DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:09 pm

Assan está certo:
Joshua aprendeu com Sir Walter a ser um espírito centrado em si mesmo e egoísta.
E essa é uma coisa que Joshua vai ter que desaprender se quiser evoluir.
Essa é uma das razões pela qual ele está aqui.
- Mas, sentado numa poltrona de couro, aquecido por uma lareira, você não reconheceu o inevitável, nem mesmo depois que o inevitável aconteceu, não foi? - perguntou o professor, desviando a atenção de Joshua e Sir Walter para onde ele queria.
Joshua balançou a cabeça:
- Não, ainda.
Suave e timidamente, como se tivesse medo de ser ouvido, um sussurro flutuou pela sala, pousando com a força de uma bomba atómica.
- Nem eu.
Assan e James ficaram de boca aberta:
eles estavam chocados.
O explosivo sussurro veio de Rosa.
Ao contrário de Joshua e Joe, os outros dois não tinham a menor ideia de que a puritana e empertigada Rosa havia sido Mary.
Joshua e Rosa tinham sido amantes.
- A coisa está ficando complicada - riu Assan, depois de se recuperar da surpresa.
James, olhando para Joshua, que segurava a mão de Rosa, só pôde girar os olhos nas órbitas e balançar a cabeça.
- Nenhum de vocês está aqui por acaso.
Há muito mais para ser revelado - comentou o professor.
Mas, antes que a classe tivesse ao menos a chance de reflectir nas palavras de Joe, eles ouviram a secretária anunciar:
- Sir Walter o espera em sua sala agora.
A porta escura de mogno que dava para o escritório de Sir Walter abriu-se.
Meu coração batia mais depressa a cada passo que eu dava.
Eu não sabia o que esperar.
Talvez ele fosse me pegar pelas orelhas e me jogar para fora de lá, me expulsar de volta para a França - narrou Joshua, enquanto a classe via William andando para o meio da enorme sala onde Sir Walter esperava atrás de sua mesa.
Sem erguer os olhos de um amontoado de papéis que lia sobre sua escrivaninha, o tio gesticulou para que o sobrinho se sentasse.
Havia um silêncio desconfortável, enquanto Sir Walter continuava folheando os papéis em sua mesa.
Estava na cara que o velho já tinha lido e relido aquelas páginas.
Eram sobre mim. Ele estava fazendo cena.
Minha única preocupação era se ele sabia sobre Mary - recordou Joshua.
Sir Walter limpou a garganta e pela primeira vez olhou para William, o olhar passando por cima de seus óculos de leitura em meia-lua.
Nem imaginava o que ele estava pensando.
Não dava para adivinhar nada pelo jeito que ele me encarava - lembrou Joshua.
O tio colocou de lado o bloco de papéis.
Ele estava pronto para começar.
O que parecia ser início de um sorriso se formou nos lábios de Sir Walter.
- Devo admitir - começou com certa má vontade - que estou surpreso.
Não esperava por isso.
O velho Eaton confessou que não ficara impressionado com William em seu primeiro encontro com o sobrinho.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:09 pm

- Não achei, da primeira vez que o vi, que era realmente de nós.
Seu pai, afinal, foi um artista meio maluco.
Ele nunca deu a mínima para a família ou para os negócios.
Mas o relatório que estava em frente a ele dizia que William era, na verdade, feito na mesma forma que Sir Walter.
- Você trabalhou duro. Você se aplicou.
Meu pessoal me falou - o tio limpou a garganta, como se estivesse tendo problemas para fazer as palavras saírem - que você faz bem mais do que exige sua função.
Você fez algumas mudanças no modo como trabalhamos.
Aqui diz - bateu de leve sobre o relatório - que você nos economizou tempo e dinheiro com suas ideias.
William endireitou-se na cadeira e conteve um sorriso.
Seu rosto não demonstrava nenhuma emoção.
Ele estava aprendendo.
O tio ergueu uma sobrancelha e sua mão buscou uma gaveta de sua escrivaninha, de onde retirou um pequeno envelope branco.
- Uma amostra de nossa gratidão - murmurou Sir Walter, empurrando o pequeno pacote sobre a mesa, na direcção de William.
- Eu me lembro de apanhar o envelope e ficar imaginando o que era aquilo:
um pequeno bónus para comprar um sobrinho indesejado - comentou Joshua.
William começou a se levantar, mas Sir Walter impacientemente gesticulou para que voltasse a sentar-se.
- Há mais uma coisa.
- Pronto!
De volta para a França - Joshua lembrou de ter pensado.
- Está na hora de conhecer seus primos.
Falei de você para eles, eles sabem quem você é.
Eu, isto é, a família gostaria de ter você para o jantar, em casa, na sexta à noite.
Esteja lá às oito.
O tio levantou-se e estendeu pela primeira vez a mão para o filho de seu irmão.
William ergueu-se e apertou firmemente a mão que lhe fora oferecida.
- A propósito - disse Sir Walter -, continue a usar a identidade de Peyton, pelo menos até sexta-feira.
- Pelo menos até sexta-feira - Joshua, mais de cem anos depois, repetiu as palavras de Sir Walter.
Sexta-feira seria o dia do exame final.
William saiu da sala de Sir Walter como se estivesse flutuando.
Em seu posto, na sala de expedição, ele nem conseguia se lembrar de como chegara ali.
O jovem estava eufórico.
O sonho estava perto de se realizar, os portões da mansão de tijolos vermelhos estavam se abrindo.
- É, bom para ele - considerou James.
Mas, e quanto a Mary?
O professor apontou para o palco, onde a cena mudava de William para Mary.
A jovem de dezanove anos estava em sua cama, na pensão.
Ela tinha saído mais cedo do trabalho, dizendo a seu supervisor que se sentia um pouco indisposta.
Sua menstruação estava quinze dias atrasada e ela estava tendo enjoos terríveis.
Naquela manhã, teve problemas em manter o café dentro do estômago.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:09 pm

- Ela está grávida, não está? - perguntou Assan, já sabendo qual seria a resposta.
Mas não foi o professor nem Joshua quem confirmou seu palpite.
- Sim, eu estava.
Eu não tinha certeza naquele momento, mas já tinha minhas suspeitas - declarou Rosa.
Porém eu me lembro de estar feliz.
Era o filho de William.
Era o começo da realização de meu sonho.
- Dois sonhos que começavam a se realizar naquele dia - resumiu o professor.
O de Mary e o de William.
O palco da vida voltou a mostrar William, trabalhando até mais tarde na sala de expedição.
- Minha cabeça estava a mil.
"Pelo menos até sexta-feira" era uma frase que se repetia em minha mente.
Sexta-feira eu iria encontrar a família.
Se tudo desse certo, eu poderia ser parte dela já no sábado ? contou Joshua à classe.
Os dias, de segunda a sexta-feira, desfilaram diante dos olhos de William.
Ele saiu da fábrica tarde, naquela noite, sabendo que Mary, que levantava cedo pela manhã para seu trabalho de faxineira, estaria dormindo.
Ele tinha que pensar no que fazer com ela.
Ele sabia que ela não combinaria com a nova vida que ele estava planeando para seu futuro.
- Pensei que, quando me tornasse oficialmente um Eaton, eu poderia dispensada, dar-lhe algum dinheiro e pedir-lhe que deixasse a cidade.
Era a coisa mais decente a fazer - admitiu Joshua.
- Ela nunca se adaptaria.
Ela nunca seria aceita.
- Você vai fazei com ela o que pensou que seu tio ia fazer com você:
livrar-se do incómodo - provocou Assan.
Você aprende rápido.
- Correto - suspirou Joshua.
E o pior de tudo é que eu sabia que a amava.
- Mas você não sabia que ela estava grávida de um filho seu - atenuou James.
Joshua balançou a cabeça.
- Ainda não.
- Teria feito alguma diferença? - cutucou Assan.
Antes que Joshua pudesse responder, o professor veio em seu socorro, pedindo à classe que deixasse a história falar por si mesma.
O palco da vida agora mostrava duas imagens.
Uma de Mary e outra de William.
Finalmente, chegou sexta-feira.
William aparece mais uma vez tocando a campainha na frente dos portões de feno do Solai Eaton.
Parte do dinheiro que recebera do tio ele gastou num terno novo, além de uma camisa e sapatos.
Mary estava sozinha em seu quatro.
Uma amiga enfermeira havia confirmado suas suspeitas: ela estava grávida.
Os portões da mansão Eaton abriram-se para William.
O mesmo empregado que o dispensou rudemente seis meses antes providenciou uma carruagem para levá-lo até as portas da mansão de tijolos vermelhos.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:09 pm

Em seu pequeno e abafado quarto na pensão, Mary lia e relia o recado que William deixara para ela:
Desculpe-me não poder ter ido vê-la esta semana.
Estive muito ocupado no trabalho e hoje à noite tenho um compromisso muito importante.
A gente se vê amanhã.
Quando a carruagem chega, outro servo abre as portas da mansão.
William entra.
Era ainda mais luxuosa do que em seus sonhos.
Tapetes persas, sofás e poltronas de couro, pisos e colunas de mármore, brilhantes candelabros de cristal, lampiões de gás iluminando e aquecendo a noite.
Ele descobriria mais tarde que aquilo era só o saguão.
Aquele ambiente era a entrada de ainda mais grandiosidade e opulência além de suas portas.
De volta à pensão, Mary lê e relê o recado seco e lacónico de William.
A chama no lampião de querosene fraqueja, assim como seus sonhos de uma vida com William.
- Ele tem outra - a garota insegura não pára de repetir.
Mas ele vai ter que casar comigo - diz ela a si mesma.
Estou carregando um filho dele.
Um mordomo uniformizado acompanha William do saguão até a biblioteca.
Sentados entre estantes repletas de livros do chão até o tecto, estavam os Eatons.
Sir Walter, mão estendida, andou até ele e pegou-o pelo braço para apresentá-lo a cada um da família.
Mary mal sabe ler e escrever.
Seu vocabulário é limitado.
Curvada sobre uma frágil escrivaninha de madeira gasta e arranhada, ela se esforça para escrever uma carta para William.
- Vou enfiá-la por baixo da porta de seu quarto esta noite.
Ele vai vê-la assim que chegar.
William encontra os primos, os dois jovens que ele viu passando de carruagem pelos portões do Solar Eaton seis meses antes.
Alfred, alto, de cabelos negros, tinha vinte anos de idade e o mesmo nome que o avô.
O aperto de mão é firme, mas seus olhos são cautelosos.
Alfred especula se o primo pode ser um rival nos negócios que ele estava destinado a comandar.
Em seguida, William é apresentado a Walter Júnior, uma versão mais baixa de Alfred, de dezanove anos.
Ele também avalia o recém-descoberto primo, tentando imaginar como esse estranho iria se encaixar na hierarquia Eaton.
Finalmente, William é apresentado à esposa de Sir Walter Helena, uma mulher deselegante, desesperadamente tentando esconder o rosto inchado e envelhecido sob inúmeras camadas de maquiagem.
- Que família! - resmungou Assan.
Mais parece um ninho de cobras.
Querido Billy - a caligrafia de Mary na carta que escrevia parecia-se com os garranchos de uma criança nos primeiros dias da escola.
Eu o amo muito.
Você tem que acreditar em mim.
William é convidado a sentar-se.
Helena, a esposa, começa um interrogatório, querendo saber sobre sua família.
William decide não desmerecer o pai.
Afinal, ele também era um Eaton.
- Meu pai era um artista.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:10 pm

Suas paixões eram a poesia e a pintura.
Ele não tinha nenhuma ambição além disso.
Ele me disse que, como nunca se importou com os negócios da família, seria uma desonra pegar qualquer centavo do dinheiro de seu pai.
William notou um retrato em tamanho natural de seu avô Alfred Eaton pendurado numa das paredes da biblioteca.
Aquilo o inspirou.
Enquanto olhava para o retrato, ele finalizou sua resposta com um floreado:
- Meu pai sempre me dizia:
"A honra é tudo para um Eaton".
William estava mentindo descaradamente.
Seu pai nunca lhe disse nada parecido com aquilo.
Mas a garota obteve o efeito desejado:
Sir Walter solenemente curvou a cabeça, concordando.
? O que meu pai realmente me disse foi que a família era um bando de corsários que só pensavam em dinheiro e que ele nunca quis nada com eles - relembrou Joshua.
De volta à pensão, o palco da vida tornou a mostrar Mary, lidando com sua carta para William.
Sei que você me ama - emoções inocentes fluíam do lápis de Mary.
Sinto isso em seu toque e vejo em seus olhos.
Fomos feitos um para o outro.
Você veio da França para me encontrar aqui.
Rosa conteve o choro ao mesmo tempo em que apertava ainda mais a mão de Joshua.
Todas as lembranças daquela encarnação começaram a voltar.
Ela sabia como aquilo ia acabar.
Enquanto Mary lutava com suas emoções em seu minúsculo quarto, o interrogatório de William continuava agora sob a luz trémula dos candelabros da enorme sala de jantar dos Eatons.
A conversa decorria de forma correta e educada, mas o objectivo era descobrir com exactidão o que queria aquele estranho que tinha o mesmo sobrenome que a rica família.
Sir Walter estava calado, deixando que as perguntas fossem feitas pela mulher e pelos filhos.
Ocasionalmente, ele podia erguer uma sobrancelha ou fazer um comentário, mas na maior parte do tempo ele se recostava na cadeira e observava as reacções do sobrinho.
- Eu sabia o que eles estavam fazendo, e eu estava preparado para aquilo.
Meu pai me contara como a fortuna da família tinha sido construída com trapaças, mentiras e vigarices.
Ele me disse que seu pai, Alfred, enganou seu melhor amigo num negócio que mais tarde viria a se tornar as Indústrias Eaton.
Então, eu entrei no jogo deles:
menti e sorri como um deles - confessou Joshua.
Foi até divertido.
- E por que você veio para cá? - a pergunta era de seu primo Alfred.
William deu a resposta que havia ensaiado diversas vezes em frente ao espelho de seu quarto na pensão.
- Eu não dava a mínima para as artes, como meu pai.
Não consigo desenhar uma linha recta nem usando régua! - brincou, mas ninguém na sala de jantar riu.
Sem pestanejar, William prosseguiu.
Ele sabia que aquilo não seria fácil.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:10 pm

- Durante a infância e a adolescência, eu nunca ouvi falar das Indústrias Eaton e do império construído pela família.
Meu pai raramente falava de vocês.
Apenas a poucos dias de sua morte ele começou a contar de seu lar aqui na Inglaterra.
O silêncio continuava.
Todos os ouvidos estavam sintonizados em cada uma das palavras de William.
- Para ser honesto, eu queria conhecê-los.
Nunca fui muito ligado a meu pai.
Ele era um bom homem, mas nós nunca tivemos muito em comum.
Foi por isso que vim.
Eu queria uma chance de aprender e me colocar à prova.
Acho que tenho mais em comum com este lado da família.
Mary continuava a colocar seus sentimentos por William no papel em frente a ela.
Nós dois temos nossos sonhos.
Você é parte do meu, Billy.
E agora tenho certeza de que fomos feitos um para o outro.
Estou grávida.
Vamos ter um bebé.
Não é maravilhoso?
Rosa desviou o rosto do palco da vida e olhou para Joshua.
- Eu realmente achava aquilo maravilhoso - confessou.
Ele não lhe retornou o olhar, apenas suspirou e olhou para o professor.
Não havia nada a ser dito.
O jantar estava terminando.
A Sra. Eaton, que havia bebido uns copos de vinho a mais, pediu licença e saiu da mesa, deixando ali apenas os homens, que foram para a biblioteca.
- Era lá que meu destino seria decidido - explicou Joshua com mais do que um simples toque de sarcasmo.
A biblioteca era o santuário onde os Eatons tomavam suas grandes decisões.
Eu sei que seremos felizes juntos - proclamavam os garranchos de Mary -, você, eu e o bebé.
É tudo que eu mais quero desde que encontrei você.
Você se preocupa demais com dinheiro.
Não precisa. Podemos ser felizes em qualquer lugar.
Os homens da família Eaton agruparam-se ao redor do calor das labaredas da chama que crepitava na lareira de mármore.
Sir Walter tinha afrouxado a gravata e tirado o paletó.
Assim também fizeram seus dois filhos.
Os três Eatons sentaram-se juntos num enorme sofá.
William, que ainda não era bem um Eaton, sentou exactamente em frente a eles, sozinho em outro sofá tão grande quanto o primeiro.
Ele decidiu não afrouxar a gravata nem tirar o paletó.
- William - começou o mais velho dos Eatons -, você impressionou muito meu gerente geral e a mim mesmo.
Os dois irmãos concordaram, com um aceno de cabeça.
Apesar de não estarem muito contentes de ter mais um Eaton na fábrica, os dois tinham lido os relatórios.
Eles deixariam para lidar com essa rivalidade em potencial mais tarde.
Agora, eles ficariam do lado do pai.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:10 pm

Os dois irmãos aprenderam, há muito tempo, que essa era sempre a melhor política.
- Em duas semanas, vamos dar uma festa aqui no solar.
Você está convidado.
Vamos apresentado a nossos amigos - declarou o tio -, não como William Peyton, mas como William Eaton, o filho de meu irmão.
- Eu estava dentro!
Consegui! - Joshua relatou aos colegas de classe.
Sir Walter falava devagar e calmamente sobre como essa seria uma data importante na vida de William.
Ele seria apresentado à sociedade.
- Quase como uma debutante - chacoteou Walter, seu primo mais novo.
O tio disse a William que ele se mudaria para um dos muitos quartos de hóspedes da mansão na terça-feira.
- Até lá, terá alguns dias para acertar sua vida e um tempo para se preparar para o grande dia.
Alfred vai cuidar para que você tenha roupas e tudo o mais.
Ele vai deixar você por dentro de quem é quem na festa.
Mas fique fora de encrencas, mantenha-se na linha.
Esta família tem uma posição proeminente nesta comunidade.
Somos muito respeitados.
Nem a sombra de um escândalo jamais manchou nosso nome.
William assentiu.
Ele faria o melhor possível para honrar a imagem dos Eatons.
Em frente à luz fraca do lampião cheirando a querosene, Mary terminava sua carta para William.
Estou tão feliz, Billy, por me tornar sua esposa.
Prometo fazê-lo feliz por todos os dias de sua vida.
Com amor,
Mary
A viagem de William de volta para a cidade, numa carruagem dos Eatons, era como se ele estivesse sobre um tapete voador.
Tudo era mágico, tudo era perfeito.
Ele subiu aos saltos os degraus mal conservados da escada que levava à pensão.
- Enfim vou sair deste pulgueiro - cantarolou em voz alta enquanto girava a chave da porta da frente.
Uma vez lá dentro, ele teve que se controlar enquanto subia as escadas estreitas até seu quarto.
- Eu não queria acordar ninguém, muito menos Mary - observou Joshua.
Eu tinha muita coisa para pensar.
- É, rapaz, você não tinha nem ideia de quanto ia ter para pensar - gracejou Assan.
Joshua respondeu ao sorriso do adolescente com um silêncio tumular.
O quarto de William ficava um andar acima do de Mary.
Eles tinham combinado um sinal.
Se ela pendurasse uma toalha na maçaneta de sua porta, era como um convite para que ele entrasse.
Ele viu a toalha na porta e ignorou-a, subindo na ponta dos pés mais um lance de escadas, deixando Mary cada vez mais longe.
- Achei melhor falar com ela mais tarde.
Eu precisava de tempo para imaginar o que iria lhe dizer.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:10 pm

Chegando a seu quarto, ao girar a chave e abrir a fechadura frouxa da porta, William notou um envelope branco e comprido introduzido entre a porta e o batente.
O envelope caiu no chão quando a porta se abriu, obrigando William a curvar-se e recolhê-lo.
Não havia nenhum nome no envelope, mas ele sabia que era para ele.
E ele sabia de quem era.
Quando ele chegou na parte em que dizia P.S.:
Esqueci de mandar abraços e beijos.
Durma bem, sonhe comigo.
Eu o amo muito.
suas mãos estavam tremendo.
William deixou a carta escorregar das mãos.
Ela caiu, flutuando levemente até o solo.
O quarto parecia ter encolhido, sua respiração ficou difícil e pesada.
Ele viu os portões do Solar Eaton fechando-se em sua cara, seu tio e primos rindo do lado de dentro.
Ele se esforçava para respirar.
O quarto frio e apertado parecia sufocado.
Sua cabeça girava, o quarto também.
Ele se viu levando uma vida miserável, trabalhando numa fábrica sem cor, voltando para casa numa rotina sem cor, numa vida miserável.
Ele estava encurralado. Não havia saída.
Sua cabeça girava.
Ele tinha que achar uma saída.
Ele teve uma amostra do mundo dos Eatons.
Ele não ia desistir de tudo aquilo.
- Tem que haver uma maneira - repetia ele sem parar, falando sozinho.
Tem que haver uma maneira.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:11 pm

19 - Uma lição da vida: o show de William e Mary - Parte 3

A classe assistia a William debater-se no pequeno quarto da pensão.
Os olhos dele corriam febrilmente de uma parede para outra, como um coelho aprisionado procurando, desesperadamente, um jeito de escapar.
Sua mente cambaleava como se ele estivesse no meio de uma luta de boxe, com imagens dando golpes contra sua consciência.
O mundo dos Eatons: onde um dia ele poderia ser um príncipe.
O mundo de Mary: onde ele jamais seria nada além de um operário velho e cansado.
O mundo dos Eatons: promessa de glamour, respeito, dinheiro e privilégios.
O mundo de Mary: condenação à pobreza, ao trabalho penoso e ao fracasso.
Ele lia e relia a carta dela.
Sei que você me ama.
Sinto isso em seu toque e vejo em seus olhos.
Fomos feitos um para o outro.
Você veio da França para me encontrar aqui.
- Eu a amava - confessou Joshua a Rosa.
Eu a amava verdade.
Eu a amo - dizia William em voz alta, no palco da vida mas a família nunca vai aceitá-la.
E, se você não for aceita, eu também não serei.
Rosa enxugou uma lágrima que lhe escorria dos olhos e mordeu os lábios.
Tudo que Joshua podia fazer era apertar ainda mais a mão de Rosa na dele, enquanto suas vidas anteriores desfilavam em frente a eles.
Antes de levantar-se às quatro da manhã para começar seu turno na limpeza dos escritórios Eaton, Mary ouviu William subir as escadas passando por seu quarto.
Ela ficou tentada a ir bater na porta do quarto dele, mas tinha certeza de que ele desceria até seu quarto depois que lesse a carta e bateria à sua porta.
Mas não houve nenhuma batida na porta.
De volta ao pequeno quarto no andar de cima, William continuou dizendo a si mesmo que tinha que haver uma saída e, nas primeiras horas da manhã, procurava desesperadamente por ela.
- Não posso me casar com Mary - ele falava para as paredes.
- Isso seria o fim de tudo.
E também não quero nenhuma criança chorona. Muito menos agora.
William procurou uma resposta, mas não encontrou nenhuma.
William procurou inspiração, e foi o que ele recebeu.
- Calma, garoto - disse a si mesmo.
Acalme-se e pense como Sir Walter.
Seja um Eaton; está no seu sangue.
Seja um crápula igual a ele.
Ele respirou fundo.
Sabia que a saída era acalmar-se e pensar como um Eaton.
- O que Sir Walter faria em meu lugar? - repetia continuamente, como uma espécie de mantra.
Joshua, assistindo a tudo pelas lentes do tempo, suspirou.
Com Rosa a seu lado, ele estava envergonhado e queria que William nunca tivesse sido parte dele.
O professor repreendeu-o severamente.
_Tudo que você foi ou fez é o que o trouxe até onde você está boje.
Tudo que se chama de bom ou de mau nada mais é do que um passo para levá-lo aonde tem que ir.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:11 pm

Joshua sacudiu a cabeça bruscamente.
- Eu sei o que vai acontecer.
Eu sei pelo que fui responsável.
- Bom. Se você sabe pelo que foi responsável, já é um começo, não é? - replicou Joe.
De volta ao palco da vida, a classe testemunhava uma transformação.
O olhar febril de um animal encarcerado já não estava mais nos olhos de William.
Seus olhos já não varriam as paredes do quarto procurando um meio de escapar dali; eles estavam calmos e centrados.
Ele já não se debatia no pequeno quarto, mas contemplava e analisava suas opções, calmamente deitado em sua cama.
"Não quero me casar com ela, isso é certo", sua mente lhe dizia.
"Não quero nenhuma droga de filho", veio mais da mesma mente.
"Quero o que é meu", sua mente exigiu.
"E é isso que vou ter", respondeu William quando começou a pensar como seu tio.
Ele daria a ela algum dinheiro, disse a si mesmo.
Ele a mandaria para longe e cuidaria para que ela e o fedelho tivessem como viver.
Mas William sabia que ele não tinha escolha, pelo menos naquele momento.
"Comece pelo começo, Billy, meu rapaz", disse-lhe sua mente.
"O bebé, ele é o xis da questão."
E, pensou William.
Tinha que descobrir se aquilo tudo era verdade, se não era invenção de Mary.
Mas, tão depressa quanto essa ideia veio à sua cabeça, ela foi embora.
"Mary não mentiria", ponderou.
"Ela não conseguiria, ainda mais sobre uma coisa dessas.
Ela é boa demais para isso."
Ele suspirou.
Ele sabia que Mary seria uma boa esposa.
William sabia que eles combinavam perfeitamente.
Mas não agora e não dessa maneira.
Simplesmente não era possível.
O bebé. O bebé.
Se houvesse uma maneira de ficar livre do bebé, ele com certeza poderia ajeitar as coisas com Mary.
William nasceu e cresceu na França, não na puritana Inglaterra.
Ele sabia que havia um jeito.
Ele tinha um amigo que engravidou uma garota e tinha "dado um jeito na situação".
Mas, e Mary?
Com certeza ela queria aquele filho.
William foi até o armário onde guardava suas roupas e abriu a gaveta do meio.
Preso no fundo dela estava o envelope onde ele guardava seu dinheiro.
Somando o que ele havia economizado de seu salário mais o bónus que seu tio lhe dera, ele tinha certeza de que havia o suficiente para as despesas do que pensava em fazer.
"Afinal", disse a si mesmo, "daqui a uma semana, dinheiro não vai ser problema."
O que faltava resolver era o quem, o onde e, claro, Mary.
O dinheiro resolveria os primeiros itens e ele tinha certeza de que conseguiria dar conta de Mary.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 20, 2016 12:12 pm

"Ela é uma menina simples.
Está empolgada com o bebé, porque pensa que pode ficar comigo", confidenciou consigo mesmo.
"Tenho que convencê-la de que pode ficar comigo, mesmo sem o bebé.
Filhos podem vir mais tarde.
Teremos uma porção de crianças", ele se ouvia dizendo a ela.
"Mas precisamos de algum tempo para nós, só para nós dois, meu amor.
Vamos começar a vida."
- Você foi frio e insensível - disse Rosa a Joshua, puxando sua mão para longe da dele.
Como um assassino.
Joshua não disse nenhuma palavra, mesmo porque não havia nada que pudesse dizer.
Ela estava certa.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:17 am

20 - Uma lição da vida: o show de William e Mary - Parte 4

Foi de repente que a ideia surgiu para ele.
William já sabia como resolver o problema do quem, e esse quem o levaria ao onde.
A resposta estava a apenas duas portas de distância, no mesmo corredor de seu quarto.
A resposta se chamava Benny.
Benny era um hóspede antigo da pensão, um homem que vivia no sombrio submundo da pequena cidade. Benny tinha contactos:
mulheres, bebidas, drogas e jogatina. Benny era o sujeito certo para se procurar quando se tinha um problema.
As oito da manhã de sábado, William tomou sua decisão.
Ele bateu na porta de Benny.
? Desculpe se o acordei ? retractou-se com o homem irritado e de ressaca que atendeu à porta -, mas preciso de sua ajuda.
Benny era baixinho, barrigudo e careca.
Quando seu rosto estampava um raro sorriso, ele exibia uma colecção de dentes podres e cariados.
Ele parecia mais velho do que seus quarenta anos.
Boatos corriam de que ele tinha milhares de libras escondidas em algum lugar, mas que vivia na pensão para não chamar a atenção para sua riqueza.
Mas a realidade era bem diferente desses boatos.
Benny estava na miséria e quase todo o seu dinheiro era usado para sustentar seu vício em heroína.
Apesar da ressaca e do horário, Benny deixou William entrar em seu quarto, curioso sobre o favor que aquele jovem de cabelos negros iria lhe pedir.
Benny considerava-se um bom observador da natureza humana e, desde a primeira vez que viu aquele rapazote bonitão, tinha suspeitas de que ele não era o que aparentava ser.
"Esse rapaz está escondendo alguma coisa", Benny lembrou-se de ter pensado.
O delinquente quarentão sentou-se atrás de uma mesinha e fez sinal para que William se sentasse na cadeira em frente a ele.
"Quase igual ao escritório de Sir Walter", brincou William consigo mesmo.
Benny colocou uma garrafa de gim sobre a mesa e ofereceu um copo mal lavado para o visitante, que prontamente recusou a oferta:
- Não bebo.
Benny deu de ombros, encheu seu próprio copo, recostou-se na cadeira e esperou que William começasse a falar.
- Bom... Tenho um amigo com um problema - iniciou William relutantemente.
Benny, que já tinha ouvido esse tipo de história um milhão de vezes, não acreditou nem um segundo nesse tal "amigo", e foi logo dizendo isso a William.
- Pode parar - disse, interrompendo a conversa ensaiada do rapaz.
Se for um amigo, eu falo com ele.
Se for você, eu falo com você.
Tamborilando os dedos sobre a mesa de madeira, ele esperou uma resposta.
- Está certo, sou eu.
Engravidei uma garota e não quero o bebé.
Pode me ajudar? - disparou William, aliviado por ter dito tudo logo de uma vez.
Benny sorriu antes de dar mais uma golada em seu gim.
- Sem problema.
O que você quer? Um aborto?
Ou mamãe e filhinho desaparecendo para sempre?
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:17 am

Você decide.
E acrescentou:
- O dinheiro é seu.
Seja lá o que for, vai custar uma grana.
E, com urna piscadela maliciosa, o homem lançou-lhe um olhar carregado maldade:
- Andou transando com a faxineirinha lá de baixo, não é? Eu sabia!
William sentiu-se desprotegido.
Como aquele malandro sabia sobre ele e Mary?
Eles nunca saíam juntos da pensão e ele sempre se certificava de que suas visitas nocturnas passassem despercebidas.
- Eu percebo tudo - disse Benny sorridente, mostrando os vazios entre os dentes.
É assim que levo a vida.
- Quanto? - perguntou William, desajeitadamente.
- Depende. Vai ser aborto ou mamãe sumindo?
William estava com nojo do homem sentado à sua frente.
- Não sou um assassino - respondeu com altivez.
Benny encolheu os ombros e informou-lhe o preço.
William concordou, com um aceno de cabeça, e o delinquente passou-lhe um papel com um nome, um endereço e um horário.
- Coisa de rotina - disse Benny, com irreverência.
Acontece todo dia.
Assim que William se levantou e se preparou para sair, Benny lançou-lhe uma última pergunta:
- Ela sabe? Está de acordo?
William não respondeu.
Quando já estava abrindo a porta, Benny suspirou e ofereceu:
- Talvez seja melhor considerar o sumiço da mamãe.
São só cenzinho a mais.
Ninguém vai ficar sabendo.
William fingiu não ter escutado.
Ele voltou pata seu quarto e olhou para o relógio.
Mary, em poucas horas, estaria encerrando seu expediente na fábrica.
Ele decidiu deixar um bilhete por baixo de sua porta, assim ela o leria logo que chegasse à pensão.
Minha querida,
estou muito entusiasmado com as novidades.
Não vou trabalhar hoje.
Tire um cochilo, e então poderemos falar sobre nossas vidas.
Baterei em sua porta logo após o jantar.
Fiquei acordado a noite toda, de tão emocionado!
Com amor,
Billy
Depois de deixar o bilhete, William voltou a seu quarto e adormeceu.
"No final, tudo vai dar certo", disse a si mesmo antes de cair no sono.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:17 am

21 - Uma lição da vida: William, Mary e o festival de mentiras

Joshua disse à classe que sua decisão estava tomada.
- Eu estava pronto para iniciar o festival de mentiras - disse, depois de admitir que "o sumiço da mamãe" chegou a passar por sua cabeça.
Teria sido bem mais fácil - reflectiu.
Ele se virou para Rosa.
Ela mal podia conter as lágrimas que brotavam em seus olhos enquanto ouvia a confissão de Joshua.
- Lamento. Muito mesmo.
Mas as mentiras precisam parar, não apenas para meu próprio bem, mas também por você - disse Joshua, em sua débil tentativa de confortada.
- Vou deixar Joshua e Rosa acabarem de contar a história do jeito deles - Joe avisa você, de seu lugar de sempre, no meio do semi-círculo.
- Esta última parte do show de William e Mary é o começo de uma grande revelação.
Logo, Joshua, Rosa, Assan e James vão ver os fios que interligam suas vidas, e também vão ver que não podem romper esses fios.
Os quatro têm muito em comum.
Os fios da vida ligam uns aos outros.
De volta ao palco da vida, William, ao ver Mary chegando à pensão, colocava seu plano em acção.
- Eu queria recebê-la com um enorme sorriso.
Era importante que ela pensasse que eu estava feliz em vê-la - relembrou Joshua, mas acrescentou:
- Essa foi a mentira número um.
Eu estava nervoso e com medo dela.
O rapaz de dezanove anos desceu as escadas e ficou parado em frente à porta de Mary, ostentando, como dissera, um grande sorriso no rosto.
- Eu tinha me preparado.
Ia ser fácil - relatou Joshua aos colegas.
Eu sabia que ela ia cair na minha conversa e fazer o que quer que eu quisesse.
Afinal, ela estava apaixonada por mim.
- Eu a amo tanto - sussurrou William, enquanto envolvia Mary em seus braços.
- Acho que essa foi, provavelmente, a única verdade que eu disse naquele dia - admitiu Joshua, e directamente para Rosa:
- Eu a amava de verdade, você sabe.
- Mas você amava mais a si mesmo - respondeu Rosa tristemente.
Joshua, vendo William e Mary abraçados um ao outro sobre o palco da vida, disse pensativamente:
- E quem não ama?
Os amantes logo deixaram o corredor para entrar no quarto de Mary, fechando e trancando a porta atrás deles.
Ela se livrou de seu casaco e rapidamente começou a desabotoar a camisa de William.
- Ela podia ser uma menina simples, do interior, mas entre quatro paredes Mary era uma selvagem - recordou Joshua ao mesmo tempo em que Rosa corava, desviando rapidamente o olhar do palco da vida.
- Mary, por favor - argumentou William, quando ela correu as mãos por seu peito nu -, precisamos conversar.
- Mais tarde, Billy.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:18 am

Temos nossas vidas inteiras para conversar - disse ela, quase sem fôlego, explorando a ponta da orelha dele com sua língua.
- Jamais consegui resistir a ela - suspirou Joshua.
Rosa, mesmo embaraçada e revoltada, mal pôde conter um sorriso.
Mary rapidamente desabotoou sua própria blusa e agora era William que usava a língua, suave e ternamente roçando-a em seus mamilos túmidos.
- Um pensamento passou pela minha cabeça:
dane-se o mundo, fique com ela - rememorou Joshua.
Quando nos tocávamos, arrepios e tremores percorriam todo o meu corpo.
Éramos tão sintonizados um no outro...
Eu sabia que nunca mais me sentiria assim com qualquer outra pessoa.
- Ele estava certo - confidenciou Joe a você.
Aquela não era a primeira vez que esses dois espíritos se encontravam.
Que bobagem pensar que o universo, e nossas vidas, não passa de uma grande roleta cósmica.
Nada acontece por acaso.
Os amantes se entregaram completamente um ao outro.
O cheiro e o suor dos dois se misturavam.
Eles se abraçaram em beijos longos e apaixonados, e seus dedos exploravam livremente os corpos um do outro, não em uma paixão sôfrega, mas em uma ternura compartilhada, até que William e Mary já não eram mais dois.
Eles se tornaram apenas um; separados e diferentes, mas unidos num todo.
James foi o primeiro a perceber.
- Ei, olhem só para isso - sussurrou, admirado.
Assan, sem tirar os olhos de William e Mary, pensou que James se referia à actuação do casal.
- E, parece até um daqueles filmes franceses - piscou.
Mas James deu-lhe um cutucão nas costelas:
- Não lá... ali - disse, apontando para o outro lado da classe, para Joshua e Rosa.
Joshua não era mais Joshua.
O homem de negócios possessivo e arrogante se fora.
Rosa não era mais Rosa.
A mulher intolerante e snobe se fora.
No lugar deles, estavam duas silhuetas fluorescentes, com uma luz pulsante.
Seus braços estavam erguidos, suas mãos esticadas, e, quando seus dedos se tocavam, faziam crescer ainda mais a intensidade e o brilho da luz ao redor deles.
- São seus perispíritos - disse Joe a James e Assan, que não sabiam para onde olhar:
se para a metamorfose que acontecia diante deles ou para o filme erótico produzido mais de duzentos anos atrás.
- Todos nós temos um perispírito - continuou o professor.
É uma espécie de blindagem que contorna nosso espírito.
- O que está acontecendo? - quis saber James.
- Os véus estão sendo retirados.
Eles estão se lembrando de quem são.
Não precisam mais das imagens que faziam de si mesmos porque as mentiras, os fingimentos e as máscaras estão se desintegrando.
Rosa e Joshua estão retornando ao que sempre foram:
espíritos eternos.
Pela primeira vez desde que se encontraram na escola de Summerland, Joshua e Rosa finalmente começavam a ver os fios que interligavam suas vidas.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:18 am

- Temos uma longa história juntos, mas nunca fomos capazes de fazer isso dar certo - disse o espírito chamado Joshua.
- É verdade.
Alguma coisa sempre estava em nosso caminho - completou o espírito sensível e aflito chamado Rosa.
Os dois espíritos se abraçaram.
Suas vibrações se misturavam harmoniosamente uma à outra.
O mesmo pulsar, as mesmas luzes e cores...
Os dois se mesclavam em perfeita simetria.
Diante deles espocaram rápidos flashes de algumas das muitas vidas em que passaram juntos:
Rosa como Gianna, uma linda e sensual jovem de uma das melhores famílias da Itália.
Joshua como Pietro, um estudante pobre e esforçado.
Eles estavam apaixonados, mas o dinheiro e a posição social os mantinham afastados.
A família de Gianna não queria nada com Pietro; o pai dela ofereceu a ele uma boa quantia em dinheiro para que ele saísse da cidade e "deixasse minha filha em paz, para que ela possa se casar com alguém de seu próprio nível".
Pietro se foi.
O professor demonstrou como aquela encarnação afectou o espírito de Joshua.
- As sementes de uma amarga ambição foram plantadas.
O dinheiro faz de você um deles, o dinheiro faz você ser alguém, o dinheiro lhe dá poder - apontou Joe.
Não há nada de errado com a ambição.
Ela pode ajudar um espírito a progredir, mas também pode transformar um espírito num prisioneiro.
E isso foi exactamente o que aconteceu com Joshua:
ele se tornou prisioneiro de si mesmo.
Outra vida apareceu.
Os dois espíritos eram amantes, separados por um trono, na Inglaterra medieval.
Joshua era um príncipe, forçado a se casar com a filha de uma família rival para o bem de seu reino.
Mas ele amava outra mulher, que era Rosa.
E ele morreu levando consigo para o túmulo essa paixão secreta e nunca realizada.
- Joshua teve oportunidades de aprender como o dinheiro e o poder podem fazer um espírito prisioneiro, do mesmo modo que a pobreza e a privação podem algemar um espírito à miséria - informou o professor, explicando como às vezes a riqueza e a pobreza ensinam a mesma lição.
- Você pode se tornar um prisioneiro de suas ambições, escravizando-se cegamente para realizá-las.
Ou pode ser um prisioneiro de seu sofrimento, sempre jogando a culpa de seu fracasso na pobreza.
Joshua - Joe indicou-o com a cabeça - nunca entendeu que ele próprio, e não as circunstâncias de suas vidas, é que o mantinha longe de Rosa.
Rosa e Joshua abraçavam-se.
Suas vibrações, que combinavam perfeitamente, os envolviam como um envelope iluminado.
Assan e James, testemunhando a perfeição daquela harmonia, sabiam instintivamente que Rosa e Joshua, deste lado do véu, eram feitos um para o outro, mas, quando encarnados, a Terra os mantinha separados.
- Esses espíritos são o que podemos chamar de almas gémeas disse o professor.
Suas vibrações se sintonizam e combinam perfeitamente.
O professor tristemente balançou a cabeça.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:18 am

- A história deles mostra que o amor não é capaz de conquistar tudo, pois nenhum dos dois conseguiu conquistar a si mesmo - concluiu Joe.
Alguma coisa sempre nos atrapalhou - disse Rosa.
O professor definiu as "algumas coisas" que sempre os atrapalharam:
- Ela deixou a família decidir por ela, deixou seu amante decidir por ela e deixou a religião decidir por ela.
E ele deixou que o dinheiro, o poder e a ambição ficassem em seu caminho.
- Nós éramos nossos próprios obstáculos - lamentou Joshua.
- É, mas o que aconteceu? - quis saber Assan.
Foi Joshua quem falou, achando que responderia à pergunta do adolescente.
- Algumas vezes foi o ego; outras, o orgulho.
Mas na maioria das vezes foi o medo de perder o que pensávamos ter.
Deixamos que as circunstâncias nos mantivessem separados.
- Isso tudo nós já sabemos.
Quero saber o que aconteceu ali - Assan apontava para o palco da vida.
O que aconteceu com William e Mary?
James, sentado perto de Assan, balançou a cabeça vigorosamente.
- Não pode nos deixar sem saber o fim da história.
As imagens dos dois amantes, nus e apaixonadamente unidos um ao outro com fervor, na cama do quarto de Mary na pensão, desapareceram.
Outra transformação aconteceu, desta vez não no palco, mas sim no semicírculo.
Lentamente, o perispírito que tinha projectado o espírito conhecido como Joshua agora reflectia a imagem de William e, no lugar de Rosa, quem estava sentada era Mary.
- Os véus se foram.
Eles deixaram a dor no passado - informou Joe.
Eles já não têm nada a esconder, assim como não têm mais nenhum segredo.
Agora, terminar de contar a história era uma missão que cabia a William e Mary.
William, que era Joshua, disse que, depois que fizeram amor, os dois ficaram silenciosamente abraçados um ao outro.
- Eu me lembro de ficar ouvindo a respiração profunda de Mary.
Eu sentia seu coração batendo com o meu - suspirou - como se fossem um só.
Foi maravilhoso - interpôs Mary.
Eu e William, a sós e juntos.
Não dizíamos nem uma palavra um ao outro, porque não era necessário.
Willtam-Joshua olhou demoradamente para Mary-Rosa com uma expressão de remorso.
E confessou:
- Mas eu sabia que precisava continuar meu plano.
Disse a Mary que haviam me oferecido um trabalho melhor em Londres.
Era um emprego de balconista.
Uma mentira, claro.
- Fiquei paralisada. Londres.
Aquilo era emocionante - relembrou Mary.
- Nós nos mudaremos para lá e prometo que nos casaremos e daremos início a nossas vidas juntos.
- Era ainda melhor do que em meus sonhos.
William seria meu e nós três, eu, William e o bebé, viveríamos em Londres - disse Mary, atravessando a névoa que encobria suas memórias.
Assan e James olharam um para o outro e então para William.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:18 am

James falou pelos dois:
- Era o que nós queríamos saber: sobre o bebé.
William franziu a testa.
- Continuei jogando meu jogo.
Primeiro, eu a deixei empolgada com Londres e nosso casamento.
Então, eu disse a ela que ainda não estava preparado para ter um filho.
Minhas palavras exactas foram:
"Teremos muito tempo para isso, anos e anos pela nossa frente".
Esfregando nervosamente as palmas das mãos uma contra a outra, William disse que foi insistente:
- Eu disse a ela, sem rodeios, que eu não queria um bebé.
Assan e James voltaram a atenção para Mary.
- Eu chorei. Argumentei. Implorei.
Então chorei ainda mais.
Tentei convencê-lo, mas não consegui.
Então, como sempre fiz, desisti - suspirou Mary.
Sempre deixei que outros tomassem decisões por mim.
Nem sabia o que era um aborto, mas concordei em fazer um, porque ele queria e eu o amava.
- Lembra-se do que Rosa fez no elevador?
Ela deixou sua fraqueza Para trás.
Ela sempre deixou que outros decidissem por ela - recordou-lhe o professor.
Esse espírito está começando a ver dentro de si mesmo Lembre-se do que um filósofo na Terra disse uma vez:
"Conhece a ti mesmo".
Conhecer a si mesmo é o início de qualquer progresso.
William revelou a Assan e James mais detalhes de seu plano.
- Depois que ela fizesse o aborto, eu a mandaria a Londres com algum dinheiro, "para procurar um lugar para a gente".
Disse que me juntaria a ela em "alguns dias".
Claro que eu não tinha a intenção de vê-la nunca mais.
Eu queria buscar meu lugar entre os Eatons.
Ali era o meu lugar.
Do outro lado da classe, James gritou:
- Quer dizer que você a convenceu a fazer um aborto e ainda disse a ela que lhe daria algum dinheiro para que ela se mudasse para longe, prometendo que estaria com ela em alguns dias?
E esperava que ela acreditasse nisso?
- O pior disso tudo é que eu acreditei - respondeu Mary.
Assan entrou na discussão.
- E, quando você não aparecesse, o que esperava que ela fizesse?
- Que me esquecesse.
Ela veria que canalha eu fui.
Eu esperava que ela me esquecesse e me deixasse em paz.
- E ela fez isso? - inquiriu James.
O jovem lentamente balançou a cabeça, seus cabelos agitando-se de um lado para o outro.
- Estamos nos adiantando demais na história.
- E por que não nos conta toda a história de uma vez?
Havia mais do que uma ponta de hostilidade na voz de Assan, quando disse isso.
- Quero dizer, deixe-nos saber quanto você foi sacana.
"Mais do que você pensa", pensou William, enquanto relatava a Assan e James o que aconteceu na noite em que levou Mary para fazer um aborto.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:18 am

- O tal médico morava na pior parte da cidade.
Nós dois estávamos apavorados, quando batemos na porta do endereço que Benny havia me dado.
Quem atendeu à porta foi uma velha, que, depois de olhar apressadamente para os dois lados da rua, colocou-os para dentro de uma sala de espera.
- Fiquem aqui - ordenou - até que eu venha chamá-los.
Mary lembrou-se de que não conseguia parar de chorar.
- Eu podia não saber o que era um aborto, mas sabia que depois daquela noite eu não estaria mais grávida.
No entanto, eu amava William e estava disposta a fazer qualquer coisa por ele.
Confiava nele e estava certa de que esse seria o começo de nossa nova vida juntos.
- Durante a caminhada da pensão até aquele lugar - declarou William -, eu tinha minhas dúvidas, mas sabia que aquela era a única saída.
Não havia nenhum meio de Sir Walter me aceitar com uma faxineira grávida em minhas mãos.
Tinha que ser assim.
Os minutos naquela suja sala de espera transformaram-se em uma hora.
Os dois amantes quase não se falaram; apenas trocavam sorrisos que serviam para mantê-los com coragem de prosseguir no que estavam fazendo.
- É a coisa certa a se fazer - repetia William de tempos em tempos, em estado hipnótico.
Um velho gordo e careca usando um avental todo sujo apareceu na sala.
Ele tinha um leve mas perceptível hálito de uísque.
Depois de acenar para Mary, foi logo pedindo seu pagamento.
- E comum pagar adiantado.
- Assim que entreguei o dinheiro ao gordo, a velha estava de volta.
Ela levou Mary para outra sala.
Mal tivemos a chance de nos despedir.
O sujeito careca me assegurou que tudo iria correr bem, que ele havia feito isso "mais vezes do que eu podia imaginar", e eu deveria voltar de manhã para levar Mary para casa.
"Deixe que ela passe a noite aqui", ele me ofereceu.
Mas decidi ficar.
Eu dormiria numa das cadeiras da sala de espera - disse William.
Era o mínimo que eu podia fazer.
- E, era o mínimo que ele podia fazer - repetiu Assan para James, imitando o modo como William falava.
William decidiu não responder.
Afinal, o que poderia dizer?
O homem com seu avental sujo saiu da sala, trancando a por onde passou.
Mais uma vez os minutos se arrastaram.
- Eu me lembro de rezar por ela e - William falava sem levantar os olhos do chão - rezar para que ninguém soubesse o que estava acontecendo naquela noite.
- Eles me trataram educadamente - disse Mary.
A velha que era uma espécie de enfermeira, pediu-me que tirasse minhas roupas.
Ela me deu uma camisola.
Depois que me deitei na mesa ela colocou um pedaço dobrado de gaze sobre meu rosto e me pediu para respirar fundo.
Tinha um cheiro adocicado.
Tanto que até fiquei com ânsia de vómito.
Mas continuei aspirando aquilo.
Foi aí que eu apaguei.
William recordou que a porta trancada se abriu. Era a velha.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:19 am

- Tivemos um problema - ela falou depressa, mal olhando para William enquanto corria para fora dali, lançando-se noite adentro.
- Corri para a outra sala, onde vi Mary deitada sobre a mesa, coberta de sangue.
- Ela teve uma hemorragia - gaguejou o careca, seu avental todo manchado de vermelho.
O velho apontou para o chão, onde uma pequena e vermelha bola de carne jazia numa poça de sangue.
- Removi o feto e então ela começou a sangrar.
Não há nada que eu possa fazer.
- Fui até a mesa onde Mary estava.
Apresentava uma palidez acinzentada, o corpo ressequido e esgotado.
Estava morta.
Soluços profundos pareciam estar sendo arrancados do fundo da alma de Mary-Rosa.
Ela se contorcia, tremia e chorava em agonia.
Os véus foram retirados e ela revivia a encarnação.
Ela reviveu seu amor por William.
Ela reviveu as mentiras dele.
Ela reviveu seus sonhos de ter uma família.
Ela reviveu a forma como ele a traiu.
Ela reviveu sua morte.
E, num redemoinho de luz, ela se foi.
Mary-Rosa já não estava ali na sala de aula.
Sua cadeira estava vazia no semi-círculo.
William-Joshua, James e Assan, boquiabertos, olhavam para o professor, buscando uma explicação.
Mas a explicação não veio dele e sim de uma voz que eles imediatamente reconheceram.
- Vou ajudá-la.
Agora tenho minha oportunidade de tratar não apenas do corpo e da mente, mas também de tratar do espírito.
Era o Dr. Bowman.
- Ela vai ficar bem - garantiu a voz.
E então outra voz ecoou na sala de aula.
- Também estou com ela.
Vou ajudá-la a entender.
Vou ajudá-la a perdoar-se.
Vou ensiná-la o que esqueci:
somos responsáveis por nossas próprias vidas.
Vou explicar o que não entendi:
Jesus, o Mestre, desceu à Terra não para julgar, mas para compreender.
A segunda voz pertencia ao pastor Hall.
- Quero ficar com ela - pediu William-Joshua, calmamente.
Não posso abandoná-la mais uma vez.
Quero que isso acabe de uma vez por todas.
- Agora, não - protestou o professor.
Você tem mais alguns véus para serem retirados.
Há mais fios que precisa ver, e, se você realmente quer ajudar, fique por aqui e veja aonde esses fios vão levá-lo.
Afinal - sorriu Joe - sou capaz de apostar que vocês ainda terão mais algumas vidas juntos pela frente.
Relutantemente, William-Joshua decidiu ficar.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:19 am

Assan e James, aliviados por Mary-Rosa estar sendo bem cuidada, insistiram em saber como a história terminava.
- A velha saiu correndo para buscar ajuda - contou William a eles -, mas não ajuda médica.
Ela voltou com Benny.
Como duas crianças ouvindo uma história de ninar, Assan e James devoravam cada palavra.
- Depois, o que aconteceu? - provocou Assan.
- Quando ele viu aquela cena horrível, fez uma piadinha insensível:
"No fim das contas foi o sumiço da mamãe, não foi?"
Ele então pediu por uma "verba extra" para dar um jeito naquela encrenca.
William deu a Benny o dinheiro que estava separado para dar a Mary.
As palavras finais de Benny ficaram guardadas em memória:
- Garoto, você é do tipo que vai depressa demais aonde quer chegar.
E acho que você está escondendo alguma coisa.
O tio Benny vai resolver este problema aqui, mas vai ficar de olho em você.
- Senti calafrios correndo pela espinha quando aquele bandido me disse isso - admitiu William.
- Então... e depois? - pressionou James.
- Benny livrou-se do corpo.
Eu voltei para a pensão e depois me mudei para a mansão Eaton.
- E daí você viveu feliz para sempre, não foi? - Assan estava indignado.
- Algumas semanas depois, fui apresentado à sociedade como um sobrinho sumido de Walter Eaton.
Saiu até no jornal local.
- Como uma debutante - ironizou Assan.
William ignorou Assan, dizendo que Benny leu sobre o novo sobrinho Eaton, fez algumas investigações, somou dois com dois e logo estava entrando em contacto com ele.
- Ele queria dinheiro para ficar de boca fechada sobre Mary e o aborto.
Ele sabia que a menor sombra de um escândalo faria Sir Walter ficar furioso.
- Você deu dinheiro a ele? - interrompeu James.
- Não. Para começar, Sir Walter me mantinha em rédeas curtas.
Trabalhei como escravo e ele me pagava a mesma coisa que pagava a seus próprios filhos:
uma pequena mesada, e era só.
Depois, eu achava que podia enganar Benny.
Afinal eu era um Eaton; nós tínhamos o poder, nós comandávamos a cidade.
- E então? - quis saber Assan.
- Benny percebeu o que eu queria fazer.
Ele foi falar com Sir Walter.
Os dois se conheciam muito bem; eles tiveram alguns negócios juntos, com benefícios mútuos.
Eram parceiros no crime.
- E... ? - pressionou James.
- Meu tio me mandou embora da cidade.
Disse-me que eu era igual ao meu pai, que se casou com uma cantora de cabaré de Paris.
Deu-me algumas centenas de libras e uma passagem de volta para a França.
Disse que, se eu um dia voltasse a pisar na Inglaterra, ele mandaria me prender.
"Eu posso fazer isso", ele vociferou.
"Meu título de Sir foi concedido pelo próprio rei."
- Ele fez com você o que você ia fazer com Mary - apontou Assan.
William não respondeu, apenas fez um aceno com a cabeça.
Agora, cabia ao professor terminar a história.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:19 am

- William voltou pata a França.
Os jornais ingleses informaram que ele saiu da cidade para abrir um escritório das Indústrias Eaton nas colónias da América.
Na França, ele comprou um pequeno bar com o dinheiro que seu tio lhe dera.
Morreu dez anos depois, de embriaguez, solidão e amargura.
O professor notou que James e Assan estavam sorrindo.
Eles achavam que William ganhara o que merecia.
- Não julguem - alertou Joe. - Nenhum de nós é inocente.
E como poderíamos ser, se todos já vivemos antes?
E - acrescentou - há muito mais nessa história do que pode ser visto a olho nu.
Joe atravessou o semicírculo e parou atrás de Assan e James.
Deixou pousar um braço no ombro de cada aluno.
- Os véus estão caindo, as escolhas estão vindo.
Estejam prontos, meninos, para o que vem pela frente.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:19 am

24 - Transformações

O tempo finalmente começa a não significar nada para você.
"Afinal", você diz a si mesmo, "o que significa o tempo quando você começa a descobrir quem você realmente é?"
Você está sentado na plateia e olha para o semi-círculo.
Assan, James e Joshua estão em seus assentos de sempre.
Você está feliz em ver que Rosa está de volta, sentada ao lado de Joshua.
E, claro, o professor também está lá, preparando-se para começar mais uma aula.
Você está sentado na plateia, pensando.
Está ansioso para descobrir quais serão as escolhas de que o professor vem falando.
Você está sentado na plateia e espera pelos fios que ele disse que ainda serão revelados.
Quais são as ligações que unem os quatro alunos?
Você já viu as de Joshua e Rosa.
Mas e Assan e James?
E como é que os quatro estarão ligados entre si?
Você está sentado na plateia e olha para o palco da vida.
Você conhece cada um desses espíritos intimamente e passou a gostar deles como se fossem seus irmãos.
Você está sentado na plateia, notando as transformações.
A indiferença e o ar aborrecido de Joshua se foram, e em seu lugar está a consciência de como esse espírito veio a ser o que é hoje em dia.
- Ele sempre escolheu o caminho mais fácil, o caminho egoísta - Joe interrompe seus pensamentos.
- Ele terá a chance de rompei seu "eu".
Assan ainda é o adolescente convencido e indelicado, e, apesar de tudo por que já passou, a amargura e a revolta ainda fervem dentro de seu espírito.
Mas Assan agora sabe aonde a amargura e a revolta o conduziram.
Esse espírito quer mudar, mas não sabe como.
- Ele também terá sua chance.
Vai ser uma chance para que ele aprenda a se dar - sussurrou Joe.
James está em silêncio em seu lugar.
Ele está confiante e relaxado, pacientemente esperando o que vem a seguir.
Está escrito em seu rosto que ele está pronto para romper a cerca do medo que o paralisou por mais de duzentos anos terrestres.
- Sua escolha será ajudar outro e ajudar a si mesmo - declarou o professor.
Faltava só Rosa. Na última aula, ela fora arrebatada num ataque de histeria, incapaz de encarar uma decisão anteriormente feita.
Ela está de volta e, aparentemente, parece pronta para as escolhas e decisões que vêm pela frente.
Os alunos são os mesmos, mas estão mudados.
Seus espíritos passaram por uma transformação durante este, na falta de palavra melhor, ano lectivo, que foi maior do que você podia imaginar.
Você também mudou.
Você vê como, ainda encarnado na Terra, começou a viver sua vida.
Você começou a compreender como tudo que você faz, diz, pensa e sente gera reacções, que se transformam em laços, que produzem o carma.
Você começa a ver como o carma forma os fios que envolvem sua vida e como só você pode se libertar desses fios.
Muito aconteceu sob o domo de cristal, e você imagina o que vem a seguir.
Você vê o professor.
O menino de doze anos lhe dá um sorriso e, citando um famoso apresentador, lhe diz:
- Você ainda não viu nada!
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:19 am

25 - Uma lição de Joe: os alunos estão prontos para escolher

Joe concorda com você.
Ele vê as mudanças que você viu.
- Mas eles precisam saber que não são mais os mesmos.
Meus alunos têm que perceber que seu futuro depende deles e só deles.
Os raios dourados que vêm do domo aquecem a sala de aula com uma nova intensidade, convidando a classe a esquecer o passado e começar a moldar o futuro.
Joe, aproveitando a deixa da luz, chama a atenção dos alunos.
- Vocês percorreram um longo caminho.
E, enquanto passeia pelo semicírculo, diz a eles:
- É hora de acertar todas as coisas.
Isso - fez uma pausa, com efeito dramático - se estiverem prontos.
O professor decidiu começar com Joshua, e seus passos lentos o levaram para o lado do executivo.
Joe colocou uma mão no ombro dele para fazer uma pergunta simples.
- Você acha que está diferente, de alguma forma, do que quando chegou aqui?
Joshua assentiu e sorriu.
Ele pede por alguns segundos para Pensar no que vai responder.
- Há muito a ser dito - ele admite.
Enquanto Joshua pensava numa resposta, seus colegas de classe fizeram o mesmo.
Eles sabiam que a mesma pergunta logo seria feita a eles.
Assan ergueu uma sobrancelha.
Ele sabia que estava chegando a hora de libertar-se de si mesmo.
James sorriu. Tudo que ele queria dizer ao professor era como ele finalmente estava pronto e empolgado para prosseguir com sua vida.
- Para mim, foi uma mudança infernal - disse o negro a si mesmo.
E Rosa, de volta do hospital de Summerland, silenciosamente moveu a cabeça em afirmação, enquanto um sorriso confiante nascia em seus lábios.
O espírito passou longo tempo sob os cuidados do Dr. Bowman e do pastor Hall, fazendo uma análise crítica de si mesmo.
Agora, tudo que ela queria era um novo começo.
Cada aluno deixou-se levar por seus pensamentos, e, sem saber disso, os pensamentos de Joshua transformaram-se em imagens que se projectavam no palco da vida.
E aquelas imagens se transformaram na resposta à pergunta do professor.
- Bom sinal - observou Joe secretamente para você. - joshua está começando a ver que ele não precisa de palavras; seus pensamentos podem criar.
A classe viu um espírito desesperado, quase obcecado, incapaz de enxergar além de si mesmo.
Uma aura vermelha de egoísmo e orgulho serpenteava ao seu redor.
- Eu era assim, e de certa forma ainda sou - admitiu Joshua.
- Um maníaco dominado pelo ego, vivendo dentro de minhas ilusões, preso dentro de mim.
Ele se virou para Rosa.
Era óbvio que ele queria perguntar alguma coisa para ela, mas ele estava com medo da resposta.
No entanto, também era óbvio que suas próximas palavras não eram endereçadas apenas ao professor, mas a ela, também.
- Eu não ligava para ninguém além de mim. Eu queria poder.
Queria dinheiro.
Minha ambição não tinha limites.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:20 am

Lentamente, no palco da vida, uma nova imagem começou a se formar, os tons vermelhos quentes sendo substituídos por um azul tranquilo.
É assim que eu gostaria de ser - confessou Joshua, olhando para o palco da vida.
E estou consciente de que tenho um longo caminho a percorrer.
Apenas comecei a ver que há mais para nós além das nossas vontades e desejos; há muita estrada pela frente, antes que eu ao menos comece a agir como um espírito que sabe que é parte de algo maior do que nós mesmos.
Mas - ele suspirou - é nessa direcção que quero ir.
Novamente ele olhou para Rosa. Ele titubeou.
As palavras formavam-se em sua mente e ele lutava com seus pensamentos para conseguir proferi-las.
- Você vai se juntar a mim?
Tenho muito o que compensar a você - ele finalmente vomitou as palavras, mantendo a cabeça baixa e evitando o olhar dela.
Rosa sorriu, esticou a mão e levantou o rosto de Joshua, para que pudessem olhar-se nos olhos.
- Nós dois fizemos escolhas.
Talvez tenhamos aprendido com elas - respondeu ela sem responder, acariciando o rosto dele antes de deixar que suas mãos se encontrassem.
As imagens no palco da vida desapareceram e Joshua, olhando o professor bem nos olhos, perguntou:
- Respondi à sua pergunta?
Joe retornou o olhar firme de seu aluno com um sorriso descomprometido.
E voltou as costas para ele por um instante, para se dirigir a Assan.
- Sua vez - disparou.
O adolescente árabe encolheu os ombros e viu um redemoinho de cores violentas e conflituantes formar-se à sua frente.
- Esse sou eu - disse Assan asperamente.
E estou cansado de ser eu mesmo.
Quero mudar.
E, depois de uma curta pausa, ele acrescentou com humildade:
- Você me ajuda?
O professor deu um tapinha no ombro de Assan e atravessou o semi-círculo novamente, dessa vez parando em frente a Rosa.
- Fico feliz em tê-la de volta.
- Nunca pensei que eu diria isso - respondeu o espírito -, mas também estou feliz em voltar.
Sei mais sobre o que eu sou.
Sei - disse, olhando para Joshua - que eu é que tenho que fazer minhas escolhas.
Ninguém é responsável por mim, a não ser eu mesma.
Ela sorriu e, apertando suavemente a mão de Joshua, adiantou-se em dizer ao professor e à classe o que ela tinha aprendido sobre si mesma.
? Deixei que amantes, amigos, pais e maridos decidissem por mim.
Até escolhi uma religião que me dizia como me vestir, o que falar e como pensar.
Agora acabaram-se as desculpas.
É hora de encontrar meu próprio caminho, não importa aonde ele vai me levar.
Ela disse ao professor que não estava preocupada, porque sabia que não há certos e errados; o que existem são simplesmente escolhas.
Sem dizer uma palavra, o professor passeou até James.
- Estou pronto para ir em frente.
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