Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:56 am

É muito mal pago pelo Estado.
O médium olhou para David aguçadamente, tentando descobrir o que ia pela mente do prisioneiro.
-- Você contou ao advogado sobre isso? - questionou Harry.
-- Por carta - foi a resposta curta de David.
Harry suspirou e colocou a carta de lado.
-- Eu tenho uma pergunta - disse calmamente.
Porque está desistindo de suas apelações?
Você está tão desesperado, solitário e aterrorizado que prefere a morte a outros cinco ou seis anos dentro daquele cubo de concreto?
Harry informou que tinha ouvido histórias sobre prisioneiros, na beira do desespero e loucura, que desistiam de suas apelações, escolhendo a morte ao invés de sequer um dia a mais nas entranhas de Terrell.
Isso era verdade.
Nos últimos cinco anos, quinze condenados abandonaram seus direitos legais e se apresentaram como voluntários para execução, para não viver mais um ano naquele cotidiano escuro, sem sol e sombrio no corredor da morte do Texas.
O médium, afagando seu queixo e concentrado em David, disse em voz baixa:
-- Se este for o caso, é suicídio.
Você estaria terminando voluntariamente sua vida e, meu amigo, se você acha que tem um carma agora, você não tem ideia do que um suicídio traz!
Tom prestou muita atenção à resposta de David.
Assim como eu.
E David, sem tirar seus olhos de Harry, calmamente falou sua resposta no fone:
-- Harry, eu não quero morrer e tenho medo de viver outros cinco ou dez anos no corredor enquanto alguns advogados levam o meu caso de tribunal em tribunal.
Eu devo admitir: isto não é vida.
Isto não é nem mesmo uma existência.
O estado do Texas está me deixando em um armazém subterrâneo até que seja a hora de injectar um coquetel de veneno nas minhas veias.
David fez uma pausa e olhou em volta no seu estreito cubículo.
Seus dedos tremeram levemente enquanto ele procurava por suas palavras.
-- Você não tem ideia de como isso é:
sem sol, sem ar fresco, eu não vejo a cor do céu há um ano.
Mas, Harry, você disse uma coisa que fica se repetindo o tempo todo na minha cabeça.
Você disse:
"Se sua mãe e sua tia vivem, então é assim com todos nós.
É assim com Tom Philips, sua esposa e filha".
Harry, eu quero assumir a responsabilidade pelo que fiz.
David puxou o fone mais perto de sua boca e sussurrou suas próximas frases:
-- Eu não estou me enganando ao acreditar que vou para um lugar melhor.
Eu sei que a morte não é uma fuga.
Então a resposta para sua pergunta é não.
Minhas intenções não são de fugir do inferno em que vivo.
Eu quero enfrentar a mim mesmo.
Harry olhou para sua esquerda, onde estava Tom.
Nem Harry nem eu podíamos adivinhar o que ele iria dizer.
Sua aura não mudou desde que chegamos.
Ele estava calmo, controlado e sem expressão.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:57 am

Acho que de certa forma ele era como David:
esse espírito já tinha decidido o que ia dizer e ninguém iria convencê-lo a mudar de ideia.
David esperou que Harry dissesse alguma coisa.
Ele viu Harry olhar para sua esquerda, depois para sua direita, onde eu estava.
Claro, David não viu o que Harry viu, mas David estava acostumado com Harry e sabia que alguma coisa estava por vir.
O médium estudou o rosto de David demoradamente.
Ele, como eu, viu as mudanças naquele homem.
Mais uma vez, ele se voltou para Tom e de novo para David.
O médium olhou para o fone em sua mão e sacudiu a cabeça.
Por um segundo, eu achei que Harry iria pôr o fone no gancho e ir embora.
Ao invés disso, ele levantou seus olhos para David e disse suavemente:
-- Eu tenho aqui alguém que quer falar com você.
Ele me acordou às quatro e meia desta manhã dizendo que queria responder as suas perguntas.
Eu sei quem ele é, David.
O médium fez uma pausa e respirou profundamente.
-- Seu nome é Tom Philips.
Eu vi os pêlos negros nos braços pálidos de David se arrepiarem.
Agora foi a vez dele de tomar fôlego.
Seu queixo caiu e seus olhos se agitaram.
Ele sussurrou roucamente no bocal:
-- Eu não sei o que dizer.
Tom falou enfaticamente no ouvido de Harry.
Ele falava tão depressa que Harry fez um gesto, sinalizando para que fosse mais devagar.
-- Ele disse que você pode começar dizendo que está arrependido.
Ele sabe o que você escreveu naquela carta, mas a carta era para mim.
Ele quer que você diga aquilo para ele - Harry repetia energicamente o que Tom ordenava.
David suspirou.
Era um suspiro carregado com o peso que ele sentia em seu espírito.
-- Claro que eu me arrependo.
Eu não sei o que dizer, eu não sei por que fiz aquilo.
Agora era a vez de David de vomitar palavras sem parar.
- Eu penso nisso todos os dias e todas as noites.
Não consigo tirar você, sua mulher e sua filhinha da minha cabeça.
Eu me arrependo de tudo.
Lágrimas rolaram pelas bochechas de David, mas Tom olhava tão impassível e sem emoção quanto quando ele chegou.
Harry lançou um olhar para mim quando passou as próximas palavras de Tom.
-- É um pouco diferente agora, sem uma arma na sua mão.
O que aconteceu com toda a sua coragem?
Mas você não tem de ter medo, eu não posso fazer nada contra você... ainda.
Ainda com pressa de vir para o meu lado?
Harry estava preocupado.
Assim como eu. Aquilo não estava indo bem.
Mas, curiosamente, não havia revolta, ódio ou vingança na aura de Tom.
Eu fiquei imaginando o que podia estar acontecendo.
David poderia encerrar a visita no momento em que quisesse.
Tudo que ele tinha a fazer era apertar um botão e dois guardas abririam a porta de trás do cubículo.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:57 am

Em uma questão de minutos, ele estaria de volta à sua cela.
E, apesar de estar à beira do pânico, David não apertou nenhum botão.
Ele não procurou o refúgio de sua cela de concreto.
Ele queria ficar e ouvir tudo que Tom tinha para dizer.
Atrás de David, eu vi Dorothy.
Ela levou um dedo aos lábios, sinalizando para Harry que não queria que seu filho soubesse que estava presente.
-- Ele terá de fazer isso sozinho - declarou ela.
Protegido atrás do vidro, David estava perdido.
Várias vezes ele começou a falar, mas não conseguia encontrar as palavras.
Tom, por outro lado, tinha o bastante para dizer.
-- Você sabe o que fez? - repetia Harry.
Você exterminou uma família feliz e amorosa em uma questão de horas.
Quando você diz que quer assumir a responsabilidade por seus actos, pense no que eu vou lhe dizer agora.
O prisioneiro estava suando.
Harry e eu podíamos ver sua transpiração brotando no macacão branco do corredor da morte.
Ele envolvia todo o fone com sua mão direita, com medo de ouvir e com medo de deixá-lo cair.
-- Não tenha medo de mostrar que você tem medo.
Enquanto falava, um sorriso de cumplicidade passou pelos lábios de Harry.
-- Não tenha medo de sentir medo.
E não tenha vergonha de admitir que você é fraco, solitário e assustado.
Se você fizer isso, não vai se sentir impotente outra vez.
Harry me olhou e acenou com a cabeça.
Assim como Dorothy. David, ainda segurando o fone, enxugou as lágrimas de seus olhos.
Tom ainda não havia acabado.
Harry fechou os olhos e, numa enxurrada de palavras, passou adiante tudo que Tom queria dizer.
-- Harry falou a você sobre este lado, mas há muito mais para saber.
Claro, eu estou com raiva, mas estou aprendendo como ter raiva.
Se você quiser, nós podemos usar nossa raiva para aprendermos um com o outro.
Eu sei que você está arrependido.
Não posso esquecer o que aconteceu, mas eu posso perdoar você.
Nós dois nunca vamos esquecer aquela noite, e essa lembrança será parte de nós para sempre.
Quando você chegar aqui, vai entender que nós dois compartilhamos memórias de outras noites e dias também.
David pediu a Harry se ele podia perguntar como Elizabeth e Jessica estavam.
Tom ouviu a pergunta e respondeu.
-- Eu soube que elas estão bem.
Não tive coragem de vê-las.
Estou muito envergonhado.
Harry passou adiante.
David, não se incomodando mais em falar através de Harry, ficou chocado.
-- Do que você está envergonhado?
Você não fez nada errado, por Cristo.
-- Eu mijei nas minhas calças, lembra?
Eu deveria ter tentado reagir, mas eu estava muito assustado.
Eu não tive coragem para ao menos tentar defender minha garotinha.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:57 am

David, entre lágrimas, disse suavemente:
-- Não tenha vergonha de sentir medo.
Não tenha medo de se sentir aterrorizado.
Nós todos estamos.
Eu vivo todos os dias em um pânico desesperado pelo que resta da minha vida.
Não tenha medo de admitir que você é fraco.
Foi preciso muita coragem para você vir até aqui, cara - finalizou ele, emocionado.
Harry estava maravilhado com a conversa.
Assim como eu.
E nós ficaríamos mais maravilhados ainda com o que aconteceria a seguir.
Tom chamou a atenção de Harry, e Harry transmitiu uma simples mensagem em resposta para David:
-- Tom diz obrigado, e aqui está a resposta para o "porquê".
Você se sentiu impotente, então você tomou.
Você pensava que o poder vinha de fora.
Aprenda que o poder vem de dentro.
David fechou os olhos, e o suspiro que ele deu agora era leve e solto.
-- Diga a ele que eu agradeço, também.
Nosso tempo estava quase acabando.
A voz metálica anunciou que tínhamos apenas três minutos.
David perguntou a Tom se ele iria voltar.
O espírito disse não, mas acrescentou:
-- Nós nos encontraremos mais tarde para uma conversa frente a frente.
Os guardas abriram a porta atrás de David e o levaram para fora da cabine.
Dorothy, como sempre, foi com ele.
Harry começou a se levantar do banco onde esteve sentado pela última hora, quando ele, Tom e eu notamos duas luzes brilhantes se aproximando.
Houve uma súbita mudança na aura de Tom e Harry.
O cínico agora tinha lágrimas nos olhos. Assim como eu.
Eram Elizabeth e Jessica.
Tom tinha se livrado de sua humilhação e agora estava pronto para o amor, bondade e compreensão que teria delas.
Ele foi na direcção delas e juntos deixaram a escuridão da prisão e entraram na luz.
Harry não disse uma palavra enquanto saíamos de Terrell.
Mas, assim que estávamos do lado de fora, ele se virou e disse:
-- Eu estava certo, não estava?
Respondi dizendo que não tinha a menor ideia do que ele estava falando.
-- Eu disse que este seria um dia para lá de interessante, não disse?

A visita

Quinta-feira era a noite mais devagar da semana no bar, porque o fim de semana ainda não havia começado, os pagamentos eram nas sextas e os fregueses de Harry eram de uma classe operária que já estava sem dinheiro quando quinta se aproximava.
Era por isso que Harry tocava o bar sozinho nesse dia, usando a queda de movimento para dar a noite de folga aos seus funcionários.
Harry olhou pelo salão.
Ele não o mudou muito desde que o comprou três anos atrás.
Ele inspeccionou o surrado bar, onde incontáveis gerações de manchas de cervejas e queimaduras de cigarro estavam encravadas na madeira escura.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:57 am

Olhou para os frágeis bancos do bar alinhados ao acaso ao longo do balcão e notou seus assentos de plástico vermelhos descascados.
Pendurada nas paredes que precisavam de pintura estava uma variada colecção de relógios, cada um presenteado por uma diferente marca de cerveja.
E o que seria de um bar no Texas sem as cabeças de veado empalhadas e calendários de mulher pelada?
Aquele bar tinha duas cabeças de veado e vários calendários fora de época.
Harry sorriu e lembrou-se porque eu não escolhi aquele local para nosso primeiro encontro.
-- Você estava certa, Maryanne, isto é um depósito de lixo -- disse ele em voz alta.
Harry virou-se e, vendo seu reflexo na parede espelhada atrás do bar, mostrou a língua para si mesmo.
-- Maryanne, temos de fazer alguma coisa.
Este lugar está me deprimindo - brincou.
O médium tinha me pedido para passar pelo bar naquela noite.
Ele queria que eu estivesse ali quando Bill, o guarda de Terrell, e seus "amigos" chegassem.
-- Para quê? - ironizei.
Se eles aparecerem com capuzes brancos, não vai haver muito que eu possa fazer.
Harry disse que não estava esperando nenhum membro da Ku Klux Klan, mas ele tinha a sensação de que alguma coisa iria acontecer.
O relógio em néon da cerveja Miller marcava onze da noite, e, bem na hora, Bill e seus dois amigos entraram pela porta da frente.
Um era um homem alto, magro, de seus quase cinquenta anos.
Ele usava um casaco marrom escuro e andava com ar de autoridade.
O outro era mais jovem e mais baixo.
Acho que tinha mais ou menos a mesma idade de Harry.
Este estava vestido casualmente, com calça bege, camisa esporte azul e um boné do time de beisebol Texas Rangers.
Não pude deixar de notar um pequeno crucifixo de ouro espetado no boné.
Bill, o guarda que conhecia Harry, cordialmente foi até o canto do bar onde Harry estava.
-- Eu lhe disse que iria passar por aqui com alguns amigos.
Aqui estão eles.
Harry assentiu e fez sinal para que eles se sentassem em qualquer lugar da casa.
-- Normalmente eu já teria fechado, mas Bill disse que viria com amigos.
Os dois "amigos" deram a Harry um rápido aceno, e Bill partiu para as apresentações.
-- Este aqui é o reverendo Parrone.
Ele é o capelão da prisão.
O homem mais jovem estendeu sua mão e Harry apertou-a.
-- Uma alma perturbada - anotou Harry mentalmente.
-- E este - Bill pontuava suas palavras dramaticamente, como se estivesse apresentando uma celebridade de Hollywood - é o director Phillip Riggs.
Director, este é Harry Clark.
Era óbvio que Bill estava feliz de estar na companhia do director.
Em uma cidade como Livingston, onde mais da metade da população estava directa ou indirectamente empregada pelo sistema prisional, um director é tratado com respeito e deferência.
Com as apresentações feitas, Bill pediu desculpas, dizendo que tinha de ir para casa e para sua esposa.
Obviamente, sua saída tinha sido planeada anteriormente.
Harry pôs uma garrafa de cerveja na frente de cada homem.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:57 am

-- É por conta da casa - ofereceu, e abruptamente perguntou o que eles queriam.
Meu amigo Harry tinha o mesmo trato social de Átila, o Huno.
O capelão e o director olharam um para o outro.
Enquanto os dois estavam decidindo quem iria responder, eu e Harry notamos os espíritos que acompanhavam a dupla.
Harry, olhando sobre os ombros deles para mim, ergueu uma sobrancelha.
Harry notou uma valise, que o director abria sobre o balcão.
Quando o director falou, ele pediu a Harry que o que quer que fosse discutido naquela sala permanecesse ali.
Harry respondeu que não via problema nisso.
O director então foi directo ao ponto:
-- Qual a sua relação com David Heinz?
Harry explicou que não havia parentesco.
-- É apenas um amigo.
O director replicou, lembrando Harry que em sua primeira visita ele disse ao guarda que um parente pediu a ele que procurasse David.
-- Até onde nós sabemos, Heinz não tem parentes vivos - reportou Riggs.
-- Eu sei disso - respondeu Harry cuidadosamente.
O director Riggs puxou algumas pastas da valise e disse:
- Então você mentiu.
Aquilo foi uma afirmação e não uma pergunta.
Harry se apoiou no balcão e imediatamente exigiu saber o que estava se passando.
-- Isso é algum tipo de interrogatório?
Se é, quero saber o porquê.
Riggs ergueu as palmas das mãos e pediu desculpas.
Ele jurou que não estava ali para um inquérito.
-- Desculpe o mau jeito.
Acho que é hábito profissional - disse rindo o director.
A propósito, pode me chamar de Phil.
O director olhou para Harry e puxou três pastas de sua valise.
-- Harry, daqui a um ano e meio eu devo me aposentar.
Minha ficha de trinta anos está limpa e quero mantê-la assim.
É por isso que tenho meus olhos e ouvidos por toda a prisão.
E esses olhos e ouvidos me dizem que algo estranho está acontecendo.
Veja você:
eu não disse errado, eu disse estranho.
Você não trabalha em um sistema prisional por mais de vinte e cinco anos sem desenvolver um sexto sentido.
Harry mal conteve o sorriso que tentou se abrir em seu rosto.
-- Sim, eu sei o que quer dizer - respondeu o médium.
-- Então, quando um cara surge do nada e quer visitar alguém como David Heinz, eu quero saber porquê.
Especialmente quando eu descubro - disse Riggs, batendo com o dedo no meio da pasta à sua frente - que esse cara se mudou para cá vindo de Houston três anos atrás.
O director acrescentou que os prisioneiros podiam escrever e ter visitas de quem eles bem quisessem.
-- Alguns deles até se casam no corredor da morte, com uma mulher que esteja lá longe, como na Europa.
O capelão Parrone falou pela primeira vez.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:58 am

-- De certa forma, Harry, legalmente nós nem deveríamos estar aqui falando com você esta noite.
Muitos podem dizer que o director estaria interferindo nos direitos de um prisioneiro.
E acrescentou ironicamente:
- E eles têm tão poucos direitos...
O director abriu a primeira pasta à sua frente.
-- Eu não deveria estar fazendo isto também - confessou enquanto dava os papéis para Harry.
Este é o arquivo do prisioneiro Heinz. É confidencial.
O capelão chamou a atenção para uma carta que David tinha escrito para seu advogado, que foi encaminhada para a prisão pelo escritório geral da promotoria.
-- Ele está dizendo ao seu advogado para não entrar com mais nenhuma apelação.
A data de sua execução pode ser marcada dentro dos próximos seis meses - alertou o capelão.
Harry recordou que David o tinha informado sobre isso durante sua visita do dia anterior.
-- Agora, olhe para isto - disse o capelão passando-lhe uma outra carta.
Esta era endereçada ao próprio reverendo.
Harry pegou o pedaço de papel, leu silenciosamente e sorriu.
-- Então ele quer que eu seja seu conselheiro espiritual.
O que é isso? - perguntou ele sem tirar seus olhos da carta.
O director Riggs olhou para o reverendo e pediu permissão para explicar.
-- Vinte e quatro horas antes do procedimento, o preso é levado para Huntsville, a doze quilómetros ao sul, onde as execuções acontecem na unidade Walls.
Lá, ele é colocado numa cela especial.
Ela é um pouco maior do que a em que ele está agora.
É uma cela normal, fechada por barras de aço e não por concreto.
Nós a chamamos de cela da vigia, porque o prisioneiro é constantemente monitorado.
Ele pode escolher um conselheiro espiritual para estar com ele.
Ele quer você. Mas aí temos um problema.
Nosso regulamento diz que o conselheiro espiritual deve ser um padre ordenado, pastor ou pregador de uma religião ou fé reconhecida.
Ele pode ter qualquer um que quiser.
Ele pode mandar trazer um curandeiro do Haiti, se ele for um representante diplomado da tal religião.
O capelão perguntou a Harry se ele era qualificado.
O médium pediu licença.
-- Tenho de ver se posso achar uma coisa lá atrás - foi tudo que ele disse.
O director e o reverendo esperaram com suas cervejas enquanto Harry desapareceu atrás da cortina que separava o bar de uma sala de depósito.
Eles ouviram os sons abafados de caixas sendo removidas, Harry praguejando e mais caixas arrastadas pelo chão na sala de trás.
Depois de uns dez minutos, um Harry um tanto desarrumado apareceu.
Ele olhava aliviado enquanto trazia uma caixa de papelão cheia de papéis amarelados em sua mão.
-- Achei o que estava procurando - declarou o médium.
Ele empurrou a caixa sobre o balcão para Riggs, mas pediu ao capelão:
-- Dê uma olhada e me diga o que você acha.
O jovem capelão espiou sobre o ombro do director.
Em voz baixa, eles conferiram e Harry, fingindo desinteresse, ouviu cada palavra.
Até ouviu quando o director perguntou ao capelão:
-- O que raios é a Associação Nacional de Igrejas Espíritas?
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:58 am

O capelão disse que ouviu falar sobre isso, até conhecia um de seus pastores em Oklahoma.
-- É legítimo - anunciou o capelão. - E eu vou avalizar.
E - acrescentou com um sorriso - estes papéis explicam muita coisa.
Harry mostrou a eles seus papéis de ordenação como pastor e certificado como médium da igreja da Associação, em Houston.
Ele tinha obtido aqueles papéis quando tinha dezanove anos.
O director inquiriu o capelão:
-- O que quer dizer quando diz que estes papéis explicam muita coisa?
O reverendo Parrone ignorou a pergunta e, sem tirar seus olhos de Harry, informou que havia conversado bastante com David recentemente.
-- Ele é certamente um homem mudado.
Tentei convencê-lo a não cancelar suas apelações.
Sempre há esperança, eu lhe disse.
Ele não ouviu, mas me deu uma aula de responsabilidade pessoal que faria qualquer teólogo corar de vergonha.
"Reverendo", ele disse, "eu sou culpado.
Eu tenho de encarar isso e assumir a responsabilidade sobre meus actos.
A morte é apenas o começo.
Eu tenho um longo caminho a percorrer."
O director ouviu quando o capelão repetiu o que o prisioneiro disse sobre Harry:
-- Ele o chamou de amigo - disse o reverendo Parrone.
Ele disse que você mostrou a ele que há uma vida além desta.
Ele resolveu viver o que quer que reste desta vida sabendo que há outra depois.
Ele sente que, apelando e apelando, ele apenas estaria brincando e, como ele mesmo disse, "fazendo pouco" do que ele agora acredita.
Eu não pude deixar de sussurrar ao ouvido de Harry:
-- Você sempre disse que queria ajudar as pessoas a mudar seu modo de vida.
Harry fechou seus olhos e sorriu.
O capelão Parrone disse a Harry o quanto o prisioneiro tinha mudado durante os últimos meses.
-- Eu não o tenho visto com aquele seu sorriso sacana já há algum tempo - brincou.
Harry estava curioso.
Ele disse aos visitantes que não precisavam fazer uma viagem a um bar decadente às onze horas numa noite da semana para discutir isso.
-- Vocês podiam ter me chamado no escritório da prisão a qualquer hora.
O director confessou que eles queriam encontrar o homem que tinha causado tão boa influência em um dos mais infames condenados do estado do Texas.
-- Heinz tinha uma ficha policial tão longa quanto seu braço.
Quando chegou em Terrell, era um inútil arrogante e boca-suja.
Agora, de acordo com o capelão aqui, ele é um Buda no corredor da morte.
O capelão disse que você é o responsável.
Pensamos que seria melhor se nos encontrássemos informalmente.
Os olhos de Harry se concentraram no capelão.
Harry o estava lendo, sem que o capelão ou o director soubessem.
Eu falei ao ouvido de Harry:
-- Ele está procurando por respostas e sabe que nem tem todas as perguntas.
Ele está curioso sobre você.
-- A propósito - perguntou o director -, o que afinal é um médium?
O capelão, sem esperar pela resposta de Harry, adiantou-se.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:58 am

Parrone sabia que o director acharia a resposta mais aceitável se viesse dele.
Phil Riggs era um baptista conservador.
"Quanto mais simples, melhor", Riggs brincava, sempre que eles discutiam religião.
-- Médiuns, de acordo com a Igreja Espírita, são pontes entre nós, da Terra, e aqueles que já faleceram.
Harry vê e ouve pessoas que não estão mais entre nós.
O director rosnou:
-- Sr. Clark, eu respeito suas crenças, mas não ponho a menor fé nessa baboseira mística.
Quando você está morto, está morto.
Nós vamos ressuscitar no Dia do Julgamento.
Isso é tudo, pelo que eu sei.
O capelão deu de ombros e olhou para Harry.
-- E eu, director Riggs, certamente respeito suas crenças.
Nós, espíritas, não somos de converter pessoas.
Acreditamos que, quando uma pessoa está pronta, ela começa a procurar suas próprias respostas.
Assim que estiver pronto, eu estarei aqui.
O director riu e disse que ele estava pronto para ir embora.
Mas Harry ofereceu a eles mais uma cerveja.
-- Esta também é por conta da casa.
Eu tenho algumas perguntas, se vocês não se importarem.
Os homens olharam para o relógio.
Era quase meia-noite e meia, mas decidiram aceitar a oferta de Harry.
O médium baixou o tom de voz e perguntou:
-- Como é que é?
Riggs e Parrone imediatamente souberam o que ele queria saber.
Eles ouviram essa pergunta mil vezes antes.
O reverendo Parrone começou:
-- Quando a equipe termina de apertar as correias, apenas eu e o director podemos ficar na câmara.
O director explicou o que era a equipe que apertava as correias e eu projectei para Harry uma imagem da câmara da morte azul clara e sem janelas.
-- Isso é feito por cinco dos meus melhores homens.
Eu tento fazer com que o processo seja o mais rápido e impessoal que eu posso.
A equipe que aperta as correias anda com o prisioneiro desde a sua cela da vigia:
está a menos de cem passos da câmara.
O capelão, concentrado no copo de cerveja em frente a ele, continuou:
-- O prisioneiro não está algemado ou acorrentado durante essa caminhada.
Esta é uma das mudanças que o director Riggs fez alguns anos atrás.
-- Tento dar ao pobre-diabo alguma dignidade - explicou o director.
Harry viu o espírito de um homem vestido em um macacão branco aparecer diante dele.
-- Eu ainda me lembro daquela caminhada - reflectiu o espírito.
Não há nenhuma dignidade nela.
Nós somos dopados antes de sair da vigia.
Eles não querem que a gente faça um escândalo.
Mas nós sabemos que vamos morrer.
O espírito vomitava as palavras.
- Ajude-me a esquecer. Ajude-me a esquecer - implorou o espírito.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 10, 2016 11:58 am

Eu pedi ao espírito que fosse embora:
-- Você não é mais daqui.
Riggs descreveu o que acontece depois.
-- O chefe da equipe dá as ordens para o prisioneiro deitar na maca.
Então, a equipe faz seu trabalho.
Eles foram treinados para serem rápidos, eficientes e profissionais.
Harry viu cinco guardas tomarem seus lugares:
um guarda na perna direita, outro na perna esquerda.
Braço direito, um guarda.
Braço esquerdo, outro guarda.
No corpo, um guarda.
Cinco partes, cinco guardas.
Rapidamente e sem emoção, eles apertam os cintos de couro em volta do corpo do condenado.
Eles terminam em menos de quarenta segundos.
O médium estava fascinado e chocado com o relato clínico cheio de detalhes sobre a morte feito pelo director.
O capelão notou o desconforto de Harry e interpelou:
-- Como eu disse, quando a equipe termina, eles saem.
Só eu e o director ficamos.
Um paramédico, que fica em pé em um dos cantos, aproxima-se da maca e aplica a agulha, que os prisioneiros chamam de estaca, na veia do condenado.
Harry sentiu um calor queimando toda a extensão de seu braço direito.
Era óbvio o que estava acontecendo:
o médium estava revivendo cada momento da execução do espírito de macacão branco.
Ele se recusava a deixar o bar.
O director explicou que eles às vezes têm dificuldade para achar a veia.
-- O corpo humano tem uma capacidade incrível de se proteger.
Às vezes as veias se encolhem.
O capelão disse ainda que nem médicos nem enfermeiras são envolvidos nas injecções.
Eles não querem ter nada com aquilo porque o procedimento é contra a ética médica.
-- Depois que a agulha está na veia, nós estamos prontos para prosseguir.
As cortinas são abertas, assim as testemunhas podem ver dentro da câmara - disse o director.
Ele descreveu como, atrás do vidro blindado à prova de balas, as testemunhas são divididas em três grupos:
imprensa, parentes das vítimas e aqueles que são convidados pelo condenado.
-- Nenhum grupo tem qualquer contacto com o outro durante o procedimento - assegurou Riggs.
O espírito no macacão branco choramingou:
-- E como o coliseu romano, quando eles atiravam os cristãos para os leões.
Tire-me daqui - implorava ele.
O capelão contou a Harry sobre um microfone suspenso sobre a cabeça do homem que está para morrer.
-- Está lá para que ele possa dizer suas últimas palavras - esclareceu Parrone.
Normalmente o preso pede desculpas à família da vítima e à sua própria família, se algum deles está lá.
Ele pede perdão a Deus ou a Jesus, e é isso.
O director riu e perguntou ao reverendo se ele se lembrava do cara que, depois que o time de futebol Dallas Cowboys ganhou um jogo espectacular de virada, fez sua declaração final e adicionou:
-- Ah, sim, director.
Quase esqueci: que coisa aqueles Cowboys.
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Ave sem Ninho

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 11, 2016 9:46 am

-- Eu era inocente, mas ninguém ligou.
Eu disse a eles que eu era.
Eu estava deitado naquela maca e disse tudo para eles.
Eu não fiz aquilo.
Eles pegaram o homem errado.
Ninguém se importou - gritava o espírito no macacão branco.
O capelão voltou a conversar sob um ar mais sério.
-- Há aqueles que se declaram inocentes até o fim.
Eu sempre saio daquela sala, pensativo.
O director interrompeu, dizendo que chegou a hora de administrar as injecções letais.
-- É feito por uma máquina, que fica numa sala separada da câmara.
Em uma das primeiras execuções, o preso ouviu o ruído electrónico quando os pistões bombeavam as drogas pelos tubos intravenosos.
Eu ouvi aquele ruído e fiquei aterrorizado.
Imagine o prisioneiro.
Depois disso eu mandei que tirassem a máquina de dentro da câmara.
O director contou a Harry sobre o sinal que ele combinou com o executor.
-- Eu olho para o meu relógio.
Quando ele me vê fazendo isso, ele aperta o botão iniciando a primeira de uma sequência de três injecções.
O espírito de macacão branco tremia de medo.
-- Eu vi quando ele olhou para o relógio.
Eu sabia o que estava vindo:
ouvi os ruídos, vi o veneno passar pelos tubos intravenosos.
Eu vi aquilo se enfiar em mim.
Harry ouviu um suspiro alto.
Veio do reverendo Parrone.
-- Antes que o director cheque seu relógio, eu aperto a perna do prisioneiro para que ele saiba que estou lá.
Eu sempre sinto a ansiedade correndo através de seu corpo.
Meus dedos sentem o coração perturbado do homem batendo como um tambor.
Eu posso ver o suor brotando de cada parte de seu ser.
Muitas vezes, eu posso sentir os tremores do corpo se debatendo contra as correias de couro.
-- E isso nunca falha, não importa o quão amargo ou revoltado o prisioneiro é.
Eles sempre me agradecem.
Eles me olham nos olhos e me agradecem - disse o capelão.
O director concordou com um sinal de cabeça.
-- A mim também. Isso é macabro, não é?
Um homem cuja morte eu ajudei a preparar me agradece por tudo que fiz por ele.
O capelão acrescentou:
-- Os olhos...
Não importa há quanto tempo eu faça isso, não importa quantos anos a partir de agora eu vou viver, eu jamais vou esquecer aqueles olhos.
Harry fechou os seus enquanto o director acabava sua narração descrevendo o processo da injecção.
-- Então a máquina começa a trabalhar injectando quinze centímetros cúbicos de pentotal.
É um anestésico. Basicamente, ele põe o prisioneiro para dormir, assim ele não pode sentir nada.
-- Mentiras, mentiras, mentiras - lamentava o espírito.
Como eles sabem? Eu senti tudo.
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Ave sem Ninho

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 11, 2016 9:46 am

-- Um minuto depois, a máquina bombeia quinze centímetros cúbicos de pancorium bromide.
Essa droga é um preparado de curare:
ela paralisa os pulmões e eles entram em choque.
O preso não pode respirar.
Mas - o director apressou-se em dizer - não se esqueça:
ele está apagado pelo pentotal. Ele não sente nada.
Em frente aos olhos de Harry, o espírito no macacão branco tentava puxar o ar e uma voz rouca gritava:
-- Eu sufoquei dentro de mim.
Não havia nada que eu pudesse fazer, nenhum lugar para correr.
-- Depois de mais um minuto, a máquina põe quinze centímetros cúbicos de cloreto de potássio nos tubos.
Essa droga pára o coração. Está acabado.
Harry ouve um grito alto e penetrante nascendo das entranhas do espírito de macacão branco.
Seus olhos estão saltados e ele tenta falar e não consegue.
Todos os seus músculos, não apenas seu coração, entraram em choque e travaram, apertando-se uns contra os outros.
Phil Riggs golpeia o ar diante dele com sua mão direita.
-- Limpo, profissional e impessoal.
Desde o momento em que o prisioneiro sobe na maca, até que o legista o declare morto, todo processo leva vinte minutos.
No entanto, num momento de sinceridade, o director confessou:
-- Como eu disse, eu me aposento em um ano e meio.
Não vou sentir saudade disso tudo.
E, levantando-se de seu banquinho, o director disse que estava na hora de ir para casa e perguntou ao capelão se ele iria junto.
O reverendo Parrone respondeu que não, ainda havia algo que ele queria conversar com Harry, disse apontando para a terceira pasta, que não foi aberta.
-- Está certo - lembrou o director.
Mas você não precisa de mim, isso é entre vocês dois.
O que você decidir está bem.
Riggs disse seus boas-noites e saiu para a noite quente e húmida do Texas.
O espírito de macacão branco saiu com ele.
-- O director é um bom homem - observou o capelão.
Ele faz o melhor que pode.
Pelo menos ele vai se aposentar em alguns meses.
Eu não sei se posso aguentar por muito tempo.
Harry perguntou quantas execuções ele havia visto.
-- Exactamente 156.
Há duas marcadas para a semana que vem.
Até o fim deste ano, vou estar perto de 175.
Fico imaginando se continuo sendo uma parte do "procedimento", como diz o director.
Eu estou tendo uma outra visão sobre tudo isso.
Talvez eu pudesse fazer mais o bem do lado de fora.
Harry aconselhou-o dizendo:
-- Às vezes Deus manda seus anjos ao inferno.
Parrone riu tristemente, dizendo que Terrell certamente era o inferno, e o corredor da morte era o ponto mais quente do inferno.
Ele viu Harry olhando para a terceira pasta, ainda fechada, e Parrone entregou-a para ele.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 11, 2016 9:46 am

-- Falando de anjos no inferno, eu estava pensando se você estaria interessado em trabalhar com outros prisioneiros.
Existem uns poucos aqui que podiam aproveitar alguém para conversar.
Harry correu sua mão de cima a baixo no arquivo e estudou os dez nomes.
O médium sentia as vibrações de assassinos, serial killers, traficantes de droga, matadores de aluguel e até a vibração de um homem inocente naquela lista de nomes.
Harry olhou para mim com um olhar de "no que eu estou me metendo?"
Eu dei de ombros e repeti as palavras que ele havia falado poucos minutos atrás:
"Às vezes Deus manda seus anjos para o inferno".
-- O que eu faço? - suspirou Harry.
-- A mesma coisa que fez com David - respondeu o capelão.
Escreva uma carta. Veja se eles o colocam na lista de visitas.
A propósito - comentou o reverendo -, foi uma carta e tanto.
David me deixou ler.
Parrone pensou que Harry parecia preocupado e disse que o director não sabia nada sobre a carta.
Harry balançou sua cabeça e disse que não era isso o que tinha em mente.
O capelão perguntou a ele qual era o problema.
-- Nada. Um homem chamado Jack, mas que você chamava de Johnny, quer dizer um alô.
Disse que você deve estar preparado.
Deus manda mesmo seus anjos para o inferno, ele disse.
Agora ele está me mostrando uma garrafa de uísque.
Após breve pausa, Harry comentou:
-- Espere um segundo.
Seu nome era Jack, mas você o chamava de Johnny porque ele bebia Johnny Walker Red.
Isso significa alguma coisa para você?
Parrone ficou pasmo diante de Harry, e praguejou em voz alta:
-- Maldito seja. É meu tio Jack.
Ele está morto já há uns cinco anos.
O homem me ajudou a ir para a faculdade.
Harry olhou para mim e sorriu.
-- Bom, maldito seja eu - repetiu.

Vejo você em Huntsville, Harry

Confirmando as palavras do capelão, David recebeu o mandado judicial de sua morte do escritório geral da promotoria do estado do Texas quatro meses depois.
Harry não soube de nada até o dia de visita.
Como sempre, a grossa placa de vidro separava os dois quando David agitou o mandado diante de Harry.
-- Acho que a próxima vez que verei você será em Huntsville - satirizou David.
A execução está marcada para a próxima semana, ou - disse, lançando uma olhadela no papel à sua frente - para ser mais exacto, terça-feira à meia-noite.
Isso é daqui a cinco dias.
Pela primeira vez em quase dois anos que eu o conhecia, Harry não tinha nada a dizer.
Ele admitiu isso a David.
-- O que eu posso dizer? - perguntou o médium.
Eu acho que você está certo, eu vejo você em Huntsville.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 11, 2016 9:46 am

O regulamento diz que posso estar com você das nove da manhã de terça até... - a voz de Harry falhou ao tentar chegar até o fone.
David balançou a cabeça.
-- O que é isso, cara?
Não vai ficar emotivo comigo agora.
O médium deu um fraco sorriso através do vidro e disse:
-- Isso é meio inesperado.
O mandado veio tão de repente.
David provocou de brincadeira:
-- Pensei que você visse as coisas antes que elas acontecessem.
Como algo pode pegá-lo de surpresa?
Eu sabia a data da execução desde quase quando aceitei a missão, mas tinha me proposto a guardá-la em segredo porque não queria que seu conhecimento interferisse nas decisões de David ou Harry.
O condenado ficou sério e perguntou ao médium se ele havia esquecido o que havia escrito poucas semanas atrás, sobre a morte.
Harry sacudiu a cabeça.
O médium estava tendo um mau momento para se concentrar.
David apressou a mente de Harry.
Fechando seus olhos, como se estivesse falando de memória, o homem prestes a morrer repetiu a essência da carta que Harry escreveu:
Existem muitas maneiras diferentes de uma pessoa encarar a morte.
Alguns a encaram com autopiedade, preocupados com o que estão deixando para trás e com o fato de estarem abandonando o que conseguiram.
O prisioneiro riu.
Olhando em volta, comentou:
-- Você pode apostar, Harry: esse não vou ser eu.
David finalmente arrancou um sorriso do médium.
Harry se adiantou:
Outros a encaram com coragem e valentia, desafiando o inevitável.
David citou a carta:
E existem aqueles que se recusam até mesmo a pensar na morte.
Eles nem sequer consideram a possibilidade.
Quando a morte vem, pega-os desprevenidos, despreparados.
Eles estão perdidos e incapazes de fazer qualquer coisa senão morrer.
Harry perguntou se David estava planejando "valentemente desafiar a morte".
O condenado disse que não, ele tinha muito respeito pela morte para fazer algo assim.
-- E não acho que vou tentar ignorá-la - disse com uma piscadela.
Isso vai ser meio difícil para mim, também.
David fez uma pausa e pensou cuidadosamente nas palavras que diria a seguir.
-- Vou tratar a morte como o que ela é: mudança.
Você me ensinou isso, Harry, e é assim que eu vou morrer, com respeito pela mudança que está por vir.
Eu aceitei a responsabilidade por minhas acções nesta vida.
Minha personalidade terrestre sabe das coisas horríveis que fiz.
Eu respeito minha morte porque é parte das consequências de meus actos, e eu respeito e aceito o que ainda está por vir.
Harry fechou seus olhos e agradeceu a David por permitir que o médium fizesse diferença em sua vida.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 11, 2016 9:46 am

-- Ah, Harry, e tem mais.
Por sua causa, eu morro preparado e vivo.
Você sabe o que isso significa?
O condenado perguntou e então respondeu à sua própria pergunta.
- Significa que finalmente vou viver, porque entendi que o que eu sou hoje é consequência do que eu fui ontem, e amanhã serei do que sou hoje.
David enxugou suas lágrimas e levantou sua mão como se estivesse brindando:
-- Para um amanhã melhor, Harry.
Eles estavam quase sem tempo.
A hora de visitas estava acabando.
-- Esta noite eles vão me levar para a cela da vigia em Huntsville.
Eles não querem que eu me suicide antes que eles me matem.
Vou ter guardas me vigiando o tempo todo.
É parte do procedimento.
Então, Harry, acho que vejo você na segunda, em Huntsville.
-- Cuide-se, garoto.
Vejo você em Huntsville - foi tudo que Harry pôde dizer enquanto David desaparecia pela porta pela última vez.

Epílogo

Albert Einstein escreveu:
Um ser humano é parte de um todo chamado por nós de "Universo".
Ele vive sua vida, seus pensamentos e sentimentos com uma parte limitada e separada do resto - uma espécie de ilusão de óptica de sua consciência.
Essa ilusão é um tipo de prisão para nós, limitando-nos aos nossos desejos pessoais e afeições por pessoas próximas de nós.
Nossa missão deve ser a de nos libertarmos desta prisão ampliando nosso círculo de amorosidade para abraçar todas as criaturas vivas e toda a natureza em seu esplendor.
Espero que você, depois de ler este livro, comece a desmanchar quaisquer que sejam as prisões construídas por você mesmo.
E rezo para que todos nós desmanchemos as que construímos e que nos separam uns dos outros.

Fim

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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