DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 21, 2016 11:20 am

O negro sorriu e encolheu os ombros, dando a entender ao professor que não sentia que fosse necessário dizer mais nada.
O "estou pronto para ir em frente" era suficiente.
Joe viu Rosa erguer a mão, soltando a de Joshua, para chamar sua atenção.
- Há uma coisa que eu queria dizer.
Joe assentiu.
Rosa voltou o olhar para Joshua, o espírito que muitas vezes antes foi seu amor que nunca se realizou, e num terno sussurro que pôde ser ouvido por toda a rotunda, ela respondeu à pergunta que ele lhe havia feito antes.
E a resposta foi um "sim".
Joe fechou os olhos e sorriu.
Seus alunos estavam prontos.
E, o mais importante, eles sabiam que estavam prontos.
Uma escolha fora feita.
Outras estavam por vir.
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Ave sem Ninho

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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:52 am

26 - Uma escolha da vida: o mestre retorna

As coisas estavam acontecendo rapidamente na sala de aula, e os alunos estavam prontos para o que viria em seguida.
Os raios intensos que desciam do domo se apagaram, sinalizando o que eles pensaram ser o começo de mais um flagrante da vida real.
- Ei! - Assan reclamou, de brincadeira.
Pensei que íamos começar a fazer algumas escolhas, e não assistir a mais um flagrante.
Pensei que já tínhamos acabado com essa parte.
Joe, parado bem em frente ao palco da vida, ergueu as mãos, fingindo estar aborrecido.
- A vida é uma questão de escolhas - respondeu.
E isto não é um flagrante da vida real.
Vocês vão assistir a uma coisa que está acontecendo neste momento lá na Terra.
E uma escolha que será de um de vocês e também é um dos fios que ligam vocês entre si.
A sala de aula escureceu.
O ambiente exalava ansiedade.
Finalmente eles iriam descobrir o que significava aquela história de "fios interligando vocês, uns aos outros".
Como sempre, Joe habilmente preparou o cenário, deixando os alunos sentados na beirada das cadeiras.
De início, nenhuma imagem se formou no palco da vida, e os alunos tinham apenas a voz do professor como guia.
- Sempre há um motivo por trás de toda encarnação.
Às vezes, ele é óbvio: para aprender e subir mais um degrau na escada.
E existem algumas vezes que um espírito volta à Terra em uma missão:
para ajudar outros a dar esse passo à frente.
Mas - alertou o professor - às vezes as razões por trás de uma encarnação não são assim tão evidentes.
Ele relembrou a todos sobre a visita aos "planos inferiores da existência" e de sua resposta para a pergunta de James sobre se os espíritos dos níveis mais baixos podiam encarnar na Terra.
- Expliquei que o universo permite que espíritos ignorantes, atrasados e menos desenvolvidos vivam na Terra, porque é para isso que a Terra serve:
é um lugar onde todos os espíritos podem aprender uns com os outros.
A palavra-chave é permissão - explicou Joe.
Se o universo permite, ele também controla.
Os espíritos se encontram no plano terrestre não por acaso, mas por planeamento.
Mantenham isso em mente enquanto assistem à história a seguir.
Quase imediatamente depois que ele terminou de falar, uma imagem borrada e tremida começou a tomar forma no palco da vida.
- Lembrem-se - avisou Joe, apontando sobre seu ombro.
- Estamos assistindo ao que está acontecendo.
Isto não é um flagrante de uma vida passada.
Esta é a vida como está sendo vivida bem agora, no plano terrestre, nos Estados Unidos da América.
O borrão começou a ganhar nitidez, revelando duzentas pessoas reunidas ao redor de um palanque improvisado ao ar livre.
Era uma noite quente e húmida de verão.
A humidade formava um enorme halo brilhante ao redor dos holofotes que iluminavam uma pequena plataforma erguida no meio de um pasto de gado.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:52 am

A multidão espantava mosquitos e outros insectos, enquanto absorvia cada palavra dita por um orador que se movimentava lentamente sobre o palanque de madeira.
Eles faziam acenos positivos com a cabeça, aplaudiam e batiam os pés, ao mesmo tempo em que as palavras eram despejadas pela boca dele, que se empertigava e vociferava, fazendo contacto visual com cada um dos presentes ao caminhar diante deles.
Apesar de os alunos de Joe ainda não poderem ver o rosto do orador, eles podiam ouvir perfeitamente sua voz sendo lançada pelo ar carregado da noite.
Eles podiam até mesmo bisbilhotar seus pensamentos.
"Aqui está minha gente", dizia o orador a si mesmo, olhando para a multidão de rostos cansados e sem esperança.
"Eu sou um deles.
Saí do meio deles", pensava, enquanto discursava outras palavras.
Palavras que ele sabia que seu público queria ouvir.
A classe viu que seu discurso era eficiente.
As palavras electrizavam e empolgavam o grupo espremido diante do palanque.
- E - acrescentou o professor - esse espírito é definitivamente um deles.
Ele nasceu a cento e cinquenta quilómetros daquele exacto local, na zona rural de outra cidade de Massachusetts.
O pai e o avô dele trabalharam em engenhos, curtumes e pequenas fábricas, que rareavam nas cidades e vilarejos do Estado.
Mas os engenhos sumiram, os curtumes fecharam e as fábricas pararam de funcionar.
Aqueles que ficaram para trás foram ganhando a vida com trabalhos mal pagos.
Frustrados e revoltados, eles se sentiam trapaceados diante da prosperidade de seu país.
Eles queriam respostas.
O professor indicou com um gesto de cabeça o palco da vida, onde o orador gritava essas respostas para a multidão que aplaudia e dava vivas.
Os alunos ainda não conseguiam ver quem era o homem por trás daquelas palavras.
A multidão agrupava-se em volta do palanque, bloqueando-lhes a visão, mas a voz forte e poderosa continuava a soar, exigindo a atenção.
Mas ainda havia mais.
Havia alguma coisa na voz do orador anónimo que os atraía e envolvia.
Cada um deles sentia aquele magnetismo, mas ninguém sabia por quê.
- Eles logo vão ver quem está por trás dessa voz - diz Joe para você.
Alguns dos últimos véus estão para começar a cair.
Joe voltou a atenção para a classe, começando de onde parou, explicando que o orador pensava ter descoberto todas as suas respostas aos dezassete anos de idade.
- Ele descobriu um modo de extravasar sua revolta, seus medos e sua frustração.
E, pelos últimos oito anos, ele compartilha sua amargura com os outros, recrutando-os para sua causa.
Joe observou que o orador de vinte e cinco anos sobre aquele palanque no meio de um pasto queria que homens e mulheres que o ouvissem se juntassem a ele numa revolução que ele achava que iria mudar aquele país para sempre.
A classe ouvia as fervorosas palavras ecoando pela noite de verão.
- Tudo que vocês têm a fazer é olhar à sua volta, e verão que estou certo.
E, finalmente, os alunos viram o rosto de quem dizia aquelas palavras.
James foi o primeiro a reconhecê-lo.
- Meu Deus!
O professor imediatamente colocou um dedo contra seus lábios, apressadamente pedindo a James que não falasse mais nada.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:52 am

Mas uma ligação havia sido feita, e mais delas logo se seguiriam.
Na plataforma de madeira que vibrava, um homem careca suava em sua camisa branca de mangas curtas, enquanto andava de um lado para o outro diante da multidão.
Sua gravata com nó bem-feito balançava de um lado para o outro enquanto ele vomitava suas ideias.
- Vejam a África!
Lá não há nenhum país que viva na era moderna.
Em alguns lugares, eles nem sequer têm rede de esgotos - escarnecia.
Sem o homem branco, o negro está perdido.
A pequena multidão aplaudia.
- Deus fez as raças diferentes.
É destino do homem branco comandar.
Nós fomos responsáveis pelo progresso da civilização na ciência, na medicina, nas artes e na filosofia.
Tudo que precisam fazer é olhar em volta para ver que tenho razão.
O orador ergueu a mão numa saudação nazista.
Os duzentos homens, mulheres e crianças que assistiam ao discurso também ergueram as mãos.
Um coro de "Isso mesmo!" e "Apoiado!" podia ser ouvido, estimulando o homem de camisa branca com mangas curtas a prosseguir.
- A raça branca é geneticamente superior, e é nosso dever mantê-la nessa posição - berrava o homem.
Agora foi a vez de Assan se engasgar.
- Não acredito! - ele exclamou, mas imediatamente recebeu o mesmo gesto da cabeça e do dedo sobre os lábios que pediu a James que ficasse quieto.
- Chega dessa conversa de igualdade de direitos!
E a hora da verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade sobre o plano perfeito de Deus.
O orador despejava sobre a multidão um frenesi quase religioso.
O homem no palanque baixou o tom de voz, buscando intimidade com a plateia.
- E isso cabe a nós. Você, eu e todo homem, mulher ou criança da raça branca, vivos para ver o plano de Deus ser posto em prática.
Agora, foi Joshua quem fez uma ligação.
Mas, ao contrário do que fizeram Assan e James, ele riu.
- Mas justo esse filho da mãe? - disparou.
Nunca poderia imaginar!
Rosa rapidamente desviou o olhar do palco da vida para Joshua.
Vendo a surpresa em seu rosto, ela olhou novamente para o orador.
Finalmente ela o reconheceu.
Ela acrescentou um "Mas que diabo!" à lista de exclamações feitas pelos alunos.
- Chega de cristãos brancos casando com crioulos.
Chega de cristãos brancos casando com judeus.
Temos que manter a raça branca pura.
Temos que permanecer fortes para a luta que virá.
Temos que nos unir e recuperar nosso país - clamava o jovem orador.
- E o senhor Samuel - James não se conteve.
- E Sir Walter - corrigiu Joshua.
- E meu pai - atalhou Assan.
- E meu marido - interpôs Rosa.
- Todos vocês estão certos - disse o professor, fazendo com que todos olhassem novamente para o palco.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:52 am

- Também é meu irmão - murmurou James, sem acreditar.
James e Joshua olharam um para o outro, vendo a si mesmos pela primeira vez como pai e filho.
Rosa sorriu para Assan.
Seu sorriso foi devolvido com um olhar frio e amargo.
Joshua olhou para Assan.
Ele foi recebido com a mesma reacção.
- As ligações estão completas - diz Joe a você.
É hora de ir em frente.
Uma tempestade atingiu a sala de aula.
As correntes de revolta e ódio se misturavam com as correntes de surpresa e descrédito, formando um furacão de emoções.
Momentaneamente congelado no tempo sobre o palco da vida estava o epicentro do furacão: o Sr. Bobby Barnes.
A fotografia mostra-o em pé, posando na beira da plataforma de madeira, a boca aberta e o braço direito apontando para o céu.
Joe decidiu deixar a electricidade do momento perder a força antes de prosseguir.
- Eles têm que se acostumar com a ideia - explicou Joe a você.
Ele pára, de braços cruzados, em frente ao palco da vida, deixando que os alunos vejam, pela primeira vez, como eles estavam unidos um ao outro.
- Afinal, é um belo choque ver pai, irmão, senhor de escravos e torturador, todos em uma só pessoa - disse ele, rindo.
O professor sabia como seus alunos estavam se sentindo.
Eles acabavam de descobrir que compartilhavam um fio de vida com alguém que eles consideravam desprezível e odiável.
Em uma vida, ° espírito chamado Bobby Barnes foi um senhor de escravos que torturou e assassinou James; em outra, o mesmo espírito trapaceou William-Joshua em sua herança; e agora, neste exacto momento no plano terrestre, o mesmo espírito era um pregador do ódio e da revolução.
Sir Walter Eaton, de Hampton, Inglaterra, tornou-se o senhor de escravos Samuel, do Alabama, e agora ele era Bobby Barnes, um líder e conclamador da organização Aryan Nations.
Isso explicava a ligação entre Joshua e James, mas e entre Rosa e Assan?
Como aquele espírito estava ligado a eles?
Assan estava lívido.
Ele jogava sua cabeça do palco da vida para Rosa, e vice-versa.
Cada vez que movimentava a cabeça, seu olhar ficava ainda mais intenso.
- É ele. É o mesmo cara, não é? - insistia ele com Rosa.
Ela respondia seu olhar penetrante com um paciente aceno de cabeça.
- Eu me lembro dele também - ela admitiu - e eu lamento.
- Você podia ter feito alguma coisa - retrucou o adolescente sem nenhuma piedade na voz e sem se importar com as desculpas dela.
- Não havia nada que eu pudesse fazer. Não foi a primeira nem a segunda vez. Você sabe como sou...
Mas a mulher rapidamente corrigiu a si mesma, mudando o "eu sou" para "eu era".
Assan não tinha a menor ideia do que ela quis dizer com "Não foi a primeira nem a segunda vez".
Ele apenas se lembrou de uma vez, quando Rosa e o espírito que estava no palco da vida viveram uma vida juntos, e para ele aquela vez já tinha sido demais.
Agora ele sabia por que, desde o primeiro dia de aula, ele não foi com a cara de Rosa.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:52 am

Ela o tinha rejeitado.
Ela tinha abandonado seu filho.
James, avistando além da imagem pausada de Bobby Barnes/Samuel, olhou nos olhos de Joshua.
- Eu não sabia - disse calmamente.
Joshua ergueu uma sobrancelha e, fazendo um sinal de positivo para James, respondeu:
- Nem eu, mas fico feliz. Eu devia ter ouvido você um pouco mais.
O professor recuou, decidindo não se envolver no debate entre os quatro.
Vamos deixá-los conversar um pouco sobre isso.
Estão nervosos? diz ele a você, vendo que você tenta entender o que está acontecendo.
- Obviamente - você responde ao professor - o homem na Terra, Bobby, era o senhor de escravos. Essa parte é fácil.
Mas você admite que o resto está confuso.
James e Joshua estão unidos, mas não sei como.
Rosa e Assan, também; esse é um grande mistério.
Um enorme sorriso abriu-se na face do jovem professor, e seus olhos iluminaram-se com uma nova ideia.
- Então é por aí que vou começar: com Rosa e Assan.
Preciso desfazer essa bagunça iniciando de algum lugar.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:53 am

27 - Desfazendo a bagunça

Como um juiz separando dois boxeadores ensanguentados, Joe entrou no meio do semicírculo, jogando os braços para o alto e inutilmente tentando encerrar, ou ao menos amenizar, a batalha entre Assan e Rosa.
- Eu a chamei quando estava no hospital - gritou o adolescente.
Tudo que eu queria era ouvir sua voz.
Mas você estava com tanto medo dele - disse Assan, apontando desafiador para a imagem de Bobby Barnes.
O professor, vendo que sua tentativa de parar os ataques de Assan não surtiam efeito, decidiu imitar um gongo.
- BLEM! BLÉM! Fim do assalto!
Ele abriu um sorriso e pediu a Assan que ficasse quieto por um minuto.
- Há uma coisa que quero que vejam.
Assan, com uma expressão amuada, fechou os olhos e sinalizou que aceitava a trégua momentânea.
Ele se deixou afundar em sua cadeira, zangado, olhando para Rosa, esperando pelo que o professor tinha para mostrar.
A sala de aula ainda estava escura, e Bobby Barnes, boca aberta e braço erguido em direcção ao céu, permanecia congelado no tempo sobre o palco da vida.
Quase imperceptivelmente, outra imagem formou-se no palco da vida, alguns centímetros à esquerda de Barnes.
Um homem alto e musculoso apareceu.
Ele tinha uns quarenta anos, estava bronzeado e em forma, e mantinha-se erecto e empertigado.
A postura do sujeito, arrogante, com frios olhos azuis e cabelo cortado rente à cabeça, dava-lhe a aparência de um severo sargento do Exército, apesar de nunca ter servido um só dia entre os militares.
- É ele! - Assan cuspia as palavras.
É o tal que era meu pai.
Rosa suspirou e assentiu.
- Seu nome era Harold. Fui casada com ele.
Assan era nosso filho; seu nome era Steve.
- Eu sei - bufou Assan.
Agora eu me lembro de tudo. Não se lembram?
Todos aqui na classe me viram dançando pelado.
Joe deixou o posto de juiz da luta e agora estava parado em frente às duas imagens em tamanho natural sobre o palco da vida.
- Sir Walter - disse, indicando Bobby Barnes.
- Sir Walter - repetiu, agora indicando Harold, com a cabeça.
E, com um ligeiro sorriso, Joe brincou:
- Esse cara é mesmo rodado - conseguindo provocar risadas até mesmo de Assan, quebrando a tensão que estava dominando a classe.
Joe estalou os dedos, e a imagem do senhor de escravos Samuel materializou-se ao lado de Harold.
Ele deu mais um estalo, e agora era Sir Walter quem aparecia ao lado das outras três imagens.
- Quatro vidas diferentes, quatro encarnações diferentes, e cada uma delas afectou a todos vocês de maneiras que vocês nem sequer imaginam.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:53 am

- Ele foi um canalha em todas as quatro vidas - exclamou Assan.
Ele passou a perna em seu sobrinho para ficar com o dinheiro dele, torturou e linchou um homem inocente, rejeitou o próprio filho e agora - o adolescente apontou para a imagem de Bobby Barnes - está na Terra espalhando seu veneno.
Que sujeito encantador! - concluiu Assan.
O professor sorriu e balançou a cabeça.
Você ainda não compreende, não é mesmo?
Tente ver além da revolta.
E Joe ergueu a mão, interrompendo qualquer resposta de Assan.
Chegou a hora de todos vocês verem o que realmente aconteceu.
Lições que deviam ter sido aprendidas
O professor deixou a pequena plataforma e voltou para o semicírculo, as imagens de Sir Walter, Bobby Barnes e do senhor de escravos Samuel evaporaram-se, deixando apenas a figura de Harold Phillips encarando a classe com seu olhar gélido, no palco da vida.
- Não sei quantas vezes tive que dizer isso - enfatizou Joe, enquanto caminhava a passos largos pela sala de aula - mas nossas vidas não são um desfile de acasos.
A vida não é um jogo de dados, onde o que der, deu.
A Criação é complexa, entrelaçada, onde eventos e pessoas são ligados ao todo.
Uma vida tem muitas consequências, e muitas consequências fazem outra vida.
O professor parou seu passeio para observar a imagem de Harold Phillips.
- Inflexível, intolerante e teimoso...
Esse espirito não mudou muito - compartilha Joe com você.
Sempre existiram e sempre vão existir escolhas.
Sir Walter podia ter acolhido William.
Samuel podia ter tratado James com dignidade e Harold podia ter amado seu filho.
E em breve, como Bobby Barnes, esse espírito terá mais uma chance de escolher.
O professor balançou a cabeça tristemente.
- Ou aprendemos da maneira mais fácil ou aprendemos da maneira mais difícil.
Mas vamos aprender, um dia - medita Joe com você, e imediatamente levanta uma questão para Assan:
- Você lembra por que escolheu aquela encarnação?
O garoto encolheu os ombros, mal-humorado.
- Vamos lá - insistiu Joe, impaciente.
Você quis, ou ao menos disse que queria, aprender o que era ser diferente.
Lembra-se disso?
Mais uma vez, ombros encolhidos.
Mas o professor não desistiu.
- Foi você e ninguém mais quem quis encarnar como um homossexual.
Você escolheu um corpo geneticamente apropriado e também escolheu - o professor apontou para o palco da vida - ele e - indicando Rosa - ela.
- Graças a Harold, Sir Walter, Samuel ou como quer que queira chamar esse espírito, você aprendeu o que o preconceito e a perseguição significam.
- Ele me rejeitou.
Eu era seu filho - retrucou Assan, com raiva.
Isso é errado.
Ele me jogou para fora de casa e colocou minha mãe contra mim.
Joe revirou os olhos e deu de ombros.
- Não existe certo e também não existe errado.
Certo e errado são conceitos da Terra, criados pelos homens para manter a ordem num mundo caótico.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:53 am

E, como uma observação, o professor disse:
- É engraçado como esses certos e errados da Terra podem mudar da noite para o dia, dependendo de quem está fazendo as regras.
Joe pediu a Assan:
- Respire fundo e olhe para aquela vida, não de dentro, onde você é parte dela, mas de fora, para que possa realmente entendê-la.
O que Joe estava pedindo não era fácil, e o professor sabia disso.
Ele pacientemente esperou enquanto Assan se esforçava em passar de actor principal para alguém na plateia, encorajando-o gentilmente.
- Havia uma lição que você pensou que tinha que aprender.
Seu espírito tomou uma decisão.
Joe relembrou a Assan seu desejo de uma encarnação onde ele seria "o escolhido".
- Você era um nobre arrogante, que matou milhares de pessoas porque elas tinham uma religião diferente da sua.
Joe pediu a Assan que reflectisse sobre os anos que passou no Oriente Médio.
- Você se lembra dos dias e noites de estupros, torturas e mortes de que você participou?
Olhos fechados, o adolescente assentiu.
- Você pensou que podia "consertar seu carma" aprendendo o que era ser perseguido.
Certo ou errado, você tomou uma decisão, e desse ponto em diante você ficou atraído por situações, circunstâncias e espíritos que fariam parte da lição que você queria aprender.
O professor fez uma pausa por um momento, tentando encontrar um modo de facilitar a compreensão de seus argumentos.
- Quando alguém quer aprender álgebra, procura escolas que ensinem álgebra, não as que ensinam literatura.
- Você foi atraído para esse espírito - o professor indicou a imagem de Harold - e para esse espírito - sinalizando Rosa - porque eles, com toda a probabilidade, criariam o ambiente no qual a lição que você pensou que precisava aprender podia ser-lhe ensinada.
Você se tornou o filho deles.
Assan lentamente concordou, com um movimento de sua cabeça.
Ele estava começando a compreender.
Mas foi James quem fez uma pergunta:
- Consigo entender a parte de Harold, mas por que Rosa?
Joe adorava as perguntas de James; elas eram um meio de abrir portas.
E, mais uma vez, foi o que aconteceu.
- Pense por um minuto - disse, não apenas respondendo a James, mas também a Assan.
Lembra-se de como, deste lado da vida, nós delineamos nossas encarnações, adaptando ambientes e circunstâncias que nos dariam as lições que precisamos aprender?
Assan foi atraído para um espírito teimoso, obstinado e inflexível - Harold - e a um espírito fraco, passivo - Rosa - que tinha medo de tomar decisões.
Rosa também tinha sua estrada para percorrer.
Ela não aprendeu quando deixou William convencer Mary a um aborto.
Então, Assan entrou em sua vida como uma escolha, e ela ainda assim não aprendeu, quando deixou Harold forçá-la a rejeitar o filho.
Tudo, e eu repito, tudo está interligado.
O universo é simples em sua complexidade.
O professor usou uma palavra para concluir sua resposta: simetria.
- Tudo é perfeito; tudo é equilibrado.
Assan queria se sentir rejeitado; ele teve o que desejou.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:53 am

Rosa teve a chance de escolher:
ficar ao lado do filho ou dar as costas a ele; ela lhe deu as costas.
Agora, nesta escola, ela está começando a ver como, em todas as suas vidas, ela deixou que outros tomassem decisões por ela.
Até agora, Joshua observava silenciosamente o drama entre Assan e Rosa.
Porém ele sabia que ainda havia mais nessa história.
Assim como o professor. Assim como Rosa.
E agora James, com seus olhos arregalados, mostrava que havia compreendido. E também sabia.
O adolescente, vendo que mais uma vez ele era o centro das atenções, sacudiu a cabeça, gritando:
- O que foi, agora?
A imagem de Harold desapareceu e, em seu lugar, surgiu uma imagem de Assan antes de ser Assan e antes de ser Steve.
Era André, o jovem nobre que se juntou à guerra contra o Islão.
O palco da vida mostrava um trecho no ciclo de nascimento e renascimento de Assan.
- É, acho que isso é para mim - a classe ouviu André dizer à sua guia.
Usei minha riqueza e poder para perseguir os outros.
Abusei de tudo que me foi dado.
Agora é hora de aprender como é ter o que é meu sendo tirado de mim.
O jovem árabe sabia agora o que a classe já sabia:
ele foi o bebé abortado de William e Mary.
Ele seria o filho deles, para viver uma vida em que seria privado de privilégio, riqueza e dinheiro, porque seus pais abririam mão de tudo para apostar no amor que tinham um pelo outro.
Mas as escolhas de William e Mary lhe negaram essa vida revelou Joe.
- André-Assan foi atraído para Mary porque ela era um espírito amável e carinhoso.
Ele tinha que sentir como era amar e ser amado.
Ele estava atraído a você, Joshua, porque você era um homem determinado e ambicioso; ele precisava aprender a canalizar sua própria determinação e dinamismo.
André queria aprender com vocês dois e estava atraído para a situação que vocês poderiam criar:
dois amantes contra o mundo, encarando os obstáculos.
- Nós lhe negamos essa chance - confessou Joshua.
- Eu o rejeitei duas vezes - lamentou Rosa.
- O universo fechou o ciclo.
Joe apontava para Rosa.
- Ele veio a você como Steve.
Você teve uma nova chance de escolher, e mais uma vez você preferiu ouvir outra pessoa.
Assan riu com amargura e ironicamente resumiu o que ele pensava ser a história de suas encarnações:
- O mesmo cara me ferrou duas vezes.
Primeiro, sabendo como Sir Walter ia reagir, William convenceu Mary a fazer um aborto.
Depois Sir Walter, como Harold, forçou minha mãe a me rejeitar porque eu era gay.
O professor ergueu a mão para repreender Assan.
- Não culpe Sir Walter pelas escolhas feitas por outros.
E não culpe Harold pelas escolhas que você fez.
Assan, em silêncio, prestou atenção ao que o professor disse a seguir.
- Ao invés de sair da encarnação de Steve em revolta e ódio, você podia ter levado consigo a compreensão de como somos singulares mas ainda assim iguais, como somos iguais e diferentes e como toda vida tem seu valor e significado.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:53 am

Você poderia ter aprendido o que você mesmo se propôs a aprender.
Mas você escolheu um caminho diferente.
Você deixou que a revolta tomasse as decisões por você.
Você deixou que a raiva assumisse o controle, e isso o deixou numa situação na qual, pensando que iria lutar contra a injustiça, você explodiu a si mesmo numa fúria suicida que matou e mutilou centenas.
Joe deu alguns passos pata chegar mais perto de Assan, pousando a mão sobre o ombro do adolescente.
- Assan, você começou a ver além da raiva, mas o certo é fazer isso enquanto se está encarnado.
Neste lado da vida, nós espíritos entendemos o que é o melhor para nós.
Mas, quando estamos na Terra, nós nos perdemos em meio às ilusões físicas e materiais daquele plano.
Bem nesse instante, James fez outra pergunta, e, depois de ouvi-la, Joe mais uma vez estava grato.
- É isso que você fica martelando sobre o porquê de nos lembrarmos de quem somos? - perguntou o negro.
Joe sorriu.
Ainda em pé ao lado de Assan, ele recordou aos alunos que, para começar a lembrar o que somos, temos que esquecer quem somos.
Precisamos nos livrar de nós mesmos.
No palco da vida, as imagens de Sir Walter e do senhor de escravos Samuel reapareceram de repente.
A classe olhou para o professor em busca de uma explicação.
Joe, afastando-se de Assan, voltou ao palco da vida e parou em frente às imagens que representavam as três encarnações do espírito que eles conheciam como Sir Walter e declarou enigmaticamente:
- Para quebrar o ciclo, você primeiro tem que compreender o ciclo, não importa quanto isso possa ser doloroso.
Ainda existem alguns véus para serem retirados e mais decisões a serem tomadas.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:54 am

28 - Chegou a hora do futuro

O palco da vida ficou repleto de novas imagens, uma aparecendo ao lado da outra constantemente.
O professor brincou, dizendo à classe que aquilo começava a se parecer com "um retrato da família Eaton".
Primeiro, e bem na frente, estava Sir Walter, pomposo e próspero.
- Como o cabeça da família, ele usou tudo, qualquer coisa e qualquer um para assegurar sua fortuna e o poder que ela lhe dava.
A esquerda de Sir Walter estava outra figura conhecida. Era William Eaton.
- Ele também estava disposto a usar tudo, qualquer coisa ou qualquer um para conseguir o que ele pensava ser sua cota da fortuna e do poder dos Eatons.
Joshua fechou os olhos.
A lembrança de sua vida, reflectida na imagem de William, era dolorosa.
Quando voltou a abrir os olhos, ele e o resto da classe viram a imagem de Mary parada ao lado de William, com Sir Walter agora ao fundo.
- Ela amava William.
E William a amava de verdade.
O professor andou até onde estavam as imagens.
- Esses dois espíritos tentaram, muitas e muitas vezes, compartilhar uma encarnação.
Mas o amor não conquista tudo, especialmente quando nós mesmos somos um obstáculo.
Um pequeno feto não totalmente formado, suspenso no ar tomou seu lugar entre Mary e William.
- É você - Joe acenou para Assan.
Sua chance de vida foi negada porque William era incapaz de dizer "não" a seus sonhos e Mary era incapaz de dizer "não" a William.
Sentada em frente ao adolescente árabe, Rosa começou a dizer alguma coisa, mas as palavras simplesmente não saíram de sua boca.
Ela apenas olhou para Assan e curvou a cabeça.
Com um movimento da mão do professor, outra imagem apareceu, desta vez à direita de Sir Walter.
- Aquele é Edward Eaton - revelou o professor.
- Meu pai - explicou Joshua - quando fui William.
- Eu - disse James - quando fui Edward.
Sorrindo e balançando a cabeça para o retrato de família apresentado pelo palco da vida, Joe disse aos estudantes que aquilo era ao mesmo tempo irrelevante e relevante.
- Mãe, pai, irmã, irmão, filho ou filha; amigos, amantes ou inimigos.
Que diferença isso faz?
Fomos mães e depois fomos pais.
Nós nos tornamos irmãs, depois irmãos.
Fomos inimigos, depois fomos amigos.
Nossas vidas são círculos dentro de círculos.
Somos um.
James, fitando pensativamente o palco, lembrou-se de si mesmo como Edward Eaton, o pai de William.
- Eu não era um deles.
Meu irmão e meu pai tinham um objectivo, o dinheiro regia suas vidas.
Isso não era para mim. Eu fugi para a França.
Nunca pedi nem um tostão para eles, mas Walter enganou meu filho e o deixou sem sua herança.
Outra imagem de outra encarnação apareceu perto de Edward.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:54 am

Era Aldo, o jornalista italiano que escreveu contra os abusos dos poderosos e ricos na Europa.
James sorriu e lembrou:
"Agora sei onde começou minha revolta contra as classes dominantes."
E, quase imediatamente, James viu a si mesmo tomando seu lugar ao lado da imagem em tamanho real do senhor de escravos Samuel.
O negro, vendo suas identidades passadas alinhadas ao lado de Samuel e Walter Eaton, afirmou, com certa ironia na voz:
- Troquei um tirano por outro.
Ele fez uma pausa, pensou no que dissera e declarou:
- Mas eu sei por quê.
Ergueu uma sobrancelha para Joe, esperando uma confirmação do professor.
Sem demorar um só instante, Joe relatou a James que ele se afastou das responsabilidades para as quais havia nascido:
- Você não deu nenhuma chance a seu pai Alfred ou a seu irmão Walter.
Você não era tão materialista quanto eles.
Você nasceu naquela família para ajudá-los a encontrar o caminho de seu próprio progresso.
Mas você fugiu dessa tarefa.
James assentiu.
Os pensamentos de Joe batiam com os dele.
- Você pensou que era melhor do que eles.
Então você partiu.
Nenhum de nós é melhor ou pior do que qualquer outro.
Estamos apenas em níveis diferentes de consciência.
Como um de nós poderia ser melhor do que qualquer outro, se todos nós vivemos antes?
Todos nós fizemos escolhas que não faríamos de novo agora, todos nós sentimos dor.
Todos nós sentimos raiva.
Todos nós tivemos perdas.
James, que já havia sido Edward e depois Aldo, sorriu para as imagens paradas sobre o palco.
Olhou Joe nos olhos e disse:
- É por isso que eu tinha que aprender humildade com Samuel.
Mas o que ele aprendeu comigo?
O professor deu um passo para perto da imagem do senhor de escravos.
- Está chegando a hora, e você terá que fazer uma escolha - veio a resposta enigmática, mantendo James sob suspense.
Joe deu mais alguns passos em direcção ao rosto sério de Harold Phillips e, em poucas palavras, definiu aquele homem.
- Ele comandava a família pelo medo.
Ele rejeitou um filho porque tinha vergonha dele.
Assan fez uma careta quando apareceram as imagens de Rosa como Deborah, sua mãe e esposa de Harold, e a sua própria imagem como Steve Phillips.
- Mais um retrato de família - reflectiu Assan.
Família dominada pelo mesmo espírito.
Chamá-lo de Sir Walter, Samuel, Harold ou Bobby Barnes não muda coisa alguma: ele é o que sempre foi.
Assan pesarosamente sacudiu a cabeça para o palco da vida, dizendo aos colegas de classe:
- Não acho que nenhum de nós naquele álbum de família aprendeu muita coisa.
Rosa, Mary ou Deborah, minha mãe, ainda tem medo de ser ela mesma.
Ela ainda não sabe lutar pelo que quer.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:54 am

De sua cadeira do outro lado do semicírculo, Rosa, impassível e tranquilamente, perguntou:
- E você, Assan, o que aprendeu?
Uma imagem em tamanho real de Assan, vestido com uniforme de combate, metralhadora em punho, apareceu ao lado de Steve Phillips.
E, imediatamente atrás de Steve, o orgulhoso e arrogante
André, com todo o seu aparato de cavaleiro, materializou-se.
- Não muito, se você der uma olhada em tudo que fiz - confessou Assan, mas, com uma ponta de sarcasmo, voltou-se para Rosa:
- E você? Como você mudou, mamãe?
Em vez de obedecer a ordens de seu amante ou marido, agora você recebe ordens de seu pastor e de sua igreja.
Rosa suspirou.
Não havia, na verdade, nada que ela pudesse dizer, pois ela sabia que Assan estava certo.
- De certa forma - confessou Mary para Assan - eu era como você.
Pensei que tivesse que compensar as coisas, pelo aborto e por ter abandonado você.
Pensei que, vivendo rigidamente sob o que disseram ser a vontade de Deus, eu lavaria meus pecados.
Eu precisava de respostas simples.
E, como eu conhecia minhas fraquezas, preferi escolhas simples, e foi o que tive.
Fui atraída a uma vibração em que as respostas eram preto no branco.
O espírito suspirou e com remorso acrescentou:
- Estou começando a ver que há mais na vida do que preto e branco.
Rosa lançou os olhos demoradamente na escada colorida ainda brilhando atrás do palco da vida.
- Estou começando a compreender que existem diferentes meios de subir aquela escada, mas aqueles degraus nos levarão, no fim das contas, para o mesmo lugar.
Ela não quis finalizar suas confissões, dizendo a Assan que entendia os ressentimentos que ele tinha para com ela.
- Afinal, eu o abandonei duas vezes.
Não porque eu quis, mas porque deixei que me convencessem a fazê-lo.
Assan pensou no que a mulher que já fora sua mãe lhe disse.
Ele olhou de volta para o palco, deixando seu olhar prolongar-se sobre as imagens de Steve, André e Assan.
Finalmente, tudo fazia algum sentido para ele.
- Meu carma é profundo.
Eu destruí vidas. Destruí a mim mesmo.
E vi que minhas acções tiveram consequências que interferiram na vida de outras pessoas.
Ao invés de voltar como uma vítima - arriscou -, talvez eu devesse tentar confortar a dor de alguém.
Como o professor disse, "para fora, ao invés de para dentro".
Assan estava decidido:
ele começaria a "externar" a si mesmo bem ali, naquele instante.
Ele prudentemente saiu da cadeira e andou devagar até a projecção de Steve Phillips.
Parado em frente ao seu próprio passado, ele sacudiu a cabeça e analisou a imagem do garoto de programa louro e bonito.
- Que perda de tempo!
Eu quis aprender como era ser uma vítima.
Bem - encolheu os ombros -, foi exactamente o que aconteceu: eu era um excluído.
Mas o professor está certo: eu me tornei um revoltado.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 22, 2016 10:54 am

E voltei essa revolta contra mim mesmo, odiando o que e quem eu era.
Acabei vendendo meu corpo a estranhos.
Assan novamente sacudiu a cabeça e disse adeus a Steve.
Mais um passo, e ele estava diante de sua imagem como Assan, vestido em trajes de combate.
- Tirei muitas vidas, furiosamente.
Ninguém tem o direito de fazer isso.
Tirei minha própria vida, rejeitando a mim mesmo, mais uma vez.
Precisava de um meio de me vingar.
Com um movimento para sua esquerda, ele agora estava de frente para o feto não nascido, suspenso entre William e Mary.
- Estive representando minha rejeição por muito tempo.
Chegou a hora de deixar isso para trás.
O adolescente voltou as costas para o palco da vida e caminhou até onde estavam Joshua e Rosa.
- É hora de escolher outro caminho.
Como disse o professor, preciso romper com o "eu".
Assan virou a cabeça e curvou-se para falar apenas com Rosa.
- Você me perguntou o que aprendi.
Provavelmente não muito, excepto que a revolta vai me manter onde estou, girando em círculos ao redor de mim mesmo.
Preciso achar um meio de me libertar, e talvez esta seja uma maneira de começar.
Assan curvou-se um pouco mais e abraçou Rosa.
Então, beijou-a na testa.
- Posso não gostar do que você fez, mas, como disse o professor, todos nós vivemos antes.
Quem sou eu para julgar?
Depois, ele estendeu a mão para Joshua.
- De certa forma, sei pelo que você passou.
Não se esqueça: eu o conhecia também - Assan encolheu os ombros, indicando com a cabeça a figura de Sir Walter, atrás dele.
Joshua ficou mudo.
Rosa, com os lábios tremendo, enxugou uma lágrima dos olhos.
Assan deixou o casal e, do meio do semicírculo, mais uma vez fitou o palco da vida, encarando as imagens de Sir Walter, Harold Phillips e Bobby Barnes.
- Sinto pena de você.
Você é o espírito ignorante, egoísta e deformado que nos mandou para uma guerra santa milhares de anos atrás.
Eu o conheço, Sir Walter.
Você é aquele papa mentiroso que nos disse para matar em nome de Cristo.
Você era o Santo Homem enganador que usou nossa fé e nossas crenças para seus próprios interesses.
Assan fez uma pausa diante da figura de Bobby Barnes e acrescentou:
- E você não mudou nada.
Quando Assan estava de volta à sua cadeira, outra imagem apareceu ao lado de Sir Walter.
Era a do papa que incitava cristãos contra os muçulmanos.
O adolescente, de seu lugar, lançou um lamento para os céus.
- Eu tirei vidas.
Tenho que encontrar um meio de dar vida.
Eu odiei. Agora preciso achar um meio de amar.
- Ele terá a chance de escolher - diz Joe a você.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:54 am

E vai ter sua oportunidade. Todos nós temos.
Todos os véus tinham se rompido.
Os alunos finalmente viam os fios que corriam por suas vidas e, ao ver esses fios, eles entendiam que não era o papa, o tio, o senhor de escravos ou o pai que foram os responsáveis por suas decisões.
William escolheu trair Mary, não porque Sir Walter o forçou; ele o fez porque queria ser como Sir Walter.
Rosa, como Mary, fez um aborto porque tinha medo de perder William.
Ela, como Deborah, rejeitou o filho porque temia o marido.
E, como Rosa, ela deixou sua igreja, sua religião e seu pastor controlarem sua vida porque, como sempre, queria que os outros decidissem por ela.
James, como Edward, fugiu da vida para a qual havia nascido.
Em sua vida seguinte, ele se transformou num jornalista "arrogantemente superior".
Em outra encarnação, foi surrado, humilhado e assassinado pelo mesmo espírito que fora o irmão de quem ele havia fugido antes.
E, finalmente, lá estava Assan.
Em uma vida ele usou a posição em que nasceu para se tornar parte de uma cruzada assassina, pilhando e estuprando gente de outra cultura, apenas porque eram diferentes dele.
Ele pensou que podia equilibrar o carma que havia criado apenas encarnando numa vida onde o privilégio lhe fosse negado.
Depois, ele pensou que podia lidar com o carma sentindo como era ser perseguido.
Ele estava começando a ver que o carma vai além do "eu" que existe em todos nós.
Indo contra os conselhos de sua guia, ele encarnou numa vibração que o levou para outra guerra santa, onde ele matou não apenas outros pessoas, mas também a si mesmo.
Cada um dos alunos tomou suas próprias decisões, e cada um deles era responsável por elas.
No palco da vida, as imagens se dissolveram no vazio.
Sir Walter se foi, Samuel se foi, o papa e Bobby Barnes desapareceram.
Eles já não eram mais necessários.
O palco da vida estava livre do passado e vazio do presente.
- E é assim que deve ser. Vazio. Nada.
Hora de começar de novo, sabendo o que vocês sabem, usando tudo que aprenderam.
Chegou a hora do futuro.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:55 am

29 - Uma escolha: Joshua e Rosa

O fortes e claros raios de sol de Summerland banhavam quase todo centímetro da sala de aula circular com um confortável calor.
As aulas acabaram.
Algumas coisas haviam sido aprendidas, outras teriam de esperar por outro lugar e outra hora.
A classe aprendeu como seu passado se transforma no presente e eles sabiam que era a hora de construir seus futuros.
Eles estavam prontos.
Eles estavam ansiosos.
Enquanto se inquietavam em suas cadeiras, até mesmo Joe estava imaginando quais seriam suas reacções.
- Em alguns instantes, seus guias estarão aqui, para oferecer opções - revela Joe a você.
Eles podem aceitá-las ou não.
Eles podem sugerir alternativas.
Eles serão aconselhados, mas as decisões serão deles.
Depois que um espírito chega a certo estágio da evolução, você não pode forçá-lo a fazer uma escolha.
Você esteve sentado em seu lugar na plateia e acompanhou suas histórias desde o primeiro dia de aula.
De certa forma, suas histórias agora também são parte de sua vida.
Como Assan iria lidar com seu carma?
Afinal, ele foi um homem-bomba.
Ele destruiu vidas. Ele destruiu sua própria vida.
Que tipo de escolha ele faria?
Você olhou para Rosa e Joshua.
Como eles iriam lidar com um amor frustrado que sobreviveu encarnação após encarnação?
A próxima vida deles seria diferente?
Seus olhos pousaram em James.
Como seu futuro seria construído, como disse o professor, a partir de seu presente?
Aquelas e outras perguntas giravam em sua cabeça e alguma coisa que Joe disse há alguns instantes aguçava sua curiosidade.
- Você disse que, quando chegamos a certo estágio de desenvolvimento, não podemos ser forçados a fazer uma escolha.
Então existem ocasiões em que as encarnações são forçadas? - pergunta a ele, em pensamento.
O professor balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Acho que eu não soube usar bem as palavras.
As coisas não são empurradas goela abaixo.
Mas nos estágios iniciais, quando nossa habilidade de usar o livre-arbítrio ainda não se desenvolveu, nossos guias podem nos traçar um caminho.
Joe estava prestes a começar a falar com a classe, mas acrescentou mais um pensamento numa mensagem exclusiva para você.
- Ah, sim, existem outras ocasiões em que espíritos podem ser induzidos a situações.
Isso pode acontecer quando um espírito é tão teimoso e cabeçudo que se recusa a ir em frente.
Normalmente eles recebem um impulso na direcção certa.
Mas, geralmente, o universo é paciente.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:55 am

Acho que você já deve ter visto que esse negócio que chamamos de tempo não existe, não de verdade.
De repente, você percebe que há mais espíritos na sala de aula, além do professor e dos alunos.
- É o dia da formatura - brincou Joe, em sua comunicação secreta com você, ao notar que os guias estavam chegando.
Acho que estamos prontos, agora.
- Espere um segundo - você insiste, tentando conseguir mais uma resposta.
Se somos nós que delineamos nossas próprias encarnações, o que nos impede de escolher logo uma saída mais fácil?
Joe riu, mas teve que admitir que era uma boa pergunta.
- Quando estamos no plano espiritual, sabemos do que precisamos, e é aí que tomamos nossas decisões.
Quando estamos em espírito, entendemos as ilusões do mundo físico.
É por isso que estou sempre dizendo...
Mas você finaliza a frase para ele:
- Temos de nos lembrar quem somos, porque, quando sabemos quem realmente somos, não precisamos de mais nada.
Um sorriso largo se abriu no rosto do professor.
- Você aprendeu alguma coisa.
Agora, vamos ver - disse, referindo-se aos quatro alunos - o que eles aprenderam.
- Parece que chegamos ao fim de nossa jornada juntos - disse Joe, voltando-se para a classe, depois de certificar-se de que você não tinha mais perguntas.
E, para se ter uma ideia de quanto tempo isso levou, foram quase trinta e cinco anos terrestres que se passaram desde que começamos.
Como sempre, Assan fez uma piadinha.
- O tempo voa quando a gente está se divertindo.
Todos na classe riram, mas isso não deixou os alunos mais relaxados.
Eles todos sabiam que a hora de escolher havia chegado.
- Durante esses anos, falamos muito sobre escolha.
Em breve, teremos algumas a serem feitas.
Falamos sobre livre-arbítrio.
Logo, vocês vão usá-lo.
Falamos sobre nos lembrarmos de quem realmente somos.
Em breve, vocês terão a chance de estar em contacto com seus verdadeiros "eus".
Os alunos de Joe absorviam cada palavra, sem tirar os olhos do professor, enquanto ele caminhava para a frente e para trás pela sala, fazendo o que seria seu último discurso.
Joe andou até a plataforma circular chamada de palco da vida.
Ele estava, como no dia em que as aulas começaram, suspenso alguns metros no ar, exibindo sua luz branca fluorescente.
O professor sentou-se na beirada do palco, com os pés balançando a alguns centímetros do chão.
- O círculo dentro do círculo.
Aqui, vocês assistiram a algumas de suas vidas passadas.
Vocês passaram a conhecer as ligações entre vocês e, espero, passaram a compreender como nós podemos nos enganar e nos cegar.
Saindo do palco da vida, o professor deu uma volta pela escada brilhante.
Depois de brincar com as mãos sob suas cores e tons por alguns instantes, ele lembrou a seus alunos o que eles aprenderam sobre os diferentes planos de existência e como cada espírito evolui em seu próprio tempo e à sua própria maneira.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:55 am

- Do branco - disse Joe, referindo-se ao primeiro degrau, - para o branco - apontando para o último patamar, que se encostava no alto do domo de cristal.
Fomos criados e retornamos ao Criador, aprendendo, crescendo e evoluindo.
Ele lembrou à classe que eles estavam num degrau chamado Summerland, onde começa o despertar espiritual.
- Dêem uma boa olhada na estrada que têm pela frente.
A rapidez com que vão subir os próximos degraus depende apenas de vocês.
No próximo degrau, vocês vão encontrar um plano onde existem espíritos que ajudam os outros a encontrar seus caminhos.
Não é um plano físico como aqueles a que estamos habituados.
E um plano mental.
Às vezes, espíritos deste plano até podem encarnar na Terra, não para aprender, mas para ensinar.
O sétimo degrau é onde eu estou.
Dominamos a separação de nós mesmos, porque finalmente nos lembramos de quem somos.
Na Terra, há um nome para esse degrau.
Ele se chama Sétimo Céu.
Então Joe chamou Rosa e, com uma risada, disse que tinha uma última pergunta para ela, "em homenagem aos velhos tempos".
- Lembra-se de que Jesus falou sobre as muitas moradas que havia na casa de seu Pai?
É disso que estava falando - o professor fez um gesto com o braço, abrangendo toda a escada.
Há vibrações infinitas, ou planos de existência, pelos quais viajamos até chegar em casa.
A escada tremeluziu e então desapareceu.
Ela não era mais necessária.
Seu brilho estava gravado para sempre dentro de cada um dos alunos.
O professor fez o caminho de volta até o semicírculo, parando em frente a Joshua.
- Você foi enganado pela ambição e pelo ego, que fizeram com que seu espírito não pudesse ver além dos limites de si mesmo.
Joe girou um pouco para a direita a fim de ficar ao lado de Rosa.
- Alguns de vocês foram aprisionados pelo medo e pela indecisão, ficando gratos quando outros tomavam decisões vitais por vocês.
Quando um espírito desiste de seu livre-arbítrio, ele desiste de sua capacidade de crescer.
O professor atravessou o semicírculo e encarou Assan.
- Você se afundou na revolta, espalhando medo e ódio.
Outros - disse, olhando para James - foram vítimas do ódio e se deixaram paralisar pelo medo desse ódio.
Joe voltou ao centro do semicírculo, o lugar de onde ele, há mais de trinta anos, deu as boas-vindas a seus alunos.
- Vocês todos deixaram que as ilusões da Terra controlassem suas vidas, uma vez ou outra.
Vocês viram o que aconteceu no palco da vida.
É hora de aprender com essas ilusões; usá-las, ao invés de deixar que elas os usem.
É para isso que existe a vida.
Joshua, Rosa, Assan e James assentiram.
Assam lembrou-se de como ele avaliou os colegas no primeiro dia de aula.
Decidiu compartilhar aquelas suas primeiras impressões com eles:
- Olhei para você, James, e pensei que você estava cansado e esgotado.
Senti que tinha medo de alguma coisa.
James assentiu:
- Você estava certo.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:55 am

Eu estava cansado.
Estava com medo de seguir adiante.
O medo me mantinha parado.
Mas Assan não havia acabado.
- Eu também, meu amigo.
Eu estava cansado, mas não percebia isso.
Estava cansado de viver no ciclo de revolta que construí ao meu redor.
Você, James - admitiu, estendendo a mão ao companheiro - me ajudou a ver além desse ciclo.
Você tem muito mais coragem do que imagina.
Assan olhou para Rosa.
Um sorriso travesso abriu-se em seu rosto.
- No início, eu não sabia que você tinha sido minha mãe duas vezes.
Achei que você estava com prisão de ventre - gracejou.
Pensei: "Ela está tensa como a corda de um violino".
Rosa devolveu-lhe o sorriso com outro.
- Você estava para lá de certo.
Eu me envolvi em Jesus e no que eu pensava que Jesus queria.
Eu me envolvi de tal modo que não precisava pensar.
Eu louvava Deus, mas minhas palavras eram vazias, porque eu não tinha a menor ideia do que eu estava falando.
Dessa vez, Assan não fez nenhuma piada ou comentário jocoso.
Ao invés disso, o que Rosa ouviu foi uma manifestação de arrependimento:
- Sei como é isso.
Não se esqueça de que eu matei em nome d'Ele.
Eu matei em nome de Alá.
E, com um suspiro, o adolescente acrescentou:
- Sei que preciso consertar as coisas.
Quero fazer tudo correctamente.
Se ao menos eu pudesse achar um jeito de começar...
O silêncio preencheu a sala, enquanto todos meditavam sobre as palavras de Assan.
O que ele disse se aplicava a todos eles:
"Se ao menos eu pudesse achar um jeito de começar".
O silêncio reflexivo foi quebrado por Joshua, que gritou através do semicírculo para Assan:
- Ei, e sobre mim?
O que sua análise inicial detectou sobre mim?
- Esse cara é cheio de si - retrucou Assan.
Achei você um babaca empolado.
- Você estava certo.
Eu era - concordou Joshua, com sinceridade.
O professor, os alunos e seus guias sorriram, abrindo caminho para o trabalho que tinham por fazer.
Joe perguntou à classe se havia alguém ali que não queria reencarnar.
- Nada os obriga.
O professor estudou os quatro rostos diante dele.
- Sem problemas - salientou.
Não vai aparecer ninguém no meio da noite arrastando vocês para dentro de um caminhão e forçando sua volta para a Terra.
Vocês só vão se quiserem ir.
Uma mão se ergueu.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:55 am

Logo em seguida, outra mão estava no ar.
Elas pertenciam a Joshua e Rosa.
- Queríamos dizer uma coisa - falou Joshua, com firmeza.
- Rosa e eu tomamos uma decisão.
O professor olhou para os guias do casal, parados atrás deles.
Tanto o guia de Joshua, um espírito chamado Pedro, como a de Rosa, um espírito chamado Marta, encolheram os ombros.
Estava claro que eles não iriam interferir na decisão dos dois.
- Vocês querem reencarnar juntos para tentar mais uma vez? - adivinhou Joe, sabendo qual seria a resposta.
- Alguma coisa nos diz que deveríamos.
Foi Rosa quem respondeu, explicando que nenhum deles sentia que podia ir adiante se eles não fizessem as coisas darem certo entre eles.
- Você disse, mais de uma vez, que não existem coincidências - argumentou Joshua.
Nós vimos nossas vidas.
Sabemos quantas vezes tudo concorreu para que ficássemos juntos.
O professor concordou.
Seus guias, atrás deles, assentiram com um movimento de cabeça.
- Mas não é só isso - salientou Joshua.
Queremos trocar.
Mais uma vez, os guias deram de ombros.
Eles não tinham a menor ideia do que se tratava essa troca.
E, dessa vez, até mesmo Joe ficou surpreso.
- Eu sempre fui egoísta, um canalha egocêntrico.
Fui frio e sem sentimentos - confessou Joshua.
Preciso desenvolver ternura e compaixão.
O professor sinalizou em concordância e mostrou que esperava ouvir mais.
- Eu sempre fui indecisa, fraca, dependente.
Quero mudar isso.
Preciso aprender como é ser responsável.
Preciso me auto-afirmar - sugeriu Rosa.
Joe e todos os presentes perceberam qual era a troca sugerida.
Esses dois espíritos, Joshua e Rosa, queriam tentar outra vida como marido e mulher, só que Joshua não seria o marido e Rosa não seria a mulher.
Eles iriam trocar de papéis.
- Uau! - murmurou Assan do outro lado do semicírculo, e Joe imediatamente fez um gesto para que se calasse.
Marta, a guia de Rosa, disse que havia certa lógica na decisão de Joshua:
- Existem diferenças biológicas, químicas e emocionais entre os sexos na Terra.
Eles foram projectados assim.
As mulheres são geralmente mais dóceis, carinhosas e sensíveis.
Os homens são geralmente mais agressivos, dominantes e impulsivos.
Os espíritos podem escolher o corpo físico mais adequado à experiência que será aprendida.
O professor riu e balançou a cabeça, querendo ter certeza de que nada estivesse mal explicado.
- Marta não quis parecer preconceituosa e sexista.
As coisas estão mudando.
Espíritos encarnam e reencarnam na Terra em tantas circunstâncias e situações, que já desenvolveram atributos masculinos e femininos.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:56 am

As diferenças entre homens e mulheres estão cada vez menos nítidas.
E assim que deve ser, quando os espíritos se desenvolvem e evoluem.
- E é por isso que precisamos ser cuidadosos sobre onde eles encarnam - observou Pedro, o guia de Joshua.
Eles precisam escolher uma vibração terrestre onde os papéis de homens e mulheres ainda sejam distintos.
Isso vai facilitar a adaptação deles em seus novos papéis.
Marta concordou:
- Exactamente.
Se eles realmente vão trocar de lado, a cultura onde eles vão encarnar vai ser de suma importância.
- Vamos fazer isso, então - disse Joshua.
Rosa e eu gostaríamos de começar a definir nossa porta de entrada, por assim dizer.
- Como eu disse - comenta o professor com você - nós traçamos os objectivos de nossa encarnação.
Agora, eles vão ajustar os detalhes com seus guias:
mães, pais, irmãos, tipo de família, local de nascimento, isso tudo.
Eles já escolheram o sexo.
Pessoalmente, eu acho que eles estão fazendo o certo.
Mas não há garantias de que ficarão juntos.
Na Terra, muitas opções vão desfilar em frente a eles durante sua jornada, e as escolhas que fizerem vão determinar como a estrada será percorrida.
Tudo faz sentido, mas há uma coisa incomodando você.
- Pensei que iriam apresentar opções a eles.
Foi isso que você disse desde o começo.
Joe sorriu pacientemente.
- A escolha que eles fizeram foi justamente a que lhes seria oferecida.
Mas a explicação dele ainda não tinha acabado:
- Eu também disse que aqui, longe das ilusões do mundo físico, nosso espírito sabe do que ele precisa.
Eles chegaram a uma decisão porque progrediram.
Quer saber? Eles aprenderam muita coisa aqui!
No entanto, antes de partir com seus guias, Rosa ainda tinha algo a dizer.
Era um convite para Assan.
- Se você nos der mais uma chance, gostaria que se juntasse a nós.
Quem sabe dessa vez nós três possamos fazer as coisas darem certo.
Assan estava perplexo.
- Está me pedindo que renasça como filho de vocês?
- É. Porque não? - questionou Joshua.
Antes que Assan pudesse organizar os pensamentos, Rosa e Joshua se foram.
Com a orientação de Pedro e Marta, eles estavam prestes a dar os primeiros passos em sua nova encarnação.
Eles deixaram a escola astral para preparar-se para reentrar na escola terrestre.
Mas as últimas palavras de Joshua, "Por que não?", ainda flutuavam no ar.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:56 am

30 - Uma escolha para James

Rosa e Joshua se foram, mas o convite feito a Assan para que se juntasse a eles em sua nova vida ainda pairava na sala de aula muito tempo depois de sua partida.
O adolescente estava desconfiado.
Ele estava sentado em sua cadeira, atordoado com a surpresa e o choque daquele convite.
O espírito procurou ajuda com o professor, mas Joe e a guia de Assan, Cláudia, sabiam que o rapaz teria de chegar a suas próprias conclusões.
- Ele não está pronto - confidencia o professor a você.
Vou deixar que ele fique ali, pensando e assistindo.
Esse garoto carrega um caminhão-tanque de carma e, até agora, apenas lidou com isso de maneira superficial.
É por esse motivo que foi mandado para cá, para que pudesse compreender e lidar com o que fez.
Ele colocou a culpa nos outros por muito tempo: no papa, nos pais, no Alcorão.
Assim que o professor finalizou suas observações, uma imagem começou a se materializar no palco da vida.
- Você disse que os flagrantes da vida real haviam acabado - você reclama.
- E acabaram.
Este não é um flagrante.
É o início de uma escolha... para James.
Era Bobby Barnes, ao vivo e em cores.
O cenário ainda era um pasto de fazenda e Barnes ainda estava falando com o mesmo grupo de cerca de duzentos seguidores que rodeavam o pequeno palanque improvisado.
- Digo a vocês - gritava Barnes - que o homem branco deste país precisa despertar.
E precisa fazer isso depressa.
Os negros e os latinos estão tendo mais filhos do que nós; logo eles serão a maioria e nós a minoria.
A multidão concordou em voz alta.
- Estou dizendo a vocês - Barnes fazia sua voz ecoar enquanto andava para a frente e para trás no palanque de madeira que bamboleava - que os homens brancos deste país precisam se unir rapidamente, antes que seja tarde.
Enquanto o grupo vociferava aprovações, a cena no palco da vida mudou de repente.
Era como se uma câmara estivesse correndo em meio à multidão, registrando e filmando cada um dos rostos presentes, antes de parar no rosto de uma mulher loira, alta e de aparência simples.
Ela estava com seus dezoito anos e sua face pálida exprimia a admiração que ela tinha por Bobby Barnes.
- Ele vai se casar com ela daqui a um ano - revelou o professor a Assan e James.
Eles vão ter um filho.
O nome dela é Amy.
É da família dela a fazenda onde Barnes está fazendo seu discurso.
O pai está prestes a perder a propriedade porque não pode pagar a hipoteca que se arrasta há vários anos.
Ela está revoltada e amargurada.
E também está com muito medo.
Amy não sabe o que vai ser de sua família se eles perderem aquelas terras.
Ela acredita que Bobby Barnes tenha as respostas.
James estava indignado.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:56 am

- Que respostas?
A única coisa que o ouvi falar foi sobre ódio e como a raça branca é predestinada a dominar o mundo.
O professor encolheu os ombros.
Ele sabia que James estava certo.
- As pessoas ouvem o que querem ouvir, e, como num comício eleitoral, ele só fala a eles o que eles querem ouvir:
"Você tem medo?
Não se preocupe, você é superior.
Você perdeu seu emprego?
Vamos pegar o de outra pessoa".
Ele não dá soluções a eles porque na verdade ele não as tem.
Como eu disse, as pessoas ouvem o que querem ouvir.
- O que tudo isso tem a ver com a gente? - a pergunta veio de Assan.
- Muito - respondeu Joe, apontando para o palco da vida.
- Continuem ouvindo.
- Temos que preservar a identidade de nossa raça.
Chega dessa aberração de casamentos mestiços.
Isso só gera vira-latas.
As duzentas pessoas gritaram palavras de apoio.
- Temos que garantir que nossa raça, que é a raça de Deus - enfatizou ele - seja pura.
Quando estivermos no poder, vamos seleccionar nossos genes dominantes para que apenas os brancos fortes, determinados e orgulhosos de sua raça permaneçam.
É o único caminho.
A multidão emitia sons em concordância, mesmo que muitos dos que estavam ali não tivessem a menor ideia do que ele queria dizer.
Assan e James, no entanto, sabiam exactamente o que ele estava dizendo, e arrepios gelados estremeciam seus espíritos.
- Ele ficou ainda pior - observou James.
- Ele sempre foi assim - discordou Assan.
Só que agora ele voltou a ter uma plateia.
E voltou a usar suas mentiras sobre Deus.
- Vocês dois estão certos - respondeu Joe.
Ele está se alimentando do medo e da revolta que sua plateia sente.
Mas está chegando a hora de esse espírito fazer uma escolha; uma escolha pessoal e íntima, que pode trazê-lo de volta ao caminho da evolução.
- Lembra-se do que eu disse sobre como, às vezes, o universo cria situações para aqueles espíritos que são muito teimosos ou cabeçudos para evoluir sozinhos? - pergunta o professor a você.
Bem, preste atenção:
temos um espírito cabeçudo, e o universo está se preparando para lhe dar uma tremenda oportunidade.
O professor agora começou a listar, para Assan e James, as opções que o universo já tinha dado àquele espírito.
Olhando para Assan enquanto falava, o professor disse:
- Quando ele foi papa, ele teve uma opção.
Ele podia ter usado seu poder e influência para iluminar o mundo.
Em vez disso, ele escolheu incendiar metade do mundo numa guerra santa.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 23, 2016 10:56 am

- O espírito que vocês conhecem como Sir Walter - disse para James - podia ter se aproximado de seu irmão e de seu sobrinho.
Mas todos nós sabemos o que aconteceu.
- Esse espírito, quando foi Harold Phillips - novamente o professor olhava para Assan - podia ter dado amor, compreensão e um pouco de esperança a seu filho confuso, solitário e amedrontado.
Ao invés disso, ele o colocou para fora de casa e lhe disse para nunca mais voltar.
O professor moveu-se até o palco da vida, onde a imagem em tamanho natural de Bobby Barnes olhava para eles, de modo desafiador.
- Esse espírito precisa seguir adiante.
Seus guias sugeriram que ele encarnasse numa família da classe operária e pobre para aprender humildade.
Balançando a cabeça, Joe disse aos dois alunos restantes na sala de aula que o ego, o orgulho e a ambição mais uma vez haviam aprisionado aquele espírito.
- Do lado de cá, ele concordou com seus guias.
Mas - suspirou - usando sua inteligência, habilidade e astúcia, ele achou um meio de reconquistar o poder.
Dando as costas para Bobby Barnes, o professor voltou ao centro do semicírculo para lembrar a James e Assan sobre a escolha.
- Vocês viram como um espírito escolhe os pais, o ambiente e as circunstâncias que podem trazer a experiência de que precisa para crescer.
Vocês viram como vocês mesmos fizeram isso.
Mas esse espírito, mais uma vez, decidiu fazer do seu jeito.
Joe sorriu e olhou para o alto do domo de cristal, explicando que existem algumas coisas que nós não planeamos.
- O carma tem algumas cartas na manga, e o universo usa o carma para nos ensinar o que às vezes nos recusamos a aprender.
Bobby Barnes, Sir Walter, o papa, o senhor de escravos Samuel e Harold Phillips:
esse espírito vai ter mais uma chance de aprender.
O universo está lhe enviando uma mensagem:
ele pode aceitá-la ou recusá-la.
Será dada uma opção.
Alguns podem chamar isso de destino, mas, como sempre, somos nós que fazemos nosso próprio destino.
Assan e James estavam intrigados.
Os dois viveram com aquele espírito.
Os dois sentiram as consequências de sua arrogância, revolta e ego.
- James, você gostaria de ajudar Samuel?
Gostaria de ajudar seu irmão, Sir Walter?
Gostaria de ser essa escolha?
James não disse nada, mas uma voz atrás dele, a de seu guia, disse-lhe exactamente o que estava sendo questionado ali.
- Você pode escolher nascer como filho dele.
Um filho com algum tipo de defeito físico de nascença.
Com certa cautela, James quis saber por quê.
- Ele terá que fazer uma escolha - o guia comentou.
- Lembra-se do que ele disse - interpôs Joe - sobre genes dominantes?
Imediatamente, no palco da vida, James viu e ouviu Bobby Barnes.
- Temos que garantir que nossa raça, que é a raça de Deus, seja pura.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

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