Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:27 am

-- Tom chegou por volta das três da tarde, mas não me notou até umas oito da noite - informou Harry.
Eu me lembro que Harry, além de sua sacola de comida, tinha com ele um bloco de notas e uma caneta.
-- Para tomar notas e escrever uma carta - explicou.
Eu usei suas anotações para escrever este capítulo.
Ele me leu a carta depois.
A noite estava caindo em Houston, e as luzes da rua do lado de fora da casa começavam a acender.
Dentro estava escuro, excepto por um brilho avermelhado que preenchia o quarto.
Era Tom. Seu espírito, possuído pela raiva, era a fonte de uma luz macabra enquanto sentava na cama fervendo em fúria.
Harry e eu vimos outros espíritos se aproximarem durante um tempo.
Eles eram, como disse Harry, "os malvados".
Na realidade, eles não são "malvados", são espíritos que, por suas próprias escolhas, não evoluíram, e, enciumados, também não querem ver nenhum outro evoluindo.
Eles podem e conseguem influenciar espíritos do lado de cá e também na Terra.
Esses "espíritos sombrios" enganam, bajulam e mentem enquanto tentam e desviam outros para longe da luz.
Como diz o velho ditado, "a miséria adora companhia", e os "malvados" estão sempre procurando engrossar suas fileiras.
Eles estavam atraídos por Tom porque ele, com sua raiva e medo, estava aberto para a vibração deles.
Era meu trabalho e de Harry levar Tom adiante antes que aqueles caras conseguissem confundi-lo.
Harry viu aqueles espíritos chegar e os descreveu como "lobos famintos rondando um acampamento, procurando por um ponto fraco".
O médium decidiu que era hora de agir.
Mais de cinco horas terrestres tinham se passado desde que Tom chegara.
Eu assisti a Harry andar até onde Tom estava "sentado".
Eu sabia que Tom era capaz de ver Harry, e sabia que este espírito não via a mim ou aos espíritos sombrios.
-- Quem diabos é você?
Tom, que falou com palavras e não com pensamentos, gritava.
-- O nome é Harry Clark, e quem diabos é você? - gritou Harry de volta.
Harry sabia que tinha de mostrar a Tom que não estava intimidado, e, realmente, ele não estava.
Harry estava calmo e controlado.
O médium tinha demonstrado uma paciência digna de nota, sentado por cinco horas no chão do quarto, comendo seus sanduíches, bebendo seu café e escrevendo.
-- Sou o dono da casa, é quem eu sou.
Cai fora daqui, não quero você aqui - o espírito respondeu.
Harry e eu podíamos ver as ondas negras e vermelhas da raiva envolvendo o espírito.
Fria e igualmente, Harry respondeu:
-- Está bom, senhor dono da casa, eu estou aqui para dar uma olhada.
Afinal, há uma placa enorme de VENDE-SE no gramado aí na frente.
Tom riu e disse que Harry estava louco, aquela casa não estava à venda.
O médium disse ao espírito para olhar pela janela:
-- Impossível não ver a placa.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:27 am

Alertei Harry para ir com calma; este era o único lugar onde Tom se sentia confortável agora.
Nós não podíamos nos dar ao luxo de desorientá-lo.
Harry estava tentando abrir fendas na realidade de Tom; eu só não queria que ele fosse tão depressa.
Harry balançou a cabeça, em sinal de confirmação, e disse:
-- Lembre-se: eu era um barman.
E - apontando para o círculo ao redor de Tom - não esqueça aqueles caras.
Temos de manter nosso amigo longe dos lobos.
-- Com quem está falando? - quis saber o espírito.
Harry respondeu dizendo que falava consigo mesmo:
-- Faço isso desde que era criança.
Minha mãe dizia que eu tinha muitos amigos imaginários - explicou em meias-verdades.
Novamente, Harry provocou o espírito para que olhasse pela janela para a placa de VENDE-SE:
-- Como você pode ser o dono, se não sabe que está à venda?
A menos que tenha acontecido alguma coisa que você não saiba.
Tom se recusou.
-- Esta é minha casa, eu moro aqui. Caia fora.
Harry andou até a janela e perguntou a Tom se ele morava ali sozinho ou era casado.
-- Sim, eu tenho uma esposa e uma filha.
O médium quis saber onde elas estavam.
-- Isso não é da sua conta.
Elas vão estar de volta logo, e não quero você aqui quando elas chegarem.
Saia ou chamo a polícia.
O espírito negava o que sabia ser a verdade.
Ambas estavam mortas.
Mas se recusava a aceitar, assim como se recusava a aceitar a verdade de sua própria morte.
-- Seu nome é Tom, certo? - perguntou Harry, a esmo.
Tom Philips. Sua mulher é Elizabeth e sua filha de três anos se chama Jessica.
-- Cidadão, eu não sei quem é você ou como você sabe tudo isso, mas eu estou avisando pela última vez:
caia fora desta casa.
Eu moro aqui e estou esperando que minha esposa e filha cheguem.
Saia ou eu vou lhe dar porrada.
Harry ignorou a ameaça e perguntou:
-- Já pensou se está no lugar errado?
Talvez você não more aqui mesmo.
-- Tirou as palavras da minha boca - o espírito respondeu, agora com a voz mais suave.
Você não devia estar aqui.
Você não quer estar aqui.
Saia enquanto ainda tem chance.
-- Por que diz isso, Tom?
O que está para acontecer?
O espírito finalmente saiu da cama onde estava sentado pelas últimas seis horas.
Andou até a janela e olhou para baixo, para a rua tranquila.
Nada parecia fora do lugar, tudo estava com sempre esteve, mas ele finalmente notou a placa de VENDE-SE no gramado da frente.
Voltando-se da janela, ele sorriu amavelmente para Harry:
-- A placa está lá, mas eles nunca venderão esta casa.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:28 am

Não se eu tiver algo a dizer sobre isso.
Agora, pela última vez, vá embora.
-- Por quê? - insistiu Harry.
-- Porque ele está vindo.
E desta vez ele não vai escapar.
Estou esperando o canalha que matou minha família.
Vou esperar o quanto for preciso.
Ele está vindo e eu vou estar aqui.
Os vultos chegaram mais perto de Tom.
-- Não dê ouvidos a ele, mande-o ir embora.
Ele quer enganar você - ecoaram as vozes no ouvido de Tom.
Ele é amigo do cara que matou sua família - recitavam os lobos famintos.
Harry os ouviu. Assim como eu.
Não havia como eu chegar até Tom.
Ele não estava aberto ao que eu tinha a dizer.
O médium tinha de carregar o piano sozinho.
Alertei Harry:
-- Eles estão ficando mais fortes e ousados.
Seja cuidadoso ou vamos perdê-lo.
O médium fitou as sombras escuras competindo pela atenção de Tom.
Tom não as via, ele apenas ouvia suas vozes dentro de si mesmo.
Ele embaralhava aquelas vozes, da mesma forma como se faz na Terra, algumas vezes, com seus próprios pensamentos.
Mas Harry sabia a quem aquelas vozes pertenciam.
Ele via e ouvia as sombras claramente.
-- Por que vocês não vão achar alguma coisa melhor para fazer?! - gritou.
Vocês são um pé no saco.
Deixem esse sujeito em paz.
Ele não é de vocês.
Eu não vou deixar isso acontecer.
Sem dar a Tom uma chance de pensar ou dizer qualquer coisa, ele se voltou para o espírito e exigiu uma resposta:
-- Como você pode dizer que tem uma mulher e uma filha, e então, segundos depois, contar que elas foram assassinadas?
O que é isso? Você tem uma família ou não?
Tom não sabia o que responder.
O espírito se moveu pelo quarto, andando da janela até a porta e então de volta para a janela, antes de parar e sentar na cama.
Mas Harry não desistiu.
-- O que é, então: mortas ou vivas?
Você tem uma mulher e uma filha ou não tem uma mulher e uma filha?
É uma pergunta simples. - Harry buscava
incansavelmente uma resposta.
-- Espero que isso funcione - torci de onde estava.
Harry queria que Tom se concentrasse nele e não nas vozes que o estavam obsedando.
Mas os obsessores estavam de volta:
-- Isso não é da conta dele.
Quem ele pensa que é?
Ele sabe que elas estão mortas, é um amigo do assassino.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:28 am

Não dê ouvidos a ele, ouça a gente.
De novo as vozes vieram como se fossem do próprio Tom.
E, mais uma vez, Harry tentou fazê-las parar:
-- Eu não sou amigo do assassino, eu nem sequer o conheço - mentiu.
Ele me olhou e deu de ombros, como se dissesse:
"Os fins justificam os meios". Eu concordei.
-- Responda à minha pergunta - ele exigia.
Mortas ou vivas?
Se eu fosse um amigo do assassino, como essas vozes idiotas dizem, eu saberia, não saberia?
Seria lógico, não seria?
Isso ganhou a atenção de Tom.
Como, imaginou ele, esse estranho sabia seus pensamentos?
O espírito não sabia que os pensamentos não eram dele, eles eram plantados pelos vultos e ouvidos pelo médium.
-- Eu não sei, não sei! - Tom soluçou e explodiu em lágrimas.
Era uma hora da manhã, dez horas haviam se passado desde que o espírito apareceu pela primeira vez no quarto, mas a batalha por aquela alma ficava feroz.
Eu estava preocupada com Harry.
Afinal, ele era humano e estava acordado desde as seis da manhã.
Ele captou meus pensamentos e me assegurou que aguentaria ali por quanto tempo fosse preciso.
Mas, quanto tempo seria, nenhum de nós dois sabia.
Tudo dependia de Harry.
Ele era a ligação com Tom e era quem lutava com os espíritos sombrios que tentavam tomar o controle da situação.
Eu não podia fazer nada!
Não podia sequer alcançá-los para ajudar aqueles espíritos a achar uma saída da vibração das sombras.
Eles só tinham de pedir e, num pensamento relâmpago, a ajuda estaria ali para guiá-los para longe do ódio e da revolta.
Mas nem eu nem qualquer outro espírito de uma vibração mais alta pode fazer algo se um espírito não quer evoluir.
Você pode ver isso no plano terrestre: um alcoólatra ou um viciado em drogas só pode ser ajudado se quiser ajuda, e isso só acontece depois que ele ou ela admitem que têm um problema.
Os "lobos" saboreavam sua infelicidade e brindavam quando conseguiam trazer outros para o círculo da escuridão.
Harry não ia confortar o soluçante Tom.
Ele sabia bem que devia deixar o espírito se render à sua tristeza e sofrimento.
Os "lobos" lambiam os beiços nas sombras enquanto assistiam a Tom se despedaçar emocionalmente.
-- Elas estão mortas e você sabe disso. - Harry confrontava o espírito que chorava.
Admita que sabe que é verdade.
-- Pergunte a ele como ele sabe, pergunte a ele como ele sabe - sussurravam as sombras para Tom.
Os lobos estavam usando uma artilharia bem pesada: dúvida, desconfiança e medo.
Nada paralisa um espírito como o medo, e uma boa forma de espalhar o medo é criar a desconfiança, plantando dúvidas criadas no íntimo do espírito sobre suas próprias observações e percepções da realidade.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:28 am

Harry sabia disso e contra-atacou duramente, dizendo a Tom:
-- Você não precisa de mim, ou - olhando desafiadoramente para os vultos - qualquer outro para lhe dizer o que você sabe e o que você viu.
Você é cara bem esperto.
Você esteve neste quarto, sabe o que aconteceu.
Xeque-mate!
As vozes não podiam dizer a Tom que ele não esteve naquele quarto, pois as sombras queriam-no ali para chafurdar na infelicidade.
Os obsessores precisavam abaixar a vibração de Tom fazendo-o apegar-se às emoções onde eles se lambuzavam.
Só então ele se tornaria parte deles, preso naquele quarto e travado na sua vibração.
Xeque-mate! Harry apelou para a própria percepção, lógica e razão de Tom.
Ele sabia que isso, e não as emoções, eram o forte do espírito.
-- Tom... responda com a verdade.
Harry tranquilizava a triste alma sentada no canto da cama.
As vozes estavam mudas.
Elas não sabiam o que fazer.
-- Elas estão mortas.
Eu vi meu bebé levar um tiro bem aqui onde estou sentado.
E o desgraçado que a matou se gabava de ter estuprado e assassinado minha esposa.
E - o espírito fitou os olhos de Harry e chorou - eu não fiz nada.
As vozes voltaram, mais fortes do que nunca.
-- Você não fez nada porque você é um covarde.
Você mijou nas calças.
Você o viu atirar em Jessica.
Você ouviu quando ele se divertia com o facto de ter traçado sua mulher e você ter mijado nas calças.
Diga a esse cara para calar a boca - aconselhavam eles, referindo-se a Harry.
Ele vai dizer que você é o responsável pela morte delas.
Não se esqueça:
ele é amigo do assassino.
Ele sabia que elas estavam mortas.
Xeque-mate em Harry.
O médium calmamente andou até os espíritos sombrios.
Ele falou em voz alta, porque, além de falar com eles, também estava falando com Tom:
-- Eu sei quem e o que vocês são. Deixem-no em paz.
Ele já sofreu o bastante.
Como ele pode ter culpa?
Ele não podia fazer nada.
Como poderia ter reagido?
E, implorando a Tom, acrescentou:
- Seja razoável, use seu cérebro. Use sua lógica.
Novamente, Harry estava empurrando Tom à razão, a pensar e escapar do redemoinho de emoções girando em sua alma.
-- Você mijou nas calças, seu maricas - ecoavam as vozes.
Eu não acreditei no que aconteceu em seguida.
Foi um golpe de mestre!
-- E eu mijo em vocês - proclamou um desafiante Harry, enquanto abria o zíper da calça e literalmente urinava nos vultos.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:29 am

-- E agora, o que acham disso? - provocou.
Se vocês, idiotas, pensam que eu os estou levando a sério, estão enganados!
Tom e eu temos mais o que fazer.
Tom também não podia crer em seus olhos, e, entre soluços, pudemos ouvi-lo rir:
-- O que está fazendo, mijando na parede?
Você vai ter de limpar isso aí.
Quando Harry fechou o zíper, ele se virou para Tom.
Foi sua vez de dar risada:
-- Eu queria mostrar a você como é fácil mijar.
Foram umas cinco xícaras de café que eu espalhei na parede.
Já eram seis da manhã.
Harry estava em pé por vinte e quatro horas.
Os primeiros raios tímidos do amanhecer abriram passagem na escuridão, finalizando a longa noite.
O médium disse-me que estava bem:
-- Posso aguentar outras vinte e quatro horas, se eu precisar.
Contrariando a tudo, os lobos ainda estavam no quarto, embora tivessem recuado um pouco.
Tom ainda estava sentado na cama, balançando a cabeça diante da urina pingando na parede do quarto.
-- Você é maluco - murmurou.
-- Talvez eu seja - riu Harry.
Mas o médium havia, ao menos por enquanto, interrompido a queda em espiral de Tom rumo ao desespero.
Ele havia feito Tom rir.
Harry olhou para mim e piscou.
Ele tinha tido outra ideia.
-- Ouça - ele falava com Tom - estivemos aqui por mais de doze horas.
Aposto que você está com fome.
Harry apostava que Tom estava tão apegado à sua antiga forma física que ele sentiria fome.
-- O que me diz de uma xícara de café e um sanduíche?
Vou lhe preparar um.
Harry jogava com a chance de que Tom não saberia como "pegar o sanduíche" de sua dimensão.
Leva um tempo até que os espíritos aprendam esse truque.
O médium, vendo Tom enquanto despejava o café e fazia o sanduíche, disse:
-- Não sei como você foi assim tão longe sem comer.
Provavelmente seja porque você está muito aborrecido.
Tom concordou com um aceno de cabeça.
Em uma mão Harry ofereceu o café e na outra ele segurava o sanduíche.
Tom levantou-se da cama, foi até Harry e tentou pegar o sanduíche.
Ele não podia.
Sua mão (lembre-se:
Tom estava criando aquela realidade e ainda pensava que estava vivo) simplesmente passou através do sanduíche.
Ele tentou de novo. Nada.
Ele foi para o café.
Seus dedos estendidos não conseguiam agarrar a caneca.
-- É um truque, é um truque - vaiaram as sombras, exaltadas.
Elas não entendiam o que Harry estava fazendo.
- Ele é um bruxo, ele é um bruxo - recitavam.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:29 am

Não confie nele, é o próprio diabo - ecoou o coro.
Harry sorriu diante do confuso e aterrorizado Tom.
-- Eu sabia que você não seria capaz de pegá-los ­ disse Harry.
Mas eu queria que você descobrisse por si mesmo.
Não tenha medo confie em mim.
Tom tornou-se desafiador:
-- Por que eu deveria confiar em você?
Eu nem mesmo o conheço.
Talvez eu estivesse certo na primeira vez:
você é um amigo do cara que matou Beth e Jessy.
Os vultos aplaudiram:
-- Agora sim, não recue - zumbiam no ouvido de Tom.
Harry tomou fôlego. Era agora ou nunca.
Ele havia levado Tom até o limite e sabia que aquele espírito poderia tomar qualquer caminho naquele momento.
Ao menos Tom já não estava mais sentado na cama, em estado catatónico, olhos fixos na porta.
O espírito estava começando a reagir à realidade que Harry lhe estava empurrando, e isso era bom.
-- Aperte minha mão - disse Harry.
Vá em frente.
Tom tentou e, claro, não podia.
-- Já viu um mágico fazer isso?
Claro que não, porque não é mágica.
Tem mais a ver com física.
Tom disse jocosamente:
-- Eu sou PhD em matemática, então sei alguma coisa sobre física.
E, colega, você vai ter de explicar isso.
O médium estava improvisando e estava entrando em um terreno desconhecido.
Apesar de Harry ser um grande médium, ele certamente não sabia nada de matemática ou física.
Ele olhou para mim, piscou e aspirou longa e profundamente antes de continuar.
-- Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, certo? - disse o médium.
Tom concordou cautelosamente.
Como uma criança assistindo a um mágico tirar um coelho da cartola, ele estava tentando descobrir onde é que estava o truque.
-- Sua mão, quando tentava pegar o sanduíche, entrou no espaço do sanduíche.
Foi por isso que você não pôde mover o sanduíche:
você e ele ocupam o mesmo espaço.
Tom assentiu e disse:
-- Isso faz sentido, mas vai contra qualquer lei da física que já foi escrita.
-- É um truque!
Ele é esperto, esse diabo, seja cuidadoso - cantou o coro de sombras.
Tom esfregou o rosto, como se tentasse calar as vozes em sua cabeça.
Sua atenção estava, naquele momento, concentrada em Harry.
-- Então pense nisso - começou Harry, dramaticamente.
Tom não disse uma palavra.
Acenou com a cabeça, ceticamente, e pediu que o médium continuasse.
-- Eu e você estamos no mesmo lugar, mas em dimensões diferentes.
Uma dimensão é a Terra, e a outra... bem, vamos chamar de espiritual.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:29 am

Tom reagiu com desprezo:
-- O que é isso, cara?
Isso é uma grande besteira.
As sombras gritaram em júbilo:
-- Nós dissemos que ele era um demónio.
Seja cuidadoso com seus truques.
Não confie nele, ele é astuto.
O médium ouviu os "lobos" e pediu a Tom para ter paciência:
-- Vamos fazer isso passo a passo, em uma ordem lógica e racional - apelou.
Tom concordou rispidamente, acrescentando:
-- Estou curioso sobre essa sua lógica.
Para ser honesta, eu também estava.
Harry andou vagarosamente pelo quarto, com cuidado para não "topar" com os móveis na "criação" de Tom.
-- Eu posso pegar o sanduíche - declarou Harry, abaixando até o chão para pegá-lo.
Eu posso fazer isso porque minha mão não ocupa o mesmo espaço que o sanduíche.
Eu posso agarrá-lo, segurá-lo e movê-lo.
Harry não ia explicar que espíritos, os quais dominam seus pensamentos, também poderiam fazer isso.
-- Por que complicar as coisas para ele? ­ confidenciou mais tarde.
Harry juntou as mãos, esmagando o sanduíche.
-- Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.
Mas você não pôde pegar o sanduíche ou apertar minha mão.
Pode adivinhar por quê?
Tom, assumindo um ar de professor, disse:
-- Há apenas uma resposta lógica e racional, se isso tudo não for um tipo de truque.
Nós não estamos no mesmo espaço.
O médium sorriu, triunfante.
-- Bom, nós podemos concluir isso, então.
Você e o sanduíche estão em espaços diferentes.
O que acha de usarmos a palavra dimensão no lugar de espaço, de qualquer modo?
Os obsessores badalaram:
-- Ele é cheio de truques.
Ele é de outra dimensão!
Ele é do inferno!
Olhe ao seu redor:
tudo está como devia estar.
Ele é quem não devia estar aqui.
Ele é o próprio demónio.
-- Sim - disse Tom, cauteloso.
Esta é minha casa e este é meu quarto.
Nada mudou, excepto por você.
"Droga", pensei.
"Harry está encurralado.
Como é que ele vai sair dessa?"
-- Você acha, hein? - respondeu-me ele, secretamente.
Veja isso - disse enquanto atravessava a cama e passava a mão através do criado-mudo.
-- Truque barato - disparou Tom.
Tudo que isso prova é que você é quem está fora do lugar, não eu.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:29 am

Os obsessores aplaudiram Tom.
Harry esboçou um sorriso e deu o golpe final.
-- E o sanduíche?
Ele pegou Tom sem resposta.
Ele não sabia o que dizer.
-- Eu fiz o sanduíche, você viu por si mesmo.
Aquele sanduíche pertence à minha dimensão e - ele fez uma pausa dramática - eu estou na Terra.
-- Então onde raios eu estou? - perguntou Tom, furioso.
Marte?
-- Ele mente, ele mente, ele mente - berraram as vozes.
Não ouça, não ouça.
Harry levantou suas mãos num sinal de irritação.
Ele suspirou e disse em voz alta:
-- Por que não manda esses caras calarem a boca?
Eles estão me enchendo o saco.
-- Também pode ouvi-los? - perguntou Tom, incrédulo.
Harry assentiu solenemente.
-- Tom, você tem uma escolha a fazer, e apenas você pode fazê-la.
-- Continue - disse Tom, asperamente.
Harry andou vagarosamente pelo quarto, um olho em Tom e o outro nas sombras negras circulando por perto, prontas, esperando e procurando por uma chance de atacar.
-- Eu sei por que você está aqui.
Você veio esperando que esta porta se abrisse, desejando e esperando por um homem entrar por ela. Estou certo?
-- Como você sabia? - perguntou Tom serenamente.
-- Depois eu explico isso, deixe-me concluir primeiro.
Você está esperando pelo assassino de Elizabeth e Jessica, não está?
Mas Harry não esperou pela resposta de Tom e disse ao espírito que ninguém entraria por aquela porta:
-- Ele não pode.
É impossível.
Ele está aqui na esfera terrestre.
E, Tom, eu não sei nenhuma outra forma de dizer isso a você, mas você não está!
Aquela noite, mais de sete meses atrás, ele estuprou e matou sua esposa.
Então ele provocou e humilhou você.
E, depois que ele atirou em sua garotinha, ele matou você.
Você já não pertence mais a este lugar.
Antes que Tom pudesse pensar sobre o que ele disse, Harry apontou enfaticamente para os vultos que cobriam o canto do quarto.
-- Aqueles caras ali - disse, com desdém - vão fazer qualquer coisa para fazer você acreditar que eles estão do seu lado.
Eles querem que você veja o que você quer ver.
Eles vão até fingir ser o homem que você está esperando, prendendo você em um jogo eterno de vingança.
Você sabe por quê?
Mais uma vez, Harry não esperou por uma resposta.
-- Porque eles têm inveja.
Esta gangue, este grupo de espíritos baixos - Harry agora falava para eles - está com medo.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:30 am

Eles têm medo de abandonar o conforto de sua própria fúria e medo.
Eles têm medo e preguiça do trabalho que terão para deixar essa vibração e evoluir.
E eles querem você, Tom, para lhes fazer companhia.
Tom ouvia sem dizer palavra.
As sombras fitavam tanto Harry quanto Tom.
-- Você quer ficar aqui, Tom, e bater no homem que vai entrar por aquela porta até que ele se reduza a pó.
Você quer extravasar toda a revolta, fúria e humilhação contida em cima do assassino, não quer?
Desta vez Harry deixou Tom responder.
-- Sim - foi a resposta agonizante.
Eu quero matar o filho da puta!
Eu quero sentir seu sangue em minhas mãos.
Onde ele está?
O grupo negro se aproximou, mas Harry o manteve afastado.
-- Sua vingança seria uma mentira, porque ele não está em sua dimensão, ele está na minha - declarou Harry.
Mas você é livre para viver essa mentira, se isso lhe der prazer.
A escolha é sua.
Você vai ficar cansado depois de um tempo e você vai sentir um vazio dentro de seu espírito quando perceber o que você deixou para trás.
A escolha é sua.
Eles - indicou as sombras com a cabeça -, o lado escuro, ou o seu melhor lado.
O lado que Elizabeth e Jessica amaram.
O lado que as amou também.
Tom perguntou:
-- Onde elas estão?
Elas estão aqui?
-- Elas estão na sua dimensão, mas não na sua vibração.
Elas não estão tomadas pela revolta, ódio e vingança.
Elas amam você, Tom, mas, por enquanto, você não pode vê-las.
Há raiva demais em você.
Todos têm essas escolhas para fazer, quer seja na Terra ou em espírito.
Nós escolhemos se vivemos em amor, bondade e empatia, ou se nos lançamos em nossa inveja, orgulho, ambição, medo e revolta.
Acredite em mim.
Eu vivi em apatia durante anos.
Ignorei a bondade e o amor e escolhi, ao invés disso, a dúvida e o cinismo.
Eu estava com medo de sentir.
Eu era exactamente como você, Tom.
Harry olhou por cima do ombro de Tom e piscou para mim.
Tom finalmente quebrou seu silêncio.
-- Acho que não vou ganhar aquele sanduíche, no fim das contas - brincou.
Engraçado, eu já não estou mais com fome.
As sombras lentamente sumiram na luz do sol matinal.
A cama, os criados-mudos e o guarda-roupa desapareceram.
A sala estava vazia, como sempre esteve.
Agora, no entanto, Tom via o quarto como ele era.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:30 am

Tom perguntou a Harry quem ele era:
-- Eu percebi um tempo atrás que você não está aqui para comprar a casa.
-- Ah, Tom - suspirou Harry.
Existem tantas coisas mais importantes para você saber.
Eu sou apenas um pobre-diabo como você.
Estou na Terra e neguei durante anos meu talento para ajudar os outros.
Obrigado por me deixar ajudá-lo.
-- O que eu faço, para onde vou?
O que eu devia fazer agora? - perguntava o espírito, agitado.
Uma suave voz feminina se fez ouvir.
-- Venha comigo, Tommy.
Eu o levarei aonde deve ir.
Era Helen Philips, que aparecia como Tom se lembrava dela:
uma mulher alta e elegante, com cabelos meticulosamente penteados.
O filho voltou-se para o som de sua voz e se jogou nos braços abertos da mãe.
Duas vibrações agora ocupavam o mesmo espaço e Tom sentiu o amor de sua mãe encher o seu espírito.
Harry, com lágrimas brotando nos olhos, assistia a tudo.
Por um momento, eu deixaria Tom e sua mãe a sós.
Mas logo eu revelaria minha presença.
Finalmente, eu poderia iniciar meu trabalho com Tom.

Uma conversa sobre carma

Eram nove da manhã quando Tom saiu com sua mãe.
Ela o levou de volta ao hospital espírita onde, finalmente, Ian e eu poderíamos trabalhar com ele.
Um Harry Clark cansado inspeccionou o quarto.
Apesar de sua exaustão, o médium estava feliz.
-- Você tem ideia do que acaba de realizar? - perguntei.
O médium deu de ombros e reflectiu:
-- E, eu finalmente fiz o que nasci para fazer.
E acrescentou, provocante:
- Acho que meus dias de fliperama acabaram.
Fiquei pasma.
Não tinha ideia de que ele sabia o apelido que eu lhe tinha dado.
Ele balançou a cabeça e disse que havia captado quando nos encontramos em seu apartamento pela primeira vez.
-- Não se incomode com isso. Você estava certa.
Eu sei que fracassei em tudo que fiz, provavelmente porque nunca levei nada a sério.
Na noite passada foi a primeira vez, em um longo tempo, que eu realmente me envolvi com alguma coisa ou com alguém.
Eu me esforcei por ele - disse, referindo-se a Tom.
Sabe disso, não sabe?
-- Você lutou e venceu - respondi, mas adicionei que ainda havia muito trabalho pela frente.
Nós mal começamos.
Mas na noite passada, meu amigo, você salvou um espírito de si mesmo.
Você deteve, pelo menos por enquanto, a revolta, o ressentimento e o medo.
Você afugentou os vultos que o circulavam.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:30 am

Você me deu uma boa chance de ajudá-lo.
O médium, deitado no chão do quarto, disse que queria ler algo antes que eu fosse embora.
-- Eu escrevi isso durante aquele longo período calmo em que Tom estava com os olhos fixos na porta - explicou.
Aqui está como eu vou chegar a David.
Fiquei curiosa.
-- Vamos esperar até que ele chegue ao corredor da morte - começou Harry.
Agora ele está na prisão local e tem muitas distracções:
o julgamento, a imprensa, outros prisioneiros e seu advogado entrando e saindo.
Este julgamento deve acabar em poucos dias e você sabe tão bem quanto eu que ele será declarado culpado.
Então, há a fase da aplicação da pena.
Deve durar uns dois dias e, claro, eles vão sentenciá-lo à morte.
Enquanto Harry falava, eu me lembrava da pequena sala azul-clara com a maca.
Estremeci, sentindo o frio e o vazio artificial de lá.
-- Dois dias depois da sentença, ele chegará a Terrell.
Por um mês, ele será mantido em uma ala especial que chamam de "avaliação".
Durante esse tempo, ele não pode receber visitas, cartas ou telefonemas.
Então, ele é colocado em sua cela permanente.
Eu vou lhe dar mais um mês para que se acomode e depois vou lhe enviar esta carta.
Eu queria saber como Harry sabia aqueles detalhes todos sobre a prisão e mais uma vez ele repetiu que era um barman:
-- Mas, além de ser apenas um barman, meu bar fica a apenas três quarteirões do corredor da morte.
Uma porção de guardas aparece lá para beber um pouco.
A luz da manhã se esgueirava pela janela do quarto e Harry observou que aquele ia ser mesmo um lindo dia.
Mas eu senti que havia algo sobre o qual ele queria falar.
Pedi a ele que colocasse para fora o que quer que quisesse dizer.
-- Bom - ele começou -, na noite passada eu entendi o que Bob disse muito-tempo atrás:
não é um presente, é uma ferramenta para ajudar pessoas.
Eu finalmente acredito nisso.
Eu estava contente que Harry tivesse se encontrado e disse isso a ele.
Ele me interrompeu.
Falou que tinha mais a dizer:
-- Eu quero que você saiba que o que eu vou dizer não vai afectar em nada o relacionamento que possa vir a ter com David.
Você tem minha palavra.
Agora eu tinha uma ideia de onde ele queria chegar.
-- Isso é sobre a pena de morte? - arrisquei.
-- É, e sobre esse assassino especificamente - respondeu ele.
Perguntei a Harry se ele não queria falar sobre isso uma outra hora, talvez mais tarde, à noite, depois de ter descansado.
-- Essa foi bem longa para você - relembrei.
O médium me calou.
Ele queria falar naquele momento.
-- Eu honestamente não sei o que penso sobre a pena de morte, mas esse caso me incomoda.
David estupra uma mulher e mata-a com as próprias mãos.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:30 am

Ele rouba o carro dela e usa suas chaves para invadir a casa dela, onde ele mata uma garota de três anos de idade e depois mata o pai.
Que tipo de pessoa é ele? Maryanne, pode alguém chegar a ele?
Ele vai ouvir?
Eu não respondi naquele ponto.
Pedi a Harry que continuasse, e ele o fez.
-- As pessoas têm o direito de se proteger.
Eu sei que não quero David nas ruas daqui a vinte ou trinta anos.
Entende o que eu quero dizer?
-- Você não pode ajudar só aqueles de quem gosta - atalhei.
-- Eu acho que ele merece morrer.
Sua morte, em suas próprias palavras, nada mais é do que uma consequência das acções dele.
Ele mata, então ele é morto.
Não é assim que é o carma?
Este argumento não era novo.
Tudo que Harry tinha de fazer era começar a citar a Bíblia:
"olho por olho" ou "ele que viveu pela espada morrerá pela espada".
Além disso, ele, como outras pessoas que não entenderam a Bíblia, tinha uma ideia errada sobre o carma.
Era importante orientá-lo correctamente e, ao mesmo tempo, eu estava prevenida de que o carma é um conceito difícil de entender.
-- Eu entendo o que você está tentando dizer - comecei e o alertei de que normalmente eu não responderia como estava pronta a responder.
Existem tantas nuanças de certo e errado, e nada é absoluto no Universo.
Mas, neste assunto, você está totalmente errado - disse enfaticamente.
Ele levantou suas sobrancelhas.
Agora era ele quem esperava que eu continuasse.
-- Ninguém pode tirar uma vida.
O que David, ou qualquer outro assassino, fez é errado. Ponto final.
Não há excepções.
Mas como pode a sociedade dizer que matar é errado se ela mata?
Harry, mais uma vez, mencionou o carma.
-- O carma de David será equilibrado, mas não pelo homem.
A morte é final, mas todo assassino, criminoso ou infeliz desgraçado neste planeta é uma expressão viva do Criador.
Ninguém tem o direito de acabar com essa expressão.
O médium jogou um velho ditado sobre mim, perguntando:
-- Não há nenhuma verdade na expressão "aqui se faz, aqui se paga"?
-- O carma é muito mais subtil do que velhos ditados.
O carma não é fútil; ele completa a vida.
O carma não é perverso, arbitrário ou vingativo; o carma é aprendizado e crescimento.
Ele é o elo de ligação que nos mantêm unidos um ao outro.
O carma é um instrumento para progredir.
Eu pergunto a você:
onde está o progresso em matar um ser humano?
Harry entendeu, mas contestou:
-- O que devemos fazer com esses caras?
Deixá-los soltos para que possam matar de novo?
-- Claro que não - respondi, sorrindo.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:31 am

Mas, Harry, nós, como espíritos, não podemos ignorar os outros.
Ao matar alguém, se diz:
"Não há esperança, você não tem chance de evoluir; sua vida não tem sentido e não há nada que possamos fazer com você".
Quando a sociedade mata, ela admite seu próprio fracasso.
Agora, decidi lhe dar um exemplo bem particular.
-- Você me disse que estava cansado de provar que havia vida após a morte e depois ver as pessoas continuando a viver sem entender o que isso implica.
Harry lembrou-se do que tinha dito.
-- Na Terra, as pessoas primeiro aprendem, e depois entendem o que aprenderam.
As pessoas têm de aprender que nós somos todos espíritos e depois têm de entender que somos todos um só.
Somos mais do que parentes uns dos outros, nós somos os outros.
Como podemos matar uma parte de nós mesmos?
Harry concordou, mas acrescentou:
-- David matou.
-- Sim, ele matou.
E cabe a você e eu ajudá-lo a entender o que ele fez.
Como ele pode compreender seu carma se ele não compreende a enormidade de seu acto?
Na maioria das vezes, a sociedade executa pessoas que não têm a menor ideia do que fizeram.
Como você pode esperar que o espírito progrida?
Como você pode exigir, como você pediu, que ele mude seu comportamento?
Enquanto Harry raciocinava, eu, tranquila e calmamente expliquei:
-- Harry, nós somos guardiões de nossos irmãos e somos responsáveis uns pelos outros.
E forçosamente terminei meus pensamentos dizendo:
- Nós somos responsáveis até por aqueles que não entendem.
-- Está sendo uma noite interessante - disse ele sorrindo, numa pausa, antes de acrescentar:
- E um dia.
-- Pode ter certeza disso - concordei.

Uma carta para o corredor da morte

Antes de sairmos do quarto, um Harry Clark pensativo leu a carta que escreveu para David.
Harry estava apoiando suas esperanças nela, acreditando que a carta poderia ao menos provocar a curiosidade de David.
O médium apostava que a carta faria o serviço e David autorizaria a visita de Harry.
Sem o consentimento de um prisioneiro do corredor da morte, ninguém pode visitá-lo.
Era um dos poucos direitos que eles tinham.
Eu estava curiosa quando Harry mencionou a carta e, depois de ouvi-lo lendo, fiquei impressionada com sua inteligência e habilidade.
Se aquilo não funcionasse, eu não sabia o que poderia funcionar.
Caro Sr. Heinz.
Você não me conhece.
Meu nome é Harry Clark.
Eu estive em seu julgamento e sei sobre seus crimes por meio de jornais e televisão.
O que posso dizer?
Em uma questão de horas você, por qualquer que seja o motivo, eliminou uma família inteira e isso é algo que eu jamais vou entender.
Mas deixe que eu vá directo ao ponto.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 07, 2016 11:31 am

Eu não sou desses bons samaritanos que quer segurar sua mão durante os dias sombrios que tem pela frente e não sou um defensor do fim da pena de morte procurando por uma causa (na verdade eu tenho algumas opiniões conflituantes a respeito).
Tampouco sou um fanático religioso em uma cruzada para convertê-lo em um evangélico, muçulmano ou qualquer que seja a religião na moda nos dias de hoje.
E, finalmente, não sou alguém que tem uma curiosidade mórbida para escrever, me corresponder ou visitar um assassino no corredor da morte.
Eu sou um médium.
O que é isso?
Bom, vou tentar explicar.
Em seu julgamento, havia uma mulher em pé atrás de você.
Ela tinha mais ou menos um metro e sessenta de altura, gorducha, com cabelos grisalhos.
Ela tinha um grande avental branco com uma grande maçã vermelha bordada na frente e a palavra MAMÃE escrita em letras azuis.
Ela acariciava seus cabelos e ficava chamando você de "Davey Ondinhas", "Davey Ondinhas", repetidamente.
Isso significa alguma coisa para você?
Estou certo que sim, porque eu sei que ela é sua mãe.
Claro, você não a viu.
Você não pode. Eu posso.
É isso que médiuns fazem.
Eu vejo e ouço pessoas que já não vivem na esfera terrestre.
Dorothy, sua mãe, me pediu que cuidasse de você.
Então, aqui estou eu, oferecendo a mim e o meu tempo.
Moro aqui em Livingston, Texas.
Então, como quis o destino, estou apenas alguns quarteirões longe de você.
Eu gostaria de esclarecer algumas coisas para você e deixar algumas regras básicas definidas desde o começo.
Primeiro:
eu sei, mais que qualquer outro além de você, o quão culpado você é.
Não espere que eu o transforme em uma causa!
Segundo:
eu não vou lhe dar nenhum dinheiro, excepto para selos (estou enviando alguns; sei que você não tem dinheiro para comprá-los).
Terceiro:
tenho opiniões ambivalentes sobre a pena de morte.
Acho que o que você fez foi hediondo e injustificável.
Antes de assinar, existe algo mais que Dorothy me pediu para lhe passar.
Ela disse que sua tia Bertha está bem.
Ela está com Charlie.
Charlie é um gato angorá preto e branco.
Agora, se isso não for o bastante para ao menos deixar você curioso em me ver, eu não sei o que vai ser.
Nós podemos acabar ficando amigos.
Eu sei que você é um solitário neste mundo, sem irmãos, irmãs ou qualquer outro parente.
Como eu disse, moro aqui em Livingston.
Eu sei que você está tentando entender o que eu quero ganhar com isso.
Adivinhe? Nada.
Você não tem nada para me oferecer.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:22 am

Isso não é, com certeza, um jeito barato de ter emoções.
A simples ideia de entrar em Terrell não me anima em nada.
Sabe, sendo um médium, sinto ambientes, emoções e lugares de um modo muito mais forte que a maioria, e sei o que me espera se você decidir me ver.
Então, é isso aí.
Esperei deliberadamente dois meses para mandar esta carta.
Eu queria lhe dar uma chance de se adaptar ao seu novo lar.
Mas tudo que disse até agora é o que eu não vou fazer.
Vou lhe contar o que eu posso fazer:
Eu vou lhe dar a certeza de que sua vida vai continuar depois que você morrer.
Eu vou ajudá-lo a se preparar para essa morte e para sua vida seguinte.
E, finalmente, se você desejar, eu vou ajudá-lo a entender o que você fez e, espero, ajudá-lo a fazer as pazes consigo mesmo.
Por que eu quero ajudar você?
Porque uma velha senhora em um avental branco chamada Dorothy disse que ainda ama seu Davey Ondinhas e que ele sempre será seu menininho.
Sinceramente, Harry Clark
Quando terminou de ler a carta, Harry disse que iria passar a noite em Houston e partiria para Livingston na manhã seguinte.
Nós nos separamos, mas sabíamos que nossa jornada juntos estava apenas começando.

O campo de estrelas

No hospital, fiquei animada com o que vi.
Ao invés de repousar em seu coma, Tom agora sentava no jardim de flores fora da sala de vidro circular do hospital.
O Dr. Ian e sua mãe estavam com ele.
Quando me aproximei deles, Ian e Helen Philips sorriram e acenaram.
-- Ele está muito melhor, não está? - disse Helen entusiasticamente.
A pergunta foi feita não apenas para mim, mas também para Ian.
Mas nós dois sabíamos que, enquanto Tom parecia melhorar, ainda havia muito a se fazer.
Nós precisávamos da ajuda de Helen.
O amor de uma mãe vence muitos obstáculos, mas algumas vezes também pode vir a ser um obstáculo.
Eu esperava que o amor de Helen não interferisse na evolução de Tom.
Tom deu-me um olhar intrigado.
Ele parecia me reconhecer, mas não sabia onde havia encontrado antes uma garota negra de dezasseis anos de idade.
Para ser honesta, não era de minha aparência que ele se lembrava, mas de minha vibração.
-- Como está indo, amigo? - perguntei.
-- Bem. Eu conheço você?
Não quero ser grosseiro, mas eu acho que sim e não consigo saber de onde.
Eu ri. Sua confusão era genuína, e eu estava certa de que este seria um dos momentos mais leves que iríamos ter juntos.
Eu disse que estava feliz em vê-lo e que nós nos conhecíamos:
-- Estivemos juntos por algum tempo, desde Houston.
Seu humor se alterou e sua aura ficou negra e sombria.
Tom ainda não estava longe de seus problemas.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:22 am

Ele apenas deu um passo no caminho para a consciência e nós tínhamos de ser cuidadosos ao pisar naquele caminho.
Qualquer passo em falso podia agitar a revolta que ainda rugia em seu interior.
As memórias de Tom estavam borradas e ele não podia saber de que Houston eu estava falando:
à noite em que ele morreu ou a maratona com Harry.
Ele assentiu e fixou vagamente o olhar no vazio.
Eu sabia o que ele estava sentindo:
a melancolia vazia de uma outra vida, perda e tristeza como ele sentia por sua esposa e filha.
Perguntei se podia ficar a sós com Tom:
-- Há algumas coisas que quero falar.
Ian levou a relutante Helen com ele.
Ela protestou, pedindo para ficar só um pouquinho mais com seu filho.
O médico sabia pelo que Helen estava passando:
ela esteve ao lado de Tom quase desde o momento em que ele chegou.
Ela o viu em coma, viu-o lutar com a escuridão e, agora que ele aparentava estar melhor, ela queria passar algum tempo com seu filho.
Ian tentou acalmá-la:
-- Helen, Tom ainda precisa de ajuda.
Ele precisa do tipo de ajuda que Maryanne pode lhe dar.
Ele ainda está perdido.
Seu amor ajudou a trazê-lo até este ponto.
Agora, ame-o bastante para deixá-lo ir, assim nós podemos movê-lo para um novo ponto.
-- Thomas - disse a mãe -, se você precisar de mim, nem precisa chamar.
Apenas pense em mim e estarei aqui.
Uma mãe contrariada disse suas despedidas.
-- Agora somos só eu e você, garoto - brinquei.
O que me diz de cairmos fora daqui?
Há um lugar onde quero levá-lo.
O espírito estava curioso, mas primeiro quis saber quem eu era.
Isso era razoável:
por que ele deveria sair com uma adolescente que ele nunca tinha visto?
Tom não sabia que nós viajamos juntos através do tempo e dimensões.
-- Meu nome é Maryanne.
-- É. eu sei, eu presumi isso.
Tom estava sendo analítico.
-- Eu sou sua guia.
Tom ficou mudo por um segundo, tentando se lembrar de algo guardado bem no fundo de sua memória.
Lenta e pausadamente, ele disse:
-- Eu sou sua amiga, eu sempre vou estar com você.
Eu sou sua guia, não tenha medo, o que aconteceu tinha de acontecer e o que vai acontecer será escolha sua.
Ele me pegou desprevenida, mas eu percebi que ele estava repetindo as palavras que disse a ele quando atravessamos da Terra para o plano espiritual.
Fiquei fascinada com sua memória e disse isso a ele.
-- Não fique.
Isso soou tão estranho e diferente que ficou em mim.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:22 am

Eu não sei o que é um guia, e as palavras "o que aconteceu tinha de acontecer, o que vai acontecer será escolha minha" me intrigaram.
Aquelas palavras giravam dentro de mim, como a letra de uma música que fica se repetindo.
No entanto, ele não conseguia se lembrar de onde ou quando ele me ouviu dizer aquelas palavras.
Ele perguntou timidamente:
-- Você disse que esteve comigo desde Houston.
Você - fez uma pausa para se recompor - viu alguma coisa que aconteceu lá?
-- As duas vezes.
-- Onde está o canalha que fez aquilo?
Isso não era nenhuma surpresa.
Eu sabia que ele não estava na trilha da recuperação como sua mãe pensava.
Harry nos ganhou algum tempo para impedir Tom de construir sua própria realidade vivendo e revivendo com espíritos das baixas vibrações os momentos finais de sua encarnação na Terra.
Mas o que Harry não podia fazer era ajudar esse espírito a se curar.
Esse era o meu trabalho e era hora de começá-lo.
-- Como eu disse, por que não saímos daqui?
Evitei responder a sua pergunta.
-- Você vai me levar até ele?
-- Tom, logo você estará livre para ir aonde quiser.
Não era hora de falar em vibrações, livre-arbítrio e todas aquelas coisas boas.
Continuei:
-- Mas, por enquanto, vá um pouco mais na minha.
Afinal, eu sou sua guia.
Fui mandada para você.
Tudo que peço é que me dê uma chance.
Faça-me esta vontade, está bem?
Tom estava revoltado. Ele queria David.
Felizmente, ele não sabia como encontrá-lo.
Ele ainda não estava consciente do poder que seu espírito possuía.
Eu tinha de trabalhar depressa.
-- Engraçado...
Pensei que você quisesse encontrar Elizabeth e Jessica - aventurei, ansiosa por sua resposta.
A maioria dos espíritos, se não é encontrada por seus entes amados, quer ser levada imediatamente até eles.
Este espírito, por alguma razão, nem sequer perguntou onde ou como elas estavam.
E eu sabia que ele as amava apaixonadamente.
-- Não quero vê-las.
Eu tenho de achar o assassino e fazer o que deve ser feito.
Então, e só então, vou estar pronto para encará-las.
Tudo que eu quero saber é se elas estão bem.
Agora eu entendi: ele estava com vergonha.
-- Elas estão bem.
E você deve estar certo:
eu também não acho que esteja pronto para vê-las.
-- Então por que perguntou? - gritou ele.
-- Pura curiosidade.
Olhe, nós podemos ficar discutindo aqui por toda a eternidade.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:22 am

Confie em mim. Vou explicar aquelas minhas palavras de que você se lembra tão bem.
Isso o convenceu.
Tom suspirou e se rendeu à sua curiosidade.
Mas manteve sua posição e argumentou:
-- Vamos fazer um acordo.
Se você me contar a verdade e apenas a verdade, eu vou aonde quer que você queira ir.
Não vi nenhum problema nisso, e disse isso a ele.
Mas, como precisava de alguma coisa em troca, subi as apostas.
-- Eu preciso de umas coisas de você.
Primeiro, esqueça sua lógica.
Eu vou lhe mostrar a verdade, você tem minha palavra.
Tudo que peço é que aceite isso, não importa o que a razão lhe disser.
Ele concordou, reservando-se o direito de fazer perguntas.
-- Segundo, existem verdades para as quais você não está pronto.
Eu lhe direi quais são.
E existem verdades que eu não entendo e eu lhe direi quais são, também.
Nós temos de ser totalmente honestos um com o outro, porque a razão da minha existência agora é ajudar você.
E esta é a primeira verdade que quero lhe contar.
Sem comentar, Tom perguntou:
-- Aonde nós vamos?
-- Segunda verdade:
nenhum lugar, mas todos os lugares.
Eu não estou falando em código, estou falando a verdade.
Aqui, na terra dos assim chamados mortos (pensei em me livrar dessa palavra estúpida o mais breve possível), nós viajamos pelo pensamento.
Enquanto eu falava, as cores vibrantes do jardim de flores se derretiam e nós já não sentávamos no gramado verde e denso.
Estávamos no meio de um deslumbrante e esplêndido campo de estrelas, rodeados por cintilantes cachos de luz.
Tom engasgou com tanta beleza e maravilha.
-- É espectacular - foi tudo que pôde dizer.
-- Eu o trouxe aqui por uma razão.
Eu vou lhe contar uma história.
Ainda tomado pelo encanto de bilhões de estrelas, o espírito perguntou:
-- Uma história real?
Lembrando do nosso acordo, eu disse:
-- Esta história é como um campo de estrelas:
tem verdade, poesia e beleza.
A história não é verdadeira, mas há verdade nela.
A poesia faz a história fácil de entender, e a beleza é que a história é sobre todos os seres vivos na Criação.
Ainda se acostumando ao esplendor, Tom assentiu e sussurrou, calmamente:
-- Eu sinto como se estivesse em um lugar santo.
-- De certa forma, você está - respondi.
E comecei a história.
-- Antes de nós existirmos, havia Deus, o Criador da Criação.
Ele imediatamente interrompeu:
-- Já que você está me falando a verdade, deixe-me perguntar uma coisa: quem é Deus?
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:23 am

Rapaz, a pergunta sobre Deus, eu pensei.
Como eu iria resolver isso?
Com a verdade, decidi.
-- Tom, eu não posso explicar Deus para você.
Não estou em forma de entender Deus, fiquei confusa com o que as religiões ensinam.
Ele não é vingativo, controlador e implacável.
Ele não é um mestre do xadrez usando-nos como peões em um tabuleiro cósmico.
Deus é o início de tudo e é o que você vê ao seu redor.
O espírito assentiu e eu voltei para a história.
-- Assim, no início, havia o poder de Deus, atingindo todo Universo que conhecemos.
De Sua essência, Ele nos criou e nós nos tornamos os incontáveis milhões de estrelas que você vê ao nosso redor.
Expliquei a Tom que isso era uma expressão poética, linda e verdadeira, porque "nossos espíritos, partes do espírito d'Ele, brilhavam e cintilavam com sua força, energia branca e pura".
-- Cada "estrela" ou espírito foi criado igualmente, nem maior, nem mais brilhante.
Nós viemos da mesma fonte, animados pela mesma luz.
Essa é a verdade, beleza e poesia.
Fiz uma pausa para a reacção de Tom.
-- Eu entendo.
É lógico, honrado e justo - ele reflectiu, estudando os diamantes brilhando diante dele.
-- Vagarosamente, durante longos períodos de tempo, cada estrela se tornou consciente de si mesma e começou a ter desejos.
E como cada estrela é parte de seu Criador, ela começou a criar sua própria realidade.
Mas cada estrela não entendia que era apenas uma pequena e singular parte de um enorme todo.
As infinitas estrelas faiscavam na escuridão.
Pedi a Tom que olhasse e imaginasse que cada uma daquelas estrelas era uma alma tendo seus próprios desejos, pensamentos, ambições e necessidades.
-- À medida que o Universo se desenvolveu e os planetas se formaram - continuei - espíritos foram sendo atraídos a certos lugares no Universo.
Olhei para Tom para ver se ele havia entendido.
Disse a ele que cada espírito vai aonde suas vibrações o levam.
-- Um espírito cujas vibrações são baixas não pode se elevar além daquelas vibrações.
Um espírito cujas vibrações são desenvolvidas pode ir a qualquer lugar, e um espírito cuja essência está cheia de ódio e revolta viverá onde há ódio e revolta.
Ele entendeu.
-- Espíritos de frequências iguais encontram uns aos outros e povoam os vários níveis de vibração do Universo.
Você viveu todas as suas encarnações em uma vibração particular chamada Terra.
Tom olhou para as estrelas e disse que se sentia tão pequeno, vazio e insignificante.
Ele começou a soluçar.
-- Diga-me por quê.
Nós três éramos tão felizes. Por quê?
Por que aquele canalha estuprou minha esposa e a assassinou, matou meu bebé e depois atirou em mim?
O que eu fiz de errado?
Com grande compaixão, eu disse a ele que tudo se encaixaria e ele logo saberia a razão de tudo.
Pedi-lhe que fosse paciente, a história não tinha acabado.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:23 am

-- Durante o percurso, através de muitas vidas, muitos esqueceram de onde vieram.
Nós acabamos tão presos em nossas realidades de emoção, aventura, poder, glória, ego e intelecto que esquecemos quem e o que somos.
Tom começou a ver a lógica.
-- Nós fomos responsáveis pelo que aconteceu a nós mesmos, então - disse ele, timidamente.
-- Sim, e somos responsáveis pelos outros, também.
Não somos todos apenas estrelas criadas da mesma matéria?
Ele assentiu, relutante. Eu continuei.
-- Olhe ao nosso redor.
Você é uma estrela, seu espírito acaba de ser criado.
Tão lentamente, ele desperta em você que você é uma estrela, não uma parte das estrelas que estão ao seu redor.
Você é uma estrela individual, singular.
Ele sorriu enquanto pensava no que eu tinha dito.
-- Você precisa ser! Você quer ser!
Você criou seu próprio ego, sua própria identidade e seu próprio ser.
Você sente o poder interior, você pode criar e você pode desejar, você pode construir e você pode sonhar. Você existe.
Então eu disse a ele que sua estrela estava se movendo, atraída por outras estrelas em afinidade com ele.
-- Você se une a elas porque, na infinidade de biliões de estrelas, elas estão criando as mesmas vibrações que você.
Elas estão usando seu recém-descoberto livre-arbítrio e criando uma realidade chamada Terra.
Expliquei que todas as escolhas que ele já fez e todas as experiências que ele já teve são sempre mantidas na estrela, chamada seu espírito.
-- Hoje, seu espírito é diferente da estrela que nasceu eras atrás.
Você não é o mesmo que quando foi criado no início.
No entanto, você e eu e todos os outros neste Universo já fomos uma estrela.
Contei a ele que estava sendo poética, mas apenas para mostrar uma verdade.
-- Nosso objectivo é nos tornarmos estrelas novamente.
Mas não ignorantes, bobas, raios de luz vazios.
Nós nos mudamos e crescemos, mas é o nosso destino voltar a fazer parte do todo novamente.
O Poder que nos criou evoluiu por meio de nossa experiência, e, quando nós percebermos que somos um só, nós nos reuniremos a Ele outra vez.
Senti que Tom já estava pronto para que eu fosse mais específica.
-- Tom, você é um espírito que, em uma encarnação de muito tempo atrás, foi ferido emocionalmente.
Você calou seus sentimentos e desenvolveu sua racionalidade, lógica e talento analítico.
Você foi bem, mas percebeu que estava vazio.
Ele permanecia céptico, mas quis que eu continuasse.
-- Vou mostrar a você essa encarnação - anunciei.
Eu o instruí para que escolhesse uma estrela e se concentrasse nela.
Vagarosamente, ele começou a ser levado pelo tempo, de volta a outro lugar e uma outra época na Terra.
Tom falou:
-- O nome dela era Kathryn.
Eu a amava tanto. Ela era minha razão de viver.
Eu precisava dela mais do que da própria vida, sexualmente, fisicamente, mentalmente, emocionalmente.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:23 am

Ela era minha alma gémea.
Ele viu quando Kathryn, a mulher que ele amava, o menosprezou e ridicularizou.
Ele assistiu quando seu amor se transformou em ciúme, depois raiva e depois ódio quando ela se casou com outro homem e começou uma vida sem ele.
Ele assistiu a como os anos daquela encarnação passavam rapidamente e como ele deixou a Terra como um homem solitário, amargo e revoltado.
Tom, naquela encarnação, sentiu a dor de seu amor obsessivo.
Tom olhou para mim e disse que podia sentir ainda aquela dor dentro dele.
A mágoa, a revolta e a humilhação ainda estavam lá.
-- Então, jurei nunca mais me emocionar daquela forma.
Eu não queria jamais experimentar humilhação e frustração ou o sentimento de impotência novamente.
-- Mas, ao invés de aprender a lição de que ninguém é de ninguém e ao invés de aprender com sua humilhação, você fez outra coisa.
Parei e pedi a ele que terminasse.
Você sabe o que você fez - provoquei.
-- Eu me fechei.
Eu me afastei do amor e evitei toda e qualquer situação em que eu pudesse ser impotente de novo.
Disse a ele para escolher outra estrela.
-- Agora nós estamos em um outro lugar, um outro tempo e uma outra vida.
Dê uma olhada nesta cena.
Tom viu a si mesmo, como pai, castigando seu filho de dezasseis anos.
Ele suspirou, quis virar o rosto e fugir do que estava dentro dele.
-- Eu me lembro disso. É meu filho Timothy.
Eu queria ensinar a ele uma lição.
Seu cachorro, que a mãe dele lhe deu quando ele tinha cinco anos, morreu.
Timothy chorava, e chorava, e chorava.
Eu queria torná-lo mais homem.
Disse a ele que lágrimas eram inúteis e tristeza era uma perda de tempo.
O maldito cão estava morto e não havia nada que o amor pudesse fazer.
Tom descreveu como o garoto continuou chorando, lamentando mais e mais sobre como ele amava aquele cachorro.
Tom lembrou-se de ter perdido a paciência e bater no garoto "para eliminar aquele sentimentalismo bobo dele".
-- Eu sei que estava errado, mas eu estava tentando ajudar Timmy.
Eu não queria que ele crescesse para ser um fraco e sentimental.
-- O que você estava tentando fazer - corrigi - era fazer com ele o que estava fazendo consigo mesmo:
erradicando todas as emoções.
Você pensava que elas eram perigosas, bobas e sentimentais.
Mas na realidade você tinha medo delas porque elas já o haviam feito sentir mágoa, dor e impotência.
Tom suspirou e lamentou:
-- Eu estava errado.
Expliquei que não havia certo ou errado, apenas acções e reacções.
-- Vamos voltar a Timothy.
Lembra-se de como ele cresceu?
-- Eu estive na cola dele pelo resto da vida.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:23 am

Ele era fraco, preguiçoso e não tinha ambição.
Eu queria que ele fosse alguma coisa na vida.
Acho que nunca foi.
Ele morreu antes que eu e, antes de sua morte, disse que eu sempre o humilhei, fazendo com que se sentisse fraco e - Tom pegou a si mesmo acrescentando - impotente.
-- Não foi como se sentiu depois que o homem matou você e sua família?
-- Sim - admitiu Tom, calmamente.
-- Talvez você tenha aprendido que as emoções não são uma censura para nossas fraquezas e humilhações.
Talvez você tenha aprendido que emoções são uma parte de nós e o importante é como nós aprendemos com elas.
O espírito murmurou algo ininteligível.
Ele estava embaralhado em seus próprios pensamentos.
Mas eu ainda tinha algumas perguntas.
-- Você já se reencontrou com Tim? -- perguntei.
-- Não - respondeu rapidamente.
Acho que isso tem a ver com aquele negócio vibracional de que você estava falando.
Nós nunca tivemos nenhuma afinidade.
Eu sorri e fixei um olhar profundo em Tom.
-- Repetidamente nós encarnamos com os mesmos espíritos, aprendendo ou equilibrando nossas consciências com as deles.
Elizabeth e Jessica foram excepções.
Elas vieram para abrir seu coração, assim você poderia começar a lidar com as emoções que ignorou por tanto tempo.
Então, você tem certeza - perguntei de novo - de que nunca mais cruzou com Timothy aqui no plano espiritual ou em uma outra encarnação terrestre?
Irritado, Tom novamente disse não.
Eu balancei minha cabeça.
-- Você o reencontrou.
Em suas próprias palavras, você o fez se sentir "impotente, fraco e humilhado".
-- E ele fez com que eu me sentisse impotente, fraco e humilhado.
Tom percebeu quem era Timothy.
-- Mas ainda há mais - acrescentei.
Há Kathryn!
Lembra-se do que eu disse sobre como nós somos atraídos, repetidamente, aos mesmos espíritos em nossas vidas?
Como somos pegos no eterno ciclo cármico que define, ajusta e equilibra contas entre outros e nós mesmos?
-- Ela me humilhou e rejeitou meu amor - reflectiu Tom.
Eu a humilhei e rejeitei seu amor.
-- Depois, ela tirou seu amor de você - relembrei.
-- E eu me senti impotente, fraco e humilhado.
Aonde isso vai acabar? - ele implorava.
-- Com você - foi a única resposta que pude lhe dar.
Afinal, eu lhe prometi a verdade.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:24 am

Uma carta do corredor da morte

Passaram mais de dois meses desde que Harry mandara a carta para David.
Eu não o via desde a maratona em Houston.
Eu estava passando todos os momentos possíveis com Tom.
Para mim o tempo passou num instante, mas, para Harry, no plano terrestre, foi uma surpresa quando apareci em seu apartamento.
-- Onde você esteve? - perguntou.
Acho que senti saudade.
Reportei a ele sobre a visita de Tom ao campo de estrelas, acrescentando que havia um longo caminho a percorrer.
-- Mas, graças a você, nós partimos de um bom começo.
Tive a mente lógica dele trabalhando sem parar.
Ele está racionalizando, deduzindo e analisando tudo que lhe mostro, de todos os ângulos.
Harry quis saber se Tom tinha encontrado sua família.
Eu respondi dizendo que Tom não estava pronto.
-- Elizabeth e Jessica estão bem - informei.
Elas vieram para a vida dele para ajudar a desenvolver suas emoções.
Elas entendem que o melhor é deixar que os eventos tomem seu curso, mesmo que seja doloroso para ele.
Além disso, ele está muito envergonhado para encontrá-las.
Tom sente que as deixou na mão.
Ele disse que vai vê-las apenas depois que as tiver vingado.
Alguma novidade sobre David?
O médium fez que sim com a cabeça.
-- Esta carta chegou ontem.
-- Eu sabia!
Por que acha que resolvi aparecer por aqui hoje? - gracejei.
Harry esboçou um sorriso, dizendo que esse era um problema em nosso relacionamento:
ele não podia esconder nenhum segredo.
Harry se sentou em sua poltrona - que ainda estava pendendo para a direita, por falar nisso - e começou a ler a carta de David.
Sr. Clark,
Depois de um mês no corredor da morte, recebi sua carta.
E provavelmente a única carta que eu vou receber, excepto talvez pelo idiota do meu advogado.
Pessoas pobres não têm chance no Texas.
Tanto eu quanto Harry concordamos:
David era, com certeza, muito posudo.
Na sua carta, você diz que não vai levantar uma cruzada por minha vida.
Por quê? Você não acha que minha vida é importante?
DEIXE-ME CONTAR O QUE É MINHA VIDA AQUI.
VOCÊ DEVÍA VER O QUE TODOS NÓS DO CORREDOR DA MORTE PASSAMOS.
Você sabe como esta prisão foi construída?
Vou começar contando isso a você.
O estado do Texas queria pôr todos os seus ovos podres em uma só cesta, onde eles poderiam ficar de olho na gente sem gastar muito dos preciosos dólares dos contribuintes.
Os malditos políticos mentem o tempo todo.
Eles querem se reeleger, então dizem a você que são durões com o crime.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 08, 2016 10:24 am

Harry parou e me disse para estar pronta para ouvir a história do sistema da Justiça Criminal do Texas sob a óptica de David Heinz.
Respondi dizendo que mal podia esperar.
No entanto, não importava muito o que David tinha escrito, mas sim que a cada palavra lida nós estávamos aprendendo mais sobre ele.
Então, eles construíram Terrell.
Nesta cidade caipira do Texas chamada Livingston, eles cavaram um buraco de cerca de noventa metros de profundidade e uns três quarteirões de largura.
Despejaram três metros de concreto para fazer as paredes, jogaram mais concreto para fazer os andares, eles têm quase dois metros de espessura.
Quando acabaram, tinham cinco unidades separadas, chamadas de alas.
Há dois andares em cada ala e cinquenta celas em cada andar.
Todas as unidades são conectadas por túneis ao centro de comando, repleto de monitores de TV e travas electrónicas.
E aqui que os caipiras estúpidos e gordos de Livingston controlam nossas vidas.
Quando acabaram, cobriram sua nova prisão com a terra que tinham tirado do chão.
E aqui onde eu e mais de quatrocentos homens no corredor da morte vivemos.
Já estamos em túmulos sob a terra.
Acho que eles estão querendo ajudar a gente a se acostumar com a morte.
Tudo que precisamos é de um caixão para repousar.
Deixe-me contar a você sobre minha cela:
é uma gaiola de concreto.
Qual o tamanho do seu banheiro, Harry?
Aposto que tem dois metros por três.
Imagine viver no seu banheiro vinte e três horas por dia, comendo perto da privada, sem televisão ou rádio para passar o tempo.
Você não tem nada para ler, excepto a Bíblia e algumas revistas velhas que um idiota enfia por baixo da porta de vez em quando.
Sua comida passa por uma abertura na porta do banheiro e, claro, você come qualquer que seja a merda que eles lhe dão.
Você não tem opção.
E não se esqueça:
você está a uns sessenta metros debaixo da terra.
Você nunca vê a luz do sol.
Uma vez por dia, por uma hora, alguém leva você, algemado e acorrentado, para uma outra sala para se exercitar.
Normalmente, há dois ou três prisioneiros ali, então você pode conversar um pouco.
Depois, de volta à tumba de concreto, para passar as vinte e três horas que sobraram do dia.
Ah, eu esqueci:
três vezes por semana você tem dez minutos de chuveiro.
Esses são os melhores momentos da minha nova vida no corredor da morte.
Seu banheiro é provavelmente mais confortável que minha cela.
O tecto, o chão e as paredes são de concreto sem acabamento ou pintura.
Cinza, cinza e cinza, é tudo que eu vejo.
Eu tenho uma pia de aço inoxidável e uma privada, e eu durmo sobre, pode adivinhar, um fino colchão acomodado sobre uma laje de concreto.
Quem sabe, talvez meu caixão seja mais confortável.
Porém, não se preocupe.
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Re: Pelo Amor, ou Pela Dor... / Ricky Medeiros

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