SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:29 pm

Abraçou-a com amor:
- Muito obrigado, minha querida.
Você me ajudou a convencê-los.
Mas não precisava descer, você ainda precisa de repouso.
- Que repouso nada.
Eu estava descendo o último degrau quando vi aquele brutamontes dar-lhe uma coronhada.
Fiquei louca de ódio.
Quando entendi o que queriam, entrei no jogo deles.
Eles esperavam encontrar-nos tristes, desesperados...
Nunca imaginariam que os próprios pais fossem pedir a cabeça da filha.
Tadeu, rindo, disse:
- É, deve ter sido a primeira vez que eles recebem um pedido como esse.
Nunca mais voltarão aqui, tenho certeza disso.
Beijou a esposa com ardor.
- Eu o amo muito, Tadeu.
Espero que Lívia e Cláudio estejam se amando tanto quanto nos amamos.
- Estou morrendo de saudades de nossa pequena.
Foi tudo tão rápido.
Às vezes os meses parecem anos.
- Verdade. Pelo menos já nos mandaram uma carta através de Ema e Seixas.
Estão felizes e bem.
- Assim espero.
Tadeu beijou-a novamente.
Deixou as muletas sobre o sofá e pegou Odete pelos braços.
- Agora vamos. Amanhã temos de estar bem-dispostos para o casamento de André.
- Ainda tenho dificuldade de entender o porquê de termos sido convidados para esse casamento.
Tivemos pouco contacto...
E além do mais, a nossa presença pode trazer-lhes lembranças de Rogério.
- Não se esqueça de que Ricardo reencontrou Carmem.
Quando Leonor e Rogério morreram, eles se uniram na dor, além do quê, ele sempre gostou muito de sua mãe.
Faz um mês que ele está morando no Rio de Janeiro e praticamente não sai mais da asa dela.
Tanto que estão até chegando juntos amanhã para a cerimónia.
- Minha mãe andando com esses jovens, quem diria, hein?
Fiquei sabendo que a casa dela é um entra-e-sai de actores, impressionante.
Até àqueles que ainda não têm lugar para ficar quando chegam ao Rio ela vai dando guarida.
- Na casa dela, você quer dizer.
- Sim, na casa dela mesmo.
Bem, está certo, pelo menos ela está se divertindo.
E continua cumprindo com suas responsabilidades na prefeitura, estudando com Marta, e tudo vai caminhando.
- Assim é que se fala.
- Mas não podemos subir assim.
Seu nariz está sangrando um pouco ainda.
- O que vamos fazer agora vai estancar o sangue de meu nariz, do meu lábio e de tudo o mais.
Um piscou para o outro e subiram as escadas excitados e apaixonados.
Cláudio e Lívia estavam bem instalados na capital chilena.
Pouco mais de dois mil brasileiros exilados já estavam por lá e os acolheram com carinho.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:29 pm

Logo Cláudio estava trabalhando na universidade e Lívia trabalhava como revendedora de uma empresa de cosméticos.
Desde o início Lívia mostrara-se muito prestativa, bem-disposta, pronta a ajudar seu companheiro no que fosse possível.
Nos fins-de-semana, juntavam-se aos outros brasileiros exilados e matavam as saudades da terra querida.
Com entusiasmo, preparavam a tradicional feijoada e sempre havia alguém com um violão embaixo do braço pronto a cantarolar as músicas brasileiras.
Ganhavam pouco, mas não havia preço que pudesse pagar a tranquilidade com que andavam pelas ruas.
Seguiam a vida com dificuldade, mas estavam apaixonados.
Havia realmente nascido um para o outro.
André resolveu realizar seu casamento na bela mansão que adquirira recentemente no Jardim Europa.
Quando percebera que estava apaixonado até o último fio de cabelo por Sílvia, deliberadamente resolvera comprar uma nova casa.
A residência anterior ainda trazia-lhe recordações do tempo em que estivera casado com Ester.
Mesmo sob os protestos de Sílvia e de Ricardo, ele não titubeou.
Comprara a mansão e deixara a decoração nas mãos de Sílvia, que se mostrara uma mulher requintada e com gosto apurado.
Ele e Sílvia decidiram não se casar na igreja e não fazer daquela união um grande acontecimento social.
Convidaram apenas alguns amigos mais íntimos.
Realizariam a união sob as bênçãos de um juiz e depois serviriam um jantar para celebrar a cerimónia.
Nelson dirigia nervosamente o carro.
- Papai, não adianta correr.
Não temos culpa que um pneu tenha furado.
Chegaremos um pouco atrasados, mas logo estaremos lá.
Acalme-se, não se esqueça de que André foi muito gentil connosco.
Tomou todas as providências e cuidou muito bem de você.
Se não fossem ele e o Dr. Castro, talvez você não estivesse aqui.
Nelson ia ruminando seus pensamentos.
Não dava a menor importância ao que Carla falava.
Nem mesmo as brincadeiras de Santiago, sentado no banco de trás, conseguiam amenizar seu nervosismo.
Também pudera. André tinha sido muito gentil, o havia ajudado na época de sua internação em São Paulo.
Procurava a todo custo demover sua filha da ideia de ir ao casamento.
Mas Carla, ao receber o convite, ficara extasiada:
- Fomos convidados para o casamento do pai do Ricardo Ramalho!
Finalmente poderei conhecer o actor pessoalmente, em carne e osso.
Nelson, procurando dissimular, dizia:
- Não poderemos ir.
Ele foi-me de grande valia em São Paulo, muito nos ajudou, mas não posso largar o hospital.
Fiquei muito tempo afastado, cuidando de minha doença.
Não é o momento para eu me ausentar novamente.
- O senhor pode ficar, eu vou.
Nelson não esperava essa determinação de Carla.
- Sozinha? De jeito nenhum.
Sozinha para São Paulo, nunca!
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:29 pm

- Vou com Vilma ou com Santiago.
Não adianta, eu vou de qualquer jeito.
Por que fica tão nervoso quando falamos em André?
Existe algo aí por trás que eu não saiba?
Nelson, procurando dissimular, tornou:
- Não se trata disso.
Ele me ajudou, mas não somos íntimos.
Ele fez o convite por mera educação.
Compraremos um lindo presente, enviaremos e numa hora mais oportuna, apareceremos por lá.
- E quer hora mais oportuna do que essa?
Realmente acha que ele seria hipócrita a ponto de nos convidar apenas por educação?
Vai fazer uma recepção para poucos.
Ele tem consideração por você.
- Mas não gostaria de ir.
Ainda estou em recuperação.
- Não me venha com a desculpa do enfarte, que na verdade o senhor não teve para valer.
Se o problema é esse, Santiago dirige.
- Não adianta, não vou.
- Então está certo.
Se quer assim, você fica e eu vou.
Assunto encerrado.
Voltando a pôr atenção na estrada, Nelson ainda se culpava por ter sido vencido pela filha.
Por que aceitara ir ao casamento?
Por que arriscar-se tanto?
Será que ela reconheceria Ricardo?
Não. Isso estava totalmente fora de cogitação.
Ele lembrava-se perfeitamente da foto que vira do outro filho com a namorada.
Fazia seis anos, tempo relativamente aceitável para mudanças físicas...
Os costumes eram bem diferentes; agora os homens usavam costeletas.
Não haveria possibilidade de reconhecê-lo.
Talvez estivesse ficando nervoso à toa.
E Carla não se assemelhava mais a Leonor.
Estava com o cabelo loiro platinado, sobrancelhas arcadas, grandes cílios postiços.
Não tinha mais o corpo de uma moça, agora era uma mulher com vinte e tantos anos.
Seu rosto estava mudado.
As mulheres agora usavam maquiagem em tons fortes e também usavam roupas de cores berrantes.
Não, não iriam relacioná-la com Leonor.
Definitivamente, ela era agora uma outra mulher.
Ele estava dando muitas asas a sua imaginação, precisava controlar-se.
Nada de mal poderia acontecer.
Era só uma festa e depois eles voltariam para o interior.
Não tinha com o que se preocupar.
Voltou a pôr atenção na estrada e ocupar a mente com as piadas e brincadeiras de Santiago.
Odete, ao entrar no carro, pisou em falso.
Uma muleta escapou e ela foi ao chão.
O tombo não foi forte, mas o suficiente para causar-lhe muita dor.
Com a queda, distendeu a perna que havia fracturado meses antes.
Tadeu correu a acolhê-la.
Pegou-a nos braços, enquanto Lucas pegava as muletas.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:30 pm

- Coloque-a aqui no sofá, papai.
- Está certo, filho.
Vá até o banheiro e traga iodo.
Sua mãe raspou a pele.
Odete não falava nada.
Estava sentindo muita dor e chorava copiosamente.
- Estraguei a nossa noite.
- Não estragou nada.
Vamos tirar essa roupa e tudo vai ficar bem.
Vamos descansar.
- Não, de jeito algum.
Você vai com Lucas.
- Não, não posso deixá-la sozinha.
Logo hoje que é a folga de Marilza.
- Ligue para minha mãe.
Ela está na casa de André.
- Não vamos perturbar sua mãe agora.
Não há a menor necessidade.
- Por favor, chame minha mãe! - ordenou Odete, num tom de voz que deixou Tadeu perplexo.
Diante do tom, ligou para Carmem.
Vinte minutos depois Carmem chegou.
- Desculpe, sua filha insistiu.
Não precisava causar-lhe esse transtorno.
- Não há problema.
Você tem ficado o tempo todo com ela.
Vá com Lucas, aproveite.
Há pessoas muito interessantes por lá.
Eu tenho conhecido muita gente desde que Ricardo mudou-se para o Rio.
Toda noite sempre aparece um amigo, uma actriz conhecida.
Ele é muito querido.
Estou até um pouco farta de tanta gente.
Você nunca sai de casa, vá que eu fico com minha filha.
Tadeu tentou insistir, mas Lucas queria muito ir à cerimónia.
Percebendo que o filho também se desdobrara pelo restabelecimento da mãe, acatou a decisão.
- Então está bem.
Mas vamos, que estamos atrasados, meu filho.
Despediram-se e partiram.
- Mãe, desculpe, mas eu queria muito ter você aqui perto.
Senti uma necessidade muito grande de chamá-la.
Desculpe se estraguei sua noite.
- Ora, claro que você não estragou nada.
É minha filha, nos damos bem e eu a adoro.
Vou ajudá-la a se despir, colocar uma camisola.
Farei um jantar leve e gostoso.
Vamos papear um pouco.
Ricardo encantou-se com Carla.
Parecia conhecê-la de algum lugar.
Mas de onde? Sua beleza era contagiante.
Desde que se apaixonara por Fernanda, nunca havia sentido algo parecido.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:30 pm

Aliás, nunca havia sentido isso por ninguém.
O único sentimento parecido ocorrera quando conhecera Leonor, a namorada de Rogério.
Mas fazia tanto tempo!
O que estaria acontecendo?
Olhava disfarçadamente para ela sentada na mesa e se perguntava:
- Esses olhos!
Já os vi antes. Mas onde?
Continuava a divagar, quando recebeu um beliscão.
- Ai! - replicou ele, com dor.
- Não quero fazer cenas aqui.
Não me obrigue a isso.
Por que tanto interesse na caipira?
Ela nem olha para você!
- Você está alterada, Fernanda.
Por que está bebendo tanto?
A festa mal começou e você já está quase bêbada.
Sabe que não suporto isso.
E além do mais, hoje é a cerimónia de casamento do meu pai. Comporte-se.
Fernanda vociferou, irritada:
- Comportar-me?!
Você me desrespeita, não tira os olhos daquela vagabunda e ainda por cima exige bom comportamento?
Você é meu, entendeu? Meu!
Ricardo nunca vira Fernanda tão possessa assim.
Ela estava em total descontrole.
Alguns convidados voltaram seus olhos para a cena, pois os gritos de Fernanda chamaram atenção.
Sampaio, que estava em mesa próxima, veio até o casal.
- O que está acontecendo?
Fernanda gargalhava:
- Nada, absolutamente nada.
Estou um pouco tonta, não é meu bem?
Ricardo olhou para Sampaio, que entendeu o sinal.
Procurou educadamente passar seu braço pelas costas de Fernanda:
- Vamos respirar ar puro, dar uma volta.
Assim que melhorar, voltamos.
Com a voz pastosa, ela respondeu:
- Está certo.
Sampaio é nosso protector.
Já fomos íntimos, ele me entende.
Ainda mais agora que vai levar-me para trabalhar na emissora do Rio, preciso comportar-me, não é mesmo?
- Isso, querida, sou seu protector e quero ajudá-la.
Vamos sair logo daqui.
Fernanda deu um beijo em Ricardo e saiu cambaleante, amparada por Sampaio.
Nelson foi introduzido a um grupo de médicos amigos de André.
Sílvia levou Santiago para conhecer algumas amigas, o que prazerosamente ele aceitou.
Carla preferiu ficar sentada, apreciando o requinte da decoração, a fineza dos convidados.
Ao mesmo tempo, algumas cenas embaralhadas vinham-lhe à mente.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:30 pm

Antes que pudesse colocar atenção em sua mente e concatenar as ideias, sentiu um delicioso aroma de perfume masculino:
- Posso sentar-me?
Ela virou-se para o lado.
Era Ricardo.
- O prazer será todo meu.
Onde está a namorada possessiva e violenta?
Rindo, ele respondeu:
- Já foi tirada de cena.
Um grande amigo meu levou-a para fora.
Deve levá-la para casa.
Ele a conhece muito bem.
Já foram namorados.
Não seremos incomodados, prometo.
Carla sentiu-se ruborizar.
Olhava para aquele homem com traços fortes, fartas costeletas, bigode espesso, cabelos volumosos.
Após olhá-lo detalhadamente, perguntou:
- De onde será que o conheço?
Ricardo riu.
- Isso não é pergunta que se faça.
Eu sou nacionalmente conhecido.
Carla também riu.
- Desculpe-me, mas parece que o conheço.
Não estou brincando.
Não é porque está todo dia na televisão.
Não sei explicar ao certo o que é.
Ricardo estava encantado.
Mesmo estando enfeitiçado por Fernanda, que recorria a trabalhos de magia para tê-lo ao lado, sentia que algo dentro de si começava a romper com essa sintonia danosa.
Sentiu o coração bater descompassado.
- Você é muito bonita! - limitou-se a dizer, a fim de quebrar o silêncio.
Carla também sentiu seu coração descompassar.
Ficou olhando embevecida para os olhos azuis e brilhantes de Ricardo.
De repente, lembrou-se nitidamente da cena do acidente.
Tudo foi muito rápido.
Os músculos de seu rosto enrijeceram e ela deu um grito seco no salão.
Ricardo tentou ampará-la, mas não conseguiu.
Antes que pudesse socorrê-la, Carla foi ao chão e perdeu os sentidos.
Os convidados correram até a mesa.
Nelson foi abrindo caminho entre o aglomerado de pessoas ao redor.
Ricardo, sem saber o que fazer tornou preocupado:
- Não sei o que aconteceu.
Nelson colocou-a nos braços.
- Traga-a até minha casa - ordenou André.
Correram com ela nos braços até a mansão.
Lá chegando, André indicou um sofá para Nelson.
Ele delicadamente pousou o corpo da filha.
- Você está tremendo muito - disse Santiago.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:30 pm

Nelson nada disse.
Começou a enjoar e sua vista foi ficando turva.
Jogou-se pesadamente no outro sofá.
- Precisamos de um médico - tornou André.
- Eu sou médico - replicou Santiago.
Deixe que isso deve ser mal-estar.
Ele pegou o pulso de Carla.
- Ela estava tensa durante toda a viagem.
Chegamos atrasados.
Ela mal se alimentou.
A pressão caiu.
Nada grave, aparentemente.
Nelson a tudo olhava e nada dizia.
Em seu íntimo sabia o que havia provocado o desmaio de sua filha.
E agora? Será que ela havia se lembrado do passado?
Voltaria consciente de sua real identidade?
Preso em sua memória, Nelson começou a chorar.
Sabia que uma hora isso aconteceria.
Mas não se sentia preparado para a verdade.
Santiago nada entendeu e procurou acalmá-lo.
- Não fique assim.
Foi só um mal-estar.
Tudo vai ficar bem.
Nelson continuava a chorar.
Era-lhe impossível segurar o pranto.
- Sabia que perderia Carla para sempre.
Ricardo, assustado, perguntou:
- Não seria melhor levá-la para um hospital?
- Não há necessidade.
Ela está um pouco debilitada, mais nada.
Logo voltará a si.
Sílvia, percebendo que a situação não era grave e estava sob controle, começou a chamar os convidados, que se aglomeravam na porta da mansão:
- Vamos para o salão.
Foi só um mal-estar.
Logo ela estará connosco. Por favor.
Com elegância e classe, tanto ela quanto André foram reconduzindo os convidados para suas mesas no salão.
Aos poucos, somente Ricardo, Santiago e Nelson ficaram na sala, esperando pelo despertar de Carla.
A essa altura, Sampaio estava chegando perto da casa de Fernanda.
- Vou subir e ficar um pouco com você.
- Não precisa, estou bem - retrucou Fernanda, com a voz ainda pastosa.
- Sozinha você não vai.
Vamos, vou acompanhá-la.
- Já disse que estou bem.
Ajude-me a achar a chave do apartamento.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:30 pm

Não sei por que trouxe esta bolsa tão grande - e virando-se para ele, perguntou:
- Você não tem mais a cópia da chave?
Sampaio começou a revirar a bolsa de Fernanda e nada respondeu.
Instantes depois achou a chave.
Fernanda desacordou.
Sampaio tentou estapeá-la levemente no rosto.
- Hum, o que foi?
Já chegamos ao apartamento?
Sampaio percebeu que ela não teria condições de subir.
Estava muito bêbada.
- Vou subir e pegar algumas roupas.
Desço num minuto.
Vamos seguir para minha casa.
Amanhã você volta, está bem?
- Ahn?
- Você me ouviu?
- Hum...
Sampaio, percebendo que Fernanda nada ouvira, encostou o carro na porta do prédio.
Deixou-a recostada no banco e subiu para pegar algumas mudas de roupa.
Chegando ao apartamento, Sampaio procurou ir directo para o corredor que dava acesso aos quartos.
Ele conhecia o apartamento de outros tempos, quando foram amantes.
Sabia onde ficava o quarto em que ela dormia.
Foi caminhando pelo corredor e viu um dos quartos com a porta semiaberta, e de lá vinha uma pequena claridade.
- Será que ela deixou algum abajur aceso? - pensou alto.
Sampaio empurrou a porta.
Sua respiração parou por um segundo.
Segurou-se na maçaneta para não cair.
Aquela cena era horripilante.
No canto do quarto, um pequeno altar.
Imagens sinistras e desconhecidas, velas das mais variadas cores.
Um cheiro forte de erva inebriava o local.
Sampaio foi se aproximando.
Não podia acreditar no que seus olhos constatavam.
Sobre o altar, bonecos de pano.
Alguns com a corda no pescoço, outros com alfinetes espalhados pelo corpo.
Alguns crânios pousados próximo aos bonecos denunciavam tratar-se de magia negra.
Sampaio foi ficando sem saliva, a boca foi secando.
Tinha pavor dessas coisas.
Nunca pensou que pudesse encontrar isso na casa de uma mulher como Fernanda.
Ele havia se envolvido com ela, mas nunca percebera nada.
Num instante, lembrou-se de quando frequentara o apartamento e a porta desse quarto, em particular, sempre esteve trancada.
Será que ela já praticava isso naquele tempo?
Ela era uma actriz de sucesso, carreira brilhante, com um namorado deslumbrante.
Por que iria meter-se com rituais tão pesados?
O que ela andava fazendo?
Acendeu a luz do quarto e sentiu-se pior.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:31 pm

Fotos de Ricardo com marcas de tinta vermelha; fotos de conhecidos da televisão que haviam se desligado de maneira repentina.
A cada foto que olhava, lembrava-se da pessoa.
Todas elas não estavam mais no meio artístico.
Umas haviam adoecido, outras mudaram de profissão e uma delas havia morrido.
Será que Fernanda estava por trás dessas histórias?
Será que ela havia praticado algo contra essas pessoas?
Será que ela tinha esse poder?
Não, ele se recusava a acreditar no invisível.
Aquilo que não fosse palpável não poderia ter força sobre nós, seres dotados de inteligência.
Isso era pura crendice.
Procurou afastar os pensamentos com a mão, até que se deparou com sua foto.
Sobre ela um boneco de pano e um alfinete na altura da barriga.
Sampaio sentiu náuseas e o sangue sumiu.
Lembrou-se que sempre tivera uma saúde de ferro, mas no último ano vinha sentindo fortes dores de estômago.
Os médicos diziam que poderia tratar-se de cólicas, pois ele tinha uma vida irregular, má alimentação.
Agora ele começava a questionar se isso era verdade ou não.
Alguém teria a capacidade de provocar-lhe uma doença?
Fernanda seria capaz disso?
Será que o amor que Ricardo sentia tinha a ver com esse santuário sinistro?
Sentiu um pavor tomar conta de todo seu corpo.
Caminhou de costas, apagou a luz.
Sentiu o ar pesado, o ambiente carregado.
Esqueceu-se de pegar as roupas para Fernanda e saiu em disparada.
Antes de entrar no carro, Sampaio procurou recompor-se.
Respirou fundo, tentou disfarçar.
Fernanda ainda se encontrava adormecida.
Ele entrou no carro, ligou o motor e falou:
- Vamos para minha casa.
Você dorme e amanhã volta, afinal de contas este é o seu carro.
Acelerou e foi para casa, deixando a mente, durante o percurso, a fazer-lhe incontáveis perguntas.
Rogério e Ester acompanharam a cerimónia até o momento em que Carla foi deitada no sofá.
- Ela precisa ficar desacordada mais uns minutos.
A equipe médica aqui do astral está desfazendo os bloqueios energéticos criados no dia do acidente.
- Está na hora de conversarmos com ela.
- Também acho, Rogério.
Vamos chamá-la.
Desencaixaram o espírito de Carla do corpo.
Ela foi conduzida em estado de semiconsciência pelas mãos delicadas de Ester.
Sentaram-na numa cadeira próxima.
Ester tomou a palavra:
- Como vai, querida?
O espírito de Carla, tomando consciência aos poucos, balbuciou:
- Bem... Hum, você!
Fazia tempo que não a via...
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:31 pm

- Fazia mesmo.
Estávamos com outros compromissos.
Agora está na hora de ajudarmos no que for possível.
Carla assentia com a cabeça.
Ao olhar para o lado, reconheceu o rapaz.
Levantou-se da cadeira e gritou:
- Rogério?!
Ele abraçou-a e beijou-a nas faces.
- Eu mesmo. Como vai, Leonor?
Ao ouvir esse nome, o espírito de Carla, desprendido do corpo físico, lembrou-se de tudo.
Enquanto sua cabeça pendia para o peito de Rogério, grossas lágrimas banhavam seu espírito.
- Não sei o que dizer...
Estou confusa...
Agora que me chamou pelo nome...
Sei que sou Leonor, mas também sei que sou Carla.
O que se passa?
Ester contemporizou:
- Calma, querida.
Seu espírito estava amadurecendo diante das escolhas que fez.
Agora está na hora de retomar sua vida, voltar a ter contacto com os entes queridos, amar aquele que foi afastado de seu caminho no passado.
Enquanto Ester falava, Leonor foi se lembrando de tudo, do presente para o passado, desde o momento do acidente com Rogério até sua infância.
Tudo vinha muito rápido, como flashes.
Ao mesmo tempo, começou a lembrar-se do acidente até o dia actual, usando outro nome, embora sentindo-se a mesma pessoa.
Ester, captando telepaticamente seus pensamentos, disse com voz amável:
- Você ainda é a mesma pessoa.
O nome foi circunstancial.
Faz parte de sua vida passada.
- Estou me lembrando de minha mãe, de Odete.
Mas o que Rogério está fazendo aqui comigo?
Também saiu do corpo?
- Não querida. Não saí.
Ou melhor, saí em carácter provisório há alguns anos.
Meu corpo físico não sobreviveu ao acidente.
- Mas eu me recordei de você há pouco.
Estava com a fisionomia alterada, mas era você.
Por isso relembrei os factos e desmaiei.
- Não, não fui eu quem você viu.
Foi Ricardo.
- Seu irmão gémeo?! - Carla bateu com a mão na testa.
Agora estou me lembrando.
- Sim, Ricardo precisa muito de sua ajuda e principalmente de seu amor - tornou Rogério.
Apaixonamo-nos, mas quando cheguei aqui no astral percebi que tínhamos afinidades, mas não havíamos nascido um para o outro.
Ricardo é o homem de sua vida.
- Mas então por que me apaixonei por você?
Não seria mais fácil apaixonar-me por ele?
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:31 pm

Por que tanto sofrimento?
Por que a perda de memória?
Por que sua morte trágica?
- Nada é trágico aos olhos de Deus.
Em nosso estágio evolutivo, necessitamos passar por situações que julgamos ser doloridas, trágicas.
Mas é a única maneira que a vida encontra para despertar o nosso espírito para o seu verdadeiro caminho, e afastar-nos das ilusões.
- Não sei se consigo entender agora o que me diz.
Estou muito confusa.
Não sei ao certo se o amava naquele tempo, mas gostei muito de você, e hoje, ao pousar meus olhos em seu irmão, senti um calor no peito, uma saudade, um amor muito grande.
- Tanto ele quanto você e eu precisávamos passar por situações que quebrassem ilusões cristalizadas, que trazemos há muitas vidas.
Ricardo sempre sentiu-se inseguro no amor, e a perdeu na outra vida por isso.
Eu nunca consegui distinguir amor de paixão.
- E eu? Pelo que me recorde, gostava muito de você.
- Sim, mas não me amava.
A semelhança entre nós ajudou-a interessar-se por mim.
Você precisava, antes de mais nada, burilar seu espírito, preso a memórias passadas que a impediriam de viver uma união feliz.
Você sofreu muito com a separação de seu pai no passado.
Você separou-se dele e o remorso ficou preso em seu peito.
Tudo foi feito para que limpasse isso de seu coração.
- Então Nelson foi meu pai?
Ester, delicadamente, respondeu:
- Sim. Poderia reencontrá-lo de outra maneira, mas sua obsessão pela falta de um pai fez com que a vida usasse de suas sábias leis para aproximá-los.
Seu desejo foi maior, por isso acelerou os factos.
Um dia entenderá tudo. Agora precisa ir.
Está na hora de voltar ao corpo.
Aos poucos, sua memória será desbloqueada.
- Por que não desbloqueia de imediato?
Estou bem, um pouco confusa, mas bem.
- Você está bem aqui, agora, em espírito.
Quando voltar ao corpo físico, as coisas serão diferentes.
Não se esqueça de cultivar seu amor por Ricardo.
Só o amor puro é real e vence qualquer magia.
E a única arma que terá para afastá-lo de Fernanda.
- Ele a ama - disse Leonor tristemente.
- Não. Ele não a ama.
Está enfeitiçado.
Suas inseguranças afectivas permitiram que ela conseguisse actuar sobre sua vontade.
Mas se você conseguir despertar o verdadeiro amor em seu peito, nós aqui no astral teremos condições de desfazer o trabalho.
- Vocês acham que sou capaz?
- Acredite que é, e então será capaz.
Ester e Rogério beijaram e abraçaram Leonor.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:31 pm

Encaixaram seu espírito ao seu corpo e saíram de mãos dadas, felizes pelos acontecimentos estarem de acordo com o planeado.
Sampaio chegou em casa.
No trajecto, Fernanda balbuciara algumas palavras desconexas.
Ele não deu importância, estava ainda impressionado com o que vira em seu apartamento.
Abriu a porta do carro, estapeou-a no rosto mais uma vez.
Fernanda acordou.
- Onde estou?
- Em minha casa.
- Por que vim parar aqui?
Quero ir para minha casa.
- Não. Amanhã estará melhor e poderá voltar.
Agora saia do carro, vamos tomar uma ducha fria e também vou preparar algo para comermos.
- Onde está Letícia?
- Minha esposa está na praia. Volta amanhã.
Ela sorriu maliciosa:
- Hum, podemos recordar os velhos tempos.
Sampaio saiu do carro impaciente.
Deu meia volta e abriu a porta para Fernanda.
Ferido em seu orgulho, aproveitou para descarregar:
- Poderia recordar com qualquer outra pessoa, menos com você.
Você não me desperta mais o desejo.
- Está certo.
Agora é a vez de Ricardo.
Faz tudo por ele.
- Qual nada.
Gosto dele como se fosse um filho.
- Está certo, vou acreditar.
- O que está insinuando? - perguntou Sampaio, irritado.
- Nada. Quero entrar.
Preciso de um banho.
Trouxe as roupas?
- Não. Tentei abrir a porta e não consegui.
Fiquei nervoso, a lâmpada do corredor estava queimada - mentiu.
Pegarei uma camisola de minha esposa. Deve servir.
Ela finalmente desceu do carro e Sampaio a conduziu até o hall de entrada.
- Uau! Não sabia que um director ganhava tanto assim.
A sua casa é deslumbrante!
Você nunca permitiu que eu viesse aqui quando estávamos juntos.
- Tive uma queda por você, mas acima de tudo respeito minha esposa.
Ela nunca soube de nada.
Não gostaria de magoá-la.
Enfim, não temos mais nada.
Agora suba. A esquerda há uma suíte.
Entre, tome uma ducha, encha a banheira, faça o que achar melhor.
Enquanto isso vou trocar de roupa e preparar algo para comermos.
Fernanda deu de ombros e nada disse.
Subiu as escadas a passos trôpegos e trancou-se no quarto.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:31 pm

Em seguida, Sampaio subiu e dirigiu-se a outro quarto.
Alguns minutos depois ele desceu, com uma roupa mais confortável, e foi para a cozinha.
Perto de uma hora depois, Fernanda apareceu.
Estava com outro aspecto.
Os cabelos soltos, molhados, davam-lhe um ar comum.
Não parecia ser a mulher deslumbrante que aparecia nas telas.
Olhando-a bem, na verdade não se tratava de uma mulher bonita.
Ela tinha charme, mas não possuía beleza.
Ela aproximou-se e sentou-se numa cadeira.
- O que um banho não faz!
E também vasculhei o armário sobre a pia e encontrei umas aspirinas.
Sinto-me outra. Uma nova mulher.
- Você não se comportou muito bem.
- E você queria que eu me comportasse como?
Ricardo mal tirou os olhos daquela vagabunda.
- Não fale assim, você mal a conhece.
Ele procurou ser simpático.
- Simpático, sei.
Preciso estar sempre atenta.
Não posso deixar que qualquer uma chegue perto. Ele é meu.
- Como pode afirmar isso com tanta certeza?
Esqueceu-se que ele está sozinho, morando no Rio?
Aquela cidade é fogo e Ipanema exala sensualidade pelas suas quadras.
Fernanda irritou-se.
- Por que tenta deixar-me insegura?
Por que não aprova nossa união?
Fazemos um belo par nas telas e fora dela.
Está com ciúme por que o troquei por ele?
Sampaio sentiu o sangue subir.
Suspirou profundamente e considerou:
- Gosto muito de você, mas se escolheu outro, é porque não estava feliz comigo.
Mas por que cismou com Ricardo?
- Eu não cismei com ninguém. Ele me adora.
- Acha mesmo isso?
- Acho. Não há mulher que possa ser páreo para mim.
Fiquei descontrolada com aquela caipira porque percebi algo diferente no olhar dos dois.
Mas já passou.
Quanto ao envolvimento de Ricardo com os homens, não posso fazer muito, não posso oferecer o que eles oferecem.
Sampaio continuou mexendo nas panelas no fogão.
De costas para Fernanda, perguntou, com naturalidade:
- De onde tirou a ideia de que ele se envolve com homens?
- São as más-línguas.
Eu sei pouca coisa, mas o suficiente para fazer um estrago na carreira de Ricardo, caso ele me abandone.
Sampaio estremeceu.
Lembrou-se novamente das fotos, do altar.
O que Fernanda queria insinuar?
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:32 pm

- Eu conheço Ricardo como a palma de minha mão.
Garanto que ele nunca se envolveu com homem algum.
- Não é o que dizem - respondeu Fernanda, com sarcasmo e ironia na voz.
- Então, o que dizem?
- Bem, dizem por aí que Ricardo anda tendo um caso com certo director de televisão.
Dizem que o director cobra na cama por toda a ajuda que presta a ele.
Sampaio não aguentou.
Encolerizado, largou os afazeres e partiu para cima de Fernanda.
Agarrando-a pelo pescoço, disse com ódio na voz:
- O que você está querendo insinuar, sua maldita?
Fernanda sentiu medo, mas quis continuar com o jogo perverso:
- Eu?! Nada! Calma.
Eu só ouvi alguns comentários sobre vocês dois.
Nunca liguei, porque você nunca vai ser páreo para mim.
Afinal de contas, um dos motivos pelo qual o deixei foi porque você não funcionava direito.
Sampaio tirou as mãos do pescoço dela.
Não podia acreditar numa barbaridade dessas.
Afastou-se e com o dedo em riste, afirmou:
- Eu sou um homem de respeito.
O único deslize de minha vida foi envolver-me com você, mas foi passageiro.
Não sei até hoje por que me deixei envolver.
E olhe que tive muitas mulheres, inclusive melhores que você, aos meus pés.
Você está querendo acabar com minha reputação.
Isso é uma inverdade.
Como pode deturpar o que sinto por Ricardo?
Não acredita em amor puro de pai?
Fernanda começou a gargalhar:
- Amor de pai? Então é incesto!
E mesmo que seja mentira, vou arrumar provas que mostrem o contrário.
- Por que quer me destruir?
- Porque quero ir trabalhar no Rio.
Em São Paulo sempre foi tudo fácil para mim.
O meu sonho foi sempre o de trabalhar naquela emissora.
Sei que você tem muitos amigos lá na televisão.
Você vai ter que se virar.
- Mas não é fácil.
A emissora é criteriosa, não coloca qualquer um no elenco.
Fernanda irritou-se mais ainda:
- E eu sou qualquer uma?
Eu sou uma super estrela!
Não quero saber.
Ou você me arruma um papel de destaque ou acabo com sua reputação.
- Mas se fizer isso, vai acabar com a reputação de Ricardo também.
Se ele for para o buraco, você vai junto.
- Pensando melhor, você tem razão.
Vou tirar Ricardo da jogada.
Arrumarei um outro actor de destaque para forjar um caso com você.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 8:32 pm

- Você é muito suja!
Não deixarei que arruíne a minha reputação com uma calúnia dessas.
Nunca pensei que você fosse tão venal!
- Vamos ver. Ou me arruma um papel de destaque, ou o Brasil inteiro vai saber que você corrompe sexualmente uma porção de galãs.
Sampaio desesperou-se.
Partiu violentamente para cima de Fernanda.
Ambos foram ao chão.
Ele agarrou-a pelo pescoço com força.
Enquanto a esmurrava, dizia, colérico:
- Nunca permitirei que faça isso!
Você não presta.
Não pode viver impune, destruindo a vida dos outros.
Fernanda tentava a custo livrar-se de Sampaio, mas ele era mais forte.
Rolaram no chão.
A muito custo ela tentou chutar o fogão até que alguma panela caísse.
Vieram ao chão duas panelas que despejaram comida quente sobre as costas de Sampaio e os braços de Fernanda.
Ambos gritaram de dor.
Mesmo com o braço queimado, ela conseguiu livrar-se de Sampaio.
Correu pela cozinha na tentativa de escapar ou de encontrar algo para sua defesa.
Sampaio estava fora de si.
Louco de ódio queria esmurrar aquela mulher até que toda sua ira se esvaísse.
Fernanda parou próximo a pia.
Sampaio foi agarrá-la por trás, mas tudo ocorreu muito rápido.
Ela pegou uma faca que estava sobre a tábua de carnes.
Desesperada, de um salto, virou-se e cravou a faca na barriga do director.
- Desgraçado. Você não merece viver.
Vá para o inferno.
Sampaio, olhos arregalados e injectados de terror e dor, foi pesadamente ao chão.
Caiu de bruços e a faca atravessou seu corpo.
O golpe foi fatal.
Carla aos poucos foi despertando.
Nelson e Santiago estavam seu lado.
Ricardo estava ajudando o pai a entreter os convidados no salão.
Fundo suspiro brotou de seu peito.
- O que aconteceu?
- Você está bem? - perguntou Santiago.
- A cabeça está doendo um pouco.
Sinto meu corpo um pouco pesado.
- Você teve uma queda de pressão muito grande.
Tem certeza de que está bem?
Nelson a olhava e nada perguntava.
Sentia seu peito apertar.
Estaria Carla rememorando o passado?
Não tinha coragem de dirigir-lhe a palavra.
Sossegou no momento em que ela disse:
- Pai, você está com olheiras e ar cansado.
Também está sentindo alguma coisa?
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:22 pm

Nelson contemporizou:
- Não. Estou bem.
Fiquei muito preocupado.
Faz mais de meia hora que está assim.
- Fiquei desmaiada por mais de meia hora?
- Sim.
- Parece que fiquei fora do ar por horas.
Tive um sonho confuso, mas muito real.
Parecia que eu estava vivendo tudo isso.
Ainda guardo as últimas cenas e palavras em minha mente.
Nelson perguntou, nervoso:
- O que vem a sua mente?
- Estava conversando com um casal, pareciam ser amigos meus.
Diziam que você era meu pai.
Nelson remexeu-se na cadeira.
A filha esteve sonhando ou tivera contacto com espíritos?
Não sabia distinguir ao certo.
Desde que voltara do hospital, meses atrás, deixara o orgulho de lado e humildemente foi fazendo perguntas a D. Clotilde.
Toda vez que ela ia visitar Carla, ele a cercava e fazia uma ou outra pergunta.
Por insistência de Santiago, começou a ler alguns livros para entender sobre reencarnação e vida após a morte.
Tudo ainda é muito novo para ele, mas ao mesmo tempo, ansiava pelas visitas de D. Clotilde, a fim de que ela pudesse esclarecer-lhe as inúmeras dúvidas que assolavam seu espírito.
Nelson havia mudado muito, mas o medo de perder Carla o deixava num estado de insegurança sem precedentes.
Por mais que começasse a entender e aceitar a verdade espiritual, o medo de perdê-la para sua família de origem o aterrorizava profundamente.
Agora ver sua filha chamá-lo de pai e falar sobre o sonho com amigos deixou-o desconfiado e intrigado.
Suspirou e pensou:
- Ah, se D. Clotilde estivesse aqui!
Saberia com certeza dizer se Carla sonhou ou encontrou-se com espíritos amigos.
Será que eram membros de sua família?
Santiago quebrou o fluxo de pensamentos de Nelson, quando perguntou a Carla:
- Não importa se foi sonho ou não.
Por acaso, você se lembra dessas pessoas?
Elas deram nome?
Fechando os olhos para ajudá-la em sua lembrança, Carla respondeu:
- O rapaz disse chamar-se Rogério.
Era como se eu o conhecesse de longa data.
Senti forte emoção ao vê-lo.
Só recordo do momento em que me disse para cultivar meu amor por Ricardo.
- Cultivar seu amor por Ricardo?! - perguntou Nelson incrédulo.
Isso só pode ser sonho mesmo.
Você nunca havia visto esse homem antes.
Como podem falar em cultivar o amor por ele?
Deve ter sido a emoção de ficar frente a frente com um galã de televisão.
Só pode ser isso.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:22 pm

- Dá para você fechar o bico? - replicou Santiago.
Não vê que Carla está procurando lembrar-se de um sonho ou sei lá o que foi, mas que deve ter sido importante?
Quer parar de objectar e deixá-la falar?
- Desculpe. Estou nervoso.
Fiquei preocupado com o desmaio.
Está certo. Continue, minha filha.
- Cultivar o amor por Ricardo.
Isso está muito nítido em minha mente.
Eles disseram que irão nos ajudar, mas que só o amor vai acabar com a magia.
- Magia? - inquiriu Santiago.
- Parece que sim.
É que aos poucos eu irei me lembrar de tudo.
Nelson estremeceu.
Santiago exultou de alegria.
- Não foi um sonho!
Tenho certeza de que você esteve com espíritos amigos.
Logo saberemos sua origem.
Isso é fantástico.
Bem que D. Clotilde sempre nos disse:
confiem e aguardem.
Ela sempre esteve certa.
- Eles garantiram que você vai lembrar-se de tudo? - perguntou Nelson com um fio de voz.
- Sim. Aos poucos.
Disseram que não tenho condições de recordar tudo de uma vez.
Mas que é só uma questão de tempo.
Ricardo havia voltado a pouco do salão.
Chegara no momento em que Carla falava o nome de Rogério.
Discretamente, esperou que ela terminasse de relatar os factos.
Desde que se mudara para o Rio, passara a frequentar o mesmo Centro Espírita que Carmem e Marta.
Sempre que tinha folga na televisão, ia até lá ou à casa de Carmem para estudar.
Lembrou-se da última reunião, onde espíritos amigos haviam dito que muitas coisas seriam esclarecidas em curto espaço de tempo, pois todos os envolvidos encontravam-se amadurecidos para compreender e aceitar os factos.
Emocionado, perguntou a Carla:
- Como era o rapaz?
- Deixe-me ver, muito parecido com você, Ricardo.
Mas os cabelos eram mais curtos, sem bigode ou costeletas.
- E a moça?
- Ah, ela era linda.
Meiga, doce, tratou-me com muito amor.
Deve ser um casal, porque um olhava o outro com muito amor.
Ricardo emocionou-se mais ainda.
Só podiam ser seu irmão e Leonor.
Então eles haviam ficado juntos no astral!
Precisava contar essa novidade para Carmem.
Ela precisava saber que sua filha estava ao lado de Rogério.
Não via a hora de poder contar-lhe a novidade.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:22 pm

Chegou perto de Carla, colocou as mãos dela entre as suas, e com carinho disse:
- Você é privilegiada.
Nunca nos vimos antes.
Não sei nada a seu respeito, mas tenho certeza de que você deve ter alguma ligação com meu irmão e minha...
Minha... Cunhada, se assim posso dizer.
Ela nunca se comunicou antes.
Deve ter muita afinidade com você.
- Não sou privilegiada.
Faz anos que eu tenho sonhado com os dois.
Sempre acordo com poucas lembranças, as fisionomias nunca ficavam nítidas e também nunca deram-me seus nomes.
Hoje foi a primeira vez que tudo ficou claro e bem real.
- Quer dizer que você sonhou sempre com esse casal?
Há quanto tempo? - perguntou Ricardo, intrigado.
- Desde que estou na casa de Nelson.
- Mas ele não é seu pai?
Não estou entendendo.
Nelson ia censurá-la, mas Santiago não permitiu.
- Vamos, Nelson, tomar uns drinques.
Carla está debilitada, cansada.
Deixe-a conversando a sós com Ricardo.
Vamos sair e respirar ar puro, ver as mulheres que estão dando sopa no salão.
Contrariado, Nelson respondeu:
- Está certo, vamos.
Mas por pouco tempo.
Não gosto de deixá-la sozinha.
- Pode ficar sossegado que não abusarei de sua filha.
Tenho uma imagem a zelar - tornou bem-humorado Ricardo.
Os dois saíram e Ricardo aproximou-se mais de Carla.
Sentou-se numa banqueta próxima ao sofá.
Segurando ainda suas mãos, continuou:
- Não entendi mesmo.
Você morava com sua mãe e depois foi morar com seu pai?
Por que o chamou de Nelson?
Não é costume um filho chamar o pai pelo nome.
- Não é mesmo.
Na verdade eu não sei quem sou.
Ricardo custou a entender.
- Pelo visto, você deve achar que sou uma maluca.
- Se você me contar o que se passa, posso mudar minha opinião - tornou ele com um lindo sorriso nos lábios e salientando o furinho charmoso de seu queixo.
- Há alguns anos fui encontrada à beira de uma estrada em estado inconsciente.
Levaram-me até o hospital da cidade mais próxima, Guaratinguetá, e fui assistida por Nelson, o médico responsável daquele hospital.
Fiquei com amnésia, não consegui mais lembrar de minha vida antes daquela noite na cama do hospital.
Nelson tentou procurar familiares, parentes, mas em vão.
O tempo passando e fui ficando na casa dele.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:23 pm

Ele não tem parentes e me adoptou, se assim posso dizer, como filha.
O único problema é que não tenho documentos.
Essa é a pior parte da história.
- Mas seu nome não é Carla?
- Na verdade, não.
Esse foi o nome que Nelson me deu, tempos depois.
O bloqueio foi tão forte que mesmo meu nome verdadeiro eu não sei.
- Mas não distribuíram fotos, não deram busca próximo ao local onde você foi encontrada?
- Fizeram tudo o que era possível.
Talvez eu tenha tido uma família que quis livrar-se de mim.
Fui encontrada sem documentos, com escoriações pelo corpo.
Infelizmente não sei o que possa ter acontecido.
Mas desde a noite do acidente tenho tido sonhos com espíritos amigos.
Dizem que na hora certa vou saber a verdade.
- Você acredita em espíritos?
- Sim. Por quê?
Toma-me por uma desequilibrada por acreditar no mundo astral?
Ricardo riu bem-humorado.
- De que está rindo?
Acha que sou desmemoriada e fraca da cabeça? - perguntou Carla contrariada.
- Que nada.
Não fique brava.
Eu também acredito em espíritos.
Tenho até um grupo de pessoas que estudam, que se interessam pelo tema.
Frequentamos inclusive um bom Centro Espírita no Rio.
- Então temos algo em comum!
- Acho que mais do que isso.
Os espíritos que você descreveu há pouco são entes muito queridos meus.
- Seus?! Como pode ser?
Como tem essa certeza?
- Não sei explicar muito bem, mas você descreveu meu irmão e sua namorada.
- Não pode ser!
Eu não conheço você, quer dizer, conheço-o por fotos, mas hoje foi nosso primeiro contacto.
- Não sei, não.
Assim que voltar ao Rio, vou procurar saber dessa ligação.
Você se importaria de participar de uma reunião connosco, se fosse possível?
- Gostaria muito!
Mas desde que pudesse levar comigo D. Clotilde.
Ela é a luz a guiar-me no vasto mundo do invisível.
Graças a ela tenho conseguido manter-me lúcida e equilibrada.
- Pode levá-la, sim.
Será um grande prazer.
E afinal de contas adorei o recado que Rogério lhe deu.
- Que recado?
- De você e seu amor por mim.
Foi a melhor parte da história.
Carla ruborizou-se.
Sentiu todo o sangue subir-lhe às faces.
Esquecera-se de que ele estava presente ao dizer aquilo.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:23 pm

- Desculpe, não sei se o recado foi esse mesmo.
Estou confusa.
Carla sentiu o coração bater descompassado.
Ricardo também.
Sem cerimónia, aproximou seu rosto do dela.
Sem conseguir controlar seus impulsos, beijou-a com ardor.
Ela retribuiu o beijo e sentiu o chão sumir sob seus pés.
Foram interrompidos por um grito pavoroso.
Ambos olharam assustados em direcção à porta da sala.
Ricardo, mantendo Carla deitada no sofá, levantou-se de imediato.
- Então foi só eu dar uma saídinha pra essa ordinária se aproveitar da ocasião? Maldita!
Fernanda estava transtornada.
Suas mãos estavam cheias de sangue.
Entre elas, uma faca igualmente ensanguentada.
Ricardo tentou contemporizar.
- Você está fora de si, calma.
Podemos conversar educadamente.
Aqui não é hora nem lugar apropriados para uma discussão, Fernanda.
- Cale a boca!
Vou acabar com a vida dela.
Você é meu e será sempre meu.
Não vou deixar que uma caipira vagabunda tome o meu lugar assim tão fácil.
Não depois de tudo o que fiz.
- Calma. Ela não tem nada a ver com a história.
Fernanda não dava ouvidos.
Do canto de seus lábios escorriam grossas camadas de saliva.
Ela estava em estado colérico.
Seus olhos viravam com tamanha velocidade que pareciam querer saltar das órbitas.
Assim que Sampaio caiu sem vida no chão da cozinha, ela se deu conta do que havia ocorrido.
Imediatamente virou o corpo do director e arrancou a faca de sua barriga.
Ficou lá sentada, olhando para aquele corpo sem vida.
Estava atordoada.
Algumas entidades escuras abraçaram-se a ela numa colagem energética de lascívia e prazer.
Sussurravam em seus ouvidos:
- Você acabou com esse desgraçado que ia atrapalhar o seu caminho.
Agora é hora de pegar à vagabunda.
Ela vai seduzir o seu homem.
Ela vai seduzir o seu homem.
Fernanda sentiu sua força triplicar.
Um ódio descomunal tomou conta de seu corpo.
Ensandecida, saiu correndo com a faca na mão.
Antes, teve o despautério de quebrar algumas vidraças da casa de Sampaio.
Depois remexeu e derrubou algumas gavetas, dando a impressão de assalto.
Deixou a porta de entrada entreaberta, apagou as luzes e partiu colérica até a casa de André.
Ao se deparar com Ricardo e Carla se beijando, novamente foi incitada pelas entidades:
- Eles vão ficar juntos!
Você não pode deixar que isso aconteça.
Você já matou um, não custa nada matar outro.
Acabe com a vida dela.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:23 pm

Telepaticamente Fernanda sorvia cada palavra que aquelas entidades diziam.
Espumando ódio, tentou jogar-se para cima de Carla.
Ricardo foi mais rápido e empurrou-a com força.
Fernanda tropeçou e deixou cair à faca.
Ricardo mais uma vez foi rápido o suficiente para chutar a faca longe.
Jogou-se em cima de Fernanda.
- O que está acontecendo?
Você não está bem.
O que estava fazendo com essa faca?
Por que está suja de sangue?
Fernanda nada ouvia.
Gritava e esperneava sem parar.
Ricardo tentava a todo custo segurá-la.
Ela parecia outra pessoa.
Carla não sabia o que fazer.
Se fosse chamar os convidados, sabia que a festa dessa vez iria por água abaixo.
Já havia desmaiado e causado pequeno tumulto.
Caso os convidados vissem Fernanda, uma actriz nacionalmente conhecida, completamente fora de seu juízo normal, seria o fim da festa e uma grande decepção para os recém-casados.
Eles não mereciam isso.
Acuada num canto, Carla lembrou-se de Rogério e da bela mulher.
Começou a rezar.
Intimamente fez uma prece que brotou fundo de seu coração.
Pediu que espíritos amigos pudessem ajudá-los naquele momento tão constrangedor.
Logo Fernanda perdeu as forças.
Ricardo levantou-se, procurando recompor-se.
Intuído, tirou o lenço do paletó e pegou a faca.
Aproximou-se de Carla.
- Você está bem?
- Eu é que pergunto.
- Mais ou menos.
Estou preocupado com ela.
Fernanda levantou-se, olhou para os dois com os olhos vermelhos e injectados de ódio.
- Vocês me pagam!
Saiu em disparada. Ricardo tentou ir atrás, mas ela foi mais rápida.
Entrou no carro e saiu cantando os pneus.
Ricardo voltou com a faca envolta pelo lenço.
Chamou por Douglas:
- Guarde isso.
Coloque dentro de um saco plástico.
Douglas, olhos assustados, vendo aquela faca suja de sangue envolta por um lenço manchado de vermelho, simplesmente disse:
- Deixe comigo, Ricardo.
Saberei onde guardar.
Douglas saiu e Ricardo novamente viu-se a sós com Carla.
Olhou-a nos olhos com paixão.
Sentia algo por Fernanda, mas era muito diferente do que sentia por Carla.
Seus pensamentos estavam embaralhados, sua cabeça e nuca doíam terrivelmente.
Mas seu peito estava cheio de amor.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:23 pm

Correu em direcção a Carla e beijou-a repetidas vezes nos lábios.
Carla correspondeu e deixaram-se cair no sofá, entre beijos e carícias.
- Se ele mantiver o peito irradiando todo esse sentimento puro, teremos autorização para solicitar o desmanche do trabalho.
- Acha que será possível desfazer a magia, Ester?
- Claro, meu querido.
A força do amor é poderosa e vence qualquer magia ou trabalho.
- Mas por que a cabeça dele está doendo?
Por que essas manchas escuras próximas à nuca?
- Rogério, são os efeitos da magia.
O trabalho consistiu em bloquear e embaçar sua mente, para que ele nada pudesse perceber a não ser a figura de Fernanda.
Agora o trabalho começou a ser desfeito.
Ele vai sentir mal-estar e um pouco de enjoo.
Mas será assistido pela nossa equipe espiritual.
Ele voltará ao Centro no Rio e lá teremos condições apropriadas para concluir a nossa parte.
- Ester, eu ainda tenho muito a aprender.
Ele ama Carla, não sei como pôde ser vítima de macumba.
- Ele não foi vítima.
Seu padrão de pensamento facilitou bastante.
Ricardo sempre se sentiu inseguro quando o assunto era amor.
A cada decepção amorosa, ele se frustrava.
Em vez de destruir as ilusões que criou acerca do amor, ele foi, a cada decepção, idealizando uma mulher que só existia em sua mente.
- Mas ele estava à procura de seu par, de sua metade.
- Não seja tolo.
Nem mesmo aqui no astral usamos o termo alma gémea.
Isso faz parte da ilusão humana.
Existem almas afins, sim, mas não com essa dose de emoção que colocamos na Terra.
Não podemos esquecer de que tudo o que procuramos nos outros é resultado daquilo que não queremos enxergar dentro de nós.
- Você tem razão, meu amor.
Não adianta procurar nos outros.
- Não adianta.
Lidar com o aspecto afectivo está relacionado com troca e não com procura.
Se estiver disposto a trocar amor, terá sucesso.
Se estiver à procura de um amor, vai amargar em suas frustrações.
- Ester, como sou grato por tê-la a meu lado, pois aprendi verdadeiramente como relacionar-me afectivamente.
Rogério abraçou-a com carinho e juntos passaram delicadamente as mãos sobre as testas de Ricardo e Carla.
Luzes coloridas, que saíam de suas mãos, limparam o perispírito dos jovens encarnados e da sala antes repleta de entidades pesadas, bem como das formas-pensamentos trazidas por Fernanda.
Nelson voltava para casa contrariado.
Saiu de São Paulo em desespero.
Tentou, debalde, arrastar Carla para casa.
Era a primeira vez que se separava dela.
Não gostava de sentir o aperto que teimava em tomar-lhe lugar no peito.
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Ave sem Ninho

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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:23 pm

Quase perdera o ar quando vira Ricardo e Carla de mãos dadas, andando pelo salão, logo depois que ela se recuperou.
Os convidados cochichavam, não conseguiam deixar de notar o brilho naquele casal formado por duas pessoas tão bonitas.
Conforme Ricardo e Carla passavam pelo salão, era com gosto que as pessoas os admiravam, aprovando com louvor o que parecia uma provável união.
Santiago ria de sua face transfigurada e muda, sem expressão definida.
- Você se estrepou.
Vai perder a filha querida.
- Não brinque com isso.
Eles não podem se apaixonar.
- Por que fala com tanta propriedade?
Parece coisa de novela mexicana.
Não vá me dizer que são irmãos!
Que esse é o segredo de seu passado - tornou bem-humorado Santiago.
Ela nem mesmo é sua filha.
Acorde e desperte para a realidade.
Acha que ela ficaria a seu lado para sempre, sem identidade, como um bibelô?
- Não seja duro comigo.
- Não estou sendo duro.
Estou sendo sincero. Sou seu amigo.
Adoro você e Carla.
Sempre soubemos que um dia as coisas tomariam rumo.
Sou seu amigo de verdade, e acho que está me escondendo algo.
- Não estou.
- Está. Nelson conheço bem você.
O que anda ocorrendo?
Desde aquela época em que teve aquele mal súbito em São Paulo, tenho percebido você mais tenso, preocupado.
Nelson continuava impassível, olhando para a paisagem ao redor, como se não ouvisse Santiago.
- Certo, não vou insistir.
Acho essa atitude evasiva.
No momento certo você me conta o que está acontecendo.
Santiago falou e passou a mão pelo ombro do amigo.
Continuou olhando para frente e dirigindo com cautela.
Nelson via em Santiago um irmão.
Sempre contara-lhe tudo, nunca tinha omitido detalhes de sua vida, fosse no campo profissional, fosse no campo pessoal.
Sua vida para Santiago era como um livro aberto.
Sentia remorso por não contar-lhe o que estava acontecendo.
Sabia que Santiago era perspicaz e havia notado sua mudança de comportamento.
Nelson estava a ponto de explodir.
Sentia vontade de gritar de contar toda a história.
Abaixou a cabeça e começou a chorar.
- Não sei o que se passa, mas deve ser algo que o está machucando muito.
Gostaria de falar a respeito?
Nelson pendeu a cabeça em sentido afirmativo.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:24 pm

Santiago tornou:
- Então vamos lá.
Temos algumas horas de viagem até chegarmos em casa.
Temos tempo de sobra para conversar.
Nelson, aos poucos, foi abrindo seu coração.
Ainda em prantos, foi contando ao amigo todos os factos, em minúcias, desde o dia em que Carla havia sido acolhida por ele até o presente.
Falou sobre o amor que sentia, como se ela fosse sua filha, a conversa com Castro sobre o paradeiro de sua família, as fotos de André.
Falou sobre o trabalho que um detective havia feito com as digitais de Carla e, por último, o grande medo que sentia de perdê-la.
Santiago ouviu a tudo calado.
Não emitia som ou expressão.
Procurou, durante toda a conversa, manter uma postura impessoal, muito embora algumas vezes sentisse o peito oprimido, emocionado com a sinceridade do amigo.
Nelson concluiu:
- E agora estou indo para casa sem minha filha.
Ela está com o irmão do falecido namorado.
Tenho medo que ela de uma hora para outra entre em surto, recordando-se de tudo.
Santiago sentiu-se disposto para entabular a conversa:
- Admiro sua lealdade por ter me contado, seu amor por Carla, enfim, enalteço suas qualidades, pois você é um homem de bem.
Infelizmente, esse vazio no peito é devido à descrença na vida espiritual.
Se acreditasse nela, poderia perceber o quanto sofremos desnecessariamente.
- Não é questão de acreditar ou não.
Desde minha internação, tenho pensado muito nisso.
Mantenho conversas com Clotilde, inclusive.
Mas falta alguma coisa para que eu acredite de vez no mundo espiritual.
- Você é osso duro de roer mesmo.
Não percebe que todo esse movimento que a vida vem fazendo mostra justamente que fazemos parte de um mundo muito mais amplo, regido por leis imutáveis e sábias?
Não sabe que tudo isso que durante todo o trajecto foi chamando de coincidências não passa de movimentos criados pela vida para despertá-lo para a verdade?
- Tudo é muito novo para mim.
Deus deve estar querendo minha punição.
Com tantas pessoas nesse Brasil, fomos cair justamente na família de André?
- Para você ver como tudo está certo, como nada acontece por acaso.
Chamamos a isso de lei de atracção, de afinidade.
Estamos aqui no carro conversando, com os espíritos aprisionados nesses corpos densos.
Quando dormimos, nosso espírito se liberta do corpo, encontramos amigos, recebemos ajuda.
Se você permitir-se perceber além, verá que temos muitos amigos invisíveis nos ajudando.
Você deve agradecer a Deus, porque me parece que as coisas estão se ajeitando.
- Estou a ponto de perdê-la!
Acha isso um movimento natural e benéfico da natureza?
É muito duro.
- Deixe seu lado dramático de lado, Nelson.
Olhe para essa experiência com outros olhos.
Pense no lado positivo de tudo isso.
Carla tem todo o direito de voltar a ser quem era.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 8:24 pm

Se agora ela está com Ricardo, é porque a vida assim determinou.
Você nada pode fazer, a não ser aceitar.
Quando aceitamos as situações como elas são, tudo fica mais fácil.
- Não gosto disso.
Aceitar parece-me tornar-se submisso, como se o destino estivesse selado e fosse algo imutável.
- Engano seu.
A vida é pródiga nesse aspecto.
Aceitar a realidade dos factos significa ser lúcido, libertar-se das ilusões.
Você sabia que um dia isso iria acontecer.
Ninguém forçou nada.
Tudo está caminhando naturalmente e isso é sinal de que estamos no caminho certo.
Largue nas mãos de Deus.
Tenho certeza de que em breve você vai agradecer por tudo isso e rir da situação.
- Assim espero.
Fernanda estava tão cheia de ódio e vingança que não se amedrontou de estar na periferia àquelas horas.
Parou bruscamente o carro em frente à casa de Onofre.
Bateu a porta do carro com força, correu até a porta e começou a esmurrá-la.
Alguns minutos depois, a luz da sala se acendeu e uma senhora de meia-idade abriu a pequena janela da porta, assustada.
- O que quer?
Sabe que horas são?
Como se atreve a nos acordar dessa maneira?
Fernanda mal ouvia o que a mulher dizia.
- Cale a boca.
Eu quero falar com Onofre agora.
Se não chamá-lo, vou fazer um escarcéu.
Chamarei a polícia e darei parte de vocês.
A senhora assustou-se.
- Polícia não!
Já chega o que estamos passando ultimamente.
Aguarde um instante.
Verei o que posso fazer.
- Você não vai ver nada!
Você vai acordá-lo agora.
Se ele não me atender, eu juro que acabo com vocês.
A mulher fechou a janelinha da porta.
Fernanda estava impaciente.
Tremia, suava frio.
Mal percebera o sangue já escurecido grudado em suas mãos.
Logo depois Onofre apareceu.
- Nem mesmo ao mais importante dos meus clientes eu atendo nesse horário.
- Não quero saber.
As coisas não estão dando certo.
Precisamos reforçar o trabalho.
Estou perdendo Ricardo.
Onofre olhou para as mãos e roupas de Fernanda.
Assustou-se com o sangue.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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