SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:04 pm

- D. Guiomar?
Só tive a oportunidade de conhecer Castro e...
Nelson ia dizer André, então lembrou-se da senhora na igreja.
Daí sentiu grande mal-estar.
Lembrou-se da foto que causara seu enfarte.
Percebeu o risco que corria.
Carla nunca poderia encontrar-se com André.
Precisariam sair o mais rápido possível de São Paulo, voltar para o interior e esquecer por vez desse episódio.
Sentiu leve pontada no peito e a pressão aumentar.
- Pai, o que foi?
Santiago, ele está piorando de novo!
Santiago pegou-lhe o pulso, tomou-lhe a pressão.
Estava moderadamente acima da média.
Resolveu chamar a enfermeira.
- Não precisa, Santiago. Estou melhor.
É só um resquício da dor brutal que tive semana passada, mais nada - fingiu Nelson.
- Se prefere assim, tudo bem.
Afinal de contas, você é médico.
Procurando dissimular, Nelson perguntou:
- Quem vem me visitando?
Carla, sorridente, pegando em seu braço com carinho, disse:
- Santiago chegou há dois dias.
Já estavam sentindo a sua falta, imagine ficar sem ele também.
Conseguimos que dois médicos conhecidos ficassem de plantão por lá, até que você possa se restabelecer.
Dr. Castro tem vindo todos os dias, D. Guiomar veio ontem aqui. Ah, e o seu André também veio.
Nelson começou a suar frio.
Com voz que procurou tornar natural, perguntou:
- André veio aqui?
- Veio. Ele também tem prestado assistência.
Somos muito gratos a ele.
É um encanto de homem.
Nelson não sabia o que responder.
Então Carla conhecera André? E agora?
Será que o contacto com ele despertara algo na memória bloqueada da filha?
Como teria sido o encontro dos dois?
Estava morrendo de curiosidade, mas precisava continuar dissimulando.
- E o que achou de André?
- Muito solícito e simpático.
Ontem ele veio com a namorada, Sílvia.
Também é um encanto de mulher.
- Um encanto e uma graça - completou Santiago.
Castro, bem-humorado, tornou:
- Vá com calma.
Pelo visto, você não pode ver um rabo de saia.
Não vá se engraçar com Sílvia.
André é louco por ela.
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Ave sem Ninho

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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:04 pm

- Sei disso.
Só estou falando aquilo que os olhos não podem negar:
ela é uma bela mulher.
Bonita, simpática, agradável.
Por que será que só eu não encontro uma mulher à altura?
Afinal de contas, não sou de se jogar fora.
Carla replicou:
- Não é de se jogar fora mesmo.
Você tem todas as qualidades que uma mulher possa desejar em um parceiro.
Na hora certa, quando menos esperar, você será fisgado.
- Espero. Acompanhando o caso do meu amigo aqui, pensei:
se isso acontecesse comigo e eu fosse para o outro lado, confesso que ficaria muito frustrado.
Sou mulherengo assumido, brincalhão, mas o facto é que nunca uma mulher despertou-me a vontade de encarar uma relação.
As mulheres não procuram um marido, mas um pai, alguém que as proteja e de quem possam depender pelo resto da vida.
Quero uma companheira, uma mulher voluntariosa, ardente de desejos, independente, moderna e culta.
- Pelo jeito, o meu enfarte tem mexido com vocês.
- É pai, sempre há o lado positivo das coisas, por pior que a situação possa nos parecer.
Novamente leve toque na porta.
Todos olharam para trás.
Carla correu até o casal que chegara.
- Seu André, como vai?
E você Sílvia, está bem?
- Boa noite - disseram juntos.
André segredou:
- Estávamos ansiosos por chegar.
A enfermeira nos disse à pouco que o paciente aqui havia acordado.
Ficamos felizes.
Parece que vai receber alta logo.
Nelson nada disse.
Seu coração começou a bater descompassado.
Procurou disfarçar a emoção.
Diante dele estava à filha conversando com o provável pai de seu ex-namorado.
Pelo jeito, nenhum dos dois haviam se reconhecido.
Por instantes, sentiu-se aliviado.
- Você está de parabéns, Nelson.
Tem uma filha linda, loira e simpática.
Já disse que se meu filho não estivesse tão apaixonado, eu com certeza o apresentaria a sua filha.
Fariam um belo casal - e virando-se para Carla:
- Sabia que você é muito mais bonita do que na foto?
Você tem um brilho próprio, uma luz, sei lá.
Deve haver algo de vidas passadas aí.
Tenho certeza de conhecê-la de algum lugar.
- Eu também tenho essa certeza - afirmou Carla.
Desde o instante em que o vi, senti que o conheço não sei de onde.
O senhor tem um rosto muito familiar.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:05 pm

Nelson estremeceu.
Se eles se conheciam de outras vidas, só o tempo diria.
Mas tinha certeza de que a familiaridade que sentiam mutuamente tinha a ver com esta mesma vida.
A verdade logo viria à tona.
O que faria agora?
O que aconteceria com Carla?
Ela recobraria a memória?
Temia que algo de desagradável pudesse acontecer à única pessoa que mais amara nesta vida.
- Pai, parece que o senhor não está bem.
Está sentindo algum incomodo?
Sua cor sumiu um pouco.
- Deve ser a emoção.
De repente estou aqui, sendo medicado e tratado, com você e Santiago a meu lado.
Acabei por atrapalhar o dia-a-dia de Castro e André.
- Atrapalhou nossas vidas, mas ganhou dois amigos - retrucou Castro.
- Três, para falar o correto - concluiu Sílvia.
- Já me paga o suficiente para manter o escritório e ter uma boa vida.
Estamos também em vias de nos associar a um grupo estrangeiro.
Ficaremos ricos, acredite.
- Mas, por que está tão interessado no caso?
Mal nos falamos naquele dia...
- Conheci sua filha.
Encantei-me com ela.
Ela merece ter um documento de identidade, uma certidão de nascimento que lhe permita viver como cidadã brasileira.
Não podemos negar-lhe isso.
Nelson rendeu-se.
Mesmo atemorizado pela possibilidade de perder sua filha.
Só agora Nelson a notara no quarto.
Postada a sua frente Sílvia realmente era uma linda mulher.
Alta, fisionomia delicada embora com gestos firmes, olhos expressivos.
André tirara a sorte grande.
Procurando levar a conversa para outro rumo, considerou:
- Agora entendo o porquê de você estar apaixonado.
Sílvia também é muito mais bonita do que na foto.
Parece-me uma mulher encantadora.
- Obrigada, Dr. Nelson.
- Não me chame de doutor.
Sentir-me-ia melhor se me chamasse somente pelo nome.
- Está certo, Nelson.
É um prazer conhecê-lo.
Nos dias em que temos feito visita, Carla nos conta somente aspectos positivos e agradáveis a seu respeito.
- Carla é suspeita para falar qualquer coisa.
- Não sou suspeita! Falei a verdade.
Aliás, contei a Sílvia e André toda a minha história.
Antes de Nelson pronunciar qualquer palavra, sentiu a boca seca.
Arregalou os olhos de súbito.
- Você contou tudo?!
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:05 pm

- Sim. Qual o problema, pai?
- Nelson - interveio Sílvia - o seu gesto foi sublime.
Mesmo não sendo casado, suportou todo o escárnio da sociedade por amor a Carla.
Sua atitude é digna de aplauso, e não de reprimenda.
André continuou:
- Pelo que soubemos, você deve ter livrado essa linda moça de maus tratos de uma família que não a amava.
Deu nova vida a ela.
Deve se orgulhar disso.
- E por falar nisso - anuiu Castro - já comecei com o processo.
Nelson estremeceu novamente.
Agora sentia que não havia mais solução.
Carla estava a ponto de descobrir tudo e iria acusá-lo o resto da vida por não contar-lhe a verdade.
Passou nervosamente a mão pela testa, como a afastar o mau presságio.
- Mas você precisava de minha autorização.
Não podia deliberadamente começar o trabalho.
Não discutimos valores.
- Nem precisa.
Estou muito interessado no seu caso.
Não me leve a mal, mas sinto que preciso e quero ajudá-lo.
Não estou preocupado com dinheiro.
O meu cliente aqui - apontando para verdade vir à tona, percebeu que Carla não poderia viver assim por muito tempo.
Para efeitos legais, ela não era nada, passando invisível pelos órgãos.
Sentiu que seu apego estava se tornando maior do que imaginara a princípio.
Estava sendo egoísta.
Mas Carla era a única pessoa a quem verdadeiramente amara nesses poucos anos.
Nelson tivera carinho pelos pais, aprendera a gostar sinceramente de Vilma e Santiago, mas não era esse amor forte que brotara tão logo pousara seus olhos nos de Carla, naquela noite, anos atrás.
Esse amor ele nunca sentira, nem mesmo por outras mulheres que passaram pela sua vida, e que não foram poucas.
Não podia permitir que agora esse amor fosse-lhe arrancado.
Se Deus existisse, não permitiria uma barbaridade dessas.
Enquanto Carla, Santiago, Castro, André e Sílvia conversavam animados, ele ia pensando, tecendo em sua mente um plano de impedir a continuidade do processo.
Tentaria a todo custo atrapalhar.
Precisava ganhar tempo.
Nada mais lhe importava.
Até uma fuga espectacular para o exterior desfilava pelos escaninhos de sua mente.
Nelson precisava agir imediatamente; o tempo urgia e ele tinha de fazer alguma coisa.
Odete meneou a cabeça, começou a balbuciar algumas palavras.
Sentia-se fraca, os pensamentos longe.
Abriu os olhos e viu uma luz brilhante próxima à cama.
Fechou os olhos e abriu-os novamente.
Com a pouca força que sentia, procurou fixá-los na luz.
A luz foi tomando forma e surgiu a figura de Octávio a sorrir-lhe.
Tombada pelos medicamentos, Odete não sentia forças para questionar o que fosse.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:05 pm

Com a voz pastosa e mole, perguntou:
- Papai? É você mesmo...
Aposto que veio me buscar...
O espírito de Octávio continuava a sorrir-lhe.
Aproximou-se da cama e pousou uma das mãos no peito de Odete.
Jactos de luzes formando lindas matizes coloridas saíam de sua mão, penetrando no corpo da filha.
Odete foi serenando, sentindo-se melhor.
Já podia vê-lo nitidamente.
Com voz amarga e ainda um pouco pastosa, inquiriu novamente:
- Você veio me buscar?
Leve-me, papai!
Não aguento mais tanto sofrimento.
Perdi você quando era pequena, depois Leonor, e agora descubro que o homem que sempre amei me trai com uma sirigaita que diz ser minha amiga.
É muita injustiça.
Quero morrer. Leve-me...
Octávio continuava a despejar-lhe a energia salutar.
Após terminar a transfusão energética, delicadamente passou as mãos pelo rosto da filha.
Sentou-se a seu lado na própria cama.
Com voz suave, acariciando o rosto cansado de Odete, tornou:
- Muitas vezes, as coisas não são como vemos ou ouvimos.
Precisamos aprender a sentir, a confiar em nosso instinto.
Tudo o que vemos nunca pode ser mais forte do que aquilo que sentimos.
- Não estou entendendo.
- Você ama Tadeu.
Venho acompanhando-a desde o namoro.
Você fez o que achou ser melhor, procurando expressar seu amor a sua maneira.
- E o que fiz de errado?
Acho que vamos nos desquitar.
- Você não fez nada de errado.
Fez o que achou ser certo.
Odete, você precisa perceber que, conforme o tempo vai passando e começamos a amadurecer nosso espírito, somos obrigados a largar velhas posturas que não servem mais, que não dão mais o suporte necessário ao nosso crescimento.
Odete continuava olhando o espírito do pai com interrogação no semblante.
Octávio continuou:
- A vida está mostrando que você precisa mudar, filha.
Não adianta querer que Tadeu mude, que o mundo mude.
Você precisa promover sua mudança interior.
- Mas como posso mudar o que sinto por ele?
Eu o amo! E fui traída.
- Não precisa mudar o que sente por ele.
Precisa mudar a maneira como se relaciona com ele.
Você precisa voltar a ser como era antes de se casar.
Odete suspirou fundo:
- Aquela menina está morta. Não volta mais.
Estou indo para a meia-idade - disse ela, em tom de desalento.
- Como pode dizer-me uma coisa dessas?
Você ainda está na casa dos trinta, é moça, saudável, tem uma vida pela frente.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:05 pm

- Sinto muito, papai, mas não tenho mais dezoito anos.
Aquela moça que estava radiante e apaixonada no altar faz parte do passado, não existe mais.
Casei-me, fui obrigada a entrar na rotina, tive dois filhos para criar.
Não tive tempo suficiente para dedicar-me a Tadeu.
- Aí está o seu erro.
Você se largou, abandonou sua luz.
- Quando namorávamos, não tínhamos obrigações.
Agora temos família.
Não se trata de abandono, mas de obrigação.
- Família não é obrigação, é responsabilidade.
E quando fazemos tudo com amor e capricho, não é obrigação.
Depende da maneira como você encara suas responsabilidades.
Lembre-se que você escolheu se casar e ter filhos.
Ninguém a obrigou a isso. Fez porque quis.
As consequências de suas escolhas são responsabilidade sua.
- Sinto não ter forças para continuar.
A traição dói fundo na minha alma.
Como pude acreditar em Marta?
Ela me levou até o Centro e lá estudei, tive contacto com a realidade espiritual, com o conhecimento do mundo astral.
Fiz tratamento de desobsessão, fiquei boa.
Como ela pôde trair-me?
- Isso não compete a mim, e sim a você.
Só você poderá descobrir a verdade.
Se ama Tadeu, tenho certeza de que tudo será esclarecido.
- Mas, pai, quando ele vai voltar para mim?
Quando ele vai largar Marta e perceber que o amo?
Octávio, meneando a cabeça, e com olhos emotivos, respondeu:
- Só Deus sabe, minha filha.
Acariciou-lhe os cabelos, pousou delicado beijo em sua testa e afastou-se lentamente.
Odete tentou chamá-lo, mas em vão.
A luz brilhante foi-se apagando até sumir e deixar a sala em penumbra novamente.
Lágrimas começaram a descer pelo rosto de Odete.
Fundo suspiro brotou de seu peito.
Embora confusa em seus sentimentos, sentiu uma leve brisa que lhe trouxe novo ânimo de vida.
Os pacientes que estavam acordados próximos a sua cama olhavam-na com espanto.
Achavam que ela estava muito sedada e por isso delirava, falando sozinha.
A porta da enfermaria abriu-se.
Tadeu e Lívia entraram, emocionados.
Tadeu, com voz embargada correu até a cabeceira da cama.
- Meu amor, tudo vai ficar bem.
Estamos aqui a seu lado.
Odete não sabia o que responder.
Naquele momento não conseguia discernir se o encontro com o pai fora um sonho ou real.
Ao ver Tadeu correr até seus braços, mesmo debilitada, teve forças para estendê-los.
Esqueceu-se do pai, das dores, da tristeza.
Mesmo sentindo-se traída, amava aquele homem com ardor.
Esticou os braços com mais força e deixou-se beijar.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:05 pm

Chorando muito, declarou:
- Abrace-me, beije-me. Eu o amo.
Não quero perdê-lo. Perdoe-me.
Tadeu nada disse.
Abraçou com força a esposa e beijou-a demoradamente nos lábios.
Lívia resolveu sair à procura do médico.
Alguns pacientes comoveram-se com o casal.
No corredor, Lívia encontrou o médico responsável pela enfermaria.
- Quando ela vai receber alta?
- Não está em condições de alta.
Encontra-se emocionalmente estável.
Amanhã será analisada por um psiquiatra do hospital.
Soubemos como ocorreu o acidente.
Sua mãe precisa de tratamento.
- Queremos levá-la a São Paulo.
E lá que ela mora, é lá que está sua família.
Queremos transferi-la.
- Não posso responsabilizar-me.
Ela não está em condições de receber alta.
- Assinamos todo e qualquer documento isentando o hospital e os médicos.
Assumimos a responsabilidade.
Nós a levaremos para um hospital em São Paulo.
Já temos tudo acertado.
O médico ficou pensativo por instantes.
Odete estava instalada num hospital público, que carecia de leitos.
Convicto de que a família tomaria os devidos cuidados, acabou por convencer-se da transferência.
- Está bem. Vou providenciar os papéis, então.
O marido concorda com isso?
- Sim. Meu pai acertou a internação em São Paulo.
Precisamos somente da liberação.
Queremos levá-la hoje à noite, se possível.
- Não posso dar alta a esta hora da noite. Esqueça.
- Mas, doutor, precisamos levá-la!
A fractura já foi tratada.
Não há necessidade de mantê-la aqui.
- Não se trata disso.
Não damos alta há esta hora. É praxe.
Haverá um outro médico que passará por este andar amanhã bem cedo.
Deixarei tudo pronto.
Quando estiver saindo deste plantão, pedirei que ele lhes dê a liberação.
Precisarão estar aqui amanhã bem cedo.
Embora trate-se de um hospital público, temos disciplina e os horários são cumpridos.
Estejam aqui por volta das seis horas.
- Está certo, doutor.
Amanhã cedo estaremos aqui.
Prometo que faremos o melhor.
Lívia despediu-se do médico e seguiu aliviada pelo corredor.
Ao dobrar pela sala de espera, encontrou sua avó e Marta sentadas e conversando.
Ao verem Lívia, levantaram-se.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:06 pm

- E então, como está sua mãe? - inquiriu Marta.
- Ainda precisa de cuidados médicos, mas está bem.
Parece que precisará de um psiquiatra.
Papai está lá dentro. Deixei-os a sós.
Embora a enfermaria esteja lotada de estranhos, acho que chegou à hora de uma conversa franca entre papai e mamãe.
Carmem interveio:
- Marta acabou de me contar tudo.
Agora sei o porquê de sua mãe sair correndo daquele jeito.
Pobre Odete deve ter se sentido traída.
Será que ela vai entender?
Será que terá condições de aceitar a verdade?
- Vovó, isso só compete a ela.
Se ela passou por uma experiência dessas é porque deve haver lá os seus motivos.
Mamãe precisa amadurecer, valorizar-se.
E nada como uma sensação de traição para puxar o nosso valor escondido no mar de inseguranças que criamos ao longo dessa e de outras vidas.
- Você sempre me surpreende.
É mais sábia do que nós, mais velhos.
- Sempre procurei questionar os factos.
Nunca gostei de receber as ideias prontas.
Preciso verificar se elas são verdadeiras, e isso só desenvolvendo a intuição e sentindo com a alma.
- Assim você vai longe, Lívia - replicou Marta.
- Vou mesmo, no sentido literal da palavra.
Carmem não entendeu.
Lívia piscou para Marta e voltou-se para a avó.
- Bem, antes que faça perguntas, já vou avisando:
assim que mamãe chegar a São Paulo, vamos assinar alguns papéis e vou me casar com Cláudio.
Após o casamento, iremos para o Chile.
- Então vocês vão se casar aqui e eu serei a madrinha? - inquiriu Marta, alegre.
- Duas vezes madrinha.
Não se esqueça que lhe prometi o primeiro filho que eu e Cláudio tivermos.
- Mas você é muito nova! - exclamou Carmem.
- E quantos anos a senhora tinha quando se casou com vovô?
E minha mãe, quando se casou com papai quantos anos tinha?
Carmem começou a rir.
Riu do jeito bem-humorado de Lívia falar e de sua própria censura.
- Estou ficando velha, minha neta.
Você tem toda a razão.
Se ama mesmo esse moço, só posso desejar-lhes felicidades.
- Eu já havia dito que Lívia tinha puxado você na espiritualidade.
Agora vejo que a puxou em tudo mesmo!
Nunca vi uma família onde as gerações se casassem tão cedo.
- É coincidência.
No meu tempo casávamos cedo porque fazia parte.
Não tínhamos adolescência.
Saíamos da infância tal qual adultos.
Não tínhamos música, não tínhamos roupa, nada servia para nós.
Ou éramos crianças ou adultos.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:06 pm

Graças a Deus a geração de minha neta está mostrando que o jovem não pode ser tratado à margem da sociedade, como se não existisse, como se não pensasse.
Gostaria de ter dezoito anos hoje.
- Não precisa ter dezoito anos, vovó.
A senhora pode curtir o que quiser.
A idade não é factor para limitar a nossa vontade. Isso é crença.
Portanto, se quiser ouvir rock, você tem todo o direito de ouvi-lo.
Não existe a história de que não tem mais idade para esse tipo de música ou de roupa.
Com inteligência e bom senso, tudo se resolve.
- Tentei emprestar um disco de Janis Joplin, mas sua avó recusa-se a pegá-lo.
Tem a mente liberada, sai com o grupo jovem do nosso Centro, é actualizada, tem um bom papo, mas ainda se prende a certos valores antigos e preconceituosos.
- Vamos fazer uma aposta? - perguntou Lívia.
- Depende, minha neta.
- Caso papai e mamãe se acertem, você promete ouvir os discos de rock da Marta?
- Eu torço tanto para que sua mãe enxergue o quanto seu pai a ama que faria qualquer coisa para vê-la feliz.
Até dar-me a chance de derrubar meus preconceitos e ouvir as músicas de sua geração.
Está combinado.
Se eles se acertarem, vou passar a interessar-me pelo rock.
Abraçaram-se com amor e riram animadas.
- Marta, pode ir.
Já fez muito por nós hoje.
Eu, papai e vovó iremos de táxi.
Vá descansar. Amanhã conversaremos.
Marta tentou insistir, mas logo percebeu que ambas queriam ficar a sós.
Resolveu ir para casa.
De facto, não era de bom-tom encontrar-se com Odete, pelo menos por ora.
Tadeu e Lívia precisavam primeiro demovê-la da ideia de traição, para que depois de tudo esclarecido pudessem conversar, se fosse necessário.
Despediu-se de avó e neta e foi para casa.
Entrou no carro, ligou o motor.
No caminho para casa, começou a recordar os momentos que tivera com Odete.
Continuou a pensar e sentiu leve perturbação.
Acostumada com as aulas no Centro, percebeu que era hora de pôr em prática o aprendizado.
Marta não podia enxergar os espíritos, mas podia percebê-los.
Sua mediunidade estava equilibrada e ela sentia-se apta a afastá-los.
Para não atrapalhar-se no trânsito, encostou o carro numa travessa próxima à Avenida Presidente Vargas.
Era um pouco tarde e ela procurou uma rua tranquila, com tráfego menos intenso.
Procurou inspirar e soltar vagarosamente o ar.
Foi relaxando o corpo.
Enquanto fazia isso, um espírito envolto por uma sombra escura bradava-lhe palavras de baixo calão.
Era o mesmo espírito que havia se ligado a Odete tempos atrás.
Marta percebeu o mal-estar aumentar.
Fez sentida prece.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 19, 2016 8:06 pm

Em seguida começou a visualizar uma grande bola de luz envolvendo-a, ao carro e a qualquer outra coisa que lá estivesse.
Foi fazendo com que mentalmente essa bola se tornasse cada vez mais brilhante e forte.
O espírito que antes estava gritando no banco de trás começou a assustar-se.
A luz ofuscou-lhe a visão.
Conforme Marta mentalizava, o espírito via uma luz branca e brilhante sair do corpo dela e abranger todo o carro.
Percebendo que a vibração daquela luz lhe causava tremendo mal-estar, a entidade pulou da janela e perdeu-se por entre as sombras da noite.
Paulatinamente, Marta foi sentindo-se melhor.
Percebeu que uma leve brisa passava por seu rosto.
Sentiu um aroma doce no interior do veículo.
Esboçou leve sorriso.
Falou em voz alta, enquanto ligava o motor:
- Nada como estudar e praticar.
Hoje tive a experiência de poder me livrar de energias ruins.
Com a cabeça cheia de pensamentos optimistas e positivos em relação a ela mesma e à vida, foi seguindo feliz até sua casa.
Lívia e Carmem voltaram à enfermaria.
Lívia falou, radiante:
- Pelo jeito, parece-me que os dois se entenderam.
- Venha cá, minha filha. Dê-me um beijo.
Como pude ser tão tola?
Por que não me contaram a verdade?
Eu poderia ajudá-los de alguma maneira.
Lívia caminhou até a mãe.
Abraçou-a e beijou-a na face.
- O passado não interessa.
Mesmo parecendo estar errados, fizemos o que julgávamos ser o certo.
Você estava fechada em seu mundo, não podíamos compartilhar de um assunto tão delicado.
- Seu pai contou-me tudo.
Não sabia que estávamos vivendo uma situação tão horrorosa.
Afinal de contas, nunca li nada a respeito nos jornais ou vi algo na televisão nos alertando para esse facto.
- Mãe, você é muito ingénua!
Esqueceu-se de que estamos em meio à ditadura?
Eles controlam tudo, inclusive todos os meios de comunicação.
Só mesmo quem está envolvido é que pode saber a verdade.
A maioria dos brasileiros não tem noção do que ocorre.
- Isso é verdade - anuiu Tadeu.
Em paralelo a essa luta que poucos começaram a travar contra o regime, estamos vivendo a era do milagre económico.
A classe média está podendo comprar seu carro, sua casa, artigos que antes eram de poucos.
Quando a família tem conforto e comida na mesa, condições de viajar, de oferecer estudo aos filhos, não vai questionar se o presidente é general ou civil, se há tortura ou não.
Não sei o preço que pagaremos amanhã por tudo isso, mas logo essa farsa também vai acabar.
Espero que possamos sobreviver a isso.
- Pai, um dia entenderemos o porquê de vivermos uma época tão dura.
Talvez tenhamos de valorizar a liberdade, o respeito, não sei ao certo.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:48 pm

Mas sairemos desse regime, um dia, mais fortes.
Estou certa disso.
Odete afirmou:
- Quero participar.
Não quero mais ser uma pessoa medíocre e alheia aos factos ao meu redor.
Quero ser útil, ajudar no que for preciso.
- Faça sua parte, mãe.
Viva sua vida de maneira digna.
Ame seu marido, aprenda a valorizar-se.
Assim, você será mais útil, caso um dia voltemos a ser livres novamente.
- Talvez eu tenha mesmo de fazer isso.
Mas algo me preocupa.
- O quê?
- Essa ideia absurda sua de casar-se com Cláudio.
Ele não pode oferecer-lhe nada.
O que será de suas vidas?
- Seremos felizes. Eu o amo.
Quero viver a seu lado.
Você escolheu casar-se com papai.
Casou-se aos dezoito anos.
Vovó tentou demovê-la da ideia, mas você seguiu firme.
Não adianta, vou fazer o mesmo.
- Você nem mesmo completou dezoito anos!
Não tem profissão.
Seu pai disse que irão para o Chile.
Será que lá é seguro?
- Cláudio diz que sim.
O presidente está dando asilo político.
É melhor irmos para lá do que para a Europa.
É mais perto, e podemos voltar à hora que quisermos, também.
- Fico preocupada. Você é muito nova.
- Nova e madura - interveio Carmem.
- Isso mesmo - afirmou Tadeu -, sua mãe está certa.
Lívia sempre foi madura, desde cedo.
Eu vi o brilho nos olhos dela e nos de Cláudio.
É parecido com o brilho que tínhamos quando namorávamos.
Eles se amam. E eu vou assinar os papéis que forem necessários para que eles se casem e sejam felizes.
Conheço Cláudio há anos.
É um bom sujeito.
Honra-me tê-lo por genro.
- Bem, parece que está tudo resolvido.
Não posso fazer nada.
Nem adianta discutir.
Se é assim, eu também assino os papéis.
Vá viver sua vida, Lívia.
Procure não errar, como eu fiz com seu pai.
- Não diga isso, mãe.
Tudo fazemos pelo melhor.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:48 pm

Tenho certeza de que vocês viverão muito bem juntos.
E precisa dar amor e carinho ao seu filho.
Lucas está morrendo de saudades e sofrendo com sua ausência.
Somente naquele instante Odete lembrou-se do filho.
Um amor puro e incondicional brotou de seu peito.
Naquele instante desejou profundamente mudar e melhorar.
Tinha a responsabilidade de criar seu filho num ambiente de paz, amor e harmonia.
Continuaram a conversar até o momento em que Odete, vencida pelos tranquilizantes, adormeceu.
O marido, a filha e a mãe beijaram-lhe a testa e saíram da enfermaria.
Tomaram um táxi e seguiram felizes e aliviados para a casa de Carmem.
- A senhora sente-se melhor?
Odete abriu os olhos.
Percebeu não estar na enfermaria; olhou ao redor e constatou ser um quarto particular, bonito, bem arejado.
Um lindo vaso com flores perfumadas estava ao lado de sua cama.
Espremeu novamente os olhos para certificar-se do local.
- Eu não estava neste quarto.
- Não. Foi transferida ontem.
- Transferida? Ontem?
Não me recordo.
- Foi-lhe dada alta dosagem de tranquilizantes.
Os médicos lá no Rio temiam que a turbulência do avião pudesse incomodá-la.
Sabe como é, sua perna ainda requer cuidados.
- Fui transferida do Rio? Onde estou?
- Em São Paulo.
Num dos melhores hospitais do país.
Odete custou a acreditar.
Por mais que tentasse, não se recordava de ter sido removida.
A última lembrança que tinha era da conversa com o marido, a filha e a mãe.
O resto era um buraco negro a cobrir-lhe a memória.
- Onde está minha família?
- Seu marido precisou trabalhar, afinal hoje é segunda-feira.
Sua filha foi apanhar algumas mudas de roupas.
Parece que vai receber alta em dois dias.
- Vou ficar mais dois dias aqui?
- Sim. A fractura de sua perna foi feia. Precisa de cuidados.
Se tudo correr bem, depois de amanhã estará em casa.
- Não aguento mais ficar parada.
- Quando somos obrigados a parar, como foi o seu caso, sempre é para perceber que há mudanças que deveríamos ter feito e não fizemos.
Quer situação melhor do que ficar de cama para ter vontade de fazer uma série de coisas?
- Isso é verdade.
Tantas coisas eu quis fazer, mas sempre adiei.
Ia deixando de lado, arrumando desculpas, justificativas para não fazer.
Quando minha irmã morreu, aí perdi a vontade de tudo.
- É muito difícil encararmos a perda de um ente querido ainda mais quando temos afinidades.
- E esse era o nosso caso.
Eu e Leonor nos dávamos muito bem.
Minha irmã era a única pessoa que me entendia, que me dava forças.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:48 pm

Sua morte criou um vazio muito grande em meu peito.
A enfermeira estava terminando de trocar o soro.
Para que Odete não sentisse o desconforto das retiradas de esparadrapo e do tirar e pôr de agulhas, continuou a prosa:
- Faz tempo que ela faleceu?
- Perto de seis anos.
Há momentos em que esses anos parecem dias, outras vezes parece que ela morreu há tanto tempo!
- Sei o que diz.
Até hoje sinto isso, e olhe que meu pai morreu há mais de dez anos.
- Se Leonor estivesse a meu lado, garanto que seria mais fácil eu realizar as mudanças.
- Que mudanças?
Odete percebeu a expressão interrogativa no rosto da jovem enfermeira.
Meneou a cabeça, deixou um sorriso formar-se entre seus lábios e nada mais falou.
Fechou vagarosamente os olhos.
A enfermeira terminou o serviço e retirou-se.
Meia hora depois, Lívia chegou, ansiosa e animada.
Mal conseguia falar, tamanha a emoção.
Odete, mais recomposta, procurou sentar-se na cama.
- Antes de vir com novas histórias, gire a manivela aí no pé da cama.
Não aguento mais ficar deitada.
Ajude-me, preciso inclinar o corpo.
Lívia deixou a sacola e a pasta que trazia nos braços sobre a poltrona próxima e fez o que a mãe solicitara.
Após girar a manivela até permitir que o encosto da cama ficasse num ângulo confortável para as costas de Odete, a filha foi pegando o travesseiro e ajeitando as costas da mãe.
- Assim está bom, Lívia. Obrigada.
Agora conte-me o que faz esses olhos brilharem tanto.
- Está tão perceptível assim?
Não consigo disfarçar, mamãe.
Nunca saberia representar.
- Mas por que tanta felicidade?
- Três motivos.
O primeiro é que você recebe alta amanhã.
Odete suspirou aliviada e feliz.
Estava cansada do ambiente hospitalar.
- E os outros, posso saber quais são?
- O segundo é este aqui - Lívia pegou a pasta na poltrona, tirou alguns papéis.
Aqui estão os papéis que a senhora precisa assinar.
Trata-se da minha emancipação.
Preciso regularizar tudo o mais rápido possível.
Queremos que o juiz dê a sentença para Cláudio e eu partirmos felizes.
- Filha, isso pode demandar tempo.
As coisas não funcionam tão rápidas assim.
- Não tem problema.
Nós partiremos assim mesmo.
Papai ficou de mandar os documentos para o Chile tão logo fiquem prontos.
Odete pôs as mãos na cabeça:
- Você não pode partir assim!
Vocês não tinham decidido se casar antes de viajar?
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:48 pm

Precisam casar-se primeiro, sim.
Como fica a sua reputação?
Não acha melhor esperar mais um tempo e sair daqui casada, sem dar brecha para que venham tripudiar sobre sua honra?
- E eu lá quero saber disso, mãe?
Não me interessa o que as pessoas vão falar ou pensar.
O que interessa é o que sinto por Cláudio.
Eu o amo, e está acabado.
Ele corre sério risco estando por aqui.
Não posso deixar que a vaidade alheia estrague a nossa vida em comum.
Por isso, quanto mais rápido partirmos, melhor será.
Odete tentava, mais uma vez, demover a filha dessa ideia precipitada:
- Então deixe que Cláudio vá.
Quando tudo ficar pronto, você vai ao seu encontro.
- Sei o que é melhor para mim, não se preocupe.
Vou com ele. Antes do fim do mês espero estarmos longe.
Odete assustou-se:
- Mas já? Vai abandonar-me, sem mais nem menos?
Preciso de um tempo para acostumar-me à ideia de não tê-la mais ao meu lado.
Lívia sentou-se na beirada da cama.
Firme, disse:
- Eu adoro você.
Mas gostaria que fosse sincera comigo.
Não seja hipócrita, não faça jogos comigo.
Odete meneou a cabeça, procurando expressar através dos olhos arregalados as palavras que não saíam de sua boca.
Sentiu os músculos paralisados.
Lívia, impassível, continuou:
- Sempre demo-nos bem, mas desde pequena percebo a diferença de tratamento que faz entre mim e Lucas.
Odete ia dizer algo, tentar dissimular, mas Lívia não deixou.
Fazendo sinal com o dedo para que a mãe permanecesse quieta tornou:
- Eu teria todos os motivos do mundo para sentir-me inferiorizada, magoada.
Mas por Deus, tive a lucidez necessária e aprendi a compreender que as pessoas não podem dar aquilo que não têm.
Você gosta de mim, sei disso.
Mas todas as vezes que tinha a oportunidade de dar-me uma sova, não titubeava.
Às vezes me batia sem motivo aparente.
Odete sentiu-se impotente.
Era-lhe muito duro ouvir a verdade.
Tentou abrir a boca para defender-se, mas a filha a impediu novamente.
- Não estou aqui para criticá-la.
Você fez o melhor que pôde.
Não tenho traumas e não estou me casando para livrar-me de seus olhares repressores.
Só quero ser transparente.
Gosto muito de você, por isso estou falando nesse tom.
- Eu sei que nunca tive muita paciência com você...
Odete começou a chorar.
Sentia-se cansada de representar.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:49 pm

Estava na hora de enfrentar a verdade.
O olhar perscrutador da filha a impedia de continuar dissimulando.
Lívia permanecia imperturbável.
Odete continuou:
- Sempre a vi como uma ameaça.
Quando nasceu, seu pai ficara deslumbrado.
Meu ciúme não suportava vê-lo dividindo seu amor entre mim e você.
Sei que é loucura, mas vi em você uma grande ameaça.
Pensei em fazer análise na época, mas não tive coragem.
- Qual o problema de procurar ajuda?
Um psiquiatra poderia ajudá-la muito a superar esses problemas, ou um psicólogo.
- Naquela época associávamos psiquiatra a loucos.
E quem ia atrás de psicólogo era visto como problemático, neurótico.
Eu sabia não estar louca.
Tive vontade de procurar ajuda, mas a falta de coragem foi maior que minha vontade.
Sempre procurei amá-la.
Você foi gerada com amor, sempre desejei ter filhos.
- Não a culpo. Só estou querendo que enxergue a sua verdade.
Quem sabe, agora que estou dando esse passo decisivo em minha vida, nossa relação possa mudar?
Quem sabe não poderemos ser amigas, como você era quando tia Leonor estava viva?
- Ah, Leonor...
Quanta falta ela me faz! - Odete enxugou as lágrimas.
A princípio procurou desviar os olhos dos da filha.
Após ouvir suas palavras, que sentia serem verdadeiras, tornou:
- Deve ter sido o acidente, mas Leonor não sai de minha cabeça.
Não entendo muito das coisas espirituais, mas tenho sentido fortemente sua presença.
Hoje está insuportável.
É como se ela estivesse por aqui.
Será que ela teve permissão lá do outro lado e veio me visitar?
- Não sei, mamãe.
Quando nos ligamos em pensamento, seja a uma pessoa encarnada ou desencarnada, atraímos a mente dessa pessoa para perto de nós.
Não acredito que tia Leonor esteja aqui em espírito, porque não estou sentindo nenhuma presença neste quarto.
Já estudei como se percebe a presença de desencarnados, e a minha mediunidade não me trai.
Tenho segurança no que digo.
E este não é o caso.
Mas saiba que as mentes se ligam.
- Isso quer dizer que, onde quer que ela esteja, pode estar irradiando sua energia para cá?
- Se estiver ligada em você, pode.
Não se aflija, pois não importa o que esteja sentindo neste momento.
Já que não sabe lidar com a realidade espiritual, mentalize tia Leonor muito bem, feliz, alegre.
Onde quer que esteja, vai receber essa vibração.
- Você tem razão.
Se existe mesmo vida após a morte, espero que ela esteja bem.
Ultimamente tenho pensado nela, tenho sonhado com seu avô Octávio.
São sensações novas, que nunca tive antes.
- Talvez agora esteja na hora de mudar, de entender que você é mais do que carne e osso.
Está na hora de perceber que um espírito milenar está envolto pelo seu corpo físico.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:49 pm

- Você está certa, Lívia.
Eu preciso mudar, preciso reavaliar os meus sentimentos.
E estou interessada em fazer terapia.
Também quero frequentar um lugar onde possa estudar com bastante seriedade a vida espiritual.
Esse é um alimento que minha alma necessita agora, desde que estive no Rio.
Mas onde vou encontrar um lugar tão bom quanto aquele aonde sua avó me levava?
Nunca frequentei nem sequer procurei um lugar como esse aqui em São Paulo.
Lívia, passando delicadamente as mãos nos cabelos de Odete, disse-lhe com voz amável:
- Quanto à terapia, papai já conversou com o pessoal da universidade.
Há muitos bons profissionais que poderão ajudá-la.
E quanto a procurar um Centro, sei de um lugar muito bom no Pacaembu.
- Pacaembu? É um pouco longe.
- Quando o lugar é bom, o que menos importa é à distância.
- Bem, isso é verdade.
Mas quem indicou esse Centro?
É um bom lugar? Tem referências?
- Sim. D. Ema o frequenta há muitos anos.
Odete olhou a filha perplexa:
- D. Ema? A esposa do Seixas?
- Sim, ela mesma.
- Mas Ema está sempre ocupada!
Cuida da casa, dos filhos, e ainda dá aulas de piano para ajudar no orçamento.
É uma mulher muito culta.
- E qual o problema de ser culta?
D. Ema é muito inteligente, uma mulher sem igual.
Por que não poderia frequentar um Centro Espírita?
- Não sei. Nunca me perguntei isso.
Mas geralmente quem vai a um Centro é porque está com problemas.
Não me parece que a vida de Ema esteja com problemas.
- É onde você se engana, mãe.
Não precisamos frequentar um Centro porque estamos com problemas, sejam emocionais, financeiros ou espirituais.
Claro que a maioria das pessoas o procura na hora da dor, do desespero.
Mas há muita gente que sente necessidade de alimentar a alma, de estudar a mediunidade, de educar a sensibilidade.
Essas pessoas não precisam da dor para chegar lá.
Vão por livre e espontânea vontade, felizes em poder estudar, aprimorar os potenciais do espírito.
E D. Ema encaixa-se nesse perfil.
- Como as aparências enganam!
Nunca poderia imaginar Ema num lugar desses.
Sabe que isso me estimula a querer também frequentar?
- Fico muito feliz.
A senhora vai melhorar, e disso eu tenho certeza absoluta.
- Por que diz isso?
Lívia, cautelosa para não deixar ansiosa a mente da mãe, considerou:
- Por nada. Vamos aguardar.
- Por que seu irmão não vem me visitar?
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:49 pm

- A senhora já sabe que Lucas odeia hospital.
Pediu para dizer-lhe que o compreenda.
Enquanto não chega em casa, ele está lá, dando um toque especial em tudo.
- Seu irmão sempre teve jeito para isso.
Aposto que está pintando paredes, consertando móveis quebrados...
- E muito mais. Temos uma surpresa:
promovemos uma mudança em seu quarto.
Estava muito frio, faltava um pouco de romantismo.
Odete sorriu.
Curiosa, perguntou:
- O que vocês andam aprontando?
- Eu não fiz nada.
Estou correndo como louca com os papéis para a emancipação.
Lucas é que está se divertindo. Aguarde e verá.
Ficaram conversando mais um pouco.
Lívia procurou expressar tudo o que se passava em seu coração.
Suas inseguranças, as raivas que havia sentido da mãe, a diferença nítida que Odete sempre fez entre ela e Lucas, etc.
Odete também procurou se expressar, embora com mais dificuldade do que Lívia.
Começavam a entender-se para valer.
Até que, passado um bom tempo, Odete perguntou:
- Você me disse que estava feliz por três motivos.
Até agora foram dois.
Qual é o terceiro?
Lívia levantou os olhos e suspirou.
- Mãe, sabe quem estava na recepção quando cheguei?
- Quem?
- Ricardo Ramalho, o galã de novelas.
- Tem certeza? Aqui no hospital?
- Tenho sim, mãe. É o próprio.
Nossa, como ele é lindo!
Aquelas costeletas são um charme à parte.
Gostaria de aproximar-me, mas todos na recepção ficaram em cima, pedindo autógrafo.
E além do mais...
- O que tem, filha?
- Ele está com aquela antipática da Fernanda Santos.
Como pode um homem tão lindo como aquele namorar uma mulher horrorosa como aquela?
E ainda por cima, ela tem uma energia detestável.
- Não fale assim. Eles formam um belo casal.
Como sabe que ela tem uma energia ruim?
- É só chegar perto.
Aquela mulher vibra ódio, mãe!
Tem alguma coisa esquisita entre eles.
Ele a olha com um jeito mole bobo.
Parece dominado. Tem coisa aí.
- Você está enxergando demais.
Deixe suas fantasias de lado.
E se Cláudio a pega falando assim de outro homem?
Você está comprometida, precisa comportar-se.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:49 pm

- Sou fiel e comportada.
Estou aqui falando da beleza de um homem. Que mal há nisso?
O facto de admirar um homem não quer dizer que eu o queira para mim.
É só uma questão de admirar as belezas de Deus.
Cláudio não se importa.
Quando vemos alguém que chame atenção, que se destaque, que seja bonito, falamos abertamente.
Isso é saudável em nossa relação.
Temos amor um pelo outro, respeito, mas também temos olhos que tudo vêem e percebem.
- Decididamente, somos diferentes.
Eu tenho mesmo muito que mudar e aprender.
Se uma mulher pousa os olhos em seu pai, fico completamente louca.
Quero partir para cima, bater, tirar satisfações.
- É natural quando nos sentimos inseguros.
- Mas, e se ele der brecha?
Eu preciso me posicionar!
- Respeito próprio, mãe. Use o seu respeito.
Se ele der trela para qualquer uma, quem está perdendo é ele, e não você.
Ele estará correndo o risco de perder uma mulher que o ama de verdade por uma paixão passageira.
E quando acabar perceberá que perdeu o seu grande amor.
- Nunca havia enxergado por esse ângulo.
- Pois trate de enxergar por vários outros ângulos.
A vida é rica e sempre oferece várias alternativas para resolvermos um problema, quando estamos dispostos.
- É, não há dúvidas de que preciso aprender muito mesmo - e procurando mudar de assunto, Odete, sorriso malicioso, confessou à filha:
- Sabia que o irmão do Ricardo namorava sua tia?
Talvez, se estivessem vivos, poderiam estar casados.
- É, a vida é mesmo curiosa:
por pouco não fomos parentes.
Houve aquela tragédia, eu era muito garota, não me lembro direito.
E depois do acidente, mãe, vocês nunca mais tiveram contacto?
Com tristeza nos olhos, Odete respondeu à filha:
- Muito pouco. Naquela época Ricardo estudava teatro, era desconhecido.
Logo depois do acidente, ele e o pai foram passar um tempo no exterior.
Sei que quando voltou da Europa encontrou-se com sua avó algumas vezes.
Parece que os contactos foram escasseando.
Ele tornou-se um dos atores mais talentosos do país.
Vai ver a fama subiu à cabeça.
Por que continuaria mantendo contacto?
- Não sei, não acredito nessa teoria.
Ele trabalha em São Paulo e vovó mora no Rio.
Fazendo uma novela atrás da outra e ainda as peças de teatro, não deve sobrar tempo algum para encontrar-se com as pessoas.
Ele deve ter uma vida bastante atribulada.
Não me parece o tipo que mudou por causa da fama.
Mas essa Fernanda, não sei, ela com certeza deixou a fama tomar conta de seu corpo todo.
- Interessante. Ouvindo você falar, começo a recordar-me de algumas matérias que li sobre essa actriz.
Ela não deve ser muito simpática.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:49 pm

Vejo muita gente torcer-lhe o nariz.
Será que é metida mesmo?
- Se é metida não sei, mas que tem a energia pesada, ah, isso tem.
Ouviram leve batida na porta.
Carmem colocou a cabeça para dentro do quarto.
- Posso entrar?
Odete admirou-se:
- Mãe?! O que você está fazendo aqui?
Estamos em São Paulo!
Carmem continuou com a cabeça inclinada na porta:
- Você precisa de cuidados.
Lívia vai partir em breve com Cláudio.
Lucas não pode ficar só, embora seja um menino prestativo e independente.
Tadeu precisa de minha ajuda.
É só por pouco tempo.
Como sou funcionária exemplar, peguei uns dias de licença.
- Mas não precisava se incomodar, mãe!
Agora temos a Marilza.
- Marilza continuará cuidando da casa, da comida, das roupas.
Eu cuidarei de você, da sua perna, e acima de tudo, da sua cabeça!
Riram bem-humoradas.
- Mas por que a senhora não entra?
Vai ficar aí parada feito poste?
- Não. Eu queria primeiro certificar-me de que você estava acordada e bem.
Trouxe uma visita.
Odete pensou rápido:
- Aposto que Marta está aí.
- Não. Marta só poderá vir nos visitar no próximo final de semana.
Quem trago aqui é alguém que está causando furor no hospital.
Carmem abriu lentamente a porta.
Foi puxando pela mão um homem, que timidamente caminhava até a entrada do quarto.
Aos poucos, ele parou na soleira da porta, injectando prazer nos olhos salientes de Lívia, e por que também não dizer, em Odete.
- Queridas, apresento-lhes Ricardo Ramalho, um velho conhecido meu.
Ricardo entrou no quarto e cumprimentou educadamente Lívia.
Depois, dirigiu-se até a cama e pousou leve beijo na testa de Odete.
- Como vai? Há anos não nos vemos.
Você continua a mesma, Odete.
Odete ruborizou.
- Ora, são seus olhos.
Imagino como devo estar, aqui dopada, com essa expressão cansada, essas olheiras, os cabelos mal arrumados.
- Mas há um brilho vivo nos seus olhos, e isso é sinal de que está bem.
- Obrigada.
Lívia continuava olhando-o de cima a baixo.
Não conseguia emitir som algum.
Não podia acreditar que aquele deus grego estivesse no quarto.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:50 pm

Carmem tornou:
- Cheguei há pouco e vi o alvoroço que estava na recepção.
Pensei que alguém estivesse passando mal.
Daí nossos olhos encontraram-se.
Ricardo concluiu:
- Sua mãe salvou-me do incómodo.
Pensei que fossem rasgar-me a roupa.
- E sua namorada? - inquiriu Lívia.
- Fernanda voltou para casa.
Viemos com um amigo, Sampaio.
Ela tem horror a esse tipo de assédio.
Despediu-se de mim na recepção e seguiu com Sampaio.
- E o que está fazendo aqui?
Seu pai está com algum problema? - perguntou Odete.
- Não. Graças a Deus meu pai vai bem.
Está até com data de casamento marcada.
Odete admirou-se.
André havia passado por poucas e boas.
Perdera a esposa e o filho.
Depois precisara de tratamento psiquiátrico.
Agora estava curado e ia até se casar?
Como pudera mudar tanto?
Curiosa, continuou:
- Danado ele, não?
Já não passou da idade?
Carmem e Lívia olharam-na com reprovação.
Odete deu de ombros.
Ricardo, com o humor que lhe era peculiar, não se alterou.
- Papai é novo ainda. Está na casa dos cinquenta.
Está bonito, tem se cuidado.
Merece ser feliz, amar e ser amado.
Não há idade para o amor.
Odete não se deu por vencida:
- E quantos anos têm a noiva dele?
A mesma idade que ele?
- Não sei ao certo.
Sílvia deve ter uns trinta anos.
- Nossa! Vinte anos de diferença.
Não acha muito?
Ricardo tentou responder, mas Lívia replicou:
- Mamãe, vinte anos é a diferença entre mim e Cláudio. Esqueceu-se?
Odete olhou-a com o cenho fechado.
Ricardo perguntou interessado:
- Seu namorado é vinte anos mais velho que você?
- Sim. Vamos nos casar em breve - respondeu Lívia, com voz firme.
- Puxa, uma garota tão nova e tão decidida.
Você deve mesmo amá-lo.
Dê-lhe um recado meu:
Diga que é um homem de sorte.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:50 pm

- Obrigada. Também sou uma mulher de sorte.
Ele também tem o seu valor.
Odete, procurando desviar o rumo da conversa, considerou preocupada:
- Você disse que seu pai está bem, e que vai até se casar.
Pois bem. Então há algum membro de sua família que não está bem?
Ricardo riu bem-humorado.
- Não precisa preocupar-se, Odete.
Não tenho ninguém mal em minha família.
É que papai conheceu um médico conceituado de uma cidade do interior há poucos dias.
Ele e nosso advogado o convidaram para jantar para se conhecerem melhor.
E não é que o médico teve um princípio de enfarte durante o jantar?
Como ele não tem familiares por aqui, papai e o Dr. Castro tomaram todas as providências necessárias e o estão acompanhando.
Ele está internado no andar aqui embaixo - respondeu, apontando o dedo para o chão.
- E a família, já foi avisada? - perguntou Lívia.
- Sim. A filha dele veio com um outro amigo médico, pelo que me parece.
Papai ficou impossibilitado de trazer-lhe alguns pertences que estavam no hotel em que o médico estava hospedado.
Achei a história tão inusitada que estou curioso por conhecê-lo.
- Você ainda não o visitou?
- Não, ainda não.
Encontrei sua avó no saguão.
Ela livrou-me do assédio e então resolvi visitar Odete primeiro.
Não nos vemos desde...
Ricardo parou de falar.
Odete deixou que duas lágrimas descessem pelo seu rosto.
- Não nos vemos desde a missa de nossos irmãos - completou Odete.
- Isso mesmo. Mas agora estamos aqui, vivos e com muitas tarefas a realizar.
Quero retomar o contacto com vocês.
Ainda mais agora, que estarei perto de Carmem.
- Perto de mim? Como assim?
- Fui contratado por uma emissora de TV carioca.
Tudo esta acontecendo mesmo em boa hora.
Papai está se casando, retomando sua vida afectiva.
Está feliz. Eu recebi uma proposta irrecusável para mudar-me para o Rio.
Pretendo fixar residência em Ipanema.
Carmem exultou de felicidade:
- Seremos vizinhos!
Será um prazer tê-lo tão perto de mim.
- O prazer será todo meu.
Sempre gostei muito de você, Carmem.
A ajuda que você e Marta me deram, na época da morte de Rogério, foi fundamental para o meu equilíbrio.
Os livros que me emprestaram, o carinho que me dedicaram.
E olha que você tinha acabado de perder Leonor.
Você tem uma alma nobre.
Pena que eu não tenha podido retribuir.
Logo depois comecei a trabalhar na televisão e, como pode ver, nos últimos anos não tenho parado.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:50 pm

- Não importa, meu filho. Fico feliz de vê-lo bem.
Acompanho sua carreira pelos jornais, revistas e também assisto suas novelas.
Eu me lembro que você e Rogério eram idênticos.
Mas você está tão diferente!
- São as costeletas e os cabelos compridos.
É a moda. Muita coisa mudou.
Estamos na década de setenta, não temos mais aquele ar de garoto comportado.
- Está diferente mesmo.
Mas os olhos não mudam jamais.
Através deles, consigo enxergar seu irmão.
Ambos se emocionaram.
Ricardo, dissimulando o sentimento, perguntou em tom conciliador:
- Você e Marta ainda frequentam aquele Centro no Rio de Janeiro?
- Continuamos com o trabalho e o estudo.
No começo recebíamos comunicação de Rogério, mas aos poucos elas foram escasseando.
- No Centro que frequentamos aqui em São Paulo também recebemos comunicações.
Infelizmente, por causa do meu trabalho e do assédio dos fãs, tenho ido muito pouco.
Já papai frequenta toda semana.
O espaço que frequentamos é mais voltado para os estudos e passes.
Mas, algumas vezes, papai diz que fazem sessões especiais, onde porventura ocorrem algumas desobsessões ou comunicações.
Mas isso é muito raro.
Quando as comunicações acontecem, normalmente são instruções, orientações dadas pelos espíritos para o nosso equilíbrio emocional.
Carmem afirmou:
- O nosso também funciona assim.
Estamos aprendendo muito sobre as verdades da vida.
Depois de quase meia hora de conversa, Ricardo deu-se conta do horário.
- Bem, desculpem-me.
A conversa está muito boa, mas preciso levar os pertences ao médico.
Estou atrasado. Foi um prazer revê-las.
Ricardo beijou Odete, depois Lívia.
- Espero que seja muito feliz com o homem que escolheu para casar.
- Espero que você também acerte em sua escolha - replicou Lívia, lembrando-se da impressão desagradável que tivera sobre Fernanda.
Depois, Ricardo parou em frente a Carmem, dando-lhe um terno e carinhoso abraço.
Beijou-lhe ambas as faces e, por fim, considerou:
- Você é especial. Não vou mais afastar-me.
Prometo que nas folgas irei sempre visitá-la.
Invejo sua filha e sua neta.
Gostaria de ser um parente seu.
- Não precisa ter inveja.
Eu gosto muito de você.
É como se fosse um filho.
No meu coração há espaço de sobra.
E você é muito bem-vindo.
Abraçaram-se novamente e Ricardo saiu, contente por tê-las reencontrado.
Em vez de esperar pelo elevador, Ricardo preferiu descer um lance de escadas.
Virou o corredor e chegou até o número indicado.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:50 pm

Bateu levemente na porta e entrou.
Nelson estava deitado, porém acordado e feliz.
- Boa tarde, Dr. Nelson.
- Boa tarde.
- Meu nome é Ricardo, sou filho de André.
- Entre. É uma honra ter um actor famoso a visitar-me.
Sente-se, por favor.
Este é Santiago.
- Prazer.
Santiago disse, despreocupado:
- Pena que você não chegou um pouquinho antes.
Se chegasse dois minutos antes conheceria a mulher mais linda deste mundo.
- De quem está falando? - perguntou, curioso, Ricardo.
- De Carla, filha de Nelson.
Ela saiu para tomar um lanche aqui perto, mas volta logo.
Se esperar, poderá conhecê-la.
Sei que é comprometido, mas vale a pena - concluiu Santiago, malícia nos olhos.
- Ficará para outra oportunidade. Estou atrasado.
Vim trazer-lhe alguns pertences que estavam no hotel.
- Desculpe-me - retrucou Santiago.
Fiquei de pegá-los, esqueci.
André tem sido muito prestativo.
Você não precisava se dar o trabalho.
- Até que foi bom.
Acabei por encontrar uma querida amiga, e restabelecemos contacto.
Se eu não viesse, não sei quando iria encontrá-la, ou se voltaria a vê-la.
Nelson, que estava participando alegremente da conversa, de repente estremeceu.
E se Carla encontrasse Ricardo?
Será que teria alguma lembrança?
Não, isso não podia acontecer.
Ele estava muito diferente daquela foto de seu irmão gémeo...
Cabelos cumpridos, costeletas.
Quase seis anos haviam se passado.
Ela não poderia mais reconhecê-lo.
Divagando, perdido, aflito com uma fileira de questões passando-lhe pela mente, acabou por fazer uma sentida prece de agradecimento por Carla não estar ali naquele momento.
Enquanto Ricardo se entretinha com as piadas de Santiago no andar de baixo, Carmem despedia-se da filha e da neta no andar de cima.
Saiu do quarto, foi até o corredor e apertou o botão que accionava os dois elevadores.
Um deles chegou e ela imediatamente entrou.
Um frio percorreu seu corpo, fazendo-a trepidar.
A imagem de Leonor veio forte em sua mente.
Sentiu a presença da filha.
Será que Leonor estava por perto?
Será que sua filha estava bem no mundo astral e tinha condições de locomover-se?
Afinal de contas ela e Odete eram muito apegadas.
Talvez a filha que partiu tivesse recebido autorização para visitar a irmã enferma.
Intimamente fez sentida prece e lançou um beijo à filha.
No saguão do hospital, Carla aguardava um dos elevadores.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:50 pm

Enquanto esperava, sentiu uma sensação esquisita.
De repente, uma onda de amor e carinho abraçou-se ao seu corpo.
Imediatamente, viu em sua mente uma mulher e uma moça, cabelos castanhos, conversando animadas e tirando várias roupas do armário.
A cena sumiu.
- Será que estou vendo cenas do passado? - pensou alto.
A algo de familiar entre mim e essa moça de cabelos castanhos.
Não consegui ver direito o rosto da mulher, mas parece-me uma pessoa muito querida...
O elevador chegou.
Carla entrou e solicitou à ascensorista que a levasse ao andar onde estava Nelson.
Não havendo mais ninguém no corredor, a ascensorista apertou um botão e o elevador fechou-se.
No mesmo instante o outro elevador abriu as portas.
Carmem saiu, olhou para os lados como a sentir uma presença familiar.
Novamente lembrou-se de Leonor.
Enviou-lhe mentalmente mais um beijo e saiu, emocionada.
Dobrando a esquina do hospital, disse em voz alta:
- É por isso que não gosto muito desses ambientes.
Fico saudosa, mole.
Passou a mão pela testa, empurrando as ideias.
Estugou o passo, chamou um táxi e sumiu por entre as centenas de veículos que disputavam palmo a palmo um lugar no asfalto.
- Abram à porta!
Somos da polícia.
Continuaram insistentes a tocar a campainha e a esmurrar a porta.
Tadeu desceu correndo as escadas.
Ainda tonto de sono, foi acendendo as luzes por onde passava.
Chegou esbaforido até a porta.
- Calma! O que querem?
Com a subtileza utilizada pela polícia na época da ditadura, continuaram a bradar:
- Abra logo, senão seremos obrigados a invadir.
Tadeu sabia exactamente do que se tratava.
Procurou manter uma postura o mais natural possível.
Desalinhou mais ainda os cabelos, deixou o roupão semiaberto, por cima do pijama e destrancou a porta.
- Pois não?
- Temos ordem de busca. Vamos entrar.
- E quem deu ordem de busca?
Antes de responder, um dos policiais deu uma coronhada no rosto de Tadeu.
Ele foi ao chão.
Os outros três policiais entraram e começaram a busca.
Tadeu percebeu que dessa vez não estavam para brincadeira.
- Onde ele está, hein? - perguntava o mais truculento de todos.
- De quem estão falando?
Quem vocês querem?
- Vamos, não queira se fazer de besta!
Sabemos que Cláudio dos Santos está escondido aqui em sua casa.
Temos fotos, inclusive dele com sua filha.
Estamos na cola dos dois há bastante tempo.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 8:51 pm

Tadeu procurou disfarçar.
Passando a língua pelos lábios, percebeu que escorria sangue de seu nariz.
Procurou disfarçar a voz, carregando no tom dramático:
- Ele e minha filha?
Não posso acreditar!
O policial, sorrindo com malícia na voz e sarcasmo nos olhos, acrescentou:
- Ele transa com sua filha.
Temos escuta.
Quer ouvir os gemidos de prazer dela com esse arruaceiro?
Tadeu corou.
Não lhe interessava o que sua filha fazia com Cláudio, eles se amavam.
Os gritos de prazer de ambos, em sua intimidade, não eram de sua conta, mas tinha que admitir que não tinha estrutura emocional para ouvir falar sobre isso, menos ainda por um policial.
- Não me interessa.
Se ela estiver metida com esse canalha, quero que a prendam!
Tadeu falou com tanta seriedade e firmeza que os policiais viraram-se ao mesmo tempo para ele.
Eles estavam lá para pressioná-lo, para arrancar informações a respeito de um suspeito e sua namorada, e o pai dela rogava pela prisão.
Ficaram confusos.
Tadeu, percebendo que conseguira chegar ao ponto, continuou:
- Eu sempre desconfiei dessa vagabunda.
Ela não pode ser minha filha.
Ele correu até o policial truculento e o abraçou:
- O senhor vai prometer-me achá-la, pelo amor de Deus!
Quero que a prendam e a torturem.
Ela nunca podia ter se metido com um tipo desses, que quer atrapalhar a ordem e a soberania nacional.
Os policiais continuavam incrédulos.
Odete, nessa hora, também estava na sala.
Com uma muleta fincada no chão e outra levantada para o alto, gritava histérica:
- Eu sempre desconfiei que ela fosse uma biscate!
Ela merece morrer - e caminhando com dificuldade para o policial:
- Veja, ela tentou me atropelar porque eu queria delatar aquele canalha.
Ela atentou contra a vida da própria mãe!
Vocês precisam ir atrás dela.
Queremos estar presentes na hora da tortura.
Ela tem de pagar por todo o sofrimento que nos tem feito passar.
Os policiais não sabiam mais o que dizer.
Aquele que a principio mostrara-se truculento estava prestes a chorar.
Olhava para Tadeu e Odete, de muletas, com pesar nos olhos.
- Não pensávamos que fosse tão grave assim.
Não sabíamos que sua filha era tão canalha e que fosse capaz de atentar contra a vida da própria mãe.
Desculpem-nos. Vamos rapazes, esses pais estão no limite emocional.
Deixemo-los em paz.
Já sofrem muito por ter uma filha ordinária.
Despediram-se rapidamente e partiram.
Tadeu fechou a porta, passou o trinco.
Odete estava próxima.
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