SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 12, 2016 9:03 pm

Tadeu desligou a televisão.
Não aguentava mais ficar na sala vendo aquele monte de barbaridades.
Levantou-se do sofá, dirigiu-se à cozinha.
Passou por Odete, ainda cabisbaixa.
Abriu a geladeira e pegou uma cerveja.
Com a voz nervosa, inquiriu:
- Você ouviu?
- O quê? - perguntou Odete, sem levantar a cabeça.
- O ministro na televisão, Odete. Fecharam o Congresso.
Muita gente vai ser perseguida, torturada, exilada.
- E daí?
- Como e daí? Você é louca?!
Não percebe que estamos cada vez mais longe da democracia?
- E o que eu tenho a ver com isso?
Vai mudar a nossa vida aqui em casa?
Vai trazer a minha irmã viva?
Tadeu sorveu um gole na garrafa de cerveja e foi em direcção à esposa.
Abraçando-a por trás da cadeira e alisando suavemente seus cabelos, delicadamente disse:
- Meu amor, não adianta ficar assim.
Faz quase três anos que Leonor morreu.
Por que você não aceita a realidade?
Ela se foi, era a hora dela.
Odete revirou-se abruptamente.
Deu um salto da cadeira, derrubando a cesta com os feijões pelo chão.
Furiosa, começou a gritar com o marido:
- Você vem com essa história de que era a hora dela?
Você é maluco, Tadeu?
Que negócio é esse de hora?
Como Deus pôde ser tão cruel?
- Não fique assim, meu amor, desculpe.
Eu sei que a dor é muito grande.
Você sabe que eu não gosto de religião, mas acho que Deus não tem nada a ver com isso.
- Não tem nada a ver?
Então Ele faz o quê?
Diga-me, Tadeu, Deus fica fazendo o quê?
Escolhendo quem vai morrer?
Escolhendo as pessoas boas e jovens, com uma vida pela frente?
E por que é que Ele não mata esses marginais?
Por que Deus não leva esses arruaceiros que estão à solta pelo país?
- Não fale assim! Não admito.
Sei que você sente muito pela morte da sua irmã, mas veja a realidade.
Muitos de nós ainda têm dignidade e estão lutando para mantê-la firme e viva no país.
A democracia precisa ser soberana.
Não confunda arruaceiros com pessoas que querem uma vida digna para o país, com direito à liberdade.
- E eu lá quero saber de liberdade?
Eu quero Leonor de volta!
- Isso é impossível.
Nós a enterramos.
Ela está morta. Aceite.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 12, 2016 9:03 pm

Odete não aguentou.
Cobrindo o rosto em desespero, desatou a chorar e saiu da cozinha estugando o passo.
Subiu as escadas às pressas e trancou-se no quarto.
Tadeu não sabia mais o que fazer.
Já havia tentado de tudo.
Sentia estar em seu limite.
Suas forças estavam se exaurindo.
O noticiário da televisão e a postura amarga de sua esposa fatigaram sua mente e corpo.
Abrindo e fechando a boca, deixou-se cair no sofá.
Desabotoando o colarinho de sua camisa e agarrado a uma almofada, entregou-se ao sono.
Tadeu remexeu-se no sofá.
Tacteou a mesinha lateral à procura de seu relógio.
Sete e trinta da manhã.
- Meu Deus! Marquei com Cláudio no refeitório às oito horas.
Preciso me arrumar rápido.
Espreguiçou-se, levantou-se do sofá e olhou ao redor.
Uma sensação de tristeza invadiu sua alma.
Por que vivia um matrimónio fadado ao desquite?
Onde fracassara com Odete?
Por que ela havia mudado tanto?
Subitamente, sua mente passou a projectar imagens dos tempos de namoro.
Esqueceu-se por instantes do compromisso assumido com o amigo e deixou-se cair novamente no sofá.
Com os olhos semicerrados, mãos entrelaçadas na nuca, Tadeu passou a recordar:
- Puxa, como Odete era linda!
Aqueles cabelos castanhos, sedosos, aquela pele suave...
Suspirou profundamente e continuou em suas memórias:
- Apaixonei-me por ela no instante em que a vi!
Que corpo fantástico!
Ah, Odete, como você era moleca, divertida.
O que aconteceu com você?
Por que tornou-se tão triste e abatida?
Lágrimas começaram a rolar por sua face triste.
Ele já tentara de tudo para que a esposa voltasse a ser a mesma moça de anos atrás.
Tentava, debalde, saber onde havia fracassado.
Procurava dentro de si descobrir qual a sua parcela de culpa pela infelicidade da única mulher que amara na vida.
O fluxo de ideias foi interrompido por uma voz doce e suave:
- Papai, o senhor dormiu na sala? - indagou Lívia.
Tomado pela surpresa, Tadeu nervosamente enxugou as lágrimas.
Levantou-se de pronto e abraçou carinhosamente a filha.
Com voz que procurou tornar natural, respondeu:
- Dormi sim, minha filha.
Sua mãe não estava muito bem e pediu-me para ficar só.
Beijando o pai na testa, Lívia carinhosamente lhe disse:
- Outra crise. Mamãe está abusando.
Você é incrível, pai.
Não sei o porquê de tanta resignação.
Envergonhado, Tadeu baixou os olhos.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 12, 2016 9:04 pm

Cabisbaixo, perguntou à filha:
- Você me julga um bom marido, Lívia?
- Ora, papai.
Se eu fosse mulher feita, escolheria um homem como você.
Tadeu corou.
Lívia procurou esclarecer:
- Entenda, papai.
Não se trata aqui de transferência.
Estou falando que me casaria com um homem que tenha a mesma sensibilidade que você.
Eu admiro muito a sua personalidade.
Você é o marido ideal para qualquer mulher.
Pena que mamãe não enxergue isso.
Ela sempre se preocupou demais comigo e com Lucas.
Mas agora que estamos crescendo, acho que ela se sente meio perdida, sem rumo.
- Eu sei que você é ainda uma garota, Lívia.
Apesar de adolescente, é diferente das meninas da sua idade.
Possui uma maturidade que me alegra e encanta.
Às vezes vejo em você uma grande amiga, em vez de filha.
Obrigado por me ouvir.
Gostaria de conversar mais, mas estou atrasado.
Tenho um encontro com Cláudio na universidade.
Os olhos de Lívia brilharam de emoção ao ouvir o nome de Cláudio.
Procurando disfarçar o sentimento, deu um ligeiro beijo na testa do pai e foi correndo para a cozinha.
- Você já está bem atrasado.
Vá tomar um banho rápido, enquanto eu preparo o café.
- Obrigado, filha.
Na cozinha, Lívia procurou conter a emoção.
Desde o primeiro dia em que vira Cláudio, seu coração tremera.
Perto de completar quinze anos, Lívia era uma linda garota.
Lembrava muito o pai.
Possuía uma vasta cabeleira loira, naturalmente cacheada, que se harmonizava com sua tez clara e com seus olhos azuis e expressivos.
O corpo bem feito e a altura lhe davam um aspecto mais maduro.
O jantar servido por seus pais a Cláudio, um ano atrás, não saía de sua mente.
Percebera que o moço a olhara diferente.
Porém, como não mais se encontraram, ficava na expectativa de que o pai convidasse o amigo professor para um jantar, na esperança de reencontrá-lo.
Ainda embalada pela figura bela e sorridente de Cláudio, a garota foi despertada por uma voz rouca.
- Caiu da cama? - indagou Odete, ainda sonolenta e relaxada.
- Ora, mamãe, dormi cedo ontem. Estou desperta.
Preparo o café para o papai.
Ele vai ter com Cláudio logo mais.
- Ontem seu pai disse algo sobre fechamento do Congresso, sei lá, não me lembro direito.
Estava com tanta saudade de Leonor que não prestei atenção no que ele me dizia.
Lívia, desligando o fogo do leite que ensaiava entornar da leiteira, dirigiu-se amorosamente até Odete.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 12, 2016 9:04 pm

- Mãe, por que você foge?
Não use a morte de tia Leonor para justificar seu comportamento.
Você já estava assim antes de ela morrer.
Odete, tomada de surpresa, redarguiu:
- Como assim?
- Em vez de dedicar-se a sua aparência e a sua relação com papai, mergulha somente nas responsabilidades do lar.
Isso tudo antes de titia morrer.
Odete, tomada por forte irritação, alterou o tom de voz:
- Ora, quem você pensa que é para me dirigir a palavra dessa maneira?
Escute aqui, você não passa de uma garota fútil e pedante.
Só porque fica lendo os livros daquela amiga esquisita da sua avó, que aliás não são próprios para a sua idade...
Faça o favor de me respeitar, porque eu sou sua mãe.
A garota, mesmo ouvindo os impropérios, tornou tranquila:
- Mãe, não adianta me xingar, nem tecer comentários desse tipo.
Não precisa me agredir para se defender.
Eu só quero ajudá-la.
Você está se largando cada dia que passa.
- E quem vai fazer as coisas por aqui?
Quem pode cuidar de uma casa grande como essa?
- Não se faça de vítima.
Temos condições de pagar uma boa criada.
Há uma edícula nos fundos.
Papai, eu e até mesmo Lucas tentamos animá-la a contratar uma empregada.
- Você bem poderia me ajudar.
Você e seu irmão não fazem quase nada.
Lívia, imperturbável, continuou:
- Fazemos a nossa parte.
Eu arrumo o meu quarto, Lucas, o dele.
Sempre que estamos livres de nossos estudos, procuramos ajudá-la nos afazeres domésticos.
As minhas responsabilidades com os estudos são mais importantes do que lavar roupa.
A senhora escolheu ter a vida que tem. Não nos culpe.
Odete, atordoada com as firmes palavras de Lívia, deixou-se cair pesadamente na cadeira.
Chorando, acusou a filha:
- Você não me respeita, não me entende.
Ninguém me entende nesta casa.
Eu pareço um ser do outro mundo.
Ninguém ouve minhas reclamações.
Vocês não ligam para mim.
- Mãe, não me venha com esse discurso novamente.
Por que você se recusa a ser feliz?
Tem um excelente marido, dois filhos que a adoram e fica se perturbando com ideias negativas a seu respeito.
- Se pelo menos eu tivesse Leonor ao meu lado...
Só ela me entendia.
E Deus a tirou de mim.
Não entendo como vocês querem que eu seja feliz depois daquele acidente.
Odete não aceitava a perda da irmã.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 12, 2016 9:04 pm

Sentia-se injustiçada pela vida.
Qualquer argumento para mostrar-lhe o contrário era inútil.
Estava presa em seus castelos de ilusão.
Lívia deu um leve suspiro, passou carinhosamente suas mãos pelos cabelos desalinhados da mãe.
Procurou ficar quieta.
De nada adiantava demover sua mãe daquele estado.
Em silêncio, passou a arrumar a mesa para o café.
- Ora, ora! Não resisti ao cheiro do café.
Sabia que você estava na cozinha, Lívia.
- Bom dia, Lucas.
Venha, já está quase tudo à mesa.
Papai já vem descendo.
O garoto, bocejando ainda, beijou a mãe.
- Bom dia mãe. Vamos, dê-me um sorriso.
Odete, mesmo entristecida em seus pensamentos, não resistiu ao jeito carinhoso do filho.
Enxugando as lágrimas, procurou esboçar um leve sorriso.
- Bom dia, meu filho. Sente-se.
Comecem com o café. Vou me arrumar.
- Não senhora - entrecortou Tadeu.
Agora que desci, vamos todos juntos tomar o café.
Já liguei para Cláudio dizendo que vou me atrasar um pouco.
Por sorte, ele também perdeu a hora. Dormiu demais.
- Estou com dor de cabeça, Tadeu.
Vou tomar um banho, depois desço para o café.
Odete levantou-se e foi se arrastando para o pé da escada.
Tadeu olhou para os filhos com ar cansado.
- Não fique assim - disse Lívia, pousando delicadamente suas mãos nas do pai.
Um dia ela vai despertar para a vida.
É uma questão de tempo.
- Não sei não, minha filha.
O estado emocional de sua mãe muito me preocupa.
Ultimamente nem ao salão de beleza ela tem ido.
Ela nada lembra a garota radiante que conheci há anos.
- Você sempre fez a sua parte, o seu melhor.
Não se torture - interveio Lívia.
- Acha mesmo?
- Acho. O problema na relação de vocês não é você, mas o comportamento dela.
Vamos deixá-la imersa em seus pensamentos.
Quando se cansar, ela larga tudo isso.
- Não sei, filha.
Você é tão nova, tão criança, e me diz coisas que só uma pessoa madura e sensata poderia dizer.
Confesso que só encontro apoio e compreensão nas suas palavras e nas de Cláudio.
Novamente, leve tremor percorreu o corpo de Lívia.
Procurando disfarçar, perguntou em tom curioso ao pai:
- A mamãe estava falando sobre fechamento do Congresso, censura.
Aconteceu algo, pai?
Tadeu, com voz tensa, respondeu:
- Isso mesmo.
Vocês já haviam se deitado ontem.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:16 pm

O ministro da Justiça baixou dois actos que nos proíbem de expressarmos livremente nossas ideias.
É o fim da democracia.
- E isso pode nos afectar de alguma maneira? - perguntou a filha, querendo entender.
- Sim. Tanto eu como Cláudio leccionamos História do Brasil.
Teremos de tomar cuidado com as palavras.
Não sei como vou viver sendo vigiado o dia todo.
- Ora, pai. Não se preocupe.
Procure se acalmar.
Não acho que o momento seja de aflição.
Converse com Cláudio, procure se abastecer de informações.
Nem tudo o que se diz na televisão deve ser acatado como verdadeiro.
- Sei disso.
Mas não foi nenhum repórter que falou ontem, mas o próprio ministro.
Isso me preocupa.
- De nada adianta o senhor ficar desse jeito.
Vai mudar alguma coisa?
No momento não. Tome o seu café com tranquilidade.
Já ligou para o Cláudio dizendo que ia se atrasar um pouco.
- Ele já deve estar a caminho. Preciso ir.
Tadeu sorveu mais um gole de café.
Levantou-se apressado, beijou os dois filhos e saiu.
O dia amanheceu com o sol forte a despertar os habitantes do estado da Guanabara.
O calor do verão convidava a todos para um delicioso banho de mar.
Carmem marcara de ir à praia com Marta.
Arrumava sua sacola quando a campainha tocou.
Bem-disposta e humorada, Carmem respondeu alto:
- Já vou. Um momento.
Desceu as escadas e dirigiu-se rapidamente até a porta.
- Bom dia, minha amiga. Como está hoje?
- Estou bem melhor.
Às vezes me condeno...
Não sei se deveria me permitir ser feliz.
- Por que diz isso?
A tristeza não vai trazer sua filha de volta.
Não creio que Leonor gostaria de vê-la triste e chorando pelos cantos.
- Você tem razão - e passando as mãos pelos cabelos, continuou.
Vá pegar as cadeiras e as esteiras lá no quintal, enquanto eu pego a sacola lá em cima.
- Assim é que se fala.
Vamos logo, porque daqui a pouco não teremos lugar para deitar.
Está muito quente.
Acho que todo o bairro está pensando em fazer o mesmo que nós.
Saíram animadas a caminho da praia.
Lá chegando, no mesmo local que sempre marcavam próximo ao píer, Carmem e Marta encontraram alguns amigos.
Montaram pacientemente o guarda-sol e ajeitaram as sacolas e cadeiras.
Passaram óleo pelo corpo e deitaram-se de bruços nas esteiras, com os cotovelos postados na areia.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:16 pm

Após acomodarem-se, Carmem puxou conversa:
- Sou-lhe muito grata.
Não fosse a sua ajuda, talvez não suportasse a perda de Leonor.
Tem dias que a saudade bate forte, mas tento compreender e aceitar os desígnios da vida.
Procurando posição melhor para conversar com a amiga, Marta virou-se de lado.
Com o cotovelo flexionado, mão segurando o rosto, disse animada:
- Você mudou muito, Carmem.
Eu lhe disse que a vida às vezes nos acorda para a realidade espiritual de várias maneiras.
- Eu sei disso.
Hoje entendo o porquê de muitas coisas em minha vida graças aos estudos que nosso grupo vem fazendo.
Eu tinha uma visão muito diferente da espiritualidade.
A maneira de encarar o mundo espiritual sempre me causou medo.
Quando se fala em espiritualidade aqui no Brasil, logo pensamos em feitiçaria ou macumba.
Frequentar o Centro onde você trabalha e estuda me trouxe contentamento para continuar a viver.
A maneira como os dirigentes abordam o tema me estimula a querer estudar e saber cada vez mais.
- Que bom. Fico contente que você esteja interessada e gostando do assunto.
Você está coberta de razão, mas temos de ter discernimento.
Há Centros Espíritas muito bons aqui no país, gente que trabalha por amor, com o intuito de esclarecer e orientar o próximo, com conselhos positivos e optimistas acerca da vida.
O lugar que frequentamos leva o estudo da vida espiritual e das energias muito a sério.
Enquanto muitas pessoas sentem-se vítimas e querem que espíritos do mal façam trabalhos para conseguir o que querem, mantendo-as presas em suas ilusões, muitas outras procuram entender o porquê de atraírem situações desagradáveis na vida, olhando para dentro de si e procurando trocar as velhas crenças erradas por outras mais positivas, melhores.
- Nada como espíritos de luz para nos orientar nesse processo de evolução e crescimento interior.
Em tom que procurou tornar engraçado, Marta inquiriu à amiga:
- Isso deve ser hereditário, você não acha?
- Como assim?
- Bem, digo isso porque sua neta é leitora voraz dos livros que estudamos.
Gosto muito quando Lívia vem passar as férias aqui com você.
Embora seja adolescente, ela aprende com muita rapidez.
É muito lúcida.
Sua filha e seu genro devem levantar as mãos para o céu por terem uma filha assim.
- Uma filha e um filho - completou Carmem.
- É verdade. Lucas leva jeito para isso.
Lívia já é moça, não se prende às futilidades e à rebeldia das meninas de sua geração.
- Gostaria que Odete também pensasse dessa forma.
- Sua filha é um caso à parte.
Na hora certa, a vida vai saber como despertá-la para a verdade.
Você precisa saber que ela ainda não está pronta para destruir as ilusões que criou.
- Tenho medo - falou Carmem, preocupada.
- Medo de quê?
- Medo de que Tadeu perca a paciência com ela.
Não sei como ele aguenta uma pessoa tão negativa e sem auto-estima a seu lado.
Ele é tão carinhoso, tão bonito.
Como minha filha pode ser tão cega!
- Concordo com você.
Tadeu é um belo homem.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:16 pm

- Confesso: caso ele se desquitasse de Odete, torceria para vocês ficarem juntos.
- Esqueça disso.
Embora Tadeu seja um homem que desperte os desejos mais íntimos de qualquer mulher, não sinto nada mais do que atracção física.
Para encarar uma relação que valha a pena, é preciso mais do que atracção física.
A bem da verdade, eu só o tenho visto em algumas reuniões clandestinas para ajudar presos políticos a fugirem do país.
Você sabe, aquisição de passaporte, passagens, etc.
- Espero que você não arrume encrenca por causa disso.
- De maneira alguma.
Estou fazendo o meu melhor.
Se puder ajudar algumas pessoas presas injustamente a terem uma vida livre e digna fora do Brasil, ajudarei sem titubear.
- Além de bonita e inteligente, você tem personalidade.
É autêntica. Torço para que encontre um homem a sua altura.
- Não tenha dúvidas.
No momento em que eu estiver livre de minhas inseguranças afectivas, sei que a vida me trará naturalmente um homem que esteja vibrando na mesma sintonia que vibro.
- Espero.
Marta tornou animada:
- Você também poderia arrumar um bom partido.
É nova e independente.
Está bonita, bem ajeitada.
Não se sente só após a morte de Leonor?
- No começo foi muito duro.
Agradeço a você pelo socorro emocional e ao Centro pelo amparo espiritual.
Com o tempo fui aceitando e me acostumando.
Ultimamente até tenho pensado em me envolver com um homem maduro.
Mas os homens da minha idade, em sua maioria, encontram-se emocionalmente desequilibrados.
Sentem-se velhos, na meia-idade, alguns já trazendo o trauma de um desquite.
Não sei. Se tiver de amar de novo, naturalmente aparecerá um belo e garboso senhor.
- Não sei se carregam o trauma do desquite.
Esse tipo de separação é horrível, embora seja a única saída que temos no Brasil.
- Isso é verdade.
O desquite somente garante pensão à mulher e alguns direitos aos filhos, nada mais.
Tanto o homem quanto a mulher não podem mais se casar.
Será que com todas as mudanças que nossa sociedade vem enfrentando, teremos direito ao divórcio?
- Precisamos ter esse direito.
Nós, mulheres, somos as que mais sofremos com a separação.
As amigas casadas ficam com medo de que as desquitadas possam roubar-lhes os maridos.
As desquitadas sempre serão taxadas de incompetentes, aquelas que não souberam preservar a família.
Continuaram animadas entabulando conversações sobre relações afectivas e assuntos correlatos.
Em determinado momento, Carmem disse:
- Algo me intriga.
Por mais que eu tente, não consegui no Centro uma comunicação com o espírito de Leonor.
Será que ela ainda está em estado de refazimento?
- Já me perguntei isso - respondeu Marta, virando o corpo e sentando-se.
Mas a nossa equipe espiritual nos disse para termos calma, que no tempo certo, teremos contacto.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:16 pm

O plano superior sabe o que faz.
Eles têm uma visão global dos acontecimentos, enquanto nós, presos ao corpo de carne, ficamos limitados nos sentidos.
Vamos confiar.
- O espírito de Octávio já me disse isso numa reunião.
O facto de termos tido contacto com Rogério diminuiu as minhas aflições.
Nunca pensei que ele fosse se adaptar tão bem à vida no astral.
Poderia ter se revoltado, não ter aceitado a verdade.
Estava envolvido com Leonor, havia se formado, tinha uma vida pela frente.
- Não se esqueça que somos espíritos eternos.
Fazendo o nosso melhor, tanto aqui na Terra como no astral, dá na mesma.
O importante é sabermos aproveitar as oportunidades que a vida nos dá, não importa a dimensão onde estejamos.
E também não podemos esquecer que temos o poder de escolha.
O curso que estou fazendo fala sobre isso.
- Isso o quê?
- Sobre a responsabilidade que temos pelas consequências de nossas escolhas.
Mas ainda preciso aprender muito.
- Com o tempo chegaremos lá.
Precisamos estudar sempre, livres de preconceitos, a fim de manter nossas mentes largas para o novo.
Mudando de posição para bronzear outras partes do corpo, Marta perguntou:
- Continua tendo aqueles sonhos estranhos?
- Continuo. Aqueles com Leonor, então, são difíceis de interpretar.
- Continua sonhando com ela e com Octávio? - perguntou à amiga, interessada.
- Sim. Sempre a mesma cena.
Leonor tendo pesadelos e chamando por mim.
Logo depois ela acorda e a vejo sem saber quem é ou onde está.
Nessa hora procuro abraçá-la e a conforto com palavras de optimismo.
Depois, Octávio faz o mesmo, abraçando-a e mantendo-a calma.
Acordo bem-disposta, com uma sensação de que...
- De quê?
- De que ela está viva.
É estranho, não acha?
- Isso é sinal de que ela, onde quer que esteja, está bem, Carmem. Confie.
- Acho que você tem razão.
A confiança tem me ajudado a modificar minha vida para melhor.
Procuro focalizar minha atenção no bem.
Confesso que no início pensei que não fosse aguentar o baque.
- Você teve sorte.
Ainda bem que tiveram o senso de lacrar os caixões.
Ficamos com a imagem de Leonor bonita, sorridente.
Ainda estamos num estágio onde facilmente nos impressionamos com as coisas.
- Isso é verdade.
O facto de Tadeu ter feito o reconhecimento do corpo de minha filha aliviou muito o meu coração.
Por mais positiva e optimista que eu fosse na época, não suportaria ver o corpo de minha filha retalhado.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:16 pm

Marta, sorvendo um gole de refresco, continuou:
- E já que estamos nesse assunto, como vai André?
Você tem notícias dele?
- Depois do enterro, nunca mais vi o pai de Rogério.
Por algum tempo tive contacto com Ricardo, mas aí ele se envolveu com televisão e as ligações foram escasseando.
Ricardo é uma criatura fantástica, tem boa cabeça.
Pena que os compromissos o impediram de conhecer o nosso grupo.
- Se ele tiver de participar, a vida vai arrumar uma maneira de aproximá-lo de nós, mesmo tendo compromissos, ou morando em São Paulo.
- Gostaria muito de reencontrá-lo.
Assim as duas permaneceram horas a conversar, discursando sobre suas vidas, aproveitando o sol e contemplando a beleza da praia de Ipanema.
Nesse mesmo domingo, o calor na cidade de Guaratinguetá, ao norte do Estado de São Paulo, não era menos intenso.
As famílias abastadas possuíam piscina em suas residências.
Por ser uma cidade agradável, onde seus moradores davam-se muito bem, o ponto de encontro da elite, em dias ensolarados, era o clube da cidade.
Sentados em graciosa mesa próxima à piscina, estavam dois homens trajando sungas que embelezavam ainda mais seus corpos bronzeados e bem-feitos.
- Santiago - disse Nelson, após um gole de cerveja -, agradeço todos os dias pelo presente.
Santiago, distribuindo a atenção entre a fala do amigo e a apreciação das mulheres que desfilavam com seus maiôs e biquínis, tornou animado:
- Você é um homem de sorte.
Nunca quis se casar, mas sempre quis ter um filho.
Como anda a sua pequena?
Nelson, achando graça nas palavras do amigo, respondeu:
- Pequena? Ela é uma mulher!
- Você é bonitão.
Mal completou cinquenta anos.
Tem um corpo de fazer inveja a muitos jovens.
É solteiro porque quer.
Muitas mulheres na cidade suspiram por você, inclusive algumas casadas.
- Santiago, você não existe!
Já lhe falei o que penso sobre o casamento.
A história com Carla é diferente, é amor de pai pra filha.
Desde o dia em que a acolhi no hospital tive vontade de protegê-la como se fosse minha filha.
Nunca tive outra intenção.
- Não sei como.
Ela é tão bonita, um mulherão, e você a vê como filha?
Bem, pelo menos eu tenho a chance de um dia poder namorá-la.
- Você não! - atalhou Nelson, bem-humorado.
Você é o terror das mulheres.
Nunca deixarei você chegar perto de Carla.
Estou brincando. Falo isso para provocá-lo.
Nunca vi uma história dessas antes.
Você mal conheceu a moça e ficou cheio de amores.
Só pode ser coisa de vidas passadas.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:17 pm

- Qualquer explicação sensata seria melhor do que essas besteiras que você diz.
Irritado, Nelson perguntou:
- Você continua se metendo com essas crendices?
Logo você, um homem sério, culto, médico conceituado.
- E o que tem de mais nisso?
Existem muitos livros, muito material de gente séria que comprovou os factos, provando que a reencarnação existe.
- Num país como esse, onde todo mundo recorre a santos e espíritos para seus intentos, é difícil acreditar que haja algo sério.
- Pois há Nelson.
Eu tenho certeza de que a presença de Carla na sua vida não foi por acaso.
Ainda vou descobrir a ligação de vocês.
- Isso é ridículo, não passa de coincidência.
Prefiro enxergar a vida assim.
Essa ideia de Deus me assusta.
Os homens tripudiam sobre o Seu nome para fazer fortuna, matar, julgar, guerrear.
Veja a guerra terrível que travaram em Israel ano passado.
Prefiro estar longe de tudo isso.
A vida é isso que está aqui em volta de nós.
Por isso prefiro aproveitar e cuidar da minha pequena, sem Deus no meio da gente.
Santiago, admirado com as palavras do amigo, contemplou-o emocionado.
Gostava muito de Nelson, trabalhavam juntos havia mais de dez anos.
Embora Santiago fosse dez anos mais novo que ele, tinham afinidades, eram compadres.
Querendo ter certeza quanto ao sentimento que Nelson nutria pela garota, insistiu, curioso:
- Não há nem um pouquinho de desejo sexual por Carla?
Nelson remexeu-se na cadeira.
Só de ouvir tal pergunta seu peito apertou-se.
Procurando segurar uma lágrima que teimava em cair pela face, disse ao amigo:
- Não sei explicar...
É como se ela fosse minha filha, entende?
É um sentimento muito forte.
Não dá para confundir com outra coisa.
- Mas fique sabendo que a cidade já está destilando o veneno.
Nelson, sorvendo outro gole de cerveja, olhou para o amigo, meneando a cabeça de um lado para o outro.
Com ar compenetrado e franzindo o cenho, continuou:
- Só porque sou solteiro?
Eu nem moro sozinho!
Vilma está na minha vida desde que eu me conheço por gente.
Quando meus pais morreram, ela continuou a viver lá em casa.
Ignorou os comentários maldosos de certas pessoas e permaneceu comigo.
Sem ela eu não poderia exercer minha profissão.
- Sempre ouvi dizer que atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher.
No seu caso, atrás de um grande médico, há uma grande governanta.
Nelson desatou a rir.
- Muito engraçado de sua parte.
Você, Vilma e Carla são a minha família.
Por que haveria de me casar?
Não vejo motivo.
Assim que Carla estiver melhor, viajaremos.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:17 pm

- Pelo jeito, vai levá-la a Londres.
- É onde nove em cada dez jovens querem ir.
Londres tornou-se a capital da contracultura.
Não posso negar isso a minha filha.
Na hora certa vou contratar um advogado e providenciar os papéis.
Ela precisará de um passaporte, mesmo que seja falso.
- Calma, não brinque com isso.
Imagine arrumar-lhe um passaporte falso numa época onde anda sumindo um monte de gente.
- É verdade.
Na hora certa, arrumo os papéis.
Mudando de assunto, Santiago inquiriu:
- Ela está bem melhor, não está?
- Tirando as crises nocturnas, diria que vai tudo bem.
- Como vão os pesadelos dela, Nelson?
Ainda são assustadores?
- Melhorou um pouco.
Ela já não acorda tão assustada como no começo.
Vilma tem tido muita paciência.
Torço para que isso logo acabe.
Querendo satisfazer a curiosidade, Santiago perguntou, em tom malicioso:
- Até hoje você não me disse o porquê de chamá-la de Carla.
É o nome de algum amor do passado?
Nelson, revirando os olhos para o alto e pendendo negativamente a cabeça, objectou:
- Ora, homem, deixe de besteiras!
Não tenho tempo para perder com amores do passado.
Ela tem cara de Carla, é só isso.
Por que você quer tanta explicação?
Deixe-me em paz um pouco.
E estapeando as costas do amigo, Nelson considerou:
- Por que não vai conversar com alguma gatinha do clube?
Aproveite e depois me traga mais uma cerveja, e de preferência bem gelada.
- Está certo. Vou paquerar um pouco.
Faz bem para o espírito. Volto logo.
Santiago levantou-se.
Animado, foi circulando pelo pátio próximo à piscina do clube.
Nelson recostou-se na cadeira.
Com os olhos perdidos num ponto indefinido, deixou-se envolver pela memória.
- Lembro-me como se fosse hoje.
Aquela garota em estado de choque...
Os pensamentos de Nelson viajavam no tempo, três anos atrás.
Ele, um renomado cirurgião em sua cidade, fora chamado às pressas para um caso grave de acidente, ocorrido em estrada próxima.
Chegando ao hospital, nada pudera fazer.
O acidente fora seguido por um incêndio, o que dificultara o reconhecimento dos dois corpos.
O único documento salvo no incêndio era a identidade de uma mulher, cujo nome era Leonor Baptista.
Para se chegar à identidade do rapaz, restara à polícia checar a placa do carro.
Accionando os órgãos competentes, chegaram ao proprietário: Rogério Ramalho.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:17 pm

Tadeu, mais um médico e um dentista da família de Rogério fizeram o reconhecimento dos corpos.
Chamaram também o advogado que assessorava juridicamente as lojas do pai de Rogério para ajudar nos trâmites legais.
O estado danificado dos corpos só permitira fazer uma constatação através da arcada dentária.
O dentista da família reconhecera ser aquele corpo o de Rogério.
Tadeu não tinha ideia de como localizar o dentista de Leonor.
Diante do choque emocional, solicitara o mais rápido possível à liberação do corpo da cunhada.
Nelson, seguindo a ética médica, argumentara, solicitando o envio do corpo para autópsia no Rio, onde oficialmente atestariam o óbito.
- Doutor, eu sei que é necessário fazer autópsia, mas não há dúvidas.
Eu sei que se trata de minha cunhada.
Ela e o namorado saíram do Rio ontem.
A carcaça é de um Fusca, a placa do carro é a dele.
E, além do mais, o dentista da família confirmou a arcada dentária.
Por favor, livre nossa família de trâmites desnecessários.
- Calma, Sr. Tadeu.
Eu sei que se trata de uma hora muito difícil, mas infelizmente há certos procedimentos.
Mesmo não tendo recursos, vamos enviar o corpo de sua cunhada para autópsia.
- Mas eu sei que se trata de Leonor.
A polícia encontrou o documento de identidade parcialmente destruído, mas lá consta seu nome.
Por favor, poupe-nos de espera.
Queremos acabar o mais rápido com tudo isso.
Deixe-nos providenciar o funeral.
O Dr. Rezende, médico da família de Rogério, vai assinar os óbitos.
Trouxemos também o Dr. Castro, advogado das empresas do pai de Rogério para ajudar.
Estamos procurando fazer tudo dentro da lei, mas queremos que tudo seja rápido para poupar as famílias, que nesta hora estão inconsoláveis.
Não se preocupe.
Nelson, depois de longa conversa com o Dr. Rezende e com o Dr. Castro, liberara os corpos.
Dois dias depois do acidente, novamente Nelson fora chamado para uma emergência.
Tratava-se de uma garota, encontrada desfalecida próximo à rodovia que dava acesso àquela cidade.
Com escoriações por todo o corpo e pequenas fracturas, a moça encontrava-se em estado de semi-inconsciência.
Uma jovem e eficiente enfermeira disse-lhe:
- Dr. Nelson, ela se encontra na sala de emergência.
Dr. Santiago está em cirurgia.
Desculpe chamá-lo a essa hora.
- Esse é o meu dever.
Fez bem em chamar-me.
Chegando à enfermaria, Nelson fora tomado por uma forte emoção.
Precisara amparar-se na maca; o ar faltara-lhe.
Ao cruzar seus olhos sobre o corpo inerte da moça, lágrimas começaram a descer pelo seu rosto.
Sentira dificuldade em segurar o pranto. O que estaria acontecendo com ele?
Um misto de medo, saudade e amor brotara do seu peito, sem explicação lógica.
Procurando disfarçar a súbita emoção, perguntara aos dois enfermeiros que a assistiam:
- Já conseguiram localizar algum parente ou algum documento?
- Nada, Dr. Nelson.
Não há nada em seus bolsos.
Também não foi encontrado nada próximo ao corpo, lá na estrada.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:17 pm

Provavelmente ela deve ter sido roubada.
Está bem vestida.
Notamos também que ela tem mãos suaves e delicadas, portanto não deve ser roceira, mas de boa família.
Nelson tornara a olhá-la.
Novamente a emoção voltara forte.
Ficara muito impressionado.
Será que estava ficando velho?
Via casos como esse todos os dias no pronto-socorro.
Por que aquela moça lhe despertava tantas emoções?
Com os pensamentos tumultuados, pedira aos enfermeiros, após os procedimentos de praxe no socorro, que deixassem à sala.
Ficara a sós com a garota.
Contemplara-a por longo tempo.
Não conseguira impedir que duas furtivas lágrimas escapassem de seus olhos.
Dr. Nelson, há outra emergência chegando - informou-lhe um assistente, tirando-o de seu aparente estado de choque.
- Já vou. Peça ao plantonista que vá tomando as providências necessárias.
Feito isso, Nelson instintivamente beijara delicadamente a face da garota.
Sentira uma sensação agradável na sala, como uma leve brisa a envolver-lhe o corpo.
Conforme o tempo fora passando, Nelson afeiçoara-se cada vez mais à garota.
Dias depois, ela acordara.
Nelson fora correndo ao hospital, perante a possibilidade de saber quem era ela.
- Doutor... O que estou fazendo aqui...
Sinto-me tão cansada... Tão vazia...
Nelson, tomando-lhe delicadamente as mãos, perguntara:
- Diga-me, querida, qual é o seu nome?
- Meu nome... Meu nome... É...
Lágrimas de desespero começaram a escorrer pelo rosto da moça.
Balançando nervosamente a cabeça de um lado para outro ela começara a gritar:
- Eu não lembro o meu nome!
Como isso pode ser possível?
Por mais que Nelson tentasse acalmá-la, não pôde.
O desespero de não conseguir lembrar o próprio nome aterrorizara a pobre moça.
Remexera-se violentamente na cama, sendo somente acalmada por fortes sedativos.
Percebendo que se tratava de amnésia causada por um forte choque emocional, Nelson resolvera cuidar pessoalmente do caso, com a ajuda de Santiago.
Todos os dias eles a visitavam em seu leito, ora lhe levando doces e balas, ora flores e revistas.
Ela fora submetida a uma bateria de testes.
As faculdades mentais não haviam sido afectadas.
A moça alimentava-se e banhava-se naturalmente.
Conversava com as enfermeiras sobre quaisquer assuntos.
Mostrava um temperamento dócil.
Às vezes entrava em crise, pois insistia em querer lembrar-se de seu nome ou de sua vida antes de entrar naquele hospital.
Passados pouco mais de sessenta dias, livre de escoriações ou fracturas, Nelson levara a garota para morar em sua casa.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:17 pm

A princípio, algumas cabeças ruins insistiam em espalhar pela cidade que ele estaria se aproveitando da pobre moça, que haviam outros interesses.
O médico, desprezando a maledicência alheia, levara-a para sua casa.
Vilma a acolhera como a uma filha.
Fazia um mês que a moça estava morando em sua casa.
Criaram o hábito de conversar longamente após o jantar.
Numa noite, após agradável conversa, Nelson despedira-se da garota e fora se deitar.
Estava difícil conciliar o sono.
Sua cabeça estava cheia de planos, desde decorar o quarto da nova hóspede até o sonho de poder registá-la, um dia, como filha.
Vencido pelo cansaço, Nelson adormecera.
Sonhara que estava numa casa grande, decorada com muito luxo.
Via-se deitado numa cama, um pouco mais velho, cansado.
Não conseguia explicar, mas sentia ser aquele homem.
Seus olhos estavam tristes; o peito apertado.
De repente, uma linda moça entrara no quarto em prantos.
Nervosa, tremendo muito, gritara histérica:
- Por que o senhor fez isso comigo?
Por que desgraçou nossas vidas?
Nelson admirara-se.
Era a mesma garota que ele havia acolhido em casa.
Um pouco diferente, os cabelos mais longos, a fisionomia triste, mas os mesmos olhos.
Era ela! Confuso, percebeu que não controlava as palavras que naturalmente saíam de sua boca.
- Desculpe-me, Carla.
Eu não podia imaginar a extensão desastrosa de meus actos.
- Você foi longe demais! Podia ter evitado!
Inês contou-me tudo.
Agora estou casada com Hugo, tenho filhos.
Nunca saberei o paradeiro de Pedro, o homem que sempre amei.
- Já não basta o olhar acusador de sua mãe?
Terei de conviver com isso até os fins de meus dias?
- Eu o amava. Fui burra!
Como não percebi que tramaram para limpar o nome de nossa família?
Claro, nunca o senhor Aldair poderia ir à falência, nem que para isso tivesse a coragem de fazer-me ver aquela cena nojenta.
Nelson tentara sair, interferir, mudar o sonho, mas aquela cena parecia ser real.
Não conseguira se mexer, não conseguira desviar o rumo da conversa.
Sentira-se preso àquele corpo.
A moça continuara:
Cleide, quem diria, a minha ama, a quem sempre fui confidente, cooperou com essa trama sórdida.
Vê-la nua nos braços de Pedro foi horrível.
Sempre achei que ela fora embora por vergonha, por ter cometido um deslize, por ter sido abusada.
E eu tendo pena dela, achando que fora estuprada.
Inês disse-me que ela foi alforriada.
Claro, teve o dinheiro sujo para comprar a liberdade.
Mas um dia ela vai pagar.
Ela pode estar rindo à toa hoje, livre, enganando outras mulheres com essa sedução barata.
Mas se Deus existe, ela vai pagar.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:18 pm

E outra coisa: meus filhos nunca mais colocarão os pés nesta casa nefasta.
Nunca vou perdoá-lo. Odeio o senhor...
- Carla, não faça isso! Perdoe-me...
Antes que terminasse, a moça rodara os calcanhares e saíra, batendo violentamente a porta.
Nelson acordara suando frio.
Até que enfim livrara-se do terrível pesadelo, mas o aperto no peito continuava vivo.
Nunca tivera pesadelos.
O que estaria acontecendo?
Levantara-se, fora até o banheiro e lavara o rosto.
Voltara a deitar-se, mas custara a pegar no sono.
Quando os primeiros raios de sol invadiram seu quarto, ele finalmente adormecera.
Durante um jantar, alguns dias depois desse pesadelo, Nelson perguntara qual nome à garota gostaria de ter.
- Não faço a mínima ideia, Dr. Nelson.
Já que não lembro o meu nome verdadeiro, qualquer um serve.
- Não tem preferência?
Posso escolher um?
- O nome que o senhor der para mim está bom.
Por acaso o senhor já tem algum em mente?
- Não sei, mas você tem cara de...
De... Carla. Isso!
Em instantes, todo o sonho voltara-lhe à mente, com força.
Nelson empalidecera.
- O que foi?
O senhor não está se sentindo bem?
Procurando disfarçar, ele tornara, amável:
- Estou. Estou sim, minha filha.
Nelson passara a mão nervosamente pela testa, como a afastar aquele pesadelo.
Recompora-se. Pegara sua taça de vinho e a erguera elegantemente entre os dedos.
Com voz embargada, procurando dissimular, propusera:
- Um brinde a você, Carla.
A garota percebera que alguns flashes passaram desordenados em sua mente, sendo que algumas imagens pareciam ser muito antigas.
Logo a mente serenara e ela levantara delicadamente sua taça.
Após tocá-las levemente, brindaram ao novo nome da hóspede desconhecida, que tantas emoções despertavam naquele homem.
A harmonia na relação entre ambos era constante.
Carla fora se afeiçoando a Nelson, e meses depois sentia-se membro da família.
Uma bola perdida batendo levemente nas pernas tirou Nelson das lembranças, trazendo-o à realidade.
Educadamente, devolveu a bola ao grupo de meninas que nadavam próximo a sua mesa.
Percebeu que estava sendo paquerado por uma.
Sorriu levemente, não deu importância.
Sorveu mais um gole de cerveja, colocou os óculos escuros e olhou para o alto.
Quanta coisa havia mudado!
Ao lembrar-se de Carla, sua face estendeu-se em alegria, esboçando um largo sorriso.
Embalado pela emoção, seus olhos ficaram marejados.
Recostou-se novamente na cadeira e continuou preso a suas memórias.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:18 pm

A mesa na sala de jantar estava ricamente decorada.
Uma linda toalha de linho branca a cobria harmoniosamente de ponta a ponta.
Louças finas, copos de cristal e talheres de prata, tudo para duas pessoas.
O requinte final ficou por conta de dois candelabros portando velas brancas delicadamente talhadas em desenhos geométricos e um lindo vaso de rosas amarelas, colocadas no centro da mesa pelas mãos de Vilma.
- Nossa o que temos hoje aqui? - perguntou Carla, curiosa.
- Menina, você se esqueceu?
Faz três anos que o Dr. Nelson a encontrou.
Significa que hoje é o seu aniversário. Parabéns.
Vilma pousou delicadamente o vaso sobre a mesa.
Virou-se para Carla, abraçou-a e beijou-a na face.
Para evitar que as lágrimas caíssem, tornou animada:
- Você está fazendo três anos!
Parabéns, minha menininha.
- Ora, Vilma - retribuiu Carla com um forte abraço -, até que não estou tão velha assim.
Animadas, não perceberam a entrada de Nelson na sala.
Fingindo estar nervoso, pôs as mãos na cintura e bateu com o pé no chão.
- Que confusão é essa aqui?
- Nada. Vilma está me cumprimentando pelo meu aniversário.
- Sei disso. Tanto, que resolvi convidar Santiago e Clotilde para o jantar.
Coloque mais três pratos à mesa.
Gostaria que você se sentasse connosco, Vilma.
Ela corou de prazer.
- Obrigada, Dr. Nelson.
- Ora, ainda gosta de chamar-me de doutor?
Está comigo há tantos anos!
Você é como uma mãe.
- Questão de costume.
Sinto-me bem chamando-o assim.
Se sentir vontade, eu mudo o tratamento.
- Adoro D. Clotilde - interveio Carla, num suspiro.
- Por isso mesmo que a convidei.
Mas saiba que não gosto muito de sua companhia.
Daqui a pouco você vai estar envolvida pelas conversas disparatadas que essa mulher tem sobre espíritos.
Santiago é mais moderado, mas ela é fogo!
- O senhor está equivocado.
Ela é uma mulher humilde, mas muito sábia.
Adoro conversar esses assuntos e muitos outros com ela.
- Bem, hoje gostaria que me poupasse desses assuntos.
Já chega Santiago, um homem estudado, discursar sobre questões espirituais.
Se não o conhecesse há tanto tempo, diria que ele é meio biruta.
- Não seja tão radical.
Santiago me parece ser uma pessoa lúcida e equilibrada.
E um excelente partido.
- Como?!
- Não precisa ficar com ciúme - continuou Carla, terna.
Não sinto atracção por Santiago, pode ficar tranquilo.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:18 pm

Mas que ele é um pedaço, ah, isso sim!
Posso ter tido amnésia, mas não perdi o senso de estética e beleza.
- Ora, vocês, mulheres.
Não podem ver um homem bonito e ficam babando.
- E olhe vocês, homens.
Não podem ver um rabo de saia que se derretem todos.
Continuaram animadamente a conversa.
Prevendo a chegada de Santiago, que tomaria toda a atenção de Carla, Nelson a conduziu até a sala de estar.
Sentando-se confortavelmente no sofá, mudou o tom da conversa.
- Está há três anos comigo.
Para mim já é como uma filha.
- Sei disso. Mas o facto de ter aqueles pesadelos terríveis...
Não gosto de incomodá-lo.
- Você não me incomoda, de jeito algum.
Já lhe disse, os pesadelos estão ligados à amnésia.
São sempre os mesmos, não são?
- Não gostaria de incomodá-lo com esses relatos.
Hoje é dia de festa.
Podemos tocar no assunto numa hora mais propícia.
- Nada disso. Mesmo que já tenha me contado seus sonhos várias vezes, não custa nada contar de novo.
Às vezes, quem sabe, pode surgir um dado novo, uma passagem que você tenha se esquecido.
Vamos, conte-me como eles são.
Carla suspirou.
Deixou-se cair no sofá.
Fechou e abriu os olhos, procurando lembrar os sonhos recorrentes:
- Sempre vejo-me sentada no mesmo lugar.
Logo em seguida, ouço um barulho assustador e depois vejo-me sendo atirada, com violência.
Aí a cena muda, vejo-me num lugar florido, talvez um jardim, não sei ao certo.
- É nessa hora que você vê aquela senhora e o moço?
- Isso. Vejo-me sentada num banco, e cada um está do meu lado.
Tanto ela quanto ele tentam acalmar-me.
Nesse instante sinto uma grande paz e volto a dormir.
- Octávio, é esse nome, não é?
- Isso mesmo. Nunca o vi antes, sei lá se é meu parente.
Ele tem um rosto familiar, mas por mais que me esforce, não me lembro dele.
Sei que se chama Octávio porque assim se apresenta nos sonhos.
- Podem ser fragmentos de acontecimentos de antes da amnésia.
Um médico amigo meu em São Paulo está querendo ajudá-la.
- Farei o que for preciso para recordar-me de tudo.
Virou-se para Nelson, descontraída:
- Será que eu tenho jeito, pai?
Nelson precisou apoiar-se no sofá onde estava sentado.
Caso estivesse em pé, não resistiria.
Sentiu as pernas fraquejarem.
Distendeu a fisionomia para certificar-se do que ouvira.
Não conseguiu impedir que lágrimas de felicidade começassem a molhar seu rosto.
Abriu e fechou a boca, sem conseguir emitir som, tamanha a surpresa e emoção.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:18 pm

Carla prosseguiu, sacudindo os ombros:
- O que foi, pai?
Nelson, ao ouvi-la novamente, voltou da catarse.
Deu um salto do sofá e a abraçou.
- Você não imagina o quanto eu sonhei com esse momento.
Como eu gostaria de ser seu pai!
Carla abraçou o médico e deu-lhe um suave beijo nas faces.
Um brilho emotivo passou pelos olhos de ambos.
Ela falara com tanta naturalidade que não percebera tê-lo chamado de pai.
Sentiu-se bem.
De repente, um medo assaltou-lhe a mente:
- Mas, Dr. Nelson, quer dizer, pai, e se eu me lembrar de repente de tudo?
E se eu tiver um pai?
O senhor promete que continua sendo meu pai também?
- Claro, filha.
Mesmo que você tenha um outro pai por aí, mas...
- Mas o quê?
- Eu não gostaria de perdê-la.
Sabe, tem dias que eu rezo para que você se lembre de tudo.
Mas tem horas que eu oro pedindo o contrário, para você continuar sempre assim.
- O senhor é tão céptico! Anda rezando?
O que está acontecendo?
Passou a acreditar em Deus?
- Qual nada!
Depois que a conheci comecei a orar, sem mais nem menos.
Não rezo para santos, espíritos ou Deus.
Minha concepção é de uma força maior que sustenta o universo.
- Então o senhor reza para a tal força?
- Sim.
- Desse jeito acho que a força pode se confundir, não é mesmo?
Uma hora o senhor quer e outra não? Tem de se decidir.
Rindo, tomou as mãos do médico.
Séria, perguntou:
- Eu gostaria de saber uma coisa:
existe alguma maneira de eu ter consciência de quem sou por completo, sem lapsos de memória?
- Casos como o seu, onde a memória foi bloqueada por um impacto emocional muito forte, requerem paciência.
E talvez, através dos seus pesadelos, poderemos tirar algumas conclusões.
Com relação aos sonhos, eu não sei o que fazer.
Pode ser alguém de seu convívio.
- Mas o bloqueio não impede isso?
- Depende. Os casos são parecidos, mas nunca iguais.
Geralmente as pessoas com amnésia vão relembrando os factos conforme vão tomando contacto com pessoas ou lugares que faziam parte de sua vida antes do ocorrido.
Outras, dependendo do grau de esquecimento, nunca mais se lembram de nada.
Precisamos serenar e aguardar.
Se você tiver parentes, um dia eles chegarão até você.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 8:19 pm

- Às vezes sinto que não vou achá-los.
Se fui encontrada jogada à beira de uma estrada, provavelmente minha família deva residir próximo a esta cidade.
Já se passaram três anos e nada.
- Isso é verdade, bastante tempo.
- Então, pai. Três anos não são três dias.
Não sei o que possa ter acontecido, mas se eu tivesse uma família que me amasse, que se preocupasse comigo, até os jornais ou mesmo a televisão já estariam a minha procura, estampando o meu rosto.
Mas nada.
Virando-se para Nelson, a garota perguntou:
- E aquele detective que o senhor contratou?
Não achou nada?
- Não. Lembra-se daquela foto que tirei de você no Natal, ano retrasado?
- Quando tingi os cabelos?
Com largo sorriso, Nelson considerou:
- Sim, quando você ficou loira como a Brigitte Bardot.
O detective deu busca com a foto na redondeza, foi até o Rio, inclusive a São Paulo, mas em vão.
- Vai ver que a minha família quis se livrar de mim.
- Não diga isso.
- Não sei pai. Ser encontrada machucada daquele jeito...
E se tomei uma surra tão grande que perdi os sentidos?
E se me jogaram no mato, achando que logo eu morreria?
- Você acha mesmo isso?
- Não sei. Não penso muito a respeito, não consigo me lembrar de nada.
O que importa é que tenho um lar.
Tenho você e Vilma.
Adoro o Santiago e me encanto com as conversas de D. Clotilde.
- Se você estivesse se ocupando com outras coisas, não teria tempo para essas futilidades.
Não gostaria de vê-la metida em assuntos de gente ignorante.
Você não me parece ser uma.
- Obrigada pelo elogio, mas não se trata de assunto de gente ignorante.
Santiago anda estudando a vida espiritual e não é ignorante, muito pelo contrário.
Existem livros de autores renomados, pelo mundo afora, que comprovam a existência do mundo invisível.
A maneira como Santiago e D. Clotilde discursam sobre as questões espirituais é sublime.
Tem até aquele caso famoso no hospital.
- Qual caso?
- Aquele da criança com erisipela.
Nenhum médico conseguiu fazer nada.
Foi só a D. Clotilde benzer por uns dias e pronto.
A criança ficou boa.
Como o senhor me explica isso?
Nelson remexeu-se nervosamente no sofá.
- Ora, não sei. A medicina não faz milagres.
Existem muitas doenças a serem curadas.
Estamos todos os dias trabalhando para isso.
Governos e instituições gastam fortunas, enquanto cientistas e pesquisadores dedicados gastam precioso tempo para estudar as doenças e encontrar a cura.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 8:52 pm

- Mas quanto ao caso daquela criança?
- Não foi nada, talvez coincidência.
Nem conseguimos diagnosticar direito e não tivemos tempo de atendê-la melhor.
- Mas que D. Clotilde benzeu e a menina melhorou, disso ninguém tira o mérito.
- Não quero mais falar no assunto.
Estudei anos, dei duro para me formar.
Não queira colocar D. Clotilde no mesmo nível que o meu.
Isso é aviltante.
- Desculpe. Não quis dizer isso.
Não estou desdenhando a classe médica.
Só estou questionando se não existem outras formas de curarmos as doenças.
- O mundo que os meus cinco sentidos percebem é o que vale, ou seja, tudo o que seja palpável.
Procurando tornar a conversa menos ríspida, Nelson tornou:
- A religião às vezes atrapalha a melhora das pessoas.
Não gostaria que você se metesse com assuntos que não vão ajudá-la a crescer.
- Mas aí é onde está o ponto.
D. Clotilde não é ligada a nenhuma religião.
Ela é uma mulher livre.
Fala comigo sobre a realidade espiritual de uma forma que é impossível negá-la.
Sempre que ela me elucida e me explica uma série de indagações, sinto-me muito bem.
- Como assim?
- Toda vez que ela conversa comigo sobre vida após a morte ou sobre mediunidade, terminamos nossas palestras com o peito leve, e com um perfume delicioso que paira suavemente pela sala.
- Você agora também sente cheiro de outro mundo?
- De outro mundo não sei, mas que é delicioso e calmante, isso é.
- Você está indo mais longe do que pensava!
- Não se preocupe comigo - e estapeando levemente as costas do médico, disse em tom amável:
- Mesmo que você negue a espiritualidade e eu a acolha em meu coração como verdadeira, isso não vai tirar a admiração que tenho por você.
- Obrigado, minha filha. Você é geniosa.
Não quero mais argumentar.
Levantando-se do sofá, Nelson abraçou-a com ternura.
- Mesmo havendo divergências, fico muito feliz em ser chamado de pai.
O aniversário é seu, mas o presente foi meu. Obrigado.
Beijou levemente a testa da moça e dirigiu-se ao andar superior da residência.
Carla deixou os últimos detalhes da decoração da mesa aos cuidados de Vilma e, com o peito leve e o coração feliz, foi se arrumar.
O badalo do carrilhão inglês, próximo ao grande hall de entrada da magnífica casa de Nelson, soou oito vezes.
Ao mesmo tempo, o barulho de um veículo estacionando próximo à entrada o pátio central anunciava a chegada dos convidados.
Santiago e Clotilde chegaram no horário marcado, como de costume.
Santiago não se atrasava em compromissos assumidos.
Com seu bom humor, foi cumprimentando Vilma:
- Como vai, minha amiga?
- Dr. Santiago, quanto tempo!
Tanto eu quanto esta casa estávamos sentindo falta de suas risadas bem-humoradas.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 8:53 pm

- Obrigado, Vilma.
O bom humor nos mantém sadios e lúcidos.
Pegando levemente as mãos de Vilma e pousando-as delicadamente em sua face, ele ordenou:
- Sinta a minha pele.
- Como sempre, está bem cuidada.
O que um homem na sua idade faz para ter uma pele tão boa?
- Humor e prazer de viver.
- E uma boa cozinheira - anuiu Clotilde.
Todos caíram em sonora risada.
Carla estava terminando de dar os últimos retoques em seu cabelo quando ouviu as risadas dos convidados.
Deu uma última passada de batom e, olhando-se no espelho da penteadeira, deu uma piscada marota à sua imagem reflectida.
Saiu apressada para recebê-los.
Olhando-a descer as escadas, trajando um lindo vestido curto amarelo colado ao corpo e calçando um par de botas pretas até a altura das coxas, Santiago não conteve a admiração:
- Carla, como você está linda!
Abraçando-o, censurou-o, fazendo cara de brava:
- Comporte-se! Você tem idade para ser meu pai.
- Ora, idade não significa nada quando estamos apaixonados.
- Vá jogar o seu charme para outras bandas, meu querido.
Eu não caio em suas lorotas.
E virando-se amorosamente para Clotilde:
- Como vai, querida?
Estava com saudades de você.
- Eu também. Cuidar desse moleque não me permite o luxo de ter mais tempo para as nossas conversas.
Vilma convidou-os a irem para a sala de jantar.
- Está tudo pronto. A empregada já vai servir.
Portanto, não precisam ficar na sala de estar aguardando.
Podemos jantar agora e assim terão mais tempo para conversar.
Carla colocou-se entre Santiago e Clotilde.
- Se Vilma falou, é uma ordem. Vamos.
Acomodaram-se em seus lugares ao redor da mesa.
Logo depois chegou Nelson.
- Boa noite. Desculpem o atraso.
Santiago fez menção de levantar-se, mas Nelson o impediu com gestos largos:
- Fiquem sentados.
Cumprimentarei cada qual em seu lugar.
- Estão todos muito bem-humorados hoje - afirmou Carla.
- Isso é um óptimo sinal.
Uma casa com alegria e humor impede que energias negativas entrem em seu interior, perturbando seus moradores.
- Lá vem você de novo, Clotilde - objectou Nelson.
Antes que você continue com seu discurso, eu quero que o jantar seja servido.
Vilma, peça para trazerem os pratos.
Fazendo soar uma pequena sineta sobre a mesa, Vilma chamou pela empregada.
Logo os pratos foram servidos e o jantar decorreu alegre.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 8:53 pm

- Vejam só que noite mais agradável!
Como tivemos sorte de ter encontrado você, Carla - afirmou Santiago.
Emocionada, ela declarou:
- É uma noite muito especial para mim. Sinto-me feliz por tê-los a meu lado.
Você, Clotilde, Vilma e papai.
Santiago surpreendeu-se:
- Papai?!
- Sim, papai. Nelson tem sido um verdadeiro pai para mim.
Ele merece ser chamado assim.
Eu me sinto bem com isso e ele gosta.
Por quê? Acha engraçado ou está com ciúme?
- Eu, com ciúme? Você é maluca.
Gostaria que você me chamasse de marido, amante, namorado...
- Isso eu nunca vou permitir - interveio Nelson.
Por maior que seja a nossa amizade, nunca deixarei Carla envolver-se com um mulherengo.
- Só porque ele é um rapaz que leva a vida de uma maneira divertida não quer dizer que não possa ser um excelente marido - redarguiu Clotilde.
- Obrigado pela defesa - respondeu bem-humorado Santiago.
Nelson, irritado com os comentários de Clotilde, perguntou-lhe:
- Por que você tem sempre alguma resposta disparatada na ponta da língua?
Tem resposta para tudo, é impressionante!
- É porque estou sempre observando minhas atitudes e o comportamento das pessoas.
- Ela poderia ser uma excelente terapeuta - disse Carla.
- Não exagere, querida. Eu não estudei para isso.
- Mas a senhora é sábia.
Talvez mais inteligente do que muita gente por aí.
- Sim, isso pode ser.
Mas não se trata exclusivamente de inteligência.
É preciso educar a nossa sensibilidade.
Muitos não dão crédito.
Conhecendo-a e utilizando-a com sabedoria, poderemos ter uma vida melhor.
- Discordo - objectou Nelson.
- E eu concordo - respondeu Santiago.
- Você não vale.
Já foi influenciado pelas ideias de Clotilde.
- Não é bem assim.
Quando a conheci, você sabe que eu já estudava a vida espiritual com meus amigos.
Temos farto material. Clotilde é a luz que chegou para nos ajudar a entender aspectos da mediunidade que não possuem uma comprovação científica, que dependem do apuro da sensibilidade para serem compreendidos.
- Você fala como se fôssemos receptores ou indutores.
Somos um corpo que tem cinco sentidos e pronto.
Clotilde, com suavidade na voz, perguntou-lhe:
- Você já esteve em algum lugar ou já viveu alguma situação que aparentemente nunca tinha vivido antes, mas teve a sensação de já tê-la vivido?
- Sim.
- Quando? O senhor se recorda com precisão?
- Isso aconteceu comigo e Santiago estava junto, inclusive, estávamos conversando no hospital, na época em que conheci Carla.
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 8:53 pm

Quando a vi deitada na cama, semi-inconsciente, algo em mim dizia que eu já a conhecia.
- Essa sensação que teve está ligada ao sexto sentido.
O sentido que capta as energias dos ambientes, das pessoas.
É um órgão que capta as ondas passadas e futuras, dependendo de cada um.
- Mas a ciência não explica isso.
- Não explica, mas reconhece algumas experiências de pesquisadores pelo mundo afora.
Já temos a telepatia, a telecinese, inclusive a parapsicologia que estuda esses casos.
Como duvidar? - perguntou Santiago.
- Ora, estamos falando de energia, mas não de espíritos.
- Perceba - continuou Clotilde para Nelson - que o mundo espiritual existe, mesmo sendo invisível para a maioria de nós.
Há pessoas que têm a capacidade de ver, de ouvir, de sentir os outros planos de vida.
Acaso acha que somente os homens habitam este gigantesco universo?
- Acho que sim. Vamos esperar.
O homem não está indo até a lua?
Se encontrarem alguém por lá, quem sabe, eu mude de ideia.
- Dr. Nelson, o mundo está recheado de dimensões.
Cada espécie vive numa delas.
Nós vivemos aqui na Terra, há outras espécies que vivem em outros planetas, noutros mundos.
Para senti-los ou vê-los precisamos de olhos especiais, que obtemos através do estudo e da devida atenção à nossa sensibilidade.
- Só acredito naquilo que vejo.
- Não quero ser indelicada, mas posso lhe fazer uma pergunta, Dr. Nelson?
- Claro, Clotilde - mexendo os olhos e suspirando, tornou:
- Sei que você vai perguntar de qualquer jeito.
- Sendo médico, acredita em micróbios?
- Mas é lógico.
- O senhor os enxerga a olho nu?
Todos pousaram os talheres, olhando em silêncio para ambos.
Sem jeito, Nelson respondeu:
- Não, precisamos de um microscópio.
Clotilde continuou:
- O facto de não vê-los não quer dizer que não existam, não é?
- Mas isso não tem nada a ver.
- Como não tem papai? - interveio Carla.
Imagine os espíritos como micróbios e a nossa sensibilidade como um microscópio.
- É muita fantasia.
Não queiram me confundir. Odeio religião.
Santiago, participando da conversa, interveio:
- Não estamos falando de religião.
Estamos falando sobre as verdades da vida, sobre os potenciais do espírito, que independem de dogmas ou doutrinas.
Estamos falando sobre perceber o que está ao nosso redor, mas que não podemos enxergar a olho nu.
- Não me convence. Preciso de provas.
O dia que me derem provas, acreditarei.
Para mim, ao morrer tudo se acaba.
Clotilde, com a modulação da voz levemente alterada, tornou:
- Por que você é tão céptico?
Por que tem tanto medo de se envolver com esses assuntos?
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 8:53 pm

Delicadamente, ela pegou nas mãos do médico.
Fechou os olhos por alguns segundos.
Os demais ficaram estáticos.
Santiago e Carla sabiam que algo estava por vir.
Após permanecer alguns segundos com os olhos fechados, Clotilde os abriu e olhou fixamente nos olhos de Nelson.
- Há alguém aqui hoje, participando deste jantar.
Tenho clariaudiência, portanto posso ouvi-lo, mas não posso vê-lo.
É um homem, jovem, e tem uma mensagem para você e Carla.
Um silêncio eterno e carregado de curiosidade pairou no ar.
Vilma olhou assustada para Carla e Santiago.
Nelson suava frio.
Clotilde continuou:
- Não precisam ter medo.
Estou aqui somente como uma mensageira de alguém que se encontra desencarnado e que gosta muito de Carla.
Nelson retirou nervosamente as mãos de Clotilde.
Suspirou profundamente.
Pegou o guardanapo de linho e passou-o pela testa molhada.
- E o que esse homem quer comigo?
- Ele quer agradecê-lo por estar cuidando dela.
Clotilde voltou a fechar os olhos.
Após alguns instantes, virou-se para Carla.
- Ele diz que não pôde compartilhar esta vida aqui ao seu lado, mas que um dia voltará a conviver com você.
Carla, emocionada, balbuciou:
- E quando será isso?
Voltando do transe, Clotilde ajeitou-se na cadeira.
Servindo-se dos pratos a sua frente respondeu, como se nada tivesse acontecido, para espanto de Nelson e Vilma, e para deleite de Santiago:
- Só Deus sabe.
Um lindo jovem, cabelos lisos e volumosos, largas costeletas a cobrir-lhe parte do rosto e descendo em direcção ao queixo, trajando um belíssimo costume xadrez, com a voz que a paixão tornava rouca, sussurrou nos ouvidos da bela moça:
- Você é tudo o que sempre sonhei.
Quer se casar comigo?
A jovem, tomada por forte emoção, mal conseguia suspirar uma palavra.
Abraçando-o com ardor e deixando as lágrimas livremente correrem por seu rosto, respondeu:
- Oh, sempre esperei por este momento.
Você é o amor da minha vida. Serei sempre sua...
Nenhuma palavra mais foi dita.
Beijaram-se com volúpia e prazer, ao som de uma linda melodia. Um grito ecoou pelo estúdio:
- Corta! Excelente. Chega.
Sabia que precisaríamos de uma tomada só.
Mandem editar desse jeito.
Estugando o passo, o homem de gestos largos e postura firme foi até o casal.
Abraçando o rapaz e beijando sua testa, disse:
- Você esteve fantástico, muito bom.
Como me orgulho de você!
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Re: SÓ DEUS SABE - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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