Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:02 am

O rosto de David Heinz estava estampado na primeira página perto de pequenas fotos de Tom, Jessica e Elizabeth.
A legenda sob a foto trombeteava:
PEDIDA PENA DE MORTE PARA O ESTUPRADOR E ASSASSINO.
Sem tirar os olhos do jornal, Harry disse em voz alta:
-- Se você não está aqui para me dar os números ganhadores da loto de amanhã, vá embora.
Como não havia ninguém mais na sala, presumi que ele estava falando comigo.
Como não respondi, ele anunciou:
-- Não vai adiantar nada, ele vai morrer.
Esse cara era melhor do que eu pensava.
Todo o meu plano elaborado voou pela janela.
-- Você está certo - retruquei.
Será um julgamento rápido.
Ele será mandado aqui para Livingston e colocado no corredor da morte.
É apenas a algumas quadras daqui, não?
Você, Harry Clark, vai ajudá-lo.
Pensei que podia ir directo ao ponto.
Aquele sujeito não era nada bobo.
Ele riu.
-- E o que a faz pensar que me importo com esse vagabundo?
Olha aqui - Harry batia com o dedo no jornal com indignação -, ele estuprou e estrangulou uma mulher até a morte, matou uma menininha, depois atirou no peito do pai dela.
Por que eu o ajudaria?
Vá amolar outro.
-- Não há mais ninguém.
Fui mandada para você.
Harry ainda não havia desviado o olhar de seu jornal, e fazia o possível para me ignorar.
-- Existe uma porção de videntes por aí.
Ligue a TV, e ligue já, eles estão todos lá e só cobram 1,99 o minuto.
Pegue um deles, aposto que ficarão felizes em ajudar - sua voz gotejava sarcasmo.
Eu estava preparada para essa sua atitude.
Na verdade, Harry não sabia o quão preparada eu estava.
-- Você pode estar certo, mas é o único que está em Livingston, Texas, morando a poucas quadras do corredor da morte.
Ele finalmente tirou os olhos da foto com o sorriso sacana de David Heinz, e, quando o fez, Harry viu uma menina negra de dezasseis anos de idade parada à sua frente.
Eu usava a forma de minha última encarnação, esperando que uma aproximação simples e directa fosse melhor.
Estava certa de que Harry não se impressionaria com "o ser luminoso ou o velho homem sábio" já manjados.
Ele riu e perguntou por que mandaram uma criança.
Eu perdi a esportiva e disparei:
-- Você também não é exactamente o que eu esperava -- e, irritada, disse a ele que, se fosse por mim, nem me preocuparia em vir.
Alguém me mandou porque eu tenho um trabalho a fazer.
Mas, se está acima disso, então faça você.
Harry desligou a TV, e o pequeno e bagunçado apartamento ficou quieto.
O médium saiu de sua poltrona reclinável e andou devagar pela sala.
Ele nunca afastou os olhos de minha aparição.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:03 am

-- Eu poderia pedir que você fosse embora.
E você teria de fazer isso.
Não pode me forçar a fazer nada contra minha vontade.
Estas ainda são as regras, não são?
Eu disse a ele que nenhuma regra havia mudado.
Fiz uma pausa rápida e desafiei:
-- Por que não me pede para ir, então?
Decidi ver se estava blefando.
Mas, ao invés disso, o médium respondeu minha pergunta com outra pergunta:
-- Você disse que alguém a mandou. Quem?
Ao menos sua curiosidade havia sido despertada e minha resposta o intrigaria ainda mais.
Mas o jogo de perguntas pode ser jogado por dois.
-- Eu lhe falo daqui a pouco - prometi.
Mas existe uma coisa que está me incomodando desde quando soube de tudo a seu respeito. Por quê?
-- Por que o quê? -- rebateu ele.
-- Por que você desistiu?
Por que parou de usar o talento com o qual nasceu?
Estou curiosa.
Harry praguejou baixinho.
Ele parou de andar e se acalmou, sentando no chão, no meio da sala de estar.
Ele tentava organizar suas ideias.
-- Quando eu era menino, meu guia me disse que nasci para ajudar os outros - começou, entediado.
Nasci para fazer uma diferença na vida das pessoas.
Harry cuspia as palavras:
- Não funcionou.
Eu nunca fiz nenhuma diferença.
As pessoas não se importam.
Eu era um entretenimento, uma aberração, ou alguém que eles alugavam vinte e quatro horas por dia para responder a suas perguntas ou amenizar seus medos e ansiedades.
Mas ninguém levava esse negócio a sério.
Foi por isso que desisti.
Harry alternava entre tristeza, desespero e raiva enquanto explicava suas razões para interromper seu contacto com espíritos e praticamente com o mundo em que vivia.
Havia tristeza em sua voz quando ele disse:
-- Eu queria provar que a vida não acabava com a morte.
Ao mostrar para aquelas pessoas que a Terra era apenas uma pequena parte de suas vidas, pensei que iriam viver de modo diferente.
Eu os confortava com uma mensagem de uma mãe, um filho, uma filha... e daí?
Você pensa que alguém ou alguma coisa realmente mudava?
Não, as pessoas simplesmente continuavam com suas vidas, meio que acreditando na comunicação e meio que acreditando que eu era algum tipo de aberração ou charlatão.
Eu não o interrompi e continuei a ouvir suas frustrações:
-- Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, uma sinfonia interminável de perguntas:
o que eu achava disso, o que eu achava daquilo.
Nunca uma folga, e ninguém nunca se importou com meus problemas, sentimentos ou ansiedades.
Mas não eram apenas as pessoas que não me davam trégua.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:03 am

Havia os incontáveis espíritos desencarnados exigindo que os ajudasse a achar a luz, implorando por contactos, e assim por diante.
Eu sentia todo o medo frio, a dor que queimava, o peso da angústia e do sofrimento dos dois lados, espiritual e terrestre.
Não aguentava mais aquilo.
Eu ouvia silenciosamente tudo que Harry estava dizendo.
Sabia que não devia interrompê-lo.
Agora a revolta crepitava em sua voz:
-- Eu tinha isso com o mundo.
Todas as pessoas só ligavam para seus empregos, dinheiro e relacionamentos.
Juro que fiz o melhor.
Tentei ajudá-los a ver além de seu cotidiano mesquinho e entender o que tudo significava.
Não fez bem algum.
Sempre as mesmas perguntas:
vou ter sucesso, vou achar um namorado, o que o futuro me reserva, de novo e de novo.
As pessoas são tão egocêntricas.
Então, agora chega.
O médium voltou sua frustração para mim.
-- E agora vem você, valsando nesta patética vida que eu construí, querendo me usar para ajudar um assassino?
Você é maluca?
Este sujeito - ele agora estava em pé, com o jornal nas mãos e chacoalhava a foto de David na minha frente -, este sujeito não dá a mínima para a vida, evolução espiritual ou qualquer outra coisa que você possa querer lhe dizer.
Olhe para ele - sacudiu o jornal -, não pode ver o que ele é?
Ele tem tons cinzentos ao seu redor.
Ele vai morrer e eu não acho realmente que ele se importa.
Harry estava emocionalmente exausto.
Aquela devia ser a primeira vez que ele falava de sua mediunidade.
-- Vá procurar outro. Estou fora.
Não quero nada com este inútil, com corredor da morte ou com problemas cármicos universais.
Eu não ligo. Tentei e fracassei.
Talvez eu faça certo numa próxima vez.
Ele se jogou em sua poltrona e perdeu o olhar no espaço.
Eu sabia que era minha vez de jogar.
Percebi que aquele surrado apartamento era a vida de Harry.
Ele não queria nada com o mundo ou suas responsabilidades.
Ele podia ser assim. Tinha o livre-arbítrio.
Meu trabalho era trazê-lo de volta à vida e ajudá-lo a entender por que ele havia nascido.
Tinha chegado a hora.
Teria de ser naquele momento ou nunca mais.
Eu tinha de trazê-lo de volta nos próximos instantes.
Ele podia dizer não e eu teria de partir; não poderia forçá-lo.
-- Não pode ver que é igual aos que critica? - sugeri.
Ele me respondeu com um olhar vazio.
Ele não tinha a menor ideia sobre o que eu estava falando.
Fiquei mais do que feliz em explicar:
-- Você pode ver além deste mundo.
Você sabe mais do que a maioria das pessoas o que vem antes e o que vem depois.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:03 am

Ter esse conhecimento fez alguma diferença no modo como viveu sua vida? - desafiei.
O médium não respondeu.
-- Você arrumou sua vida em um pequeno e surrado apartamento de um quarto só.
Você tentou se isolar do resto do mundo.
Encare, Harry, você não está, como disse, cheio desse mundo mesquinho; você está é fugindo da responsabilidade que tem com o mundo.
Mais uma vez, ele não deu nenhuma resposta.
Fui adiante.
-- Quero ajudar um homem que está indo para a prisão.
Mas você é um prisioneiro também.
Você está preso ao seu ego e ao seu orgulho.
Você acha honestamente que tem o poder de mudar o mundo?
Dê um tempo, Harry, e, enquanto isso, dê um tempo a si mesmo.
Eu sabia que estava sendo rude, mas vi que não tinha nada a perder.
Segui atacando com o que eu podia.
-- Você, entre todas as pessoas, é quem mais deveria saber que nada é por acaso.
Por que você acha que tem esse talento?
Agora há pouco, você quis saber quem me mandou.
Ainda quer saber?
Eu estava ganhando tempo para jogar minhas melhores cartas.
Ainda com o olhar perdido, Harry assentiu.
-- Um velho amigo.
Você o chamava de Bob - informei.
Ele me disse para reactivar toda aquela história.
Finalmente, consegui uma reacção:
-- Eu sempre me preocupei com isso.
Quando tinha dez anos de idade ele me disse que em outra vida eu havia sido parte das sombras, as que eu costumava chamar de 'os malvados'.
Então, qual é o trato?
O que eu fiz, também matei alguém?
-- Existem diferentes tipos de assassinatos, Harry.
Você nunca matou alguém realmente, mas você foi responsável pela morte de muitos.
Harry ficou chocado.
Ele nem sequer podia imaginar o que eu estava falando.
No entanto, ele ficou mudo quando uma vida passada se abriu à sua frente.
Sem nenhuma emoção, comecei a lhe contar como ele, por causa de acções e intenções, se conectou com as mais baixas vibrações negativas.
-- Esta não foi sua mais recente encarnação, devo dizer.
O médium viu, primeiro de modo turvo e sem foco, a imagem de um homem de uns quarenta anos escrevendo em uma mesa.
-- Este é você, na época terrestre de 1866.
O fim da Guerra Civil americana.
Já deve estar se lembrando, agora.
Harry fitou a imagem que se formava lentamente.
-- Sim, posso lembrar.
Eu era um redactor de jornal.
-- Você era mais do que isso.
Você era proprietário e editor de uma influente cadeia de jornais diários no sul.
Harry voltou para aquele tempo e lugar.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:03 am

Tudo ganhava foco à medida que ele assistia aos eventos ao seu redor.
-- Eu me lembro dessas coisas todas - foi tudo que ele disse.
-- Você se lembra o quão amargo você foi quando o sul perdeu a guerra? - acelerei sua memória.
Harry fez sinal de positivo com a cabeça.
-- Você usou seu jornal, sua influência e seu talento com as palavras para incitar seus leitores.
Pode se lembrar do que escreveu?
Novamente, Harry meneou a cabeça afirmativamente.
-- Culpei os negros, os liberais do norte, católicos e judeus.
Escrevi que negros nada mais eram do que gado, católicos não eram americanos leais e os judeus mataram Cristo.
Mas o pior disso é que eu sabia que tudo era bobagem.
Bem lá no fundo, eu sabia.
Eu sabia que estava errado, mas ainda assim eu fiz aquilo, porque isso traria votos para os candidatos que eu apoiava.
Harry sabia que o que ele plantou ajudou a justificar a Ku Klux Klan e levou ao linchamento de negros, assistentes sociais do norte e judeus por todo o sul.
Ele, além de incontáveis outras acções praticadas por incontáveis outros indivíduos, ajudou a criar a vibração do racismo, ódio e desconfiança que ainda hoje ferem profundamente a sociedade americana.
-- Mesmo sabendo que o que estava imprimindo era um grande lixo, publiquei de qualquer forma.
Sou mais do que responsável pelas minhas acções, porque eu sabia muito bem - lamentou.
Aquela encarnação terminou em 1876, e, embora ele nunca tivesse matado um único ser humano, seus textos e pensamentos o fizeram.
O carma foi criado.
Harry, naquela vida de tempos atrás, usou o poder, a inteligência e a posição social para alimentar o ódio e o fanatismo e favorecer suas ambições políticas.
Ele não era ingénuo, assim seu carma se aprofundou.
Harry havia sido presenteado com um grande privilégio:
o de ver em uma vida o que fizera em outra.
-- O talento que você tem, Harry, é para ajudar os outros.
Você nasceu como um médium para ajudar espíritos terrestres a vencer o medo da morte e para levantar o testemunho de uma vida depois desta.
Você nasceu, desta vez, para falar as verdades eternas da igualdade e irmandade.
Você veio a este mundo para mostrar o laço espiritual que nos une a todos, um ao outro.
Harry olhou para mim e perguntou:
-- Alguém ouve de verdade?
Respondi dizendo que ele viu os resultados de sua encarnação anterior, "muita gente ouviu você naquela época".
Mas expliquei a ele que ele não era um juiz.
-- Nenhum de nós pode julgar o outro.
Nenhum espírito segue o mesmo caminho, nenhum espírito tem o mesmo carma.
Por exemplo, como você pode criticar alguém depois daquela encarnação anterior?
Harry ficou mudo.
Quando ele finalmente falou, tinha um sorriso em seus lábios:
-- Então eles me mandam uma menina negra, de uns dezasseis anos de idade, para convencer um racista do sul a ajudá-la a fazer contacto com um assassino.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:04 am

Quem disse que o Universo não tem senso de humor?
Eu tive de rir.
Estava começando a gostar daquele cara.
Mas não havia tempo para papo furado.
Nós dois sentimos que havia dois outros espíritos na sala.
Minhas duas últimas cartas tinham chegado.
Os dois espíritos se apresentaram a Harry fazendo com que ele notasse suas presenças.
Ele olhou para cima e viu os espíritos de duas mulheres maduras.
-- Ajude meu filho - implorou o primeiro espírito.
-- Ajude o meu também - pediu o segundo.
Harry sabia quem elas eram.
A primeira era a mãe de David.
A segunda era a mãe de Tom.
O ciclo estava completo.
Harry, um prisioneiro do seu próprio ego, foi chamado para ajudar David, que logo seria prisioneiro do corredor da morte.
Harry, um prisioneiro do seu próprio passado foi chamado para ajudar Tom, um prisioneiro de sua própria revolta.
E eu, Maryanne, uma garota negra de dezasseis anos assassinada, reuni um velho racista, um assassino e sua vítima.
O Universo não apenas tinha senso de humor, também tinha algum talento dramático!
Ou poderia isso ser senso de justiça?
As duas mães esperavam por uma resposta.
Harry olhou para elas e depois para mim.
Ele prometeu fazer o melhor possível.
-- Agora, caiam fora daqui todos vocês - exigiu.
Tenho um longo dia pela frente.
Tenho de ir assistir a um julgamento em Houston.
Eu estava pronta para sair, mas não resisti e disse umas palavrinhas de despedida.
-- Harry, só mais uma coisa.
Contrate uma faxineira, este lugar está um lixo.

O começo do fim

O dia seguinte era o primeiro dia do julgamento pelos assassinatos.
Harry decidiu fazer a viagem de uma hora de carro até Houston para assistir.
-- Convencer a mim para ajudar foi a parte fácil ­ reflectiu o médium.
Agora temos de achar um jeito de convencer o assassino a nos deixar ajudar.
A questão não era se David precisava ou não de nossa ajuda.
Tanto Harry quanto eu sabíamos o resultado do julgamento: a pena de morte.
-- O julgamento é minha chance de vê-lo bem de perto - explicou o meu mais recente cúmplice recrutado.
- Preciso me afinar com ele e com o que está ao seu redor.
Harry saiu de Livingston às cinco da manhã; ele queria se assegurar de que pegaria um bom lugar.
Sete meses antes, o crime tinha ganhado a atenção do público e ele tinha certeza de que uma multidão estaria esperando as portas do tribunal se abrirem às dez.
Eu, claro, não tinha de me preocupar sobre onde sentar.
Meditei e então logo estava lá, enquanto Harry entrava pelo enorme tribunal de paredes forradas de mogno, com mais de cem outros espectadores.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:04 am

Nós estávamos lá quando uma escolta policial de quatro homens colocou o arrogante réu no meio de uma mesa de carvalho longa no canto direito do tribunal, perto de seu advogado.
Apesar de mais magro, ele não estava muito diferente de quando o vi pela primeira vez na cena do crime.
Seus olhos espelhavam seu modo desafiador, e seu já famoso sorriso sacana, que fora impresso e filmado pela mídia local durante os últimos meses, estava estampado em seu rosto.
Do outro lado da sala, distante uns seis metros em espaço aberto, a acusação aguardava atrás de uma pequena e bem organizada pilha de pastas coloridas.
Atrás das duas mesas, da defesa e da acusação, o público estava sentado.
Harry se posicionou na terceira fila, o mais à esquerda que lhe foi possível, assim teria uma boa visão do réu.
O médium não se importava com o julgamento; estava interessado em David.
Na frente do tribunal, sentava-se um juiz de toga preta.
Este, postado sobre uma plataforma elevada por trás de uma tribuna de carvalho, estava entre as bandeiras americana e a do estado do Texas.
Do seu lado esquerdo estava o espaço do júri, onde doze cidadãos comuns de Houston esperavam ansiosamente que o julgamento começasse.
Esta era a cena vista a olho nu; mas eu via além deste jogo tridimensional prestes a se iniciar.
Eu me posicionei bem no centro da sala, entre o juiz, júri, promotoria e defesa.
No espaço vazio da sala de carpete azul, eu tinha o melhor lugar da casa e a perspectiva de minha vibração mostrava exactamente o que estava acontecendo no interior deste átrio da Justiça.
Em pé atrás de David estava o espírito de uma pequena mulher grisalha.
Seu nome era Dorothy.
Ela era a mãe de David que morreu de câncer quando ele tinha sete anos de idade.
Eu senti a tristeza e a frustração enquanto ela tentava, em vão, fazer contacto com seu filho.
-- Davie, Davie.
Você não está sozinho.
Mamãe está aqui.
Não tenha medo - murmurava, enquanto acariciava os cabelos pretos e crespos do filho de vinte e seis anos.
David Heinz era um assassino e estuprador frio e sem coração para todos os que estavam sentados naquele tribunal, mas para sua mãe o "Davey Ondinhas", como ela o chamava, era seu filho e ela estaria ao seu lado quando ele fosse julgado por sua vida.
Dorothy sabia que David era culpado e seria sentenciado à morte.
Mas, ainda assim, Davey Ondinhas era seu garotinho.
-- O que mais posso fazer?
-- Suplicava ela para mim do outro lado da sala.
-- Nada e tudo.
Mande a ele todo o amor que puder e talvez, quem sabe, amolecerá seu coração e ele vai ouvir quando nós o chamarmos.
Indiquei Harry com a cabeça quando disse isso.
Harry, que também viu Dorothy, ouvia nossa conversa.
Ele lhe deu um sorriso encorajador e apontou na direcção do júri, que acabava de tomar seu lugar à minha esquerda.
Estudei os doze jurados e encontrei um reflexo de cada pensamento, ideia e emoção presente na esfera terrestre.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:04 am

Eu podia apenas adivinhar quais forças cármicas seriam movimentadas por este julgamento.
O carma nunca deixa de me fascinar.
Muito tempo atrás eu aprendi que a intenção, não a acção propriamente dita, é o que determina como as rodas do carma são alinhadas.
Deixe-me dar um exemplo de intenção.
Três pessoas doam a mesma quantia em dinheiro para a caridade.
O primeiro homem, enquanto assina o cheque, diz a si mesmo:
-- Meu contador disse que, se eu diminuir minha faixa de contribuinte de imposto vou economizar mais de cinco mil dólares.
O segundo manda seu dinheiro esperando que seja recompensado por sua contribuição.
-- Quando for perguntado se eu ajudei os outros, posso dizer que sim - diz a si mesmo pensando no famoso dia do juízo final.
A terceira pessoa envia seu dinheiro alegremente para a caridade.
-- Estou indo bem - avalia o homem -, mas há aqueles que não estão.
Na Terra, todas as três doações têm o mesmo efeito.
A mesma quantidade de comida, roupas ou remédios é comprada com as três contribuições.
Mas a posição das rodas do carma é algo diferente.
Os primeiros dois homens tinham a mesma intenção:
ganhar, quer seja nesta vida ou na próxima.
As intenções foram egoístas.
A terceira pessoa, no entanto, pensava no próximo, pensava nas pessoas ajudadas pelo dinheiro.
Mesmas atitudes, mesmos resultados, mas intenções diferentes trazendo carmas diferentes.
Vale lembrar que o carma não é uma recompensa ou retribuição, é simplesmente a consequência da intenção por trás da acção.
Eu vi diferentes rodas do carma sendo postas em movimento pelo drama terrestre que estava para começar enquanto cada pessoa envolvida trazia suas próprias intenções, desejos e expectativas.
Vejamos Jim Baldwin, o alto e distinto promotor, por exemplo.
Ele é um homem relativamente jovem, tem apenas trinta e nove anos.
Ele tem grandes ambições políticas.
Baldwin sonha em ser o próximo governador do Texas e eventualmente um senador dos Estados Unidos.
Ele, e não algum promotor assistente, está pessoalmente comandando esta acusação porque ele sabe que é fácil ganhar e trará a ele a publicidade necessária para alavancar seu futuro.
Este promotor sabe que a pena de morte, como inibição à criminalidade, fracassou terrivelmente.
Texas tinha o maior corredor da morte e a mais activa câmara de execução nos Estados Unidos, mas o Texas também é o estado com um dos maiores índices de assassinatos.
No entanto, ele ainda assim iria pedir aos jurados a pena de morte.
Não porque isso iria reduzir o crime no Texas, mas porque ele sabe que, condenando David Heinz à morte, eleitores por todo o estado veriam que Jim Baldwin é duro com o crime e impiedoso com assassinos.
O promotor não se importava com a justiça, mas sim com o que lucraria.
As rodas do carma de Baldwin giravam lentamente.
Mark Hartman é um dos doze jurados.
Ele é um major reformado do Exército, alto e empertigado.
Em sua encarnação anterior, este espírito sofreu porque não sabia lidar com o livre-arbítrio.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:04 am

Então, antes de reencarnar, ele procurou um ambiente onde riscos e escolhas seriam limitadas e assim poderia reaprender a usar sua vontade própria.
Foi por isso que ingressou no Exército americano:
este espírito necessitava de limitações.
Hartman não teria nenhum problema em votar pela pena de morte.
Ele honestamente sentia que estaria cumprindo seu dever cívico e contribuindo com a ordem e a disciplina da sociedade.
Sua intenção era deixar claros e definidos os limites morais para a sociedade.
Mesmo que estivesse participando da morte de um ser humano, seu carma seria diferente do que teria o promotor público.
A jurada sentada à esquerda de Hartman era uma mãe de vinte e oito anos de idade, de um bairro próximo de onde Tom e Elizabeth viviam.
Ela temia homens como David e estava ansiosa em fazer parte deste júri.
Esta mulher lamentava por Elizabeth e sua filhinha morta e votaria pela pena de morte para vingá-las.
As rodas girariam para ela diferentemente de como girariam para Hartman ou para o promotor.
O terceiro jurado era um espírito interessante.
Eu podia ver que estava próximo de sua última encarnação na Terra.
Ele viveu uma vida curiosa.
Primeiro, como um marujo mercante, viajando e conhecendo quase todos os países do planeta.
Agora ele era um motorista de táxi, escolhendo esta profissão para que pudesse ter contacto com as mais variadas personalidades vivendo na esfera terrestre.
O homem de vinte e cinco anos que continha este espírito estava feliz por estar neste júri.
Ele via isso como mais uma experiência de aprendizado na qual poderia descobrir ainda mais sobre si mesmo e seus colegas humanos.
Este jurado tentaria convencer o resto do júri a votar contra a pena capital e a favor da prisão perpétua.
Mas, no final, ele se renderá à maioria.
Ele não se prenderia às próprias convicções e seria convencido pelos outros onze.
O carma para este motorista de táxi seria, sem dúvida, muito diferente do dos outros.
Este júri era mesmo um mosaico de diferentes níveis de desenvolvimento espiritual na esfera terrestre.
E, em poucos dias, este mosaico mandaria um de seus iguais para a câmara da morte.
Enquanto eles deliberavam atrás de portas trancadas, encontrariam todas as justificativas pessoais de que precisavam.
A Bíblia: "Olho por olho, dente por dente" seria uma citação bem popular.
Escândalo moral: "O canalha assassinou três pessoas inocentes".
Bom senso: "O que quer fazer: trancar o cara pelo resto da vida, às custas de quem paga imposto?"
Dever cívico: "Temos o direito de nos proteger contra esse tipo de gente".
Mas todas as citações bíblicas, a indignação moral e os apelos ao bom senso ignoravam um facto importante:
David Heinz, não importa o quão repulsivo ele possa parecer, era um espírito.
Ele é um estuprador e é um assassino, mas seu espírito jamais está além da redenção.
Tanto Harry como eu estávamos neste tribunal para ajudar a ambos, assassino e vítima.
Queríamos que os dois espíritos continuassem livremente sua própria evolução sem quaisquer conexões cármicas entre eles.
Não seria uma missão simples.
Tom teria de esquecer de David, teria de perdoar.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 05, 2016 11:05 am

David teria de desistir de sua personalidade egoísta, arrogante e distorcida para entender o grande crime espiritual que cometera.
Finalmente, ele teria de assumir a responsabilidade por seus actos e entender que seu encontro com o carrasco era meramente um começo, e não o fim.
Harry, sentado na terceira fila, não dava a mínima para o drama cármico que era escrito naquele tribunal.
Ele se concentrava em David, tentando achar um meio de convencer o jovem assassino a deixá-lo ajudar.
O médium assistiu a quando o espírito da mãe acariciou a cabeça do filho.
Harry olhou e, indicando com a cabeça onde Dorothy amparava David, sorriu.
-- Achei o que estava procurando - disse Harry a mim, em pensamento.

O fim do começo

Harry estava certo: não tínhamos de acompanhar o quotidiano do julgamento.
Na realidade, seriam dois julgamentos, o primeiro para determinar se David era inocente ou culpado. Este duraria quatro dias.
A promotoria tinha o revólver de David e as balas desse revólver eram idênticas às retiradas dos corpos de Tom e Jessica.
David foi implicado pelo teste de DNA feito no esperma achado em Elizabeth, e suas digitais estavam em todo o carro.
Era um caso praticamente encerrado.
A defesa não tinha testemunhas para chamar.
A segunda fase devia determinar se ele merecia a pena de morte ou prisão perpétua.
A promotoria mostraria aos jurados fotos da cena do crime:
o corpo de Jessica coberto de sangue e closes de sua cabeça dilacerada pelas balas de David.
Eles mostrariam terríveis fotos de Elizabeth:
seu corpo violentado e os hematomas causados por seu assassino.
A promotoria chamou o pai de Tom, que disse ao júri que jamais iria ver seu filho ou sua neta de novo.
Contendo as lágrimas, ele implorou ao júri que enviassem o assassino para a morte:
-- Meu filho era um professor e minha neta tinha apenas três anos de idade.
O assassino deles não tem o direito de viver.
Vinguem meu filho, sua esposa e minha neta.
Façam a coisa certa e mandem este monstro para a morte.
Os pais de Elizabeth, que falaram por meio de um tradutor de espanhol, contaram ao júri o buraco que David havia aberto em suas vidas, levando embora sua filha e sua neta.
O velho casal disse ao júri que acreditavam que Deus não havia criado David Heinz, porque o matador não tinha alma.
-- Como poderia Deus criar um homem assim, que mata sem sentir culpa?
Deus não faz coisas assim.
Este homem é o mal, e o mal deve ser destruído - disseram a um júri silencioso.
Antes de explodir em lágrimas, o pai de Elizabeth se virou para David, que ostentava um ar impassível, e disse:
-- Seu canalha, eu não tirei os olhos de você desde que o julgamento começou.
Você sentado aí sem nenhuma emoção, nenhum remorso e nenhuma culpa.
Eu vou estar lá para assistir quando eles o amarrarem e o matarem.
Quero ver se você ainda vai ter esse sarcasmo na cara.
Eu juro, vou estar lá.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:34 am

David não mostrou reacção nenhuma diante das palavras do pai de Elizabeth Del Rio.
O júri, voltando sua atenção para o réu enquanto o velho homem falava, viu a curva de desprezo formando um sorriso sacana nos lábios do assassino enquanto ele ouvia os lamentos do pai.
Seu destino estava selado.
A defesa, nesta fase, podia tentar mostrar ao júri que havia um outro lado do réu que eles deviam conhecer antes de tomar sua decisão.
O advogado argumentou que David estava tão tomado pelo álcool e pelas drogas que não tinha controle de suas acções.
As doze pessoas sentadas no julgamento não se convenceram, e a defesa não tinha ninguém que pudesse pedir pela vida de David.
Não havia testemunhas para pedir por misericórdia:
ele não tinha pai, porque sua mãe foi abandonada antes de David nascer.
Não tinha irmãos ou irmãs, tias ou tios, amigos ou vizinhos para dizer que David não merecia morrer.
Ninguém que pudesse interceder:
"Prendam-no por toda a vida, mas não o matem.
Deixem que ele apodreça na prisão até que morra, mas poupem sua vida".
A defesa não tinha circunstâncias atenuantes para apresentar.
Não havia histórias de derreter um coração sobre uma infância negligenciada e maltratada.
Quando Dorothy estava viva, ela amou e cuidou com carinho de seu garotinho.
Ela morreu quando ele tinha sete anos e ele foi criado por uma tia solteirona que o tratava como se fosse seu filho.
A tia morreu quando ele tinha dezoito e David esteve por sua conta desde então.
Não havia ali ninguém por David, a não ser Dorothy Heinz.
Ela esteve ao seu lado quando o juiz leu a sentença de morte.
Ela esteve com ele quando o trancaram em uma cela de concreto de pouco menos de dois metros quadrados, e estaria com ele, poucos anos depois, quando eles o prenderiam em uma maca e bombeariam drogas mortais em suas veias.
-- Vocês vão ajudá-lo? - perguntou ela a Harry e a mim momentos antes do início do julgamento.
-- Vamos precisar de sua ajuda, especialmente Harry - respondi.
Ele tem de achar um meio de fazer David conversar com ele.
É aí que a senhora entra.
Harry, na plateia, assentiu e garantiu a ela:
-- Eu serei sua voz, e serei os ouvidos dele. Seja paciente.
Mais tarde, durante um curto recesso, a mãe confessou:
-- Ele é culpado, mas isso não faz diferença.
Eu não vou abandoná-lo.
E, dirigindo-se a mim, disse:
-- Eu compreendo quem é você; você é a guia dele.
Eu não sei muito sobre essa coisa de carma de que tanto ouço falar, e agora não me importo.
Farei qualquer coisa para ajudar.
Eu só pude sorrir e ouvir enquanto ela continuava:
-- Eu não tenho seu conhecimento, luz ou desenvolvimento.
Tudo que posso oferecer é o amor de uma mãe, e isso é o que vou fazer.
Não havia nada que eu pudesse dizer, excepto garantir a ela novamente que nós faríamos o melhor possível.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:34 am

Quando Harry e eu estávamos na rua, eu disse a ele:
-- Este é apenas o início.
A segunda parte da missão está para começar.
-- Eu sei. Agora nós vamos ter com Tom - respondeu calmamente.
Fiquei surpresa.
Não tinha ideia de como Harry era sensitivo!
O médium, ouvindo meus pensamentos, brincou:
-- Ei, Bob não iria mandar você me procurar se eu não fosse capaz.
Eu me sintonizei com Tom através de você e da mãe dele.
Ela está sempre por perto, perguntando quando nós vamos estar com ele.
E, apesar de ele estar no seu lado da vida, muito dele ainda é parte da Terra.
O médium explicou que Tom estava mais apegado ao mundo físico do que eu podia imaginar.
-- Você acha que o tem em uma espécie de sono profundo e suspenso.
Você está errada, e eu devo avisar:
há uma boa chance de o perdermos.
Ele está obcecado e temos de trabalhar rapidamente.
Eu me detive em cada palavra dita pelo médium.
-- Eu tive uma ideia - prosseguiu Harry.
Vamos até a casa.
Eu imediatamente soube de que casa ele estava falando.
Harry acenou para um táxi que o levaria à alameda no subúrbio de Houston.
Mas eu decidi não ir com ele.
-- Quando chegar, pense em mim e eu estarei lá - disse a ele.
Agora eu vou aonde outra mãe ampara outro filho que também está em sérios problemas.
Assim que o táxi encostou no meio-fio, Harry se despediu e me pediu para dizer um alô para Ian.
-- Esse cara é dos bons - foi tudo que pude pensar.

Outro lugar, outra mãe, outro filho

Tempo e espaço não significam nada para os espíritos.
Tente esse exercício simples e vai entender o que eu digo.
Neste momento, você está lendo este livro em um lugar e um tempo específico.
Você mede o tempo com um relógio e o lugar onde está é uma dimensão de espaço.
Dê uma olhada na hora e note o espaço ao seu redor.
Agora, pense sobre algo em sua vida, não importa se aconteceu há cinco, dez, quinze ou vinte anos atrás, porque quando você pensa sobre o evento, você está lá.
Sua mente foi instantaneamente a outro lugar e a outro tempo quando você reviveu alguma coisa que aconteceu há anos, meses ou dias atrás.
Seu corpo físico ficou imóvel, mas seus pensamentos o levaram para outro lugar e tempo.
Agora imagine que você não tem um corpo físico, você é livre.
Você agora tem uma pequena compreensão sobre por que o tempo e o espaço não contam muito deste lado:
não há corpo físico para segurá-lo.
Um espírito é livre para construir seu próprio espaço, tempo e até mesmo realidade.
Há um porém nisso tudo: sua liberdade depende de sua vibração.
Se seu espírito não está pronto para viver no plano de existência mais desenvolvido e mais alto, ele não pode ir até lá; as vibrações não combinam.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:35 am

E aqui vai um alerta:
desde que você agora é livre para fazer sua própria realidade com pensamentos, seja cuidadoso com o que pensa.
Harry foi de táxi até seu destino no mundo físico.
Eu usei as vibrações de meu pensamento para me levar de pronto ao meu destino no mundo astral.
Eu pensei, logo fui.
Eu me encontrava no quarto de hospital, no interior do grande círculo de vidro.
Tudo estava exactamente igual a quando eu saí:
o zumbido das vibrações púrpuras da cura e as flores no jardim ainda banhavam esta ala com seu aroma suave e límpido.
Tudo estava como antes, excepto Tom.
Apesar de ainda estar dentro do túnel de luzes girando, há uma mudança dramática em sua aura.
O Dr. Ian franziu as sobrancelhas enquanto monitorava essas mudanças, e uma preocupada Helen Philips aguarda ao lado do médico.
Eu vi a razão da preocupação deles:
as cores da aura deste espírito nos demonstravam que a revolta e a raiva estavam literalmente comendo-o vivo, consumindo toda a energia de Tom.
Não havia muito a ser feito, e tanto Ian quanto eu sabíamos o que aconteceria a seguir.
O espírito de Tom logo acordaria e começaria, sem as restrições de um corpo físico, a criar uma realidade baseada em pensamentos.
Seu espírito estava revoltado, sua realidade reflectiria a revolta.
Seu ser estava todo consumido pelo desejo de vingança. Sua realidade iria buscar vingança.
Suas vibrações estavam cheias de ódio.
Ele iria chafurdar no ódio.
Ele criaria um tempo e espaço afinado com as vibrações da revolta, ódio e vingança.
Eu sabia aonde aquelas vibrações o levariam, Ian também.
Como Tom não entendia que estava "morto", seu referencial seria o mundo físico.
Por meio de seus próprios pensamentos ele poderia se tornar um prisioneiro da escuridão.
Seu referencial de espaço seria o quarto no andar de cima de uma casinha branca em uma alameda de um bairro calmo de Houston.
Suas vibrações o levariam para lá.
Seu referencial de tempo seria um relógio digital, contando os últimos vinte minutos de sua vida na Terra.
Ele criaria uma realidade onde sua família não existia; ele sabia que elas estavam mortas.
Como ele não reconhecia a verdade de sua própria existência, como poderia aceitar o facto de que sua esposa e filha também viviam?
Apesar do fato de que as duas eram espíritos, assim como ele, ele não era capaz de ouvir, ver ou mesmo sentir suas presenças.
O que eu mais temia estava prestes a acontecer:
Tom se tornaria prisioneiro de si mesmo.
-- Não podemos fazer nada? - implorava sua mãe.
A mulher alta e elegante estava desencarnada por quase dez anos terrestres e, como a maioria das mães, acompanhou a vida do filho na Terra.
Ela tinha aprendido muito por aqui e não guardava rancor pelo assassino.
Helen entendia que, na Terra, circunstâncias não são apenas circunstâncias; cada evento tem seu próprio e singular significado no tempo e espaço da esfera terrestre.
A mãe não queria seu filho vivendo aquele tempo e espaço repetida e infinitamente.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:35 am

Ela, como nós, queria que ele avançasse.
E ela o queria livre do passado, para que assim pudesse se reunir a ela no presente.
Tão logo sua realidade fossem os últimos vinte minutos de sua vida na Terra, Tom não entenderia que sua mãe, esposa e filha estavam todas vivas, assim como ele, no mundo espiritual.
Eu pensei bastante e seriamente sobre a pergunta de Helen.
-- Podemos e não podemos - respondi, mas imediatamente acrescentei que não tinha a intenção de lhe dar uma charada como resposta.
Não podemos mudar suas emoções.
E, agora, essas emoções estão no controle.
Elas comandam seus pensamentos e criam suas vibrações, que por sua vez moldam sua realidade.
Não há muito que possamos fazer sobre isso - lamentei.
A mãe suspirou e lembrou-se de sua própria passagem:
-- Quando morri, esperava pelo que fui ensinada na escola dominical: pastagens verdes, árvores grandes e bonitas, Jesus e nuvens brancas onduladas.
Tristemente, ela disse que seu filho não teria aquela ilusão para confortá-lo.
Ela sabia que seu filho estava preso em seu próprio desespero.
-- Se pelo menos eu não tivesse sido tão rígida, talvez ele estivesse mais aberto às possibilidades ao seu redor - considerou.
-- Você pode ajudá-lo afastando-se dele - disse-lhe secamente.
Nem Helen nem Ian puderam acreditar no que ouviram.
Eles me encararam esperando por uma explicação.
-- Deixe-o sozinho. Não tente interferir.
Deixe sua realidade levá-lo aonde quer que ela o leve.
Se for de volta ao plano terrestre, que seja.
Se for de volta para reviver sua raiva, medo e humilhação, deixe estar.
Se ele quer vingança, deixe que ele tenha sua revanche.
Ian protestou:
-- Isso é ridículo.
Nós estamos aqui para curar este espírito.
Como ele pode progredir se está atado justamente a essas vibrações de revolta e ódio que o trouxeram aqui?
Ian estava furioso, e até insinuou que eu não estava à altura do trabalho.
A mãe me criticou severamente:
-- Você vai ajudar o assassino dele - esbravejou.
Por que não vai ajudar Tom?
Afinal, ele é a vítima - acrescentou, rudemente.
Aquela não era a hora de explicar que não existem vítimas, apenas lições.
Ela não iria ouvir se eu dissesse que não existem certos ou errados, apenas circunstâncias e o que nós aprendemos com elas.
Minha responsabilidade era ajudar Tom, mesmo que para ajudá-lo eu tivesse de deixá-lo sofrer e chafurdar em suas emoções.
O campo da aura que envolvia seu espírito mudou novamente, ele estava quase acordando.
E, quando acordasse, eu sabia aonde ele estaria.
Ele não iria, como em alguns filmes, abrir seus olhos para uma feliz reunião com sua mãe, sua esposa e filha.
Não haveria um mentor paciente e enigmático ao seu lado revelando lentamente os mistérios da vida.
O espírito de Tom acordaria em Houston, Texas.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:36 am

Tentei descrever o que tinha em mente:
-- Doutor, eu sei o que nós deveríamos fazer, e você sabe tanto quanto eu que existem muitas maneiras de fazê-lo.
Agora mesmo, nós temos de fazer Tom entender que ele não é mais parte do plano terrestre, e a melhor maneira para que isso ocorra é deixar suas emoções o levarem de volta para lá.
Helen protestou:
-- Suas emoções estão fora de controle, como você pode dizer uma coisa dessas?
-- Exactamente.
Elas estão fora de controle porque ele não está habituado a elas.
Através de muitas vidas, este espírito fez de tudo para não ter de lidar com nenhum tipo de emoção.
Mas bem lá no fundo ele sabe que tem de senti-las para aprender com elas.
Seu filho, Helen, está prestes a aprender.
Eu disse a eles que a missão de um guia não é meramente ser bondoso ou simpático ao levar um espírito pela mão e dar-lhe um banho de amor.
-- Um guia é atraído a um espírito para ajudá-lo a crescer e evoluir, Eu não estou aqui para compartilhar seu sofrimento, eu não sou responsável por ele.
Eu não vou dizer para perdoar e esquecer, porque neste momento ele não pode perdoar e esquecer.
Primeiro, ele tem de aprender com seu ódio sem se deixar controlar por este ódio e então ele tem de crescer a partir de sua revolta.
Só então ele pode perdoar.
Eu vou usar a mesma realidade que ele está criando para sua evolução.
Você - disse, apontando para Ian - é o médico.
Você é que deveria curar o espírito, não eu.
Quando eu terminar o meu trabalho, você começa o seu.
Ian concordou silenciosamente.
Ele sabia que não havia maneira de alcançar Tom naquele momento.
Então eu me voltei suavemente para Helen.
-- Você foi conectada a esse espírito em várias vidas.
Você está aqui para amar, tomar conta e apoiar.
Mas só depois que ele queimar sua raiva e aprender com seu ódio é que poderá compreender o que você tem para lhe dar.
Mais uma vez, falei enfaticamente para os dois.
-- Eu sei por que estou aqui.
Estou certa de que posso ajudar.
É por isso que digo para se afastarem dele, mas deixarem que ele venha até mim.
Não para amá-lo, não é esse o meu trabalho.
Não para curar feridas astrais, não é esse o meu trabalho.
Deixem-no livre para crescer e aprender, porque este é o meu trabalho, e eu juro - olhei solenemente para Helen -, vou dar o melhor de mim.
A mãe concordou, relutantemente.
Imediatamente tomei meu rumo para a casinha branca em Houston.

Alguns mitos perigosos

Podemos nós alcançar um nível de desenvolvimento e então, por causa de nosso comportamento, retroceder na evolução que tivemos?
A resposta é não.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:36 am

Não pode haver regressão, apenas progressão, porque o conhecimento e desenvolvimento que colhemos durante nossas muitas vidas são sempre parte de nós.
Uma criança que aprendeu a andar e falar, se não for aleijada por uma doença, sempre vai saber como andar ou falar.
Além disso, o que a criança adquiriu enquanto andava e falava se transforma em tijolos na construção de seu desenvolvimento.
O mesmo acontece com o espírito.
Mas, assim como o corpo físico, um espírito pode ficar incapacitado, preso a um momento ou emoção, "aleijado" em seu desenvolvimento.
Tom estava perigosamente próximo de se tornar um aleijado espiritual, paralisado no tempo e espaço de seus últimos vinte minutos no plano terrestre.
Mas, como sempre, "há tempo e razão para todo propósito debaixo do céu".
Eu planejava usar esse "tempo e razão" para ajudá-lo.
O espírito de Tom, em suas encarnações, evitou deliberadamente os sentimentos porque em uma de suas vidas passadas ele havia sofrido uma grande dor emocional.
Naquela encarnação o espírito amou louca e apaixonadamente, rendendo-se a todo desejo, ilusão e fantasia da vibração do amor.
No entanto, o amor não foi correspondido.
A rejeição foi tão profunda, a dor tão insuportável e a humilhação tão grande que o espírito fez de tudo para evitar sentir novamente a dor do envolvimento emocional.
Ele conseguiu, tanto que os sentimentos do espírito atrofiaram-se como um músculo não usado.
O espírito de Tom aleijou a si mesmo congelando sua evolução emocional.
O espírito compensou, como faz um cego, desenvolvendo outras partes de seu ser.
Em sucessivas encarnações, o espírito conhecido como Tom aguçou suas habilidades analíticas e racionais, sempre escolhendo o intelecto ao invés dos
sentimentos.
Mas emoções não podem ser ignoradas, porque são parte de nós.
Existe um perigoso mito sobre evolução espiritual.
Por ser algo conveniente para ele, Tom se deixou levar por esse mito.
Este espírito, entre encarnações, se recusava até mesmo a ouvir os conselhos de seus guias porque pensava que eles estavam errados.
Tom se apegou à ideia de que evolução espiritual significa eliminação de emoções.
Esse espírito acreditava que o caminho para a espiritualidade estava no estreito corredor da lógica, ordem e razão.
Sendo assim, ele viveu cada uma de suas encarnações de acordo com esse mito, escolhendo parentes, ambientes e personalidades que reflectiam essa crença.
Claro, Tom estava errado.
Nós existimos para desenvolver todas as nossas mais diferentes características.
Mas, como sempre, um espírito é livre para escolher seu próprio caminho.
Porém as intenções de Tom não eram enraizadas no desejo profundo pelo progresso espiritual.
Suas escolhas eram plantadas no medo de ser magoado novamente, e são as intenções por trás de nossas acções que determinam nosso carma.
Consequentemente, o carma o trouxe aonde ele estava agora:
um espírito que não podia lidar com as emoções explodindo dentro dele e cujas preciosas lógica e razão eram incapazes de decifrar por que sua família tinha sido destruída por um acto de violência sem motivo.
-- Por quê, por quê, por quê? - perguntava o espírito incessantemente.
Onde está a razão? Onde está a lógica?
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:36 am

Aquelas questões logo trariam Tom de volta para a pequena casa branca em Houston, a mesma casa aonde Harry tinha chegado pela porta da frente.
Eu esperei enquanto ele subia o curto lance de escadas até o quarto no segundo andar.
Tudo que ele pôde dizer, quando abriu a porta e me viu, foi:
-- Então foi aqui que aconteceu...
-- Eu estava aqui - informei.
A cama estava bem ali - indiquei o meio do quarto.
A cabeceira contra a parede.
A propósito, como você entrou?
O médium riu.
-- Há uma grande placa de VENDE-SE lá na frente.
Os correctores são preguiçosos.
Eles não gostam de carregar um monte de chaves toda vez que saem do escritório, então as escondem num lugar qualquer da propriedade.
Eu achei estas - ele sacudiu as chaves no ar - embaixo do capacho na entrada dos fundos.
Harry me viu olhando para uma pequena sacola de comida e uma garrafa térmica que trazia com ele.
-- Ele está vindo, não está? - disse o médium.
Acho que pode ser um longo dia.
Você pode viver de ar, mas eu preciso de algo mais substancioso - provocou ele.
Contei a Harry sobre o hospital espiritual e coloquei-o a par do que estava acontecendo.
-- Tom está começando a acordar.
Ele não está bem.
Eu não tenho dúvida de que está vindo para cá.
Aliás, estou contando com isso.
O médium assentiu, dizendo que podia sentir as vibrações mudando no quarto.
-- Esse espírito não sabe que está morto - expliquei.
- Tom não tem a menor ideia do que aconteceu, e suas emoções estão criando sua realidade.
Ele não tem esperança.
Tom sabe que sua mulher e filha estão mortas, mas nem imagina que elas e ele ainda vivem.
Entretanto, acho que podemos usar isso a nosso favor.
Eu tive uma ideia.
O médium era todo ouvidos.
-- Na realidade dele, eu não existo.
Afinal, ele ainda acha que está na Terra.
Mas - fiz uma pausa e olhei para Harry - você existe.
Eu não posso ajudá-lo agora.
Só você pode.
Harry ironizou:
-- Já sabia disso.
Por que você acha que trouxe sanduíches e café?
Este pode ser um longo dia.
O médium examinou o quarto e riu.
-- Afinal, se Tom assombrar esta casa, o valor imobiliário por aqui vai estar em queda livre.
E meu dever cívico impedir isso - brincou.
Eu ri. O humor negro do médium começava a me conquistar, mas acrescentei seriamente:
-- Você tem de saber de tudo que eu sei sobre esse espírito e vai ter de aprender rápido.
Harry sinalizou para que eu continuasse.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:37 am

-- Já ouviu falar de revisões de vida? - perguntei.
O médium respondeu que havia lido a respeito:
-- É quando um espírito, passando da Terra ao plano astral, recapitula sua mais recente encarnação com seu guia.
Harry foi além e disse que a maioria das religiões da Terra falavam sobre essa revisão.
-- As religiões orientais dizem que há um arquivo ashkiatic, uma vibração onde todos os nosso pensamentos e acções são mantidos.
Os cristãos dizem que há um livro onde todos os nossos feitos são escritos por um anjo e no dia do julgamento final você será chamado para prestar contas.
Eu disse a Harry que queria recapitular todas as encarnações de Tom com ele.
-- Como eu disse, você tem de conhecê-lo.
O médium olhou ao redor no quarto vazio:
o tapete onde o sangue de Tom havia se misturado com sua urina já não estava ali.
Ao invés disso, havia o assoalho nu e envernizado.
A cama onde Jessica morreu em uma poça de seu próprio sangue havia sumido, assim como os criados-mudos que a ladeavam.
O médium respirou profundamente e, quando falou, sua voz era quase um sussurro:
-- Tanta dor, tanta revolta, tanto medo.
Preenche todo o quarto.
Sinto a arrogância de David enquanto ele provoca e brinca com Tom.
Sinto o frio que não é frio mandando arrepios por todo o meu corpo.
Eu sinto o enorme vazio prendendo meu estômago e o nada sufocante envolvendo minha alma.
Só pude acenar.
Eu não estava apegada aos sentidos físicos como Harry estava, mas ainda sentia as vibrações que Harry descreveu.
Apressei Harry para que fizesse uma rápida oração ao deus de sua própria fé.
A oração, disse a ele, estabelece uma conexão ou uma vibração mais elevada, afastando-o da dor e pesar daquele quarto.
-- Vamos trabalhar, meu amigo.
Nós não temos muito tempo.
Ele vai estar aqui logo logo - apressei.
O médium deu uma última olhada pelo quarto, respirou profundamente de novo e informou que estava pronto.
Era hora dos efeitos especiais.
Achei que seria a maneira mais rápida de contar a história de Tom.
Usei as faixas do arquivo ashkiatic, ao invés de simplesmente narrar os eventos, para que Harry se concentrasse em Tom.
Então o vídeo começou.
Só que não eram as férias do último ano no Grand Canyon.
Era um vídeo do espírito de Tom.
Cena 1: Encarnação 4. Ano de 1757.
Esta encarnação segue imediatamente aquela em que o espírito foi emocionalmente traumatizado.
Ele escolheu seguir o caminho do desprendimento emocional.
Um garoto de dez anos de idade senta, com as pernas cruzadas, em um pequeno tapete vermelho.
Ele canta, meditando junto com quase trinta outros estudantes.
Atrás deles estão centenas de candeeiros cintilando na escuridão.
Um velho monge paciente assiste enquanto seus alunos aprendem a arte de olhar para dentro de si mesmos.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:37 am

O nome do garoto é Kim Ronchie.
Ele vive neste mosteiro tibetano desde que tinha seis anos, quando seus pais o deixaram nos degraus da grande entrada.
O espírito escolheu essa encarnação porque estava decidido que sentimentos e emoções são impuros.
Assim, escolheu uma encarnação na qual pensou que suas crenças seriam apoiadas.
No entanto, o espírito interpretou mal a doutrina de Buda.
Este mestre da luz nunca ensinou ninguém a renunciar ou suprimir emoções.
Buda pregava o abandono do ego, orgulho e vaidade.
Essas não são emoções, são aspectos da personalidade terrestre.
Contudo, o espírito que agora conhecemos como Tom acreditava naquilo que queria acreditar.
Assim, ele tomou uma vida circunspecta, protegida atrás das paredes do grande mosteiro de Lhasa e reprimindo totalmente suas emoções.
Mas ele não se desfez do orgulho ou ego.
Ele se sentia superior, achando que estava controlando suas emoções.
Porém, na realidade, tudo que fazia era se fechar para o mundo ao seu redor.
Ele se sentia seguro atrás dos muros do mosteiro.
Quando Kim morreu, retornando para a vida em espírito, ficou surpreso ao ouvir seu guia aconselhando que, depois de passar uma vida inteira meditando em reclusão, ele deveria trabalhar no desenvolvimento da parte de si mesmo que ele mais temia: sentimentos.
-- Eles são parte de você.
Você deveria aprender como lidar e aprender com eles.
O espírito, lembrando selectivamente do que havia aprendido no mosteiro achou que seu guia estava errado.
Ele até pensou que o guia estava numa vibração inferior à dele.
Tom desprezou arrogantemente o conselho e se lançou à Terra para outra encarnação.
Cena 2. Encarnação 5. Ano de 1825.
Tom, ainda convencido de que estava no caminho certeiro para o nirvana, a evolução espiritual e a liberdade, encarnou em Estocolmo, Suécia, um país que não é conhecido por suas fortes vibrações emocionais.
O espírito é um professor de biologia num colégio e pai de dois garotos.
Ele é rígido:
ensina aos filhos o estrito código calvinista da austeridade, puritanismo e controle das emoções individuais.
Passei um clipe para Harry, em que o espírito fala para o filho mais velho e mais rebelde:
-- Você nunca vai ser nada se deixar o que está dentro de você o dominar.
Satã, você deve lembrar, está sempre na sua garganta.
Não lhe dê a chance de apertar ou ele vai ganhar a batalha!
Nova cena, mesma encarnação, algumas semanas depois.
Mais uma vez, pai e filho, mas agora eles não estão falando.
O pai tem seu garoto de dezasseis anos encolhido num canto, batendo nele com seu cinto.
O que ele fez:
chorou porque o cachorro da família morreu.
-- Você ficou emocionalmente apegado a esse animal ­ o pai pontuava cada sentença com os golpes de seu cinto - e agora está sofrendo.
Talvez a dor física vai lembrar você como trai a si mesmo ao deixar emoções controlarem sua vida.
Seja forte, não permita que seus sentimentos o dominem.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:39 am

Harry se curvava enquanto assistia, não apenas causa da ignorância de Tom, mas porque começava a entender o grande drama cármico que estava envolvido.
-- Não vai ser fácil, Maryanne.
Há muito mais nisso do que eu pensei - alertou.
-- Ainda tem mais - avisei.
Continue assistindo ao show.
Cena 3. Encarnação 6. Ano de 1910.
Esta é a encarnação do espírito imediatamente anterior à mais recente.
Um homem e uma mulher estão casados a vinte anos.
É um casamento sem amor e sem filhos.
A mulher, fugindo de seus próprios pais opressores, casou-se com um rico fazendeiro irlandês.
Ele é o maior proprietário de terras em uma pequena vila.
O fazendeiro é também um homem bruto e ignorante, que trata sua esposa tal como os animais que cria.
Tom é a esposa, que acorda antes do amanhecer e trabalha até tarde da noite, mantendo a casa para seu marido.
Esta é a vida que o espírito mais uma vez escolheu para si mesmo:
desprovida de emoções, amor e prazer, porque o espírito ainda acha que esse é o caminho para o progresso espiritual.
Contudo, quando se desencarna desta vez, o senso de lógica mais desenvolvido do espírito lhe mostra que algo está errado.
Durante a revisão de vida de sua encarnação irlandesa, o espírito fala a seu guia que "as coisas não pareciam estar funcionando".
O guia, sorrindo para si mesmo, perguntou ao espírito o que aquilo significava.
Um preocupado ser prestes a se tornar Tom explicou:
-- Logicamente, eu deveria ter acabado com esse negócio de purificação.
Levei minhas três vidas terrestres passadas em situações onde deliberadamente me privei de emoções.
Primeiro como um budista, depois um professor e uma mulher que tinha uma vida solitária com um homem frio e ignorante.
Racionalmente falando, eu deveria estar em um ponto onde estaria limpo de todos os meus sentimentos, mas, por alguma razão, isso não está funcionando.
-- E por que isso? - provocou o guia.
-- É bem simples.
Eu ainda estou preso à Terra.
Eu não acho que estou fazendo progresso algum.
O guia sorriu e respondeu pacientemente.
-- Nós estamos sempre fazendo progressos.
Como um budista, você aprendeu sobre o desapego ao ego e ao orgulho próprio.
Não era bem o que você queria aprender, mas um pouco disso acabou se destacando.
Na sua vida seguinte você foi um professor, onde se dava aos outros.
Finalmente, nesta última encarnação, você viveu a vida que sempre quis: sem amor, sem emoção, nada.
E agora você sabe o quão vazio você está.
O guia desafiava o espírito a entender por si próprio:
-- Use o senso analítico que desenvolveu tão bem.
O espírito admitiu que talvez estivesse errado.
-- A Terra é uma esfera emocional, eu sei disso.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:39 am

Talvez eu esteja sempre sendo levado de volta porque eu ainda tenho muito que aprender sobre emoções.
O guia foi um passo adiante:
-- Não apenas aprender, mas lidar com elas.
Elas são e sempre serão parte de você.
O guia disse que gostaria de falar sobre Jesus, mostrando esse espírito encarnado na Terra como um exemplo para espíritos terrestres.
-- Jesus era emoção e intelecto.
Ele foi à esfera terrestre para ensinar o amor; não o prazer carnal, mas o amor.
Ele encarnou para ensinar a caridade, mas ele também mostrou revolta.
Não chorou diante da hipocrisia e da injustiça?
Alguns dizem que Ele era um revolucionário radical, mas Ele usou sua raiva para acordar a consciência humana.
Harry, que até aquele momento assistia à minha sessão de cinema especial silenciosamente, enquanto sorvia um gole do café de sua garrafa térmica, disse:
-- Uma coisa eu posso dizer: com certeza estou aprendendo muito com isso tudo.
Assenti e disse a ele que mais estava por vir.
O guia mostrou ao espírito chamado Tom uma caixa:
-- Vamos fingir que esta grande caixa é seu espírito.
Dentro dela, existem pequenas caixas e cada uma delas guarda uma emoção.
Um espírito, através de suas encarnações, vive com todas essas caixas dentro da caixa maior:
amor, ódio, ciúme, revolta, felicidade e tristeza.
E, a cada vez, as caixas menores são modificadas e transformadas.
E, assim como as caixinhas menores mudam, o mesmo ocorre com a maior.
De repente, a caixa grande se liberta das menores de que já não precisa.
Mas antes de uma caixa poder ser descartada, ela precisa ser transformada, e para ser transformada precisa ser usada.
O guia disse suavemente a seu pupilo:
-- Nosso Criador espera que nós aprendamos com essas caixas menores.
Talvez seja a hora de você começar a abri-las.
Agora chegamos à encarnação sete, onde Tom se tornou Tom e pela primeira vez, em um longo tempo, começou a abrir aquelas caixas.
Elizabeth veio para ajudá-lo.
Assim como Jessica.
Elas estavam em uma missão com Tom, para trazer a ele amor, carinho, compreensão e bondade.
Elas tiveram sucesso:
Tom as amou mais que sua própria vida.
Elas tiveram sucesso:
Tom se libertou de sua redoma de autoconfiança, independência e lógica racional.
Ele estava começando a sentir.
-- Que ironia - apontou Harry.
Logo quando ele estava começando a lidar com sua parte amorosa e carinhosa, ele tinha de ser morto.
-- Não é ironia, é o carma.
Mas - acrescentei rindo - quem disse que o carma não é irónico?
Nós encerramos nosso papo.
O filme tinha acabado e uma nova sessão estava para começar.
Tom estava a caminho.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:39 am

Uma questão de vida ou morte

Na Terra, a mente é uma ferramenta do corpo físico.
Ela forma pensamentos, e esses pensamentos são colocados em prática pelo corpo físico.
No plano astral, no entanto, não há mente ou corpo físico para deixar as coisas mais lentas, e os pensamentos se tornam realidade.
O espírito de Tom estava tecendo rapidamente sua própria realidade:
um mundo construído naquilo que aquele espírito julgava ser verdade.
Tom não sabia que estava fisicamente morto.
Ele não estava pronto para aceitar o facto de que foi morto em seu quarto mais de sete meses atrás.
Tom queria vingança, e sua revolta o fez prisioneiro do que ele pensava ser a vida.
Como seu guia de chegada decidi deixar seu drama se desenrolar porque, infelizmente, era esse o seu lugar:
preso no tempo e espaço da Terra.
Por experiência pessoal, eu sabia que não havia como fazê-lo desistir da assombração, por assim dizer.
Eu também sabia que não faria bem algum deixar que ele me visse.
Eu era parte da quarta dimensão, e Tom estava amarrado à terceira.
Eu não existia na sua realidade.
Mas eu tinha uma arma secreta: Harry.
Agora mesmo, minha arma secreta estava sentada no chão no meio do quarto comendo um sanduíche de salame.
-- Tenho de comer, Maryanne - disse, e brincou perguntando se eu queria dar uma mordida.
-- Não mesmo, mas talvez Tom queira - retruquei.
Ele está a caminho.
O médium assentiu e, ao engolir o que estava na boca, disse:
-- Posso senti-lo.
Há um arrepio gelado subindo e descendo na minha espinha.
Sempre sinto isso quando um de vocês está por perto.
Esta era uma boa hora para preparar Harry para o que ele iria enfrentar.
Eu estava certa de que ele nunca havia passado por nada similar ao que estava para ver.
Harry, entre uma mordida e outra, disse-me que estava pronto.
-- Quando uma pessoa morre, seu espírito deixa o corpo físico - comecei, mas Harry me interrompeu perguntando:
-- O que é isso?
"Espiritismo para Principiantes"?
Pedi a ele que tivesse paciência, afinal, tinha de começar de algum lugar.
-- Mas esta separação é diferente para todo e cada espírito.
Por exemplo, alguém que já pensou ou leu sobre a vida depois da morte vai ter um tipo diferente de passagem que outro que não tenha a menor ideia do que esperar.
-- Tom foi pego de surpresa - interveio Harry.
Eu assenti e continuei a construir meu argumento:
-- Na maioria das vezes, um espírito descansa, mas a duração de seu sono varia.
Não há regras, todos nós somos diferentes.
Um espírito evoluído se adapta rapidamente, percebendo que não é parte dos problemas que deixou para trás.
Um espírito menos desenvolvido se agarra ao seu corpo material, seus desejos e prazeres.
Ele leva mais tempo para se ajustar.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:39 am

-- Quanto mais desenvolvido o espírito, mais rápido ele vai querer seguir com sua vida; o menos evoluído agarra, segura e não larga seu passado - resumiu Harry.
E, depois de comer mais um pedaço de salame, continuou:
- Do modo como vejo isso, o seu lado não é muito diferente do lado de cá.
Percebi já há muito tempo, quando eu ainda prestava atenção em vocês.
Vocês têm gente ruim aí, assim como nós aqui.
Eu tenho visto alguns deles, que me assustam bastante, mas - ele deu uma piscadela - isso os ruins do lado de cá também fazem.
O médium me encarou com um olhar parado e arriscou:
-- Eu poderia apostar que existem uns do seu lado que estariam melhor na Terra.
Eles sentem falta da acção, da excitação, e, que coisa, devem sentir falta de sexo, também.
-- Sim, existem uns que preferem a vibração da Terra.
Eles se deixam levar pelo cenário - concordei.
-- Eu mesmo me sinto bem cheio da Terra - ele admitiu.
Estou cheio da ansiedade, pressão, dor e ciúme.
Estou cheio disso tudo nos outros, mas mais cheio ainda disso tudo em mim.
Eu disse a Harry que este era um dos primeiros sinais de seu crescimento espiritual:
o anseio por uma vibração melhor e um cansaço das coisas como elas são.
Percebi que esta era a primeira conversa particular que tinha com Harry, e ele continuava a me fascinar.
Ele estava se revelando mais complexo e inteligente do que eu achei no início e, enquanto as coisas aconteciam, fiquei convencida de que não seria capaz de fazer esse trabalho sem ele.
Mas nós tínhamos de ir em frente.
O tempo estava acabando, então eu voltei a conversa para Tom.
-- Não saber que está morto é a parte mais fácil, mas com os ingredientes extras como o estupro e assassinato de sua esposa e filha, temos um espírito que não está só desorientado, temos um que está fervendo em revolta.
O médium disse que ele sabia que Tom não era um mau espírito:
-- Ele é apenas um pobre diabo que perdeu o rumo.
Ele é como eu:
fazendo o melhor possível para passar o dia.
Eu estava curioso para ver aonde Harry queria chegar, então não o interrompi e ele continuou:
-- Sei o que há de errado com esse cara.
Além de estar preso a todo esse negócio de apego que você me falou, tem algo mais acontecendo.
O cara está com medo.
Ele é como oitenta por cento das pessoas vivendo neste planeta.
Ele está descontroladamente apavorado.
Está envolvido em seu medo e confortável em sua fúria.
A maioria de nós também, porque não sabemos o que vai acontecer se deixarmos o barco seguir.
Havia muita verdade no que Harry dizia, e eu lhe falei isso.
-- Eu vejo isso o tempo todo - lamentei.
Espíritos morrem e estão simplesmente com medo de seguir em frente.
É por isso que a evolução espiritual leva tanto tempo.
Os espíritos insistem em encarar apenas o óbvio.
As mais baixas vibrações são fáceis de ver e abraçar.
As mais altas são subtis.
Algumas pessoas têm a coragem de chamar as mais altas de esotéricas ou místicas.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:40 am

Algumas vezes, acho, os espíritos têm medo de amar.
-- Assim como Tom - Harry foi ao encontro do meu raciocínio.
-- É, assim como Tom - concordei.
-- Então, quando ele finalmente se abre para o amor e se apaixona, sua esposa e filhinha são brutalmente tiradas dele - sentenciou Harry, calmamente.
Agora você me diz, Maryanne, do seu ponto de vista universal:
você também não se sentiria mais confortável com a dor, revolta e ódio?
Onde está a justiça?
Eu tinha de pensar no que responder.
Tinha de explicar a perspectiva universal para Harry.
Ele merecia isso e, cá entre nós, ao explicar para ele talvez eu também a entendesse melhor.
-- Meu amigo, justiça é apenas uma palavra.
O que existe são consequências de nossas atitudes.
Você viu o resumo da vida de Tom.
O que você achou?
Harry sorriu, balançou a cabeça e respondeu:
-- Eu vi um sujeito, um pobre diabo como eu, que se deu mal com o amor e estava com medo de senti-lo de novo.
Nossa, existem milhões como ele circulando pela Terra.
Tive a sensação de que Harry estava brincando comigo.
Ele sentado no chão, fazendo tranquilamente seu piquenique, enquanto esperávamos pela chegada de Tom.
-- E vão existir um milhão de diferentes e singulares consequências para aqueles milhões - retruquei.
Quando você vê as coisas daqui, você entende que o que aconteceu com Tom não era muito diferente de qualquer outro evento na vida.
Tom não morreu, realmente; ele levou um tiro para que pudesse aprender.
Jessica e Elizabeth não estão mortas.
Elas vieram para a vida de Tom em missão.
Elas tiveram sucesso e agora cabe a Tom entender que aquelas emoções são parte dele.
Eu fiz Harry lembrar da nossa sessão de cinema:
-- Sabe a parte onde ele está punindo e humilhando o garoto?
-- Sim.
-- Você sentiu alguma coisa?
Teve algum pressentimento?
O médium sorriu e assentiu:
-- Claro que sim.
E você acaba de me confirmá-lo.
Eu estava certo, não estava?
Nós interrompemos nossa conversa.
Tom estava quase chegando.
Rapidamente perguntei como ele ia fazer para atrair a atenção de Tom.
-- A primeira coisa a fazer é ajudá-lo a entender que não pertence mais a este mundo.
-- Como você vai fazer isso? - eu estava curiosa.
Harry simplesmente sorriu e disse:
-- Fique olhando.
Eu acho que já sei como ajudar tanto Tom quanto David.
Prometo, vou dar o melhor de mim.
Harry olhou o quarto ao seu redor enquanto ele se modificava lentamente.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 06, 2016 11:40 am

Apesar de lá fora estar uma tarde clara, ensolarada e quente, dentro do quarto a temperatura caiu e o quarto adquiriu vida própria.
O médium riu e disse:
-- Acho que nós vamos ter de fazer um exorcismo.
Você se lembra do ritual?
-- Na verdade, não. Eu nunca nem vi um exorcismo - brinquei.
A cada minuto que passava, eu agradecia a Bob por ter me trazido Harry.
Minhas reservas iniciais haviam desaparecido e eu entendi que ele era, como a maioria de nós, "apenas um pobre-diabo" tentando fazer o melhor que podia.
Tão rápido Harry fizesse Tom entender que ele não estava mais na Terra, mais depressa eu poderia começar a falar com ele.
Parece fácil, certo?
Bom, como diz o velho ditado, "falar é fácil."
A nossa volta, tanto Harry como eu vimos o cenário sendo montado.
Harry estava maravilhado, e, para ser honesta, eu também estava.
Quando Tom entrou, o quarto estava transformado.
O carpete azul-escuro que havia sido arrancado do chão, estava de volta.
Réplicas exactas da cama, guarda-roupa e criado-mudo apareceram.
E, sobre o criado-mudo, um relógio digital marcava meia-noite e seis.
Hollywood ficaria desapontada, porque não havia trovoadas ou relâmpagos anunciando a chegada de Tom, mas Harry se maravilhou com o poder do pensamento.
Tom, que podia ser chamado de um espírito perdido e errante, acabava de criar uma realidade que só existia em seus pensamentos.
O espírito de Tom olhou pelo cómodo.
Ele estava muito diferente desde a última vez que o vi.
Ele não descansou.
Seus olhos (sim, ele se refez com todas as suas características físicas) percorreram todo o quarto e ele se "sentou" nervosamente em sua cama, esperando que alguma coisa acontecesse.
Eu, invisível aos sentidos de Tom, estava ao seu lado e esperei com ele.
Harry, o único espírito encarnado no quarto, calmamente fez para ele um outro sanduíche de salame.
-- Não se preocupe, Maryanne - sussurrou suavemente.
Eu fui um barman nos últimos dois anos.
Sei como esperar e ouvir quando bêbados vomitam seus problemas.
Isso aqui vai ser moleza.
Então, olhando para Tom ele acrescentou:
-- Pelo menos espero que seja.

Um sanduíche de salame

Estou fazendo o melhor que posso para deixar algumas ideias complicadas fáceis de entender.
Então, novamente, tenho de dizer que o tempo é diferente para mim em relação a como é para você.
Se eu descrevesse os eventos seguintes como eu os captei, você pensaria que eles aconteceram em uma questão de minutos.
Garanto que não foi esse o caso.
Na minha dimensão, o que aconteceu no quarto em Houston levou o instante de uma batida do coração, mas para Harry pareceu uma eternidade quando Tom "sentou" na cama, olhando para a porta.
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