Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:24 am

Se vier me visitar, eu não posso lhe convidar ao meu quarto:
não podemos ter hóspedes.
Eles vão me levar, algemado e acorrentado, para uma pequena cabine.
Uma grossa lâmina de vidro blindado vai nos separar e nós vamos falar por telefone.
É quase como um zoológico, a não ser pelo facto de que eu sou o animal e você é o visitante.
Fico pensando no que aconteceria se um grupo de defesa dos direitos dos animais descobrisse que o governo estava enjaulando animais a noventa metros embaixo da terra, sem contacto com nada, em uma sala menor que um canil por vinte e três horas por dia?
Não acha que haveria algumas petições e manifestações em defesa dos pobres animais?
Bom, por que não existe nenhum protesto para a gente, os homens do corredor da morte?
Acho que é porque não somos mais homens ou, pelo jeito, nem mesmo animais.
Eu estava fascinada.
Assim como Harry.
Nós vimos, na nossa frente, David sentado em sua cela, rabiscando nervosamente as palavras que estávamos lendo.
-- Ele está com medo - disse eu.
Harry concordou, acrescentando:
-- Acho que ele tem mais medo de passar os próximos anos de sua vida no corredor do que da própria morte.
O médium continuou com a carta:
Sobre aquela outra coisa, você ser um médium, "Davey Ondinhas", a mulher com o avental.
Eu não sei nada sobre isso, a não ser pelo que via na televisão quando as pessoas ligavam para um número para saber sobre sua sorte.
Nunca fiquei interessado e nunca liguei.
Se você quer me visitar, tudo bem.
Não deve haver mais ninguém que virá por aqui.
Eu tinha uma namorada, mas não tenho notícias dela desde que fui preso.
Cara, eu não tenho ninguém, então, como você está aqui em Livingston, pelo menos eu posso ter alguém que me visite.
Você não é gay, é?
Não suportaria ter um visitante gay.
Alguns caras dizem que os gays se excitam escrevendo para a gente.
Você tem de preencher um desses formulários para entrar na minha lista de visitantes.
Mande de volta e eu entregarei ao comandante da guarda.
Eu aviso quando você puder começar a visitar.
Eles têm dias de visita na segundas, quartas e sextas das dez da manhã às duas da tarde, e no sábado do meio-dia às seis da tarde.
Nunca aos domingos.
Obrigado pelos selos.
D. Heinz.
Harry estava desapontado.
-- Ele nem sequer mencionou as mensagens que enviei a ele da parte de sua mãe.
Esse cara quer um correspondente, só isso.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo.
-- Você não percebeu - exclamei - que era aquilo mesmo em que ele estava interessado?
A descrição dele de sua vida no corredor da morte é papo furado.
Ele ficou fascinado por sua mensagem, apenas está muito assustado para admitir.
Dei uma piscadela para Harry e pedi que confiasse em mim.
Harry disse que iria se ocupar dos formulários que o prisioneiro lhe havia mandado.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:24 am

-- Talvez eles marquem uma visita dentro das próximas duas semanas.
E - enfatizou - espero que você venha comigo.
Eu não vou gostar de ir sozinho.
-- Não esquente.
Já estive lá antes.
Para matar a curiosidade, perguntei qual era o número da cela de David.
Apanhando o envelope, Harry disse que era HU245.
Ele quis saber por que perguntei.
-- Ah, pura curiosidade - respondi, sorrindo.

Tom no jardim

Tom e eu sentamos no meio do jardim de flores do hospital.
Era um dia perfeito:
um céu azul profundo com nuvenzinhas brancas como travesseiros rolando sobre nossas cabeças.
Uma brisa leve e quente acariciava nossos rostos.
Claro, era tudo uma ilusão criada por Tom, mas era uma linda ilusão, apesar disso.
Ele estava se adaptando à sua nova vida, mas não queria se sentar e ver as nuvens passar.
Tom queria respostas e estava a fim de discussão.
-- Deixe-me ver se entendi direito - começou ele, sarcasticamente.
Eu surrei meu filho em uma vida de tempos atrás.
Agora, o menino voltou e assassinou a mim, minha esposa e minha filha.
Ele manteve a mão erguida, sem esperar pela minha resposta.
-- Dá um tempo.
Antes de mais nada, Elizabeth e Jéssica eram inocentes.
De acordo com você, elas não tinham nada a ver com Tim e eu.
E se cada pai que der uma surra em seu filho for assassinado, vamos ter um mundo bem cheio de assassinos.
Tom fez uma simplificação ridícula e cabia a mim colocar as coisas em perspectiva.
Comecei com o básico.
-- Você está certo:
sua esposa e filha eram inocentes.
Elas eram figurantes, nunca tiveram nenhum relacionamento com você ou David antes.
Elas vieram como oportunidades.
Expliquei que tanto Elizabeth quanto Jessica eram espíritos evoluídos que foram voluntários para ajudá-lo, sem nenhum elo de ligação.
A mente lógica de Tom acelerou e rapidamente disparou a próxima pergunta:
-- Mas o assassino, Tim, David ou Kathryn, seja lá qual for o nome que lhe dermos, criou um carma com elas, não criou?
Afinal, ele matou Jessica e Elizabeth.
Fiquei deliciada com a pergunta.
Ela me ajudaria a conduzir a conversa para a direcção que eu queria.
-- Não exactamente.
Nós temos o livre-arbítrio.
Acho que as duas são evoluídas o bastante para saber que, se elas não ficarem obcecadas com ele, não terão nenhum laço com o assassino.
Elas e o assassino serão livres para seguir seus próprios caminhos de evolução.
Tom rosnou e ainda queria saber como uma simples surra leva a um assassinato.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:24 am

-- Convenhamos, Maryanne:
se há a causa e o efeito, como você disse, essa causa não é muito pequena e insignificante comparada ao efeito?
Tom estava aborrecido.
Ele já não estava sentado, mas andando de um lado para o outro pelo gramado, alheio a tudo.
-- Sinto muito se essas não são as respostas que queria - lembrei-lhe minha promessa de dizer sempre a verdade.
Pedi a ele que se sentasse, fosse paciente e ouvisse.
Ele se sentou, reticente, mas murmurou palavras do tipo "ridículo, papo furado, loucura", sem usar a voz.
Ele não era mais o Tom Philips doce e controlado.
Fiquei contente em ver a mudança.
-- Tom, eu sei que é difícil, mas tente separar você dos acontecimentos.
-- Difícil! Você diz que é difícil! - explodiu.
Um cara chega na minha casa, diz que estuprou e matou minha mulher, assassina minha filhinha e depois atira no meu peito.
E você me diz para "me separar dos acontecimentos" - finalizou, sarcasticamente.
-- Eu sei que não é fácil - assegurei.
Eu mesma estive lá.
Mas aprendi que não importa como nós morremos, seja por doença, assassinato ou acidente, porque a maneira como morremos é também parte do nosso carma.
Lembrei-lhe da cena no campo de estrelas onde ele estava batendo em seu filho adolescente.
-- Qual era a sua intenção?
Por que estava batendo nele?
Tom tinha sua resposta pronta:
-- Para ajudá-lo.
Ele era um adolescente chorão se esgoelando por um cachorro.
Eu queria que ele aprendesse que não há lugar para emoções vazias e bobas.
Se você as demonstra, você só se machuca.
-- Tom, seja honesto consigo mesmo.
É importante. Não se apresse.
Repasse a cena e pergunte ao pai, que era você, por que ele estava tão bravo.
Pergunte a ele a resposta.
Pergunte à parte de você a verdade.
Não há o que esconder, porque não há o que temer.
O espírito fez como eu pedi.
Tirando sua revolta, Tom era um espírito sensível, amoroso e humanitário, com medo apenas do que essas emoções poderiam lhe trazer.
Foi por isso que ele escolheu bloqueá-las e também por isso tinha dificuldade de lidar com elas.
Como se estivesse em transe, o espírito falou do fundo de sua essência:
-- Eu não queria meu filho sentindo o que eu não sentia.
Ele amou e se decepcionou com isso.
Amor me fez impotente. Machuca e humilha.
Eu queria que ele sentisse da mesma forma que eu.
Segui em frente com algumas questões bem difíceis.
-- Então, sua intenção não era ensiná-lo sobre a vida.
Você queria humilhá-lo como você foi humilhado.
Você queria que ele se sentisse fraco e impotente.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:25 am

-- Sim - veio a resposta agonizante.
-- Você teve êxito - afirmei seriamente.
E, uma vida depois, ele voltou para humilhar você e fazê-lo sentir-se fraco e impotente.
Você o castrou emocionalmente.
Ele nunca o perdoou. Ele se tornou obcecado.
Suas acções criaram um drama cármico que tinha como astros você e ele.
Contudo, alertei, ainda havia mais.
-- Você não perdoou Kathryn, a mulher que desprezou seu amor.
Kathryn e Timothy:
eles são a mesma pessoa.
Kathryn, Timothy e David:
eles são a mesma pessoa.
Tom não disse uma palavra enquanto eu descrevia o enredo de seu drama cármico.
-- Você nunca perdoou Kathryn por sua humilhação.
Ela voltou como seu filho tentando fazer as coisas endireitarem, mas você, por sua vez, a humilhou.
E agora...
Minha voz foi se perdendo e eu fiz uma pausa.
Tudo estava quieto no jardim.
Rompi o silêncio e sugeri suavemente:
-- Não acha que é hora de quebrar o ciclo?
Tom sacudiu a cabeça.
-- Como isso tudo pôde acontecer?
Eu não sabia que Kathryn era Timmy.
David não sabia quem eu era.
Nada disso faz sentido.
Finalmente chegamos aonde eu queria chegar.
Era hora de explicar a Tom o poder do perdão.
-- Vibrações:
tudo não passa de vibrações - disse eu.
Tom respondeu dizendo que não tinha a menor ideia do que eu estava falando.
Comecei a explicar pacientemente.
-- Lembra da minha história sobre estrelas e como espíritos são atraídos um pelo outro por suas afinidades?
Ele assentiu e ficou ouvindo.
-- Você amou Kathryn incondicionalmente, mas ela rejeitou e humilhou você.
Ela não tinha nenhuma obrigação de amar você; foi escolha dela não amar.
Mas ela também escolheu humilhar e ridicularizar você.
Você se prendeu àquela humilhação.
Se você a tivesse perdoado, não haveria vibrações entre você e ela, e ela iria aprender, de uma maneira ou de outra, com seu acto de humilhar você.
Afinidade é mais do que uma ligação, significa compartilhar uma vibração.
Isso faz sentido para você?
Tom foi evasivo, mas fez sinal para que eu continuasse.
-- Obcecado, suas vibrações atraíram o espírito dela para você em uma vida seguinte.
Claro, você não sabia que Kathryn era Tim, mas seu espírito estava afinado com o dela e o carma foi trazido de uma vida passada porque você não conseguia perdoar.
Aquele espírito, agora com fixação em você, voltou como David.
Dê uma olhada nas consequências.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:25 am

Agora eu estava pronta para responder sua primeira pergunta.
-- Dar uma surra em uma criança não significa que ela vá voltar e assassinar você em uma outra vida.
Mas suas intenções, quando você batia nele, criaram um carma.
E, por causa daquele espírito não conseguir perdoar você, o carma foi mais uma vez criado, unindo vocês dois.
Tom argumentou que havia outras maneiras de o garoto acertar suas contas:
-- Ele não precisava matar três pessoas.
-- Mas não é apenas uma questão de acerto de contas.
Você precisava aprender sobre emoções e David queria se sentir poderoso.
Nada acontece por acaso.
Vocês podem aprender muito com essa experiência, ou vocês podem ignorar tudo e não aprender nada.
Ele não tinha de assassinar você; nada o forçou a puxar o gatilho.
Ele podia ter feito um milhão de outras coisas para satisfazer sua obsessão por você.
Eu disse a ele que prestasse atenção enquanto eu mostrava as cenas seguintes.
Cena 1: David vê Elizabeth
-- Tudo que ele queria era roubar a bolsa dela.
Ele precisava de dinheiro para comprar drogas.
Porém, quando ela se aproximou, uma voz interior insistia:
"Pegue-a, pegue-a.
Você a quer".
-- Como aquelas vozes lá em Houston? -- interrompeu Tom.
-- Sim, mas isso não é desculpa.
Ele podia ter dito não.
Mas ele atendeu às vozes e a estuprou.
Não era nem mesmo sexual, era uma questão de poder.
Quando alguém se sente impotente, revida.
Esse espírito estava influenciado por seu ser inferior porque uma pessoa que se sente impotente atrai as vibrações mais baixas.
Tom assistia em lágrimas, mas não desviava o olhar.
Cena 2: David invade o quarto
Tom se encolhia enquanto assistia à porta ser arrombada.
-- David sentiu uma ligação psíquica imediata com você.
Ele não sabe o quê ou por quê, mas o sentimento estava lá.
Ele o odeia e não quer outra coisa senão atacar você.
Ele não quer mais dinheiro, ele quer você!
Ele vê Jessica.
Ela não significa nada para ele.
Ele atira nela porque ele ainda está cheio de si por ter subjugado sua esposa.
Cena 3: Tom urina nas calças
-- Lembra-se de como ele provocou e avançou quando você perdeu seu auto-controle?
Tom suspirou enquanto revivia seu momento de humilhação, seu momento de impotência, seu momento de total falta de reacção.
-- Ele conseguiu o que queria.
Se a polícia não estivesse a caminho, ele teria se divertido com você a noite inteira, talvez até sexualmente, porque, na vibração distorcida de David, sexo é poder.
Ele precisava de poder.
Ele o conseguiu com Elizabeth e ele conseguiu quando humilhou você.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:19 am

Uma grande e profunda tristeza tomou todo o seu espírito, mas eu não podia parar.
Estava quase terminando.
-- Aqueles não foram assassinatos calculados e planeados.
Eles eram simplesmente os ecos de um homem impotente.
Foram ecos de sementes plantadas muitas vidas atrás.
Eu disse a Tom que os filmes tinham acabado.
Ele não conseguia olhar para mim agora.
Um espírito arrasado esperava pelo que viria a seguir.
-- Tenho algumas perguntas para você - disse eu.
-- Vá em frente - murmurou Tom.
-- Você pode perdoar?
Ou você quer que este carma entre vocês dois continue repetidamente, sem parar?
Você está vivo, assim como Elizabeth e Jessica.
Eu disse que assassinato é um acto mau e hediondo.
-- Seu matador vai, independentemente de sua decisão, viver as consequências de suas acções.
Minhas próximas duas questões eram para sacudi-lo, e eu poderia dizer que elas surtiram esse efeito.
-- Pode você perdoar esse espírito que foi seu filho?
Pode você perdoar esse espírito que você já amou apaixonadamente?
Ou vocês dois vão continuar ligados pela revolta e obsessão?
É o que você quer?
Isso é com você.
Sua resposta vai moldar sua próxima encarnação.
Fiz uma pausa por um momento ou dois e repeti suavemente:
-- Tom, pense nisso.
Pode você perdoar seu filho?

Nós visitamos David

Harry estava nervoso porque aquele era o dia que iríamos a Terrell ver David.
Não iríamos fazer uma visita a ele exactamente no corredor da morte.
O prisioneiro seria trazido até o centro de visitas, onde, como um preso de segurança máxima, ele sentaria em uma pequena cabine por detrás de uma grossa lâmina de vidro blindado à prova de balas.
Enquanto andávamos pelas ruas largas e tranquilas de Livingston, tentei preparar Harry para o que estava por vir.
-- Eu vou fazer o melhor possível para proteger você, mas lembra-se dos vultos que você viu no quarto de Tom?
Eles são mais fortes na prisão, porque se enraizaram ali.
Esses espíritos são atraídos pela revolta, e lá na prisão certamente há muito disso.
Eles também estão mergulhados no medo e desespero, e Terrell é um solo fértil para o medo e o desespero.
Harry não sabia o que esperar dessa primeira visita, mas confessou:
-- Se houvesse um momento certo para mostrar a alguém que há outra vida depois desta, acho que seria este.
A prisão surgiu poderosa diante de nós.
Na verdade, a cidade de Livingston vivia à sombra de Terrell.
Admiti que simplesmente olhar para a prisão, ainda que a distância, me fazia ter calafrios.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:19 am

Harry riu:
-- Se você tem isso, imagine eu.
Notei seus braços se arrepiando de cima a baixo.
Num raio de quase duzentos metros ao redor da penitenciária, nada brotava do chão.
Todas as árvores, arbustos e plantas foram arrancadas para criar uma zona segura fora do perímetro da prisão.
Essa área nua e deserta acentuava o aspecto frio e arrepiante dos prédios brancos, circulares e atarracados feitos de concreto.
Eles pareciam se erguer do nada, rodeados por rolos e rolos de arame farpado de um prateado brilhante.
Terrell é uma unidade de segurança máxima do Departamento de Justiça Criminal do Texas e, além do corredor da morte subterrâneo, a prisão abriga prisioneiros cumprindo de trinta anos à prisão perpétua por assassinato, agressão, roubo ou tráfico de drogas.
Esses presos de segurança máxima estavam enjaulados nos prédios circulares, largos e sem janelas, bem à nossa frente.
Enterrado a quase noventa metros abaixo desses prédios estava o corredor da morte.
Nós vimos a entrada à nossa frente.
Ficava exactamente no meio do terreno da prisão.
-- Parece um túnel - comentou Harry enquanto nos aproximávamos do primeiro de três portões.
Era um túnel.
Um túnel que nos levaria para o vazio.
David, em uma das muitas cartas que escreveria para Harry, descreveu como ele se sentiu no primeiro dia que chegou ali.
Eu estava assustado quando o ônibus parou na entrada.
Não deixe essas portas enormes enganarem você:
tudo fica menor e menor quanto mais você adentra esse monstro.
Eu não acho que vou esquecer aquele dia por todo o tempo que ainda estiver vivo.
Era um dia típico do Texas.
O sol estava directamente - nas nossas cabeças.
Eu o senti queimando meu rosto.
E não sabia que, uma vez que eu entrasse naquelas portas de aço, eu nunca mais veria o sol e nunca o sentiria queimando meu rosto novamente.
Desci e desci, primeiro na unidade de vestuário, onde eles me deram dois pares de cuecas e um macacão branco.
Depois desci para o hall estreito do controle central.
Ali não há celas, apenas uma área larga e espaçosa com uma sala de controle cercada por vidro a prova de balas.
Dois guardas me levaram à ala H, os corredores ficando mais estreitos agora.
É impressionante.
Eu agora estou no meio da ala e rodeado por dois andares de cela.
Acorrentado, mãos algemadas, eles me levam ao segundo andar, cela HU245.
Sou empurrado para dentro e imediatamente ouço o som das travas de ar comprimido quando a grossa porta de aço se fecha em frente de mim.
Há um clique electrónico e metálico, e os guardas me dizem para pôr minhas mãos através de uma pequena abertura na frente da porta.
Eles tiram minhas algemas.
Ponho meus pés para fora e eles tiram as correntes.
Estou sozinho na estreita tumba de concreto.
Num instante, percebi que esse seria meu lar pelo resto de minha vida.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:19 am

Cinco minutos atrás eu sentia o sol quente do Texas no meu rosto.
Agora, estou sentado a um metro de uma privada, num fino colchão largado sobre uma laje de concreto.
Eu me lembro de sentar na minha cama, olhar para a privada e chorar.
Harry agora atravessa as portas duplas, as mesmas por onde David tinha entrado havia quase quatro meses.
Um guarda o reconheceu.
Livingston é uma cidade pequena, e muitos dos guardas paravam no bar de Harry depois do expediente.
-- Seu nome está na lista.
Visitando David Heinz, certo?
Harry chamou o guarda pelo nome.
O nome dele era Chuck.
-- Você conhece esse cara? - inquiriu o guarda.
Harry disse não, que era sua primeira visita.
- Um parente dele me pediu para procurá-lo.
-- Nós vamos passar por uma rotina de segurança aqui, Harry.
A amistosidade na voz de Chuck desapareceu e a autoridade de seu trabalho tomou conta.
Ele instruiu Harry a esvaziar os bolsos de tudo de valor.
Ele pegaria de volta quando saísse.
-- Deixe também todos os objectos de metal.
Chuck ordenou a Harry que passasse pelo detector de metais, do mesmo tipo que se vê em aeroportos.
Então, um pequeno rastreador portátil foi passado por todo o seu corpo e, depois disso, uma revista manual.
-- Parte da rotina - explicou o guarda.
O médium esperou na fila com mais cinquenta ou sessenta outros visitantes.
Um outro guarda, de pé em uma plataforma na frente da fila, leu nomes em uma prancheta, e, a cada nome que era chamado, a fila ficava menor.
-- Os visitantes do corredor da morte normalmente são os últimos.
Nós precisamos de dois guardas para escoltar esses prisioneiros ao centro de visitas.
Leva algum tempo para tirá-los de suas celas - explicou o guarda com a prancheta, apontando para o andar.
Esse guarda também conhecia Harry, e a pergunta inevitável veio novamente:
-- O que está fazendo aqui?
Você conhece esse cara?
Mais uma vez, Harry respondeu ao guarda pelo nome e deu sua resposta ensaiada:
-- Primeira vez, Bill.
Prometi a um parente que daria uma olhada nele de vez em quando.
Bill resmungou, dizendo que a única coisa errada com a pena de morte era que levava muito tempo para ser aplicada.
-- Alguns desses caras estão aqui há mais de dez anos.
Apelações, apelações e mais apelações.
Se dependesse de mim, eu os executava assim que chegassem aqui.
Harry deu um sorriso evasivo e seu nome foi finalmente chamado.
Ele foi escoltado por uma pequena passagem.
Na frente dele havia quatro pequenas cabines.
Disseram-lhe para se sentar na janela número três.
Uma policial feminina entediada recitou as regras.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:19 am

-- Prisioneiro Heinz vai estar aqui brevemente.
Proibido fumar, comer ou beber.
Não tente se aproximar do vidro:
você será repreendido e a visita, encerrada.
Você tem uma hora.
Se você desejar terminar antes do fim desta hora, apenas aperte esse botão à sua frente.
Se tem qualquer coisa que gostaria de dar ao prisioneiro, deixe comigo.
Harry esperou.
Do nada, um jovem em um macacão branco surgiu do outro lado do vidro.
Ele estava algemado e fez sinal para Harry para pegar o receptor do seu lado do vidro.
A conexão estava feita.
Harry ouviu a nervosa voz de David dizer:
-- Bom, acho que você é Harry.
Harry sorriu e disse:
-- E eu sei que você é David.
A primeira coisa que ele notou foi que aquele sorriso sacana, colado no rosto do homem durante o julgamento, havia sumido.
Apesar de David estar na prisão por apenas quatro meses, seu rosto estava de um amarelo pálido e seus olhos tinham afundado em sua face.
Houve um silêncio constrangedor.
Através do fone, Harry ouviu o prisioneiro respirando rápida e profundamente.
Ele notou que David não iria fazer um contacto visual.
Harry decidiu que caberia a ele romper o silêncio.
-- Nós só temos uma hora.
Você sabe por que estou aqui.
Assim que ele falou, Harry sabia que estava sendo frio e directo, mas ele também estava nervoso.
Este não era o mesmo Harry que, havia apenas três meses, fora brilhante com Tom.
David encarou-o friamente.
-- Você veio ver a aberração, o assassino, o monstro?
O que você quer de mim, cidadão?
Um David defensivo e insolente, em seu macacão branco do corredor da morte, exigia uma resposta.
Harry notou que o sorriso sacana começava a aparecer nos lábios do preso.
"Isso é inútil.
Eu nem mesmo sei o que estou fazendo aqui", pensou Harry, mas controlou seu mau humor.
Ele tinha me prometido que ficaria a hora completa.
-- Eu lhe escrevi uma carta.
Você respondeu.
Pensei que poderia gostar da companhia.
Me disseram que é bem solitário aqui.
-- E quem lhe falou isso?
Você também lê pensamentos? - provocou o prisioneiro HU245.
Eu sussurrei na orelha direita de Harry:
-- A mãe dele quer falar.
Harry olhou à sua direita, fez um aceno de cabeça e repetiu no fone:
-- Sua mãe quer falar.
O prisioneiro resmungou:
-- É, foi por isso que respondi à sua carta.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:20 am

Eu queria ver que tipo de vigarice era essa.
Está bom, "mãe", pode falar.
O médium fechou seus olhos, tentando ignorar as vibrações frias e pesadas flutuando ao seu redor.
Ele murmurou uma quase inaudível prece pedindo a Deus que o protegesse enquanto ele abria a comunicação.
Um sorriso cínico se formou no rosto do preso enquanto ele provocava:
-- E eu quero ouvir algo mais do que Davey Ondinhas.
-- Sua mãe disse para lhe falar sobre a cicatriz que você tem bem aqui - disse Harry apontando para a parte interna de seu braço esquerdo.
-- Isso está na minha ficha policial.
Tente outra - desafiou o prisioneiro do corredor da morte.
Harry não se perturbou e continuou:
-- Sua mãe disse que sente muito por não estar olhando você brincar com aquela tesoura quando tinha quatro anos.
Isso não teria acontecido se ela tivesse prestado atenção.
O prisioneiro ficou quieto.
-- Sua mãe diz que está sempre com você, até mesmo quando você chora até dormir.
Olhando por cima do ombro direito do prisioneiro, Harry acrescentou:
-- E também uma outra mulher.
Captei Bertha.
Esse nome significa alguma coisa para você?
Harry estava com tudo.
Sem dar a chance ao preso de responder, ele descreveu a outra pessoa:
-- Ela está em pé ao lado da sua mãe.
Usa um coque em seus cabelos louros.
Ela está um pouco acima do peso.
Eu fico ouvindo a palavra "tia".
Diz que é sua tia.
Ela criou você quando sua mãe morreu, não foi?
David não pronunciou nenhuma palavra.
Ficou sentado em sua jaula respirando no telefone.
Harry não estava olhando para o prisioneiro agora, ele estava concentrado em um ponto qualquer do espaço.
Eu sabia o que Harry estava fazendo.
Ele estava sendo dramático, tentando impressionar David com a solenidade da comunicação.
Harry não precisava se concentrar ou fechar seus olhos e meditar:
a mediunidade para ele era tão natural quanto respirar.
Eu sorri. Esse era o Harry que eu conhecia.
Ele estava no controle agora, e eu estava aliviada.
-- Sua mãe e sua tia estão me mostrando uma foto, eu acho que é você quando garoto.
Engraçado... - o médium estava confuso.
Ela chama você de Davey Ondinhas, mas na foto você tem pelo menos três anos de idade e está totalmente careca.
Tem ideia por quê?
David finalmente respondeu:
-- Eu pedi que você viesse por causa desse negócio do Davey Ondinhas.
Isso significa muito para mim.
Não era um apelido ou algo assim.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:20 am

Quando eu tinha quatro anos, eu tive a minha cabeça raspada, piolho ou coisa do tipo.
Eu me esgoelei de chorar, mas minha mãe disse que algum dia eu seria seu Davey Ondinhas de novo.
Quando meu cabelo voltou a crescer, ela nunca mais me chamou de Ondinhas.
Harry disse que ela o chamou de Davey Ondinhas no tribunal.
-- Era uma mensagem - explicou o médium.
Ela usou algo que só você e ela saberiam.
É a mesma coisa com a fotografia.
Ela quer que você confie em mim.
David olhou ao redor em seu cubículo.
Claro que ele não viu, ouviu ou sentiu coisa alguma.
Ele puxou o fone mais perto da boca e pediu timidamente:
-- Você podia dizer um alô para mamãe e tia Bertie por mim?
Agora, foi a vez de Harry sorrir.
Era a primeira vez que ele relaxava desde que entrou pelo túnel.
-- Eu não preciso, elas podem ouvir você.
Ele riu e acrescentou:
- Sua mãe diz que ela ouve quando você a chama durante a noite.
Você a chama de Tootsie?
David fechou seus olhos e sorriu.
Ele estava a milhões de quilómetros daquela prisão.
-- É, era meu apelido para ela.
Harry passou adiante mais um pouco de informação:
-- Bertie mandou lembranças.
Ela também está com você.
O prisioneiro, com seus olhos ainda fechados assentiu agradecida e humildemente.
Como se estivesse com medo da resposta, perguntou:
-- Elas estão bravas comigo?
Harry se derreteu.
Eu vi isso em sua aura.
Até aquele momento, ele estava sendo frio e profissional com o assassino.
Porém nesse rápido instante, sua atitude mudou.
Eu tive uma leve suspeita de que o próprio Harry tinha mudado um pouco também.
-- David, eu sempre vou lhe contar a verdade, não importa qual possa ser essa verdade.
Sua mãe está chorando e Bertie também.
Elas não conseguem entender o que você fez.
Elas dizem que isso não importa, as duas ainda amam você, mas elas estão, sim, muito, muito, muito desapontadas com você.
David esfregou nervosamente suas mãos em seu macacão branco.
Por alguns momentos, ele evitou os olhos de Harry e ficou de cabeça baixa.
-- O que você quer de mim? - perguntou David novamente.
Mas o tom era diferente agora.
O sarcasmo e o desafio sumiram, substituídos por uma confiança quase infantil.
Harry estava pronto:
-- Eu quero mostrar a você que existe uma vida além desta.
Eu quero provar a você, sem nenhuma sombra de dúvida, que toda vida, incluindo a sua, continua depois da morte.
O prisioneiro do corredor da morte estava com medo de fazer sua próxima pergunta, mas Harry se adiantou e a respondeu:
-- Sim, David, você vai morrer.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:20 am

Eles vão vir até a sua cela, o carcereiro vai acenar e dizer "Chegou a hora" e você vai entrar naquela câmara.
Você sabe que isso é inevitável.
O prisioneiro engoliu em seco e confessou que pensar sobre aquele dia futuro o assombrava diariamente.
O médium disse para o prisioneiro não pensar naquilo por enquanto:
-- Temos muito a fazer até lá.
David sentiu algum conforto com as palavras de Harry e ia dizer qualquer coisa, quando uma voz metálica os interrompeu:
-- Faltam cinco minutos.
Harry prometeu que voltaria na semana seguinte e disse que iria dar ao guarda algum papel, selos e uma carta.
-- Escreva para mim sobre qualquer coisa que quiser, coisas que nós podemos não ter tempo de falar aqui.
A carta é importante, leia - disse Harry, quando um guarda apareceu ao seu lado.
-- Só uma rápida pergunta - David pediu apressadamente quando dois guardas chegaram ao seu lado da cabine.
- Por que você está fazendo isso?
Em pé, mas ainda segurando o fone, Harry sorriu:
-- Eu lhe disse:
sua mãe me pediu.
David acenou com a cabeça e desapareceu com os dois guardas.

Uma conversa com Harry sobre o oculto

Dorothy Heinz estava feliz.
Harry tinha feito contacto com David.
-- Pelo menos ele tem alguém com quem conversar.
Dorothy sabia que seu filho estava literalmente sozinho no mundo, sem pai, sem irmãs ou irmãos.
David era o último que sobrou de sua pequena família que vivia na Terra.
O mesmo com amigos:
os poucos que ele tinha não eram do tipo que visitam alguém no corredor da morte.
Quando deixamos a prisão, Dorothy seguiu connosco.
Ela era insistente.
A mãe queria que eu passasse um dia com David no corredor:
-- Harry tem de saber como é lá.
Não tenho como descrever, por favor.
Ela não sabia que eu já tinha, ainda que brevemente, visitado o corredor, mas eu tive de admitir que ela teve uma boa ideia.
Eu não conhecia a rotina, e Harry, se iria ajudar David, precisava saber o que acontecia lá dentro.
Harry concordou.
-- Se vou dar conselhos ou até mesmo ser seu amigo, eu deveria saber do que estou falando.
A primeira vez que ele disser "Você não tem a menor ideia de como é aqui dentro", vou estar preparado - disse-me ele, com a voz cansada.
Eu estava preocupada com Harry.
A experiência daquela manhã foi física e emocionalmente exaustiva.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:20 am

Médiuns não podiam deixar de se expor para todas as entidades, não apenas para as que estavam em comunicação com ele, e as que estavam naquela prisão eram devastadoras.
Prometi a Dorothy que eu iria, mas primeiro eu quis passar algum tempo com Harry.
Juntos, nós dois andamos os cinco quarteirões de volta ao apartamento dele em silêncio.
Quando chegamos, o médium se atirou em sua poltrona e perdeu o olhar no espaço.
-- Esta foi difícil - disse em voz alta.
Perguntei a ele se havia alguma coisa que eu pudesse fazer.
Harry respondeu aos tropeços:
-- Apenas me ouça.
Eu preciso me livrar disso antes que isso acabe comigo.
Há um clima pesado em todo lugar.
Eu nunca senti nada assim.
Você não tem ideia do frio em meu estômago.
É como se tivesse uma grande pedra de gelo lá dentro.
O médium errava as palavras, lembrando da manhã dentro da prisão:
-- Há tantos deles lá.
Eu nem podia contar:
assassinos, ladrões e estupradores, todos ex-prisioneiros que também morreram ou foram executados.
Eles têm medo de sair de lá.
São espíritos amargos, atados pelo ódio e medo.
Eu os vi, também.
Eu vi "espíritos perdidos", com medo de sair da escuridão que construíram para si mesmos, e vi espíritos que, por causa de seu próprio ódio e infelicidade, mantinham aqueles "espíritos perdidos" lá.
-- Você tem certeza de que não há nada que pode fazer para ajudá-los? - perguntou o médium, cansado.
Eu disse que não dependia de mim:
-- Eles têm de querer ajuda.
Nem eu nem qualquer outro guia pode se impor para eles.
Nós estamos prontos, mas eles também têm de estar prontos.
Harry queria saber por que aqueles espíritos ficavam ao redor da prisão em que eles haviam sido presos.
-- Nem todos os prisioneiros ficam assim como eles - expliquei.
Nem todo preso se agrega a essas alas.
As entidades de Terrell podem ser divididas em duas facções:
os não preparados, que morreram com ódio.
Eles deixaram seus corpos físicos ignorando sua espiritualidade e sem saber do significado de seus actos.
David pode se tornar um deles.
O outro grupo é mais difícil de lidar.
Eles sabem o que fizeram, quem são e não se importam.
Eles se apegaram ao primeiro grupo, prendendo todos no inferno que construíram.
Eu lembrei a Harry da cena no quarto de Tom.
Para ele, foi há quatro meses; para mim, foram apenas momentos.
-- Os vultos estavam atraídos por Tom por causa de seu ódio, revolta e desejo de vingança.
Eles estavam lá para recrutá-lo.
Em sua vibração ignorante, estúpida e insignificante, eles vêem o Universo dividido entre a luz e a escuridão.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:21 am

Esses espíritos não entendem que eles são os mesmos que criaram e perpetuaram a escuridão.
Por não estarem prontos para entrar na luz, eles se rebelam.
Na verdade, eles pensam que são deuses, lutando para controlar o Universo.
A arrogância e a presunção desse grupo são repletas de vaidades e ego.
Harry entendeu e me disse que, quando ele era mais jovem, ele leu muitos livros sobre ocultismo.
-- Mas esta foi a primeira vez que senti isso.
-- Esses espíritos são o oculto.
Eles estão no outro lado da luz e são espíritos de ignorância, ódio, vingança e mesquinhez.
Alguns dos idiotas na Terra os invocam pelos chamados rituais macabros.
Este era um assunto delicado para mim.
Algumas pessoas confundem ocultismo e espiritismo.
Eu vivia explicando as diferenças.
-- Esses babacas simplesmente se afinam com o tipo de vibração que você viu em Terrell.
Quando as pessoas praticam vodu, bruxaria, magia negra ou o seja qual for o nome que quiser dar, elas chamam essas vibrações e os espíritos que vivem ali.
E esses espíritos prestam serviços.
Eles ficam felizes em servir aos mais baixos pensamentos e intenções negativas.
Mas eles são espertos.
As pessoas na Terra pensam que controlam esses espíritos com seus rituais, sacrifícios e encantos.
Mas o que acontece é o oposto:
as pessoas na Terra se tornam escravas desses espíritos espertos e traiçoeiros.
Na verdade - acrescentei - os babacas na Terra dão poder a esses espíritos inferiores, adulando-os e alimentando seus egos.
De certa forma, é como prostituição.
Se não houvesse nenhum cliente, não haveria prostitutas.
Se não houvesse almas na Terra para adorar, reverenciar e homenagear esses espíritos levianos, talvez esses espíritos já tivessem encontrado seu caminho para fora da escuridão.
Harry perguntou-me se haveria redenção para essas almas.
-- Claro! Há redenção para todos os espíritos.
Ainda que eles estejam travados em suas vibrações divertindo-se e revelando sua ignorância e ego, a luz nunca está longe demais.
-- É por isso - enfatizei - que é tão importante ajudarmos Tom e David.
A vítima e seu assassino são basicamente a mesma coisa, disse eu a Harry.
-- Nós estamos lutando para mantê-los fora da escuridão.
Harry suspirou.
Ele disse que estava se sentindo bem melhor e queria tirar uma soneca.
Ele estava cansado, e ainda tinha de trabalhar durante o turno da noite no bar:
um de seus funcionários telefonou avisando que estava doente.
-- Estou pensando em vender o lugar - ele murmurou.
-- Não ainda, Harry.
Não agora.
Ele ainda tem uma serventia - aconselhei.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:21 am

Um dia no corredor da morte

Eu mantive minha palavra.
Juntei-me a Dorothy na pequena cela de concreto onde seu filho passava o que restava de sua vida.
Eu sabia quando ele iria morrer, mas não revelaria a data a ninguém, nem mesmo a Harry.
Havia muitas escolhas que David deveria fazer, mesmo vivendo atrás de tanto aço e concreto.
Saber quando ele iria morrer poderia influenciar suas escolhas.
A rotina diária do corredor da morte era estruturada para limitar essas escolhas.
No entanto, havia algumas coisas que nenhuma prisão consegue controlar.
Espíritos foram criados para aprender, evoluir e se desenvolver através de escolhas.
É assim que é a vida, até mesmo no corredor da morte.
As escolhas estão à nossa volta.
Mesmo numa tumba de concreto de pouco menos de dois metros quadrados, onde nunca bate sol.
A evolução é possível, mesmo coberto por sessenta metros de terra e com contacto limitado com qualquer outro ser humano.
Eu tinha de ver, então descreveria a Harry o que era uma vida sem luz.
Havia muitos conceitos errados sobre o corredor, e, logo depois do primeiro encontro entre eles, David escreveu esta carta para Harry:
"Se é assustador viver aqui? Depende.
Saber que está cercado de homens muito perigosos, que matariam você por nada, não é a parte que assusta.
Primeiro, porque nós temos muito pouco contacto uns com os outros, e segundo porque só existem uns poucos deste tipo aqui.
Você ficaria chocado ao ver o quão normal a maioria desses homens é.
Se é assustador saber que eu vou morrer? Com certeza.
Ninguém quer morrer, mas, se eu estivesse vivendo em um mundo livre, eu morreria algum dia.
Todo mundo está no corredor da morte tão logo nasce.
Eu penso na sala onde a maca espera que eu me deite.
Eu sei que, quando minha vez estiver próxima, aquela sala vai ficar constantemente nos meus pensamentos.
No entanto, morrer não é a parte que me assusta.
Eu vou lhe contar qual é.
É assistir a si mesmo jogado como lixo numa cela quase do tamanho de um banheiro.
E estar trancado vinte e três horas por dia com nada para fazer e ninguém para conversar.
A parte assustadora é saber que eu nunca vou sair desta tumba de concreto.
É meu lar, onde eu como, durmo e defeco pelo que ainda resta da minha vida.
O tédio me deixa maluco.
Tem vezes que eu desejo a "estaca".
Mas a parte realmente assustadora é saber que pessoas do lado de fora acham que isto está certo.
Cara, isso é assustador.
Eu passei um dia inteiro observando a rotina angustiante que era o mundo de David.
Três da madrugada.
Café da manhã.
Luzes acesas, o dia começa.
Uma bandeja de plástico é enfiada através de uma pequena abertura na parte debaixo da porta dupla de aço.
David come do lado de sua cama, a um metro da privada.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:21 am

Cinco da manhã.
Guardas recolhem a bandeja do café da manhã e a correspondência.
David não tem ninguém para quem escrever; a única coisa que ele põe para fora da abertura da porta é um desjejum comido pela metade.
Seis da manhã.
Troca da guarda.
Este turno começa com todas as luzes acesas exigindo de cada prisioneiro seu nome e número.
Sete da manhã.
Uma hora de recreação.
O prisioneiro é levado, algemado e acorrentado, para uma outra sala de concreto sem janelas.
Esta é um pouco maior que sua cela e tem uma cesta de basquete.
Algumas vezes, existem dois ou três outros prisioneiros lá.
A menos que ele tenha um visitante, esta é a única hora do dia que o preso deixa sua cela.
Dez da manhã.
Almoço.
Onze da manhã.
A bandeja do almoço é recolhida.
Meio-dia.
Chuveiro, dia sim, dia não.
Dez minutos algemado sob o chuveiro.
Uma e meia da tarde.
Mesmos guardas, mesmo turno.
Todas as luzes são acesas novamente, nomes e números dos presos são checados.
Duas da tarde.
Mudança de turno, novos guardas, todas as luzes acesas e nomes e números checados de novo.
Quatro da tarde. Jantar.
Cinco e meia da tarde.
Bandejas do jantar são recolhidas.
Sete da noite.
Guardas fazem a ronda, desta vez com uma equipe de limpeza, varrendo e esfregando os corredores do lado de fora das celas.
Oito e meia da noite.
Distribuição de correspondência.
Nove e meia da noite.
Guardas acendem todas as luzes, checam nomes e números novamente.
Dez da noite.
Troca de turno, guardas acendem todas as luzes e acordam quem estiver dormindo para checar nomes e números de novo.
Onze e meia da noite.
Guardas fazem a ronda, de novo com faxineiros varrendo os corredores.
Meia-noite.
Os guardas, três vezes por semana, recolhem e trocam cuecas e meias.
Três da madrugada.
Um novo dia começa, outra vez.
Dia após dia, hora após hora, a monotonia torturante nunca muda.
Mesmo nos dias de execução, que têm se tornado mais frequentes, a rotina nunca varia.
Mas as escolhas disponíveis para cada um dos quatrocentos espíritos no corredor da morte estão sempre lá.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:21 am

Uma fuga da prisão

Onde é o mundo espírita?
Não é num lugar qualquer específico.
Está ao seu redor, separado apenas por vibração e frequência.
Ao seu lado, espíritos estão brincando, trocando ideias, rindo e fazendo piadas.
Nós cuidamos dos nossos negócios, sem sermos vistos por você.
Tom se ajustou numa vibração.
Felizmente, ele não voltou para seu quarto em Houston, mas se recolheu em si mesmo, encontrando uma vibração onde ele conseguia lidar com seu ser interior.
Ele queria distância dos outros espíritos, então seus pensamentos lhe deram espaço.
Ele queria estar sozinho, e seus desejos lhe deram solidão.
Na realidade, Tom não estava longe de ninguém.
Havia muito acontecendo ao seu redor, mas, separado por vibração e frequência, ele nada via.
Tom construiu esta realidade com seus pensamentos, da mesma forma que você na Terra vê o mundo através dos filtros e preconceitos de sua mente.
Ele, com seus pensamentos, construiu uma realidade onde ele estava confortável.
Na sua realidade, havia noite e havia dia.
Na sua realidade, havia tempo.
Na sua realidade, ele sentia dor, tristeza e mágoa.
Na sua realidade, ele sentia humilhação.
Na sua realidade, ele tinha um quarto, uma cadeira e uma mesa.
Nada mais e nada menos.
Eu lhe assistia a distância, tentando achar um meio de ajudá-lo.
E, enquanto o observava, eu estava surpresa com as similaridades entre Tom e David.
Os dois viviam em prisões.
David era um prisioneiro físico em uma tumba de concreto.
Tom era um prisioneiro de si mesmo.
David vivia na torturante e interminável mesmice do corredor da morte.
Tom vivia no interminável ciclo de seus pensamentos, rangendo os dentes em sua humilhação, frustração e o que mais poderia ter.
Todos nós, de certa forma, vivemos em prisões que criamos.
Como Tom, nós vemos a realidade com nossos egos, vaidades e preconceitos.
Cada um é um prisioneiro de seus medos, decepções e raiva.
Eu decidi me convidar à prisão de Tom.
Nós fizemos algum progresso, mas obviamente ainda havia muito a ser feito.
-- Oi. Esteve pensando sobre o que conversamos?
Você pode perdoar seu próprio filho?
Eu entrei sem bater.
Aprendi isso com Bob.
Estava tentando deliberadamente entrar em seus pensamentos.
Se eu pudesse fazer isso, poderia penetrar em sua realidade e quebrar o ciclo de autopiedade que Tom construiu ao seu redor.
Sem olhar directamente para mim, ele reclamou da minha falta de educação.
-- Nem bom dia, como vai?
Não tem tempo nem para a cordialidade básica desta vida, Maryanne? - perguntou, sarcástico.
Eu não estava aqui para discutir, mas era hora de colocá-lo contra a parede.
Eu ignorei seu gracejo e continuei pressionando:
-- Tem algo que eu não entendo.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:21 am

Para ir directo ao assunto, você sabe que está morto.
Você também sabe que Jessica e Elizabeth estão aqui.
Eu disse a ele que estava surpresa, para não dizer chocada, que ele não tivesse vontade de vê-las.
-- Na verdade, você as está impedindo de vir vê-lo.
Eu não entendo.
Quando minha mãe chegou, eu fui a primeira a abraçá-la e confortá-la.
Ele respirou profundamente, pôs-se de pé e olhou-me directo nos olhos.
Ele estava pronto para explodir comigo.
E era exactamente isso que eu queria.
Já estava cansada de vê-lo se arrastar em sua vala particular de autopiedade.
-- O que você pensa que eu sou?
Um robô sem emoções?
Primeiro, eu descubro que minha esposa foi estuprada e morta.
Depois, eu vejo minha filhinha ter o crânio aberto por um tiro na minha frente e a única coisa que faço é mijar nas calças.
Eu tinha esperança:
ele estava admitindo que a humilhação o estava triturando por dentro.
Do nada, ele falou sobre seu retorno ao quarto de Houston.
Era óbvio que vinha fazendo uma demorada introspecção e, apesar de irritado com minha falta de educação, ele queria conversar.
-- Eu queria achar o assassino.
Eu tinha de me resgatar.
Para ser franco, eu queria me recompor como um homem, um marido e um pai.
-- Mas o assassino não estava lá.
Ao invés disso, eu acho um amigo seu.
Ele me convence a não desperdiçar meu tempo, pois o assassino não vai chegar.
Eu ainda não sei se eu o ouvi porque ele estava certo, ou se porque, mais uma vez, eu estava com medo.
Eu decidi não o interromper.
Ele estava tirando um grande peso do peito, e eu não quis interferir.
-- Então, você me leva a um passeio mágico e misterioso.
Nós viajamos para alguma galáxia, muito, muito distante - ele parodiava ironicamente a abertura de um filme famoso.
Você me mostrou que, porque eu já fui um sacana sem sentimentos, criei um monstro que destruiu minha família.
Agora, você tem a coragem de me perguntar por que eu não quero vê-las!
Como eu poderia?
Não acha que eu não tenho saudade?
Eu estou morrendo para saber como elas estão e sinto falta de ouvir suas vozes.
-- Mas você ainda não me respondeu.
Pode você perdoar seu filho? - pressionei, não para deixá-lo fugir do assunto.
Eu não podia deixar que ele bancasse a vítima para sempre, e não era hora de sentir pena dele.
Tom olhou-me como um coelho encurralado procurando por um jeito de fugir. Ele não achou.
Esperou para ver se eu recuaria.
Eu não faria isso, e ele percebeu que eu não iria embora sem uma resposta.
-- Não pense que está acabado, Tom.
A resposta imediata, a resposta instintiva é a que vale.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:22 am

Não está maquiada pela razão, lógica, segunda análise, manipulação ou intenções.
Tom pode você perdoar seu filho? - bati na mesma tecla, novamente.
Ele respondeu imediatamente.
-- Sim, droga, eu posso.
Estou arrependido por ter sido tão ruim.
Eu não tinha a intenção de lhe causar dor.
As lágrimas corriam soltas, enquanto Tom me dava às costas e implorava que eu o deixasse sozinho.
Seus soluços ficaram mais fortes e sacudiam todo o seu ser.
Cheguei mais perto e abracei o espírito trémulo.
Suavemente, eu lhe disse que só havia mais uma coisa que ele tinha de fazer.
Ele conteve as lágrimas e choramingou:
-- O que mais você quer de mim?
-- Quero que perdoe a si mesmo - foi tudo que eu disse.

David lê a carta

Um guarda entregou a carta de Harry e selos na cela de David no dia seguinte.
O prisioneiro leu e releu cada página várias vezes porque cada sentença falava directamente com seu íntimo.
Ele agradeceu sua mãe em voz alta por ter trazido Harry Clark até ele.
David Heinz agora era um crente.
Depois da visita do dia anterior e das mensagens que Harry trouxe, ele agora prestava grande atenção a cada palavra que o médium havia escrito:
...a fé em uma vida após a morte é comum em quase todas as religiões.
Nós, espíritas, simplesmente provamos isso.
Na verdade, o que nós cremos não é muito diferente daquilo que a maioria das tão famosas religiões pregam.
Mas o espiritismo é mais que uma religião, é uma filosofia que nos ajuda a viver nossas vidas diariamente e é uma ciência que prova nossas crenças.
Nós acreditamos em Deus, mas, se você perguntasse a todos os espíritas o que eles pensam que é Deus, você receberia uma resposta diferente de cada um.
Porém em todas as respostas eles teriam uma linha em comum:
Deus é uma força sempre presente e positiva no Universo.
Não nos importa o que você chama de Deus:
Inteligência Infinita, Mãe, Pai, Deus.
Todos são o mesmo.
Assim, nós cremos em sua Infinita Inteligência e nós cremos que fomos criados à sua imagem e semelhança.
Você, eu e todos somos o Espírito.
E o Espírito é Deus.
Estudando as palavras na luz fraca de sua cela, o assassino começou a entender o que o médium queria dizer, quando ele dizia que queria ajudar David a entender as consequências de seus crimes:
Espíritas sabem que a existência e identidade de cada indivíduo continua depois da mudança chamada morte.
Nós cremos que a mais alta moral está contida na Regra de Ouro:
"Faça aos outros, o que faria para você".
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 09, 2016 11:22 am

Nós cremos que nós fazemos nossa felicidade, ou infelicidade, quando obedecemos ou desobedecemos a essa simples regra.
Além disso, David, não pense que você está pagando integralmente pelos seus actos.
Seu confinamento em uma cela esperando morrer é apenas uma prestação.
Você está provando da justiça terrestre, mas, David, há consequências cósmicas e espirituais que você vai ter de enfrentar.
Nós chamamos isso de carma.
Eu tenho certeza de que você já ouviu esta palavra antes, mas ela é tão mal compreendida que quero que você esqueça tudo que ouviu sobre ela.
David riu.
Sempre lhe diziam, quando algo de ruim acontecia, que aquilo era carma ruim.
Ele sempre associou o carma com sorte, sina ou destino.
O que Harry dizia era completamente diferente:
Imagine um professor chamado Carma.
Esse professor lhe dá lições de acordo com o seu comportamento.
"Hum", Carma poderia pensar, "David tem mostrado completo despreparo para matemática.
Vou lhe dar mais lições de casa de matemática.
David não entende história.
Mais páginas e datas para decorar."
Este professor chamado Carma é diferente de outros professores:
ele não vai passar você de ano até que esteja pronto.
O professor Carma não se importa com nada, a não ser se você aprendeu o que devia aprender.
Só então ele deixará que você se forme, nem um segundo antes.
David estava particularmente intrigado quando Harry disse que aquele professor não era vingativo ou rancoroso.
O professor Carma é neutro e sem paixão.
Ele age e reage conforme suas acções.
Mas esse professor também é sensitivo, porque ele reage de acordo com suas intenções, que muitas vezes são diferentes das que nós pensamos ser.
O prisioneiro à espera da morte reflectiu sobre aquela carta durante muitas horas em sua cela de concreto.
Sem saber o que estava fazendo, David meditou em algumas passagens, instintivamente.
Sentado no chão de sua cela, David pensava nas palavras que Harry escreveu:
Tudo ao seu redor é o carma:
sua cela, os guardas e a mesmice de seus dias, que passam agonizantemente lentos.
Aprenda com isso, este é um estágio de sua vida interminável.
Aprenda com sua solidão.
Aprenda com a crueldade.
Analise a rudeza dos guardas, a prisão.
Aceite a responsabilidade por suas acções e intenções.
Procure dentro de você e encontrará a resposta.
Nós, espíritas, sabemos que não há danação ou castigo eterno, apenas evolução.
Harry lembrou a David que ele era um privilegiado por ter a prova da vida após a morte.
O médium disse ao preso que havia forças no Universo olhando por ele.
Esta prova foi-lhe dada não como conforto, diversão ou ameaça.
Você agora sabe que, se sua mãe e tia vivem, assim será com você.
Também quero que saiba que você e todo o resto do mundo viveram na Terra antes, e vai viver novamente.
Não estou dizendo isso para que tenha menos medo do dia em que vai para a câmara.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:55 am

Eu estou dizendo isso porque eu quero que pense.
Eu provei que sua mãe e tia estão vivas.
E sobre Tom Philips?
Ele está vivo! Certamente que sim.
O homem que você assassinou é também um espírito e continua vivendo.
Assim como Elizabeth, a mulher que você estuprou, e Jessica, a menininha em quem atirou na cabeça.
A família está viva porque eu os vi, da mesma forma que vi e falei com sua mãe e tia.
Eu falei com Tom. Ele está vivo.
Não estou dizendo isso para assustar você.
Acho que você já está com medo o suficiente.
Estou contando a você para que, a partir deste momento, você viva cada dia sabendo que você e todos à sua volta continuam vivendo.
Viva sabendo que tudo que nós fazemos, dizemos e sentimos nos segue até a próxima vida.
Aprenda que você pode deixar muita coisa para trás.
Deixe seu ego, arrogância e raiva para trás.
Na noite em que o carcereiro vier e disser "Chegou a hora", deixe-os na cela e leve com você a certeza da vida.
David estava assustado com aquelas palavras, porque ele sabia que elas eram verdadeiras.
Harry provou toda e cada uma delas.
No entanto, ele estava também perturbado com uma outra coisa.
Até aquele dia, quase um ano depois dos assassinatos, ele ainda não sabia por que tinha matado aquelas pessoas.
Ele procurava por um motivo durante as frias e silenciosas noites em sua tumba de concreto, mas o motivo lhe escapava.
Havia um outro pedaço de papel em sua cela, além da carta de Harry.
Ele leu aquele papel apenas uma vez.
Sua primeira apelação, que era automática pela lei do Texas, tinha sido rejeitada.
A carta, escrita por um advogado designado a ele pelos tribunais do Texas, deixava claro que aquilo era rotineiro.
O advogado garantia que iria perseguir agressivamente todas as opções legais que ainda tinham.
-- Nós podemos levar isso adiante por no mínimo três ou quatro anos em apelações - escreveu o advogado.
"Apelar para quê?", pensou o prisioneiro.
"Eu sei que sou mais do que culpado."
David, com isso em mente, escreveu uma carta para Harry.
Naquele momento, ele estava apenas interessado em um apelo.
Ele fez a Harry uma simples pergunta: Por quê?
E naquela noite ele perguntou a si mesmo, como ele havia feito desde que tinha chegado ao corredor da morte, por quê.

Os ecos do porquê

Os agonizantes "por quês" da lamentação de David ecoaram além das grossas paredes de concreto de sua cela e flutuaram através dos sessenta metros de terra texana que soterravam o corredor da morte de Terrell.
Seus pensamentos vibraram no tempo e espaço do Universo e foram sentidos e ouvidos pelo Criador.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:55 am

A força que é Ele regista todas as nossas preces, esperanças e medos.
Aquela força encaminhou as vibrações de David de volta para aqueles que faziam o trabalho da Criação e que estavam prontos para ouvir o choro agonizante de um assassino.
Eu senti o eco.
Assim como Harry.
E assim como Tom. Estes espíritos, Tom e David, estavam afinados um com o outro.
Eles tinham entrelaçado tanto seus destinos e vidas que Tom, deste lado da vida, sentiu a vibração de David.
Como ele reagiria a essas vibrações seria uma escolha dele, eu não podia interferir.
Nós dois chegamos ao apartamento de Harry, onde o médium tirava uma soneca.
Devo admitir: o apartamento melhorou consideravelmente desde minha última visita.
Apesar de a decoração ao estilo Exército da Salvação ainda ser uma regra, ele estava, ao menos, dormindo em lençóis limpos.
A poltrona torta sumiu e a cozinha agora estava própria para se comer lá dentro.
Harry estava mudando de acordo com esta missão, gradualmente desmanchando o casulo que teceu ao seu redor.
Seu mundo estava agora mais amplo do que seu bar decadente e seu apartamento surrado.
Lentamente, Harry Clark estava se encontrando, porque, pela primeira vez em muitos anos, ele estava indo além de si mesmo.
Tom, ao meu lado, também estava começando a se aventurar fora da realidade protectora que havia criado para si mesmo.
Os ecos que se originaram há um mês da cela subterrânea em Terrell nos trouxeram aqui neste quarto num apartamento a apenas cinco quarteirões da prisão.
Harry agitou-se.
Ele já havia sentido nossa presença.
Ele rolou sobre sua cama e deu uma olhada no relógio sobre o criado-mudo.
Eram quatro e meia da madrugada e lá fora estava escuro.
Porém não era necessário acender as luzes do quarto, porque Harry podia nos ver parados ao pé de sua cama.
-- Vocês nunca dormem? - reclamou enquanto se sentava na cama.
Tom respondeu dizendo que passou ali para um sanduíche de salame.
Harry riu sem vontade e perguntou o que nos levava ao seu quarto naquela maldita hora.
-- Se são apenas vocês dois, não é o suficiente para um jogo de póquer - acrescentou, sarcasticamente.
-- Tom queria falar com você - respondi, passando a bola para Tom.
-- Primeiro - começou o espírito, timidamente - eu queria agradecer pelo que fez por mim em Houston.
Tom não estava acostumado a falar com pensamentos e estava tendo algumas dificuldades na comunicação com o médium.
Harry lhe deu um aceno encorajador, e Tom continuou, aos tropeços.
-- Eu sei do que você me salvou - começou ele, mas Harry o interrompeu, dizendo que tudo que fez foi ajudar Tom salvar a
si mesmo.
Tom deu de ombros e disse que Harry fez todo o trabalho, principalmente com os vultos.
-- Você deixou claro para mim sobre o que eles eram.
Eu só queria dizer obrigado.
O médium brincou, falando com voz de sono que Tom não precisava tê-lo acordado só para agradecer.
-- Deve ter mais alguma coisa em mente - atalhou Harry.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:56 am

O espírito despejou:
-- Maryanne disse que você visitou o assassino na prisão.
Harry lançou-me um olhar preocupado, mas eu o tranquilizei:
- Ele está pronto.
Harry fez um sinal para que Tom continuasse.
-- Quero ir com você na próxima vez.
Quero falar com ele através de você.
-- Sobre o quê? - sondou Harry.
-- Sobre o porquê.
Eu quero explicar a ele sobre o porquê - respondeu Tom.
Harry olhou para o relógio.
Eram cinco da manhã.
Pousada perto do relógio, no criado-mudo, havia uma carta de três páginas.
-- É sobre isto? - perguntou, sacudindo os papéis com a mão.
É uma carta de David.
Eu a recebi semana passada.
Estava imaginando como ia respondê-la.
Acenei com a cabeça e, poucos momentos depois, Tom calmamente pediu:
-- Eu gostaria de ser quem vai responder a ele.
Harry encarou-me, com um olhar de "o que vamos fazer agora?" em seu rosto.
Tudo que pude fazer foi repetir o que eu já tinha dito:
-- Ele está pronto.
-- Bom, eu não sei quanto a vocês dois - Harry deu de ombros -, mas, já que estou acordado, acho que vou fazer um pouco de café.
Parece que este vai ser um longo dia.
Nós - e seu olhar incluía a mim e Tom - temos um longo dia pela frente.
Temos de estar na prisão às onze.
Acho que vou levar um novo visitante comigo hoje.

O porquê

Nós três nos dirigimos à prisão; Harry a pé, Tom e eu pairando ao lado dele.
Era uma caminhada de apenas dez minutos, mas um Harry agitado deixou seu apartamento às dez e meia explicando que queria andar um pouco "para se preparar" para o que ele pensava que seria um "dia interessante".
Ele ficou mais apreensivo quando confessei que não tinha a menor ideia do que Tom iria dizer.
-- Você disse que ele estava pronto, Maryanne! ­ reclamou Harry.
Eu estou entrando em uma prisão de segurança máxima, me colocando entre um assassino e sua vítima, e você não tem uma pista sequer sobre o que a vítima vai dizer.
O que está acontecendo aqui?
Andando pela larga avenida que levava à prisão, tentei acalmá-lo e destaquei como nós não poderíamos nos meter no que estava para acontecer:
-- Eu não posso interferir.
Tom está aqui por opção, e o que ele disser é lá com ele.
Lembrei a Harry sobre o livre-arbítrio e como era uma das partes do meu trabalho não ficar no caminho.
-- Nem você - afirmei energicamente.
Você precisa repetir palavra por palavra o que Tom disser.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:56 am

Tom, ao meu lado, ouviu nossa discussão, mas permaneceu em silêncio.
Harry olhou para ele e cutucou:
-- Então, amigão, o que você tem a dizer?
Em alguns minutos você vai estar no palco central.
O espírito sorriu e simplesmente disse:
-- Como Maryanne falou, eu estou pronto.
-- Bom, isso é óptimo!
Todos estão prontos, excepto eu! - espumou o médium.
Como eu disse, parece que este vai ser um dia para lá de interessante!
Não pude deixar de pensar em como Harry estava certo.
Nós três chegamos ao portão principal.
Fomos recebidos pelos rolos de arame farpado brilhante que rodeavam a prisão.
O túnel para o corredor da morte estava bem à nossa frente.
-- É como olhar dentro de um abismo - comentou Harry.
Eu me lembrei de responder:
-- E o abismo está olhando de volta.
Na primeira checagem, o guarda que fazia a revista perguntou ao médium se ele estaria em seu bar na noite seguinte.
Harry não pensou duas vezes na pergunta; o guarda era um freguês habitual.
No entanto, quando Harry fez que sim com a cabeça, o guarda disse que ele ia passar por lá por volta das onze da noite e sussurrou:
-- Vou estar com alguns amigos.
Harry não sabia como encarar aquilo:
era uma ameaça ou um simples bate-papo?
Aquele era o mesmo guarda que, meses antes, quando Harry fez sua primeira visita, disse que, se dependesse dele, ele ignoraria todas as apelações e executaria os assassinos condenados imediatamente.
Harry agradeceu ao guarda com um "Vejo você amanhã, Bill".
Mas eu vi uma nuvem de preocupação se formar em seu rosto.
Aconselhei Harry a manter sua mente no trabalho que tinha pela frente.
Nós estávamos agora na segunda checagem, quase quinze metros sob o solo.
O ar parado me lembrou a câmara da morte que visitei um ano antes.
Outra vez, Harry foi revistado e ordenado para que tirasse tudo de valor e objectos de metal de seus bolsos.
-- Você já conhece a rotina, Harry - brincou o guarda; aquela era a décima visita de Harry.
Finalmente, depois de passar pelo detector de metais, fomos conduzidos à sala de visitas.
Harry tomou seu lugar no banco de madeira e esperou David aparecer no outro lado do vidro a prova de balas.
Do lado de lá da protecção de vidro, a porta finalmente se abriu e David entrou.
Ele estava no corredor da morte havia quase um ano, mas ironicamente eu nunca o vi com melhor aparência.
Ele não era o matador cruel, provocante, arrogante de olhar selvagem que eu encontrei no quarto de Tom.
Sumiu o pedantismo, o sorriso sacana do réu sem arrependimentos do tribunal de Houston.
Este era um David diferente sentado atrás do vidro:
mais magro e pálido, mas uma pessoa em paz consigo mesma.
Harry e David se cumprimentaram pelo fone e iniciaram a hora da visita.
O médium puxou a carta dobrada do bolso de sua camisa.
David assentiu e disse que estava feliz por Harry tê-la trazido.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:56 am

Havia muitas questões para as quais precisava de respostas.
Harry levantou uma sobrancelha e garantiu que eles teriam todas elas.
-- Mas eu também tenho algumas perguntas - declarou Harry.
David acenou e disse a Harry para continuar:
-- Eu não tenho nenhum outro compromisso pendente para agora - disse sorrindo.
Harry limpou a garganta e começou a ler as páginas à sua frente.
Quero tirar isso da garganta.
Eu nunca neguei ter matado aquelas três pessoas, e, apesar do que meu advogado me mandou dizer, eu sabia exactamente o que estava fazendo.
Eu não estava sob o efeito de drogas, eu estava de ressaca depois da tarde toda numa bebedeira.
Eu estuprei a mulher depois a estrangulei.
Peguei o endereço na sua carteira de motorista, dirigi até sua casa e atirei numa menina de três anos de idade.
Que tipo de pessoa eu sou?
Eu não sei.
Eu preciso de uma resposta.
David ouviu sem demonstrar qualquer emoção enquanto Harry lia suas próprias palavras para ele.
A esquerda de Harry, Tom ouvia em silêncio.
Eu odiei o cara imediatamente, o marido. Tom Philips.
Eu não sei por quê, mas, assim que arrebentei aquela porta, eu pensei comigo:
"Eu vou me divertir um pouco com esse cara".
Eu o provoquei, humilhei e depois o matei.
Porquê? Eu fico me perguntando: porquê?
David se ajeitou nervosamente na cadeira e Tom encarou indiferentemente o homem atrás da protecção de vidro.
Até aquele momento eu estava intrigada, mas finalmente percebi o que Harry estava para fazer.
Ele não estava lendo para agradar David.
O médium estava lendo para Tom, que não tirou seus olhos de David desde que o prisioneiro passou pela porta.
Tom prestou muita atenção em toda e cada palavra que Harry leu.
O médium continuou:
Eu tenho muito tempo para pensar sobre mim e sobre minha vida aqui.
Isso é um tipo de vantagem na desgraça.
Eu sei o que eu fiz e nunca imaginei que eu fosse capaz de praticar actos tão monstruosos.
Entre as checagens de nome e número, trocas da guarda, e qualquer bobagem que esses caras inventam, eu penso sobre aquela noite.
Deus, se eu pudesse voltar atrás!
A carta continuava.
Procurei por alguma reacção em Tom. Não havia nenhuma.
Harry, você uma vez me disse que eu deveria aceitar a responsabilidade por meus actos.
Eu aceito. Eu aceito. Eu aceito.
Do fundo da minha alma, eu aceito.
Foi por isso que cheguei a esta decisão:
disse ao meu advogado para cancelar todas as apelações.
Eu não o quero imaginando modos de postergar o inevitável.
Ele não deveria se preocupar.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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