O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:01 pm

O Silêncio dos Domingos
Lygia Barbiére Amaral

Neste seu terceiro e empolgante romance, Lygia Barbiére Amaral, autora de "0 jardim dos girassóis" e "A luz que vem de dentro", mais uma vez nos leva a transitar por assuntos pulsantes e actuais.
Síndrome do pânico, obsessão, gravidez na adolescência, aborto, mal de Alzheimer e relacionamento entre pais e filhos são apenas alguns dos ingredientes que compõem a instigante trama de "0 Silêncio dos Domingos".
Uma trama ao mesmo tempo mágica e real tão real que poderia acontecer a qualquer um de nós.
Aquele domingo mudou a vida de todos eles.
Este livro também pode mudar a sua.

Quando pois te encontrares em luta imensa, recorda que o Senhor te conduziu a semelhante posição de sacrifício, considerando a probabilidade de tua exaltação, e não te esqueças de que toda crise é fonte sublime de espírito renovador para aqueles que sabem ter esperança.
(Trecho da mensagem "Crises", extraída do livro Vinha de luz, de Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel.)


Dedico este livro

A todos aqueles que sofrem, aos que têm medo, aos que tantas vezes se sentem paralisados por este medo, seja da eminência de uma fobia, de uma crise de pânico, de assumir um com compromisso tão sublime como a maternidade, de simplesmente não conseguir realizar algo que muito desejam.
Dedico a todos aqueles que nos momentos de desespero se sentem sós e desamparados, acreditando-se tão esquecidos pela Providência Divina a ponto de mal conseguirem intuir a imensa quantidade de benfeitores espirituais que os rodeiam não só nestes como em todos os momentos de nossa vida.
Nunca estamos verdadeiramente sós.
Este livro é também um presente para a prima, amiga e irmã Lúcia Maria Greve, minha querida Luculus, anjo de luz que me ampara, protege e acompanha pelos caminhos desta vida desde que ainda éramos meninas; e também uma homenagem a uma das mais belas almas que já transitou por este planeta de provas e expiações, o terno e inesquecível Chico Xavier.
Ele veio ao mundo com a missão de psicografar 30 livros e escreveu 418, mostrando-nos que, com perseverança, fé, humildade, amor e dedicação, nada é impossível.
Que Deus abençoe a cada um dos queridos leitores com Sua luz protectora.
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:02 pm

- I -
Tudo aconteceu de repente.
Era um domingo à noite.
Vítor conversava com um amigo ao telefone, quando experimentou um certo desconforto gástrico.
Não era exactamente um enjoo.
Era como se algo quente e amargo lhe subisse do estômago para o esófago e já se fizesse sentir na garganta.
Mas não era só isso.
Sem saber por quê, sentia-se meio aflito.
Parecia uma sensação de vazio, uma insegurança em relação a algo que ele próprio não sabia o que era.
Nesse momento, ouviu na televisão a chamada para o programa que estava prestes a começar:
- E possível clonar seres humanos?
A polémica questão, que é tema central da novela "Gémeos por acaso", de Janete Glória, ganha novos contornos nos Estados Unidos, onde uma empresa de biotecnologia afirma ter conseguido clonar os primeiros embriões humanos, embora nenhum deles tenha sobrevivido - anunciava a apresentadora em trajes de gala sob cenário futurista.
- Enquanto isso, na Itália, o ginecologista Severino Antinori afirma já estar em fase de gestação o primeiro clone humano; e a bioquímica francesa Brigitte Boisselier diz estar preparando a própria filha para ser usada como cobaia.
Quem, afinal, vencerá esta corrida milionária pelo direito autoral da vida? - complementou o outro apresentador, com ares de galã.
Está no ar o programa "Isto é Incrível!"
- Aí, cara, vou ter de desligar, o programa está começando - Vítor avisou ao amigo, sem querer entrar em maiores detalhes.
- Falou! Amanhã na escola a gente conversa!
O mal-estar continuava e também a ansiedade, que parecia aumentar a cada minuto.
Era estranho, pois aparentemente não havia nenhuma razão para que estivesse sentindo tudo aquilo.
Não havia comido nada de diferente no almoço, nem no lanche.
Além de que, era um domingo como outro qualquer, onde fazia as mesmas coisas de sempre.
Por que estaria tão inquieto?
Por breves instantes, desejou não estar sozinho em casa.
Mas ele sempre ficava em casa aos domingos e jamais experimentara qualquer problema.
Os pais tinham ido ao cinema e o irmão mais velho tinha saído com a namorada.
Procurou não pensar no mal-estar e concentrar-se em seu domingo de sempre.
Era um garoto de quinze anos, cabelos revoltos e olhos faiscantes, parecia sempre no limiar de alguma descoberta crucial para a humanidade.
Em geral, passava o domingo estudando e não perdia uma edição daquele programa, onde seu pai, que era jornalista, trabalhava como editor-chefe.
O tema daquela noite, aliás, mexia com ele de uma maneira especial.
Apaixonado por biologia, sonhava tornar-se um geneticista e realizar, ele próprio, a primeira experiência de clonagem humana, motivo pelo qual sentia-se profundamente interessado pelo que acabara de ser anunciado.
Ajeitou melhor o telefone no gancho e correu para frente da TV.
Era hora dos comerciais, ele tinha aproximadamente cinco minutos para ir até a cozinha, preparar um sanduíche e pegar uma latinha de refrigerante na geladeira.
"Quem sabe um pouco de refrigerante não resolvia o problema?", pensava consigo.
Já estava voltando com o refrigerante e a sanduíche, quando sentiu de novo o estranho mal-estar.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:02 pm

O ar parecia não entrar direito em seus pulmões, ao mesmo tempo em que experimentava uma espécie de angústia, uma pressão no peito, como se algo de muito ruim, que ele não sabia o que era, estivesse prestes a acontecer.
A sensação era extremamente desconfortante.
Era como se uma energia estranha, uma onda gigantesca de repente o envolvesse por inteiro.
Lembrou-se imediatamente dos pais que estavam na rua e uma série de pensamentos horríveis começou a passar por sua mente, aumentando seu desconforto.
E se tivessem sido assaltados na saída do cinema?
E se tivessem sido sequestrados pelos assaltantes?
E se Vinícius, o irmão mais velho, tivesse sofrido um acidente?
Poderia estar preso agora entre as ferragens de algum veículo!
As hipóteses se sucediam cada vez piores em seus presságios angustiosos, aumentando cada vez mais o medo enorme que inexplicavelmente deflagrara-se em seu íntimo.
Sentou-se na poltrona e, tremendo como se estivesse com muito frio, procurou concentrar-se na tão esperada reportagem que começava a entrar no ar:
- Localizada em Worcester, Massachusetts, a empresa americana de biotecnologia utilizou duas técnicas para clonar embriões humanos:
o método de fecundação que gerou a ovelha Dolly e a partenogénese, onde a fertilização é simulada através de estímulos eléctricos - explicava o repórter dentro de um laboratório.
Vítor, porém, captava apenas palavras longínquas, como se a TV estivesse ligada no apartamento de algum vizinho distante.
Parecia mesmo que alguma coisa havia se descolado de dentro dele, deixando-lhe uma estranha sensação de irrealidade.
Era como se houvesse um zoom em seus olhos.
Ao mesmo tempo em que se percebia sentado na poltrona, diante do aparelho de televisão e cercado por todos os objectos que lhe eram familiares, sentia todo o cenário se aproximar e se afastar, como se fosse um espectador de um mundo estranho ao qual não mais pertencia.
As coisas iam e voltavam, iam e voltavam, sob o ruído remoto das vozes na televisão.
Completamente alheio e disperso, Vítor tinha a impressão de ter perdido o tato; não conseguia mais sentir nem mesmo a lata de refrigerante que tinha nas mãos.
Ela continuava lá, mas era como se não estivesse.
Ainda trémulo, depositou-a sobre a mesa, temendo que a qualquer momento lhe escapulisse das mãos.
"O que seria aquilo?", pensava consigo, apatetado.
"Vertigem? Tontura? Desmaio?
Confusão Mental?
Acho que estou morrendo", foi tudo o que conseguiu deduzir.
Tenso, percebeu então que suas mãos e todo o seu corpo, além de trémulos, suavam muito.
E aquela onda gigantesca novamente o envolvendo.
Já não sabia se as sensações o estavam deixando nervoso ou se era o nervosismo que as causava.
Começou então a ficar ainda mais nervoso.
O tempo todo esforçava-se para parar de sentir aqueles inexplicáveis sintomas, mas era como se sua mente não lhe obedecesse mais ao comando e se fixasse cada vez mais no que acontecia em seu corpo.
Tomado por terrível sentimento de desespero, seu desejo era fugir, correr para algum lugar seguro onde pudesse estar com pessoas em quem confiasse.
Sentia que algo de muito ruim poderia lhe acontecer caso permanecesse ali; talvez viesse mesmo a morrer.
Mas fugir para onde?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:02 pm

Num esforço supremo, conseguiu levantar-se da poltrona e caminhar alguns passos, cambaleante.
Precisava chegar até a cozinha, descobrir que horas eram se faltava muito ainda para que os pais voltassem do cinema.
Eles tinham de voltar logo!
Chegando à entrada da cozinha, porém, sentiu efectivamente uma vertigem, como se estivesse prestes á desmaiar.
O mais curioso, contudo, é que o desmaio não vinha.
Sentou-se no chão para recobrar as forças e percebeu que estava com taquicardia.
Achou que fosse ter um enfarte e começou a se arrastar pela sala, em desespero.
Estava inteiramente empapado de suor, sentia enjoo e a boca muito seca.
"Um enfarte, com toda certeza estou tendo um enfarte", disse a si próprio.
"E agora, o que é que eu faço?", perguntou-se, sentindo-se dominado por aquele pavor crescente que quase o sufocava.
De tão atemorizado com os estranhos sintomas que se multiplicavam, em nenhum momento lhe ocorreu pedir ajuda por telefone ou mesmo pessoalmente a algum vizinho.
Em sua cabeça, passava apenas o medo enorme de morrer, a certeza de que lhe restavam apenas poucos instantes de vida.
Tudo o que desejava era não estar onde estava, daria tudo o que tinha para não estar vivendo aquilo.
Quanto tempo mais resistiria sem perder os sentidos?
Meia hora? Meio minuto? Um segundo?
E o pior de tudo era aquela sensação de medo, pânico, pavor que parecia se espalhar por dentro dele como uma mortalha gelada.
"Será que tinha morrido e não tinha percebido?", chegou a perguntar-se.
O medo era tão grande que ele não conseguia nem se mover de onde estava.
E a boca cada vez mais seca.
Seca e amarga.
Sentia uma sede quase insuportável, mas não tinha coragem de esgueirar-se até a cozinha para pegar um pouco de água, nem mesmo de arrastar-se até a mesinha onde deixara sua lata de refrigerante.
Estava paralisado de tanto pavor.
E os sintomas aumentando a cada minuto, aquele medo que parecia devorá-lo de dentro para fora.
Quando finalmente os pais, Luís Paulo e Cenyra, entraram em casa, cerca de vinte minutos depois do início da crise, encontraram-no agachado na porta da cozinha, enroscado como um feto, a respiração ainda ofegante.
A roupa estava encharcada de suor, parecia mesmo que havia acabado de sair debaixo do chuveiro.
Estava exausto, física e emocionalmente, tinha a sensação de que havia lutado por mais de duas horas.
Ao vê-los, jogou-se nos braços da mãe e começou a chorar compulsivamente.
"O que teria sido aquilo?
O que, afinal, teria acontecido com ele?", não conseguia parar de perguntar-se.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:02 pm

- II -
Eu não posso deixar que ela faça isso!
Aline disse alto para si, enquanto acenava nervosamente para o ônibus com destino ao Campeche.
De onde estava, no chamado centrinho da Lagoa da Conceição, até o endereço que apertava com força na mão direita, não eram mais que vinte minutos de ônibus.
Para ela, contudo, todo o tempo era pouco.
Acabara de ser informada por uma colega de classe que sua melhor amiga estava prestes a fazer um aborto e saíra fugida da escola para tentar evitar que o acto se consumasse.
Aline vivia em Florianópolis.
Tinha quinze anos e havia nascido e crescido nas imediações da Lagoa da Conceição - maior lagoa da cidade, situada no centro da ilha e famosa por sua exuberante paisagem natural.
Morava com a mãe e o irmão mais novo em um bairro chamado Barra da Lagoa, localizado a leste, e estudava em um colégio de freiras bastante tradicional na cidade, onde cursava o primeiro ano do segundo grau.
"A Mariana grávida...", ia pensando, enquanto o ônibus seguia seu trajecto, costeando a lagoa em direcção ao sul.
"O que eu faria se fosse comigo?
Não, certamente não pensaria em aborto.
Eu jamais pensaria em aborto!", afirmou mentalmente com inflamada veemência.
"Como é que alguém pode sequer cogitar a ideia de matar um bebé?", ela não conseguia entender.
"Sim, porque desde o momento em que o óvulo foi fecundado, já existe um bebé!", afirmava a si própria.
Teria mesmo Fatinha, a outra colega, entendido direito?
Porque Mariana não lhe contara nada?
Mas ela não ia deixar que a amiga tirasse a criança.
De jeito nenhum.
Se fosse preciso, até arrumaria um emprego para ajudá-la a sustentar o bebé.
Aliás, Florence, sua mãe, também poderia ajudar se necessário.
Quem sabe até não a convidava para passar uma temporada na casa deles?
Mariana certamente deveria estar com muito medo de contar a verdade a seus pais, ela imaginava.
Aline e Mariana eram amigas desde meninas, estudavam na mesma classe desde o maternal.
Tudo o que acontecia à amiga, portanto, era algo que virtualmente poderia acontecer com ela.
E era exactamente assim que ela sentia, como se aquele filho de Mariana, que ela até poucos minutos nem imaginava existir, fosse um pouco seu também.
"Não, eu não posso deixar Mariana cometer esse crime", afirmou mentalmente mais uma vez, estalando os dedos das mãos.
Só nos últimos meses a amizade entre as duas havia ficado um pouco estremecida, justamente por causa do namoro de Mariana com Mairon, um rapaz do terceiro ano de quem Aline não gostava nem um pouco.
Com toda a certeza, era ele o pai da criança.
"Eu sempre achei que esse namoro não ia dar boa coisa", cismava em silêncio, com os olhos fixos na paisagem lá fora, sem, contudo, enxergar nada além de suas próprias reflexões.
"E a Mariana achando que eu estava com ciúmes, onde já se viu?
Chegou mesmo a achar que eu estivesse a fim do Mairon...", ela estalou de novo os dedos ressentida.
"A verdade é que eu sempre achei esse Mairon um tremendo gabiru ganguento.(1)
E onde será que ele está neste momento?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:03 pm

Será que foi ele que deu o dinheiro para ela fazer o desmancho?(2)
Só pode ter sido...
A Mari nunca tomaria uma atitude dessas por conta própria...
Tadinha, deve estar sofrendo tanto...
Eu tenho certeza de que ela está precisando de mim neste momento..."
- Ai, minha Nossa Senhora do Desterro, será que vai dar tempo? - pensou alto, consultando o relógio, sem se importar com o olhar curioso dos outros passageiros.
Nesse momento, porém, todos foram sacudidos por uma brusca freada.
O ônibus acabara de bater num caminhão que ultrapassara o sinal, bem em frente à praia do Campeche, em seu trecho inicial.
Enquanto isso, numa ruazinha simples e pouco movimentada, habitada quase que exclusivamente por pescadores, uma jovem sozinha parava diante de uma casa.
A porta estava aberta.
Mordendo nervosamente a cabeça do dedo indicador, já no sabugo de tão roído, a jovem esticou os olhos em direcção ao interior da casa.
Devia ter, no máximo, uns dezasseis anos.
"Ai, meu Deus...
Será que é aqui?"; pensou, tocando levemente a barriga com a outra mão.
Era um local bastante modesto, de paredes que um dia já tinham sido azuis por inteiro, agora muito descascadas, cobertas de infiltrações e manchas de bolor.
Do tecto pendia um fio com uma lâmpada empoeirada; não havia nenhum quadro alegrando o ambiente.
O único enfeite da sala era um pequeno vasinho dourado enferrujado, contendo flores artificiais velhas e desbotadas, imitação de orquídeas raras carcomidas pelo tempo.
Ficavam em cima do moderno aparelho de TV de vinte polegadas, último modelo, ligado diante de um conjunto de sofás de tecido claro, também novinho em folha, onde uma jovem mascando chiclete folheava rapidamente as páginas de uma revista, sem muito interesse em seu conteúdo.
"E agora, Jesus, o que é que eu faço?" - pensou consigo a outra jovem que a observava da porta.
De dentro da casa, vinha um odor de peixe frito que lhe embrulhava o estômago.
- Vá embora daqui, desista dessa ideia - disse a seus ouvidos uma voz, que ela não sabia de onde vinha.
Transferiu os dentes nervosos para outro dedo e respirou fundo.
Talvez estivesse tendo alucinações, talvez estivesse apenas ouvindo a voz de sua consciência.
Até aquele momento não tinha ainda chegado à conclusão se queria ou não estar ali.
"Madame Zilá: cartomante visionária", dizia a sugestiva plaquinha de madeira pendurada ao lado da porta.
Todos na cidade conheciam sua fama na leitura de cartas; não havia marido ou mulher infiel que não voltasse para casa com os seus trabalhos, não havia moça que não arranjasse namorado depois de visitá-la.
E pensar que ela nunca tinha tido a coragem de ir até lá para consultar as cartas e, no entanto, agora estava ali para...
- Não mate seu filho - insistiu a voz dentro de sua cabeça, como se real mente houvesse alguém ali a seu lado -, ele é um pedaço do seu corpo e um prolongamento do seu espírito, você não pode fazer isso!
Ela abaixou os olhos e começou a chorar, pensando mesmo em sair dali o quanto antes e voltar para casa, mas foi detida pelo barulho seco de tamancos altos que se aproximavam.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:03 pm

Era a mãe - uma mulher alta, perfumada e muito bem vestida, com os olhos escondidos por grandes óculos escuros.
Fora estacionar o carro cm uma sombra no final da rua; não queria que ninguém, passando ali por acaso, notasse o veículo da família estacionado diante daquela porta.
As aparências sempre a preocupavam sobremaneira, ostentava um sobrenome tradicional na cidade, que não podia ser maculado, em hipótese alguma, por uma estripulia inconsequente da filha, menor e solteira.
-Ai... - suspirou ela, de maneira afectada, limpando o canto da testa com um lencinho bordado.
Não vejo a hora de acabar logo com tudo isso...
Tu me aprontas cada uma...
Já passava do meio-dia, fazia um calor insuportável.
Não muito longe dali, em meio à confusão generalizada que se formou, Aline, angustiada, tentava conseguir a atenção de um policial:
- Moço, por favor, onde fica essa rua? - disse estendendo o papel com o endereço.
O policial consultou calmamente o papel e pensou por alguns instantes que para Aline pareceram uma eternidade -, antes de responder:
- Se não estou enganado, fica bem na subida do morro do Campeche, mais ou menos a uns três quarteirões daqui...
- Obrigada! - respondeu Aline, puxando rapidamente o papel de mas mãos e saindo em disparada.
Mãe e filha continuavam paradas em frente à casa de madame Zilá.
O barulho dos pássaros brincando nas árvores da rua, naquele silêncio típico de hora do almoço, era quase uma afronta para aqueles dois seres inquietos, que não conseguiam manter calados os próprios pensamentos.
A mocinha enxugou rapidamente as lágrimas com o dorso das mãos.
Cada vez mais embrulhada com aquele cheiro de peixe, estava disposta a dizer que não queria mais fazer aquilo, mas sentiu-se desencorajada quando a mãe a empurrou para dentro, dizendo:
-Vamos, menina, entre!
Ou queres que alguém nos veja aqui?
- Resista, não faça o que ela quer!
Seu coração não quer isso! - insistiu a voz dentro dela.
- Mãe, eu... - tentou dizer.
A moça mascando chiclete, porém, a essa altura já estava na porta, com ar de extrema má vontade.
"Diabo de gente rica que nem a hora do almoço da gente respeita!", pensava contrafeita, olhando as duas de cima a baixo com profundo desprezo.
- Entrem - ela disse, indicando o corredor que dava para o interior da casa, madame Zilá só está esperando vocês...
Qual das duas é Mariana?
Num surto de coragem, Mariana chegou a virar-se de novo para a rua, pronta para sair correndo, mas a mãe foi mais rápida:
- Mariana é ela - respondeu, segurando a filha vigorosamente pelo braço.

1 Conquistador convencido no linguajar típico da ilha.
2 Aborto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:03 pm

- III -
Três meses se passaram até que um psiquiatra conseguisse diagnosticar o problema de Vítor:
-Você sofre de transtorno do pânico - disse o médico, depois de examinar atentamente a série de exames que a mãe do garoto lhe entregara.
- Mas nenhum destes exames apontou nada de errado com ele! -protestou Cenyra, apreensiva.
Vítor, que acompanhava tudo com olhos desconfiados, não disse nada.
-Justamente por isso -justificou o psiquiatra.
Por ser esta doença algo ainda em estudos pela comunidade científica mundial, o diagnóstico, em geral, é feito por eliminação.
Os sintomas podem ser confundidos com os de asma, diabetes, alterações cardíacas, epilepsia, hipertireoidismo, dependência de drogas e alcoolismo.
Só depois da verificação, através de exames, de que não se trata de nenhum destes males é que se começa a pensar para valer na hipótese da síndrome.
- Ai, meu Deus - suspirou Cenyra, quase num sussurro.
De tão exausta, ela não sabia se deveria ficar feliz com a descoberta ou se preocupava-se ainda mais.
Desde a noite da primeira crise, ela vinha se desdobrando na busca de uma explicação para o problema do filho.
Na própria noite da primeira crise, quando Vítor conseguiu enfim parar de chorar, ela e o marido quiseram a todo custo levá-lo a um pronto-socorro, mas o garoto se opôs terminantemente.
Estava muito amedrontado e passou a semana toda sem dormir e sem querer ir à escola, com medo de voltar a sentir aquilo que descreveu como a pior sensação que já experimentara em toda a sua vida.
Da primeira para a segunda crise houve um intervalo de quase um mês.
Todavia, desde então, 'a coisa', como o garoto passara a definir, começou a repetir-se a cada semana, invariavelmente aos domingos.
Nem o garoto, nem a família sabiam dizer se isto acontecia naturalmente ou em função de uma ideia fixa de Vítor, que passava a semana inteira ameaçado pela maior ou menor proximidade do domingo, como se coincidência implicasse necessariamente em uma regra.
O garoto vivia na permanente expectativa de voltar a sentir aquele pavor, de morrer desprotegido e sem assistência; o tempo todo com 'medo de sentir medo.
Escravo do próprio medo, via o mundo como um condenado, prisioneiro da angústia e da tristeza que pareciam devorá-lo a cada dia.
Luís Paulo e a mulher já haviam procurado todo tipo de especialistas:
cardiologista, neurologista, clínico, pneumologista, gastroenterologista (já que muitas vezes as crises vinham acompanhadas de forte enjoo), homeopata, endocrinologista.
Todos pediam uma batelada de exames, mas o diagnóstico era sempre o mesmo:
não havia nada de errado com Vítor que, em contrapartida, dia após dia tornava-se mais esquivo de tudo e de todos, mais receoso de sair de casa e de se relacionar com as pessoas.
Só queria ficar o tempo todo junto da mãe; não dava um passo sozinho.
Cenyra não podia mais fazer nada, nem ir a lugar nenhum, a menos que o carregasse consigo o que nem sempre era fácil, posto que o garoto tinha pavor de qualquer outro lugar que não fosse o próprio quarto.
Até que, duas semanas atrás, ela conseguira o endereço do consultório daquele psiquiatra que agora parecia acenar-lhes finalmente com as primeiras explicações sobre o que de facto estava ocorrendo com Vítor.
- E o que é exactamente que o senhor chama de transtorno do pânico? - perguntou o rapaz, ainda incrédulo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:03 pm

O médico pegou um papel e começou a fazer o desenho de estranhas estrelas com uma bola no meio, ligadas por pequenos tubos que eram, na verdade, o encontro entre dois braços posicionados lado a lado.
- Estes aqui são seus neurónios, suas células nervosas.
Eles formam uma rede interligada que vai transmitindo a informação original até o ponto de acção.
Assim, se eu penso que preciso andar, essa ordem se propaga em efeito dominó - ele pontilhou várias bolinhas atravessando a sequência de estrelas - até chegar aos músculos das minhas pernas, e dá o aviso às células musculares para se moverem.
Até aí você entendeu?
- Acho que sim... - respondeu Vítor, de olhar sempre muito desconfiado.
- Pois bem.
Para enviar as mensagens existem neurotransmissores - ele apontou para as pequenas bolinhas com que havia pontilhado o desenho.
Esses neurotransmissores são proteínas excitatórias, dentre as quais podemos destacar como principais a serotonina, a noradrenalina, a adrenalina e a dopamina, ok?
- Ok - concordou Vítor, começando a se mostrar interessado.
- Sempre que o nosso cérebro percebe um perigo, ele envia uma mensagem que activa uma espécie de alarme de protecção ou sistema de alerta, que prepara nosso corpo para brigar ou fugir, exigindo que todo o organismo mobilize energia para entrar em acção.
Você já percebeu que seu corpo fica diferente nesses momentos?
- Na verdade eu nunca prestei atenção... - respondeu Vítor, pensativo.
- Mas é o que acontece.
Por causa deste alarme, aumentam, por exemplo, as batidas do coração de maneira a acelerar a velocidade da circulação sanguínea, fazendo com que seja liberado mais oxigénio.
Não sei se você sabe, mas é o oxigénio quem fornece energia para o corpo funcionar...
Vítor fez um movimento afirmativo com a cabeça, interessadíssimo na explicação.
- Além desta alteração no ritmo do coração - continuou o psiquiatra -, há também uma mudança na distribuição do sangue no organismo, que passa a ser dirigido às partes do corpo onde ele se faz mais necessário naquele momento, que são o próprio coração e os músculos das pernas e braços.
Com isto, o sangue é retirado da superfície da pele, mãos e pés, o que, além de tornar mais efectivo o uso dos órgãos principais como o coração, faz com que o organismo fique menos vulnerável ao sangramento, no caso, por exemplo, do ataque de algum inimigo armado com alguma lâmina cortante.
Todavia, por haver uma mudança nas batidas do coração e nos locais para onde o sangue é dirigido preferencialmente, sente-se frieza nas mãos e pés, dormência nesses órgãos e o corpo gelado.
Você está acompanhando o raciocínio?
- Sim, sim - concordou Vítor.
- Outro exemplo interessante é o da transpiração.
O alarme de protecção faz com que as glândulas sudoríparas aumentem o seu funcionamento, porque, quando o corpo fica molhado de suor, fica frio, tornando a pele mais escorregadia.
Com isso, fica mais difícil a pessoa ser agarrada, se estiver fugindo...
- Isso é legal - considerou Vítor.
De fato, jamais havia reflectido sobre as defesas automáticas de seu corpo.
Todavia, não pôde deixar de observar a curiosa coincidência entre os processos descritos pelo médico e o que ele sentia em suas crises.
"Qual seria, afinal, a ligação entre o pânico e o tal sistema de alarme de que o psiquiatra falava?", questionou-se em silêncio.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:03 pm

Ainda pensava na melhor maneira de articular sua pergunta, quando o médico continuou:
-Até o momento, o que se descobriu sobre a Síndrome de Pânico é que as crises têm origem a partir da deflagração deste mecanismo de defesa sem que haja efectivamente um motivo para isto.
- Como assim? - tentou entender Cenyra, que também acompanhava atentamente a explicação.
- Acredita-se que os portadores da síndrome apresentem um desequilíbrio entre neurotransmissores, aquelas substâncias que enviam informações de um neurónio para outro, de que eu falei ainda há pouco.
- Mas por que isto acontece? - inquietou-se Vítor.
- Como disse, trata-se de um problema ainda em estudos.
Na maioria dos casos, a síndrome é provocada por situações de stresse, depressão ansiedade intensas, mas também pode ter causas genéticas.
Ou seja, se existir em uma família casos de síndrome do pânico ou outra doença nervosa, como depressão, há maior probabilidade de um dos descendentes desenvolver a doença.
Cenyra inventariou rapidamente todos os problemas que já haviam acometido a família, mas não havia nenhum dos casos descritos pelo médico.
O único dado real que ela podia constatar era que Vítor era um menino que estudava demais o que, talvez, pudesse caracterizar uma situação de stresse.
Fora isso, a única situação de pânico que ela, pessoalmente, vivenciara fora no dia em que houve um black out na cidade e ela ficou presa no elevador do prédio onde morava.
- O facto de alguém entrar em pânico uma vez não significa que tenha necessariamente o distúrbio - esclareceu o psiquiatra.
Qualquer pessoa está sujeita a ter uma crise ou outra de terror algum dia.
O que caracteriza a doença, no entanto, é o facto de alguém enfrentar mais de três ataques por mês, como aparentemente é o caso de Vítor.
Além disso, deve-se observar se a pessoa sente pelo menos quatro dos sintomas do pânico a cada crise.
- E quais são precisamente esses sintomas, doutor? - quis saber Cenyra.
- Falta de ar, tontura, tremores, palpitação, sudorese, náusea, formigamento, despersonalização, que é como chamamos a sensação de deixar o corpo, ondas de calor ou de frio, desrealização ou sensação de irrealidade, medo de enlouquecer ou de morrer e urgência de ir ao banheiro.
Você costuma sentir algum destes sintomas durante suas crises? - o médico perguntou a Vítor.
O rapaz abaixou a cabeça, entristecido, balançando-a em sinal afirmativo, respondeu:
- Quase todos.
Estava confuso.
Se, por um lado, sentia-se aliviado por estar finalmente diante de alguém que parecia entender de facto o que se passava com ele durante aquelas horríveis crises, por outro incomodava-o o facto daquele médico explicar tudo de uma maneira tão fria e objectiva, como se estivesse diante de um caso de rotina.
- Existem chances de cura? - perguntou ressabiado.
- Mas é claro que tem.
E só você se tratar - garantiu o médico sorridente.
Vítor não gostou da maneira como o psiquiatra se expressou.
De tão bem humorado, chegava a parecer debochado.
Aquele seu sorrisinho...
Ele falava como se tudo não passasse de um simples resfriado!
Afinal, um problema neurológico era uma coisa grave, ele mesmo falara em desequilíbrio de neurotransmissores!
- Então existe um tratamento? - reagiu Cenyra, esperançosa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:04 pm

- Mas é claro que sim!
O tratamento é feito à base de calmantes, que nós chamamos de ansiolíticos, e antidepressivos.
O ideal, aliás, é que o paciente seja acompanhado também por um psicoterapeuta, para que volte a ter confiança em si mesmo e possa enfrentar suas fobias - disse ele, enquanto rabiscava algo num papel.
Vítor também não gostou de ouvir isso.
Não era exactamente fã de remédios e muito menos de medicamentos que actuassem em seu cérebro.
Segundo o psiquiatra, os componentes do medicamento agiriam directamente sobre o sistema neurotransmissor, bloqueando as crises de pânico, o que, no entanto, não significava que seus medos também cessariam com a mesma rapidez.
O médico, porém, afirmava com toda a certeza que, no decorrer do tratamento, através de uma série de exercícios, Vítor aprenderia a exercer controle sobre eles até que voltasse a ter uma vida normal.
- Aqui está a receita - disse ele, mostrando o papel a Cenyra.
Este aqui é um comprimido para combater a ansiedade, já que o transtorno de pânico é fundamentalmente um transtorno de ansiedade.
Este outro aqui é o antidepressivo, que vai atenuar bastante essa tristeza que você sente.
Inicialmente, vamos começar com uma dosagem média, que poderá ser reduzida ou aumentada de acordo com a sua reacção...
- Como assim reduzida ou aumentada de acordo com a minha reacção? - Vítor não conseguiu se conter.
- Os antidepressivos costumam provocar alguns efeitos colaterais.
O suor aumenta, sente-se muita sede, tem-se necessidade de comer doce.
Pode haver também desarranjo intestinal, tontura, embaralhamento de visão e, às vezes, aumento de peso - explicou o médico.
Todos estes sintomas, quando ocorrerem, deverão ser relatados pelo paciente para que se possa fazer o ajuste da medicação.
Vítor mal podia crer no que ouvia.
Ajuste! Aquele camarada era o quê?
Um médico? Um costureiro? Um mecânico?
Definitivamente, seu cérebro não precisava de ajustes.
E muito menos de remédios que ajustassem a sua capacidade de pensar.
"E que indivíduo, em sã consciência, tomaria um medicamento, sabendo de antemão de todos aqueles efeitos colaterais?", pensava estarrecido e indignado.
Afinal de contas o objectivo era ajudá-lo ou acabar com ele de vez?
- Mas não há como evitar todos estes efeitos, doutor? - perguntou Cenyra, percebendo a inquietação do filho.
- Em geral, todos estes sintomas desaparecem depois que o remédio é assimilado pelo organismo.
Por isso, as doses são, a princípio pequenas, e vão aumentando gradativamente, até atingir o necessário a cada metabolismo.
Em geral, só dá para descobrir a dosagem ideal para o paciente depois de alguns meses de experimentação, mas...
- Espera aí!
Quanto tempo eu vou ficar tomando estes remédios? - interrompeu Vítor, cada vez mais incomodado.
- Isso vai depender da resposta do seu organismo.
Tanto pode levar anos, quanto durar apenas alguns meses - esclareceu novamente o médico.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:04 pm

Mas acredito que o seu tratamento vai ser bem mais rápido do que imaginam.
Afinal, contamos com a grande vantagem de a doença ter sido descoberta rapidamente.
Você teve sorte, garoto!
"Sorte?
O que será que ele chama de sorte?", pensou Vítor revoltado.
Há três meses que a vida dele estava virada de pernas para o ar, que ele vivia na iminência de um pavor avassalador que ele nem sabia direito de onde vinha e aquele médico engraçadinho ainda dizia que ele tinha sorte?
- E o efeito é imediato, doutor? - perguntou Cenyra, depois de olhar a receita por alguns instantes.
- É e não é - respondeu o médico.
Em geral, aquele estado de angústia permanente que caracteriza o panicoso desaparece logo após a primeira dose.
Mas o quadro geral da síndrome só sofre urna alteração considerável depois de duas semanas, quando os medicamentos começam a actuar, de facto, no organismo.
Quase sempre, o paciente volta a ter uma vida normal após três meses.
Mas cada caso é um caso.
Como disse antes, o grande trunfo de vocês foi ter descoberto rapidamente o diagnóstico.
Vítor não conseguia acreditar em uma palavra do médico.
Para começar, não entendia o que ele insistia em chamar de "rapidamente".
Em sua cabeça de adolescente, três meses eram uma eternidade ele havia, inclusive, ficado em prova final na escola por ter faltado todo aquele tempo.
De mais a mais, depois de tanto sofrimento, não entrava em sua cabeça a ideia de que as coisas pudessem se resolver assim, num passe de mágica, ainda que fosse esse o seu maior desejo.
E havia ainda a questão dos medicamentos.
Não queria tornar-se dependente de um remédio para o resto de sua vida!
E se ficasse bobo e alienado, sem qualquer capacidade de raciocínio?
Afinal de contas, ele ainda queria tornar-se um cientista!
Embora o médico houvesse tentado convencê-lo de que as doses iriam futuramente diminuir, na medida em que o problema fosse sendo controlado, até a completa supressão do medicamento, ele sabia que, na prática, as coisas não funcionavam bem assim.
Já lera muitas vezes que certos medicamentos viciam as pessoas; seu pai mesmo só conseguia dormir depois de tomar um comprimido de lexotan, e isso já fazia muitos anos.
Saiu do consultório directo para a farmácia, onde a mãe desembolsou considerável quantia na compra dos remédios receitados.
Completamente alheio à euforia de Cenyra, Vítor, porém, tinha apenas uma certeza:
ele não iria tomar aqueles remédios por muito tempo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:04 pm

- IV -
Aline dançava diante do espelho do armário aberto, quando o telefone tocou.
"Beijo é muito bom, é mais que mil, é mais que bom.
Beijo quando é dado tem que ser apaixonado, pode ser até roubado, esteja onde estiver, ô,ô,ô", gritava o aparelho sobre a escrivaninha.
-Alô, quem? Fatinha?...
O quê? A Mariana?...
Não! Não, eu não quero falar com ela...
Eu sei que é antevéspera de Natal...
O quê? Ela perdeu o ano na escola, terminou tudo com o Mairon e está falando que quer se matar?....
Tá, tudo bem...
Eu estou indo para lá...
Tá, quarenta minutos.
A gente se encontra na ponte de pedra...
Não, não vou atrasar.
Mesmo porque, às cinco horas, eu tenho que pegar o meu irmão na escola...
Tá... Outro pra ti...
Ela depositou lentamente o fone no gancho e ainda permaneceu por alguns minutos pensativa, com a mão pousada no aparelho, sob a música altíssima que vinha do som portátil sobre a escrivaninha, na voz da dupla Sandy e Júnior, agora em ritmo romântico:
"As vezes me pergunto se... eu viverei sem ter você... se saberei te esquecer..."
Desligou o som e começou a jogar apressadamente um monte de coisas dentro da bolsa:
agenda, carteira, batom, escova de cabelos, remédio para eólicas, um pequeno caderno de telefone, duas canetas, uma amassada apostila de biologia.
Tinha ficado em prova final nesta matéria e fazia questão de andar com a apostila para todo lado, na intenção de aproveitar qualquer pequeno intervalo para estudar, embora efectivamente não sobrasse muito tempo para isto em sua movimentada vida social.
- Acho que peguei tudo - disse alto, para si, pendurando a bolsa à tiracolo e dando uma última olhada no espelho.
Meu Deus, como a Mariana pôde mudar tanto em tão pouco tempo...
la era tão estudiosa...
Querer se matar por causa disso?
Não é possível...
Três meses haviam se passado e Aline não conseguia esquecer sua Ilustrada tentativa de evitar que a amiga consumasse o aborto.
Naquele dia, quando Aline finalmente conseguiu encontrar o endereço, Mariana estava parada na porta, de olhos inchados e com a fisionomia muito pálida.
- Mariana... - disse Aline bufando, exausta depois de correr três quarteirões e ainda subir uma ladeira sob sol causticante.
- Graças a Deus que te encontrei a tempo...
Vamos embora daqui, você não...
- Aline? - a mãe de Mariana, que vinha saindo de dentro da casa com o talão de cheques na mão, estancou assustada na porta.
Não vai me dizer que você também...
Sua mãe sabe que você está aqui?
Só então Aline percebeu o olhar arrasado de Mariana e entendeu tudo.
Era tarde demais.
- A senhora? - disse estupefacta.
Como tiveram coragem?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:04 pm

Eu... Eu nunca mais quero ver vocês, entenderam?
Nunca mais! - ela saiu correndo pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, sentindo as lágrimas escorrerem sobre seu rosto em chamas.
Ficava sempre muito vermelha quando se aborrecia.
Sobretudo depois de tanto exercício físico.
- Aline! Volte aqui, guria! - a mãe de Mariana ainda tentou gritar.
Mas ela já estava longe.
Jamais perdoaria Mariana por ter sido tão fraca.
Desde então, embora estudassem na mesma classe, as duas não voltaram mais a se falar.
Por diversas vezes, Mariana tentou se aproximar.
Aline, contudo, sempre se esquivava.
Sua decepção fora tão grande que ela não tinha vontade nem de ouvir mais a voz de Mariana.
Seu coração, todavia, não perdera o afecto pela antiga amiga de infância.
Tanto que agora, ao ser informada do estado de Mariana, acabara esmorecendo.
"A gente não pode abandonar os amigos nas horas difíceis...", pensava consigo, enquanto rabiscava, já na sala, um rápido bilhete para a mãe, que era assistente social e ficaria de plantão no hospital até o final da tarde naquele domingo:
"Mãe: Fui resolver um problema na casa da Mariana e..."
Amassou o bilhete e pegou outro papel no pequeno bloquinho que ficava ao lado do telefone da sala.
Não queria deixar a mãe preocupada.
Era melhor que pensasse que tinha apenas saído com as amigas:
"Fomos tomar um sorvete.
Na volta, pego Rafael na gincana da escola. Beijos. "
De onde morava até a ponte de pedra, onde havia marcado com Fatinha, era um estirão, uma caminhada de mais de um quilómetro.
Parou no ponto de ônibus, mas, depois de dez minutos de espera, decidiu ir a pé.
Aos domingos, os colectivos eram quase uma miragem na cidade e, quando passavam, estavam sempre lotados de pessoas molhadas e grudentas vindas da praia, naquele calorão de dezembro.
Havia também os amarelinhos, ônibus executivos assim conhecidos por causa da cor, mas, além de demorados e invariavelmente repletos de turistas argentinos naquela época do ano, eram bem mais caros do que os ônibus comuns.
"É melhor mesmo ir a pé", assegurou-se a si própria, depois de acenar, sem sucesso, pela terceira vez, pedindo carona.
"Como é que pode uma menina que sempre foi a primeira da classe perder o ano assim desse jeito... ela não foi nem para a prova final!", ia pensando, enquanto caminhava costeando a lagoa por uma calçadinha estreita.
"Mas daí a querer se matar!"
A bem da verdade, Aline havia reparado que, desde a tarde do aborto, Mariana havia perdido completamente o interesse pelos estudos.
Ficara esquisita, fechadona.
Se antes irritava os colegas com a quantidade de perguntas que fazia aos professores durante as aulas, nos últimos tempos mal se ouvia sua voz dentro da sala de aula.
Não fosse, aliás, a briga com Mariana, ela também não teria ficado em prova final de biologia.
A vida inteira Mariana havia lhe ensinado as matérias que não sabia na véspera das provas.
"Tudo por culpa desse Mairon...", deduziu com ódio no olhar.
Ainda não conseguira se conformar com o facto de Mariana não ter confiado nela quando descobrira que estava grávida.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:05 pm

E, o que era pior, depois do ocorrido, ela viera a saber que nem para Fatinha, também amiga das duas há anos, Mariana contara seu segredo.
Achara de confiar justamente na fofoqueira da Eunice, que Aline sempre odiou!
"Por que Mariana me traiu deste jeito?", ela até hoje continuava a perguntar-se.
Sua decepção aumentava ainda mais quando ela pensava na mãe de Mariana.
"E como é que uma mãe pode levar a filha numa curandeira qualquer com o intuito de matar o próprio neto?", questionava-se revoltada.
E pensar que a vida inteira ela havia admirado aquela mãe, a quem crescera chamando de tia.
Sentia o coração se apertar de remorsos ao lembrar de quantas e quantas vezes havia julgado que ela fosse melhor do que sua própria mãe, por estar sempre tão bem vestida e arrumada, por fazer todas as vontades de Mariana...
"Afinal, de quem teria sido a ideia do aborto?
De Mariana ou de sua mãe?".
Ela ainda não conseguira chegar a uma conclusão.
O facto, porém, é que Aline havia aprendido a valorizar muito mais a própria mãe, Florence, depois do acontecido.
Só então percebera o quanto Florence era amiga e companheira, o quanto se esforçava para sustentar sozinha a ela e ao irmão, o quanto era bonita, mesmo não tendo tempo nem dinheiro para viver se arrumando em salões ou comprando roupas em boutiques, como a mãe de Mariana.
De tanto pensar, Aline nem sentia o caminhar de seus pés.
Era como se flutuasse, envolta em suas preocupações.
Logo, chegava a uma ruazinha estreita e curva que ligava a Rua Vereador Orni Ortiga, por onde viera, com a avenida das Rendeiras, que era uma espécie de continuação da ponte de pedra.
Funcionava ali um portinho, com ponto de lancha colectiva e vários barcos de aluguer.
Uma movimentação incomum, porém, chamou-lhe a atenção para a esquina da avenida, cujo início era famoso pelas quatorze casinhas espalhadas pelo passeio, onde senhoras mantinham viva uma das maiores tradições da ilha de Florianópolis, que era a confecção artesanal de rendas de bilro.
Pessoas pareciam movimentar-se de maneira estranha, entrando e saindo da primeira das casinhas.
Sem falar na quantidade de veículos estacionados no passeio.
"O que estaria acontecendo?", Aline não pôde deixar de perguntar-se.
Ela conhecia bem o casal de velhinhos portugueses que moravam ali.
Chamavam-se dona Preciosa e seu Gentil, e vinham a ser justamente os donos da casa alugada onde ela vivia com a família.
Receosa, esticou um pouco mais o pescoço para tentar ver o que estava ocorrendo.
- O velho desocupou o beco! - surgiu gritando um guri pequeno e sem sapatos, com jeito de filho de pescador.
- O que estás dizendo? - Aline levou um susto.
- E isso mesmo:
seu Gentil, o marido de dona Preciosa deu a casca, bateu a caçoleta!
- Meu Deus...
Coitada da dona Preciosa...
- Morreu dormindo, depois de almoçar um baita prato de moqueca de siri mole com pirão de peixe! - explicou o garoto, que parecia extasiado com a história.
- Já pensaste?
Pior que dona Preciosa ainda chamou a atenção dele, com medo que tivesse uma congestão depois de comer tanto, mas aí ele disse:
"Deixa velha!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:05 pm

Se eu morrer, pelo menos morro de barriga cheia!"
E não é que morreu mesmo?
Aline abriu a boca, consternada, depois tapou-a com a ponta dos dedos e ficou alguns instantes congelada naquela pose, pensando se deveria ou não entrar para o velório.
Não parava de chegar gente na casa, não sabia direito nem como proceder nestas ocasiões.
Talvez fosse melhor voltar mais tarde, com a mãe.
A bem da verdade, não tinha lá muita ligação com seu Gentil, um homem muito taciturno, que era uma espécie de conselheiro dos pescadores da região.
Para aqueles homens, era Deus no céu e seu Gentil na Terra.
Rafael, o irmão de Aline, e Florence, sua mãe, também tinham verdadeira adoração por ele.
Mas ela gostava mesmo era de dona Preciosa, espécie de avozinha querida de todas as crianças, daquelas que sempre têm uma deliciosa bolacha caseira para oferecer.
- Coitada da dona Preciosa... - voltou a repetir, ainda sem saber que rumo tomar.
Ao ver estacionado defronte à casa o carro da funerária, porém, lembrou-se de Mariana e sentiu um arrepio.
- É melhor eu ir... - pensou alto.
Depois... depois eu volto... - disse ainda, numa satisfação ao garoto, que a essas alturas já estava dando a notícia a outros passantes, com mais alguns detalhes.
Ao chegar à outra extremidade da ponte de pedra, porém, qual não foi sua surpresa ao ver a própria Mariana aos beijos com Mairon, do outro lado da rua, bem na porta dos correios, onde havia marcado com Farinha.
Esta mantinha-se um pouco afastada, olhando para a Lagoa distraída.
Aline sentiu imensa tristeza e ao mesmo tempo muita raiva, não conseguia fazer com que seu cérebro parasse de fazer perguntas.
Como Mariana tivera coragem de voltar com aquele canalha?
Será que não enxergava que era ele o responsável por tudo de errado que estava acontecendo em sua vida?
E pensar que a desmiolada havia até pensado em se matar por causa dele!
Toda aquela história começava a tomar ares de pesadelo.
Amava Mariana como uma irmã, mas não conseguia se conformar com a falta de juízo da amiga.
E, no final das contas, fora ela quem posara de má.
Como podia ser uma coisa dessas?
Tudo o que ela queria era ajudar, Deus era testemunha de suas intenções.
Jogou para trás os longos cabelos castanhos e lisos, de reflexos dourados pelo constante contacto com o sol, e seguiu em direcção à escola, do lado oposto ao da casa de Mariana.
Era como se dentro dela estivesse uma grande bagunça; sua mente mais parecia um fichário após um tombo, com as folhas todas embaralhadas e fora do lugar.
Era uma moça muito bonita, aparentava dois ou três anos a mais do que dizia sua carteira de identidade.
De porte alto e esguio, sua forte personalidade parecia impressa em cada um de seus traços, sobretudo em seus grandes e expressivos olhos verdes e em suas grossas sobrancelhas, que por pouco não se encontravam no alto da testa.
Diziam que se parecia muito com a mãe.
Já eram quase cinco horas quando atravessou o portão da escola e foi sentar-se junto a outras colegas de turma.
Elas também esperavam seus irmãos voltarem da gincana tradicionalmente promovida pela escola na época do Natal, entre os alunos de quinta a oitava série.
Cumprimentaram-se todas com três beijinhos, depois voltaram a se acomodar, aboletadas nas costas dos bancos, com os pés sobre os assentos.
Nenhuma delas vestia uniforme.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:05 pm

Até porque era domingo.
Olhando-as de longe, no entanto, tinha-se a impressão de que até haviam combinado a roupa, tão semelhantes eram os modelos.
Todas usavam calças jeans rasgadas do jeito da moda, com a bainha na altura das canelas.
Algumas eram incrementadas com alfinetes, outras com bordados, sempre acompanhadas de min blusas coloridas de uma só alça e de sandálias pretas altíssimas, de salto Anabela.
Fosse esse o uniforme da escola, talvez não o vestissem todas de tão bom grado e com tamanho preciosismo.
Como Aline, a maioria ali tinha por volta dos quinze anos de idade e acabara, ou estava prestes a acabar, o primeiro ano do segundo grau.
Eunice estava entre elas e, embora a tivesse cumprimentado normalmente, só de olhar para ela, Aline sentia aumentar sua raiva.
Estava com ódio de Eunice, de Mariana, de Farinha e até de si mesma por sentir todas estas coisas.
Queria ser uma pessoa mais equilibrada, entender melhor os outros sem julgá-los tanto.
Mas não conseguia.
Era uma pessoa radical.
Com os outros e consigo própria.
Em esforço sobre-humano, porém, não disse nada.
Ficou ali remoendo seus pensamentos, enquanto as moças falavam sem parar.
E como falavam!
- Sabem o Fernando, do segundo B?
Pois então, estávamos na Joaquina,(3) hoje cedo, quando ele chegou.
Precisavam ver que físico, que porte!
Ainda mais carregando aquela prancha!
Daí ele chegou perto da Mónica, não foi Mónica?
E disse:
"Não eras tu que estavas ontem no Quiosque do Alemão?
E ela disse...
Em melodioso ritmo cantado, levemente chiado, e com uma velocidade lusitana de flexão, elas pareciam capazes de pronunciar cem palavras por minuto, sem perder a suavidade.
Era esse, aliás, um dos traços mais característicos daquela cidade catarinense, onde a colonização açoriana do passado, com seus sotaques, festas e tradições, convivia pacificamente com a ilha movimentada, com vocação para capital do turismo do Mercosul.
Do encontro na praia da Joaquina, passaram a comentar a queima de fogos que estava programada para o réveillon na praia Brava, o novo bar que acabara de inaugurar no Campeche.
Sabiam de toda a programação da cidade em minuciosos detalhes.
Nada, porém, parecia interessar a Aline, que se mantinha emburrada e pensativa no caminho do banco.
- Repararam que coisa mais perfeita é o desenvolvimento do embrião dentro da mãe?
Foi a parte que mais gostei de estudar na apostila.
Com doze semanas o rostinho já tem fisionomia definida, não é incrível? - comentou uma delas, referindo-se à matéria da prova de biologia, que seria realizada logo depois das comemorações do Ano Novo.
Só neste momento Aline teve sua atenção despertada para a conversa:
- Eu nunca faria um aborto, não sabem? - disparou o pensamento ainda fixo em Mariana.
Nunca faria, em hipótese alguma!
- Eu também não, guria!
Ainda mais depois de passar noites e noites desenhando todos aqueles gráficos de embriologia, tás tola? - atalhou Janaína, a única do grupo que era natural de Chapecó, no oeste de Santa Catarina.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:05 pm

As garotas riram, a excepção de Adriana, que pareceu um pouco incomodada com o comentário:
- Olha Aline, vou te dizer uma coisa pra ti:
não é por nada não, mas acho que estás a bancar a doutora-da-mula-ruça, pensando que sabes de tudo!
Tem certas coisas que a gente nunca pode dizer.
Sabes, por acaso, o que é que te espera no dia de amanhã? - ponderou.
- Lá isso é verdade - concordou Eunice, pensativa.
Tenho uma amiga, da nossa idade, não sabem, que descobriu que está doente de família.
E ainda por cima de um rapagi que não tem nada a ver com ela.
Os dois ficaram juntos de bobeira, por acaso, numa festa, e aí aconteceu.
Pior é que o pai dela é gente de prestígio na cidade, não ia aceitar nunca.
A coitada está disvareteiada, (4) não tem outra maneira de sair dessa situação...
Vai ter que fazer o desmancho, de qualquer jeito...
Aline sentiu algo queimar dentro de si.
Como aquela Eunice poderia ser tão sonsa, como podia incentivar as colegas a fazerem aborto?
Vai ver fora ela quem convencera Mariana!
E quem seria esta outra, de quem ela falava com tanta intimidade?
Inconscientemente, talvez até por mero ciúme, Aline tentava desviar para Eunice toda a raiva que estava sentindo, toda a responsabilidade sobre o que ocorrera com Mariana.
- Como não tem outra maneira de sair desta situação?
Enlouqueceste, tu também?
Por que é que ela não cria o filho que ela mesma ajudou a gerar? - questionou inflamada.
- Ora, com quinze anos, Aline?
Como é que ela vai dizer para a mãe dela, para o pai dela que tem um filho na barriga?
E na escola, como vai continuar seus estudos com um baita de um barrigão, com todo inundo falando, todo mundo comentando?
- Pois eu não acho que aborto seja solução, viste?
A tua amiga é uma grande covarde.
Devia era ter pensado em tudo isto antes de fazer a bobagem, minha mãe sempre diz isto! - defendeu Aline, estalando nervosamente as juntas dos dedos das mãos.
- E a minha mãe, em compensação, sempre diz:
nunca digas desta água não beberei! - reiterou Eunice.
Adriana tá certa!
Como podes saber o que é que vai te acontecer de sóli parido a sóli murrido? (5)
- Eu posso até não saber.
Mas que nunca vou me perder com rapagi que nem conheço direito, isto eu garanto pra ti!
Vou casar virgem, de branco, não sabes? - ela estalou todos os dedos da mão direita antes de continuar.
E se, por acaso, algum dia tiver qualquer problema deste tipo, vou escolher bem as pessoas a quem vou pedir ajuda!
Não vou sair por aí contando meu problema para qualquer uma, não, viste? - insinuou, jogando os longos cabelos para trás, numa tentativa de disfarçar as lágrimas que já começavam a brilhar em seus olhos.
- E o que é que tu queres dizer com isto? - Eunice se levantou, pronta para a briga.
Antes que Aline conseguisse responder, porém, o hino da cidade começou a tocar, a todo volume, nos alto-falantes da escola, anunciando a chegada do pessoal da gincana.
A brincadeira era sempre realizada em um sítio em Ribeirão da Ilha, bairro a trinta quilómetros do centro, que, ao longo de mais de duzentos anos, mantinha-se como núcleo vivo da cultura açoriana, com suas ruas de pedra, ladeadas por casinhas antigas, de grandes portas e janelas com arcos, lembrando um pouco a arquitectura colonial de Ouro Preto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:06 pm

Era quase uma outra cidade dentro de Florianópolis.
"Um pedacinho de terra,/perdido no mar!...
Num pedacinho de terra,/belezas sem par.../Jamais a natureza/ reuniu tanta beleza/Jamais algum poeta/ teve tanto pra cantar!", diziam os versos do chamado Rancho de Amor à Ilha, (6) alegremente acompanhado pelos garotos bronzeados e suarentos que iam descendo dos ônibus estacionados no pátio da escola.
Apenas Aline e seu irmão Rafael, que tinha onze anos e estudava na quinta série, destoavam do clima.
Ele acabara de sair do ônibus e, tal qual a irmã, mantinha o semblante e os lábios cerrados, enquanto aguardava que um colega jogasse pela janela o cantil que havia esquecido lá dentro.
De longe, Aline percebeu que algo de errado tinha acontecido e saiu correndo ao encontro de Rafael, sob o olhar desconfiado de Eunice.
As outras meninas mal notaram quando ela se levantou.
Pareciam mergulhadas no clima histórico e nostálgico que invadira a escola, cantando empolgadas como se vivessem de novo as últimas gincanas escolares de que haviam participado.
- Te arranca, Aline, que eu não quero ficar nem mais um minuto nesta droga!
Dois toques! (7) - disse ele, aborrecido, já caminhando em direcção à saída em passos muito rápidos.
- Mas não vais nem esperar pela premiação? - estranhou ela.
- Minha equipe perdeu e o pessoal todo ainda tá tirando farinha comigo.
Se eu ficar aqui mais um minuto, ainda assento as costuras d'um! (8) - ele atravessou os portões, ganhando a rua em passos cada vez mais rápidos.
- Mas o que é que aconteceu de tão grave, Rafa? - quis saber Aline, tentando acompanhá-lo.
"Tua lagoa formosa / ternura cie rosa/ poema ao luar,/ Cristal onde a lua vaidosa/ sestrosa, dengosa/ vem se espelhar..." , dizia a letra do final do hino, já longe, logo seguida por uma chuva de aplausos dos alunos em festa.
Sabes aquela brincadeira do boitatá? - perguntou Rafael, um pouco mais calmo, enquanto seguiam pela rua movimentada, cheia de pessoas em trajes de banho entrando e saindo dos bares.
Ele referia-se a uma das tarefas da gincana.
Florianópolis é uma ilha mística por excelência, povoada de lendas que falam de bruxas que atacam pescadores, roubam barcos e bailam dentro de tarrafas de pescaria.
Sem falar nos boitatás, nos lobisomens e fantasmas que arrastam suas sinas nas horas mortas da noite, pelas matas e na imensidão dos mares.
Por causa destas lendárias tradições, a gincana da escola era sempre dividida em duas partes:
uma caritativa, que começava no início do mês de dezembro, quando as equipes arrecadavam alimentos, produtos de higiene e outros itens básicos para serem distribuídos mais tarde em asilos e orfanatos; e outra folclórica, onde de certa forma reviviam e cultuavam os principais mitos da chamada Ilha da Magia, em tarefas como dar nó na cauda e na crina de um cavalo bravo - travessura típica das bruxas, segundo as lendas correntes.
De todas essas tarefas, porém, a preferida das crianças era a do boitatá.
Cada grupo tinha de recitar, sem nenhum erro e o mais rápido possível, a frase usada para afugentar o boitatá - "zenobra trás a corda do sino mode amarrar o boitatá que ele anda por aqui" - dando início a uma corrida entre as equipes que deviam, cada qual, subir até o alto da torre da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, bem próxima ao sítio da escola onde acontecia a brincadeira, encontrar um pedaço de corda de sino e descer para amarrar o 'boitatá' (que era sempre um professor fantasiado).
A garotada adorava.
- Sei, sei qual é - lembrou Aline.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:06 pm

- Pois então.
Na hora em que eu estava lá na torre da igreja, apareceu o seu Gentil... - contou o garoto encabulado.
- O seu Gentil?
Aline sentiu um calafrio que deixou seu corpo todo arrepiado.
Chegou a parar na rua de tão assustada.
- É... - Rafael também parou a seu lado.
Ele tava lá na torre do sino procurando o pedaço de corda, não sei direito como ele entrou.
Veio andando em minha direcção e falou:
"O, guri, preciso que leves um recado pra tua mãe".
- Um recado para a mãe? - surpreendeu-se Aline.
- Eu também fiquei abestalhado, não entendi por que ele não foi falar directo com ela e...
- Mas e aí, qual foi o recado? - interrompeu Aline, ansiosa, cada vez achando mais estranha aquela história.
- Bom, seu Gentil pediu para eu dizer para ela que não fique zangada com ele e nem com a dona Preciosa...
Que às vezes uma coisa que parece um mal, pode nos ajudar a voltar para o caminho que tinha sido desviado...
"Acontecimentos que nos parecem desastrosos", ele disse, "representam escoras ao nosso equilíbrio e ao nosso êxito"...
Eu não entendi nada.
- Que coisa mais esquisita... - disse Aline, já estalando novamente as juntas dos dedos.
E nem perguntaste o que ele queria dizer com...
- Nem tive como!
Depois de dizer tudo isso nessa linguagem de esfinge, ele simplesmente sumiu.
Evaporou que nem uma visão, tu acreditas?
- Caramba...
Aline sentiu seus braços ficarem ainda mais arrepiados e uma tontura gelada percorrendo lhe a testa.
Ela sabia que, por a gincana mexer com o lado folclórico das crenças da região, muitas vezes era comum meninos verem bruxas, lobisomens e boitatás 'de verdade' durante a brincadeira.
Mas Rafael tinha de ver justamente o seu Gentil?
E ainda por cima trazendo um recado tão sem pé nem cabeça?
- Por causa disso, minha equipe perdeu a competição e, quando fui tentar explicar o que tinha acontecido, ficou todo mundo rindo da minha cara, dizendo que eu tava de alavela,(9) só pra assustar o pessoal...
-A que horas exactamente aconteceu isso? - quis saber Aline.
-Anda agorinha, antes da gente voltar.
Era a última prova da gincana e... - só então ele reparou que a irmã estava pálida.
Mas por que é estás me perguntando isto?
Estás passando bem?
- O seu Gentil morreu hoje, logo depois do almoço!

3- Praia da Joaquina, onde costumam ser realizadas competições nacionais e internacionais de surfe.
4- Todas as expressões contidas nos diálogos foram extraídas do falar popular da ilha, como "vou dizer uma coisa pra ti".
"Doente de família" é grávida.
"Desvareteiada" é a pessoa que pirou, saiu do sério de tanta preocupação.
"Doutora-da-mula-ruça" é a que é metida a saber de tudo, e "rapagi" é rapaz.
5- Do nascente ao pôr-do-sol, quer dizer durante todo o dia.
6 -De autoria de Cláudio Alvim Barbosa e declarado hino oficial do município em 08/07/1968.
7 Rapidamente, num instante.
8 Tirar farinha - brincar, pegar no pé.
9- Invencionice perversa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:06 pm

- V -
- Ahhh... Algo me diz que este vai ser o Natal mais especial de nossas vidas - suspirou Florence, satisfeita, lambendo os dedos sujos da massa de panetone que escorria substanciosa das espátulas da batedeira.
- Encontrar meu pai, depois de todos estes anos, é tudo o que eu mais quero na vida!
A cozinha mais parecia um campo de batalha.
Ao lado da batedeira com as pernas para cima, um filete de água pingava sobre uma pilha de pratos acumulados desde a hora do almoço.
Havia panelas por toda parte, cheias e vazias, no fogão e fora dele.
Panelas e copos, posto que o pessoal da casa tinha o péssimo hábito de ir usando todos os copos disponíveis, até que não restasse mais nenhum no armário.
A mesa, por sua vez, estava coberta de travessas vazias, dos mais variados formatos, tamanhos e materiais, ainda em fase de selecção.
Para Florence, tão importante quanto o sabor e o aroma de uma comida era sua forma de apresentação.
Tanta bagunça, porém, restringia-se à cozinha.
No resto da casa, impecavelmente arrumada, recendia apenas a fumaça de perfumadas iguarias, cujos odores se misturavam em rara e harmoniosa combinação, dando água na boca em qualquer anónimo passante que cruzasse por acaso aquele pedaço de rua.
Já era noite e Florence queria aproveitar o final do domingo para adiantar os preparativos para a festa.
No dia seguinte seria véspera de Natal e ela estava ansiosa porque, dentro de poucas horas, receberia em Florianópolis sua tia Noémia e suas primas Paloma, Chuva e Lucila, que moravam no Rio e deveriam chegar à ilha na hora do almoço.
Mas não era só isso que a inquietava.
Algo em seu íntimo dizia, gritava, que era preciso estar precavida para qualquer eventualidade.
Afinal, a qualquer momento o telefone poderia tocar e...
Será mesmo que a equipe do programa de televisão conseguiria localizar seu pai?...
Só de pensar na possibilidade de revê-lo, já sentia aumentarem suas saudades.
Ela havia passado tantos anos sem notícias, tanto tempo sem poder alcançá-lo...
Será que aquela reportagem iria dar certo?
Lágrimas escorreram lhe dos olhos emotivos, molhando-Ihe o sorriso que antecipadamente despontava em seus lábios naquela expectativa.
- Bem - recapitulou alto, enquanto despejava na forma a massa do panetone que acabara de bater -, já limpei todo o camarão para o estrogonofe, o bacalhau com alcaparras vou tirar do forno agora, antes de colocar o panetone...
O strudel de maçã já está na geladeira, o pavê de abacaxi está esfriando...
Ficou faltando só o arroz...
E o peru recheado com farofa, é claro...
Nossa Senhora do Desterro!
Será que estou exagerando na quantidade de comida?
Florence gostava de receber as pessoas com uma mesa farta, cheia de pratos variados.
Para ela, preparar um alimento era uma forma de demonstrar carinho; cozinhar, um acto sagrado.
Dona de inconfundível tempero, aprendera com a mãe, cozinheira profissional de um restaurante famoso e muito antigo em Florianópolis, os primeiros segredos de forno e fogão.
Com o tempo, acabara criando seus próprios pratos.
Adorava combinar especialidades das mais variadas tradições sulinas, vivia anotando receitas na casa das vizinhas.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:06 pm

Curioso é que ela preparava tudo com tal e tamanho empenho, que era como se sua emoção escorresse pelos dedos, misturando-se aos ingredientes.
Não raro, as pessoas que provavam sua comida acabavam experimentando também um pouco dos sentimentos que lhe iam pela alma no momento do preparo, mas ela sempre achava que isto era coisa de sua imaginação.
Até que um dia, viu no cinema um filme onde tais coincidências aconteciam de maneira extremada e ficou muito impressionada.
O filme, que ficaria para sempre gravado em sua memória como a mais bonita história que já acompanhara em sua vida, chamava-se "Como Água Para Chocolate", e era uma adaptação de um romance de Laura Esquivei.
Contava o drama de uma jovem mexicana que perdia seu grande amor para a irmã mais velha, por causa de uma tradição familiar que determinava que a filha mais nova deveria permanecer solteira para cuidar dos pais quando estivessem idosos.
A tal jovem, porém, era uma exímia cozinheira e passava suas emoções de uma tal forma para os pratos que preparava que, no dia do casamento, os convidados choraram depois de saborearem o magnífico banquete preparado por ela.
O choro foi o primeiro sintoma de uma intoxicação de melancolia que atingiu a todos.
Desde então, impressionada com aquele filme que falava tão forte aos seus sentimentos, Florence passou a evitar cozinhar sempre que uma mínima pontinha de tristeza pairasse sobre seus pensamentos.
Efectivamente, nem tinha muito tempo para isto.
Durante a semana, o trabalho como assistente social no hospital que ficava no bairro universitário, do outro lado da cidade, tomava a maior parte de suas horas.
- O, Mãe!...
Acho bom que te apresses, porque o programa já começou! - gritou Rafael, da sala.
- Vem, mãe!
Assim mofas com a pomba na balaia! (10)
Eles estão anunciando o teu caso! - completou Aline.
- Vocês colocaram a fita para gravar? - perguntou Florence, entrando na sala apressada, enxugando as mãos no avental.
Lavara quase toda a louça:
-Já tá gravando! - respondeu o garoto, sem tirar os olhos do vídeo.
Aline e Rafael haviam combinado não comentar nada ainda com a mãe sobre a morte de seu Gentil, nem sobre o misterioso recado que ele transmitira a Rafael durante a gincana.
Sabiam que ela estava cheia de expectativas e não queriam, de maneira alguma, estragar aquele momento tão especial para ela.
Depois do programa, encontrariam uma forma de contar-lhe.
Sem conseguir parar de apertar os lábios com os dentes, Florence sentou-se ao lado de Rafael, na pontinha do sofá, como se estivesse prestes a mergulhar dentro da tela da TV.
Mas não deixou de reparar em Aline, que parecia triste e distante:
- Aconteceu alguma coisa, filha?
- Não... Estava pensando na prova de biologia.
Ainda tenho muito que estudar... - disfarçou a menina.
- Se precisares, te ajudo, tá? - ela deu um beijo carinhoso na cabeça da filha, que estava sentada sobre um almofadão bem a sua frente.
Mesmo em seus trajes caseiros, Florence era uma mulher bastante interessante e viva, quase italiana em seu jeito de ser.
Tinha cabelos castanhos com reflexos dourados, como a filha, porém um pouco mais curtos, mais ou menos na altura dos ombros.
Usava-os sempre presos à nuca por um palito de madeira que atravessava o coque, de maneira que sempre ficavam alguns cachos pendurados em sensual desalinho.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:06 pm

Seus olhos eram grandes e brilhantes, cor de mel, emoldurados por expressivos cílios.
Apesar de já ter dado à luz dois filhos, conservava ainda um corpo sinuoso e atraente, nem gordo e nem magro, na medida certa de seus trinta e quatro anos.
- Carioca de nascença, mas criada na cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, ela esperou trinta e um anos por este momento - anunciava a voz do repórter na TV.
Viu o pai pela última vez quando tinha três anos e nunca mais soube de nada a seu respeito.
Agora, dois anos após a morte da mãe, ela decidiu que quer reencontrá-lo e apresentar-lhe seus netos - a tela foi tomada por imagens do álbum de família, onde podia-se ver uma antiga foto em preto e branco de um homem com um bebezinho no colo, ao lado de uma foto de Florence sendo beijada pelos filhos.
- Eu nunca deixei de amá-lo - dizia ela, de olhos molhados, com o álbum aberto sobre o colo, finalizando a chamada para a reportagem.
- E você vai conhecer também a incrível história do homem que vive no interior da Amazónia e confecciona carrancas de personalidades famosas - acrescentou a outra repórter, dando prosseguimento ao cardápio electrónico do programa que começava a entrar no ar.
Os três se mantiveram por algum tempo em silêncio, na expectativa, assistindo a todas as chamadas como se estivessem unidas à tão esperada reportagem de forma indissociável, tal qual as páginas de uma revista que contém uma matéria que nos interessa e que, por isso, fazemos questão de guardá-la por inteiro.
Propositadamente deixado sobre a mesinha que ficava em frente à TV, cercado por velas decorativas e pinhas douradas, o álbum de família era quase um personagem daquela história, à espera do momento certo de entrar em cena.
- Mas tinhas de mandar aquela foto, não é, mãe?
Aline finalmente quebrou o silêncio, durante os comerciais.
- O que é que tem demais, filha?
Era a única foto que eu tinha do meu pai...
A única foto que eu encontrei escondida nos guardados de minha mãe depois que ela se foi...
- Pena que esteja tão velhinha, não é, mãe?
Mal dá para ver direito o rosto do vovô, viste? - observou Rafael, abrindo o álbum sobre a mesinha e olhando carinhosamente para a foto.
Sem querer, ele se lembrou de seu Gentil e ficou um pouco triste.
"As vezes uma coisa que parece um mal pode nos ajudar a voltar para o caminho que tinha sido desviado", ele dissera.
"Acontecimentos que nos parecem desastrosos representam escoras ao nosso equilíbrio e ao nosso êxito", a frase voltava o tempo todo em sua mente.
O que será que seu Gentil teria querido dizer com aquilo?
- É, e com certeza ele mudou muito nestes anos todos - imaginou Florence, envolta em suas próprias emoções, sem perceber a melancolia do filho.
- Gente, eu não estou falando da foto do vovô, não sabem? - interferiu Aline.
Estou falando da nossa!
Precisavas mandar também aquela foto, mãe?
Pôxa, todas as minhas amigas vêem esse programa! - ela se lembrou sem querer de Mariana e também abaixou os olhos com tristeza.
- E o vovô também pode estar vendo, não sabes? - defendeu Rafael.
- Foi ideia deles filmar o álbum e eu achei que não tinha nada demais, Aline...
Estás tão bonita naquela foto... -justificou Florence.
- Ahn? - Aline levantou os olhos e esticou-os até a página do álbum aberto sobre a mesa.
Realmente não tinha saído mal na foto.
O que a incomodava era o facto de estar beijando a mãe como uma menininha.
Afinal de contas, ela já tinha quinze anos!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:07 pm

- Sei... Depois eu é que vou ter de ficar ouvindo todo mundo pegar no meu pé lá na escola, não sabem?
Que mico, meu Deus, que mico! - desabafou sua preocupação adolescente.
- Tudo pra ti agora é mico, já reparaste Aline?
Eu acho que devias era ir morar de vez no Zoológico, que é cheio de micos! - implicou Rafael.
-Hi, tás tolo, tás? (11)
Não funga, bocaiúva! (12)- rebateu Aline, com raiva.
Abriga dos garotos foi ficando cada vez mais inflamada.
Provavelmente estavam descarregando um no outro as angústias que os sufocavam, mas não tinham consciência disso.
A mãe não esboçava qualquer reacção.
De olhos grudados na tela, embora sem enxergar nada do que estava passando, Florence parecia desligada do mundo.
Revivia mentalmente cada detalhe da última vez em que vira o pai, como se aquele simples anúncio da reportagem houvesse activado um dispositivo interno que a empurrasse de volta ao passado:
- Não adianta, Aretusa, não dá certo - dizia ele à mãe, enquanto arrumava suas roupas dentro de uma mala aberta sobre a cama.
- Pense bem no que está fazendo, José.
Se você colocar os pés fora desta casa, não haverá volta.
Você nunca mais vai me ver, e nem à sua filha - ameaçou Aretusa, forte, segurando a dor na garganta.
- Ora, não seja idiota!
Qualquer tribunal do mundo me dará o direito de visitar a minha filha ao menos uma vez por semana! - respondeu ele, quase indiferente, sem parar de tirar roupas do armário.
- Pois isto é o que nós veremos - garantiu a mulher, saindo do quarto com passos firmes.
Era um domingo de 1970. Agachada ao lado do armário, soluçando quase em silêncio, a pequena Florence assistia a tudo assustada, sem saber o que dizer.
"Papai do Céu, por favor, faça o papai e a mamãe pararem de brigar!" - era tudo em que conseguia pensar.
- Manhêêêê! - gritou Rafael, abanando as duas mãos diante de seus olhos.
Só então Florence voltou ao presente:
- O quê?
-Tem alguma coisa queimando na cozinha! - ele falou alto, como se ela fosse surda.
- O panetone!
Florence saiu correndo em direcção ao forno, quase queimou as mãos no tabuleiro quente, de tão avoada que estava.
Olhou para aquele panetone moreno e não conseguiu dizer se havia queimado ou não.
Era como se uma parte dela, justo aquela que comandava as atitudes mais básicas, estivesse fora do ar.
Depositou a forma quente em um canto da mesa, em acto instintivo, depois sentou-se em uma cadeira, apertando os dedos queimados dentro do avental, com os olhos ainda fixos no passado.
A porta bateu e Aretusa ficou parada na sala, segurando Florence pela mão.
A menina abriu o berreiro, mas a mãe não disse sequer uma palavra.
Uma única lágrima escorreu de seu olho direito.
Uma lágrima grossa e solteira, que se depositou gorda sobre o vestidinho de Florence.
Foi a única vez que ela viu sua mãe chorar em toda sua vida.
Um choro profundo de uma lágrima só.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 25, 2016 2:07 pm

Poucas horas depois, as duas entravam em um ônibus para Florianópolis, levando apenas algumas poucas roupas dentro da surrada valise de couro, e Pupu, uma bonequinha de cabelos ruivos que Florence guardava até hoje.
Só muito tempo depois, ela ficaria sabendo que Aretusa não conhecia ninguém em Santa Catarina, nem nunca havia feito planos de um dia ir morar na ilha.
Escolhera seu destino por causa de uma foto bonita que havia no guiché de venda de passagens da empresa e achara estar fazendo a escolha certa depois de ser informada que o ônibus partiria em poucos minutos.
Desde aquela triste tarde, Florence nunca mais conseguiu gostar de domingos.
Era como se, em seu silêncio típico, eles desnudassem a saudade insuportável que ela conseguia a tanto custo esconder em meio aos barulhos da semana.
Saudades de seus gritos de alegria no parque, quando o pai a empurrava no balanço, saudades do tempo em que podia ser apenas uma criança, com a mente povoada de bruxas e fadas, príncipes e princesas.
De certa forma, era como se o pai tivesse levado junto com ele a sua infância.
Fora preciso crescer de repente para conseguir suportar a dureza e a secura da mãe.
De bom coração, porém extremamente exigente, dona Aretusa educou a filha com mãos de ferro, sufocando ao máximo todas as emoções da pequena a fim de que nunca viesse a passar pelo que ela passou.
Contrariando as expectativas da progenitora, porém, a menina era a sensibilidade em pessoa, uma verdadeira 'manteiga derretida', que não se cansava de perguntar pelo pai.
Em todas as vezes, contudo, a resposta era sempre a mesma, dita de forma fria e lacónica:
- Seu pai e sua mãe agora sou eu.
E trate de não me aborrecer com essa sua choradeira que eu tenho muito o que fazer.
E sempre tinha mesmo.
Dona Aretusa cuidava da casa, da menina, fazia comida, lavava e passava roupa, e ainda trabalhava de noite como cozinheira de um restaurante chique na Avenida das Rendeiras.
Fazia o impossível para que não faltasse nada de material à filha.
Com o tempo, Florence desistiu de perguntar pelo pai.
Entendeu que sua mãe sofria tanto quanto ela, embora sempre tentasse disfarçar, e só se tornara assim tão durona para não sucumbir diante da própria dor.
A verdade é que dona Aretusa, cuja voz tornara-se irremediavelmente rouca desde a tarde da separação, não tinha a menor ideia do paradeiro do ex-marido.
Talvez, ao mudar-se para Florianópolis, imaginasse que ele fosse azucrinar seus parentes até conseguir descobrir seu paradeiro.
Mas isso não aconteceu.
José nunca sequer telefonou para tia Noémia, a irmã de Aretusa, na tentativa de saber qualquer notícia sobre a mulher e a filha.
Era facto que ele conhecia Noémia apenas de nome (já que a família jamais houvera aceitado que os dois não tivessem se casado no papel).
Nada impedia, contudo, que, naquelas circunstâncias, tivesse procurado seu telefone no catálogo e tentado ao menos algum contacto.
A despeito de seu jeito fechado, Aretusa jamais deixou de apoiar a filha em todas as circunstâncias, de amá-la como seu maior tesouro.
Trabalhou dobrado para que Florence pudesse cursar a faculdade de Serviço Social que tanto queria, apoiou-a até mesmo quando ficou sabendo que ela havia engravidado, ainda solteira, de um colega da universidade.
- Você não precisa se casar com ele só por causa da criança - disse à filha, depois de passar dois dias em absoluto silêncio.
Eu te criei sozinha e sei como te ajudar.
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