Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:28 am

As emoções de Tom também se tornaram extremas.
Revolta: quem é este canalha?
Como pode vir à minha casa e fazer isso?
Fúria: onde está o raio da polícia?
Frustração: o que esse animal fez com a minha esposa?
Medo: o que vai acontecer com Jessica e comigo?
Humilhação: que tipo de homem sou eu, molhando a cueca enquanto um estranho ri?
Porque não faço nada?
-- Sabe, seu inútil, eu acho que sua mulher gostou mesmo.
Quero dizer, ela tentou lutar no começo, mas, assim que enfiei nela, pedia por mais.
O estranho viu a mancha na bermuda de Tom e debochou:
-- Vai ver, é só o que essa coisa é boa para fazer:
mijar.
À distância, ouviu-se o som de sirenes da polícia.
Por um breve segundo, Tom sentiu-se aliviado.
Mas foi só por um segundo.
-- A cavalaria vai chegar um pouco tarde para vocês, gente - disse o estranho, imitando um cowboy.
Tenho de sair daqui, não posso levar prisioneiros - acrescentou rindo.
Tom estava paralisado de medo quando o estranho se virou para Jessica.
Sem reagir, ele assistiu a como o assassino puxou o gatilho, apagando a luz da vida de sua filha.
Um som surdo e rápido, e estava acabado.
O sangue da garotinha rapidamente encharcou o lençol da cama.
-- Sua vez, bonitão - avisou friamente o matador.
Deveria fazer você cair de joelhos e implorar.
Tenho a sensação de que você gostaria disso.
Mas estou sem tempo para gracinhas e brincadeiras.
É uma pena não podermos passar mais tempo juntos - disse, piscando e sorrindo de modo doentio.
E atirou. Duas vezes.
Estava tudo acabado.
Uma dor intensa, primeiro no peito, depois nas entranhas.
Onda de dor sobre onda de dor mutilando o corpo físico; uma explosão branca sobrecarregando o cérebro.
Então, como um curto-circuito eléctrico, estava acabado.
Nada. Tudo escuro. Tudo vazio.
Excepto pela revolta, fúria, medo e humilhação que ele carregou consigo.
Durante os últimos vinte minutos, assisti impotente a um homem matar uma criança de três anos de idade, depois humilhar e assassinar Tom.
Agora, segundos depois que o espírito de Tom quebrou o delicado cordão prateado conectado ao seu corpo físico morto e sangrando, eu ajo.
Correndo para abraçar Tom, meu espírito sente toda a angústia e dor ardendo dentro dele.
Eu sabia que tinha de fazer alguma coisa depressa.
Ódio e fúria se espalhariam como um câncer por toda a alma de Tom.
Não havia muitas opções.
Eu sabia que não havia como esse espírito ser guiado calma e gentilmente pela passagem da Terra ao espírito.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:28 am

Nenhum guia poderia romper a turbulência de seu espírito.
Não era a hora de explicar que ele, Elizabeth e Jessica ainda estavam vivos.
Tom não entenderia.
Ele estava tomado pela revolta, medo, fúria e humilhação de seus últimos minutos na Terra.
Não havia nada que pudesse ser dito ou feito para aliviar a dor.
No entanto, eu sabia que não poderia deixá-lo afligir-se por suas emoções.
O espírito se contaminaria, tornando-se prisioneiro de suas vibrações densas e pesadas.
Apesar disso, fiz o que havia para ser feito.
Coloquei o espírito em um coma profundo, em que descansaria até que eu pudesse decidir o que fazer.
Esse sono suspenso não afastaria o medo, não diminuiria a fúria nem apagaria de sua memória os momentos finais na Terra.
Essas emoções fariam parte de seu espírito para sempre, e Tom teria de lidar com elas.
Contudo, agora não era o momento.
Enquanto eu trazia seu espírito entorpecido para dentro da quarta dimensão, outro guia flutuava, abraçando o espírito da pequena Jessica.
No plano terrestre, o relógio no antigo quarto de Tom marcava meia-noite e vinte e um minutos, e as lentas e inabaláveis rodas do carma moviam-se.
Os eventos no quarto em Houston emitiam suas próprias e singulares ondas através do Universo.
Um laço fora criado entre Tom, Jessica, Elizabeth e o assassino.
Aquelas ondas tocaram o plano terrestre, alcançando outras, que pela sua própria história espiritual estariam dispostas no drama cármico que estava para começar.

As rodas do carma giram

Assim que deixamos a Terra e entramos no plano astral, reflecti sobre minha missão.
Eu não tinha ideia de que esse era o começo de uma estranha e difícil jornada.
Como o tempo e o espaço não existiam e a frequência das vibrações se intensificava, pude analisar a situação na qual fui atirada.
Nossas "análises de guias" são ensinadas para que recriemos as circunstâncias de nossas missões sem nos envolver nelas.
Clara, nossa instrutora, disse que era importante que estivéssemos separados de nosso trabalho:
-- Vocês estão lá para guiar o espírito desencarnado, não para se envolver com seus carmas pessoais - alertou.
Com o espírito de Tom desacordado ao meu lado, projectei diante de mim o que havia acontecido e repassei os fatos, como eu os compreendi.
Fui levada até aquele quarto por Tom, não por Jessica ou Elizabeth.
Eu estava lá enquanto o pistoleiro o insultava e provocava, descrevendo sadicamente como ele assassinou e estuprou sua esposa.
Eu estava lá quando o jovem matador apontou friamente sua arma para Jessica, encerrando sua vida com um simples tiro em sua cabecinha.
E finalmente, depois de sofrer toda a dor e humilhação que ele pôde aguentar, vi Tom ser atingido por dois tiros de revólver.
Trazendo Tom para o plano astral, tentei cobri-lo com todas as vibrações de amor e conforto que pude agregar.
Eu sabia que isso não seria o suficiente, que havia muito trabalho pela frente, pois o espírito de Tom estava atado à Terra.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:28 am

Naqueles últimos vinte minutos de vida física, seu espírito sentiu mais emoções do que a maioria de nós experimenta em toda a encarnação terrestre.
Havia uma razão para isso, e eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu iria descobrir qual era.
Enquanto o sono anestésico perdurava, fiz um pequeno esforço para reanimar a alma torturada que eu carregava.
-- Tom, meu nome é Maryanne.
Eu sou sua guia.
Sou sua amiga, sou o que você quiser que eu seja.
Vou tomar conta de você e farei qualquer coisa para ajudar.
Por favor, não se desespere.
Tudo que aconteceu era porque tinha de ser, e o que acontece agora só depende de você.
Ele não entendeu; não poderia.
Tudo que eu queria fazer era confortá-lo.
Eu me lembrei de meus tempos na Terra, quando um simples toque quente de uma mão humana podia aliviar mais dores do que o mais poderoso analgésico.
Então, acalentei seu espírito com luz, tentando desesperadamente amenizar sua angústia.
Assim, o espírito dormia.
Mas esse não seria um sono tranquilo ou repousante.
No entanto, nem todo espírito que desencarna dorme.
Tom estava em um coma para que eu pudesse, falando francamente, ganhar algum tempo para resolver o que ia fazer.
Essas transições da Terra ao plano espiritual são iguais para todos, porque nós somos iguais.
Nós somos feitos à imagem e semelhança do nosso Criador.
Todos podem achar o conforto, a ajuda e a luz de que precisam.
Contudo, nossas passagens são diferentes porque somos diferentes.
Cada espírito tem experiências únicas, passa por julgamentos diferentes e aprende lições diferentes.
Tom não poderia viver para sempre no vácuo em que o coloquei.
Ele teria, em algum momento, de retomar seu caminho na evolução espiritual.
Quando ele o fizesse, eu seria sua guia.
Eu, que também morri por uma bala disparada, estaria com ele.
Meu espírito, que morreu em revolta, medo e humilhação, ajudaria este espírito cujos últimos momentos na Terra foram cheios de revolta, medo e humilhação.
Eu estava lá em Houston porque tinha de estar.
Meu espírito foi atraído pelas vibrações emocionais daquele quarto.
Eu não estava ali porque sou revoltada, mas sim porque já fui.
Eu tive uma morte brutal e, como uma pobre e ignorante adolescente negra, vivi humilhações no plano terrestre.
O ciclo está completo porque:
Da humilhação, vem a compaixão.
Do medo, vem a coragem.
Da revolta, vem a compreensão.
Quando o corpo físico de Tom explodiu em sangue e sua mente física se encheu de dor, lembrei-me de minha própria passagem repentina e violenta.
No início, não aceitei a morte. Fiquei presa na esfera terrestre.
E o mesmo aconteceu com Tom.
Ele está preso pelo medo: temendo a arma apontada para seu peito.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:28 am

Está preso pela raiva:
ouvindo a voz zombeteira de seu assassino dizer a ele que estuprou e matou sua mulher.
Está preso pela humilhação:
molhando as calças diante do terror e da impotência, incapaz de proteger e defender sua filha de três anos de idade.
Ele está preso pelas últimas emoções de sua vida na Terra.
Vou dar o melhor de mim por ele, como Bob, meu guia, o fez por mim.
Eu o coloquei nesse sono profundo, temporariamente congelando sua ira, fúria e frustração.
Mas essas emoções não se dissolveriam.
Não funciona assim.
Elas serão sempre parte dele, porque todos nós somos a soma total de nossas encarnações.
Ele teria de aprender.
Ele não podia se purificar de sua raiva porque precisava entender a raiva.
Ninguém pode lhe apagar a humilhação que corrói sua alma porque ele teria de amadurecer a partir da degradação.
Toda esta encarnação seria em vão se uma varinha mágica fizesse desaparecer a violência de seu espírito.
Nada, nada, nada é por acaso: nem mesmo ser vítima de um crime hediondo.
Eu precisava de tempo.
Sabia que aquele espírito encarava o maior perigo de todos: a fixação.
Ele podia ficar tão possuído por suas emoções que seria atirado de volta ao seu quarto na Terra para viver e reviver incessantemente os momentos finais de sua vida.
Ou poderia tentar atormentar e torturar seu assassino, compulsivamente.
Se isso acontecesse, ele estaria preso; não haveria cura, progresso ou aprendizado.
Agora mesmo, eu precisava de tempo para pensar e Tom precisava de tempo para se libertar do tempo.
Em breve, o tique taque do tempo ainda suspenso vai libertar toda a sua revolta, humilhação e fúria, que ferveriam em sua alma.
E, ainda por cima, eu sabia que algo mais estava acontecendo.
Comecei a entender o que o ditado "Deus age de forma misteriosa" significava.
Eu não estava naquele quarto apenas por ele.
Eu senti uma atracção por um outro espírito, também.
Não era por Jessica, a menina assassinada.
Seu guia espiritual já a havia encontrado.
Não era por Elizabeth, a esposa estuprada e assassinada de Tom.
Ela também tinha amparo ao seu lado.
Era pelo assassino, o homem que estuprou Elizabeth, matou a pequena Jessica e assassinou friamente Tom. Seu nome era David.
Era por ele, que, assim como Tom, Jessica e Elizabeth, também era um espírito formado por nosso Criador.
Era por David, que também é nosso irmão.
-- Como pode ser? - perguntei ao Universo.
-- Como posso eu ajudar a vítima e o assassino?
A resposta veio não do Universo, mas sim lá do fundo de mim mesma.
Eu também fui assassinada, e essa era a resposta:
esta missão era parte de minha própria evolução espiritual.
É fácil ter compaixão pela vítima, mas o espírito que matou e estuprou precisa de mais do que compaixão, precisa de cura e esclarecimento.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 03, 2016 11:28 am

Mas eu ainda estava confusa:
"Como posso ajudar ambos?
Por que a vítima e o assassino?"
Mais uma vez, tão depressa quanto a pergunta, veio a resposta: nossos destinos estão tão entrelaçados que, ajudando um, eu iria ajudar o outro.
Assim, enquanto Tom dormia, viajei de volta à pequena casa branca em Houston para dar mais uma olhada em David.
Desta vez, deslizando pelo tempo e dimensão, trouxe comigo a lembrança de que, não importava o que David havia feito, ele também era parte do Criador, da mesma forma que todos nós.

Um assassino tem uma alma?

Se você o encontrasse antes do crime, provavelmente ele se descreveria assim:
-- Meu nome é Dave Heinz.
Tenho vinte e seis anos de idade.
Não tenho mais nada a dizer, porque tudo o mais não é da sua conta.
Tudo que precisa saber é que sou um cara muito bonito e adoro uma festa.
Se você falasse com ele depois dos assassinatos, ele teria sido sarcástico:
-- É, eu sou o grande matador e estuprador. E daí?
Não ligo para o que você pensa porque não devo merda nenhuma a ninguém.
Ele ria quando estava sentado com as algemas no banco de trás da viatura policial.
-- Vocês chegaram aqui muito tarde.
Logo depois que eu atirei neles, eu ouvi suas estúpidas sirenes.
Vocês pensam que a gente é surdo?
Aposto que vocês se excitam brincando com essa sua sirene.
O cara achou que era esperto, deixando o telefone fora do gancho.
Bom, acho que não era esperto o bastante - disse isso e gargalhou.
-- Ele está morto, como a menina e a mulher.
Cara, ela era gostosa.
Tive uns bons momentos com ela, antes de apagá-la.
O criminoso quase escapou.
Enquanto três viaturas policiais apitavam na entrada da rua onde a família de Tom vivia, David já estava escada abaixo com os cinquenta dólares enfiados no bolso da calça.
Mais cedo, ele havia pegado vinte e cinco de Elizabeth.
O placar final foi de três mortos e David setenta e cinco dólares mais rico.
-- Melhor do que nada.
É mais do que tinha antes disso - pensara, guardando o que roubou quando atravessava correndo a cozinha da família.
David tinha começado aquele dia como fazia quase todo dia nos últimos três meses: bebendo.
Lá pelas oito da noite, depois de descansar da farra da tarde, ele estava cruzando as ruas em busca de acção e dinheiro.
Por volta das dez, ele viu Elizabeth.
Ela estava saindo de um pequeno restaurante da vizinhança onde encontrou amigos de sua aula literária.
Ele a perseguiu.
Pretendia roubar sua bolsa.
Em vez disso, quando ela chegou ao seu carro, ele teve outra ideia.
Enquanto ela abria a porta, David surgiu das sombras e, usando seus oitenta quilos e a estatura de um metro e noventa, agarrou a pequena mulher e a jogou no chão do carro.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:40 am

O punguista usou um revólver para garantir silêncio, e no banco da frente do carro da família ele a estuprou.
Ele ficou excitado e não foi por estímulo sexual.
O que assumiu o controle de seu corpo e mente era diferente:
ele estava inebriado pelo poder, domínio e controle.
Nunca antes ele se sentiu assim.
Quanto mais Elizabeth se debatia, mais estimulado ele ficava e mais brutal e duramente ele penetrava.
Quando ele acabou, agarrou a garganta dela, esmagando sua traqueia.
Duas horas depois, com Elizabeth morta e jogada no porta-malas do carro, ele tomava o rumo da casa da família.
Vinte minutos depois ele fugia do quarto, setenta e cinco dólares mais rico e com um revólver ainda quente preso à cintura.
Ouvindo as sirenes se aproximando rapidamente, ele jurava que a polícia não conseguiria apanhá-lo.
"Posso enganar esses idiotas", disse a si mesmo.
Mais tarde, depois de preso, ele disse ao advogado que lhe foi indicado pelo Estado:
-- Pensei que poderia escapar.
Foi por isso que atirei na criança e no sujeito.
Eu não podia deixar ninguém para trás que me identificasse.
Nada pessoal, é assim que as coisas funcionam.
O sujeito era um fraco, apesar de tudo, mijando-se todo.
Ele devia ter reagido.
Eu o teria matado de qualquer maneira, mas ao menos ele morreria como um homem, não como um maricas.
David, tentando fugir, viu os três carros com suas luzes azuis e vermelhas piscando parados em frente à casa.
Ele decidiu correr cruzando o quintal.
Foi rapidamente até a cozinha e lá estava a porta, como ele esperava.
Não estava nem sequer trancada.
"Diabo", pensou, "estes idiotas mereceram isso.
Nem se preocupam em trancar a porta dos fundos com gente como eu solta por aí", pensou, num sorriso forçado.
David correu no escuro da noite, parcamente colorida pelas luzes azuis e vermelhas piscantes das viaturas policiais.
Ele estava trémulo com toda aquela atenção.
Por toda a vizinhança, casa depois de casa, janelas estavam abertas, luzes acesas nas varandas e pessoas reunidas em seus gramados.
A rua normalmente tranquila estava em alvoroço com as luzes e sons da polícia.
"Aposto que também ouviram os tiros", imaginou David, vendo aquela gente em seus pijamas e camisolas fazendo fila pelo quarteirão.
"Bom, pelo menos eu pus alguma emoção na vidinha estúpida deles", riu o assassino.
Ele sabia que a polícia iria fechar as saídas do quarteirão, sabia que teria de tomar uma atitude naquele momento.
Vendo que não havia cerca separando o quintal de Tom do de seu vizinho, David decidiu se atirar em direcção à rua no outro lado.
Tinha certeza de que ninguém o havia visto.
O grupo de vizinhos fora atraído pelas luzes vermelhas e azuis na frente da casa; era lá que a acção estava.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:41 am

Ele era apenas uma sombra em meio a sombras.
David percebeu que os policiais estariam com o quarteirão cercado em dois ou três minutos.
Até lá, ele estava certo de que estaria a três ou quatro
blocos dali.
Ele planeou pegar a estrada principal, onde desapareceria na escuridão da noite.
Os policiais gritavam pelos megafones para o assassino que não podiam ver:
-- Você aí na casa, saia com as mãos para cima.
Você tem trinta segundos.
"Que idiotas", pensou o matador.
"O tal 'você' sou eu, e estou voando tão rápido quanto meus pés conseguem me levar."
Então, de repente, ele voou mesmo, e aterrissou de cara no chão na grama húmida do quintal de Tom.
Ele pensou que havia escorregado no gramado molhado, mas, quando tentou se levantar, sua perna direita enviou um impulso de dor para seu cérebro.
Ele tentou de novo, mas desmoronou no chão.
O assassino, na ânsia de achar uma saída, viu que uma mangueira de borracha amarela estava enroscada em sua perna direita latejante.
-- Que droga - diria ele depois ao seu advogado --, eu tropecei numa mangueira.
O mijão tinha deixado a mangueira no quintal.
Deslocou meu tornozelo, ainda.
Eu ia conseguir escapar daqueles policiais barrigudos.
Ele sabia que estava acabado.
A qualquer momento, a polícia chegaria ao quintal.
"Eu já devia estar longe daqui a esta hora. Eles vão me pegar porque o maldito suburbano regou seu gramado.
Merda, ele merecia morrer", praguejou o matador.
Com seu tornozelo inchando e doendo, ele ainda achou que podia mancar para fora do quintal.
Notou que sua arma tinha caído no chão. Ele se sentiu nu.
"Já devia estar na estrada principal; eles nunca me achariam", rosnou para si mesmo.
Ele ouviu mais sirenes: ambulâncias e mais viaturas.
O quarteirão estava cercado.
Não havia mais lugar para ir, nem para se esconder.
Ele viu que a casa bem à sua frente estava às escuras.
Ninguém lá dentro. Era sua única chance.
David rastejou até a porta dos fundos.
Estava desesperado.
Sua arma estava em algum lugar na grama molhada, seu tornozelo latejava de dor e aquela porta estava bem trancada.
Ele se levantou, agarrando-se à maçaneta.
A dor no tornozelo o deixava sem fôlego.
A polícia entrou.
Vieram pela frente da casa de Tom até o quintal, as poderosas lanternas cortando o escuro da noite.
David amaldiçoou a mangueira amarela do jardim.
Ele viu dois policiais vasculhando o chão com seus feixes de luz.
Estavam a uns dez metros dele.
A qualquer momento ele seria pego por aquelas lanternas.
A sua esquerda e à sua direita, a polícia apertava o cerco.
Estavam tão próximos que ele ouvia o chiado de seus rádios.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:41 am

A cada segundo que passava, a conversa nos rádios ficava mais alta e, a cada batida de seu coração, os feixes de luz chegavam mais perto.
Ele não podia fugir dos bobocas da polícia, e mais uma vez amaldiçoou a mangueira do jardim "e o mijão que a deixou lá".
David perdera sua arma.
Ele "já não poderia sair dessa como um homem".
Sua cabeça queimava e trabalhava depressa, procurando uma saída.
E, como um coelho encurralado, viu que não havia nenhuma.
"Que inferno, melhor desistir e continuar vivo.
Melhor do que levar um tiro no quintal de um estranho."
-- Aqui - gritou, com as mãos vazias no ar.
Eu sou quem procuram.
Nenhum revólver, podem ver.
Imediatamente, dois feixes de luz iluminaram seu corpo.
-- Deitado no chão, braços e pernas abertos, agora - vociferou alguém.
-- Ok, não atirem.
Estou desarmado - respondeu o assassino, deslizando no solo, de cara para o chão, braços e pernas abertas.
Dois policiais atacaram:
um puxou os braços do matador para trás, algemando rudemente seus pulsos um no outro.
O outro, com o revólver pressionado contra a cabeça de David, inclinou-se e gritou no ouvido do assassino:
-- Seu canalha! - David podia sentir o hálito do homem.
-- Foi você quem assassinou aquele sujeito e a menininha.
O policial não perguntou.
Foi uma afirmação.
-- Não digo nada a vocês, bundões, sem um advogado - David respondeu.
Conheço meus direitos.
O policial agarrou David pelos cabelos e empurrou seu rosto contra o chão.
David sentiu o gosto da poeira.
-- Direitos. É, imprestável.
Você tem direitos.
Você vai direitinho para Terrell.
David não sabia do que o policial estava falando.
Ele descobriria logo.
E eu, de uma dimensão invisível, presenciei.

Eu, Bob e o rio do tempo

Existem coisas assim como fantasmas?
Casas, florestas e cemitérios assombrados são reais?
As respostas são duas: um simples sim e um simples não.
Não. Fantasmas não existem.
Sim. O que existem são espíritos desencarnados que já viveram na Terra.
Estes espíritos, por sejam lá quais forem as razões, agarram-se ainda às vibrações terrestres, recusando-se a soltá-las.
Essa obsessão com suas vidas anteriores transforma esses espíritos em prisioneiros do tempo e espaço, assombrando os lugares onde já viveram, trabalharam ou mesmo morreram.
Essa fixação é chamada "anexação", e seus resultados são trágicos.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:43 am

Espíritos anexados são paralisados pelo passado, incapazes de encarar o futuro.
Tom estava na direcção da anexação e, sem trocadilhos, isso me assombrou.
Como guia, é meu trabalho fazer de tudo, mesmo contra minha vontade, para ajudá-lo a amadurecer, aprender e evoluir.
Contudo, por sejam lá quais forem as razões, ele se tornou um espírito obcecado, e um trabalho que já era duro ficou infinitamente mais difícil.
Teria de haver uma maneira de afastá-lo da humilhação, revolta e fúria que carregava desde o plano terrestre.
Se eu falhasse e Tom escolhesse abraçar essas emoções, ele se tornaria um prisioneiro.
Em outras palavras, seria uma assombração.
Eu sei alguma coisa sobre assombrar.
Depois de minha própria morte, eu estava tão atada à minha velha vida que foi preciso um longo tempo até que eu entendesse que já não era mais parte da Terra.
Ainda me lembro dos incontáveis dias e noites sem fim perambulando pela minha velha vizinhança procurando por respostas que não podiam ser encontradas.
Eu não queria Tom assombrando seu quarto em Houston; suas respostas também não estavam lá.
Anexação é uma droga, viciando a gente aos eventos e emoções, e um espírito não precisa estar desencarnado para sofrer desse vício.
Existem inúmeros espíritos encarnados presos no redemoinho da anexação.
Eu vou provar isso.
Dê uma olhada em si mesmo.
Alguém ou alguma coisa já o fez ficar tão nervoso que você continua vivendo e revivendo a experiência em sua memória repetidamente?
Você já perdeu um emprego, uma posição ou um relacionamento?
Essa perda consumiu você, tornando sua mente em um turbilhão de porquês e o que poderia ter acontecido?
Você tem de fazer uma escolha: pode seguir adiante ou pode se trancar num círculo de frustração e raiva.
Agora pode começar a entender a seriedade da situação de Tom.
Momentos antes de ser morto, ele descobriu que sua esposa tinha sido estuprada e assassinada, então ele assistiu impotente a quando o estuprador disparou uma bala no crânio de sua filha.
Como você se sentiria?
Eu poderia trabalhar com Tom; pelo menos ele estava em minha dimensão.
Mas eu não tinha a menor ideia do que fazer com David.
Ele ainda estava encarnado na Terra.
Como poderia alcançá-lo?
Eu precisava de ajuda.
Simplesmente por eu estar desencarnada não me faz mais esperta, sábia ou sagrada que você.
Eu simplesmente vejo a vida de uma perspectiva diferente.
Daqui, alguns de nós vêem eventos antes que eles aconteçam.
Mas, mais importante que isso, nós vemos o que já aconteceu de uma janela enorme e universal.
"Rapaz, como eu precisei dessa enorme janela universal agora", pensei.
Eu procurei por conselhos.
Minha primeira parada foi com outros guias "coming over".
Eles não foram de muita ajuda.
-- Não há muito que possa fazer - um deles deu de ombros.
-- Tom fará suas próprias escolhas, não importa quanto tempo isso leve.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:44 am

David já fez a sua e - acrescentou o guia de forma preocupante - ele viverá com as consequências de sua escolha.
Outra guia me aconselhou a levar isso numa boa:
-- Não interfira e não se envolva.
Seu trabalho é dar a Tom amor, compaixão e orientação.
E, assim como para aquele na Terra, ele terá o que merece.
Deixe-o em paz, os eventos vão se encaminhar.
Sempre é assim, você sabe - acrescentou com um sorriso sabido.
Outro espírito, que como eu havia se tornado um guia recentemente, quis saber se David estava muito apegado à personalidade terrestre que ele criou para si mesmo.
Isso, pensava o guia, dificultaria nossa ajuda:
-- Ele fez sua escolha e criou seu carma - foi tudo que ele sugeriu.
-- Envie vibrações de amor e compaixão - aconselharam outros.
Isso é tudo que pode fazer pelo que está na Terra.
Como eu dizia, nós não ficamos nem mais espertos ou sábios que você.
Francamente, eu pensei que aqueles conselhos eram inúteis.
Sabia que havia uma razão pela qual eu fui enviada a Tom e David.
E estava certa de que isso era mais do que simplesmente enviar boas vibrações.
Amor e compaixão são palavras simpáticas, mas como poderia tornar palavras em ajuda a um rapaz de vinte e seis anos a caminho do corredor da morte?
Como poderia transforma amor e compaixão em acção?
Ainda precisando de respostas, voltei a Bob.
Pensando nele, enviei ondas através do universo e aquelas ondas trouxeram-me um pôr-do-sol em vibrantes cores rosa, azul e roxo.
Na realidade, eu não ia até Bob, ele vinha a mim.
Ele vive em uma esfera que não estou pronta para alcançar.
Assim, para responder meu chamado, ele rebaixou suas vibrações.
Nós nos encontramos às margens gramadas de um rio profundo e vagaroso.
Sua água era clara e o sol graciosamente estalava seus raios sobre a tranquila superfície do rio.
Mesmo o ponto mais profundo podia ser visto, conturbado apenas pela suave ondulação da corrente se movendo devagar.
Bem agora, o rio explodia em cores, reflectindo os tons rosa, púrpura, dourados e alaranjados do pôr-do-sol.
Eu venho muito aqui, tanto sozinha como com amigos, para me refrescar na calma do espelho d'água do rio.
Bob e eu unimos nossas vibrações nestas margens.
Não precisávamos falar para nos comunicarmos.
Comungamos pelos pensamentos, sensações e vibrações.
Todos os espíritos são capazes de fazer isso, compartilhando ideias e emoções com uma clareza e precisão impossíveis de atingir na Terra.
-- Ora, se não é Maryanne...
Há quanto tempo!
A vibração de Bob era luminosa, mas apreensiva:
ele sabia que eu precisava de ajuda.
Quando nos encontramos pela primeira vez, ele era um guia "coming over", e agora é um guia "going over".
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:44 am

Bob, com seu jeito avoado bem típico, uma vez explicou a diferença:
-- Um guia "coming over" socorre espíritos da Terra, ajudando-os a aprender com suas encarnações na dimensão terrestre.
Um guia "going over" ajuda esses mesmos espíritos, quando prontos, a se preparar para a vida em uma dimensão mais alta.
Simples e directo: por isso é que vim a Bob pedir conselhos.
Ele foi, quando fiz a minha difícil passagem da Terra para o espírito, meu guia "coming over".
Quando morri, ele apareceu como um homem branco, de sessenta anos de idade, projectando uma imagem com a qual eu me sentiria bem.
Eu me lembro de chamá-lo de "um velho peido aposentado".
Eu passei a amar meu "velho peido aposentado".
Apesar de durão e exigente, ele é amoroso e misericordioso, também.
Ele me ensinou a usar e aprender com a raiva e a fúria que ferviam dentro de mim.
Agora, a invisível, mas constante força universal trouxe-me um desafio similar ao que Bob teve em relação a mim.
A força me deu Tom, que neste momento estava em um sono profundo, incapaz de encarar o ódio fervilhante que carregou da esfera terrestre.
Mas, quando era meu guia, Bob tinha apenas eu para lidar.
A força universal também me deu David, a causa da morte de Tom e a razão de sua fúria e humilhação.
Eu sabia por que fui levada a Tom.
Seu espírito estava em fúria porque sua família tinha sido destruída por um assassino irracional.
Quando eu cheguei aqui, a revolta consumia meu espírito porque minha vida também foi abreviada por um revólver.
Eu sabia que poderia ajudar os dois.
Quem sabe mais sobre revolta e ódio enlaçando o espírito com suas correntes fúteis e inúteis do que alguém que já foi prisioneiro dessas mesmas correntes?
Mas eu não sabia o que fazer.
Foi por isso que agora eu me encontrava nas margens verdes e gramadas do rio.
-- Estou aqui porque preciso de sua ajuda.
Tenho um trabalho duro pela frente.
Bob não respondeu.
Ele esperava uma explicação.
Descrevi os assassinatos e falei para ele sobre Tom.
-- Fui chamada para ser seu guia.
-- Que coisa! - observou Bob com ironia.
-- Engraçado como a vida dá suas voltas, não?
Entendi: vítima atraída pela vítima.
Mas, quando cheguei a David, a vibração de Bob se intensificou:
-- Ele também? Tanto o assassino quanto a vítima?
Agora ficou interessante, se me permite dizer.
-- Eu não sei se vou dar conta - confessei.
Ele me repreendeu severamente:
-- Maryanne, você já devia saber.
Se não estivesse preparada, não seria chamada.
Nada acontece antes do tempo.
Você está pronta.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:45 am

E a prova de sua prontidão é que você teve a humildade de pedir ajuda.
Mas ele parecia confuso, achando estranho o facto de eu não estar envolvida nem com a mãe nem com a menina.
-- Mas não vamos nos incomodar com isso agora - disse Bob.
-- As razões virão à tona mais cedo ou mais tarde.
Havia mais uma coisa que me preocupava, porém.
-- O assassino está na Terra.
Ele não é exactamente o tipo de sujeito que está afinado com o lado espiritual da vida, se é que você me entende - brinquei.
Bob chamou minha atenção para a estupidez que eu tinha acabado de dizer:
-- Não seja crítica.
Ele é um espírito e tem a mesma origem que todos nós.
Ninguém tem um passado perfeito.
E acrescentou, com uma piscadela manhosa:
-- Há algumas poucas coisas no meu que eu gostaria de esquecer.
Ele estava certo, mas eu o fiz lembrar que muitas pessoas na Terra pensam que um assassino não tem alma:
-- Alguns dizem que são menos que animais.
Bob respondeu pacientemente, explicando que muitos dos espíritos encarnados na Terra tinham bastante o que aprender.
-- E, depois de ouvir alguns dos conselhos que os outros guias lhe deram, você também tem bastante para aprender.
Esta é uma situação excepcional.
Não apenas para você, mas para os dois espíritos com quem está conectada.
Escolhendo seu próximo pensamento cuidadosamente, meu amigo disse:
-- Eu sei por que você foi escolhida.
A razão é mais profunda do que você imagina.
Maryanne, há mais nisso do que apenas compartilhar vibrações e experiências.
Como sempre, Bob não explicou.
Eu teria de entender sozinha.
-- Vamos em frente, Robert.
Eu sabia o que estava por vir.
À nossa frente, o rio fluía vagarosa e silenciosamente enquanto Bob falava ao meu ser interior.
O rio corria e o tempo parou.
Sua vibração firme e suave seguiu me puxando, puxando e puxando para um outro tempo e lugar no infinito vácuo da Criação.
Nossos pensamentos se uniram e, viajando pelo espaço, paramos no ponto em que eu desencarnei na Terra.
Eu não estava sozinha.
Havia um negro ao meu lado.
Ele foi meu assassino.
Eu me lembrei de que, no dia que ele morreu, senti um arrepio em minha vibração.
Bob explicou a sensação:
-- Você e o garoto estavam conectados.
Afinal de contas, ele atirou em você.
A justiça terrestre nunca o alcançou.
Ele jamais foi preso.
Afinal, o que era mais um assassino na vizinhança em que eu vivia?
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:45 am

Olhando o rio, relembrei o quão assustador ele foi no dia que nos encontramos.
Sua vida na Terra também foi curta.
Ele morreu aos vinte e dois anos de idade de uma overdose de drogas, seis anos depois de disparar os tiros que encerraram minha vida.
Seu nome era Marty.
Os reflexos na água me fizeram lembrar o que eu pensei na primeira vez que o vi:
"Então este é o garoto que atirou em mim...
Este é o inútil que me matou quando eu tinha dezasseis anos".
O rio também me lembrou o que eu senti: nada.
Não que eu tivesse esquecido meu assassinato; a memória ainda estava bem viva dentro de mim.
Mas eu já não era parte dela; eu perdoei sinceramente porque não estava mais anexada à revolta que minha morte havia despertado.
Eu estava livre e, no espelho d'água, eu me vi estendendo os braços para abraçar Marty.
Ele teve medo, então recuei.
-- Ei, Marty, fica frio - eu me vi dizendo a ele.
Eu sei quem você é e lembro-me do que fez.
Mas você era apenas mais um bobo, como eu.
Isso foi tudo, uma coisa boba, estúpida que você não planeou ou pensou para fazer.
Aconteceu. Acabou.
Uma coisa boba, estúpida e trágica, meu amigo.
O rio me lembrou como nos abraçamos então.
Eu havia perdoado, mas não esquecido.
Não é fácil perdoar, mas Bob me disse uma vez:
-- Seja egoísta e perdoe.
Aquilo soou estranho, mas fazia sentido.
-- Marty criou um carma quando atirou em você - esclareceu meu guia.
Você quer fazer parte desse carma ou quer progredir e evoluir em seu próprio carma?
Você tem uma escolha:
prender a si mesma no carma de Marty ou deixá-lo em paz e seguir com sua própria evolução.
Perdoe e ele não lhe deverá nada e se desprenderá de você.
Marty enfrentaria as consequências de sua atitude.
Mas eu estava livre.
Nós não estaríamos carmicamente envolvidos, continuamente tentando acertar as contas entre nós.
Bob me trouxe de volta ao presente.
Na nossa frente, o rio corria suavemente, sem pressa e sem parar.
-- Maryanne, você agora entende qual é sua missão? - perguntou baixinho.
Tão baixinho quanto ele, como se eu estivesse em transe, respondi:
-- Cura. Devo tentar ajudá-los a se libertar um do outro.
Mas, para que isso aconteça, eles precisam se libertar de suas próprias revoltas e dores pessoais.
Eu reflecti e acrescentei:
-- Não vai ser fácil, Robert.
Será duro para Tom perdoar David.
Ele matou não apenas Tom, mas também sua filha e estuprou e assassinou sua esposa.
É diferente.
Bob me contrariou:
-- Diferente, mas igual.
Assassinato é assassinato, perda é perda, sofrimento é sofrimento, e dor é dor.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:45 am

As circunstâncias são diferentes, e assim é o carma.
Um tiro involuntário dado por um adolescente assustado molda um carma pouco distante do estupro e loucura de um sujeito de vinte e seis anos.
-- Isso é o que eu tenho de fazer - reflecti num instante de clareza.
Ajudar Tom a relevar seu sofrimento, revolta e humilhação; depois revelar a ele o poder do perdão.
Bob sorriu e acenou com a cabeça.
-- Se eu ajudo a vítima, ajudo seu assassino.
Os dois espíritos serão livres:
Tom para continuar sua evolução, desatado da revolta e da fúria; David, liberado por Tom, pode lidar com o carma que ele criou.
Os dois espíritos podem ser livres para seguir cada qual seu destino.
Mas eu pensava em Elizabeth e Jessica.
Elas também eram vítimas de David.
Não estariam também ligadas a ele?
Mais uma vez, Bob disse em pensamento que eu não devia me preocupar com elas por enquanto.
-- É claro que não estão envolvidas, e, por seja lá que razão, elas não são problema seu.
Estou certo de que, quando for a hora, você verá como elas se encaixam.
De repente, sem nenhum aviso, o rio nos trouxe uma nova cena.
Era Marty, reencarnado na Terra.
Ele estava trabalhando para balancear seu carma, encarnado como um assistente social aconselhando membros de gangues nas cidades do interior dos Estados Unidos.
Ele não me devia mais nada, mas ainda tinha de encarar seu próprio carma.
Marty tinha assassinado, não premeditadamente ou a sangue-frio, mas, como Bob disse, "ele puxou o gatilho e acabou com uma vida".
Bob agora traçava as similaridades entre David e Marty:
-- Eles criaram um destino girando as rodas do carma sobre si mesmos.
Se Tom ficou anexado a David, como você poderia estar a Marty, uma ligação será criada entre os dois.
Um carma vingativo e pessoal, que pode durar por incontáveis ciclos terrestres, pode ser formado.
Você pode ajudar Tom a enxergar David como outro "garoto bobo".
E você pode preparar David não apenas para a justiça na Terra, mas para seu carma espiritual.
Onda após onda de vibração, eu sentia a paixão de Bob em sua fé.
Ele continuou se comunicando com meu ser.
-- Veja as encarnações terrestres de David.
As pistas estão lá.
Ajude-o a assumir responsabilidade por suas acções, porque logo ele terá de enfrentar as consequências terrestres.
Depois, ele terá de lidar com as espirituais.
Se Tom o libertar, os dois estarão livres para evoluir.
Eu entendi a perfeição da missão.
Mas ainda havia um problema.
-- David está no plano terrestre.
Não há muito que eu possa fazer daqui.
-- Ah, isso... - Bob suspirou.
Encontre um médium para você.
Sabe o que eles são, não?
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:45 am

-- Quer dizer aquelas pessoas na Terra que nos vêem e ouvem?
Que serventia terá?
Bob fitou o rio e respondeu calmamente:
-- Alguma, se você encontrar alguém nascido médium.
Eles, por causa de seu carma pessoal, estão em missão.
Médiuns naturais estão na Terra para ajudar os outros.
Escolha um médium que tem coragem, porque ele terá de ser a ponte entre você e David.
Se tudo correr bem, o médium vai reunir Tom, David e você.
Não será fácil.
-- Foi o que eu disse - relembrei.
Ele ignorou meu gracejo e continuou com sua resposta.
-- Não procure por um santo.
A maioria dos médiuns está lidando com carmas muito complexos, os seus próprios.
Alguns - ele acrescentou com uma risada -- são complicados:
muito sensitivos e nervosos.
Muitos são exibidos e bastante arrogantes.
Seja cuidadosa, não deixe que o ego do médium atrapalhe.
-- Sabe de algum para me indicar? - torci.
Sem hesitação, ele respondeu:
-- Por acaso, sei, sim.

O fliperama cósmico

Antes de Bob voltar para sua vibração, ele me deixou com os seguintes pensamentos:
-- Se você precisar de mim, basta chamar.
Eu sei que isso parece missão impossível - disse, fazendo referência a um filme famoso.
E, de certa forma, seus colegas guias estão certos:
Tom e David vão, no final, fazer suas próprias escolhas.
Mas - garantiu -- eu conheço você, Maryanne, e estou certo de que fará tudo que puder.
Ajude-os a se libertar de si mesmos.
Faça o melhor, porque no fim das contas isso é tudo que alguém pode esperar.
-- É, parece mesmo fácil - suspirei.
Ainda não tenho a menor ideia de como começar.
-- Maryanne, procure pelos indicadores.
Eles estão por todo lado. Ninguém jamais está sozinho.
Você saberá o que fazer.
"Queria ter tanta certeza quanto ele", pensei, enquanto me preparava para diminuir minhas vibrações e deixar o calmo e plácido rio.
Bob, um espírito da quinta dimensão, havia descido seu nível para me encontrar na quarta dimensão.
Agora chegava a hora de baixar as minhas vibrações, assim poderia fazer contacto com o médium que vivia na terceira dimensão da Terra.
Um espírito pode visitar as vibrações mais baixas à vontade, mas só pode ir às mais altas por meio da evolução.
Deixe-me explicar, porque, quando Cristo disse "na casa de meu pai existem muitas moradas", ele estava falando das vibrações.
Na Terra, um espírito vive dentro de um corpo físico em um mundo tridimensional.
As dimensões são medidas de altura, largura e profundidade.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:45 am

A esfera terrestre também tem tempo no mundo físico, o tempo é uma linha; os eventos estão antes, durante e depois.
O tempo no lado astral é um círculo.
Os eventos são.
Não existem foram ou serão.
Há outras diferenças, também.
No plano astral as cores são ricas, profundas e puras.
O som ressoa com harmonia, melodia e subtons suaves não ouvidos na Terra.
Esta é uma explicação das mais simples.
Quando um espírito se liberta das limitações de seu corpo físico tridimensional, visões e sons são vistos e ouvidos em uma frequência mais alta e mais rápida.
É por isso que tive de diminuir minha vibração.
O contacto com o médium tinha de ser feito com exactidão, mas ao mesmo tempo eu tinha de manter minha única perspectiva da quarta dimensão.
Não é uma manobra fácil.
Apesar disso, era o que tinha de ser feito.
Se eu não diminuísse minha vibração ao mesmo tempo em que mantinha minha essência da quarta dimensão, o contacto com o médium seria malfeito, vago ou desconjuntado.
-- Algo assim com um rádio com uma antena de má qualidade - esclareceu Bob enquanto me dava alguns conselhos sobre como lidar com médiuns na Terra:
-- Alguns são muito chatos, principalmente quando incluem suas próprias personalidades e opiniões em nossas mensagens.
Alguns médiuns se consideram oráculos, visionários ou semideuses.
Não há nada que esteja mais longe da verdade, e é por isso que achar o médium certo é tão importante.
Rezei para que Bob tivesse acertado no médium que indicou.
Depois que fui checar seu histórico de vida, tive minhas dúvidas.
O nome dele é Harry Clark, mas eu já tinha arrumado um apelido para ele: Fliperama.
Harry tem quarenta e um anos de idade e, como uma bola de fliperama, ele percorreu sua vida sem direcção.
Ele cai num buraco, sai dele, daí cai em outro.
Ele vai para trás e para frente, rolando de uma experiência para outra, nunca se encaixando.
Harry Fliperama nunca teve sucesso em nada que tentou.
Sua vida começa com "ex":
ex-marido, ex-viciado em drogas, ex-aluno universitário, ex-corretor de valores, ex-de-tudo-um-pouco.
Eu sabia a causa de tanto "ex".
Harry encarnou na Terra para provar a realidade da vida além da terceira dimensão.
Sua mediunidade não era um talento, nem sequer um favor; eram um canal para ajudar os outros.
No entanto, por sua livre e espontânea vontade, ele abandonou a mediunidade.
Assim, ele é uma bola de fliperama, sempre quicando, nunca se acomodando.
Aos vinte anos, tentou se encaixar no buraco como um homem casado.
Foi jogado para fora.
Aos vinte e quatro, tentou a medicina: acabou largando no primeiro ano da faculdade porque estava entediado.
A vida o levou às drogas na tentativa de fugir das vozes que ouvia sem responder.
Quando tinha trinta anos, depois do divórcio, depois de desistir da faculdade e depois de largar as drogas, Harry, por intermédio de um amigo bem-intencionado, aceitou um emprego como corrector de valores.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:46 am

Ele era bom, às vezes ganhando trinta ou quarenta mil dólares num mês.
Para o mundo, parecia que Harry tinha achado seu caminho.
Mas não tinha.
Ele raramente gastava o dinheiro que ganhava; reinvestia a maior parte nas mesmas acções e papéis que vendia a seus clientes.
Ele vivia uma vida modesta, alugando um apartamento classe média num subúrbio de Dallas.
O dinheiro, o poder e o jogo de investimentos já não eram nada para ele, e mais uma vez pulou para fora do buraco.
Ele nunca se encaixava em lugar nenhum porque não era para ser assim.
Ele nasceu para fazer um trabalho, e o Universo lhe mandava sinais, mas Harry se recusava a vê-los.
E, como uma bola de fliperama, ele vagarosamente deslizou para onde estava agora.
Harry queria esquecer seu passado e seus fracassos.
Ele queria escapar da pressão dos amigos para que tomasse jeito na vida.
Ele queria fugir.
Assim, ele rolou para uma estância balneária no Texas chamada Livingston e comprou um bar.
A realidade é mais estranha que a ficção.
O fliperama cósmico o colocou onde eu precisava dele.
Seu pequeno bar ficava apenas a algumas quadras da prisão Terrell, onde estava o corredor da morte do Texas.
"Os sinais estão sempre lá, tudo que tem a fazer é olhar", recordei do conselho de Bob.
Cabia a mim ajudar Harry a ver esses sinais.

O hospital espiritual

Encontrei Harry servindo cerveja e dosando uísque em seu pouco movimentado bar.
O balcão sujo, cheirando a fumaça de cigarro e cerveja choca, não era exactamente o que eu esperava de um primeiro contacto.
-- Eu nunca pensei em aparecer num canto decorado com calendários de mulheres nuas, cabeças de veado empalhadas e letreiros da Budweiser em néon.
Assim, sem que você soubesse, esperei você sair - confessei a ele mais tarde.
Harry era um cara bem-apessoado.
A maioria das pessoas acha que ele tem menos de quarenta e um anos.
Eu também pensei:
ele aparentava no máximo trinta e cinco.
Seus cabelos pretos e encaracolados eram longos e fartos, sobre um rosto arredondado como o de um bebé, que estava apenas começando a mostrar pés-de-galinha nos cantos de seus olhos azuis.
Harry tinha um metro e setenta e seu corpo era forte, músculos saltando sob a camiseta enquanto ele lavava e enxugava copos de cerveja empilhados no bar.
"Nada mau para uma bola de fliperama", pensei rindo, ao decidir fazer contacto em seu apartamento, a duas quadras dali.
Bem agora, achei melhor sair do bar (se você viu um bar, viu todos) para dar uma olhada em Tom.
Pensar em Tom me levou até ele.
Ele estava em um hospital espiritual, situado em uma vibração de cura, no plano astral.
Apesar de estar em coma profundo, decidi começar a trabalhar com ele.
Um espírito não precisa estar consciente para a terapia; muito pode ser feito com um espírito passivamente suspenso no tempo.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:46 am

Ele e vinte e outros pacientes estavam em camas posicionadas no meio de uma grande sala circular de vidro, cercada por um jardim de flores multicoloridas.
Uma vibração púrpura de cura banhou a ala hospitalar com um zumbido tranquilo e, do jardim, veio um perfume suave, tal qual um incenso.
Tom estava no meio de um pequeno túnel formado por tons vibrantes de luz.
Porém seu espírito não via as sombras carregadas de azul, amarelo, branco e verde que o cobriam.
Um médico espiritual flutuava pelas luzes.
O curandeiro, chamado Lan, acenou e me pediu que o esperasse terminar seu exame.
Ian não tinha estetoscópio, não media a pressão e nunca pedia para o paciente dizer "aah".
Mas seus exames são
mais completos do que os de qualquer médico na Terra, porque Ian examinava o espírito.
Quando ele finalmente veio falar comigo, as novidades não eram boas:
-- Este espírito está profundamente perturbado.
Um desequilíbrio profundo e traumático borbulha em sua essência.
Estou preocupado, porque ele sofre do maior e mais perigoso tipo de anexação que existe.
Ao fundo, depois do vidro, pássaros brincavam no jardim multicolorido e raios brancos da luz do sol abençoavam o quarto do hospital.
Ian descreveu os diferentes tipos de anexação com os quais lidou ao longo de seu trabalho no hospital.
-- Primeiro, há a anexação ao prazer físico.
Esta é comum.
Espíritos desencarnados desejam comida, álcool, drogas ou sexo em diversos graus.
Os casos moderados são relativamente fáceis de resolver e raramente chega ao ponto de o espírito acabar em sua, assim chamada, morte.
Apesar disso, os casos mais sérios chegam a interferir no progresso do espírito.
O médico informou que existem muitos espíritos que são tão viciados nesses prazeres que querem reencarnar rapidamente, para então voltar a experimentar os prazeres da carne.
-- Essa pressa em voltar à esfera terrestre atrapalha o desenvolvimento espiritual deles.
Ian, olhando seus pacientes sendo banhados pela harmonia púrpura no grande quarto circular, pensou em outro caso:
-- Há a anexação ao ego; um espírito não consegue deixar sua personalidade terrestre.
Lembro-me de um espírito que, na Terra, era um homem famoso e importante.
Depois de sua morte, ainda pensava que era.
Anexado ao orgulho e à vaidade, esse espírito exigia o mesmo tipo de tratamento a que estava habituado na Terra.
O espírito não conseguia se libertar do passado e, em razão disso, não podia começar a entender o futuro.
Ian contou rindo como prescreveu o remédio:
-- Ele estava isolado.
O espírito bradava ordens, que eram ignoradas.
O espírito exigia atenção arrogantemente; ninguém ligava.
Isso se repetiu até que o espírito finalmente percebeu que já não estava mais na Terra.
Quando isso aconteceu, ele passou a buscar amigos ao invés de subordinados e ajuda ao invés de atenção.
Esse tratamento leva algum tempo para funcionar.
Depois confessou:
- Eu devia saber bem disso, já que o tolo egoísta era eu.
Na ala de vidro, alguns pacientes dormiam e outros recebiam conselhos de seus guias.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:46 am

-- Ele sofre - disse ele, indicando Tom com a cabeça - mesmo dormindo, ele vive e revive a agonia e dor da Terra.
A angústia é tão intensa que se torna parte dele.
Ele se prende à fúria e ao ressentimento que sente tão profundamente.
Ian sabia que esta era minha primeira missão.
Ele tinha suas dúvidas se eu ou qualquer outro guia poderíamos fazer algo de bom nesta etapa do jogo.
-- Vai ficar difícil, se não impossível, para que você o alcance.
Vai ser como enfiar um canudo de plástico na fenda de uma parede de tijolos.
Mas nunca se sabe - disse, dando de ombros e saindo de lado, me dando espaço.
Eu sabia o que me esperava, mas brinquei:
-- Doutor, esta é a melhor hora para trabalhar com eles.
Eles não respondem.
A propósito, como estão a mulher e a filha dele?
Ian afagou seu queixo e olhou pela janela.
-- Elas não estão aqui.
Este hospital é especializado em casos de anexação.
Elas estão apenas traumatizadas.
As duas estão bem.
Ele então disse que estava em contacto com os médicos que estavam cuidando delas para ajustá-las à sua rápida e repentina passagem.
-- Elizabeth está em choque.
Ela foi violentamente estuprada e assassinada, mas não está presa às suas emoções, como Tom.
Ela é mãe, e, uma vez que se reuniu com a filha, rapidamente se adaptou.
Jessica está ajudando mais do que jamais conseguiríamos.
Eu pensei no poder do amor materno e agendei mentalmente um encontro com Elizabeth e Jessica.
Elas seriam importantes na terapia de Tom, assim que ele estivesse pronto.
"Assim que ele estiver pronto", repeti essas palavras, perguntando a mim mesma quando seria.
Eu não tinha uma resposta.
Lendo meus pensamentos, o médico observou:
-- A esposa é diferente.
Ela não é tão intensamente racional quanto ele é.
Elizabeth, apesar do choque, está se ajustando melhor.
O marido - de novo indicou Tom com a cabeça ­ não pode aceitar ou entender o que aconteceu.
Ele é vítima de sua própria lógica e ordem.
Vi um clarão.
Achei que Ian estava prestes a me dizer alguma coisa, então insisti por detalhes.
-- Tom sempre se recusou a ter emoções.
Encarnação após encarnação, este espírito valorizou simetria e equilíbrio mais do que tudo.
Lógica, organização e razão são seus mantras sagrados.
Agora, tornou-se uma vítima dessa mesma lógica e razão.
Seu ser altamente evoluído racionalmente não pode penetrar na fatalidade do ato que destruiu uma vida que ele construiu tão meticulosamente.
-- Você disse que Elizabeth é totalmente diferente - cutuquei.
-- Bastante.
Ela é o que na Terra costumam chamar brincando de "espírito livre".
Ela literalmente emana paixão.
Para ela, lógica, ordem e detalhe são meios para um fim.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 04, 2016 10:46 am

Para Tom, lógica, ordem e detalhe é o fim.
Elizabeth viveu sua vida com emoção; Tom viveu com intelecto.
Eu estava certa de que nós chegaríamos a algum lugar, então continuei a questionar o médico:
-- Antes desta encarnação existia algum tipo de carma entre Elizabeth e Tom?
-- Nenhum - foi à resposta curta.
Era o que eu pensava.
-- E quanto a Jessica?
Algum carma entre Tom e ela?
De novo o médico respondeu que não.
Triunfante, revelei minhas suspeitas a Ian:
-- Aposto qualquer coisa que Elizabeth veio para a vida de Tom como uma professora, dando a ele a chance de sentir emoções que seu espírito sempre ignorou.
-- Pode ser ­ concordou o médico.
Eu tinha mais uma questão, mas bem lá no fundo já sabia a resposta.
Então, por ora, fiquei sem perguntar.
-- Ian, acho que você está certo:
não há como eu quebrar a redoma emocional em que ele está.
Você mesmo disse: seria como enfiar um canudinho através de uma parede de tijolos.
Ele está sentindo emoções que sempre reprimiu e agora simplesmente não sabe como lidar com elas.
Ian comparou o espírito de Tom com uma criança na Terra.
-- Imagine um bebé que, ao nascer, é colocado em uma bolha protectora e anti-séptica, à prova de germes, bactérias ou vírus.
Eu sabia aonde Ian queria chegar.
-- Tão logo a bolha se desfaz - eu acrescentei - a criança fica mortalmente doente, porque o corpo nunca foi exposto a todos os males comuns na infância, como resfriados, irritações de garganta ou dores de ouvido.
O médico explicou que a bolha protectora impedia a criança de desenvolver seu próprio sistema imunológico.
Quando a bolha lhe é tirada, o corpo é totalmente atacado por germes, bactérias e vírus.
O médico olhou para Tom e balançou a cabeça, frustrado.
-- Tom construiu uma bolha emocional ao seu redor.
Ele não sabe como lidar com sensações que nunca se permitiu sentir.
E, francamente, eu não sei como resolver isso, porque nunca vi nada assim - reflectiu tristemente e, mostrando sua frustração, continuou:
- Ele está preso em um ciclo.
Volta após volta, sua lógica altamente desenvolvida se torce, tentando analisar e entender.
Mas, quanto mais ele tenta, mais frustrado e revoltado ele fica.
Seu senso de lógica e ordem é tão refinado que ele simplesmente não consegue achar qualquer racionalidade lógica para os assassinatos.
Tom era uma vítima não apenas do assassino.
Ele estava se tornando uma vítima de si mesmo.
Pedi a meu amigo médico para raciocinar comigo:
-- Você diz que ele tem dois problemas.
Primeiro, a lógica que ele preza tanto não ajuda em nada no que aconteceu.
Segundo, ele está sendo confrontado com emoções que nunca se permitiu sentir antes e não sabe o que fazer com elas.
O médico concordou e esclareceu:
-- Como você pode controlar sua raiva se você nunca se permitiu ter raiva?
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Ave sem Ninho

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:01 am

-- Ou - completei - como podemos ter compaixão sem ter sofrido?
Como podemos perdoar se nunca fomos feridos?
Quando perceberemos que o ódio é tão importante quanto o amor, e a raiva tão importante quanto à gentileza?
O médico procurou explicar por que os espíritos que desencarnavam da Terra sofriam tantos problemas emocionais:
-- Eles aprendem, desde pequenos, que é errado sentir raiva, ciúme medo ou ambição.
Quanta besteira! - lamentou.
E aquele amor que é tão forte que chega a sufocar, ou a coragem tão cega que expõe ao perigo o corpo físico?
Crescer espiritualmente é reconhecer que as emoções são ferramentas da evolução.
Como pode alguém declarar que uma ferramenta é melhor que outra?
Um martelo não faz o mesmo que uma chave de fenda, e uma furadeira não servem como um alicate.
Cada ferramenta é desenhada para uma função específica.
Nada acontece por acaso.
Ian tinha razão, mas eu cultivava minhas próprias ideias sobre o papel das emoções na esfera terrestre.
-- Nós dois sabemos que a Terra é uma vibração intermediária - comecei.
Não é a vibração mais baixa, mas está longe de ser a mais alta.
Por estar numa posição intermediária, a Terra abriga espíritos dos mais variados tipos.
Percebi que Ian não havia entendido muito bem, mas o assunto o havia intrigado e ele pacientemente esperou que eu concluísse.
-- A Terra - continuei - é um lugar complicado.
É o lar de espíritos que atravessam suas primeiras encarnações.
Vamos chamá-los de Grupo Um.
Eles saíram de vibrações inferiores e seu progresso os trouxe para a Terra.
Muitos desses "calouros" estão apenas começando a compreender o que significam o livre-arbítrio e as escolhas.
Alguns se sentem incomodados com isso.
Esses espíritos esperam receber regras de conduta rígidas e inflexíveis, e na Terra há religiões que lhes oferecem isso.
-- Nunca havia pensado nisso - reflectiu Ian.
Mas você tem razão.
O médico aguçou os ouvidos, instigando-me a continuar.
-- Depois, há os espíritos intermediários, que chamaremos de Grupo Dois.
Eles vêm encarnando na Terra há muito tempo e, por várias razões, gostam dela.
Sentem-se atraídos pelos prazeres, emoções e confortos terrestres.
Para eles, no estágio de desenvolvimento em que se encontra, a Terra é óptima.
Ian achava que esses espíritos deviam ser a maioria dos que encarnavam na Terra, e ele estava certo.
Essas almas tinham se acostumado com a vibração terrestre.
-- Mas ainda há mais - emendei.
No Grupo Três se encontram os espíritos que estão encerrando seu ciclo de encarnações na Terra.
Eles estão prontos para seguir adiante.
Depois, há o Grupo Quatro.
Eles não fazem mais parte da vibração terrestre.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:02 am

Os espíritos desse grupo encarnaram na Terra para aprimorar um aspecto específico de seu desenvolvimento.
Depois vêm os espíritos do Grupo Cinco.
Estes retornaram voluntariamente à esfera terrestre.
Eles têm uma missão.
Ian, percebendo aonde eu iria chegar, comentou:
-- Isso explica por que há tantas religiões e crenças diferentes na Terra, cada qual atraindo espíritos de acordo com seu estágio de evolução.
Ele fez uma pausa, passeou lentamente os olhos pelo hospital e completou:
- E por isso que as almas terrestres são confusas em se tratando de sentimentos.
As diferentes religiões, com suas conflituantes mensagens de culpa, repressão e supressão de emoções, dificultam nosso trabalho.
Eu e o médico estávamos de acordo:
há tempo e razão para todo propósito.
Sensações como raiva, ódio e ciúme, tidas como erradas fazem parte da composição espiritual de todos, e nenhuma delas é mais certa ou mais errada.
O Criador permite que todas as emoções existam, especialmente na Terra, para que os espíritos possam aprender e evoluir com elas.
Lan e eu também sabíamos o que poderia acontecer se não convencêssemos Tom.
Lendo meus pensamentos, Lan falou:
-- Ele pode morrer - declarou de forma simples, porém dramática.
-- Sim - respondi num sussurro.
Não estávamos falando da morte física.
Espíritos são imortais e não morrem.
Falávamos da morte espiritual, na qual o espírito, soterrado pelos fardos que carrega, é acometido de uma paralisia que o impossibilita de seguir adiante.
-- Nós dois já testemunhamos espíritos vivendo na raiva, no ódio e no medo.
Eles habitam as trevas, escondendo-se da luz, penando nas terras obscuras, densas e sombrias do astral.
Esses espíritos não estão "mortos", mas estão desperdiçando o precioso dom da eternidade.
Olhei firme e demoradamente para Tom.
Pensei em sua vida, na forma como havia morrido e na situação em que se encontrava neste momento.
Projectei tudo na minha frente, não como eventos isolados e distintos, mas em toda a sua integridade.
Em outras palavras, olhei para Tom através de uma perspectiva universal.
-- Doutor, aposto que uma das razões pelas quais ele encarnou foi aprender a lidar com as emoções.
É óbvio: um espírito totalmente racional e sem nenhuma emoção casa-se com uma personalidade emocionalmente exuberante como Elizabeth.
Tenho quase certeza de que eles se conheceram nesta encarnação para aprender um com o outro.
Vejo Tom como um espírito do Grupo Dois.
Muito embora eu não conheça Elizabeth, posso assegurar que ela pertence ao Grupo Três ou Quatro.
O médico concordou, dizendo que ambos planearam o casamento antes de encarnar.
Mas ele não entendia o que isso tudo tinha a ver com o tratamento de Tom.
-- Chego lá num segundo - respondi.
Tenho certeza de que descobriremos que sua morte tem a ver com as lições que ele precisava aprender.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:02 am

Ian concordou:
-- Nada acontece por acaso.
Ele amava a mulher e a filha, mas elas eram apenas figurantes neste drama.
Ele nunca tinha convivido com elas.
Seu único contacto foi antes desta última encarnação, quando, por intermédio dos guias, eles decidiram se encontrar na esfera terrestre.
Mas restava ainda uma incómoda pergunta:
-- E onde entra seu assassino, David Heinz?
Houve contacto anterior entre eles?
Tratava-se de carma?
Ian sorriu e disse:
-- Acho que você sabe a resposta.
Resumidamente, repassei o problema que tínhamos em nossas mãos:
-- Eis aqui um espírito que encarnou para trabalhar suas emoções, ou, melhor dizendo, a falta delas.
Ele se apaixona, tem uma filha e, em razão de um acto de violência, seus dois amores morrem.
E ele também.
Agora - estiquei o braço e pousei-o sobre o espírito adormecido - ele está aqui, atormentado por sensações nunca antes experimentadas.
Um lento e largo sorriso se espalhou pela alma de Ian.
Ele finalmente tinha entendido aonde eu queria chegar.
-- Você vai ter de atingi-lo em sua própria lógica, não é?
-- Tenho outra escolha?
O médico suspirou e preveniu-me da dificuldade da tarefa:
-- O lado racional, do qual ele tem tanto orgulho, está sendo massacrado por emoções fora de controle.
-- É, doutor, ser guia não é nada fácil - brinquei.
Expliquei que eu teria de começar por algum lugar, e eu poderia atacar justamente o ponto forte do espírito:
-- Quando ele despertar, terá três caminhos diferentes para seguir.
O primeiro é a morte espiritual:
ele pode decidir que é mais cómodo refugiar-se nessa letargia que está construindo ao seu redor.
Ele será tragado pelas vibrações inferiores.
O médico estremeceu.
-- Se isso acontecer - comentou -, será preciso muito tempo e esforço para trazê-lo de volta.
Há vários espíritos que, depois de desencarnar da Terra, permanecem voluntariamente nessas vibrações durante séculos.
À medida que ele falava, eu me recordava das vibrações obscuras e distorcidas que vira no corredor da morte.
Como diz o ditado, "desgraça de muitos, consolo é".
Desfiz-me daquelas lembranças o mais rápido que pude e continuei a descrever as outras alternativas de Tom.
-- Ele poderá querer saciar a sede de vingança.
Vai tentar perseguir implacavelmente o assassino, tomando-se obcecado pelo crime e pelo criminoso.
O médico fez um grave aceno com a cabeça.
Por fim, falei da última alternativa e de como tudo se resumia a um grande "se".
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:02 am

-- Se eu puder apelar para sua razão e lógica e oferecer-lhe uma explicação por trás dos assassinatos, poderei resgatá-lo da escuridão.
Eu preciso oferecer a Tom algo em que possa se agarrar.
Este espírito necessita de uma arma, por menor ou mais frágil que seja, para lutar contra as trevas que o estão devorando.
Tinha chegado a hora de enfiar o canudinho na parede de tijolos.
De maneira calma, suave, tranquila e delicada, deixei meus pensamentos fluírem:
-- Tom, você está vivo.
Elizabeth e Jessica também.
Elas estão aqui comigo.
(Tudo bem, era mentira. Mas e daí?
As chances de que ele despertasse de seu coma e saísse para um piquenique em família eram nulas...)
-- Vocês três estão bem - continuei.
O pesadelo acabou. Você está a salvo.
Jessica e Elizabeth precisam de você. Você está vivo.
Não houve reacção, mas eu também não estava esperando nenhuma.
-- Tom, quando você acordar, terá algumas escolhas a fazer.
Algumas vozes lhe dirão aquilo que você quer ouvir.
Elas vão mentir e farão o que puderem para chamar sua atenção.
Não dê ouvidos a elas.
Ian concentrou-se apreensivamente nos redemoinhos coloridos ao redor de nosso paciente.
Sua aura não se havia alterado.
-- Haverá mais uma voz.
A voz da lógica e da razão.
Essa voz o forçará a entender o significado de sua morte.
Essa voz é a voz da verdade. Ouça-a.
Ian constatou que a aura do paciente continuava inalterada.
No entanto, continuei determinada a enfiar o canudinho na parede.
-- Tom, você está mais vivo do que nunca.
A voz vai provar-lhe isso de maneira lógica e racional.
Passo a passo, ela lhe mostrará como tudo deve ser.
Dê atenção a essa voz e não àquelas que têm respostas fáceis.
Essas falam com seus temores; a outra fala com a razão.
A escolha é sua.
A recuperadora vibração púrpura se intensificou.
No túnel, as cores em redemoinho que analisavam a aura do paciente estabilizaram-se e mesclaram-se em uma única e harmoniosa vibração.
Fiz o melhor que pude, mas não tinha a menor ideia de qual voz ele iria acatar.

Oi, Harry

Nem eu nem o médico sabíamos se eu havia conseguido me comunicar com Tom.
No entanto, havia uma coisa com que podíamos contar:
mais cedo ou mais tarde ele estaria acordado.
Nós não fomos criados para desperdiçar nossa existência dormindo em um casulo protector.
Porém, enquanto ele ainda dormia, não havia nada mais que eu pudesse fazer.
Assim, tinha tempo de ir ao Texas dizer um alô para Harry.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:02 am

O brilhante círculo de vidro da ala hospitalar ficou para trás e eu me encontrei em um pequeno flat de um quarto em Livingston, Texas.
Harry morava ali e o lugar era um lixo.
O apartamento parecia que tinha sido mobiliado com peças conseguidas com o Exército da Salvação.
O quarto era um desastre:
roupas sujas estavam empilhadas num canto; a cama, jogada no meio do cómodo, não estava arrumada.
Um horroroso abajur de cerâmica alaranjada sobre um criado-mudo de madeira lascada era o que tinha de melhor no quarto; um pequeno guarda-roupas com camisas caindo de seus cabides e um tapete cinzento de viés complementavam a decoração.
A sala de estar não era muito melhor que isso.
Mantendo o estilo Exército da Salvação, lá estava um sofá surrado de um marrom desbotado com uma colcha amarela jogada sobre ele.
Ao lado havia uma poltrona de couro preto descascado torta para a direita.
Um televisor em cores com uma tela suja e empoeirada estava plantado contra a parede e uns trinta ou quarenta livros estavam amontoados ao redor, desordenadamente, no canto do assoalho nu.
Na cozinha, encontrei uma geladeira barulhenta, uma pequena pia esmaltada repleta de louça suja e uma mesa onde um jornal aberto estava todo coberto com farelos de pão.
Uma xícara, contendo o resto frio do seu café da manhã, estava largada sobre algumas correspondências ainda não abertas.
Este era o lar doce lar de Harry, seu refúgio mais do que particular para o mundo.
Ele entraria em seu abrigo a qualquer minuto, sua rotina nunca mudava.
Quando o turno de Harry no bar terminava, ele jantava uma pequena refeição perto de lá.
Então parava para comprar o jornal de Houston e talvez alguma coisa para comer em casa.
Ali pelas sete e meia, ele estaria subindo as escadas de seu pequeno apartamento.
Sem sequer pensar, iria ligar a TV, sentaria na cadeira torta, leria seu jornal e cairia no sono.
Nesta noite, eu iria dar uma agitada na sua rotina.
Em algum ponto desse incessante redemoinho nocturno, eu iria aparecer.
Na verdade, venho lentamente fazendo um contacto com ele.
Harry sabe que algo está por vir; não se esqueça de que o sujeito é um médium.
Há umas poucas manhãs, enquanto se barbeava, eu timidamente revelei minha presença.
Ele me sentiu, e um arrepio subiu e desceu por sua pele.
Ele olhou sobre seu ombro e deixou escapar um suspiro de tédio.
Mais tarde naquele dia, caminhei ao lado dele quando saiu do bar e ele sentiu um zunido na orelha direita.
Ele rosnou e sacudiu a mão no ar.
Disse ao espírito que o estava incomodando, ou seja, eu, que o deixasse em paz.
Mas naquela noite o jogo de esconde-esconde teria um fim.
Harry abriu a porta de seu apartamento.
Trouxe uma pequena sacola com um pacote de pão de forma, café, três garrafas de cerveja e o jornal da noite.
Harry deu uma boa olhada pelo apartamento, andou até a cozinha e pôs a sacola sobre a mesa onde o jornal da manhã ainda jazia aberto.
A manchete alardeava:
JULGAMENTO DE ASSASSINATO TRIPLO COMEÇA AMANHÃ.
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