O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Página 5 de 16 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6 ... 10 ... 16  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:42 am

Nunca se conformou, contudo, com o facto da mãe ter aberto mão do sobrenome pomposo e comprido para adoptar simplesmente o nome do pai.
Embora amasse o doutor Bragança e reconhecesse em seu íntimo todo o sacrifício que este empreendera para poder oferecer-lhe uma educação dentro dos mais rígidos padrões, não conseguia entender a falta de ambição de seu progenitor e, sobretudo, por que a mãe, dona Carolina, havia se submetido a um estilo de vida tão diferente do que fora criada.
Talvez faltasse a Jaqueline a compreensão da grandeza do amor verdadeiro que unia seus pais, ambos já falecidos, já que, sempre movida por valores materialistas, nunca tivera a oportunidade de experimentar tal sentimento.
Nem ela, nem o marido, porém, tinham consciência da própria ignorância em termos afectivos.
Ao contrário, até acreditavam-se felizes dentro da moldura de aparências que haviam construído para si ao longo daqueles vinte e quatro anos de convivência.
Fora, porém, graças à excessiva generosidade do doutor Bragança que Faustino despertara para a possibilidade de tornar-se um médico.
O bondoso facultativo era o único no hospital que sempre apreciava sua precisão como enfermeiro.
Faustino era dedicado, cuidadoso, jamais errava uma veia durante uma aplicação de soro, uma injecção ou uma simples colecta de sangue.
Até que um dia foi chamado para uma conversa na residência do doutor Bragança, a essas alturas já viúvo:
- Meu filho, por que você não tenta um curso superior de enfermagem ou mesmo de medicina?
Sinto que você leva jeito para a coisa! - disse o médico, após enchê-lo de elogios.
Os olhos de Faustino brilharam ao ouvi-lo.
Era vaidoso, gostava de ter suas qualidades exaltadas.
Além do que, a medicina sempre fora seu grande objectivo.
Em sua infância pobre, olhava para a mansão do mais conhecido médico da pequena cidade onde morava, no interior do estado do Rio, e sonhava com o dia em que moraria numa casa ainda maior do que aquela.
É verdade que tinha bastante vontade de trabalhar como médico, sentia mesmo que trazia aquele dom dentro de si.
Mas, já desde aquela época, atraía-o sobretudo o status que poderia obter através da medicina.
Acabara, no entanto, optando por um curso técnico de enfermagem, dada a necessidade de ingressar o quanto antes no mercado de trabalho.
- Mas, doutor, eu já tenho trinta e seis anos, até conseguir me formar, depois de cumprir o período obrigatório de residência, já ia ter mais de quarenta!
Quem vai querer contratar um médico desta idade? - argumentou, vencido, após alguns instantes de reflexão.
- Meu rapaz, tente ver as coisas pelo lado positivo.
Você já trabalha em um hospital, já tem muita experiência com doentes.
Eu teria interesse em contratar um profissional como você!
Aliás, se optar por especializar -se em ginecologia e obstetrícia, já tem emprego garantido como meu assistente - prometeu o médico.
Estava claro que o médico - que até então apenas intuía-se portador do câncer que em poucos anos consumiria suas últimas resistências - queria fazer de Faustino seu sucessor.
A hipótese fascinava sobremaneira o enfermeiro que, todavia, não a enxergava pela mesma óptica do bom médico.
Doutor Bragança queria alguém que pudesse substituí-lo em sua missão junto aos pobres.
Faustino, contudo, via na oportunidade acima de tudo uma forma de ascensão material.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:42 am

Em uma fracção de segundos, imaginou-se do prestígio do doutor Bragança, atendendo a todas as mulheres ricas que o facultativo usualmente não tinha tempo de incluir em sua agenda, recebendo delas o "valor justo" de uma consulta.
- Não se preocupe com livros e equipamentos - acrescentou Bragança, acreditando que seu silêncio fosse o resultado de preocupações desta ordem.
Trabalharemos juntos, poderei ceder-lhe quase tudo de que necessitará.
E o que faltar, deixe comigo.
Quero ser seu padrinho nesta batalha.
Isto é, se você assim o desejar...
- Eu... eu... - Faustino, emocionado, não conseguia encontrar palavras para exprimir seu contentamento.
Mal podia acreditar que tudo aquilo estava realmente acontecendo.
- Você só precisa estudar, meu rapaz.
Meter a cara de verdade, queimar os miolos para passar no concurso! - sorriu o médico, dando-lhe leves tapinhas no rosto, em gesto de carinho paternal.
Nem bem o doutor Bragança acabou de falar, Jaqueline entrou na sala, na plena exuberância de seus quinze anos.
Já era mulher feita, sem qualquer trejeito infantil.
Faustino ficou tão fascinado ao vê-la que perdeu até a noção do importante assunto que estava sendo discutido, deixou cair no chão a maleta que sempre carregava consigo.
Era como se a vida inteira houvesse esperado por aquele encontro.
Ela, porém, deixou a sala tão rápido quanto entrou, nem reparou no enfermeiro que atabalhoadamente recolhia no chão um antigo aparelho de pressão que lhe caíra da maleta.
Queria apenas algum dinheiro para pagar o lanche que programava fazer com as amigas após a escola.
- Estragou seu aparelho? - o médico perguntou solícito, assim que a filha saiu.
- Ela também pensa em fazer medicina? - o rapaz não pôde conter-se.
- Jaqueline? - riu-se o doutor Bragança.
Já perdi as esperanças de tentar convencê-la.
Tem pavor de sangue e alergia a doentes.
Ele riu e Faustino tentou fingir descontracção, acompanhando-o com uma gargalhada forçada, ao mesmo tempo em que fechava de novo o aparelho dentro da maleta.
Não conseguia parar de pensar em Jaqueline.
Tomara aquela visão como um sinal de que deveria realmente aceitar o oferecimento do médico.
Aliás, não só acatou-lhe a sugestão como passou a frequentar-lhe a residência quase todos os dias para estudar química e biologia com o doutor Bragança, em preparação para o concurso.
Muitas vezes saía exausto do trabalho, mas recobrava as forças só de pensar que iria ver Jaqueline, ainda que fosse apenas para ela o desprezar mais uma vez.
Por um bom tempo, ela o tratou com frieza e indiferença.
Mas nem por isso eximia-se de provocá-lo.
Não raras vezes, atravessava a sala em esvoaçantes camisolas, sob o pretexto de ir buscar água na cozinha.
Faustino ficava tão perturbado que precisava jogar água no rosto para voltar a concentrar-se nos livros.
E quanto mais ela fingia desprezá-lo, mais vontade ele tinha de estudar, mais desejava passar naquele concurso.
Com tanto empenho de Faustino, não era de se estranhar que nem passasse pela cabeça do doutor Bragança que o enfermeiro tivesse uma esposa e uma filha pequena de colo.
Cada vez mais apaixonado pela beleza de Jaqueline, ele tomava sempre o máximo cuidado com as palavras, desconversava sempre que o assunto resvalava para sua vida pessoal, comportando-se o tempo todo como um adolescente com vergonha da família.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:43 am

Na verdade, nem mesmo contara à esposa sobre seus planos futuros.
Cada vez mais seco e distante, justificava seus horários de chegada tão tarde da noite dizendo que estava trabalhando mais para dar uma vida melhor à filha.
Contraditoriamente, tão cego, tão obcecado estava em sua paixão por Jaqueline que mal conseguia ter olhos mais para a menina, a quem até poucos meses atrás atribuía sua maior razão de viver.
Sua ambição desmedida sufocara toda a alegria que antes reinava naquele lar, tornando infernais as poucas horas em que passava ao lado da mulher e da filha.
A menina chorava o tempo todo, tentando expressar a falta que sentia do pai, a mulher vivia crivando-o de perguntas descabidas e desagradáveis, cobrando-lhe por suas prolongadas ausências.
Exausto pela puxada rotina de estudo e trabalho que se impusera, o enfermeiro aspirante a médico só conseguia irritar-se com aquela situação stressante, chegou a um ponto em que não suportava mais sequer ouvir a voz da esposa.
Curioso é que, até o dia em que o doutor Bragança chamara-o para aquela conversa, Faustino vivia bem com a mulher e a filha.
Não que vivessem uma vida de propaganda de sabão em pó, onde as pessoas sorriem o tempo todo para realçar a brancura das roupas.
Lutavam com dificuldade para assegurar um padrão de vida minimamente compatível com suas necessidades, brigavam de vez em quando, como qualquer casal, mas sempre se acertavam.
Acima de todas as dificuldades financeiras, reinava um agradável companheirismo entre os cônjuges, que conversavam sempre sobre seus problemas e buscavam alternativas para oferecer um futuro digno à filha.
Todavia, o encontro com aspirações já esquecidas, trazidas à tona pelos elogios do doutor Bragança, acabou por abalar as estruturas mais íntimas de Faustino, transformando-o em um duplo de si mesmo.
De certa forma, era como se o enfermeiro sempre houvesse esperado por esta duplicação de sua personalidade.
Era no mínimo intrigante o lato dele possuir em seu registo de nascimento um nome diferente do que constava na certidão da filha e mais ainda o facto dele fazer questão de ser chamado no hospital justamente por este nome.
Em casa, o enfermeiro era apenas José.
Toda esta confusão surgiu quando, por ocasião de seu nascimento, o pai, de quem aparentemente havia herdado a sua mania de grandeza, decidiu registá-lo com seu mesmo nome, como manda a tradição machista, fazendo, porém, um pequeno acréscimo.
Ao invés de José da Silva Filho.
Não queria que o filho se chamasse José Faustino da Silva Filho.
Não adiantaram os argumentos do humilde funcionário do cartório local, que explicou um sem número de vezes que, para receber o sobrenome Filho, a criança teria de ter exactamente o mesmo nome do pai, sem qualquer acréscimo.
Orgulhoso, o pai de José arranjou uma leitoa para 'presentear' o rapaz do cartório e conseguiu assim dar ao filho o nome que sonhava para si.
Confusão semelhante se repetiria mais tarde, quando do nascimento da filha de José Faustino, quando o então funcionário do cartório observou a diferença entre os nomes e, avesso a propinas, alegou que de forma alguma poderia perpetuar aquele erro na certidão da criança, optando por designá-lo com o nome 'correto'.
Foi assim que ele passou a existir na sociedade simultaneamente como José Faustino da Silva Filho e José da Silva Filho.
Tal duplicidade durou até o dia em que, cansado de ser pressionado pela esposa, cada dia mais desconfiada de suas saídas nocturnas, arrumou as malas e foi embora de casa, indo alojar-se em uma pensão próxima à residência do doutor Bragança, sob a alegação de que havia sido despejado de sua antiga moradia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:43 am

Com a intensa convivência, não demorou para que ele e Jaqueline se identificassem como espíritos afins.
O relacionamento entre os dois solidificou-se com a descoberta da doença do doutor Bragança, quando ela, fragilizada, encontrou em Faustino todo o apoio de que necessitava.
Poucos meses após a morte do médico, faltando apenas um semestre para que Faustino concluísse a faculdade, os dois se casaram.
Mesmo herdando o consultório do sogro, porém, a afirmação como profissional não foi nada fácil para Faustino.
Afinal, como imaginara logo de início, não tinha mais a idade ideal para um iniciante e não podia mais contar com a indicação do doutor Bragança para a consolidação de sua carreira.
Jaqueline já começava a inquietar-se com a vida de privações que eram obrigados a levar quando mais um "golpe de sorte" alçou Faustino ao patamar com que ele tanto sonhara.
Ainda lutava por uma vaga de médico no hospital onde continuava a desempenhar a função de enfermeiro, quando Lupércio, um colega não menos ambicioso, surpreendeu-o com a proposta:
não era ele agora um ginecologista recém-formado, com consultório próprio e tudo?
Porque não transformar o local em clínica especializada em abortos?
O feminismo estava em alta, não faltavam mulheres interessadas em livrar-se do fardo pesado da maternidade.
Dentro do próprio hospital, aliás, a procura era tanta que o próprio Lupércio, mesmo como simples enfermeiro, já havia se familiarizado com alguns métodos abortivos.
Em seus plantões, diversas vezes realizara 'operações' em sigilo, como forma de assegurar um dinheirinho extra.
Com o diploma de Faustino e a clínica que herdara do sogro, ficaria tudo muito mais fácil.
Poderiam montar um consultório tradicional de fachada, preparar salas especiais nos fundos e, logo que o dinheiro começasse a entrar, investiriam nos equipamentos.
Faustino nem pensou duas vezes.
Aceitou a proposta de imediato, Jaqueline nem precisou ficar sabendo de nada.
Com as economias de Lupércio reformaram o antigo consultório e, em poucas semanas, já recebiam uma primeira cliente, moça rica da zona sul que, satisfeita com o "serviço bem feito" e com a discrição do local, não tardou a recomendá-lo às amigas.
E logo o negócio prosperou, confirmando as previsões de Lupércio.
Em menos de seis meses, Faustino era alçado ao posto de cliente especial no banco onde era correntista.
Em cinco anos, depois de duas viagens à Europa com a esposa, já dispunha de dinheiro suficiente para adquirir o amplo apartamento de cobertura em Laranjeiras e o submeter a uma completa e cara reforma.
Os primeiros abortos foram difíceis.
Não pela técnica em si, que não tinha nada de complicado para alguém que sempre fora conhecido por uma incrível habilidade manual.
Experiências deste tipo, porém, inicialmente sempre geram algum tipo de conflito para aqueles que a realizam.
Não que Faustino fosse dado a crises de consciência.
Seu carácter ambicioso não oferecia muito espaço para questionamentos de ordem moral.
Todavia, sempre que terminava uma 'operação', sentia-se assaltado por profundo mal-estar, uma sensação de sujeira que não o deixava dormir, fazendo-o varar madrugadas debaixo do chuveiro.
Quando, exausto, conseguia pregar finalmente os olhos, era então sacudido por horríveis pesadelos onde os fetos retirados ganhavam vida para acusarem-no e ameaçarem-no.
Com o tempo, foi se acostumando de uma tal forma à rotina e aos pesadelos que estes deixaram de incomodá-lo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:43 am

Via-os como simples manifestações de medos descabidos e inconscientes.
Não podia, no entanto, livrar-se da sensação de sujeira.
Era como se um cheiro de sangue uterino lhe houvesse ficado entranhado por dentro da pele, de uma maneira que nenhum sabão, nenhum perfume conseguia neutralizar.
Por isso aderira às luvas de borracha e mandara instalar tantas pias no apartamento.
Ainda assim aquele odor jamais deixava de acompanhá-lo, mesmo nos dias em que não realizava nenhum aborto.
-Já estou eu pensando no passado de novo! - enxugou o suor da testa com novo algodão embebecido em álcool.
A verdade é que Faustino encontrava-se atormentado desde o dia em que assistira pela televisão àquela reportagem em que a moça de Florianópolis fazia um apelo para encontrar o pai que não via desde a infância.
Era ele o homem que Florence procurava.
Trancou na gaveta o maço de cheques e fechou o algodão nos punhos em movimento de raiva contida.
Por que Florence decidira mexer no passado depois de tantos anos?
Por que obrigá-lo a pensar num tempo que para ele estava morto e enterrado?
Se Lupércio fosse vivo, diria que tudo aquilo não passava de mais uma armação daquele recalcado maldito, que tudo fizera para prejudicá-lo no momento em que a clínica começava efectivamente a prosperar, desejoso de percentagens maiores de lucro.
Mas Lupércio, assim como seu passado, também estava morto e enterrado, disso ele tinha a certeza.
"Quem, então, teria sugerido a Florence a infeliz ideia de trazer a público toda a sua história?", Faustino perguntava-se desde aquela fatídica noite em que o programa fora ao ar.
Aquela mulher da televisão dizia ser sua filha.
Sua cabeça, no entanto, não conseguia realizar esta ideia.
Vira sua menina pela última vez quando ela tinha três anos, perdera-a para sempre na noite em que dissera adeus a Aretusa.
Como poderia voltar agora, trinta e um anos depois, casada e mãe de filhos, requerendo o direito de sua paternidade?
Em sua mesquinhez de sentimentos, Faustino não conseguia enxergar o drama da filha e muito menos o amor que ela conservara por ele, apesar de tudo.
Não. Via-a como inimiga, personificação do medo que o perseguira ao longo de todos aqueles anos de ser um dia descoberto como um farsante.
O que Jaqueline iria pensar, o que seus filhos iriam dizer se soubessem de tudo?
De mais a mais, quem lhe garantiria que Florence se contentaria com um simples encontro?
De certo, já ia chegar querendo saber onde era seu consultório, o que fazia, como atendia, cobrá-lo por todos os anos que passara sem dar qualquer assistência a ela e à mãe.
Não estaria apenas disposta a tirar-lhe um bom dinheiro, já informada de sua prosperidade?
Cruzou angustiado diversas vezes o escritório.
Aquele silêncio típico de domingo parecia amplificar a balbúrdia em sua mente, onde questões e apreensões se sucediam e misturavam como as ondas de um mar bravio.
Tirou as luvas, abriu a torneira e lavou as mãos friccionando-as vigorosamente debaixo da água, como se assim pudesse limpar-se de seu próprio passado.
É claro que sentira alguma coisa ao encontrar o apartamento vazio, dias depois da briga com Aretusa.
Afinal de contas, não era o animal torpe e insensível que de certo as duas imaginavam, onde quer que estivessem alojadas.
Reconhecia, contudo, que não vinha sendo bom pai e muito menos bom marido nos últimos tempos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:43 am

E, sob este aspecto, acreditou que fosse mesmo melhor que elas o tivessem deixado.
Melhor para elas e melhor para ele, que poderia então seguir seu destino sem nenhum complexo de culpa.
Afinal, foram elas que partiram sem deixar endereço.
Já que Aretusa havia optado por esta saída, ele respeitaria sua decisão, eximindo-se de qualquer esforço para tentar localizá-la.
Se porventura ela precisasse dele por alguma razão, sabia onde trabalhava.
Ainda assim, José Faustino voltou diversas vezes ao apartamento antes de entregá-lo definitivamente ao proprietário.
Muitas noites, chegou mesmo a chorar diante dos humildes brinquedinhos da filha que permaneceram espalhados no caminho do sofá.
Mas sempre que pensava em Jaqueline, concluía que tinha sido melhor que as coisas tivessem se encaminhado daquela maneira.
Aos poucos sua dor foi então transformando-se em uma espécie de alívio.
As vezes sentia raiva da petulância da ex-mulher, às vezes, ódio por elas o terem descartado de maneira tão sumária (sem em nenhum momento considerar que fora ele quem primeiro as descartara), às vezes, apenas saudade, uma saudade fúnebre e definitiva que a gente só sente de quem já morreu.
E assim, dia após dia, Aretusa e Florence foram se dissolvendo na memória de Faustino.
0 rompimento total aconteceu quando Jaqueline, após oito anos de casados, deu à luz um menino, Bernardo, ou simplesmente Binho, como gostava de ser chamado, agora já com dezasseis anos.
A partir de então, Faustino passou a considerar-se como chefe de uma nova família.
Mas nunca conseguiu olhar para o filho do mesmo jeito como um dia havia olhado para Florence.
Era como se a mágoa da perda da primeira filha, cristalizada dentro dele, o impedisse de ser pai de uma maneira integral.
Até porque, na época, Faustino já ganhava a vida como aborteiro e, como tal, não podia mais se permitir ficar sensibilizado diante de uma criança.
No caso de Clarinha, foi muito pior.
Ele e Jaqueline já haviam decidido que não queriam mais filhos - ele, por razões morais, ela, por questões estética - quando foram surpreendidos por uma gravidez indesejada, sete anos depois do nascimento de Bernardo.
Jaqueline queria, por toda lei, tirar a criança e, pela mineira vez na vida, Faustino pensou em revelar à esposa o verdadeiro teor de suas actividades na clínica do Méier, onde ela jamais voltara a pisar desde que se mudaram para Laranjeiras, mas não teve coragem.
Tampouco, teve coragem de encaminhá-la a outro profissional.
Por sua, própria experiência sabia serem muito comuns às mortes de mulheres após um aborto e não queria, sob hipótese alguma, arriscar-se a perder Jaqueline.
A solução foi demovê-la da ideia, alegando que ele, Faustino, queria muito ser pai novamente,
E assim Clarinha veio ao mundo.
Muito mais por falta de coragem do que por um ao alegre, tão meiga, dengosa e cativante, no entanto, que desejo nem parecia fruto de tanta rejeição por parte dos pais, antes, durante e depois de seu nascimento.
Para se ter uma ideia, Jaqueline sequer a amamentou, nem mesmo na noite do parto, para que seus seios não viessem a cair no futuro.
Faustino, por sua vez, repudiou-a instintivamente desde o primeiro olhar.
Por uma dessas incríveis ‘coincidências' do destino - que, se fizéssemos a mais pálida ideia do trabalho da espiritualidade maior, jamais definiríamos como tal - a menina tinha os mesmos traços de Florence, despertando de imediato no pai os mais confusos sentimentos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:44 am

Mais uma vez, tentando fugir da própria sensibilidade, Faustino optou pela distância.
Não deixou jamais faltar nada de material às crianças.
Contudo, jamais se deu aos filhos como verdadeiro pai, jamais envolveu-os com o calor de sua presença.
Mantinha-se sempre frio e ocupado, não verificava cadernos escolares, não participava de reuniões, enquanto a mãe também pouco tempo tinha para estas tarefas, ocupada com sua vida social movimentada.
Clarinha e Bernardo cresceram, pois, educados por empregados, com a agenda lotada de compromissos desde a mais tenra idade.
As terças e quintas, da escola para o inglês, do inglês para o vólei, do vólei para o teatro.
As quartas e sextas, tinham francês, balé e jiu-jitsu; às segundas, estudavam alemão e natação.
Nos finais de semana como aquele, o garoto, já adolescente, 'sumia no mundo' com os amigos e a irmã ficava na casa das vizinhas debaixo, que a adoravam.
Faustino sentou-se novamente à escrivaninha e soltou o ar num suspiro, exausto de tanto pensar.
Não. Florence jamais descobriria seu paradeiro.
Não tinha qualquer referência a seu respeito, nem seu nome completo sabia, como provara a reportagem.
Não, ela não tinha como encontrá-lo, afirmou mentalmente, com a máxima convicção.
Enquanto isso, no andar debaixo, Chuva ligava o aparelho de som no máximo para comemorar a notícia:
os primos chegavam em uma semana.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:44 am

- XVII -
- Eu posso vencer o pânico! - afirmou Vítor, eufórico, encarando sua imagem diante do espelho.
A descoberta aconteceu por acaso.
Naquele mesmo dia, logo que a psicóloga deixou o apartamento, o rapaz correu para o computador em busca dos sites sobre o pânico que ela mencionara.
Ficou maravilhado com a quantidade de informações disponíveis sobre o assunto.
Encontrou explicações médicas, relatos de experiências, indicações de livros, exercícios e até mesmo um jornal virtual dirigido aos portadores da síndrome.
Passou a tarde e a noite inteiras trancado no quarto, seleccionando e imprimindo documentos; saiu apenas para um rápido lanche a pedido da mãe.
Ao raiar do dia seguinte, tinha mais de seiscentas páginas impressas.
De tão ocupado com a pesquisa, mal teve tempo de pensar no próprio pânico.
Sentia-se quase como um cientista no limiar de uma grande descoberta, em crescente estado de ansiedade, louco para cruzar todos os dados obtidos.
Todavia, por volta das cinco da manhã, no momento em que efectivamente sentava-se para ler detalhadamente o material levantado, aconteceu o inesperado.
"De que adianta ter tudo isso?" sentiu dizer uma voz dentro de sua cabeça.”
O pânico está dentro de você, nada que venha de fora poderá mudar isso.
Você não vai conseguir.
Todas as vezes em que pensou sobre seus sintomas eles voltaram, e é isso o que vai acontecer mais uma vez", insistiu a voz.
Victor sentiu um arrepio.
Era tão grande sua expectativa, porém,
Que decidiu não dar atenção ao que julgava serem seus próprios pensamentos e insistiu na leitura.
Estava diante de um artigo extraído de um jornal virtual cujo titulo.
Despedindo-se da Síndrome de Pânico".
“Parece que foi em um dia como outro qualquer", dizia o primeiro parágrafo...
“Você passeava, estava com amigos, assistia à TV e a síndrome do pânico entrou em sua vida"
Neste ponto, Vítor lembrou-se de sua primeira crise e sentiu um aperto no peito.
Respirou fundo, porém, e continuou.
"A partir desse dia, a sensação é de que você foi uma pessoa antes e outra acaba de nascer.
Para alguns, receber atendimento medicamentoso e psicoterapêutico é suficiente para libertar-se das crises e vê-las como algo que se foi.
Mas, para outros, o caminho é mais tortuoso:
a peregrinação a médicos de diversas especialidades, psicólogos, terapias alternativas e a série interminável de buscas com o objectivo de encontrar respostas e soluções é longa, abrindo uma porta para a agora fobia, para o isolamento, para a evitação de locais e situações e para uma ansiedade maior, que se instala a cada vez que a pessoa precisa afastar-se do seu espaço de segurança.
Na verdade, o tratamento da síndrome do pânico implica, sobretudo, na necessidade de mudanças de comportamentos que levam à ansiedade:
mudança na visão do seu próprio mundo e daquele que está ao seu redor."
Aquelas palavras tinham para Vítor o efeito de um ácido derramado sobre uma ferida.
Era a sua história sintetizada naquelas linhas!
Sentindo um incómodo muito grande, deixou a folha de lado e seleccionou outra, extraída de outro site, que falava sobre as reacções do corpo quando exposto a um perigo, imaginando que assim poderia ter maior controle sobre as próprias lembranças.
Afinal, tratava-se apenas de uma descrição do funcionamento do sistema nervoso de uma pessoa e do que acontece cada vez que o chamado "alarme de protecção" é accionado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:44 am

Ledo engano.
A medida em que lia, Vítor sentia crescer seu mal-estar.
Não bastasse o cansaço da noite em vigília, todas aquelas informações pareciam sugestioná-lo negativamente, de maneira a acordar algo que trazia adormecido dentro de si.
Ao fim da segunda página instalou-se a crise, brusca como uma tempestade, desta vez enriquecida por todas as variações que acabava de ver relacionadas.
Era como se aos sintomas habituais houvessem sido acrescidos todos os outros que ele nunca havia sentido antes.
Vítor cambaleou na cadeira, tonto e enjoado.
De novo vinha o medo, inexplicável, que parecia engoli-lo de dentro para fora, o mundo diante de seus olhos inteiramente fora de foco.
Tudo podia acontecer.
De tão débil, não conseguiu segurar a vontade de urinar e molhou-se todo.
Só então, dada a força das circunstâncias, voltava a situar-se como parte do universo estudado.
Não era um cientista em vias de concluir uma pesquisa de notória importância para o resto da humanidade, e sim um doente confrontado com explicações a respeito do próprio mal que o afligia.
Mas parecia tarde para muitas considerações.
Pálido, trémulo e asfixiado, sentindo todo o seu corpo formigar como se estivesse prestes a perder a percepção da realidade, rastejou até a porta e gritou pela mãe, que dormia em seu quarto, no final do corredor.
A porta, porém, esta noite estava trancada e Cenyra não o ouviu.
Psicologicamente impressionado, Vítor deitou-se então no meio do quarto e ficou esperando o desmaio que, contudo, mais uma vez não veio.
Inteiramente contraído, tremia como se estivesse à beira de um ataque epiléptico, quando, súbito encontrou seu olhar distorcido com o despertador que trabalhava sonoro na mesinha de cabeceira e lembrou-se da doutora Olívia.
Naquele instante, foi como se um clarão invadisse sua mente angustiada e amedrontada.
Juntando seus últimos esforços, conseguiu chegar até a mesinha de cabeceira, agarrou o relógio e fixou seus olhos nos ponteiros, enquanto tentava regularizar e aprofundar sua respiração, tal qual lhe fora ensinado pela especialista.
Acompanhou um minuto inteiro segundo a segundo, aos poucos seu próprio coração começou a acompanhar a batida do relógio, a respiração tornou-se mais ritmada.
Quinze minutos se passaram, diante dos ponteiros.
Na rua, os primeiros pássaros começavam a anunciar a manhã.
Espalhados pelas árvores do parque Guinle, pareciam louvar o majestoso e imenso manto verde que o sol descortinava em frente à janela de seu quarto.
Vítor conseguiu ouvi-los e sorriu.
Havia vencido sua primeira batalha.
Encorajado, tão logo levantou-se na manhã seguinte, sentou-se novamente na escrivaninha, determinado a voltar aos estudos.
Não foi fácil.
O tempo todo, o condicionamento típico da doença alertava-lhe que a última crise ocorrera no momento em que lia aqueles papéis e que, portanto, tenderia a ocorrer de novo caso repetisse os mesmos gestos.
Era o chamado "medo do medo" provocando-o.
Contudo, Vítor desta vez não esmoreceu. Sua curiosidade era maior do que o medo, a vitória do raiar do dia ainda inundava todo o seu ser, instigando-lhe esperança e contentamento.
Plantou o despertador no alto do monitor do computador, exactamente na linha do olhar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:44 am

Sentia-se mais seguro assim.
Seleccionou, então as folhas que lhe pareciam mais interessantes, tendo o cuidado de pular a parte referente à descrição dos sintomas, e mergulhou na leitura.
Na medida em que as horas iam passando, a luta parecia tornar-se mais intensa.
No momento em que sentia aproximarem-se os primeiros sintomas, Vítor automaticamente lembrava-se dos exercícios respiratórios de Olívia que, para sua alegria, constavam também das páginas de na internet, e os colocava em prática.
Sem parar de inspirar e expirar no ritmo certo, enchendo e esvaziando o diafragma em tempos mentalmente marcados, fixava então os olhos no ponteiro do despertador acompanhando lhes o movimento com a máxima atenção, conforme lhe ensinara a psicóloga, até tornar uma coisa só a marcação dos segundos e os tempos de sua respiração.
Era quase como um exercício de autocontrole em um momento de forte dor de barriga.
Ao final, sentia-se tão ou mais exausto do que durante uma crise, as mãos tremiam e a testa suava frio.
Todavia, o esforço de evitar a crise trazia em si um componente que jamais estivera presente em nenhum de seus ataques de pânico.
Era uma sensação de alívio, misturada a uma leve euforia de quem conseguiu alcançar mais uma vitória.
E assim passou-se uma semana sem nenhuma crise.
A comprovação, via internet, de que realmente existiam muitas pessoas com seu mesmo problema também contribuiu muito para a incipiente sensação de segurança que começou então a brotar dentro de Vítor.
Afinal, se tanta gente havia conseguido vencer o pânico, corno era atestado pelos inúmeros depoimentos que recolhera na rede, por que ele também não conseguiria?
- Eu posso vencer o pânico! - repetiu, ainda encarando sua imagem diante do espelho.
Orgulhoso de si mesmo pela primeira vez desde muitos meses, o rapaz preparava-se para sua primeira sessão de análise no consultório da doutora Olívia, quando sentiu de novo o estranho arrepio.
Tinha a impressão de que alguém o observava, embora estivesse sozinho no quarto, e sentiu, sem querer, uma pontinha de medo, já procurando com os olhos o despertador.
De fato, havia duas figuras de estranho aspecto sentadas sobre a cama de Vítor, acompanhando atentamente cada um de seus gestos.
Semelhavam-se dois anões de fisionomia carrancuda, ambos de olhos fixados na imagem de Vítor no espelho do armário aberto diante da cama.
Eram espíritos integrantes da mesma falange à qual Oto pertencia.
- Não sei se foi uma boa estratégia essa história de deixarmos o rapazinho pensar que adquiriu o controle da situação - comentou o mais corpulento, batendo o indicador e o dedo médio contra a face direita, pensativo.
-Você não tem que pensar nada.
Na ausência de Oto, quem pensa aqui sou eu.
Quer ver só como estou certo?
Ele deu um pulo da cama, indo parar sobre os ombros de Vítor, onde montou sem cerimónia, segredando-lhe ao ouvido em seguida:
- Você é o máximo!
Pode ter o controle de todas as situações.
A ciência espera por homens brilhantes como você.
O que, então, vai fazer nessa tal psicóloga?
Ela já lhe ensinou tudo o que podia, não perca seu tempo!
Fique em casa, estudando sozinho, que você ganha muito mais!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:45 am

Vaidoso, Vítor imediatamente captou-lhe os pensamentos, repetindo alto para si:
- É mesmo!
O que mais terá esta tal Olívia a me dizer?
Já aprendi tudo o que precisava pela internet, já sei exactamente corno controlar a situação.
Eu tenho faro de cientista, minha inteligência é fora do comum.
Quer saber? Acho que eu não vou nessa consulta não...
A insistente sensação de mal-estar, porém, era quase um alerta de que as coisas não eram bem assim.
A simples presença daquelas duas entidades no quarto, com suas vibrações negativas, faziam-no intuir que havia algo de estranho no ar.
O que ele não percebia era que tais vibrações só o atingiam porque ele oferecia brechas para isto.
- Ai, meu Deus... - disse angustiado, com o despertador apertado nas mãos.
E se eu estiver errado?
Não posso passar o resto da minha vida olhando para este despertador!
O que é que eu faço?
Vou ou não vou?
- A doutora Olívia disse que gostaria de conversar com você sobre uma nova abordagem a respeito da doença - disse outra voz, vinda não se sabe de que ponto do quarto e que só por Vítor podia ser ouvida.
"Eu, particularmente, porém, acredito numa outra hipótese ", Vítor lembrou-se da voz de Olívia dizendo.
Que hipótese seria aquela?
- Bobagem! - insistiu o anão mirrado sentado às suas costas, o qual parecia ter acesso a todos os seus pensamentos.
Ela deve ter dito isso só para instigar a sua curiosidade.
Você nunca ouviu falar em estratégia de marketing?
- Não, não era marketing - Vítor respondeu, como se estivesse conversando consigo próprio.
Ela parecia muito certa do que estava dizendo...
A porta se abriu e surgiu Cenyra, ladeada por ser longilíneo e inteiramente iluminado que não podia ser visto por olhos comuns e nem mesmo pelas duas estranhas entidades que ali se encontravam.
Seu brilho indescritível parecia espargido em torno da mãe de Vítor, sob forma de rósea neblina.
- Está pronto, filho? - ela perguntou, com a chave do carro na mão.
Assustada, a entidade que se encontrava montada em seus ombros perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
Embora nada divisassem, agora eram os anões que pressentiam perigo no ar.
Todo o quarto parecia tomado por vaporosa fumaça rosada, à qual se misturava um delicado perfume de alfazema que logo os fez intuir a presença de "exércitos inimigos".
- Psst! - fez a entidade que acabara de cair no chão diante dos olhos assustados de seu companheiro.
- Bem...eu... - Vítor continuava confuso.
-Então vamos logo - Cenyra parou atrás dele, forçando-o a sair.
Não podemos nos atrasar.
Banhando pela mesma luz que envolvia Cenyra, Vítor não conseguiu resistir á força de seu apelo.
Enfiou rapidamente o despertador no bolso da bermuda e saiu, sentindo o coração disparado pela ansiedade que já começava a toma-lo novamente.
Os dois anões tentaram segui-lo, mas foram impedidos de passar pela barreira de luz que se formou na entrada do quarto, a qual bloqueou sua passagem como uma ténue teia emborrachada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:45 am

- XVIII -
- Todo caso desta doença a que chamam pânico é sempre ligado à presença de um espírito inimigo ao lado da pessoa? - Aretusa perguntou a Têmis.
Envoltas por suave melodia na sala de estudos e pesquisas, as duas conversavam sobre o caso de Oto, enquanto separavam algumas fichas que haviam sido solicitadas por Demóstenes.
Alheio a tudo o que as duas diziam a seu respeito, Oto dormia, chupando o dedo como uma criança.
Naquele dia, estava previsto o início de uma nova fase em seu tratamento e as duas estavam ali justamente aguardando o seu despertar para conduzirem-no a um outro departamento da colónia.
- Não necessariamente - ponderou Têmis, olhando com ternura para Oto através do vidro que dava para seu quarto.
Como vem descobrindo os encarnados que estudam o assunto, o transtorno do pânico é gerado por uma pequena disfunção no cérebro da pessoa, um pequeno mecanismo que não funciona como deveria.
- Mas são os inimigos desencarnados que provocam esta disfunção? - insistiu Aretusa.
- Não faça deduções precipitadas - aconselhou Têmis, tornando à mesa e pegando algumas fichas que deixara empilhadas na lateral.
Antes de mais nada, você deve ter claro na sua mente que não existem inimigos externos, espíritos que atacam as pessoas gratuitamente.
Nossos verdadeiros inimigos são os pensamentos erróneos, que todos nós temos e que lançamos no ar, atraindo pensamentos semelhantes no próximo.
- Isto quer dizer que somos nós mesmos que atraímos os espíritos obsessores com os nossos pensamentos?
- Exactamente.
Como sempre diz o doutor Bezerra de Menezes (21) em suas palestras e livros, "não existem obsessores, existem obsediados". - sintetizou Têmis.
- Mas, uma vez atraído para uma pessoa, um espírito pode efectivamente provocar nela uma doença?
Aretusa queria realmente entender aquela questão.
- Na verdade - continuou Têmis, após correr rapidamente os olhos por todas as fichas, como que a verificar se havia separado tudo o de que necessitava - aquilo a que os humanos chamam de doença ou disfunção, quando não decorre de negligência ou imprudência naquela própria existência, é consequência de uma causa anterior, da qual a maioria dos encarnados não se recorda.
- Como assim negligência ou imprudência? - confundiu-se Aretusa.
- Veja, por exemplo, este caso que separei para ser analisado pelo irmão Demóstenes - ela retirou uma das fichas do conjunto.
Este espírito, que um dia já esteve internado aqui na colónia, deixou a Terra em sua última encarnação com vários órgãos praticamente dissolvidos em função de uma pancreatite aguda. (22)
- E estava previsto o seu desencarne dessa maneira?
- Não, não estava.
Aí é que entra a questão - ela inseriu a ficha como se fosse um disquete numa espécie de computador-gigante, em cuja tela começaram a ser mostradas imagens referentes à última existência daquele ser.
Boquiaberta com toda aquela tecnologia, Aretusa grudou os olhos à tela, interessada.
- Como pode observar - continuou Têmis, comandando o computador de maneira a seleccionar as imagens que surgiam na tela como uma sequência de fotos animadas - trata-se de um espírito que lutou muito pela oportunidade da reencarnação - o computador mostrou imagens de um Feto sendo abortado, imagens do espírito traumatizado chorando na colónia amparado por muitos mentores, do espírito reunido com esses mentores naquela mesma sala onde agora as duas se encontravam, diante do desenho do corpo físico que futuramente animaria, discutindo as metas que planeava cumprir em sua nova encarnação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:45 am

- Quero ser um bom filho, bom pai e bom marido para minha esposa – dizia ele, entusiasmado, aos mentores, tal qual o estudante que recapitulado momento da prova.
Nascerei de uma família pobre, mas muito lutarei até conseguir estabilizar-me como administrador de empresas.
Sei que não será fácil o caminho até lá, o tempo todo precisarei exercitar a dedicação, a disciplina e a humildade.
Por volta da meia idade, porém, se tudo correr conforme o esperado, serei contratado por uma grande empresa e então terei vencido a etapa de dificuldades financeiras.
Daí por diante, não medirei esforços para dar a meus filhos tudo aquilo que eu não tive.
Acima de tudo, quero transmitir para eles e para todos os que vierem a trabalhar comigo o exemplo de que é possível vencer na vida através da perseverança, da generosidade, da honestidade e dos bons valores...
Aretusa sorriu enternecida.
Já descobrira que quase todos os seres deixam o mundo espiritual imbuídos de nobres ideais, mas, uma vez reencarnados, poucos conseguem levar a termo os projectos que tão meticulosamente preparam para si próprios.
Têmis digitou algumas teclas, seleccionando novas imagens para dar prosseguimento à sua narrativa:
- Nosso amigo voltou à Terra com a saúde perfeita, apto a cumprir eficazmente cada pequena etapa de seu planeamento.
Todavia, ainda muito jovem, deixou-se enredar pelo vício da bebida, comprometendo a saúde e a missão que havia abraçado antes de reencarnar.
As imagens mostraram então o rapaz em um baile de clube, rodeado de copos e garrafas numa mesa cheia de jovens de sua mesma idade; o rapaz embriagado sendo carregado para casa pelos amigos.
- Ele começou a beber e fumar antes mesmo de completar dezoito anos de idade - continuou Aretusa -, embora jamais houvesse desperdiçado uma oportunidade de trabalho, porque não existe um único ser sobre o orbe que não seja dotado de qualidades, o vício andava sempre em seu encalço.
Durante a semana era filho, aluno e funcionário exemplar; aos sábados e domingos perdia a medida, bebendo mais do que deveria.
E assim, ao longo de toda sua maturidade, nosso amigo continuou fazendo inúmeras bobagens condicionadas pelo álcool, ainda que em nenhum momento perdesse o senso de responsabilidade para com o trabalho - imagens mostraram-no envolvido em diversas brigas de rua e também em momentos em que ele, embriagado, agredia a própria família ou até mesmo o chefe do sector em que trabalhava, durante uma comemoração regada a muito uísque.
- Ele nunca admitiu que precisava parar de beber? - quis saber Aretusa.
- Nunca. Nem mesmo quando aconselhado pelos médicos, após uma cirurgia de apendicite, por volta dos quarenta anos de idade.
O apêndice, aliás, foi a primeira parte de seu corpo a ser prejudicada por seus desregramentos - o computador ofereceu várias imagens da operação.
- E pensar que ele podia ter evitado tudo isso... - comentou Aretusa, sentindo certo mal-estar com aquelas imagens.
- Após esta operação, ele sofreu mais duas cirurgias sérias, uma no pulmão, outra no intestino, verdadeiras advertências de seu errado modo de proceder, mas nem assim se convenceu do problema.
Ao contrário, bebia e fumava cada dia mais.
Achava-se dono da situação, chegava mesmo a dizer às pessoas que jamais deixaria de beber e fumar, pois eram essas as suas únicas alegrias na vida - imagens mostravam o homem sentado sozinho na sala de seu apartamento, conversando com um copo de uísque diante do cinzeiro abarrotado, cercado por espíritos também ébrios a exalarem os vapores invisíveis que emanavam de seu copo e a fumaça de seu cigarro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:45 am

Em seguida, o homem cambaleava da sala até o quarto, caindo e ferindo-se nas quinas dos móveis da casa, até que literalmente apagava na cama, todo machucado, sem qualquer consciência dos próprios ferimentos.
- Que coisa mais triste - externou Aretusa com o coração apertado.
Pode parar Têmis, não quero vê-lo morrendo...
A instrutora retirou a ficha de dentro do aparelho em silêncio.
Também lhe eram pungentes aquelas imagens.
Afinal, é sempre doloroso ver um ser humano se destruindo por vontade própria.
- Tudo isto não quer dizer que ele não tenha conquistado nada de bom nessa sua estada na Terra.
Afinal, como destaquei no princípio, todos nós, como espíritos em evolução, possuímos qualidades nobres que acumulamos e aperfeiçoamos em nossas sucessivas existências, mas também imperfeições de que nos devemos desvencilhar.
Apenas sublinhei a questão do vício no decorrer da última encarnação desse espírito a fim de que você pudesse compreender melhor em que consistem os tormentos voluntários que muitas pessoas se impõem por negligência ou imprudência.
- E como se encontra esse espírito actualmente?
Ele já desencarnou, não?
- Sim. Depois de muitos anos de sofrimentos em regiões infelizes, onde se exilou compelido pela própria consciência, hoje ele reconhece que foi negligente e imprudente, e implora por nova chance de voltar ao convívio dos seus para recuperar a oportunidade perdida – finalizou Têmis entristecida, recolocando a ficha entre as demais que havia seleccionado para Demóstenes.
- E ele vai poder voltar? - quis saber Aretusa.
- Certamente que sim pois misericórdia divina jamais priva o homem de novas chances de aprimoramento.
Mas talvez não possa voltar entre aqueles que outrora o amara com dedicação.
Além disso, ele tenderá sempre a encontrar pelo caminho as sequelas e os resultados de seu mau proceder naquela encarnação.
É possível que apresente mau funcionamento do pâncreas e de outros órgãos desde tenra idade; provavelmente seu suplício incluirá também a convivência com aqueles a quem prejudicou ou influenciou no passado com suas atitudes.
Cada caso é um caso.
Toda situação é cuidadosamente estudada antes no plano espiritual para que a ninguém seja dado um fardo que não tenha ainda condições de suportar.
Uma coisa, porém, é certa:
mais cedo ou mais tarde, colheremos aquilo que um dia plantamos.
- Entendi. Mesmo que este homem jamais coloque uma gota de álcool na boca em sua próxima existência, ele poderá vir a ser vítima de doenças e disfunções causadas por seu mau proceder em vidas anteriores.
Mas, por não se recordar do próprio passado, ele terá a impressão de que tais males o atingem por mera fatalidade... - observou Aretusa.
- Exactamente. Não podemos jamais nos esquecer de que Deus é justo.
Assim, se um encarnado, por exemplo, nasce com o problema da cegueira e não fez nada naquela existência que justificasse sua perda da visão, é porque possivelmente ele usou mal a vista em vidas anteriores.
Ou então causou a perda da visão cm alguém.
A pessoa sempre sofre o que fez sofrer aos outros.
Se foi dura e desumana, poderá ser, a seu turno, tratada duramente e com desumanidade; se foi orgulhosa, poderá nascer em humilhante condição; se foi avara, egoísta ou fez mau uso de suas riquezas, poderá ver-se privada do necessário e assim por diante.(23)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:46 am

Nossos actos geram marcas em nosso perispírito que vão resultar em doenças ou predisposição a doenças conforme a nova atitude assumida, ou não, pelo indivíduo.
-Toda doença ou disfunção no cérebro então indica mau uso do cérebro em existências pregressas? - imaginou Aretusa.
- É uma questão muito complexa, cada caso requer uma análise detalhada e diferenciada.
Pode ser, sim, uma decorrência de um mau uso do cérebro, mas pode ser também o resultado da cristalização de algum trauma passado que se manifesta através da doença.
Existem ainda espíritos que pedem para passar por determinadas doenças, como uma prova destinada ao aprendizado.
De uma maneira geral, porém, tanto as distonias mentais quanto as doenças orgânicas expressam os resultados de acções desequilibradas do espírito, seja no seu passado próximo ou remoto, que o tornam vulnerável, visto que a conduta negativa, danosa, prejudica primeiramente o próprio autor, abrindo zonas mórbidas em seu psiquismo, reflectindo-se no seu perispírito e registando-se no corpo físico em reencarnações posteriores.
- Tudo isso ainda me parece tão complicado, eu... - tentou continuar Aretusa.
Têmis, porém, se viu obrigada a interrompê-la:
- Vamos ter de deixar esta discussão para um outro momento.
Veja... Oto parece estar se espreguiçando - ela encaminhou-se depressa para o corredor que dava acesso aos quartos.
- Ai, meu Deus, será que ele melhorou? - ainda impressionada, Aretusa não pôde deixar de perguntar-se.

21 - Adolfo Bezerra de Menezes (1824 - 1900) foi um médico cearense que muito se destacou na divulgação do espiritismo, famoso sobretudo por exemplificar em sua vida tudo aquilo que prega a doutrina.
Também conhecido como "o médico dos pobres", Bezerra é cognominado o Kardec brasileiro.
22- Inflamação do pâncreas, que ocorre quando as enzimas digestivas produzidas pela glândula para degradar as proteínas no intestino são activadas ainda no interior do pâncreas, acabando por destruir a própria glândula.
Nos casos mais graves, as enzimas são liberadas na corrente sanguínea, podendo provocar disfunção e falência de múltiplos órgãos.
Uma das principais causas desta doença é a ingestão sistemática de bebidas alcoólicas.
23 - A esse respeito, ver o capítulo V de O evangelho segundo o espiritismo: "Bem-Aventurados os Aflitos".
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:46 am

- XIX -
- Espere aí, Paloma!
Aonde você pensa que vai com isto?
Lucila nem bem abriu a porta de casa, exausta depois de uma manhã intensa de muito trabalho, e já deu com a irmã atravessando a sala com uma pilha enorme de livros médicos.
Seus livros médicos, diga-se de passagem!
- Tem muita coisa no escritório, Lucila!
Estou tentando transferir algumas coisas para aquelas prateleiras que ficam no alto do banheiro de empregada.
Afinal, Florence chega na outra semana com os meninos e precisamos... - tentou explicar Paloma, sob o barulho de panelas sendo remexidas no armário da cozinha.
- Meus livros médicos no banheiro de empregada? - Lucila a interrompeu bruscamente, arrancando-lhe os livros das mãos.
De maneira alguma!
- Não vou tirar todos, apenas os que você usa menos, os que estavam empoeirados no alto da estante e... - argumentou Paloma, fazendo o máximo para não explodir.
- E quem é você para saber que livros eu uso mais ou uso menos? - ela seguiu irritada em direcção ao escritório, que era logo o primeiro quarto que vinha depois da sala.
-Lucila, espere, deixa eu falar, eu só pensei que...
- E desde quando você pensa? - Lucila quase atropelou-a em sua ânsia de verificar o que havia de fato ocorrido no escritório.
Ao chegar na porta do cómodo, o susto foi tão grande que Lucila deixou todos os livros caírem no chão e gritou, a toda voz:
-EU NÃO ACREDITO! Quem te deu permissão para mudar todas as minha coisas de lugar?
Para quem não conhecia, o quarto estava um brinco.
Impecavelmente limpo e arrumando, não havia uma só folha de papel fora do lugar.
Era um quarto pequeno, que tinha duas de suas paredes inteiramente ocupadas por prateleiras cheias de livros, sendo que em uma delas ficava encaixada a escrivaninha de Lucila.
Do lado oposto, havia um antigo armário de duas portas e uma cama de solteiro, que Paloma cobrira com uma bonita colcha de croché azul marinho, confeccionada por dona Noémia no passado.
Para Lucila, no entanto, a sensação era comparável à de olhar para Nagasaki após o estrago da bomba atómica.
- Onde estão os papéis que eu deixei sobre a escrivaninha?... - Lucila andava pelo quarto desarvorada, correndo os olhos sobre cada objecto.
Os livros de puericultura que estavam em cima da cama?
As revistas médicas que estavam separadas?
Onde, Paloma, responda!
- Bem, os papéis eu coloquei no seu quarto e os livros eu arrumei na es...
- No sector de doenças crónicas infantis! - gritou Lucila, localizando os livros numa das prateleiras e já tirando-os de lá.
Você não tem o mínimo senso de organização e acha que todo o mundo é igual a você!
Onde já se viu misturar noções básicas de puericultura com doenças crónicas infantis!
- Espera aí, Lucila! - protestou Paloma, ao vê-la encher a cama novamente de livros.
Você está bagunçando tudo!
- Bagunçando, eu?
Ora, você perdeu a noção de realidade! - resmungou Lucila, ainda separando livros em cima da cama.
Espere... Que cheiro é este?
Ela inspirou diversas vezes e só então percebeu o palito de incenso que queimava sobre sua escrivaninha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:46 am

Era demais! No seu escritório, em cima da sua escrivaninha!
Paloma sabia que ela odiava aquele cheiro!
Com ódio, tomou o palito de um só golpe e atirou-o pela janela aberta com suporte e tudo.
- Meu suporte indiano! - Paloma ainda teve tempo de vê-lo despencando prédio abaixo.
- Pois então que o guardasse junto com as suas coisas!
Já cansei de dizer que eu não suporto esse troço queimando aqui dentro de casa!
-Você não suporta nada que possa trazer um mínimo de paz para esta casa!
- Estou farta dos seus incensos, dos seus sininhos da felicidade, das suas velas e essências mágicas, seus gnomos e fadinhas...
Lucila voltou a separar livros em cima da cama.
- Quer saber, esta casa só vai ter paz o dia em que você for embora daqui, com toda esta sua parafernália esotérica!
- Pois fique sabendo que esta casa não é só sua! - reagiu Paloma, sentida, tirando alguns livros de cima da cama em atitude de revanche.
- Paloma, me dá esses livros aqui!
- Não dou!
Pode parar de fazer escândalo porque, de hoje em diante, este quarto vai ser ocupado pelo Rafael!
- O Rafael? - Lucila olhou para ela, incrédula.
Era só o que me faltava!
Você inventa de hospedar a família inteira aqui dentro de casa e eu é que pago o pato? - ela arrancou novamente os livros das mãos de Paloma.
- E onde você quer que o menino durma? - protestou ela.
- Porque não no "consultório" que você montou no quarto de empregada? - Lucila perguntou debochada.
- Por Saint Germain!
Você não pode ser tão egoísta, tão apegada a um quarto material!
Se eu colocar o menino no consultório, onde é que eu vou receber meus clientes, onde é que eu vou trabalhar?
Eu preciso daquele espaço para exercer a minha profissão, enquanto você, além de ter seu próprio consultório fora de casa, ainda ocupa sozinha o maior quarto da casa!
- Exercer minha profissão... - Lucila repetiu com ironia.
Então que coloque o garoto no seu quarto!
Lucila continuava a arrumar livros freneticamente nas prateleiras.
- No meu quarto, que aliás eu já divido com a Chuva, vão ficar a Florence e a Aline!
Ele é um menino!
- Problema dele. Aliás, seu e dele.
Se queria um quarto só para você, devia ter pensado antes de arrumar uma filha, antes de bancar a boazinha e convidar esse bando de desabrigados para virem passar uma temporada no Rio!
- Lucila, como você é cruel! - desabafou Paloma com lágrimas nos olhos.
É por causa de pessoas como você que o mundo estacionou nesta condição de planeta de provas e expiações, que não conseguimos alcançar nunca um estágio evolutivo de... de... - depois de fungar algumas vezes, desta vez foi o nariz de Paloma que detectou algo de errado no ar.
Você está sentindo?
- Claro! Este seu incenso indiano é pior do que vómito de criança intoxicada com detergente! - respondeu Lucila, sem lhe dar muita atenção.
- Não é incenso!
É borracha queimada!...
Mamãe! - ela teve um lampejo e saiu correndo em direcção à cozinha, seguida por Lucila.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:46 am

Dito e feito.
Dona Noémia estava sentada na mesa da cozinha olhando para ontem, completamente alheia a tudo o que se passava a sua volta, enquanto em uma panela seca sobre o fogão, queimava o estetoscópio de Lucila.
- Nem reparei que vocês , estavam aí... - a senhora comentou, ainda longe.
Seu pai já chegou do trabalho?
- Mamãe! Meu estetoscópio! – gritou Lucila, enquanto Paloma com um garfo tentava retirar o que restara dele na panela.
- Ah, pois então! – tornou Noémia, ainda sem se dar conta do estrago feito - Paloma estava arrumando suas coisas e resolvi dar uma mãozinha.
Estava tão sujo, tão encardido esse seu aparelho...
Estas coisas a gente precisa limpar de vez em quando, minha filha!
Ainda mais você que trabalha com doentes!
Tem que esterilizar os aparelhos!
- Onde já se viu esterilizar estetoscópio, mamãe? - Lucila deixou-se cair na cadeira, vencida.
Ainda mais numa panela seca!
- A água deve ter secado, ela agora vive fazendo isso...
Coloca as coisas para ferver, depois esquece - observou Paloma, segurando com um pano de prato o aparelho todo deformado pelo longo contacto com o alumínio quente.
É, não tem jeito mesmo...
Você vai mesmo ter de comprar outro...
- Ficou bom? - perguntou Noémia, animada.
- Acho que nós vamos ter é que levar mamãe de novo ao neurologista - concluiu Lucila, arrasada.
- Tem que haver uma explicação, não pode ser simplesmente uma esclerose senil...
Enquanto Lucila se lamentava, com a cabeça enterrada entre as mãos e Paloma esfregava a panela queimada com palha de aço, Noémia se levantou, sem que as filhas percebessem, verificou a despensa, depois saiu à cata da chave.
Tinha de ir até à padaria, comprar um pouco de café, não havia nem mais um restinho de pó dentro de casa.
"Uma família não pode passar sem café", pensava consigo, enquanto remexia as coisas que Paloma, Chuva e Lucila costumavam deixar em cima da mesa, sempre que chegavam da rua.
"E como é que o café acabou assim, sem ninguém perceber?"
Andava mesmo cismada que a faxineira estava levando mantimentos para casa.
"Mas até o café!...", resmungou mentalmente.
- Ali! Aqui está! - disse, agarrando o chaveiro com força, sem sequer se dar conta de que estava de peignoir e chinelos.
Vou aqui embaixo um instantinho buscar café, não demoro! - avisou, batendo a porta em seguida.
- Mamãe! - Paloma largou a panela debaixo da torneira aberta e veio correndo da cozinha.
- Ela desceu! - constatou Lucila, já com a mão na maçaneta para ir atrás da mãe.
Noémia, contudo, tivera o cuidado de trancar a porta ao sair.
- A chave! - bradou Lucila, correndo até a mesa.
Tenho certeza de que deixei aqui!
- Ela levou! - constatou Paloma, procurando algo com os olhos.
Ai, meu Deus, onde foi que eu deixei a minha chave?
- Não é possível que você não saiba nem onde guarda a própria chave! - protestou Lucila, nervosa.
Não quero nem pensar no que pode acontecer...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:47 am

A bolsa! Veja na bolsa! - ela estendeu a Paloma a bolsa que estava pendurada nas costas da cadeira.
Enquanto isso, na portaria, Chuva esperava o elevador com certa tensão.
Terminara o namoro com Vinícius logo que voltara de Florianópolis, na esperança de que ele se ajoelhasse a seus pés implorando para que não o deixasse, mas o tiro saiu pela culatra, Vinícius achou que era melhor mesmo os dois darem um tempo no relacionamento.
Desde então, ficava ansiosa sempre que precisava tomar o elevador, com medo de encontrar com ele, e ao mesmo tempo desejando ardentemente que isto acontecesse.
Vinícius, que tinha ido em casa almoçar e saía de novo irritado por não ter encontrado ninguém em casa, vinha no elevador justamente com dona Noémia.
Ela esquecera de tocar o botão ao entrar e acabara subindo ao invés de descer.
"Aonde será que a avó de Chuva está indo vestida desse jeito?", ele matutava consigo, sem coragem de perguntar.
- Como vai a senhora, vai bem? - perguntou, tentando disfarçar seu espanto.
Ela, contudo, além de não o reconhecer, ficou desconfiada achando o rapaz suspeito.
- Bem, obrigada - respondeu, sem muita convicção.
"Por que será que ele me olha deste jeito?
Será um ladrão?", imaginava angustiada.
"Assim que eu chegar no térreo, vou chamar a atenção do Severino.
Onde já se viu deixar qualquer um ir entrando no prédio sem se identificar?"
A essas alturas, já esquecera do café, imaginava estar voltando para casa sabe-se lá de onde.
Por medida de segurança, parou na frente de Vinícius e se manteve de costas para ele.
"Não é nada bom ai dando intimidade para estranhos", dizia a si própria em pensamentos.
O elevador chegou ao térreo e dona Noémia continuou parada na frente de Vinícius sem sair e sem deixá-lo passar.
- A senhora não vai descer?
- Não senhor.
Eu moro no terceiro - ela não se conteve e o encarou.
Escute aqui, o que é que o senhor está pretendendo?
Neste momento Chuva abriu a porta do elevador e deu de cara com Noémia.
- Vovó!!!! - exclamou surpresa.
- Chuva! Graças a Deus que você apareceu!
Imagine que este rapazote tentou me faltar com o respeito no elevador! - ela olhou para Vinícius ameaçadora.
Só então Chuva percebeu Vinícius no fundo do elevador e ficou toda constrangida.
Ele, porém, já estava a ponto de perder a paciência e mal lhe deu atenção.
- Vocês me dão licença? - ultrapassou as duas e saiu como um raio pela portaria.
- Aonde a senhora vai, vovó?
Chuva perguntou, triste, ainda segurando a porta do elevador.
- Bem... - Noémia titubeou por alguns instantes.
Acho que estava voltando para casa, e você?
- Então vamos, vovó - ela fechou a porta, compreendendo tudo.
Lucila e Paloma haviam acabado de encontrar a chave quando elas entraram.
- Chuva! - disse Lucila.
- Mamãe! - disse Paloma.
- Que mal educados são estes rapazes de hoje! - despejou Noémia.
Que barulho de água é esse?
Era a torneira que Paloma deixara aberta.
As três correram para a cozinha, a essas alturas inundada, enquanto Noémia cruzava a sala, resmungando sem parar, em direcção a seu quarto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:47 am

- E Paloma ainda acha que podemos receber visitas! - suspirou Lucila, enquanto espremia o pano molhado no balde.
- O que foi afinal que aconteceu por aqui? - quis saber Chuva, secando outra parte da cozinha..
- Vamos fazer uma coisa? - sugeriu Paloma, sacudindo seu pano, já bastante irritada.
Eu vou agora mesmo ligar para a Florence e pedir a ela para que espere mais um pouco.
Semana que vem levamos mamãe ao neurologista e...
O telefone tocou.
Paloma largou o pano e foi atendê-lo.
-Alô? Florence?
Você não morre tão cedo... - ela caminhou com o aparelho sem fio até a cozinha e tapou o bocal para dizer a Lucila:
- É a Florence! - tirou a mão da boca do fone e continuou a conversa:
- Eu ia agora mesmo ligar para você e...
O quê?... Você não tem mais telefone?
A ligação está ruim! Não diga!
O oficial de justiça acaba de passar aí para avisar que você só tem até amanhã para desocupar a casa?
Não fica assim, Flor...
A gente não deve se abater por causa de bens materiais...
O desapego também é um aprendizado...
E o que é que você fez com os móveis?
Sei... Vão ficar na garagem de uma amiga até você decidir o que vai fazer da vida...
Quem sabe você não encontra um novo rumo para a sua vida aqui no Rio de Janeiro?
Lucila, que prestava a atenção ao lado, olhava para a irmã com ímpetos de enforcá-la com o pano molhado.
- Diz para ela não vir! - insistiu num sussurro quase ameaçador.
Paloma, por sua vez, sem largar o telefone fechou os punhos e arregalou os olhos como a gritar que a irmã ficasse quieta.
- Sei... Tadinhos!
Ficaram a manhã toda esperando e ele não apareceu, que canalha!
E nem telefonou para dizer nada?
Mas ele sabia que vocês estavam vindo para o Rio esta semana, não sabia?
O quê? Meu Deus!
- Pergunta quando eles chegam! - pediu Chuva.
Mas, ao invés disso, ela tapou de novo a boca do fone para informar:
- Aline teve uma crise porque o pai não apareceu para despedir-se e saiu sozinha para a rodoviária.
Florence acha que ela está vindo para cá!
- Isto quer dizer que ela vai chegar amanhã cedo? - deduziu Chuva.
- Eu mereço! - Lucila abriu a geladeira em busca de algo para comer.
- Você tem certeza de que ela tem o endereço? - perguntou Paloma, caminhando de novo em direcção à sala para que Florence não ouvisse os comentários da irmã.
Chuva foi atrás dela, não queria perder nenhum detalhe.
Fique tranquila, nós vamos ficar de prontidão...
Vou agora mesmo ligar para a rodoviária para tentar saber a que horas chega o ônibus...
Tá... Então a gente te espera amanhã...
Outro... Que Saint-Germain te proteja...
Paloma depositou o fone no gancho e soltou o ar num sopro alto e contínuo.
Os últimos acontecimentos a haviam deixado desanimada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:47 am

- Não tem jeito...
Amanhã vão estar todos aqui...
- Nossa, quer dizer então que o pai da Aline e do Rafael marcou com eles e deu o cano!
Caramba, e eu que pensava que o meu pai era o pior do mundo...
- Chuva, seu pai nunca te procurou porque ele morreu defendendo a classe trabalhadora, quantas vezes vou precisar te dizer isso? - explodiu Paloma.
- Seu pai morreu num incêndio provocado pelos bóias-frias que ele queria transformar em grandes proprietários rurais! - debochou Lucila da cozinha.
As duas ficaram em silêncio.
Dona Noémia estava quieta no quarto.
Lucila continuava almoçando na cozinha.
O barulho do garfo batendo no prato enquanto ela comia parecia encher toda a sala.
- Mãe, estou pensando aqui uma coisa... - arriscou Chuva.
Será que a Aline está vindo mesmo para cá?
- Queira Deus que sim Chuva...
Paloma esticou-se para pegar os sapatos.
- Queira Deus...- disse levantando-se com os sapatos que deixara na mão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:47 am

- XX -
Ainda sonado, Oto esticou uma perna, depois a outra, levantou os dois braços e girou o corpo, espreguiçando-se lentamente.
Após ser submetido a intenso tratamento à base de passes, irradiações luminosas e sonoterapia, parecia bem mais tranquilo.
Já não urrava de raiva nem blasfemava contra tudo e contra todos; até sua fisionomia parecia ter adquirido contornos mais suaves, sem tantas rugas de expressão.
Têmis e Aretusa estavam sentadas a seu lado no momento em que ele abriu os olhos.
Parecia não saber direito onde estava, entorpecido pelas muitas horas de sono, mas abriu largo sorriso ao divisar sua protectora de sempre.
- Como se sente? - perguntou Têmis, afagando-lhe carinhosamente os cabelos, enquanto Aretusa os observava sorridente.
- Com um pouco de sono - ele respondeu, pacífico.
Vocês me doparam?
- De forma alguma.
Apenas o deixamos descansar.
A estada na Terra desgastou por demais suas energias - a protectora respondeu com doçura.
- Não me lembrava de você... - ele encarou Aretusa pensativo.
- Esta é Aretusa, nossa nova estagiária.
De hoje em diante, ela será para você como um anjo da guarda, acompanhando-o em cada um de seus passos aqui na colónia.
Aretusa abriu um largo sorriso, mas não foi correspondida de imediato.
- Você não vai mais cuidar de mim? - Oto pareceu desapontado.
- É claro que vou.
Apenas não poderei estar todo o tempo a seu lado.
Tenho muitas outras atribuições na colónia e fora dela - explicou Têmis, enquanto Aretusa continuava sorrindo solícita.
Oto esboçou um rápido e tímido sorriso para ela, parecia mesmo uma criança ressabiada sendo apresentada à sua nova babá.
- Ah, menino! - ralhou Têmis, de brincadeirinha, fazendo-lhe um cafuné.
Ele novamente curvou os lábios num sorriso, desta vez maroto, e se deixou ficar por algum tempo ali, apenas sentindo o calor do afago de Têmis.
Havia mesmo esquecido do quanto era bom ser acarinhado.
- Ainda está infeliz por ter voltado? - ela perguntou.
Ele olhou fundamente em seus olhos e sacudiu a cabeça negativamente.
Nem parecia a mesma pessoa, era agora uma criança com fisionomia de adulto.
- Louvado seja Deus! -Têmis o abraçou comovida, deitando a cabeça sobre seu peito.
Também estou muito feliz por tê-lo de volta...
- E Odilie? Quando poderei vê-la? — ele mostrou que não esquecera por que estava ali.
- Quem sabe mais tarde?
Primeiro, no entanto, gostaríamos que fosse connosco assistir a uma palestra no Núcleo de Convivência - desconversou Têmis, estendendo-lhe o prato de sopa que um enfermeiro acabara de entregar a Aretusa.
Era um caldo tépido, de coloração alaranjada e muito aromático, que Oto aceitou de imediato.
- Uma palestra? - estranhou ele, provando a sopa.
Humm... Que delícia!
Tinha me esquecido como são gostosos estes caldos daqui...
- Sim. O doutor Milton Daves, um dos mais notáveis psicoterapeutas que integram nossa equipe de trabalho, virá hoje para mais uma sessão de terapia em grupo - informou Aretusa, animada.
Também estava louca de curiosidade para ver aquilo de perto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:48 am

- Não é apenas o Dr. Milton Daves que vem, mas todo um grupo de psicoterapeutas que estarão realizando diversas actividades com nossos internos - corrigiu Têmis.
- Grupo de psicoterapeutas?
Afinal é uma palestra ou uma sessão de terapia? - interrogou Oto, desconfiado, ainda tomando sua sopa.
As duas coisas.
Venha connosco e verá! - convidou Têmis.
Sempre alegres e pacientes, as duas aguardaram até que ele terminasse sua refeição.
Depois, ajudaram-no a vestir-se, trajando-o com roupas claras de textura muito agradável que tinham a propriedade de jamais se amassarem.
O mais curioso é que tais roupas se amoldavam exactamente ao tamanho do Corpo de quem as vestia, adquirindo mangas adultas e comprimento infantil para abrigar Oto.
Aretusa lembrou-se da história do Pequeno polegar. que sempre contava para as crianças quando encarnada, ao constatar que as sapatilhas brancas que haviam sido separadas para Oto, embora parecessem possuir um solado
Confeccionado em material semelhante a borracha, também eram dotada daqui da mesma propriedade, amoldando-se magicamente ao formato do pé de quem as vestisse.
- Se fosse contar isto para meus netos, diria que aqui os espíritos usam roupas e sapatilhas de sete léguas - comentou bem humorada.
- Se são de sete léguas eu não sei, mas garanto que são bastante confortáveis - observou Oto, pisando no chão satisfeito.
Os três riram.
Em seguida, Têmis e Aretusa lavaram seu rosto com uma água tépida e reenergizante que o enfermeiro trouxe em uma pequena bacia, pentearam-lhe os cabelos e removeram-lhe a barba com delicado aparelho, que tinha o aspecto de pequeno apontador dotado de reservatório.
Ao simples contacto com a pele, a barba era como que sugada para o interior deste aparelho, sem qualquer dor ou ruído.
Oto suportou tudo isso com a alegre expectativa de um menino que a mãe prepara para uma festa.
- Sempre pensei que os espíritos pudessem controlar a aparência e até mesmo o tamanho da barba, ou a ausência dela, através da mente - comentou Aretusa.
- Realmente podem, mas nem todos.
Não se esqueça de que aqueles que regressam da crosta, imediatamente após o desencarne ou depois de longo tempo errando pelo espaço, como é o caso de Oto, chegam aqui ainda envoltos em densos fluidos de materialidade.
Precisam aprender a alterar os próprios padrões mentais para que possam se adaptar a esta nova etapa da existência - esclareceu Têmis.
- Prontinho! - ela fez um carinho no rosto de Oto, experimentando lhe a maciez.
Logo na entrada do prédio, ao se ver outra vez diante do imenso jardim da colónia, ele não pôde conter a emoção.
Lágrimas quentes desceram de seus olhos profundos.
Era como se uma janela de luz houvesse sido aberta dentro de sua mente já tão habituada à escuridão.
Lembrou-se dos tempos em que ali passeava todas as manhãs de braço dado com Odilie, da imensidade de planos que os dois haviam feito sob a copa de frondosa árvore onde agora uma criança ia e vinha sentada em pequeno balanço.
- Sempre é tempo de se recomeçar - exclamou Têmis, lendo-lhe os pensamentos e apertando-lhe as mãos.
Ele sorriu agradecido e retribuiu-lhe o gesto, apertando-lhe também as mãos fortemente.
O olhar era de novo o de um adulto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:48 am

Caminharam alguns passos e pararam maravilhados diante de uma praça em forma de flor, inteiramente cercada por canteiros de miúdas roseiras brancas e vermelhas, de folhagem abundante, muito verde, e caules inteiramente desprovidos de espinhos.
No centro da praça, havia uma fonte de água cristalina, em formato de concha, onde coloridos pássaros pousavam para matar a sede.
Ao reflectir em suas águas, o sol banhava o local de intensa luz, que se espargia em torno da fonte como enorme estrela de muitas pontas.
Era a praça da Luz, onde os socorristas costumavam orar e entoar hinos de louvor a Deus antes de iniciar seus trabalhos e ao encerrar do dia, às seis horas da tarde, quando, como na Terra, as preces homenageavam a magnânima mãe de Jesus, protectora de todos os sofredores.
Sentindo as vibrações de paz que pareciam emanar do local, desta vez foi Aretusa quem não conseguiu segurar as lágrimas.
- Todos os dias, vivo aqui uma das mais sublimes experiências que já tive oportunidade de conhecer no plano espiritual - ela comentou, de olhos molhados.
É tão maravilhoso o momento da prece que a gente sente como se Deus estivesse dentro da gente, como se...
- Deus vive dentro de cada um de nós, Aretusa - interveio Têmis.
Contudo, em geral, as pessoas O percebem mais fortemente no momento da oração, porque ao buscá-lo com sinceridade, com verdadeira vontade de encontrá-lo, elas se sintonizam com a grandeza da Criação, tornando-se mais sensíveis às forças de luz provenientes da energia que incessantemente emana de mais alto.
- Senhor meu Deus, ajuda-me para que eu consiga reencontrar o caminho da luz - disse Oto, de olhos fechados.
Ilumina-me para que eu possa vencer as sequelas do passado que ficaram gravadas em mim, para que eu consiga novamente sintonizar-me com as forças do amor, do perdão... - ele não pôde continuar, tragado pela forte emoção que dele tomou conta naqueles breves instantes, sacudindo-o por inteiro em sentido pranto.
Todavia, embora não pudesse divisar em sua emoção, intensa luz rósea parecia descer dos céus em sua direcção, envolvendo-o inteiramente e reflectindo-se ao mesmo tempo na estrela formada pela fonte, a qual pareceu mais brilhante naquele momento.
-Tenha calma, querido...
Você conseguirá... - Têmis o abraçou com carinho.
Se realmente quiser, você logo irá superar tudo isto...
Ficaram ainda um tempo como que paralisados pela força quente e luminosa daquele abraço, até que Aretusa os chamou de volta à realidade:
- Não esta na hora da palestra?
Em rápidos instantes, posto que eram seres etéreos e não precisavam vencer o peso da matéria para se locomoverem, cruzaram quilómetros de jardins ate atingirem o edifício antigo, cuja arquitectura se assemelhava à do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
De longe já se viam dezenas de espíritos entrando e saindo do prédio, tal qual um exército de operosas formigas.
Chegando mais perto, percebia-se que muitos que chegavam ao local, às vezes em grupos, às vezes acompanhados apenas de um mentor, encontravam-se trajados da mesma maneira que Oto.
A visão geral fazia lembrar um museu terrestre em dia de visitação escolar, sem, contudo, a animação típica deste tipo de passeio.
-Olhem a fila, por favor... - pedia com delicadeza um dos espíritos que guardava a entrada para o interior do teatro.
Ainda que os inúmeros socorristas encarregados da organização daquele encontro muito se esforçassem para transmitir uma atmosfera de alegria e optimismo a todos os que chegavam, o clima geral era de tristeza, como se aqueles espíritos se contaminassem uns aos outros com seu derrotismo e sua falta de esperança particulares.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 11:48 am

- Vamos, querido, não se deixe abater - Têmis o puxou pela mão, tentando animá-lo.
O trio foi encaminhado para um dos auditórios laterais, para onde se dirigiam também todos aqueles que apresentavam deformações físicas semelhantes às de Oto.
O Núcleo de Convivência era dividido em muitas salas e auditórios.
Em cada um deles seriam realizadas palestras e sessões de tratamentos específicas.
Uma listagem na entrada determinava previamente para onde deveria seguir cada espírito que ali chegava acompanhado de seus mentores, de acordo com suas necessidades.
Se Oto não parecia exactamente muito animado, a curiosidade e o entusiasmo de Aretusa não tinham limites.
O tempo todo girava a cabeça para um lado e para outro, querendo absorver cada detalhe do ambiente, ler cada placa, cada cartaz afixado no caminho.
Por pouco, aliás, ela não se perdeu de Têmis e Oto no meio da multidão.
- Vamos, Aretusa.
Não temos tempo para verificar cada actividade que será desenvolvida nesta tarde - alertou Têmis, voltando alguns passos atrás para buscá-la.
-É que os temas anunciados são tão interessantes... - comentou ela, ainda esticando os olhos para o interior de uma sala cujo chão estava inteiramente coberto por coloridos quebra-cabeças.
No pequeno cartaz afixado na porta estava escrito:
"recomposição da personalidade - Dra. Matilde Gillesborn".
- Se eu pudesse me dividir, assistiria a todas as palestras! - ela ainda comentou, já voltando os olhos para a entrada do auditório designado como "espaço de dramaturgia".
- E eu não sei disso? - sorriu Têmis, bem-humorada, sem parar de caminhar em direcção ao final do corredor.
Mas não se preocupe.
Oportunamente, você terá a chance de acompanhar Oto a cada uma destas salas, ao longo das diferentes etapas de seu tratamento - ela prometeu, quando finalmente pareceram chegar a seu destino.
Sentado sozinho em uma mesa no centro do pequeno auditório para onde Oto, Têmis e Aretusa haviam sido encaminhados, o doutor Milton Daves, com a cabeça baixa e a face coberta pelas mãos, parecia concentrado em suas orações.
Permaneceu assim por alguns instantes, até que todos os presentes se acomodassem nas cadeiras dispostas em semicírculo em torno do palco onde estava sentado.
A porta então foi fechada e fez-se profundo silêncio.
A sala parecia isolada de qualquer barulho externo.
O médico se levantou e encarou a todos.
Atrás dele, havia enorme placa luminosa, semelhante a um moderno telão de TV, a qual se acendeu no momento em que ele ergueu-se da cadeira, mostrando o movimento de um rio sonoro e caudaloso atravessando magnífico campo florido.
- Boa tarde!
Que a paz do querido mestre Jesus possa estar, neste instante, reverberando nas fibras mais íntimas de cada um dos aqui presentes! - disse ele, cumprimentando a pequena plateia.
Neste momento, todos puderam perceber o incrível magnetismo que seu olhar irradiava.
Era como se ele tivesse alguma coisa do Cristo, sensação que era acentuada por seus longos cabelos castanhos e pela bem tratada barba da mesma cor.
- Imagino que a pergunta que a todo momento deve ecoar no íntimo de cada um de vocês seja "por que fizeram isso comigo?
Por quê, se eu me preparei tanto para a experiência, se eu estava tão disposto a aproveitar esta nova oportunidade que imaginava que me seria concedida.
"Por que não tive a sorte de ser recebido por uma mãe amorosa?"
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 16 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6 ... 10 ... 16  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum