DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:35 pm

Joshua outra vez se recostou em seu papel de observador desinteressado, superior, acima de toda a discussão.
Assan protestou:
- Pensei que era para isso que estávamos aqui.
Para ver o que fizemos de errado.
- Certo, errado. Alto, baixo.
Esquerda, direita.
A longo prazo, nada disso faz muita diferença - disse Joe num suspiro, consciente de que os alunos não tinham a menor ideia do que ele estava falando.
O professor atravessou o semicírculo para parar junto a Assan.
Com voz suave e calma, disse-lhe que ninguém estava ali para julgar, culpar ou acusar.
- Você está aqui para crescer, não para bater no peito, murmurando "mea culpa".
Se você quer evoluir, você não pode mergulhar na autopiedade.
De volta ao palco da vida, o que parece ser um longo "S" branco materializa-se no centro.
O professor permite que os alunos observem a forma por alguns momentos.
- Deixemos que tentem entender por si mesmos - sussurra ele para você.
- Posso garantir uma coisa: não é o "S" do Super-Homem.
Nem mesmo é um "S".
- Fios - é tudo que Joe diz aos alunos, enquanto ele caminha a passos longos e vagarosos até a frente do palco da vida, deixando o "S" brilhante atrás dele.
Não recebendo nada além de olhares vazios de seus alunos, ele lhes refresca a memória repetindo o que dissera momentos antes de começarem a ver os flagrantes da vida de Assan.
- Cada vida é a base para a seguinte.
O que vivenciamos em uma levamos para a próxima.
Fios infinitos ligam uma vida à outra.
E - acrescentou - os fios nos dão pistas.
Eles são os trilhos, deslizando como um "S", unindo uma encarnação à outra.
No meio do palco, além do "S", surge a imagem do cruzado André.
- Só mostrei as partes relevantes de cada encarnação, os trechos que mostram as ligações.
Outra imagem:
André comandando o incêndio de uma sinagoga repleta de judeus.
- O espírito é o centro das atenções.
Ele está no comando.
Ele é o astro.
Outra cena surge entre as outras duas:
André comandando seus cavaleiros em batalha.
- Os homens esperam suas Ordens.
Você é o chefe, interpretando o papel principal.
Então, as três imagens de André desaparecem.
O "S" brilha.
A encarnação é outra.
Agora, lá está Steve dançando e brincando com seu público.
- Novamente, o espírito é o astro, manipulando e provocando as emoções dos homens ao seu redor.
O professor pede a Assan que lembre por que escolheu aquela encarnação.
- Pode se lembrar das palavras exactas que usou com sua guia?
O adolescente respondeu à pergunta com um olhar vago.
Mas ele estava certo de que o professor ia achar uma forma de fazê-lo lembrar.
E assim fez o professor.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:35 pm

De algum lugar fora do palco, os alunos ouviram André decidindo tornar-se Steve.
- Eu era um perseguidor.
Eu deveria aprender como é ser uma vítima.
Eu deveria sentir a humilhação de ser diferente.
- Eu. Eu. Eu. Eu - parodiou Joe.
É tudo que ouço.
Assan estava confuso.
Ele disse que, depois da encarnação como André, estudou muitos anos no mundo astral, onde começou a aprender sobre carma.
- Pensei que deveria aprender com aquilo que fiz.
Joe fechou os olhos e balançou a cabeça.
Mas não disse nada.
Ao invés disso, apontou para o palco da vida, onde a classe viu Assan momentos antes de sua explosão mortal.
- Lá está você de novo: o centro das atenções, pregando alguma Guerra Santa.
Joe pediu a Assan, novamente, que lembrasse como ele escolhera aquela encarnação.
O adolescente sacudiu os ombros, sabendo que Joe acharia um jeito de lembrá-lo.
E foi o que fez o professor.
Uma luz brilhante, surgindo ao lado de Joe, lentamente se transforma em Cláudia, a guia de Assan.
- Lembra-se dela? - Joe brinca com Assan.
O professor pede para a guia descrever como Steve se transformou em Assan.
- O espírito quis viver como um muçulmano.
"Afinal, eu tentei destruí-los uma vez", foi sua argumentação.
Como eu sempre fiz, perguntei-lhe qual era o propósito dessa encarnação.
- Qual foi a resposta? - provocou Joe.
Um sorriso se abriu no rosto da guia e os cantos dos olhos azuis dela se enrugaram quando ela lembrou a resposta do espírito.
- Ele disse:
"Talvez eu possa aprender um pouco de disciplina".
A jovem de cabelos escuros e esvoaçantes descreveu como Steve, preparando-se para ser Assan, escolheu nascer num lar islâmico ortodoxo:
"Assim posso ter certeza de que serei um muçulmano fundamentalista e devoto".
Joe lançou um olhar para Assan, que confirmou a história com um aceno de cabeça e disse:
- Achei que seria uma maneira de pagar pelas acções de André, o cruzado, e de me redimir por ter sido um garoto de programa.
Eu precisava de alguma disciplina em minha vida, então pensei que dessa forma mataria dois coelhos com uma paulada só - ele sorriu mansamente.
Cláudia deu uma sacudidela nos ombros, como querendo dizer:
"O que se pode fazer quando eles não entendem?"
E, sentindo que sua presença já não era mais necessária, ela se foi assim como chegou.
Sua silhueta alta e bela transformou-se numa luz branca que foi apagando-se lentamente, enquanto flutuava para o domo de cristal.
Sacudindo a cabeça, o professor apontou sobre seu ombro para o "S", ainda branco e brilhando atrás dele, no palco da vida.
- Eu. Eu. Eu - repetiu.
Esta é uma de suas ligações, Assan.
Você pensa no carma em razão de si mesmo.
Você só enxerga como suas acções vão afectar a você, e não ao outros.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:35 pm

Rosa, que estava segurando a língua até aquele momento, fez a pergunta que estava na cabeça de todos:
- E o suicídio?
Eu aprendi que é o maior dos pecados.
Apenas Deus pode tirar uma vida.
Assan não apenas tirou a vida de muitos outros - disse com veemência - como tirou a sua própria.
Joshua, e até mesmo James, concordaram com o que Rosa dissera.
Joe também.
- Mas - alertou o professor - sempre há um "mas".
E aqui ele se chama intenção.
Este não foi um suicídio levado a cabo num quarto de hotel barato, onde um espírito, fracassado na vida, desiste de viver.
Como eu falei a vocês, uma vida leva a outra.
Se você termina sua vida em desespero ou tristeza, você faz a passagem para uma vibração de desespero e tristeza.
Você faz a passagem sem fé.
O palco da vida agora mostrava um plano vasto, vazio e escuro.
Nenhuma árvore, nenhum arbusto, nenhum brilho de luz aquecia o local devastado.
- Espíritos que perderam as esperanças acabam aqui - explicou Joe.
Às vezes, um suicida não pode sequer compreender que está vivo.
Quando um espírito perde a fé e a esperança, ele não aceita que há uma vida depois de sua morte.
Esses espíritos podem vagar por séculos, vivendo presos a seu próprio desespero e tristeza.
Imaginem o que seria viver sem saber que está vivo.
Joe deixou claro que o caso de Assan, no entanto, era diferente.
- Seu suicídio teve uma simples razão: ele pensou que estava fazendo um protesto político e religioso.
Os resultados são os mesmos, mas as intenções são diferentes, assim como o carma que é criado.
O professor decidiu que seria melhor voltar um pouquinho para explicar melhor seu argumento.
- Depois da encarnação como André, o espírito estava mergulhado numa vibração violenta.
Ele viveu uma vida selvagem e continuou numa vida selvagem do lado de cá.
O tempo passou e o espírito, por sua própria conta, cansou-se do círculo vicioso de violência.
Ele queria algo melhor.
Ele seguiu adiante. Ele evoluiu.
Sem nenhuma pausa ou hesitação, Rosa declarou:
- Para dar glória a Deus, para servir a Ele e pregar Sua palavra.
Para dizer a todas as nações que Jesus é a verdade e o único caminho para o Criador.
O professor esfregou os dedos no queixo preguiçosamente e perguntou:
- E se houver algo mais?
Rosa sacudiu a cabeça e disse ao professor que não havia nada além disso:
- Fomos criados para engrandecer Sua glória e para fazer Sua vontade.
- O que quer dizer com isso?
Que estamos vivos para servir a Deus e falar ao mundo sobre Jesus?
É isso? Nada mais? - Joe revirou os olhos, sem acreditar.
Ela já estava vencida por essa pergunta, mas o professor não parou por aí.
- Só isso? - insistiu, exagerando em seu descrédito, levantando as mãos para o alto.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:36 pm

Isso é tudo que existe?
Deus nos criou porque Ele nos ama e quer que nós passemos toda a nossa vida pregando Sua palavra.
É simples assim?
- Sim - respondeu Rosa, esperando pôr um fim ao interrogatório.
- E, se você viver toda a sua vida fazendo isso, o que acontece?
- inquiriu Joe, parando bem em frente a ela.
Os olhos da mulher apontaram para o alto, em profunda irritação.
- Você recebe sua recompensa justa e direita:
alegria eterna no paraíso ao lado de Jesus - recitou correctamente.
Joe sorri para ela e imediatamente dispara para Joshua a próxima pergunta:
- Você passou a vida pregando a palavra de Deus?
- De jeito nenhum - sorriu Joshua.
- Pelo menos léu a Bíblia?
- Nunca me interessei - foi a resposta rápida e segura.
- E você, Assan? - perguntou Joe.
Já leu a Bíblia?
- E você? O que deixou na Terra?
O jovem negro encarou o professor com um olhar distante e entristecido.
- Muita dor - suspirou - e arrependimento.
- Aposto que você também trabalhou muito - provocou o professor.
- Feito escravo.
Joe encolhe os ombros.
Ele olha para Joshua, e depois novamente para James.
E balança a cabeça, sem poder acreditar.
- Por que a vida dos dois foi tão diferente, Rosa?
Se Deus os ama da mesma maneira, por que um passou pela vida construindo um império e o outro rastejou pela Terra, apenas sobrevivendo?
"Cara, os trens vão bater já, já", diz você a si mesmo.
A resposta de Rosa foi rápida, porque era algo que ela tinha decorado na Terra anos atrás.
- Leia sua Bíblia, rapazinho - decreta triunfante.
Jesus e a Parábola dos Talentos.
Joshua usou seus talentos, o que agradou a Deus.
James provavelmente não usou os dele, portanto não teve recompensas. Simples.
O professor sorriu e comentou, sem rodeios:
- Cuidado com os julgamentos, Rosa.
Pelo que sei, a Bíblia diz alguma coisa sobre isso, também.
Mas, antes que Rosa pudesse abrir a boca, o professor insistiu:
- Por que Deus fez tudo mais fácil para Joshua do que para James? - questionou, andando de um lado para outro dentro do semicírculo.
A resposta de Rosa Maria, mais uma vez, veio da Bíblia.
- Deus age de formas misteriosas.
Você pode achar isso na Bíblia, também - disse ela, arrogante.
Joe concordou, acrescentando que provavelmente se pode achar uma resposta para tudo na Bíblia, "ainda que tenha sido escrita há milhares de anos".
Rosa não percebeu o golpe e curvou a cabeça, solenemente.
- Mas, Rosa, você ainda não respondeu à pergunta:
o que estamos fazendo aqui?
Por que estamos vivos?
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:36 pm

Qual a razão disso?
Sem nenhuma pausa ou hesitação, Rosa declarou:
- Para dar glória a Deus, para servir a Ele e pregar Sua palavra.
Para dizer a todas as nações que Jesus é a verdade e o único caminho para o Criador.
O professor esfregou os dedos no queixo preguiçosamente e perguntou:
- E se houver algo mais?
Rosa sacudiu a cabeça e disse ao professor que não havia nada além disso:
- Fomos criados para engrandecer Sua glória e para fazer Sua vontade.
- O que quer dizer com isso?
Que estamos vivos para servir a Deus e falar ao mundo sobre Jesus?
É isso? Nada mais?? Joe revirou os olhos, sem acreditar.
Ela já estava vencida por essa pergunta, mas o professor não parou por aí.
- Só isso? - insistiu, exagerando em seu descrédito, levantando as mãos para o alto.
Isso é tudo que existe?
Deus nos criou porque Ele nos ama e quer que nós passemos toda a nossa vida pregando Sua palavra.
É simples assim?
- Sim - respondeu Rosa, esperando pôr um fim ao interrogatório.
- E, se você viver toda a sua vida fazendo isso, o que acontece? - inquiriu Joe, parando bem em frente a ela.
Os olhos da mulher apontaram para o alto, em profunda irritação.
- Você recebe sua recompensa justa e direita:
alegria eterna no paraíso ao lado de Jesus - recitou correctamente.
Joe sorri para ela e imediatamente dispara para Joshua a próxima pergunta:
- Você passou a vida pregando a palavra de Deus?
- De jeito nenhum - sorriu Joshua.
- Pelo menos léu a Bíblia?
- Nunca me interessei - foi a resposta rápida e segura.
- E você, Assan? - perguntou Joe.
Já leu a Bíblia?
Estudou e aprendeu tudo que podia, compreendendo o que estava pronto para compreender.
Ele estudou o carma, mas não entendeu bem do que ele se tratava, porque o espírito simplesmente não estava pronto para isso.
Joe saiu de onde estava, em frente ao palco da vida, para voltar ao centro do semicírculo.
Ele percebeu que a classe, incluindo Rosa, estava atenta a cada uma de suas palavras.
- Enfim, consegui envolvê-los todos - diz ele a você.
- Depois da encarnação como Steve, o espírito fez a passagem e foi recebido por Cláudia - contou Joe, decidindo que essa era uma boa hora para começar a mostrar os fios que ligavam as encarnações de Assan.
- Suas intenções - o professor olhava agora para Assan - sempre foram centradas em VOCÊ, e nunca em seu carma.
Com essa frase, Joe atraiu a atenção da classe para o local onde estava o palco da vida.
Três imagens surgiram, uma ao lado da outra.
André: seu corpo mortalmente ferido pelo golpe que atravessou seu coração.
Steve: o que sobrou de um homem brutalmente surrado morrendo na cama de um hospital.
Assan: seu corpo rasgado e fragmentado em milhares de pedaços e partes da bomba construída e detonada por ele.
- Alguém aí consegue ver outro fio, ligando como um "S" as encarnações de Assan?
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:36 pm

- Cadáveres - observou Joshua, secamente.
Mas todos nós morremos - acrescentou, sem chegar a nenhuma conclusão.
Rosa sacudiu a cabeça.
Assim como James.
Assan olhava para o palco, inexpressivamente.
- O universo manda sinais.
Ele usa o carma para ensinar - disse Joe.
- Três corpos destruídos pela violência.
O universo, por meio do carma, está pedindo ao espírito que conhecemos como André, Steve e Assan, para destruir seu "eu", a si mesmo, seu ego, da mesma forma que seu corpo físico foi destruído.
O universo está dizendo:
"Ouça, rapaz, tanto o corpo quanto o ego são ilusões.
Se quer progredir, livre-se da ilusão".
Joe explicou que, como Assan não compreendeu o carma, ele pensou que podia equilibrar o seu usando a si mesmo.
- Eu vou aprender... eu vou pagar... eu vou sentir.
Carma não é uma conta bancária, com débito e crédito - simplifica o professor, para que todos possam entender.
E uma condição criada por espíritos, mas usada pelo universo para ensinar.
Apesar de estar parado em frente a Assan, o professor falava não só para ele, mas também para Joshua, Rosa e James.
Aquela não era uma lição apenas para Assan; era para eles também.
- Carma é equilíbrio.
E o carma é equilibrado com e por meio de outros.
Às vezes, é equilibrado por um acto de bondade e outras vezes por um simples acto de sacrifício.
Não em um sacrifício de sangue, mas - e agora Joe colocava a mão sobre o ombro de Assan - em um sacrifício de si mesmo, do "eu", do ego.
O professor pediu à classe que tirassem o dia de folga e pensassem sobre aquilo que viram e aprenderam.
- Mas há mais uma coisa sobre a qual eu quero que vocês pensem.
Saindo de perto de Assan, Joe andou sem pressa até o palco da vida e parou no meio da plataforma mais alta.
- Antes que se graduem nesta escola, todos vocês terão que fazer uma escolha.
E - disse, sorrindo - essas escolhas têm a ver com o "eu".
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:36 pm

10 - Uma lição de Joe: a questão do porquê

O professor sugerira aos alunos que tirassem o dia de folga e pensassem sobre o que viram no palco da vida.
Dias, anos, horas e segundos têm um significado diferente no mundo astral em comparação com o que eles são na Terra.
Quando não somos prisioneiros da gravidade ou do corpo físico, nossos espíritos percebem as coisas de um modo diferente.
Portanto, no outro lado da camada que separa a Terra do mundo astral, o tempo voa.
Assim, decorreu um dia ou um ano, dependendo de sua perspectiva, e as aulas estavam de volta.
A sala estava viva.
Novamente a luz radiante descia do domo de cristal, envolvendo o recinto com seu brilho suave e dourado.
O palco da vida, vazio por todo esse tempo, continuava alguns metros acima do palco principal e, ao fundo, lá estava a escada brilhante e colorida de nove degraus, erguida até o topo do domo.
E o professor, com um largo sorriso, estava em seu lugar de sempre, no meio do semicírculo, de frente para os alunos.
Tudo estava igual, excepto pelos estudantes.
Eles estavam vivos, finalmente interessados e envolvidos.
Joe estava satisfeito.
~ Sei que ainda há muito trabalho pela frente, mas consegui a atenção deles - confidencia a você, e diz o que tem em mente:
- Até agora, tudo que eles falaram ou fizeram foi baseado no que trouxeram da esfera terrestre.
Vou trabalhar nisso, começando agora mesmo.
Ele sabia que cada um estava tendo uma reacção diferente ao primeiro "flagrante da vida real" apresentado.
Assan, obviamente, foi o mais afectado.
- Ele vai ver as coisas com olhos diferentes.
Espero que seja pelos olhos de alguém que começa a pensar sobre o longo e difícil processo de deixar o "eu" para trás.
O professor sabia que Assan ainda tinha muita revolta em si e estaria pronto para atacar suas palavras.
- É preciso muita revolta para explodir a si mesmo e mais trinta outras pessoas.
Tanto ele quanto eu teremos que lidar com isso.
Joshua, indiferente e cínico, decidiu tratar a escola como um dos muitos seminários de negócios de que participou na Terra, esperando aproveitar alguma coisa que lhe pudesse ser útil no futuro.
- Ele não vai saber qual lote de acções é o mais lucrativo - disse Joe, rindo.
Rosa Maria está com medo.
Desde o instante em que chegou, tudo que ela viu e ouviu era um desafio directo às suas crenças religiosas.
- Esse espírito tem todo o seu ser baseado naquilo que lhe foi ensinado.
Sua fé é o chão sob seus pés, como uma rocha; retire a rocha e ele vai afundar em areia movediça.
Tenho que retirar essa rocha, mas não quero que Rosa afunde; quero que ela permaneça firme sobre si mesma.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:36 pm

Finalmente, lá estava James, que tão vigorosamente defendeu Assan.
Ele, enfim, já não estava mais cabisbaixo e parecia pronto para o que quer que estivesse para acontecer.
- Ele é o único que está em busca de algo melhor do que aquilo que deixou para trás - observa o professor.
Então, um ano ou um dia depois de testemunharem a retirada dos véus de Assan, os alunos voltavam às aulas.
E foi James, saindo de seu casulo, quem começou a metralhar Joe com uma rajada de perguntas.
- Ei, professor, e aqueles degraus?
Estava achando que nos esquecemos deles?
- Como é esse negócio de "eu", afinal?
- O que estamos fazendo aqui?
- Por que estamos aqui?
"Finalmente", pensou o professor, "eles estão chegando aos porquês."
A pergunta "Por que estamos aqui?" já era esperada, mas o professor queria saber a qual "aqui" e a qual "por que" James estava se referindo.
- James, quando você pergunta "Por que estamos aqui", você quer dizer por que estamos aqui - os braços de Joe indicaram a sala de aula - ou você que dizer o GRANDE "por que estamos aqui"? - os braços se abriram amplamente, sugerindo por que fomos criados.
O negro musculoso abriu um largo sorriso e respondeu com um toque de ironia:
- Os dois, porque não faço a mínima ideia de nenhum deles.
A classe inteira riu e Joe devolveu o sorriso irónico de James com um dos dele.
- Bom, a resposta é a mesma para os dois porquês:
para aprender, para crescer e para lembrar.
James balançou a cabeça.
- Não é uma resposta satisfatória.
Ele deu um sorriso forçado.
- Você está dizendo isso desde que chegamos aqui.
O professor levantou os braços, como se estivesse se entregando.
- Você me pegou!
Ele sorriu e prometeu:
- Todos os seus porquês, ondes e quês serão respondidos brevemente.
Imediatamente, Joe mostrou que sua promessa era para valer, lançando uma pergunta a ninguém menos do que Rosa.
Rosa Maria, por que você... - começou, enquanto pensava sobre ela e Joshua:
- Se ao menos eles soubessem como são parecidos...
Ambos vivem por trás das paredes que eles próprios construíram:
joshua em sua fortaleza de poder e posição social, e Rosa por trás de seu refúgio de fé - revela ele a você.
No entanto, o professor não chegou a completar seus pensamentos, nem sua pergunta.
- Professor, professor... - chamou James, acenando com as mãos impacientemente.
E aquela escada?
Quero dizer, a gente está olhando para ela há um bom tempo, brilhando e tudo o mais.
O que ela significa?
Joe suspira e, desculpando-se por parecer um disco riscado, repete à classe:
- Aqueles degraus são como aprendemos, crescemos e um dia nos lembramos.
Agora é Assan que tenta cobrar o professor, lembrando a pergunta de James sobre "aquela história de 'eu'".
- Não pode ao menos responder essa?
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:37 pm

Afinal - ergueu os ombros e fez uma careta - fui alertado de que tenho um interesse especial no "eu".
Balançando a cabeça de um lado para o outro, o professor abriu um sorriso travesso, dizendo:
- Você vai aprender isso com aqueles degraus.
Os dois alunos se irritam.
Eles percebem que o professor não tem nenhuma pressa de chegar aonde tem que chegar.
E eles estavam certos:
Joe tinha um plano e não iria se desviar dele ou pular etapas.
- Tijolo a tijolo, passo a passo; essa é a única maneira de se fazer isso - confidência, enquanto calma e deliberadamente volta a atenção para Rosa, terminando a pergunta que deixou pairando no ar por causa da interrupção de James e de Assan.
- Por que você acha que estamos aqui, Rosa?
Com um surpreendente toque de humor, ela diz, sem mostrar nenhuma emoção:
- O pequeno porquê ? pergunta, olhando para a classe e imitando o professor - ou o GR AN DE porquê? - esticando o pescoço para o alto do domo.
Todos, incluindo o professor, caem na risada.
- Agora estamos chegando lá - Joe pisca para você.
- Os dois, faça a imitação completa - brinca Joe de volta.
Rosa Maria apruma-se na cadeira e, como sempre faz antes de lançar um argumento, ajeita seu blazer.
- Não me leve a mal - começa -, mas eu ainda não tenho a mais remota ideia do que estou fazendo aqui.
Sei que é uma sala bonita e agradável e você - indicando Joe - é um jovem bastante interessante.
Mas não sei o que posso aprender aqui.
Fui professora da escola bíblica dominical por vinte anos.
Conheço as sagradas escrituras de trás para a frente e, pelo que aprendi, tudo que precisamos saber está neste livro.
Os olhos acinzentados e frios de Rosa Maria percorreram os outros alunos.
"Talvez eu possa convencê-los", pensou ela, "a se juntarem a mim e acabar com essa bobagem de uma vez".
Os medos de Rosa Maria diziam-lhe que nada de bom poderia sair de uma aula como aquela; era um desnecessário e talvez perigoso desvio dos planos de Deus.
O professor interrompeu-lhe os sonhos de motim com uma pergunta para outro aluno.
- Isso lhe soa familiar, Assan?
"Tudo que precisamos saber está neste livro"?
A pergunta pegou o adolescente desprevenido.
Ele piscou e deixou a cabeça pender, lembrando-se de uma escola onde lhe ensinaram que "Tudo que precisamos saber está neste livro".
O rapaz olhou para Rosa.
Pela primeira vez, desde que encontrou aquela mulher, ele sentiu, de um modo estranho, pena dela.
Rosa Maria limpou a garganta, chamando a atenção do resto da classe.
Com outro puxão no blazer, educada mas firmemente declarou que ela não devia estar ali.
- A Bíblia não diz nada sobre escola.
A Bíblia diz que vamos ou para o céu ou para o inferno.
A vida eterna é prometida àqueles que aceitam Jesus como seu Senhor e Salvador.
Eu O aceitei e aceito.
Não sei o que estou fazendo aqui.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 15, 2016 12:37 pm

- Faça-me uma vontade - disse o professor, sorrindo.
E o outro porquê?
Por que fomos criados?
A mulher franziu os lábios, encarando o professor com um olhar aborrecido mas paternalista.
- Meu jovem, se você tem que fazer essa pergunta, então você é quem devia estar sentado aqui e eu é quem devia estar dando esta "aula".
- Não falei que ela ia ser jogo duro? - brinca Joe com você.
O professor apoiou o queixo sobre a mão, esperando pacientemente uma resposta.
A sala está em silêncio.
Mais uma batalha entre Joe e Rosa Maria estava para começar.
Em sua mente, você vê a imagem de dois trens de carga, correndo um de encontro ao outro no mesmo trilho.
Você sabia que o inevitável iria acontecer quando Rosa Maria desafiasse o professor para um duelo.
- Nós fomos criados pelo amor de Deus a nós - declarou ela.
- Nosso Deus criou o universo e nós somos parte dessa criação.
É isso - concluiu uma Rosa Maria toda satisfeita consigo mesma, os olhos passeando pelo semicírculo em busca das reacções de cada um dos colegas.
O professor perguntou à classe se alguém discordava do que ela dissera.
Ninguém esboçou uma palavra.
Ele foi até Assan e perguntou se ele concordava com Rosa.
- Fomos criados por Deus e somos parte de Sua criação?
- Claro - respondeu o adolescente rapidamente, mesmo sabendo, como o resto da classe, que o professor estava aprontando alguma.
A bola estava no campo de Joe e ele a conduziu de volta pelo semicírculo, até parar em frente a Rosa.
Joshua e James limitaram-se a recostar em suas cadeiras, assistindo à novela envolvendo o professor e Rosa.
Você sorri para si mesmo:
os dois trens de carga estão cada vez mais próximos.
- Nós todos fomos criados por Deus e somos parte de Sua criação - resumiu Joe.
Mas será que Ele nos ama a todos com a mesma intensidade? - provocou.
- Claro que sim - respondeu Rosa, de modo presunçoso.
Ele ama todos os seus filhos.
Nós somos iguais perante Seus olhos.
Rosa estava perdendo a paciência com a simplicidade das perguntas do menino.
- Entendi...
O professor concorda e vagarosamente formula a próxima pergunta:
- Aqui vamos nós.
Preste atenção - ele avisa você.
Você ri sozinho.
Quase consegue ouvir as locomotivas soando seus apitos.
Joe inclina a cabeça em direcção a Joshua.
Então, erguendo as sobrancelhas, ele olha para James do outro lado do semicírculo.
Lentamente, e com um estilo dramático, ele volta a atenção para Rosa.
- Portanto, Deus ama Joshua e James da mesma forma.
Rosa gira os olhos.
- Claro! O Pai ama todos os Seus filhos da mesma forma.
Ele não tem favoritos - um profundo suspiro reflecte seu aborrecimento.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:46 am

- Lavai - o professor sinaliza a você, enquanto coça a cabeça e enruga o rosto, e em sua mente você ouve o gemido distorcido dos apitos dos trens.
- Josh, ajude-me com uma coisa aqui.
Você deixou na Terra um monte de dinheiro, não foi?
O presunçoso homem de negócios abre um sorriso:
- Claro que sim: acções, aplicações, contas bancárias, carros, casas, investimentos.
- Viajou pelo mundo, ficando nos melhores hotéis?
- Eu merecia.
- Estou certo de que sim.
Aposto que conhecia todos os manda-chuvas:
presidentes, políticos, reis.
- E, todos eles me deviam alguns favores, também - relembrou o negociante.
Aposto que você trabalhou até se ralar - comentou o professor.
Ah, isso foi, mas amei cada segundo.
Era minha vida - sorriu Josh.
Joe assentiu, parabenizou Joshua por suas realizações e então, casualmente, passeou até James.
- E você? O que deixou na Terra?
O jovem negro encarou o professor com um olhar distante e entristecido.
- Muita dor - suspirou - e arrependimento.
- Aposto que você também trabalhou muito - provocou o professor.
- Feito escravo.
Joe encolhe os ombros.
Ele olha para Joshua, e depois novamente para James.
E balança a cabeça, sem poder acreditar.
- Por que a vida dos dois foi tão diferente, Rosa?
Se Deus os ama da mesma maneira, por que um passou pela vida construindo um império e o outro rastejou pela Terra, apenas sobrevivendo?
"Cara, os trens vão bater já, já", diz você a si mesmo.
A resposta de Rosa foi rápida, porque era algo que ela tinha decorado na Terra anos atrás.
- Leia sua Bíblia, rapazinho - decreta triunfante.
Jesus e a Parábola dos Talentos.
Joshua usou seus talentos, o que agradou a Deus.
James provavelmente não usou os dele, portanto não teve recompensas. Simples.
O professor sorriu e comentou, sem rodeios:
- Cuidado com os julgamentos, Rosa.
Pelo que sei, a Bíblia diz alguma coisa sobre isso, também.
Mas, antes que Rosa pudesse abrir a boca, o professor insistiu:
- Por que Deus fez tudo mais fácil para Joshua do que para James? - questionou, andando de um lado para outro dentro do semicírculo.
A resposta de Rosa Maria, mais uma vez, veio da Bíblia.
- Deus age de formas misteriosas.
Você pode achar isso na Bíblia, também - disse ela, arrogante.
Joe concordou, acrescentando que provavelmente se pode achar uma resposta para tudo na Bíblia, "ainda que tenha sido escrita há milhares de anos".
Rosa não percebeu o golpe e curvou a cabeça, solenemente.
- Mas, Rosa, você ainda não respondeu à pergunta: o que estamos fazendo aqui?
Por que estamos vivos?
Qual a razão disso?
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:46 am

Sem nenhuma pausa ou hesitação, Rosa declarou:
- Para dar glória a Deus, para servir a Ele e pregar Sua palavra.
Para dizer a todas as nações que Jesus é a verdade e o único caminho para o Criador.
O professor esfregou os dedos no queixo preguiçosamente e perguntou:
- E se houver algo mais?
Rosa sacudiu a cabeça e disse ao professor que não havia nada além disso:
- Fomos criados para engrandecer Sua glória e para fazer Sua vontade.
- O que quer dizer com isso?
Que estamos vivos para servir a Deus e falar ao mundo sobre Jesus?
É isso? Nada mais?
Joe revirou os olhos, sem acreditar.
Ela já estava vencida por essa pergunta, mas o professor não parou por aí.
- Só isso? - insistiu, exagerando em seu descrédito, levantando as mãos para o alto.
Isso é tudo que existe?
Deus nos criou porque Ele nos ama e quer que nós passemos toda a nossa vida pregando Sua palavra.
É simples assim?
- Sim - respondeu Rosa, esperando pôr um fim ao interrogatório.
- E, se você viver toda a sua vida fazendo isso, o que acontece?
- inquiriu Joe, parando bem em frente a ela.
Os olhos da mulher apontaram para o alto, em profunda irritação.
- Você recebe sua recompensa justa e direita:
alegria eterna no paraíso ao lado de Jesus - recitou correctamente.
Joe sorri para ela e imediatamente dispara para Joshua a próxima pergunta:
- Você passou a vida pregando a palavra de Deus?
- De jeito nenhum - sorriu Joshua.
- Pelo menos léu a Bíblia?
- Nunca me interessei - foi a resposta rápida e segura.
- E você, Assan? - perguntou Joe.
Já leu a Bíblia?
- Em qual vida? - brincou o rapaz, e todos, excepto Rosa, riram.
- E você, James?
Estudava a Bíblia todas as noites?
- Não sabia ler.
Ninguém me ensinou - respondeu, com descaso.
- Vamos ver como ela responde a próxima - o professor sinaliza a você.
- Rosa, estou certo de que viveu sua vida da forma que lhe ensinaram, pregando a palavra de Deus e a salvação por meio de Seu Filho, Jesus.
Ela lançou ao professor um sorriso meloso.
- Ensinei na escola dominical por dezasseis anos.
Dei dinheiro à minha igreja e às missões - bravateou Rosa.
- E além disso? - instigou o professor.
- Vivi minha vida como um exemplo cristão.
Nunca uma só gota de álcool passou pelos meus lábios, nunca me rendi às tentações frívolas e pecaminosas de Satã.
Minha vida foi perfeita - disse ela, apertando os olhos na direcção do professor.
Ele pediu a ela que tivesse paciência; as perguntas já estavam acabando.
Ela suspirou.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:46 am

De facto, já estava cheia daquilo, mas, como ele disse que estava chegando ao fim, permitiu que continuasse.
- Se você viveu sua vida em total obediência às leis e ensinamentos de sua igreja, como estou certo de que fez, o que está fazendo no mesmo lugar que Joshua, um homem que nunca sequer pensou a respeito do destino de sua alma imortal?
O que você está fazendo no mesmo lugar que Assan, um assassino, um garoto de programa e um suicida?
Ou com James, que nunca sequer leu a palavra de Deus?
Como você está aqui respondendo a minhas perguntas?
Como é que está aqui, e não gozando da vida eterna com Jesus?
Rosa Maria literalmente saltou de sua cadeira.
Ela arreganhou os dentes e arrogantemente rosnou:
- Aí está uma coisa que eu também queria saber, rapazinho.
Estou tentando entender isso desde que ele - disse, apontando para James - me perguntou.
Só pode ser Deus testando minha fé, fazendo com que eu perca meu tempo aqui com você e esses três cavalheiros, quando eu já podia estar em êxtase ao Seu lado.
Seus ouvidos agora podiam ouvir o aço das rodas do trem guinchando sobre o trilho.
Os dois trens estão prestes a colidir.
Joe fez um gesto pedindo a Rosa que se sentasse.
Depois, virou-se de costas para ela e encarou Assan.
- Aposto que você está em busca de algumas respostas, também.
Como, por exemplo, onde estão aquelas virgens e Maomé, não é verdade?
O rapaz árabe fechou a cara.
- É, gostaria de saber sobre tudo isso.
Isto aqui não era o que eu esperava.
O professor encerrou a conversa com Assan e, de modo confiante, deslizou para o centro do semicírculo para encarar de frente todos os alunos.
- Para Assan e Rosa fizeram muitas promessas.
Mas deixe-me dar uma pista a vocês sobre uma coisa:
há muito mais em nossas vidas do que promessas vazias feitas por homens vazios.
- James e Joshua, por razões diferentes, não esperavam nada além da morte.
Abram seus olhos. Olhem ao redor.
Isto - Joe olhava para o alto do domo - é alguma coisa.
Vocês já encontraram mais do que esperavam.
- Não é nenhuma coincidência o facto de vocês quatro estarem aqui.
Vocês todos têm algo a dar aos outros.
Não existem acasos ou coincidências, porque - ele agora se dirigia a Rosa - nenhum pássaro cairá em terra sem a vontade de vosso Pai.
O professor volta sua atenção para James e relembra a ele que não se esqueceu de sua promessa.
- Nós logo vamos chegar aos seus grandes porquês, meu amigo.
Logo depois do show de William e Mary. Pode confiar.
De seu lugar na plateia, você olha para Rosa.
Você poderia dizer, pela expressão em seu rosto, que o trem de carga carregando suas crenças, pelo menos por enquanto, está fora dos trilhos.
Joe fez o que tinha preparado.
Ele plantou as primeiras sementes de dúvida na mente dela.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:46 am

11 - Uma lição da vida: o show de William e Mary - Parte 1

A sala de aula escurece e um feixe de luz focaliza exactamente o meio do palco da vida.
Os alunos já conhecem a rotina:
outro flagrante da vida real está para começar.
O lugar: Inglaterra.
A época na Terra: fim do século 18.
Um portão alto e largo protege a entrada de uma imponente mansão de alvenaria em três andares e seu amplo jardim verde-esmeralda.
A letra "E", banhada a ouro e adornada por duas espadas cruzadas, orgulhosamente se impõe no alto do portão trancado, anunciando ao mundo que ali é o Solar Eaton.
Um jovem alto e magro aproxima-se do portão.
Ele também é um "E", e está chegando para reclamar o que é seu por direito.
- O nome dele é William Eaton - narra Joe.
Ele é o sobrinho de Sir Walter Eaton, proprietário de uma dúzia de usinas e fábricas na pequena cidade inglesa de Hampton.
O filho da mãe comprou o título de Sir - murmura uma voz amarga e ressentida.
Ele pagou uma boa grana para isso.
A atenção dos alunos é desviada do palco da vida para a voz.
Era de Joshua.
Ele foi William e vê, com seus colegas de classe, quando o simpático jovem de bastos cabelos pretos e lisos se aproxima da portaria de tijolos vermelhos, uma versão em miniatura da enorme mansão que se destaca por trás do imponente portão.
- Eu tinha dezanove anos - relembra Joshua, vendo a si mesmo como William, num terno mal cortado e no tamanho errado.
- Era de meu pai, o irmão do "lorde" - explicou o espírito, sarcasticamente exagerando no "lorde".
O jovem está exausto.
Suas roupas estão cobertas de poeira, seus cabelos despenteados pelo vento.
- Eu estava chegando de uma viagem de trem de dois dias, e, da estação até ali, andei uma hora ? lembra Joshua.
William coloca sua pequena e surrada mala de papelão no chão, vasculha os bolsos e retira um envelope amassado e lacrado contendo uma carta de seu pai para Sir Walter.
Com a outra mão, ele puxa a longa corda que acciona a campainha que chama o porteiro.
O rapaz sujo e maltrapilho espera pacientemente, carta na mão, até que o porteiro apareça.
- Meu pai escreveu a carta antes de morrer - informou Joshua, enquanto as memórias daquela encarnação ficavam dolorosamente mais claras.
A imagem no palco da vida se desloca da Inglaterra para um leito de morte na França.
Um moribundo Edward Eaton, pela primeira vez, fala para William sobre seu rico e próspero parente.
- Eu nunca peguei um tostão de meu pai, nem recebi nenhuma mesada.
Eu quis viver minha vida à minha maneira.
Decidi assim e nunca quis dever nada a ninguém.
Edward explicou que, quando Alfred, pai dele e avô de William, morreu, um advogado de Londres mandou-lhe uma carta, informando que seu pai havia nomeado Walter, seu irmão mais novo e tio de William, como executor do testamento.
- Isso foi há quinze anos - revelou Edward.
O telegrama dizia que uma quantia em dinheiro foi reservada para mim.
Mas... - suspirou, dando a entender que nunca se preocupou em resgatar a herança.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:47 am

Para falar a verdade, nem liguei para isso.
Edward fez uma pausa e continuou:
- Não vejo seu tio Walter há pelo menos vinte anos.
Ele esteve em Paris; nós jantamos.
Ele só falava de banalidades.
Éramos diferentes, Walter e eu.
Desde então, apenas um ou outro cartão de Natal.
Edward olhou directamente para William e ressalvou:
- Mas, de qualquer maneira, você é um Eaton, tanto quanto eu ou Walter.
Foi seu avô que construiu todo aquele império.
Edward entregou a William a carta de apresentação para a família do outro lado do canal da Mancha e ordenou:
- Vá até Walter.
O mesmo sangue que corre nas veias dele corre nas minhas, e é o mesmo que também corre nas suas.
- Meu pai achava tudo muito simples - lamentou Joshua -, porque ele era um homem simples e honesto.
Assim, a jornada de Paris até Hampton, Inglaterra começou e o palco da vida passa a mostrar flashes de cada etapa da viagem.
Com pouco mais que uma carta no bolso e uma mala barata nas mãos, um ingénuo e inocente rapaz de dezanove anos chamado William Eaton faz uma viagem para se encontrar com uma família e uma herança que nunca soube que possuía.
Flash: Paris para Calais.
William viaja num vagão apertado e sufocante de um lento trem de terceira classe.
Cada solavanco o deixa mais perto do Solar Eaton, cada apito da locomotiva alimenta seus sonhos de riqueza e status.
Flash: Calais até Dover.
William enfrenta as fortes ondas do mar de outubro no canal da Mancha, embaixo do convés de uma balsa ordinária, cheia de vazamentos.
Cada onda o joga para mais perto dos Eatons.
Cada vez que a balsa sobe e desce na água, em sua mente ele vai ficando mais rico.
Flash: Dover para Londres.
Ele embarca como clandestino num vagaroso trem de carga e, dentro de um vagão por onde o vento entrava por todos os lados, sua imaginação o seduz com a imagem de uma mulher jovem e Perfumada, festas glamourosas e sofisticadas, e partidas de pólo nos finais de semana.
Flash: de Londres até Hampton.
Ele salta para dentro de mais um trem de carga e em pouco tempo o jovem de dezanove anos está chegando a seu destino.
Ele apalpa o bolso da frente do paletó sujo e amassado, para ter certeza de que a carta ainda está ali, garantindo-lhe que o que almejou e sonhou durante todo o último mês está prestes a acontecer.
Finalmente, depois de uma longa caminhada por uma estrada de paralelepípedos, coberto de suor, ele está diante dos portões do Solar Eaton.
Para ele, será o fim dos banhos em pias de banheiros públicos.
O fim dos sonos em vagões frios, dividindo um pedaço de chão com bêbados e mendigos.
Em alguns instantes, ele teria um belo banho de água quente e lençóis de seda sobre um colchão macio.
Ele pára diante dos portões do Solar Eaton.
Pelas grades ele vê a casa do tio, a casa onde seu próprio pai nasceu.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:47 am

O inocente e ingénuo jovem espera pacientemente por uma resposta à campainha que acabou de tocar.
Seus olhos se enchem com a fartura de riqueza e conforto diante dele:
amplas áreas verdes de grama perfeitamente cortada em volta da grande mansão de tijolos vermelhos e o desenho hipnotizante das flores coloridas salientando-se no gramado.
Tudo isso parece chamá-lo através das grades do portão.
No lado oeste da mansão, um enorme pavilhão branco está sendo preparado.
- Aposto que estão dando uma festa - diz William a si mesmo, e novamente sua imaginação se rende às imagens de uma bela mulher, reluzentes taças de champanhe e uma música suave, tocada por uma orquestra com músicos trajados a rigor.
Um empregado aparece na estreita portaria, interrompendo os sonhos de William.
O jovem entrega-lhe o envelope.
Está um pouco amassado da viagem, e o serviçal reluta em pegá-lo.
- O sujeito me tratou como se eu tivesse a peste - lembrou-se Joshua amargamente.
- Espere aqui - disse o empregado.
Vou ver se o lorde está.
E, sem ser convidado, William saltou para dentro do portão e sentou-se num banco de madeira.
O jovem William esperou.
Esperou. E esperou.
O sol de outono começou a dar lugar às sombras vespertinas que se espalhavam pelo enorme gramado bem cuidado, e as flores começavam a perder suas cores deslumbrantes sob os tons da noite que tingiam o céu.
Além do portão, ele vê os empregados da casa acendendo lampiões e tochas de querosene ao redor do pavilhão branco.
Ele vê músicos vestidos em fraques e gravatas brancas, tomando seus lugares numa pequena plataforma.
Ele nota servos uniformizados acomodando pesadas bandejas cheias de comida em enormes mesas cobertas com toalhas brancas.
- Ele não consegue lembrar-se de qual foi a última vez que teve uma refeição decente - conta Joe a seus alunos, enquanto eles vêem William testemunhar, da portaria, os preparativos finais para a festa dos Eatons.
William ainda espera, agora mais ansioso do que paciente, pelo convite do tio para se juntar a ele na mansão de tijolos vermelhos.
Da estrada, ele ouve o trote de cavalos.
Mais de um, talvez uns quatro, ele pensa.
O ruído dos cascos batendo na estrada rústica vai ficando cada vez mais alto, até que os cavalos chegam aos portões de ferro do Solar Eaton.
William estava certo:
são quatro cavalos, trazendo dois casais que têm mais ou menos sua idade.
Os casais param no portão e, para eles, as portas se abrem rapidamente, convidando-os para a paisagem elegante que William viu pelo portão.
Os dois rapazes, musculosos e cheios de energia, parecem ser irmãos.
- Aqueles dois eram meus primos - diz Joshua secamente.
Eles estão acompanhados por suas namoradas, e uma delas atrai o olhar de William, sua beleza resplandecendo nas sombras do anoitecer de um dia de outono:
cabelos pretos longos e brilhantes, olhos azuis e um rosto suave, delicadamente branco.
O porteiro, o mesmo que levou a carta de William, recebe alegremente, com um caloroso "Bem-vindo, senhor!" para cada um dos irmãos.
Quando os portões se fecham, William acena para o porteiro.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:52 am

- Esqueceu de mim? - ele grita.
Incomodado com as más maneiras daquele jovem mal vestido, o empregado, sem olhar para William, entrega-lhe um envelope diferente, com o mesmo "E" floreado que se ostentava no alto do portão.
Venha ao meu escritório na segunda-feira pela manhã, às oito em ponto.
Não se atrase.
Sir Walter Eaton
William olhou os dois lados do cartão.
Não havia nada nele além de um endereço.
Nada de boas-vindas, nenhum "entre para jantar, sobrinho que jamais encontrei".
Simplesmente uma linha dizendo a ele para estar num escritório na segunda pela manhã.
Nada mais do que um encontro de negócios.
Joshua, assistindo a William ler o pequeno recado do tio, deixou escapar:
- Babaca!
De volta ao palco da vida, William bravamente conteve as lágrimas que brotavam em seus olhos.
Ele vasculhou os bolsos, tirando dela sua magra carteira.
- Aquele dinheiro mal dava para pagar um albergue - lembra Joshua.
Era sábado à noite.
Fiquei imaginando como fazer aquilo durar até segunda.
O jovem, em seu terno mal ajustado, apanha a mala e começa a longa viagem de volta à cidade.
Joe, juntamente com o resto da classe, vê o rejeitado e desolado William caminhar ao cair da noite.
- Foi aí que começou, não foi? - pergunta o professor a Joshua.
O homem de negócios olha para Joe, franzindo a testa.
- A sensação de vazio - adianta-se Joe.
O vazio corrosivo, faminto, que o consome por dentro até hoje.
Joe indicou com a cabeça o palco da vida.
E foi ali que começou, naquela solitária caminhada nocturna de volta à cidade.
Joshua não respondeu de primeira.
Com um meio sorriso tímido, ele fitou a si mesmo andando sob o frio do luar, rumo a um albergue às margens da ferrovia.
- Acho que sim - foi tudo que o negociante teve forças para balbuciar, mas ele sabia que o professor estava certo.
Os primeiros passos que deu na estrada de volta à cidade foram carregados de dor e mágoa pela rejeição.
Dentro dele, uma voz ecoava:
"Você viajou tudo isso para ser tratado como um caixeiro-viajante."
Naquele instante, a dor e a mágoa são substituídas por revolta e ressentimento.
"Eles não lhe deram nem um copo de água", protestou outra voz.
Naquele instante, enquanto está deitado em sua cama alugada, a revolta e o ressentimento são substituídos pelo vazio.
- O pai se foi.
A mãe se foi.
Você está por sua conta, num país estranho, sem um tostão no bolso.
William chega às 7h45 da manhã ao endereço dado por seu tio.
Fez o melhor que pôde para limpar e desamarrotar seu único terno, surrado na longa e empoeirada viagem de trem.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:52 am

Mais uma vez ele está diante de outro portão, com o mesmo "E" fixado em barras de aço negras.
Mas, ao invés de cercar uma mansão de tijolos vermelhos, esse portão protegia uma enorme fábrica de quatro andares, do tamanho de um quarteirão.
William entrega o bilhete do tio para o porteiro.
Desta vez, entretanto, ele recebe um firme aperto de mão e é escoltado pessoalmente até a entrada dos domínios de Sir Walter.
O funcionário bate de leve na porta de vidro fosco e, quando ela se abre, mais uma vez William tem uma amostra da vida que ele tão desesperadamente almejava:
uma sala de espera com paredes de carvalho, poltronas de couro preto e espessos tapetes orientais cobrindo o chão.
Naquela fria manhã de outono, calorosas chamas ardiam na lareira de mármore.
Ele entrega o bilhete ao que parecia ser a secretária de seu tio, uma mulher comum, de meia-idade, cujo cabelo estava cuidadosamente arrumado num birote bem-feito.
Sem dizer uma palavra, ela avalia rápida e detalhadamente o jovem alto e magricela num terno barato, em frente a ela.
Ela aponta o sofá mais distante de sua mesa, sinalizando para que William se sente, e, depois, ela desaparece por uma pesada porta de mogno.
Momentos mais tarde, ela volta sem o bilhete.
- Ele estará aqui num minuto - informa ela friamente.
Os minutos passam lentamente no rebuscado relógio de parede nos fundos da sala de espera.
Ele badala anunciando o tempo:
oito horas, em ponto.
"Eu estou aqui, e fui pontual", William diz a si mesmo.
Tique-taque, tique-taque: 8hl5.
Tique-taque, tique-taque, tique-taque:
as badaladas marcam 8h30.
William tem paciência; sabe que está sendo testado.
Tique-taque, tique-taque, tique-taque: 8h45.
Mas, antes que batessem nove horas, uma campainha soa.
A secretária olha para William, indicando a porta com a cabeça.
- Bata antes de entrar - ordena, sem tirar os olhos de sua escrivaninha.
O jovem de dezanove anos e cabelos pretos levanta-se, caminha em direcção à porta de madeira, enche o peito de ar e dá uma leve batida.
Ele ouve um "entre" abafado, vindo do lado de dentro.
Sua mão empurra e abre a pesada porta, e William se vê dentro do opulento mundo do império Eaton.
Ele prende a respiração.
O jovem nunca havia visto nada como aquilo.
"Esta sala bem poderia ser um salão de baile", admira-se.
No meio do salão de baile, sentado atrás de uma mesa de mogno entalhada à mão, está seu tio, Sir Walter.
- Ele se parece com meu pai - comenta Joshua.
Os mesmos cabelos pretos, com alguns fios grisalhos, um rosto comprido e ossudo, com um nariz fino e recto.
Tudo é igual, excepto pelos olhos.
Os dois tinham olhos castanhos, mas meu pai tinha rugas nos cantos, daquelas que se formam quando sorrimos.
Sir Walter era de uma seriedade pétrea.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:52 am

Não há mais ninguém na ampla sala, a não ser William e Sir Walter.
O tio aponta para uma cadeira de madeira de formas rectas, plantada bem em frente à sua escrivaninha.
- Sem apertos de mão, sem cumprimentos - ressalta Joshua.
Sir Walter limpa a garganta e olha pela janela, com a vista além de seu império de fábricas e usinas.
- Produzimos tecido e o transformamos em roupas:
vestidos, camisas e blusas - comentou o tio.
Exportamos para todo o império britânico.
Essa foi a primeira vez que William ouviu a voz de Sir Walter.
Era profunda e imponente, bem diferente da de seu pai, macia, quase feminina.
- Temos oito mil pessoas trabalhando para nós, quase metade da cidade.
Homens e meninos nas usinas; mulheres e meninas nas máquinas de costura.
Famílias inteiras trabalham para nós.
William notou que o homem falava em frases curtas, medidas.
Sir Walter não era de desperdiçar palavras.
Ele também percebeu, pela primeira vez, que o "salão de baile" era vazio.
Excepto por alguns tapetes dispostos no bem encerado assoalho de madeira, um par de lâmpadas e um retrato na parede, que ele imaginou ser de seu avô, a enorme sala era vazia.
Tudo que restava era a escrivaninha e a cadeira onde estava sentado.
Meus pêsames pelo seu pai.
Não éramos muito chegados.
Ele saiu de casa quando eu tinha doze anos.
Novamente, as sentenças curtas e precisas.
Nenhuma emoção. Nada sem razão.
Sir Walter foi directo ao assunto:
- Por que veio aqui?
A pergunta pegou William de surpresa.
Ele começou a gaguejar uma resposta, mas o tio respondeu por ele.
- A herança?
A carta de Edward falava alguma coisa sobre uma herança.
Sir Walter remexeu alguns papéis sobre sua mesa.
Depois de encontrar o que queria, o tio colocou os óculos de leitura e começou a varrer o documento com o olhar, sem voltar a encarar o sobrinho.
William, olhos alçando voo pela escrivaninha, reconheceu a carta do pai.
- Não existe nenhuma herança - declarou Sir Walter peremptoriamente, a mão firmemente parada no ar, para sufoca quaisquer protestos ou perguntas que pudessem vir de William.
Vou explicar.
Walter afastou-se da escrivaninha, revelando sua envergadura de mais de um metro e oitenta.
Com um aceno de seu dedo, ele convocou William a acompanhá-lo enquanto ele andava pela sala até a janela que ia do chão ao tecto.
- Ela está ali - disse o tio, indicando o labirinto de fábricas e usinas, armazéns e chaminés espalhados diante deles.
Não usei nem um tostão dela para mim.
Tudo foi reinvestido no negócio - bufou.
William balançou a cabeça.
Ele não queria entender o que estava ouvindo.
- Fui o executor dos bens de meu pai.
Também comandei os negócios.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:53 am

Ele quis assim em seu testamento - disse, apontando para o retrato pendurado na parede do outro lado da sala.
"Então eu estava certo", pensou William.
"Aquele é Alfred."
- Mandei nosso advogado enviar a seu pai uma carta sobre o dinheiro que nosso pai deixou para ele.
Era uma boa soma. Ele nunca respondeu.
Nunca reivindicou nada.
Dez anos se passaram e o dinheiro ficou no banco, rendendo juros.
Como executor, usei o poder que tinha, perante a lei, e liquidei a conta.
Tudo aquilo estava muito além da compreensão de William:
juros, executor, contas liquidadas.
O rapaz nem sequer havia terminado o colégio, e o que estava sendo exigido dele agora é que entendesse palavras e conceitos que nunca havia ouvido antes.
-William era muito inteligente, mas não era nada sofisticado observou Joe, e Joshua assentiu, mas ressalvou que havia mais do que isso na história.
- Sir Walter mentiu - declarou Joshua, sem delongas.
Ele nunca disse a William que ele e seu advogado sempre souberam onde estava meu pai.
Eles contrataram um detective particular para ficar de olho nele.
Walter se esqueceu de mencionar que, quando Alfred morreu, os negócios iam mal.
Ele usou o dinheiro de meu pai para manter tudo funcionando.
Eles passaram a perna no meu pai e depois passaram a perna em mim, quero dizer, em William.
E, com um sorriso tímido, disse:
- Eu, William... É tudo a mesma coisa.
Ele nos trapaceou.
No palco da vida, Sir Walter tornou a dizer que a herança de William não existia mais.
- O dinheiro? Não usei para mim.
Coloquei de volta nos negócios.
Agora você entende?
Infelizmente, William entendia.
Sem dizer uma palavra ou sequer olhar para o tio, ele caminhou de volta para a cadeira em frente à escrivaninha de Walter e sentou-se nela.
- Toda essa viagem para nada - murmurou em voz alta, esperando que o tio pudesse ouvi-lo.
E ele ouviu.
Sir Walter sentou-se atrás de sua mesa e começou a dar um sermão a seu recém-descoberto sobrinho.
- Tecnicamente, você é um Eaton, mas - fez uma pausa - você seria o primeiro a admitir que não é um de nós.
Apesar da raiva, William impassivelmente ouviu cada palavra.
Mesmo ingénuo, ele era esperto o bastante para esperar o tio falar e ver aonde a conversa ia levar.
Você não se encaixa nesta família, e seria um embaraço para você se tentasse.
William não disse nada.
Ele já havia percebido que Sir Walter ganhava as discussões pela intimidação.
William decidiu ali mesmo, naquele momento, que não ia se deixar dominar.
Com uma postura decidida, manteve os olhos fixos em Sir Walter.
- Eu e meus filhos construímos esta empresa.
Cursei Oxford, como fizeram Alfred e David.
Somos líderes desta comunidade.
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Ave sem Ninho

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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:53 am

Nós engrandecemos o nome Eaton.
"É, e eu sou o sobrinho pobre e ignorante da França.
Meu pai era pintor e minha mãe cantora de cabaré", dizia William a si mesmo, alimentando as chamas de revolta que cresciam dentro de si.
Por fora, no entanto, ele retribuía de forma firme e paciente o olhar do tio.
- Mesmo assim, você ainda é um Eaton.
E - Sir Walter encheu o peito, orgulhoso - nós Eatons cuidamos dos nossos.
Os lábios de Joshua se contorceram num sorriso sarcástico.
- Falou comigo como se meu caso fosse de caridade.
E, depois de reflectir um momento, acrescentou com amargor:
E, por causa dele, até era de caridade.
O tio resumiu sua proposta de maneira rápida e eficaz:
1. Ele daria um emprego a William, na sala de expedição, com o mais baixo salário.
- A mesma coisa que fiz com meus filhos - acrescentou Sir Walter pomposamente.
- Ele se esqueceu, convenientemente, de dizer que seus filhos trabalhavam somente no verão, durante as férias da faculdade - interpôs Joshua.
E, incluído no "mais baixo salário", estava a viver na mansão vermelha, o lar da família Eaton.
2. Ninguém deveria saber que ele era um Eaton.
- Se seus colegas de trabalho descobrirem, vão achar que você é um espião.
Você vai se sentir rejeitado.
Isso é para o seu próprio bem.
Ele não queria que ninguém soubesse que tinha um sobrinho trabalhando no sector de expedição.
Não ia ficar bem - corrigiu Joshua.
3. Ele deveria preservar a boa imagem.
- Não se meta em encrencas.
Faça seu trabalho, e voltaremos a nos falar daqui a seis meses.
- Senti que estava sendo colocado sob uma condicional.
Eu seria testado nos próximos seis meses.
Todos os meus movimentos seriam vigiados - acrescentou Joshua.
Mas William sabia que não tinha escolha.
Afinal, ele estava sozinho no mundo.
Era um estrangeiro num país desconhecido.
Ele retribuiu o olhar firme de Walter e depois de alguns instantes assentiu, acatando os termos do tio.
- Bom - grunhiu Walter, enquanto passava para William um envelope.
O conteúdo era dinheiro suficiente para pagar um quarto numa pensão decente - o que lhe permitiria sair do albergue ao lado da estação de trem - e para manter-se até seu primeiro pagamento.
- Deduziremos este adiantamento em três parcelas mensais de seu salário.
Sir Walter disse que também colocou documentos de trabalho no envelope, no nome de William Peyton.
- Você começa amanhã, no turno da noite, da meia-noite às oito da manhã.
Chegue por volta das 23h30.
Você vai achar as instruções aqui.
Ele foi dispensado, com o aviso de "aja correctamente, mantenha a boca fechada e nós nos veremos em seis meses".
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:53 am

Nada de herança.
Nada de mansão vermelha.
Nada de jantar de boas-vindas.
Nem um Eaton ele era mais; ele era William Peyton, funcionário da expedição nas Indústrias Eaton.
Joe estava satisfeito com o modo como a classe estava acompanhando a história de William/Joshua.
Mas ele estava particularmente interessado na maneira como um deles estava reagindo.
Ele olhou profundamente na essência do espírito antes de decidir se ia continuar.
"Ainda não está pronto", disse a si mesmo, e então falou à classe Que aquele flagrante da vida continuaria outro dia.
Assan, totalmente envolvido com a trama, gritou:
O que aconteceu com Mary?
Esse não era para ser o show de William e Mary?
Até agora, só vimos William.
James e Rosa também protestaram.
Eles também queriam saber o que aconteceu com Mary.
Até mesmo você, na plateia, esta curioso.
O professor levou um dedo aos lábios, sinalizando a Joshua que mantivesse a boca calada.
- Ela está esperando nos bastidores - foi tudo que ele disse.
Joshua deu um rápido olhar para Rosa e depois voltou os olho para Joe.
Seus véus estavam sendo retirados, e as coisas começava a fazer sentido.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:53 am

12 - Uma lição de Joe: a boneca de madeira

o palco da vida, quatro flagrantes da vida real já haviam sido apresentados, e as palavras do professor "O passado se transforma em presente e o presente se transforma em futuro" estavam finalmente fazendo sentido.
Assan foi, como James simplificou, "uma vítima da ignorância".
Mas Assan começava a ver que ser uma vítima era culpa dele.
Como espírito estava timidamente começando a ver fora de si mesmo procurando meios de romper os fios de violência e revolta que interligavam suas vidas.
Depois de ver a primeira parte do show de William e Mary Joshua começava a investigar mais a fundo a sensação de vazio que o induzia a encontrar satisfação e sentido no poder, no dinheiro na posição social.
O espírito ainda não estava completamente envolvido pelo "porquê", mas ao menos já se inclinava um pouco na direcção certa para a compreensão.
Rosa permanecia inflexível e intolerante, presa às suas crenças religiosas como um náufrago se agarra a seu salva-vidas.
Rosa não podia refutar o desfile de vidas passadas que acontece em sua frente.
- Há uma pequena rachadura na fortaleza de fé que ela construiu ao seu redor - observa o professor para você - e vou usá-la preparar Rosa para seus próprios flagrantes da vida real.
James estava visivelmente empolgado.
Ele abandonara a imagem do negro humilde e oprimido e estava começando a ocupar se lugar como líder do grupo.
- Vou dar um impulso para o ego dele.
Joe diz a você que não há nada de errado com um ego forte.
Ele está lá para proteger.
Se o espírito o usa, ao invés de ser usado por ele, o ego pode ser uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento espiritual.
Você, sentado na plateia, também nota que os alunos começam a mudar, mas você ainda sente que algo mais está por vir.
"Alguma coisa está para acontecer", diz você a si mesmo.
Joe, sintonizado em seus pensamentos, responde de forma definitiva:
- Pode apostar sua vida que alguma coisa está para acontecer.
Vamos conversar sobre o que tudo isso significa.
Vou começar respondendo o PORQUÊ.
E o professor confirma suas suspeitas:
não são apenas os alunos que estão começando a mudar; a sala de aula está com toda uma atmosfera diferente.
- Olhe bem de perto para a escada.
Desde que apareceram pela primeira vez, cada um dos nove degraus que compõem a escada irradiava sua própria cor.
Agora, todos eles estavam escuros, excepto o primeiro, onde o professor, saindo de seu posto costumeiro no semicírculo, estava parado, a silhueta de seu corpo pulsando com a luz branca.
- Um pouco de iluminação valoriza muito a dramatização - brinca, antes de se dirigir aos alunos.
- Vocês se lembram de que começamos aqui, no início.
E, falando para James:
- Você me perguntou por que estávamos aqui.
Não o pequeno, mas o GRANDE AQUI.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:54 am

Eu respondi:
"Para aprender, crescer e relembrar".
Essa era a resposta curta.
Agora, vocês vão conhecer a longa.
- Também perguntei sobre a escada, lembra?
Joe dá uma risada.
Bem-vindo ao primeiro degrau:
Criação - responde, batendo de leve o pé no degrau em que estava.
Agradeço a Deus por esse cara - ele brinca com você.
Se não fosse por ele, estaríamos ouvindo Rosa cantando seus hinos.
E é justamente com a mulher que o professor, mais uma vez, resolve começar.
- Rosa, você declarou que fomos criados pelo amor que Deus tem por nós, não é isso?
A mulher faz que sim com a cabeça.
Não está com muita paciência.
Ela sente que está sendo isolada por causa de sua fé.
E ela está certa.
O professor sabe que, para tirá-la de seu canto, ele precisa golpear as pequenas rachaduras abertas em sua fortaleza de santidade.
- E todos nós concordamos com ela, não é mesmo?
Um murmúrio de concordância enche a sala.
- Bem, deixem-me dizer uma coisa...
Ela não está completamente erra da.
- Louvado seja Deus - vem a manifestação aliviada de Rosa.
- Mas ela também não está completamente certa.
E, antes que Rosa Maria possa dizer qualquer coisa, toda a sala fica escura.
A única luz provém do degrau branco brilhante onde o professor se encontra.
Alguns momentos se passam na escuridão silenciosa.
Um ruído surdo quebra o silêncio.
Joe pede aos alunos para que olhem para cima.
O domo de cristal está se abrindo lentamente.
Um céu azul-escuro profundo surge no infinito.
Não há nenhuma nuvem à vista.
Em vez disso, o que há são agrupamentos e mais agrupamentos de luzes cintilantes, cada um brilhando com sua própria intensidade e emitindo um brilho singular, fascinando os sentidos de todos os alunos.
Nem um som vinha da classe, nem mesmo uma entrecortada exclamação de surpresa ou um suspiro de prazer.
É um silêncio de admiração, espanto e deslumbramento.
A voz suave e confortante do professor vem da escada para preencher a sala de aula silenciosa.
- Isso é o melhor que posso fazer - confessa.
Eu gostaria mostrar a vocês toda a Criação, mas, como só podemos compreender até certo ponto, então podemos revelar só até este certo ponto.
Mas as desculpas não tiraram nada da perfeição do momento.
Sua explicação de que eles estavam vislumbrando apenas uma pequena parte do universo não interrompeu a comunhão silenciosa da classe.
- Parecem estrelas, mas não são - aventurou-se timidamente Assan.
- São bilhões e bilhões - disse efusivamente Josh.
Pela primeira vez desde sua passagem, ele estava atraído por alguma coisa além de si mesmo.
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 16, 2016 9:54 am

James não dizia nada.
Ele simplesmente sorria enquanto o reflexo da luz dançava em seu rosto.
- Louvado seja Deus nas alturas - cantava Rosa Maria.
Tremamos diante de Seu poder e glória.
Joe imediatamente se interpõe.
- Esse negócio de tremor e humilhação tem que acabar - diz ele a você.
- Rosa, não estou mostrando isso para assustar, mas sim para confortar.
Nós não fomos criados para TEMER Deus.
Não estou mostrando isso para humilhar.
Não somos insignificantes grãos de poeira no universo; somos parte dele.
Somos aqueles biliões de faíscas brilhantes de energia.
O professor deixou a escada para começar uma caminhada lenta até a frente de seus alunos, fitando cada um deles, que não tiravam os olhos da amostra da Criação que tinham acima deles.
- A beleza que vocês vêem está dentro de nós. Não tomos criados para sermos servos ou marionetes.
Joe sabe que cada um dos espíritos à sua frente apresenta um desafio diferente:
Rosa com sua fé cega; Assan entre as paredes do "eu"; James, um prisioneiro de seus próprios medos; e Joshua vivendo atrás das muralhas de seu ego, orgulho e satisfação própria.
As muralhas de Joshua, depois que seu flagrante da vida real foi apresentado no palco da vida, estavam começando a rachar.
Mas o professor sabia que elas tinham que cair.
Joe decidiu dar um empurrãozinho a elas.
- Joshua, você já criou alguma coisa?
O homem de negócios, em seu terno azul com risca de giz, dá uma piscada.
- Nada parecido com isso - admite, sem desviar o olhar das fascinantes luzes cintilantes acima dele.
Joe sorri.
- Eu sei disso.
Mas na Terra você fez muito.
Qual você acha que foi sua maior realização?
Josh pensou por um instante, não porque não sabia o que ia responder:
ele estava imaginando como ia responder.
O executivo sabia que, o que quer que ele dissesse, ia parecer insignificante comparado ao espectáculo acima dele.
Ele é um homem orgulhoso e não gosta de ver seus feitos minimizados.
Ele se endireita na cadeira.
Seus olhos encontram os do professor e sua voz soa com a autoridade que ele usava quando comandava seus subordinados.
- Estou surpreso de que ele não perceba quanto copiou de Sir Walter - observa Joe para você, e faz uma previsão:
- Mas essa hora vai chegar.
- Eu criei um império do nada.
Com meu talento e trabalho duro, construí uma companhia de seguros que rendia biliões de dólares.
Pode-se dizer que criei milhares de empregos e sustentei dezenas de milhares de famílias em todo o mundo.
O professor concorda que é uma grande realização.
- Mas - pergunta Joe - sua companhia podia pensar e agir por si mesma?
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Re: DIANTE DO ESPELHO da Vida / Ricky Medeiros

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