolta, ódio e medo.
Se puder fazer isso, vai ajudá-los a deixar a terceira dimensão da Terra para trás.
Nós todos sabíamos que aquilo não era assim tão fácil quanto podia parecer.
As vibrações inferiores seduzem porque são óbvias e palpáveis; as superiores são geralmente subtis, parecendo estar fora de nosso alcance.
Depois de muitas encarnações, um espírito lentamente começa a ver a infelicidade que vem associada à revolta, medo, ódio e ciúme.
Apenas quando ele entende que o negativo traz o negativo e acções negativas têm reacções negativas, é que o espírito avança para a harmonia das vibrações de luz.
E, como nós três dissemos, fica livre do que não precisa mais.
Bob resumiu tudo dizendo:
-- Uma vez que um espírito conhece o seu lado negativo, essas emoções já não lhe serão necessárias.
O espírito rejeitando essas vibrações abre a si mesmo para a totalidade e harmonia da Criação.
Clara, que tinha sido uma guia por um bom tempo, disse que eu não me preocupasse se parecesse que eu não estava progredindo com os espíritos com quem trabalharia.
-- Não existe um prazo final, minha querida - disse Clara.
-- Todos caminham em seu próprio passo.
Cada alma sabe até onde pode mergulhar neste mundo, vivendo no medo ou agindo com ódio e revolta.
Ela sorriu e concluiu dizendo:
-- Uma parte do nosso trabalho é estar por perto quando o espírito está pronto para se esvaziar e ficar livre daquilo que não precisa mais.
Eu estava pronta para a minha primeira missão, e, como médicos, advogados e dentistas na Terra, nós guias temos nossas especialidades.
A minha era a revolta, medo e raiva, porque eu havia vivido intensamente com essas vibrações.
Bob e Clara se despediram e eu estava por conta própria, aguardando que o Universo me levasse para onde eu era necessária.
Meu espírito meditou, em comunhão consigo mesmo e com a luz que preenche todos os cantos da Criação.
Nós nos tornamos um só enquanto eu esperava que a missão começasse.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:26 am

A onda

Ainda na hora mais clara do dia eu me livrei de todos os meus pensamentos.
Varri de mim mesma todas as expectativas.
Eu estava sozinha, esperando pelo sinal que sabia que viria.
Repetidamente, eu recitava:
"Eu e a Criação somos um.
Todo ser vivo e eu somos partes do Universo.
Nós somos sua energia e vibração."
Eu pensei em Deus.
"Sua força é infalível, inabalável e constante.
A força está sempre evoluindo, crescendo e expandindo.
Uma faísca divina de sua energia está em toda vida.
A fagulha está em mim."
Comecei a flutuar em brisas cósmicas suaves e delicadas.
Eu ouvia os pensamentos de Clara se misturarem com os meus.
Minha professora estava gentilmente me lembrando de como o carma nos associa à Criação.
"Sem o carma", seus pensamentos sussurravam, "seria o caos.
A vida não seria nada além de acasos sem ordem ou razão. O carma traz sentido à vida.
Preste atenção e verá que o Universo constantemente está enviando sinais."
Eu sabia tudo sobre esses sinais e até já tinha um apelido para eles: ondas.
Usei essa palavra porque eles o fariam flutuar até onde você deveria estar.
E, quando o assunto era o Universo, eu já havia aprendido a seguir a correnteza ao invés de nadar contra a maré.
As ondas me deram Bob, uns trinta e cinco anos atrás.
E agora, dez anos depois, muitas e diferentes ondas me trouxeram aonde estou; um espírito de luz em busca de uma missão.
Eu estava pronta para que o Universo me encontrasse.

Ele me encontrou.

A onda é suave e delicada.
Sutilmente me arrasta ao plano terrestre.
Uma série de rápidas imagens desfilou em minha frente, trazendo-me para uma sala pequena de blocos azul-claros.
O quarto está frio e vazio, excepto por uma maca colocada no meio do chão de linóleo cinza.
Um fino travesseiro repousa no alto da maca e pequenos tubos de plástico transparente ondulam sobre o lençol verde-escuro da pequena cama.
Meus sentidos se afinam com a sala:
é fria, sem vida e sinistra.
Eu sigo os finos tubos que serpenteiam pela parede.
Ainda na maca, vejo uma pequena e débil depressão no travesseiro; foi formada por uma cabeça humana.
Atrás de mim, grossas cortinas em bege emolduram um plástico transparente entalhado na parede azul acinzentada.
Não há janelas nesta sala e o ar é rançoso.
A única luz é branca e angustiante, vinda de três lâmpadas fluorescentes zunindo bem em cima da maca.
Mais uma vez, minha atenção está voltada à maca.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:26 am

É diferente de qualquer uma que já vi antes; há uma tábua recta e estreita pregada na transversal.
"Parece um crucifixo", pensei.
Então eu vejo as grossas tiras de couro:
cinco estão presas ao corpo principal da maca e três estão em cada um dos braços de madeira.
Tremores e calafrios percorrem meu espírito.
Esta não é uma maca de hospital e eu não estava em uma sala de operações.
A onda me levou a uma câmara letal, no interior profundo de uma prisão.
Uma execução tinha acabado de acontecer momentos antes e a sala azul estava quieta e sem movimento.
Eu percebi na escuridão densas vibrações dançando nessa câmara letal.
O vermelho quente de revolta, tons amarelos de medo, cores alaranjadas de remorso e listras negras de sofrimento, tudo invisível aos sentidos terrestres, flutuavam ao meu lado no ar azedo e parado.
Fui levada embora, arrastada através das paredes de concreto para a prisão propriamente dita.
O silêncio era macabro e metálico, quebrado apenas pelos sons confrontantes de aço batendo e descargas de banheiro.
Estou agora no meio de um grande pavilhão de dois andares de concreto.
Estou cercada por todos os lados por portas duplas de aço azul acinzentado acomodadas em pequenos trilhos na parte inferior.
Respirando atrás daquelas pesadas portas, amontoados do outro lado das grossas paredes de concreto, estão homens que vivem em pequenas celas de cimento.
O pavilhão em que estou é um de cinco, e em cada um há uma centena de celas.
Este é o corredor da morte, onde mais de quatrocentos homens aguardam sua vez de caminhar até a fria sala azul, onde estive instantes atrás.
Observo as duas fileiras.
Ao lado de cada porta, pintados em preto no branco, estão números:
HU411, HU412, e assim por diante.
Cada número, uma cela; cada cela, um homem.
Cela número HU345...
Um homem que assassinou sua esposa e filho num ataque repentino de fúria e frustração.
HU345 está cansado de mofar na gaiola de concreto solitária e sem vida, sob luz fraca.
Os internos do corredor da morte passam vinte e três horas por dia em suas celas, e HU345 já não suporta mais a interminável mesmice de seus dias e noites.
Uma vez ele disse que "viver no corredor é apavorante, não apenas porque você está aqui para morrer, mas, até que chegue o dia em que eles lhe enchem de produtos químicos, você sabe que amanhã você ainda estará em sua cela".
Este homem já sonhava com a agulha letal que o aliviaria daqueles dias e noites sem fim.
Ele já se dera por vencido.
Cela número HU297.
Ele é um filho que cuidadosamente planeou o assassinato de seus ricos pais adoptivos.
Ele está ali há dezasseis anos, chegando quando tinha vinte.
Ao contrário de HU345, está, com seus advogados, lutando com unhas e dentes por sua vida.
Mas seus apelos estão sendo em vão:
a data de sua execução está quase chegando.
Durante suas noites insones e dias sem conforto, sua memória reconstrói, repetidamente, as cenas de seu crime.
Ele vê os rostos de seus pais adoptivos no momento em que atira neles, na cama.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:26 am

Ele ouve a única mãe que conhecera, uma mulher que o incluiu em sua vida quando ele tinha seis meses de idade, gritando aterrorizada enquanto as balas do revólver do filho fazem o sangue de seu marido espirrar por todo o quarto.
HU297 luta por sua vida nos tribunais porque tem pavor da morte.
Ele tem medo de encontrar os rostos que vê durante as noites intermináveis em seu cubículo de concreto.
Cela número HU324...
Um homem no lugar errado, na hora errada.
Ele é inocente.
Ninguém ouviu seus protestos.
Se você ouvir estes prisioneiros, todos são inocentes.
Ele vai se deitar na maca no quarto azul-claro e morrer.
HU324 repousa em sua estreita cama, olhos vidrados no tecto inacabado de concreto.
Nenhuma luz solar alcança sua cela; esta prisão foi construída sob o solo e coberta com dez metros de terra texana.
A caminhada de HU324 pelo corredor até a maca em forma de cruz está definida:
um mês contando a partir do dia seguinte.
Ele fica imaginando porquê.
Ele é um homem inocente na iminência de encarar "a estaca", apelido da seringa que injectará o químico letal em suas veias.
Ele fica imaginando porquê.
Eu queria poder dizer a HU324 que, enquanto ele é uma vítima de um erro brutal, não existem acasos e nada acontece sem razões.
Mas eu não estou aqui por causa deste homem.
Posso ver que três guias já estão a seu lado.
Aceno para eles, que pesarosamente acenam de volta.
Tenho certeza de que vão ajudar esse homem a ver o que estes oito anos no corredor da morte significam.
As mesmas vibrações vermelhas, amarelas, alaranjadas e negras que estavam na câmara da morte habitam as filas duplas de corredores da prisão.
E, como traças esvoaçando em volta de uma lâmpada, vejo a formas sombrias e cinzentas de espíritos desencarnados alimentando-se dessas vibrações.
Essas sombras não são novidade para mim; elas vivem nas vibrações mais inferiores do mundo astral.
Estes são espíritos vivendo longe da luz, presos e atraídos pelas vibrações negras da angústia, pelo vermelho quente da revolta e tons amarelos do medo.
Como aqueles homens que respiram atrás das portas cinzentas em tumbas de concreto, estes espíritos também são prisioneiros.
No entanto, eles não estão trancados nas celas; seus próprios sentimentos de revolta, fúria e ódio os acorrentam.
Outro puxão, e a onda me leva para fora da fria vibração cinzenta de desespero.
Mas sei que ainda vou voltar.
A cela número HU245 está vazia.
Um calafrio percorre todo o meu ser quando entro.
Não é maior que um banheiro comum.
Não há janelas, apenas uma pequena e opaca lâmpada coberta por uma rede de aço.
A fraca luz ilumina vagamente a pequena sala, mas eu posso ver uma cama estreita sobre um bloco de concreto que aflora na parede cimentada.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:27 am

Há uma privada e uma pia de aço brilhante parafusados na parede oposta à porta de aço cinzento.
Sobre o bloco de concreto que serve como cama, há uma estante de concreto.
É uma área para guardar coisas, onde o prisioneiro pode colocar o que tiver de pertences pessoais.
Isso é tudo na cela HU245.
Ela está à espera de um novo hóspede.
A onda continua arrastando, levando-me para uma pequena e branca casa em uma silenciosa rua de três faixas na cidade de Houston, Texas, Estados Unidos da América.
A suave maré me despeja no quarto do andar de cima do pequeno lar.
O quarto está vazio, o sobrado em silêncio; ninguém em casa.
Tudo quieto e tranquilo.
Mas, à distância, vejo um redemoinho negro e vermelho se aproximando.
Tudo que posso fazer é esperar pelos eventos que vão ter lugar neste calmo quarto.
Minha missão me encontrou.

Os últimos vinte minutos de Tom

Tom Philips era um homem racional.
Talvez por isso ele amasse os números.
Até onde ele podia se lembrar, sempre foi atraído por sua consistência e lógica.
"Não importa o que aconteça", ele sempre dizia, "um é sempre um".
Ele também vivia a vida "pelos números".
Tom era metódico, limpo e organizado.
Ele se formou no segundo grau aos dezassete anos e entrou para a Universidade A&M do Texas com uma completa bolsa de estudos com ênfase, sem surpresa para ninguém, em matemática.
Aos vinte e seis ele conquistou o doutorado em pesquisa matemática aplicada.
Um ano antes disso, casou-se, e nunca a máxima "opostos se atraem" foi tão apropriada.
O nome de sua esposa era Elizabeth Del Rio.
Ela vivia conforme o nome.
Sua paixão pela vida era, como em um rio, selvagem e turbulenta.
A paixão e o amor de Tom por Elizabeth preencheu um vazio na vida limpa, lógica e previsível que ele havia planejado para si mesmo.
O casal também era o oposto fisicamente.
Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, com cabelos louros e curtos, ossos da face proeminentes e testa larga.
As pessoas raramente adivinhavam o que ele estava pensando; Tom quase nunca deixava qualquer tipo de emoção transparecer em seus olhos azuis e observadores.
Elizabeth era baixa, mal chegava a um metro e sessenta, e tinha longos, fartos e lisos cabelos negros.
Contudo, eram seus olhos o que mais chamava a atenção alheia.
Não eram sem emoção, como os de Tom; os dela eram profundos, negros, vivos, descuidados e perspicazes.
Tom estava feliz.
Elizabeth abriu as portas para uma vida que ele jamais ousaria iniciar sozinho.
Elizabeth estava feliz.
Ela amava seu belo e jovem professor que lhe trouxe estabilidade.
Tom era tímido e temia suas emoções.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:27 am

Era difícil para ele sair da concha que cuidadosamente construiu ao seu redor, mas lizabeth constantemente o instigava a sentir todas as emoções que a vida podia oferecer.
O mundo dele era em preto-e-branco, mas o dela era um mosaico de azuis, rosas e violetas.
Eles se amavam muito, e ainda se amam.
Estavam casados havia cerca de dois anos quando compraram uma casa numa rua larga num calmo subúrbio de Houston.
Era o lar dos sonhos de Elizabeth:
branco, com três quartos, um sobrado no estilo colonial.
Ela dizia que a única coisa que faltava era uma criança.
Tom achava que deviam dar um tempo antes de começar uma família:
-- Vamos deixar a vida se ajeitar um pouco - disse a ela.
Ele acabava de iniciar sua carreira como professor universitário, e Elizabeth, que se graduou em artes dramáticas, leccionava em um colégio local de Houston.
Mas Elizabeth, sendo Elizabeth, queria uma criança o quanto antes:
-- Assim, nós três podemos começar nossas vidas juntos.
Como sempre, Elizabeth ganhou.
Jessica nasceu.
E, como sempre, Elizabeth estava certa: suas vidas começaram quando a menina nasceu.
Se Elizabeth era a paixão de Tom, Jessica era sua luz.
Desde o momento do nascimento, a pequena garota passou a ser uma extensão dos braços do pai.
A vida era boa e plena, enquanto os três criavam raízes no sobrado branco.
Os anos não passavam depressa.
Passavam lentamente, e cada dia era vivido e saboreado.
A vida era boa.
Tom estava agora com trinta e um anos, Elizabeth tinha vinte e seis, e Jessica, a queridinha de Tom, tinha três.
A criança era linda, quase angelical.
Tinha cabelos louros cacheados, bochechinhas gordas e, ao contrário dos de seu pai, seus olhos eram profundos e sagazes.
Tom era marido, professor universitário e pai.
Ele recebeu uma verba do governo para suas pesquisas, tinha artigos publicados em uma prestigiada revista académica e construía um nome sólido nos círculos académicos.
A vida era boa.
Elizabeth tomava conta de Jessica e à noite tinha voltado a estudar, fazendo aulas de criação literária.
Ela queria escrever uma peça de teatro.
A vida era boa.
Tom era o devotado pai de Jessica.
Ele sussurrava enquanto ela dormia em seus braços:
-- Sou seu papai, seu amigo e seu protector.
Sempre estarei ao seu lado, querida.
A vida era boa.
Jessica tinha três anos e seu mundo eram as flores do quintal da família, as borboletas que esvoaçavam e fugiam quando ela corria atrás delas e sua amizade com um garotinho do outro lado da rua.
A vida era boa.
Então isso acabou.
Suas vidas foram interrompidas mais ou menos vinte anos atrás, naquele pequeno quarto no andar de cima, em Houston, onde, invisível e pacientemente, eu aguardava.
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Ave sem Ninho

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:27 am

O relógio digital no criado-mudo de Tom marcou a hora: dez da noite, numa sexta-feira.
Jessica dormia no lado da cama que era de Elizabeth.
A menininha queria esperar acordada pela mãe, mas, como sempre, não conseguia manter seus olhos abertos.
Tom, trajando bermudas e camiseta, estava sentado em uma cadeira ao lado da cama, vendo TV.
Ele estava preocupado com Elizabeth.
Ela devia estar em casa meia hora atrás.
A faculdade onde ela fazia seu curso literário ficava a dez minutos de carro dali.
"Talvez ela tenha parado para fazer compras ou para uma cerveja com os amigos", pensou.
"Ela logo vai estar em casa", acalmou a si mesmo.
Os números no relógio digital mostravam onze horas.
Ele sabia que alguma coisa estava errada.
Elizabeth não era assim.
"Ela teria me ligado para avisar, se fosse ficar até tarde", afligiu-se.
O telefone estava quieto.
Tom desligou o televisor.
O quarto estava quieto.
Ele escutou os sons que vinham da rua, esperando ouvir o reconfortante barulho do carro dela entrando na garagem.
Nada.
Os minutos se alongavam agonizantemente até quinze, vinte e trinta.
O sono de Jessica ficou agitado.
Os números digitais silenciosamente mostravam a hora:
quinze para a meia-noite.
Nada de Elizabeth.
As ruas estavam quietas.
Assim como o quarto.
Os únicos sons vinham da respiração pesada de Jessica e das batidas de seu próprio coração.
Nada vinha da rua lá fora.
Nada vinha da garagem.
Nada de Elizabeth.
Tom foi até o telefone, ao lado do perturbador relógio.
Ele estava prestes a chamar a polícia quando ouviu o ruído familiar do carro de Elizabeth entrando em sua garagem.
A ansiedade rapidamente se transformou em alívio, tão rapidamente quanto o alívio se transformou em irritação.
"Por que não ligou?
Onde você estava?
Como pôde nos fazer esperar?", dizia para si mesmo.
Ele colocou o fone no gancho, pulou da cama e correu para a porta do quarto.
Tom escutou o som das chaves na porta da frente.
Porém, ainda no alto da escada, ele percebeu que alguma coisa estava muito errada.
Quem quer que estivesse com as chaves, não as acertava na fechadura, colocando uma, depois outra, depois outra no buraco, até encontrar aquela que serviu.
Ele se atirou de volta para o quarto.
Jessica dormia, sem saber que sua mãe estava atrasada e que havia um estranho na porta da frente.
Tom trancou a porta do quarto sabendo que suas frágeis dobradiças jamais manteriam o estranho do lado de fora.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:27 am

Ele foi até o telefone e discou o número de emergência da polícia.
Ele esperou... esperou...
esperou a telefonista atender do outro lado.
Tom ouviu o intruso praguejar quando tropeçou em algum dos móveis.
Tom começou a suar frio enquanto os passos do estranho subiam a escada para o andar de cima.
Seu coração disparou esperando a polícia atender a ligação.
Meia-noite e um.
Seus olhos vasculharam o quarto, procurando desesperadamente por uma arma.
Não havia nada...
Talvez um abajur para atirar em quem quer que estivesse subindo as escadas.
Não havia nada...
Talvez ele pudesse atacar o estranho com a tesoura deixada sobre o criado-mudo de Elizabeth.
Os toques cessaram.
A polícia estava na linha.
-- Arrombador... na estrada Olive Branch, 567.
Ajudem agora - sussurrou depressa. Instintivamente, não desligou o telefone, mantendo a conexão activa.
Foi engatinhando até a porta do quarto, parando apenas para apanhar a tesoura.
Rente à porta, ouviu a respiração do homem do outro lado.
-- O que você quer? - Foi a única coisa que conseguiu pensar em dizer.
Tentou de todo jeito esconder o forte medo em sua voz.
A resposta chegou por meio de uma voz jovem e rouca.
-- Abra a maldita porta ou arrebento com ela, meu chapa.
-- Espere um minuto...
Eu tenho dinheiro.
Deixe-me pegar minha carteira.
Eu passo todo o dinheiro e os cartões de crédito por baixo da porta.
Deixe-nos em paz.
Tom percebeu que choramingava de medo enquanto falava.
Ele sentiu o terror gelar seu estômago.
Olhou para Jessica, ainda dormindo, e agradeceu a Deus por ela inocentemente ignorar o drama que se passava a pouco mais de um metro dela.
-- Quanto você tem? - quis saber a jovem voz.
-- Já digo a você, me dê um segundo para contar - respondeu Tom, alcançando a carteira no guarda-roupa à sua esquerda.
Meia-noite e quatro.
Ele olhou para o telefone, ainda fora do gancho, e rezou para que o socorro estivesse a caminho.
-- Cinquenta. Cinquenta dólares e cartões de crédito.
É tudo que eu tenho, verdade - informou ansiosamente.
-- Merda, cara, você tem de ter mais do que isso - a voz disparou de volta.
Sem avisar, o intruso arrombou a porta e então a voz passou a ter um rosto:
branco, jovem, uns vinte e cinco anos, cabelos fartos e pretos, olhos castanhos saltados.
E, na mão direita, um revólver.
O estranho vasculhou o quarto com seus olhos tensos, parando no criado-mudo, onde viu o fone fora do gancho.
Ele riu abafado.
Mantendo a arma apontada para o peito de Tom, o estranho calmamente caminhou até o telefone, tomou o aparelhou e sarcasticamente falou:
-- Cancelem a pizza - e riu no bocal.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:27 am

Depois arrancou o fio da parede.
Jessica acordou.
-- Papai, o que está acontecendo?
Quem é ele? - grita ela, e Tom vê o medo nos olhos azuis arregalados de sua garotinha.
Ele olha impotente enquanto a sensação se espalha, tomando todo o ser da criança.
Ainda apontando a arma para Tom, o estranho cabeludo voltou-se para Jessica.
Muitos anos depois, Tom me contou que deveria ter tentado atacar o intruso naquela mesma hora:
-- Mas apenas fiquei lá, no alto dos meus um metro e oitenta e seis, de bermuda e camiseta, grudado no chão e aterrorizado.
-- Dormindo com a menina - debochou o homem -- enquanto estive dormindo com sua esposa - acrescentou com um gracejo.
Bem, talvez não dormindo com ela, mas comendo.
Como você acha que consegui as chaves, bundão?
Ele riu quando Tom perguntou onde ela estava:
-- Mais perto do que você pensa - respondeu, indicando com um meio sorriso o carro de Elizabeth, pela janela.
Jessica começou a chorar e correu para Tom.
O estranho a interrompeu, batendo nela com a mão esquerda.
Todavia, o revólver na mão direita ainda apontava para Tom.
-- Mantenha a menina sob controle e mande que ela cale essa maldita boca - ordenou.
Tom vagarosamente pôs o dedo sobre os lábios, implorando a Jessica que ficasse quieta.
Ela obedeceu, trémula de pânico sobre a cama.
-- O que você quer? - suplicou Tom.
-- Mais que cinquenta dólares - a resposta veio sarcástica.
-- E é melhor conseguir depressa.
Eu não sou nenhum babaca.
A polícia vai estar aqui já, já, então levante o rabo daí.
-- Juro que é tudo que eu tenho.
Tom começou a chorar.
-- É seu, leve tudo, os cartões de crédito também - disse, apontando para sua carteira.
-- Você acha que cinquenta vão me deixar feliz, cara?
Sua mulher, bem, ela está no porta-malas.
Fez muito barulho, está morta.
Eu não tenho nada a perder e não estou nem aí.
Meu, que perda de tempo é isto aqui - disse, olhando com ansiedade pela janela.
O intruso suspirou e um sorriso torto se formou nos cantos de sua boca.
Ele tomou uma decisão.
Tom sentiu um calor molhado descendo por suas pernas.
Olhou para o chão e viu uma poça de água a seus pés.
O estranho notou uma mancha crescendo na bermuda de Tom e uma listra amarelada descendo por suas pernas até a pequena poça no chão.
Ele riu prazerosamente com a humilhação de Tom.
-- Ei, menina, olhe seu corajoso papai:
ele está mijando nas calças.
Seu papaizão não vai ajudar você, garotinha.
Seu papaizão não pode nem se ajudar - disse, gargalhando.
O jovem intruso quase sentiu um orgasmo com a humilhação de Tom.
Ele se encheu de poder e confiança, sabendo que tinha o controle da situação.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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