DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 11:30 am

Você olha por uma abertura no domo. Não há ninguém.
Você de repente percebe que a voz quer que você atravesse as vidraças finas de cristal.
Você hesita; sabe que é impossível.
A voz o acalma, lhe dá segurança.
- Você consegue.
Você está em espírito; a única barreira é você mesmo.
A voz pede-lhe que confie nela.
- Afinal, fui eu quem o trouxe aqui.
Apreensivamente, você se aproxima da esfera, estica a mão e toca uma de suas muitas vidraças de cristal.
Você se impressiona quando sua mão a atravessa sem o menor esforço.
Um riso se faz ouvir:
- Eu não disse?
Entre. Não tenha medo.
Antes que você se dê conta, e mesmo sem saber como, você está dentro, deslizando calmamente pelo domo.
Os reflexos das cores o impressionam.
Tons infinitos de dourado, azul, vermelho, violeta, verde, amarelo e branco o circundam com muita intensidade enquanto você vagarosamente desce até o chão.
Há uma grande tribuna circular bem embaixo do domo.
Um garoto de doze anos, vestido com jeans e uma camisa xadrez amarela, está parado no centro da tribuna, sobre o chão de pinho branco.
Ele acena.
- Você demorou. Faz tempo que estou chamando.
De seu ponto de vista, do alto e do meio do domo, você percebe um pequeno semicírculo em frente a ele, com quatro espíritos sentados em cadeiras prateadas e brilhantes.
Mas você sabe que ele não está falando com eles; ele está falando com você e só você pode ouvir o que ele fala.
Você flutua até perto da tribuna.
Consigo mesmo, você começa a rir.
O cenário lhe lembra um show da televisão.
Um sorriso travesso cresce no rosto do garoto.
Seus olhos escuros se iluminam.
Ele lê sua mente, e, como você logo vai descobrir, ele vai fazer isso de novo muitas vezes.
- Parece o "Qual é a Música?", não parece? - ele graceja.
Só que eu não sou o apresentador; sou o professor.
E esses não são os convidados - disse, apontando para os quatro espíritos em volta dele.
- São estudantes.
E - seu olhar passeou pela cúpula sob o domo - isto aqui não é um estúdio de TV; é uma escola astral em Summerland.
Você está confuso, imaginando ter dito alguma besteira.
Mas ele lhe diz para não se preocupar.
Na verdade, ele até gosta das semelhanças.
- Assim fica mais fácil explicar o que acontece aqui.
E, para sua surpresa, ele continua fazendo um paralelo entre a escola e o programa de TV.
- Mas devo dizer que não há prémio em dinheiro.
Também não há campainhas para respostas erradas nem luzes piscando para as certas, porque não há nada certo ou errado.
Existem apenas escolhas e lições.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 11:30 am

Em outras palavras, aqui aprendemos sobre a vida.
E, uma vez que a vida de cada um é diferente, como pode haver resposta certa ou errada!
No meio da tribuna redonda, poucos metros atrás do professor, você vê um pequeno palco.
Ele também é redondo.
É um círculo dentro de um círculo maior.
Mas esse palco não é feito de madeira; é repleto de luz.
O palco paira poucos metros acima do maior, tremulando em um arco-íris colorido.
Pela primeira vez desde que você chegou, o garoto fala para todo o grupo:
- Estou feliz que tenham conseguido.
Sei que todos tomaram caminhos diferentes, mas esses caminhos os trouxeram para cá.
O professor sorriu.
- Esta é sua escola.
Eu sou seu professor. Meu nome é Joe.
Ele agora rodopiava o dedo, traçando um círculo no ar, e chamava a atenção dos estudantes para a enorme cúpula onde eles estavam sentados.
- Neste palco, vocês não vão ver nenhum show circense.
Nada de atracções com leões, palhaços ou cantores que cobram fortunas para se apresentar.
Em nosso palco - ele apontou sobre seu ombro para a plataforma menor - há apenas a vida, nada mais e nada menos.
Sem cadernos, sem lousas, nenhuma regra para decorar.
Vocês vão aprender uns com os outros.
Fez uma pausa e continuou:
- E vão aprender consigo mesmos.
Joe olha para você, ainda flutuando sob o domo de cristal.
- Mas - revela o professor - nós temos uma plateia.
Ele espera até que você esteja bem em cima dele e com um sorriso largo indica um grande auditório em frente ao palco.
- Então, como eles dizem na TV, "Fique ligado, o show vai começar", brinca o menino, enquanto ele e os quatro alunos observam você se acomodar num assento na primeira fileira, onde percebe que aquela plateia é composta por apenas um.
- Não ligue para isso. Você representa muitos.
Enquanto espera "o show começar", você dá uma olhada na enorme sala redonda.
A primeira coisa que lhe chama a atenção é que os raios mornos de luz do sol se lançam pelo domo e o céu azul do lado de fora se mistura com o azul suave das paredes que circundam o auditório.
É difícil dizer onde começa uma coisa e onde termina a outra.
A sua esquerda, à direita, acima e atrás de você, o azul infinito provoca a sensação de que você está flutuando novamente, sem esforço, pelo ar.
Bem à sua frente, lá está o grande palco redondo.
"Deve ter uns noventa metros de diâmetro", você calcula em silêncio.
Bem no meio dele, fica o pequeno semicírculo com os alunos, e no meio deles fica o professor.
Uns três metros atrás de Joe, brilha o cenário com o círculo menor dentro do círculo maior.
Você não consegue ver direito o que há atrás dele porque uma névoa densa cobre os cavernosos bastidores.
Mas você vê o tema predominante nessa sala de aula: um domo redondo, paredes circulares, um enorme palco circular, alunos sentados num semicírculo e, finalmente, o pequeno palco redondo, flutuando poucos metros acima da base maior.
Novamente, Joe lê seus pensamentos, só que dessa vez ele os compartilha com toda a classe.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 11:30 am

- Nossas vidas são círculos, infinitas e eternas, cada uma fluindo para outra.
Que modo melhor para se aprender sobre a vida novamente rodopiando o indicador e desenhando um círculo no ar do que estar no meio de uma?
A voz firme e forte de Joe faz com que você interrompa a inspecção da sala de aula.
Sua atenção novamente se volta ao menino magro parado no meio do semicírculo de estudantes.
- Eu adoraria ter sido o autor desta frase, mas foi um espírito chamado William Shakespeare que escreveu:
"O mundo é um palco, e todos os homens e mulheres são meros atores.
Eles entram e saem de cena, e cada homem interpreta vários papéis".
Joe olha para os alunos e então para você.
Seus olhos se encontram.
Ele lhe lança um sorriso tranquilizador.
Ele sabe que você está nervoso, confuso e um tanto amedrontado.
- Relaxe. Você precisava estar aqui.
Na verdade, ele não fala; é mais como um pensamento rápido.
Você descobre que está ficando bom nesse negócio de trocar mensagens por telepatia.
"Isto está ficando interessante", você conversa consigo mesmo.
- Mais do que você imagina - ele provoca, e continua a falar com seus alunos.
- Todos nós interpretamos vários papéis e vivemos muitas vidas.
Entramos em cena no palco chamado Terra e, naturalmente, temos nossas marcações para sair de cena.
E agora vocês estão aqui nesta escola espiritual.
Vocês interpretaram seu último papel e acabaram de sair de cena.
Joe parou e acrescentou:
- Excepto para você.
Sua peça ainda está em cartaz no palco chamado Terra.
É por isso que você está aqui.
Você sacode os ombros, ergue as sobrancelhas e balança a cabeça, ainda sem saber o que está fazendo sentado no meio de um auditório vazio, assistindo a uma aula numa escola para espíritos.
"Este é um sonho bem maluco", diz você a si mesmo.
O professor comenta:
- Para você é um sonho, mas, acredite em mim, isto é real.
Você está aqui para aprender, assim como eles.
Com um detalhe: quando voltar à Terra, você vai compartilhar tudo que aprender aqui.
- Todos vocês - ele se voltou para a classe - estão aqui para decidir o próximo passo que vão tomar, se é que vão tomar algum, em seu próprio caminho de evolução.
E - acrescentou, fazendo ar de mistério - vocês estão juntos por uma razão.
Nada acontece por acaso.
O universo não é um jogo.
As coisas não se decidem ao rolar de dados.
Não existe sorte.
Nada acontece sem planeamento.
Os quatro espíritos em frente a ele estavam em silêncio.
Até aquele momento, eles não tinham feito nenhuma pergunta ou comentário.
Na verdade, eles não mostraram nenhuma reacção ao professor falara.
Um adolescente alto, magro e com traços árabes, sentado na ponta direita do semicírculo, contorceu-se em seu assento.
Um sorriso desafiador formou-se em seus lábios finos.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 11:31 am

"O que é que um moleque pode me mostrar?", perguntou o adolescente a si mesmo, em tom de provocação.
"Quero ir embora daqui."
Joe lê os pensamentos do rapaz e percebe que o adolescente, cujo nome é Assan, acha que deveria estar em outro lugar.
E, o mais importante, o professor sabe que o espírito é livre para ir embora quando bem entender.
- Tenho que atrair a atenção dele - Joe admite para você.
Tão logo ele diz isso, a escada da vida surge pela terceira vez em frente aos olhos do professor.
"É... Por que não?", diz Joe a si mesmo.
"É uma boa hora, como outra qualquer."
- Fique de olho no fundo do grande palco?
Joe alerta você.
- Vai ser impressionante.
- Eu também gostaria de estar rodeado de virgens - diz Joe, voltando momentaneamente sua atenção para Assan.
Mas elas são como aquelas dançarinas de Las Vegas...
Não temos nenhuma aqui.
E - com uma piscadela - não conheço nenhum lugar no universo onde se possa encontrá-las.
Os tempos mudaram - brinca.
Enquanto um confuso Assan tenta entender como o menino sabia das virgens, uma escada comprida e curva com nove degraus iluminados surge inesperadamente nos fundos enevoados do grande cenário, estendendo-se dramaticamente até o topo do domo de cristal.
Cada degrau tem sua própria pulsação luminosa; cada um tem sua própria cor e vibração.
Você ouve os alunos perderem fôlego.
Finalmente, eles manifestaram alguma reacção.
Você também está hipnotizado pela escada brilhante.
O professor deixa o local onde estava, no meio do semicírculo, e vai para o primeiro degrau, onde ele começa a descrever cada patamar luminoso da escada cintilante.
Primeiro degrau: destaca-se pela cor branca pura, como a de um lírio.
- O começo - resumiu o professor.
Segundo degrau: irradia um azul tranquilo.
- A Terra, nossa escola - foi tudo que Joe explicou.
Terceiro degrau: cintila e pulsa furiosamente em tom violeta.
- O abismo. Vocês logo vão descobrir o que significa - diz Joe enigmaticamente.
Quarto degrau:
estampa um vermelho quente, eléctrico.
- Avançando um pouco - foi seu único comentário.
Quinto degrau: brilha levemente em verde vivo e profundo.
- Summerland.
É onde estamos agora.
Sexto degrau: emite um delicado halo amarelo.
- Um plano mental, um lugar de ideias e inspiração.
Sétimo degrau: pulsa em tom escarlate.
- Um lugar para preparação - mas Joe não diz para quê, apenas acrescenta:
- Eu o conheço muito bem.
Oitavo degrau: cintila em tons dourados.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 13, 2016 11:31 am

- O lar de nossos patrocinadores - observa o professor, sem dizer quem são esses patrocinadores.
Nono degrau: destaca-se pela cor branca pura, como a de um lírio; um reflexo do primeiro degrau.
- O primeiro degrau era o começo.
Este último é um novo começo.
Alguns, erradamente, o chamam de fim.
Os degraus brilham.
A escada luminosa e as descrições vagas e curtas de Joe conseguiram por algum tempo atrair o interesse da classe.
- Os degraus representam planos de existência.
Você pode chamar alguns de céu.
Você pode chamar alguns de inferno. Isso não importa.
A única coisa que conta é que eles existem, e cada degrau, sem interessar em que nível ele está, leva a um fim.
E o fim simplesmente leva para um novo começo.
As semelhanças entre o primeiro e o último degraus foram percebidas.
Seus tons brancos em cada ponta da escada colorida faziam com que parecessem aparadores de livros numa estante.
- Vai ver, eles não tinham mais cores - gracejou Assan com o espírito à sua esquerda, um negro chamado James.
- Eu sabia que isso ia atrair sua atenção - disse o jovem professor, voltando rapidamente para seu lugar em frente à classe. - que vocês não esperam um pouco para descobrir aonde eles levam?
O adolescente não se importou ao ver que o professor ouvira seu gracejo sobre os degraus e respondeu ao sorriso de Joe com um dos seus.
Mas, mesmo a contragosto, Assan não conseguia tirar os olhos da escada reluzente que se estendia preguiçosamente até o topo do amplo domo.
Joe continua a estudar Assan.
No plano terrestre, o adolescente recebera a promessa de paraíso eterno com treze virgens atendendo a todos os seus desejos.
- Se eu fosse ele, também estaria revoltado - o professor brinca com você.
- Eu sei que você está decepcionado - diz Joe a Assan.
Sei o que lhe foi prometido.
E, acredite, sei que não substituo suas treze virgens obedecendo a todos os seus pedidos, mas - apontando para a escada - se você me der uma chance, sei que posso oferecer a você algo melhor.
Os olhos negros de Assan desviaram-se da escada luminosa para examinar a grande sala circular.
Ele analisou o garoto de doze anos, tentando entender o que aquele professor-mirim poderia oferecer a ele que pudesse ser melhor que treze virgens no paraíso.
- Sem chance - murmura Assan.
Ele olha para os outros alunos, mentalmente analisando cada um deles.
Desde criança na Terra, ele foi treinado para analisar
rapidamente tudo ao seu redor e fazer rápidos julgamentos sobre as pessoas à sua volta, porque, como seus professores enfatizavam, sua vida podia depender disso.
A sua esquerda sentava-se um negro musculoso, ali pelos seus vinte anos, fitando impassivelmente os degraus brilhantes.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:09 am

"Parece que está surrado e cansado", foi a primeira impressão que Assan tirou de seu vizinho.
Bem em frente a ele, na outra ponta do semicírculo, ele vê uma senhora, já nos seus sessenta anos, elegante e esnobe.
Ela friamente lhe devolve o olhar.
"A velhota parece que está com prisão de ventre.
Está tensa como a corda de um violino."
Perto dela está um homem de meia-idade, bronzeado e com cabelos louros bem penteados, sentado erecto em sua cadeira.
Assan nota que ele também está analisando todo mundo pela classe.
Seus olhares se encontram.
"Esse cara é cheio de si", decreta o adolescente árabe.
"Sem dúvida, as treze virgens ainda são melhores do que isso", conclui Assan consigo mesmo.
O negro próximo a Assan estendeu-lhe a mão.
- Meu nome é James.
Eles se cumprimentam e James convida Assan a ficar por ali.
- Afinal, o que mais temos para fazer?
Assan franziu os lábios e fechou os olhos.
Ele sabe que James tem razão.
"Já estou aqui há algum tempo.
Pelo menos esta escola tem algo de diferente", argumenta ele consigo próprio, convencendo-se a ficar, pelo menos temporariamente.
Joe, no entanto, sabe que logo vai ter que lidar com Assan.
- Não quero perdê-lo.
Ele sabe que pode ir embora quando quiser.
Joe revela a você, e decide:
- Seus flagrantes serão os primeiros.
- Vocês estão sob o domo - diz o professor ao grupo.
Lembram-se do que eu disse sobre os papéis que interpretamos?
Aqui, sob o domo de cristal, nós veremos alguns deles.
O professor aponta para a longa escada em espiral com degraus seguindo até o topo do domo.
- Aqueles são os nove degraus da vida.
Cada um tem sua própria vibração, cada um tem seu propósito e cada um tem seu lugar especial no universo.
Joe momentaneamente virou-se de costas para a classe a fim de ir até a pequena plataforma elevada que estava atrás dele.
Parado na frente de seu brilho florescente, ele olha para o semicírculo dos alunos.
- Este é o palco da vida.
Aqui é onde algumas de suas vidas passadas vão ser interpretadas.
Nós as chamamos de flagrantes da vida real.
Vocês vão aprender sobre si mesmos e sobre os outros.
O mundo é um palco.
Ele repete as palavras de Shakespeare:
- E todos nós interpretamos muitos papéis neste palco.
O professor salienta que apenas algumas, não todas, encarnações passadas serão mostradas.
- Somente as relevantes - conclui, com um sorriso.
Enquanto caminha de volta para o meio do semicírculo, Joe vai fazendo observações mentais sobre seus alunos.
Ele sabe que Assan não é o único que quer ir embora.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:09 am

- Esta escola não é bem o que eles esperavam encontrar do outro lado - explica Joe a você.
Alguns estão decepcionados, alguns frustrados e confusos.
Seus guias individuais, espíritos que ajudam outros espíritos no caminho da evolução, disseram-lhes para seguir a luz.
- A luz os trouxe aqui.
James, como Joe observou, está cabisbaixo.
- Esse espírito está procurando respostas para perguntas que ele tem medo de fazer.
Está aprisionado por seus próprios medos - diz Joe a você.
O professor olha para Assan sentado com seus braços cruzados sobre o peito, com um sorriso desafiador estampado na face.
- Ele vai tentar transformar isto num jogo.
Enquanto ele continuar a jogar, tudo bem para mim.
De frente para Assan, a elegante e empertigada mulher lentamente sacudia a cabeça de um lado para o outro.
Ela tem certeza de que está ali por engano, e que logo esse erro será desfeito.
Seu nome é Rosa.
- Essa mulher vai ser um osso mais duro de roer do que Assan.
De certa forma, ela e o rapaz têm muito em comum.
Aos dois prometeram algo, e ambos viveram suas vidas em função dessas promessas.
O professor olha para os dois e suspira.
- Eles estão unidos por muito mais do que falsas promessas.
Mas nenhum deles está pronto para descobrir como.
Joshua, o homem de meia-idade sentado perto de Rosa, parece entediado.
Ele também quer ir embora, achando que tem coisas melhores para fazer.
- Bastará uma rachadura em sua carcaça, para que toda a fachada desmorone.
E Joe lhe dá uma sugestão:
prestar atenção em Joshua e Rosa.
Os dois estão tão apegados a si mesmos que não conseguem ver os laços entre eles.
O professor não está nem um pouco preocupado com a aparente falta de interesse do grupo nele ou na escola.
Parado no meio do semicírculo, ele calmamente recomeça de onde parou, explicando aos alunos os "flagrantes da vida real" que seriam exibidos no círculo dentro do círculo chamado de palco da vida.
- Chamo isso de retirar os véus, porque os véus que cobrem seu passado serão retirados, camadas de orgulho e ego rompidas e as mentirinhas que contamos a nós mesmos serão expostas.
Em resposta, James simplesmente fita o chão, Assan lança seu sorriso desafiador, Rosa olha para cima e Joshua boceja.
- Turminha difícil - admite Joe.
Mas o tempo dirá se são realmente tão difíceis.
Atrás do professor, o palco da vida já não pairava alguns metros acima do chão.
Sua base agora está plantada firmemente no piso de pinho do grande palco.
O arco-íris fluorescente se foi.
O palco da vida está pronto para receber seu primeiro flagrante da vida real.
- isso vai ser melhor do que qualquer programa de TV que você já viu.
Nem pense em mudar de canal.
Mas o aviso é desnecessário.
Você não perderia isso por nada neste mundo.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:09 am

6 - A primeira lição de Joe: - o que somos

Olhando para os alunos, o professor esfrega as mãos, esperando ansiosamente o que viria a seguir.
Era hora de começar a retirar os véus.
Ele sabe que isso não será indolor.
- Mas, se eles querem progredir com suas vidas, isso precisa ser feito - diz Joe a você.
E não deve ser feito de uma vez; é preciso fazê-lo passo a passo.
Ele riu e indicou a escada luminosa atrás dele.
- Da mesma forma que subimos aqueles degraus.
Mas Joe sabe que, para poder se aprofundar nas vidas de cada aluno, ele terá de acelerar as coisas no começo.
- Quero mostrar-lhes um pouco do que são e uma amostra do que podem ser - ele explica a você.
Como um médico examinando a ficha do paciente antes de chegar ao diagnóstico final, Joe deu uma última conferida em seus alunos.
Ele começa com Rosa, elegante e aprumada, encarando o professor do canto esquerdo do pequeno semicírculo.
- Essa mulher é a seriedade em pessoa - brinca.
Nenhum fio de seus cabelos grisalhos está fora do lugar no coque bem-feito no alto do rosto impassível pontuado por olhos frios e acinzentados, bochechas altas e lábios finos e pálidos.
Suas roupas seguem sua rigidez:
um conjunto impecavelmente bem passado, composto de um blazer azul combinando com uma saia comprida até os tornozelos; na blusa branca, o colarinho engomado é preso por discreto broche dourado.
Rosa Maria está deste lado há sete anos, tendo deixado o plano terrestre aos sessenta e três anos de idade.
- A maneira como o espírito faz a passagem da Terra para o plano astral diz muito sobre a vida que ele levou.
Rosa fez a passagem na cama de um hospital, rodeada por seu pastor e membros de sua igreja.
Eles se despediram dela com orações, hinos e hosanas.
E ela foi recebida deste lado com orações, hinos e hosanas.
E o que ela esperava e foi o que ela obteve.
Rosa foi recebida por espíritos que compartilhavam suas vibrações e crenças.
Joe relata que aquele espírito se manteve em isolamento, mantendo apenas o mínimo contacto necessário com outros espíritos.
Rosa Maria é um espírito convencido de que levou uma vida inquestionável e está agora exigindo a recompensa que lhe foi prometida.
- Ela está procurando os portões de madrepérola.
Rosa simplesmente bloqueia qualquer coisa ou qualquer um que ela ache que não vá passar por eles.
Quando chegou aqui, ela se encontrou com espíritos que acreditavam no mesmo que ela.
Eles cantaram hinos e leram a Bíblia.
Mas nada aconteceu.
Eles não podem ir em frente, porque não há nada para seguir adiante.
O céu que prometeram a eles não existe.
A maioria dos espíritos que se encontrou com Rosa quando ela fez a passagem ainda está neste nível, cantando e louvando a Deus.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:09 am

Rosa se encheu disso.
Ela decidiu encontrar sua "justa recompensa".
Seu guia a enviou para cá.
A recompensa que o espírito de Rosa Maria espera é a vida eterna no paraíso.
Esse espírito, a despeito de tudo que já viu, ainda não compreende que já tem a vida eterna e que o paraíso tão desesperada e obstinadamente almejado não existe da maneira como ela o quer.
- Ela criou um véu de hipocrisia ao seu redor, porque ela não pode encarar a verdade.
O professor, ouvindo suas próprias palavras, pára por um segundo ou dois e então acrescenta:
- Ela vai descobrir o que a Bíblia realmente quer dizer com "E a verdade te libertará".
Rosa, por outro lado, está indignada por encontrar-se nessa escola, com "um árabe pagão, um adorador do dinheiro, um negro analfabeto e uma criança que acha que vai me ensinar sobre a vida".
No entanto, ela se propõe a enfrentar essa prova, dizendo a si mesma:
"É Deus que está testando minha fé".
- Ela não será fácil.
Essa mulher não tem véus ao seu redor - diz Joe, rindo.
Ela está rodeada por um anel de aço.
Vou dar a ela, e a todos os outros, um aperitivo do que está do lado de fora desse anel.
Agora ele volta a atenção para Joshua, o homem de meia-idade sentado perto dela.
Josh também é fanático, mas não por crenças religiosas e sim por poder e controle.
Na Terra, ele foi um homem de negócios tremendamente bem-sucedido e sua vestimenta ainda projecta a imagem desse sucesso:
um terno habilmente feito à mão, azul-escuro com risca de giz, uma camisa impecavelmente branca, gravata de seda vermelha, meias pretas que chegavam ao joelho e sapatos lustrosos como um espelho.
Josh está ali há uns dez anos e ainda não conseguiu ver além da imagem que fez de si mesmo.
Ele está atado ao que ele era.
No astral, Joshua está se sentindo perdido e insignificante.
Ele quer desesperadamente reentrar na esfera terrestre, onde se sentia vivo e necessário.
Seus guias pediram-lhe que assistisse a algumas aulas nessa escola antes de encarnar novamente.
Ele concordou, embora pensasse:
"Isso é uma total perda de meu valioso tempo.
Esse menino que eles arrumaram para ser o professor não tem idade nem para ser meu office-boy."
Joe sabe que nem Josh nem Rosa serão alunos fáceis.
Agora mesmo, por motivos diferentes, eles estão envolvidos somente com si próprios.
No fim, eles verão como estão envolvidos um com o outro.
Mas esse momento ainda está longe.
O professor faz uma pausa e observa mais uma vez um sentado ao lado do outro.
Suas suspeitas se confirmam e ele tem uma ideia.
Ele ergue uma sobrancelha enquanto pondera sobre a ideia.
- Ele vai enxergar além de seu vício pelo poder.
Ele vai experimentar o que significa o verdadeiro poder.
Joe lança um olhar para o outro lado do semicírculo, onde está o musculoso negro, sentado entre Joshua e Assan.
James já tinha sido um espírito orgulhoso e corajoso, cheio de ousadia e curiosidade.
Mas tudo isso mudou.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:10 am

Esse espírito vive no astral há quase duzentos anos terrestres e está com medo, sente-se acanhado e derrotado, mergulhado na autopiedade e dominado por seus próprios temores.
- O sujeito não quer reencarnar. Ele tem medo.
E se há uma coisa que paralisa e aleija o progresso de um espírito, essa coisa é o medo.
Joe promete recolocar os pés de James na estrada da evolução espiritual.
- Todos nós temos que chegar lá; ninguém pode ficar para trás.
Vou mostrar a ele o que ele é e o que ele pode vir a ser.
Finalmente, Assan:
um espírito que, trinta anos atrás, escolheu um caminho violento e sanguinário.
- Como posso ajudá-lo a trocar a revolta pela compaixão?
Como posso ajudá-lo a moldar suas encarnações para ajudar a si mesmo e aos outros?
Enquanto Joe se questionava sobre Assan, outra ideia surgiu em sua mente.
"Pode ser... Pode ser, sim...", falou ele consigo mesmo, cautelosamente.
Essa é sua classe.
O universo o havia encarregado desses quatro espíritos.
- Nenhum deles sequer começou a erguer seus véus, para poder ver a si mesmo como realmente é:
um espírito eterno, com passado, presente e futuro.
Dois deles - disse, referindo-se a Rosa Maria e Joshua - não conseguem ver além de si mesmos.
E os outros estão aprisionados, um pela revolta, outro pelo medo.
Para aqueles espíritos, o tempo realmente não fazia sentido.
James estava ali por mais de duzentos anos, Rosa por sete, Josh por dez e Assan por quinze.
O tempo, quer seja em dias, meses, anos ou décadas, perde a direcção na própria infinidade.
Mas há outro tempo, chamado de tempo de escolher.
E, quando acabarem as aulas, chegará esse tempo para Assan, James, Rosa e Josh.
Um passo pode ser dado ou não, um caminho pode ser tomado ou não, mas o tempo para se fazer essas escolhas não pode ser postergado.
Espíritos precisam seguir adiante.
Eles podem aprender. Eles podem crescer.
Ou podem, como James, escolher viver dentro de casulos formados por seus próprios egos.
- Eles podem me deixar retirar seus véus.
Ou podem escolher continuar a vida nas sombras.
Está na hora de começar.
Apenas alguns segundos haviam se passado desde que o professor iniciou o "diagnóstico final" de seus alunos.
Eles esperaram em silêncio.
Mas eles sabem que alguma coisa está acontecendo.
Eles podem sentir a expectativa no ar e vê-la estampada na face do professor.
James levanta o olhar do chão, esperando o que está por vir.
Assan remexe-se na cadeira, preparando-se para o que ele pensa ser um jogo que pode comandar e controlar.
Rosa senta-se erecta em seu assento, esperando sua libertação.
E Joshua, assumindo seu ar enfadado de superioridade, quer que aquilo acabe logo.
- Como eu disse anteriormente, vou mostrar a eles o que são agora e, depois, dar uma amostra do que podem vir a ser.
Enquanto Joe falava com você, a luz dourada e suave que irradiava do domo vagarosamente se esvanecia.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:10 am

Com excepção do brilho que vinha da escada luminosa atrás do professor, a grande sala de aula redonda está escura.
Todos os olhos estão voltados para Joe, parado calma e confiantemente diante deles, no meio do semicírculo.
Um pequeno ponto luminoso brilha bem no centro de seu corpo.
A princípio, é apenas uma pequena faísca brilhante.
Mas ela cresce e vai-se tornando cada vez mais forte e brilhante, até que a imagem do menino de doze anos é substituída por uma intensa energia amarelo-clara, pulsante e disforme.
Os alunos, e você na plateia, estão dominados pelo esplendor, e cada um vê o que precisa ver na luz dourada crepitando diante deles.
Assan sente a revolta e o ódio fervendo dentro de si.
Ele está preso a essa turbulência.
O espírito queima, num calor ardente.
Mas a tempestade de emoções se desfaz tão depressa quanto começou e Assan, por alguns segundos, experimenta a alegria e o conforto do amor e da compaixão, emoções de que ele precisa tão desesperada
mente, mas terá de aprendê-las por si próprio.
James se sufoca em seus medos, que são correntes apertando seu espírito, paralisando seu ser.
De repente, o aperto do medo dá lugar ao abraço de um amigo. James suspira.
Ele sabe que precisa aprender a confiar novamente.
Joshua recebe uma amostra de um mundo sem nenhuma ambição, cobiça ou orgulho.
Por uma pequena fracção de seu tempo, ele experimenta a harmonia do completo vazio.
Mas, tão depressa quanto a paz vem, ela vai, esquecida e fora de alcance, porque ele não está pronto para conquistá-la.
Rosa Maria, por um segundo sagrado, sente a serenidade, a harmonia e o amor que ela procurou desde que fez sua passagem da Terra.
Mas ela também não sabe como manter essas sensações.
Elas se vão como areia escorrendo por entre seus dedos, porque, como Joshua, ela ainda não está pronta.
Você, sentado longe do palco, na plateia, vê bondade, paciência, compreensão, compaixão e sabedoria de uma "alma velha" reflectidas nos olhos de chocolate do menino de doze anos.
A voz do professor ecoa pela câmara redonda, de parede em parede.
- Somos espíritos de uma mesma fonte criadora. Deus, Força Universal, o Todo-Poderoso; podem chamá-lo do que quiserem, porque nenhuma palavra pode defini-lo.
Mas uma coisa é certa:
essa força divina é parte de nós, a chama vive dentro de cada um de nós e isso é o que realmente somos.
Vivemos através de nossos problemas, tentativas e carma com um único propósito:
aprender, crescer e recordar o que somos, assim poderemos mais uma vez nos reunir com o Criador.
A sala é iluminada pela harmonia amarelo-clara da aura do professor e ele fala com cada um de seus alunos, começando por sua "criança-problema", Assan.
- Você é o que é por causa do que você era.
Cada acção que você fez, cada pensamento que teve, cada escolha que fez trouxeram você até aqui.
Chegou a hora de romper o círculo que você criou para si mesmo e seguir adiante.
A voz convoca James.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:10 am

O negro se inclina para a frente e para trás, hipnotizado pela vibração harmoniosa que a energia brilhante irradia diante dele.
- Você já foi orgulhoso, bravo e desafiador; agora você é tímido, humilde e medroso.
Aprenda a confiar no universo.
Nada acontece em nossas vidas por acaso.
Isso pode parecer sem sentido, mas acredite em mim e você verá que é a única coisa que faz sentido.
O professor estava enganado:
tudo aquilo fazia sentido para James.
As lágrimas correndo por suas faces eram prova disso.
O professor dirige-se a Rosa Maria e Josh.
- Vocês dois são viciados.
Rosa Maria é viciada em crenças, preconceitos e opiniões.
Você se fechou para qualquer um ou qualquer coisa que contradiga tudo isso.
Você se sente segura sob o escudo de fé que construiu para si mesma.
- E você, Joshua, é viciado em coisas insignificantes.
Você vê um brilho dourado na ilusão de poder, dinheiro e status.
Dê uma boa olhada ao seu redor.
Onde estão seu poder, dinheiro e status?
Não estão aqui.
E, tão depressa e repentina quanto foi a abertura da aula do professor, ela termina.
A voz se cala. A sala silencia.
Lentamente, a luz suave do domo volta a clarear a classe.
A vibração harmoniosa de energia se vai e em seu lugar está, novamente, um garoto de doze anos chamado Joe.
Em segundos, os alunos vão se esquecer do que aconteceu, mas um silencioso anseio por algo melhor vai permanecer em cada um deles.
Rosa Maria, ainda admirada, sussurra através do palco:
- Ou você é um anjo ou é um demónio.
O menininho sorri e encolhe os ombros.
- Nem uma coisa, nem outra, dona.
Sou apenas um professor que acabou de dar sua primeira aula.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:10 am

7 - Uma lição da vida: Assan antes de ser Assan

Um turbilhão de excitação e ansiedade percorre toda a rotunda.
A excitação contagia todos os alunos por algum tempo, permanecendo nas lembranças de suas primeiras revelações.
A ansiedade cresce com a certeza de que, o que quer que venha a seguir, será com um deles.
Em seu posto no meio do semicírculo, o professor avisa você: a vida de Assan vai ser a primeira a ser exibida no palco da vida.
- Quero mantê-lo envolvido e vou tentar, aos poucos, acabar com toda essa pose.
Ele nunca fez, de uma vez só, a retrospectiva de três vidas.
Esta vai ser a primeira vez.
- Até agora, esse espírito reviu, com seu guia, apenas a última encarnação que viveu.
Você foca seus olhos em Assan.
Ele está tão nervoso e impaciente quanto seus colegas.
Agora seus olhos se centram na pequena plataforma redonda chamada de palco da vida, plantada a poucos metros do palco principal.
Você imagina como o adolescente vai reagir quando vir suas vidas sobre aquele palco.
"Ainda bem que não é comigo", diz você a si mesmo enquanto ouve o professor dirigir-se à classe.
- Nenhuma mágica vai acontecer - Joe tenta sossegar seus alunos.
Dentro de alguns momentos, vamos ver alguns flagrantes do que foi um de nós.
Afinal, somos a soma do que fomos antes e nosso futuro nada mais é do que o que somos agora, então por que não darmos uma olhada em como chegamos até aqui?
Vai ajudar todos vocês a decidir para onde vão.
Rosa, indignada, interrompeu imediatamente:
- Não acredito nessa bobagem de vidas passadas.
Minha Bíblia não fala nada sobre isso.
- Eu sabia que ela ia dizer isso.
Ela até se recusou a fazer a retrospectiva de sua última vida com seu guia.
Disse a ele que sua vida só interessava a Jesus.
Joe acena para Rosa, sorri e diz que não vai começar a discutir citações bíblicas com ela:
- Eu perderia - diz, rindo.
Você é uma especialista no assunto.
O professor pede a ela que confie nele e seja paciente.
- Daqui a pouco você vai entender.
- Eu deposito minha confiança em Jesus.
- Eu também.
E Ele deposita sua confiança em mim.
Rosa ficou boquiaberta.
Ela estava chocada com aquela resposta.
Mas, antes que ela pudesse articular qualquer palavra, os raios luminosos do domo novamente começaram a se apagar, interrompendo, ao menos temporariamente, o debate entre Joe e Rosa.
Assim que a sala de aula escurece, uma luz diferente passa a brilhar no domo, formando um feixe luminoso e branco sobre o centro do pequeno palco da vida.
- Muito tempo atrás - começa Joe - aprendi que começamos nossa vida actual do jeito que terminamos a anterior.
Uma vida é continuação da outra.
Ele confessa que, ao ouvir essas palavras pela primeira vez, quando era um jovem estudante no Tibete, ficou confuso.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:11 am

Mas, muitos anos e encarnações depois, ele veio a entender o significado daquele ensinamento.
- Se partimos da vida com revolta, iniciaremos nossa nova vida revoltados.
Se vivemos odiando, nossa próxima vida será nada mais que a continuação desse ódio.
Parece bem simples, não é mesmo?
James balançou a cabeça:
- Alguma coisa não está certa.
Joe fica feliz.
Finalmente, a classe começa a se envolver.
Ele sinaliza a James para que ele continue.
- Não é justo.
Estamos presos a uma espécie de círculo vicioso do qual jamais conseguiremos sair.
O professor assente.
- Talvez essa não seja a resposta que ele quer, mas é a verdade - diz Joe a você.
- Cada vida - esclarece o professor aos alunos - é a base para a próxima.
O que vivenciamos em uma se estende para a próxima, e apenas nós mesmos podemos interromper esse ciclo, porque fomos nós que o construímos.
Revolta, medo, ódio e inveja:
uma vez que aprendemos com essas emoções, é hora de ir em frente.
É justo, James, porque nós, e apenas nós, somos responsáveis por nossas acções.
Somos nós que mantemos vivo esse ciclo.
Por meio da escolha, nós temos o poder de mudar.
O professor agradece a James e fala aos alunos que ele está aberto a mais perguntas.
- Vocês não estão aqui para ficar sentados engolindo cada palavra que eu disser.
Estão aqui para aprender, e a melhor maneira para isso é perguntar.
Assan dá um tapinha nas costas de James.
Uma afinidade entre esses dois espíritos está se formando, e é uma simpatia que vai crescer durante o curso.
- Quando ficamos apegados a uma emoção ou obcecados por um sentimento, criamos nosso próprio "círculo vicioso de carma".
E por isso que vamos estudar fragmentos de várias vidas e procurar os laços ou ciclos que os conectam.
Joe enfatizou que a palavra-chave era estudo.
- Não estamos aqui para julgar - e, enquanto falava, lançou um olhar significativo para Rosa - porque nem mesmo nosso Criador julga.
Estamos aqui para aprender com esses flagrantes da vida real.
Em outras palavras, estamos aqui para aprender uns com os outros.
Rosa mordeu a isca lançada pelo professor, repreendendo-o severamente sobre o que disse a respeito de Deus e de julgamento.
- Deus julga todos nós, mocinho.
Cuidado com o que diz; ele está ouvindo.
Deus está em toda parte.
Assan, do outro lado do semicírculo, mandou-a calar a boca.
- Espero que seu Deus tenha coisa melhor para fazer do que espiar nossas conversas.
Tão certa quanto a amizade que estava se desenvolvendo entre Assan e James, uma forte hostilidade nascia entre ele e Rosa.
- Gostos e desgostos - reflecte o professor com você.
Eles também passam de uma encarnação para outra.
Pela segunda vez, uma discussão foi interrompida por eventos que se desenrolavam na sala de aula.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:11 am

Uma imagem começou a se formar sob o feixe de luz no palco da vida.
Assim que ficou nítida, o professor deu início à narrativa.
- Vocês verão três fragmentos diferentes de vidas que pertencem a alguém nesta sala.
Quando acabarmos de assistir, vocês verão com uma vida flui para dentro da outra.
Verão como a revolta e o rancor geram rejeição e como a rejeição, por sua vez, gera mais revolta e rancor.
Os alunos olham-se uns para os outros, tentando adivinhar quem seria colocado sob o microscópio.
Até mesmo Rosa, que dizia não acreditar naquilo, espichou o pescoço para olhar para os colegas.
- O local é a França.
O ano é 1095, na pequena cidade de Clermont.
A imagem tridimensional no pequeno palco se cristaliza.
Uma catedral alta, grandiosa e inacabada domina o fundo do cenário.
Um papa da Igreja Católica Apostólica Romana discursa apaixonadamente para uma multidão de nobres franceses que lota o quarteirão ao redor da imponente igreja.
- Notícias preocupantes chegaram até nós da região de Jerusalém e da cidade de Constantinopla.
São relatos de que o povo do reino persa, uma raça completamente alheia a Deus, invadiu um território cristão.
E invadiu esse território saqueando, incendiando e matando.
Os alunos ouvem murmúrios de revolta ecoando pela multidão.
Até mesmo Joshua, temporariamente, deixa de lado seu ar blasé de superioridade, para exclamar:
- Isso é histórico.
É o começo das Cruzadas.
No meio da multidão, um jovem aristocrata francês chamado André ouvia atentamente as acaloradas palavras de seu papa.
Seus olhos estão fixados no Santo Padre, que ele crê piamente ser o representante de Cristo na Terra.
Quando a imagem enquadra o jovem nobre, alguém na sala respira de modo ofegante.
Esse alguém é Assan.
Um véu é levantado.
- Esse aí sou eu - grita ele.
Conheço esse cara. Sou eu.
Joe assente.
- Essa não foi sua primeira encarnação, mas é uma das três que nos interessam.
Joe pede a Assan e aos outros que prestem muita atenção ao discurso exaltado de Urbano, ressaltando que as palavras do papa, de uma forma ou de outra, são ouvidas na esfera terrestre até hoje.
E, acrescenta, com os mesmos resultados nefastos.
Os alunos, com nova perspectiva, voltam a ouvir o papa.
- Os persas aprisionaram alguns desses cristãos em seus próprios países; outros, mataram por meio de cruéis torturas.
As palavras de Urbano incitam ainda mais a já revoltada multidão.
- Eles destruíram totalmente algumas das igrejas de Deus e transformaram outras em templos para seus próprios cultos.
Profanaram altares com imundície e aviltamento.
As palavras enlouquecem a multidão, que anseia por vingança contra tais atrocidades.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:11 am

- Eles circuncidaram cristãos e lambuzaram altares e pias baptismais com o sangue das circuncisões.
Eles têm prazer em matar suas vítimas abrindo suas barrigas, arrancando suas vísceras e enrolando seus intestinos em estacas.
A multidão enfurecida fica histérica; seu mundo está desmoronando.
Isso exige uma reacção.
E, durante os quatrocentos anos que se seguiram, eles reagiram.
Joshua estava certo:
aquele foi o começo das Cruzadas, também conhecidas como Guerra Santa.
André imediatamente se alista para ser um soldado de Cristo e orgulhosamente ostenta seu símbolo: a cruz.
Por dez longos anos, André e seus colegas cavaleiros traçam um caminho sangrento da Europa até o Oriente Médio, tudo em nome de Jesus.
Papas e bispos orientam esses cavaleiros a matar e saquear a seu bel-prazer.
- Vocês serão perdoados, porque estão agindo em defesa de Jesus e da Santa Igreja.
- Você fez isso por Jesus ou por si mesmo? - o professor confronta Assan.
Será que aquilo não foi uma desculpa para deixar que sua revolta e seu ódio fossem satisfeitos?
Só você pode responder a essa questão.
Assan não profere uma só palavra, enquanto o palco da vida mostra cenas em que ele e seus soldados pilham sinagogas judias, profanam mesquitas muçulmanas e matam centenas de milhares de "incrédulos".
"Os céus os esperam de portas abertas", garante-lhes a Igreja.
"O que estão fazendo é em nome de Deus."
- Por quê, Assan, por quê? - insiste o professor.
Os cruzados lutavam sem medo ou misericórdia porque o papa, o representante de Deus na Terra, lhes garantia o paraíso eterno.
Assan está vidrado naquele fragmento holográfico de sua vida, e o professor faz outra pergunta:
- Isso tudo lhe parece familiar, Assan?
Guerras santas, infiéis, uma única religião verdadeira, morrer por Deus, vida eterna no paraíso?
O adolescente devolve um triste aceno positivo com a cabeça.
Há um momento de silêncio até que Assan, com voz amargurada, acrescenta:
- Usei essas palavras duas vezes - admitiu, sem dizer mais nada. Mas não era preciso.
O filme em três dimensões sobre o palco da vida descortina outra cena.
Um prédio está em chamas e vozes são ouvidas, gritando contra as labaredas que se erguem na escuridão da noite.
- São judeus - explica o professor.
Os cruzados estão queimando-os vivos dentro de sua própria sinagoga, da mesma maneira que queimaram muçulmanos dentro de suas próprias mesquitas.
André é visto montado em seu cavalo, rosto iluminado pelas chamas, assistindo ao diabólico holocausto.
Uma nova imagem rapidamente se materializa sobre o palco.
A imagem de um holocausto é substituída pela de outro, onde cadáveres e mais cadáveres, amontoados em pilhas de até dez metros de altura, eram queimados, estalando sob o sol do meio-dia.
- Agora, são muçulmanos - observa Joe.
Os Cavaleiros Sagrados estão queimando os corpos de suas vítimas.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:11 am

Queimam os judeus, depois cremam os muçulmanos; mas as cinzas são todas as mesmas.
Assan vê a si mesmo rindo e bebendo enquanto a gordura dos corpos derrete e escorre para a fogueira fúnebre, alimentando as chamas.
- Você sente a revolta percorrendo seu espírito? - pergunta o professor a Assan.
Só você sabe quais eram suas verdadeiras intenções:
salvar o mundo para Cristo ou sentir o poder que sua revolta e seu ódio lhe proporcionavam.
Joe fita Rosa, que desviara o olhar dos horrores sobre o palco.
- Está vendo, Rosa, como os tais "religiosos" usam a fé e as paixões?
Está vendo o que a intolerância pode causar?
Até que não mudou muita coisa, mudou?
O ciclo de preconceito e ódio ainda reina sobre a face da Terra.
A mulher não queria ceder nem um centímetro.
Ela se agarra as suas crenças como um soldado se agarra a seu rifle.
- Francamente, nunca achei que os católicos fossem verdadeiros cristãos.
Sentado perto dela, Joshua bufa e resmunga:
- Dê um tempo, dona.
Assan e seus colegas de classe vêem outra imagem formar-se sobre o palco:
André morre em meio a uma batalha.
A espada de um soldado muçulmano atravessa seu coração e ele morre sozinho num terreno rochoso a milhares de quilómetros do lar.
Os alunos vêem o espírito abandonar o corpo do cavaleiro morto.
Guias espirituais estão a seu lado, esperando para ajudar na passagem da Terra para o plano astral.
- O espírito espera sua "justa recompensa" - comenta o professor.
Ele aceita a morte, esperando por seu galardão.
E, quando chegar a hora, ele o receberá.
Os alunos seguem o espírito de André para o lado astral.
Durante os primeiros anos, o espírito deixou-se atrair por outros que compartilhavam suas vibrações, misturando-se a guerreiros desencarnados.
- Eles foram atraídos para uma vibração cruel, brutal.
Enquanto estavam encarnados, eles acreditavam que assassinar, torturar, estuprar e saquear era certo, se tudo isso fosse feito em nome de Deus.
Eles terminaram suas vidas terrestres em ódio e violência; estavam mergulhados numa vibração de ódio e violência.
Eles não podiam seguir adiante.
Seu ciclo permanecia inquebrável; sua revolta os trouxe à revolta, seu ódio os guiou ao ódio.
Centenas de anos terrestres se passaram, contou o professor, e alguns dos ex-Cavaleiros da Santa Cruzada cansaram-se da incessante brutalidade ao redor deles. Eles buscavam algo melhor.
- No fim, eles encontraram seu paraíso - revelou Joe enquanto o palco mostrava à classe imagens de enormes nuvens e pastos verdes infindáveis.
Por meio de suas próprias vibrações e pensamentos, eles criaram o céu da forma como lhe ensinaram que um céu deveria ser.
Mas, depois de certo tempo, alguns deles passaram a achar aquilo vazio, porque as palavras e os homens que os ensinaram sobre aquele céu eram vazios, também.
O professor, ainda tentando romper as barreiras ao redor de Rosa, faz com que ela recorde:
- Eles fizeram o mesmo que você e seus amigos do coral:
criaram aquilo que esperavam ter.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:11 am

Mas no final das contas aquilo não passava de uma ilusão.
A mulher, fria e impassivelmente, devolve-lhe o olhar, sem dizer nada.
Joe ignora seu antagonismo.
Ele sabe que a está provocando.
Está fazendo de propósito, pois é a única forma de derrubar sua muralha.
Ao deixar Rosa sibilando de hostilidade, o professor continua falando para a classe sobre o progresso de André no mundo astral.
- Ele era um dos cruzados que queria mais.
Sua igreja não havia explicado o bastante sobre o cotidiano no céu.
Ele e os outros que compartilhavam a mesma vibração simplesmente não tinham mais nada para criar.
Lembrem-se:
espíritos criam com pensamentos.
Eles criaram o que eles esperavam ter e, como não sabiam exactamente o que esperar, eles não sabiam como continuar.
André começou a se perguntar o que havia por trás daquelas enormes nuvens e por trás daqueles pastos verdejantes.
O cenário sobre o palco muda novamente.
O céu imaginário desaparece.
Nenhuma nuvem macia e branca, nenhuma grama verde brilhante.
Em vez disso, lá estão apenas André e uma mulher, numa sala lotada de livros, do chão ao tecto.
Uma fresta de luz, da mesma luz que emanava do domo de cristal sobre a classe, iluminava a sala com um brilho suave.
Assan reconhece a mulher.
- E Cláudia, minha guia - diz, admirado.
O professor lembrou à classe que todos eles tinham guias e orientadores.
- Foram eles que trouxeram vocês aqui.
Uma vez que André aceitara sua morte havia muito tempo, ele e sua guia começaram imediatamente a rememorar a última encarnação.
- Algo como o que estamos fazendo agora - explica o professor.
Assan corrigiu o professor.
- Só que com ela foi mais demorado.
Nós revisamos tudo - disse ele enquanto recobrava as lembranças de sua retrospectiva da alma.
Meus pais, amigos, as pessoas que conheci, como eu reagi, o que pensei e quais eram minhas intenções.
E o mais importante:
o que eu havia preparado para aquela encarnação.
O que eu consegui cumprir e o que não.
O adolescente confessou que abusara da riqueza e dos privilégios com que nascera.
- Eu estava apegado à igreja não porque era um homem religioso.
Eu estava atraído pelo seu poder e sabia que ela iria me trazer ainda mais poder.
Anos de estudo, aprendizado e reflexão passaram diante de André.
E, como sempre, o espírito, por conta própria, decidiu que era hora de viver na esfera terrestre mais uma vez e ver se conseguiria pôr em prática tudo que aprendeu.
E, como sempre, foi o espírito, em conjunto com sua guia, que traçou o rascunho do que seria sua próxima vida.
- Tive poder e posição social e abusei disso.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:12 am

Imaginei que poderia aprender como seria se eu não tivesse posição social nem poder.
Joe revelou à classe que a guia de André tentou convencê-lo a não escolher uma encarnação naqueles moldes.
- Ela disse a André que isso não iria contar tanto.
Carma, como Cláudia tentou explicar a ele, é mais do que dar ou tomar na mesma moeda.
Carma é evolução e progresso.
A classe viu Assan estremecer e encolher-se.
- Não lhe dei ouvidos.
Mas alguma coisa aconteceu que acabou mudando os planos. Eu não nasci.
Assan disse que não conseguia se lembrar do que era, mas "foi horrível".
Mais uma vez, o palco da vida mostrava André e Cláudia juntos, planeando a nova encarnação.
- Eu tinha sido um perseguidor em minha última vida - dizia André à sua guia.
Acho que deveria aprender como é ser o perseguido.
Torturei e matei pessoas que eram diferentes de mim.
Tenho carma para equilibrar.
Em minha nova vida, eu deveria sentir a humilhação de ser diferente.
Os alunos viram Cláudia balançar a cabeça.
- Mais uma vez, ela está tentando colocar André em outro caminho - explicou o professor.
- As pessoas têm a ideia errada sobre esse negócio de carma - Cláudia dizia a André.
Um assassino não precisa voltar como uma vítima, assim como uma vítima não tem que voltar como um assassino.
Eu disse a você agora mesmo que carma é mais do que dar e tomar na mesma moeda.
Carma é equilíbrio, é simetria.
Carma não é o mesmo para todos, porque ninguém é igual.
André sacode a cabeça.
Ele não quer desistir de sua ideia.
- Sinto que devo aprender o que é sofrer da forma como eu fiz outros sofrerem.
- Carma não é punição - respondeu a guia calmamente.
E os milhares de mortos?
E os estupros, a tortura?
Como é que voltar no papel de vítima vai equilibrar essas atitudes?
Como isso pode ajudar alguém além de você?
Nós equilibramos o carma pelo que fazemos, não nos retraindo.
Aprendemos quando fazemos.
Mas o espírito estava irredutível.
- Já estou aqui há tempo demais.
Quero voltar.
Tenho certeza de que isso vai ser o melhor para mim.
- Cláudia sabia o que todos nós sabemos:
os espíritos têm livre-arbítrio e podem tomar suas próprias decisões - disse o professor à classe.
Nós podemos até mesmo desprezar conselhos de nossos próprios guias quanto a uma encarnação, se aquilo que a gente quer se encaixa na ordem do universo.
Joe fez uma pausa rápida e concluiu:
- E o universo sempre encontra um espaço para essa ordem.
Então outra vida de Assan começou.
E mais um flagrante da vida real se exibiu sobre o palco da vida.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 14, 2016 10:12 am

8 - Uma lição da vida: o segundo flagrante de Assan

Assim que André evapora do palco, uma música começa a ecoar pelas paredes da rotunda.
O ritmo é rápido e hipnótico, a batida sedutora e erótica.
Uma nova imagem emerge no palco da vida, mas o professor não está assistindo.
Ele está olhando para Rosa.
- Acho que ela vai ter um treco quando vir isso - confidencia Joe a você.
Você sabe que ele está meio que brincando, mas esse comentário aguça sua curiosidade.
- O que pode ser mais chocante que matança e tortura?
Joe responde com uma piscadela e um sorriso, enquanto começa a descrever o próximo flagrante da vida real.
O espírito que era André agora é Steve, que, depois dessa encarnação, se tornará Assan.
- Estamos em 1959.
A cena fica nítida e ganha vida, transportando a classe para um teatro escuro, esfumaçado e decadente.
Todos os assentos estão tomados e, sobre o palco apertado, um rapaz alto, louro e bonito rebola e rodopia.
O jovem dança e gira.
Ele faz pose e se exibe em sincronia perfeita com as batidas da música.
A plateia, composta só de homens, está completamente vidrada em cada um de seus movimentos e posições.
O dançarino louro sorri e pisca para seu público já cativo.
Ele tira a camisa e os quadris balançam ao ritmo que ecoa dos distorcidos alto-falantes do teatro.
Os homens na plateia aplaudem quando o rapaz, coberto de suor, rodopia sob a luz forte e branca dos reflectores.
A música fica mais lenta.
O garoto remexe os quadris de forma sedutora.
Ele se vira de costas para a plateia, deixando-os olhar com avidez e criar fantasias.
Ele ouve assobios e murmúrios.
Ele sente o calor dos olhos famintos em suas costas.
Chegou a hora.
O dançarino vira-se, sorri, e despe-se das calças, revelando uma minúscula tanga branca.
As luzes se apagam.
E uma nova cena oscila sobre o palco da vida.
Steve, com outros quatro dançarinos, encosta-se sensualmente numa parede, em uma sala pequena e pouco iluminada, nos fundos do teatro.
O show no palco era de graça.
Agora, ele está oferecendo "shows particulares".
Vinte dólares pagam um passeio rápido pelo banheiro; cem dólares, uma hora num hotel da vizinhança.
Assan suspira.
Mais um véu é retirado.
Ele se lembra de tudo.
- Eu não tinha escolha.
Eu tinha só dezassete anos.
Precisava comer.
Meu pai me expulsou de casa porque eu era gay.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:34 pm

Rosa praticamente cuspiu as palavras ao dizer:
- Você é um jovem desprezível!
- E você é uma vaca recalcada! - devolve Assan.
James estende a mão e aperta o ombro de Assan, assegurando:
- Está tudo bem.
O professor volta a lembrar Assan e Rosa sobre julgamentos.
- Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra - disse, deliberadamente citando o livro que a mulher afirmava orgulhosamente ser seu guia de vida.
- Ele é um sodomita e um prostituto - rosna a mulher.
Se você leu a Bíblia que acaba de citar, sabe o que ela diz sobre esse tipo de gente.
Rosa estava lívida.
Ela apertou os olhos, encarou Assan e cuspiu, repetidamente, a palavra "sodomita".
O professor decide não a deixar sem resposta desta vez.
- Rosa, a Bíblia diz muita coisa.
Sabe o que diz sobre escravos?
A Bíblia os exorta a amar e obedecer a seus mestres.
Joe disse que a Bíblia não podia ser lida ao pé da letra, "muito embora lhe tenham ensinado desse jeito".
Ele dá a Rosa alguns conselhos:
- A Bíblia não é um manual de carro, não é um projecto para a vida e, principalmente, não deve ser lida sob o ponto de vista de outros.
Você deve lê-la com seus próprios olhos e coração.
Deixe-a penetrar em sua alma sem nenhum filtro ou preconceito.
Ele repassa a Rosa e à classe o que um rabino lhe ensinou:
"A Bíblia deve ser lida sem segundas intenções."
- Eu me lembro de não ter a menor ideia do que ele estava falando, então perguntei a ele.
"Você a lê porque é a palavra de Deus, e ponto final", foi a resposta.
Você não a lê para achar respostas, decorar trechos, nem mesmo para ensinar.
Você não a lê para memorizar ou escolher citações que sirvam como meta na vida.
Você a lê porque ela está lá.
A classe estava confusa.
- É muito simples.
Leia a Bíblia sem pensar que a está lendo.
Se fizer isso, vai entender.
- Vou deixar que eles digiram isso por algum tempo - avisa Joe, e acrescenta com uma gargalhada:
Preciso voltar para Rosa e os sodomitas.
- A homossexualidade não é uma escolha, no modo como você pensa que é, Rosa.
E biológico. Espíritos, como o de Assan, por vezes escolhem nascer num corpo com tendências homossexuais por uma razão.
Ele queria ser uma vítima, lembram-se?
Ele sabia que a explicação não iria acalmar a mulher.
E ele estava certo.
- Não existem limites? - gritou ela, levantando-se de onde estava, ao mesmo tempo em que ajustava o blazer.
Você fecha os olhos aos sodomitas e aos que vendem o corpo.
Não há nada que você condene?
Os olhos de Rosa desafiavam o professor.
Com visível desconforto, os alunos esperavam pela resposta.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:34 pm

Joshua viu méritos nos argumentos da mulher.
"Existem limites", disse ele a si mesmo.
James sorriu para seu novo amigo Assan, que apoiou a cabeça entre as mãos.
- Eu não condeno nem perdoo nada nem ninguém.
Joe, sem se mover de seu lugar bem no meio do semi-círculo, encarou sua oponente.
Porque de uma forma ou de outra, todos nós, em uma ou outra vez, pegamos todos os caminhos que existem para ser tomados.
Não há pretos ou brancos, certos ou errados.
Há apenas escolhas e os resultados dessas escolhas.
Rosa olhou em volta do semicírculo, para os outros alunos.
Ao ver que nenhum deles iria ficar de seu lado, ela bufou e voltou para seu assento.
O professor, sem dizer palavra, virou-se e apontou para o palco da vida, onde, mais uma vez, a cena havia mudado.
Era 1964- Cinco anos se passaram.
Um homem brutalmente espancado jaz na cama de um hospital.
Ferimentos e cortes profundos, feitos com facas, cobriam todo o seu corpo, mantido vivo por tubos e aparelhos.
É Steve. Ele está sozinho.
Este não é mais o jovem bonito que dançava despreocupadamente no palco da boate gay alguns anos atrás.
Ele é um moribundo retalhado, surrado e cheio de hematomas.
Um médico pára perto dele, balança a cabeça e sussurra em seu ouvido:
- Ligamos para o número que nos deu.
Ela disse que não pode falar com você.
O médico disse ainda que a mulher do outro lado da linha pareceu assustada.
- Estou morrendo, não estou?
Aquilo nem era uma pergunta.
O médico aproximou-se, tocando suavemente as mãos daquele corpo destroçado.
- Não vou mentir para você, filho.
- Eu queria ouvir a voz dela, uma última vez.
Meus pais me puseram para fora de casa.
Nunca vou esquecer o dia em que meu pai me encontrou com um amigo.
O ódio e o desprezo em seu rosto...
Nunca mais o vi, nem minha mãe.
Liguei uma vez, ela atendeu.
Ouvi sua voz, chorei e desliguei.
Em seus momentos finais, Steve lembrou-se dos homens que o espancaram.
- Eles me pegaram no Central Park.
Eles me esfaquearam.
Chutaram minha cara.
E me chamaram de bicha, veado, pederasta.
A dor de suas lembranças rivaliza com a dor em seu corpo.
A dor de sua humilhação compete com sua luta pela vida.
A vida é derrotada.
A luta acabou.
Mais uma vida acabou.
Uma nova vai começar.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:34 pm

9 - Uma lição da vida: Assan é Assan

Um estrondo de milhares de trovões; mas não são trovões.
Uma intensa luz branca ofusca os sentidos; mas não é um relâmpago.
Sem nenhuma emoção e sem ser dramático, o professor anuncia:
- Foi assim que acabou a última encarnação de Assan.
Do fundo da sala de aula ecoava a sirene de ambulâncias e por todos os lados podiam-se ouvir gemidos e lamentações de seres humanos feridos.
Mas não havia nenhum sinal de Assan.
A cena sobre o palco da vida está totalmente tomada por poeira e fumaça.
Por um buraco aberto numa parede, os alunos puderam ver o interior do que era um restaurante lotado em Telavive.
Corpos e partes de corpos forram o chão.
Estilhaços de vidro, muitos deles enterrados em crânios e peitos humanos, brilham pelo ambiente.
Mas nada de Assan.
Nas paredes que sobraram do pequeno prédio, manchas vermelhas de sangue espirrado se misturam com pontos acinzentados de pedaços de cérebro humano.
Um bombeiro diz:
- Estamos literalmente raspando gente das paredes.
Mas nada de Assan.
Ali, onde era o centro do restaurante, um jovem e sua namorada jazem, mortos.
Em alguns minutos, o menino ia pedi-la em casamento.
Ela teria dito sim, mas não teve chance para isso.
A alguns metros dali, os corpos desfigurados e sangrando de uma menina de seis anos e de um menino de oito estão grudados ao cadáver de um velho com barbas brancas.
Os irmãos mortos estavam passando a noite com o avô.
Ao todo, vinte e sete mortos.
De dez feridos, três jamais iriam andar novamente, dois estavam cegos para o resto da vida e um morreria em alguns dias.
Mas nada de Assan.
O adolescente não podia ser encontrado porque seu corpo se misturava aos pedaços de outros corpos, os de suas vítimas, que explodiram com a dinamite presa ao corpo dele.
- Assan - revelou o professor - era um homem-bomba.
Ele achou que morria por uma causa, como fizera milhares de anos antes.
- Paraíso eterno. Absolvição. Santificação.
Felicidade. Guerra Santa. Matar. Morrer.
Joe fez pausas propositais entre cada palavra, dando aos alunos a chance de fazer a associação entre as falsas promessas de ambas as encarnações.
- As mesmas ideias.
Religiões diferentes. Épocas diferentes.
Os mesmos resultados.
Mas suas palavras tiveram pouco ou mesmo nenhum efeito, ao menos para Rosa e Joshua.
Do outro lado do semicírculo, Joshua dá um longo suspiro.
- De bicha a homem-bomba.
Você realmente ganhou colhões, garoto! - ri o negociante, enquanto balança a cabeça.
Assan não diz nada.
Rosa, sendo Rosa, fica de pé, atravessa o semicírculo e encara Assan de um modo superior.
Com voz alta e penetrante, ela grita para o adolescente:
chegou a hora de pedir perdão.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:35 pm

- Você devia cair de joelhos agora, seu pagão, e aceitar Jesus como seu salvador.
Faça isso agora.
Só Ele poderá salvá-lo.
Assan devolveu-lhe o olhar duro e gelado, mas foi James quem falou em sua defesa:
- Talvez não tenha percebido.
Ele já fez o que tinha que fazer por Jesus e já fez também por Alá.
O negro apontava para o palco da vida, onde a fumaça e a poeira pairavam no ar.
E olhe aonde isso o levou.
James esperou pela reacção dela.
Quando nada aconteceu, o negro deu um enorme e desconcertante sorriso e disparou mais uma rajada:
- Dona, olhe ao seu redor.
Tudo que vem pregando e esbracejando trouxe-a para o mesmo lugar que nós, pagãos.
Rosa começou a dizer alguma coisa, mas James interrompeu-a com o que ele pensou ser seu melhor argumento:
- E por que está tão aborrecida com isso tudo?
Você disse que não acreditava em nada disso, mesmo.
Ele deixou a mulher reflectir por um segundo.
Quando ela estava se recolhendo a seu assento, James voltou-se para seu mais novo amigo.
Ele passou seu braço musculoso ao redor dos ombros do rapaz e, olhando desafiadoramente para Rosa e Joshua, disse a ele:
- Você foi uma vítima da ignorância.
Assim como eu.
Assan balançou a cabeça.
- Não sei quanto a você, mas eu me deixei ser uma vítima.
Sei disso agora.
Os alunos viram que a sala de aula voltava lentamente ao normal.
O palco da vida estava vazio.
A fumaça, a poeira e a carnificina desapareceram e a luz suave e dourada novamente mandava seus raios pelo domo.
Joe voltou-se para Rosa, enterrada em sua cadeira, cantarolando baixinho um de seus hinos.
Ele não estava disposto a facilitar.
Ele achava que o espírito, depois de ver o desfile das vidas de Assan, podia estar pronto a aceitar o facto de que havia mais em sua vida, existência e ser do que sua religião ensinou.
Mas ele também sabia que, até que ela estivesse pronta para se abrir, permaneceria agarrada àquelas crenças com a força de um pitbull.
- Ela não tem mais nada - Joe sinaliza a você.
Se a privarmos de seus preconceitos e intolerâncias, não vai sobrar nada.
- Rosa - disse ele - chegou a hora de responder a uma de suas perguntas, aquela sobre limites.
A mulher levantou o queixo, desafiando o professor.
Ela estava alerta e pronta para atacar cada uma das palavras do mestre.
- Claro que existem limites - admitiu Joe.
Mas esses limites não podem ser impostos.
Eles têm que ser aprendidos.
A mulher agitou arrogantemente sua mão no ar e rejeitou tudo que o professor dizia com uma só palavra:
- Bobagem!
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:35 pm

Bravamente, ou talvez até encorajado pela atitude de Rosa, o professor continuou abrindo caminho sem perder o ritmo.
- Todas as religiões ordenam: não mate, não roube, não minta e não trapaceie.
E, mesmo assim - ele sorriu -, as pessoas matam, roubam, mentem e trapaceiam, às vezes até mesmo em nome dessas religiões.
Na Terra, os países fazem leis e punem pessoas quando matam, roubam, mentem e trapaceiam.
E, mesmo assim - ele sorriu novamente -, as pessoas matam, roubam, mentem e trapaceiam, muitas vezes em nome desses países.
Os alunos, inclusive Rosa, sabiam que o professor tinha razão.
E eles, incluindo Rosa, esperavam pelo que ele ia dizer a seguir.
- Limites precisam ser aprendidos até que não sejam mais limites.
Eles precisam se tomar uma parte de você de tal maneira que nem precisem existir.
- Vou deixar tudo claro agora - Joe avisa você.
- Se você limitar pelo medo, não estará ensinando, mas sim manipulando.
- Se você limitar pela punição, não estará ensinando, mas sim controlando.
- Se você limitar pela recompensa, não estará ensinando, mas sim subornando.
- E, Rosa, se há uma coisa que posso dizer a você com absoluta certeza, é o seguinte:
Deus não manipula, não controla e não suborna.
Para que Ele nos daria o livre-arbítrio, se fosse assim?
Joshua, o prático e calculista homem de negócios, recosta-se em sua cadeira e faz uma pergunta:
- Como devemos aprender, se não através dos limites?
As pessoas precisam de regras, você sabe.
O professor caminha até Joshua, sorrindo e balançando a cabeça de um lado para outro.
- Existem regras, mas elas não são feitas pelos homens.
Existem verdades universais, e elas são constantes; elas não mudam com a opinião pública, com as oportunidades políticas ou com as conveniências culturais.
- E como se espera que aprendamos essas regras? - bufou Rosa.
- Onde elas estão escritas?
- Estão escritas em todos os lugares, mas nós as aprendemos por meio de escolhas e dos resultados dessas escolhas.
Isso é chamado carma.
Nós escolhemos. Nós agimos.
Então vivenciamos os resultados dessas acções.
É assim que aprendemos, crescemos e evoluímos como espíritos.
Não através do medo, intimidação ou imposição.
Nós aprendemos por nós mesmos e com os outros.
Um Assan reservado murmurou:
- Eu provavelmente não aprendi muito bem, então.
Fiz a mesma coisa que havia feito mil anos antes.
Rosa acrescentou, em voz alta o suficiente para que todos ouvis
sem, um sarcástico "amém".
Joe ignorou o "amém", mas repreendeu Assan:
- Não comece com essa história de autopiedade.
O adolescente não esperava aquele tipo de resposta para seu gesto de arrependimento.
James encarou o professor, sem parecer acreditar no que havia ouvido.
Rosa, por outro lado, ostentava um sorriso satisfeito:
"Finalmente, ele está levando o que merece", pensou.
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