O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:30 am

Imagens no telão mostravam mulheres grávidas acarinhando o próprio ventre, mães cuidando de bebés recém-nascidos.
- A primeira coisa que todos vocês precisam compreender é que a mulher que pratica o aborto também é uma vítima.
Uma vítima da sociedade em que vive, dos valores morais deturpados dessa sociedade, uma vítima, em última instância, dela mesma, que não foi forte o suficiente para lutar contra estes valores.
Porque toda mulher, em seu íntimo, deseja sei mãe; todas foram dotadas por Deus de aptidões para cumprir esta importante missão, mesmo aquelas que se encontram transitoriamente impossibilitadas de gerar uma vida em seu próprio ventre.
Muitos choraram no auditório ao ouvir esta prelecção.
- Todavia - continuou o expositor - não podemos nos esquecer de que, quando encarnados, muitas vezes sentimos medo, muitas vezes tivemos a impressão de que não iríamos conseguir dar conta das situações que se nos colocavam no caminho.
Quem nunca viveu esta angústia quando encarnado?
Todos continuavam em silêncio, enquanto o telão mostrava imagem de mulheres chorando desesperadas depois de constatarem que estavam gravidas.
- Infelizmente prosseguiu o doutor Milton Daves - quando saímos daqui e nos esquecemos temporariamente de nosso passado, esquecemos também que Deus jamais confia um fardo pesado a ombros fracos.
É que talvez uma das mais importantes provas por que todo o espírito passa através da reencarnação é a prova da fé.
Envolvidos pelas solicitações do inundo material, muitas vezes nos esquecemos da importância de confiar em Deus, de acatar os seus desígnios em prol da nossa própria evolução.
A mulher que aborta é acima de tudo um ser desprovido de fé, porque não acredita que Deus tenha elaborado todo um projecto para o seu crescimento individual através daquela gravidez aparentemente inesperada.
Ora, meus amigos, como já dizia Einstein, "Deus não joga dados".
Nada acontece por acaso.
A mulher só pratica o aborto, no entanto, porque se sente incapaz de assumir uma vida, seja por razões financeiras, psicológicas, emocionais ou profissionais.
A tela mostrava sucessivamente várias situações.
A mulher com medo de engordar e perder o marido; a mulher com medo de ser demitida por causa da gravidez; a mulher jovem demais; a mulher mais velha com medo de gerar um filho excepcional, entre outras.
-Todos estes casos mostram mulheres que no fundo temem não ser aceites.
Pelo marido, pela sociedade, pela família, pelo patrão, por elas mesmas.
Mulheres que não conhecem a força maternal que Deus plantou dentro de cada uma delas.
Todavia, os abortados precisam também conscientizar-se de que o aborto é um acto físico e o espírito não deve ficar reavivando os factos tristes que enfrentou.
As cenas agora focalizavam o momento em que o abortado era retirado do corpo após o acto brutal.
Eram mostradas as equipes socorristas do espaço que ficam de plantão nas clínicas de aborto; o cuidadoso desligamento feito durante a retirada do feto do útero da mãe; o abortado, sob forma de bebé, sendo adormecido e conduzido de volta ao plano espiritual pelos socorristas; enfim, todos os tipos de amparo que um espírito recebe nesta situação.
- Sei que cada um de vocês carrega no corpo a chaga da rejeição, mas nem por isso deve considerar-se um rejeitado - enfatizou o palestrante, enquanto a tela era tomada por imagens de sementes a germinarem em maravilhoso jardim florido.
Cada cérebro é uma casa, um mundo, enfim, um universo, e somente seu dono pode arrumá-la.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:30 am

Se ficarmos ornamentando nossa casa, nosso mundo, com os enfeites da revolta, da vingança, do ódio, teremos um cérebro perturbado e uma casa mental em desalinho, fugindo do universo de Deus.
Sabemos que, no momento violento do aborto, com frequência ocorrem anomalias da forma perispiritual.
Não olvidemos, porém, que, para chegar à condição de feto, tivemos de aprender a nos concentrar de tal modo que, por vontade própria, déssemos ao corpo perispiritual a forma diminuta destinada a ocupar o novo corpo em formação.
A tela voltou então a ser ocupada por imagens que ilustravam todo o processo.
O espírito despedindo-se dos amigos, depois de confirmada sua próxima reencarnação, sua reclusão em quartos especiais onde, com o apoio de especialistas, efectuava-se, paulatinamente, a redução da forma perispiritual até o mínimo tamanho de um óvulo.
O doutor Milton Daves mudou então o tom da voz, falando suave e pausadamente, como se procedesse a uma espécie de hipnose da pequena plateia, sob suave fundo instrumental:
- Agora, neste auditório, vamos olhar as lâmpadas que se encontram no tecto...
Vamos dar um novo colorido à nossa casa mental...
Vamos, ainda, buscar no inconsciente o apagador, um apagador de giz, igual àqueles que se usam na escola...
Depois de termos retirado da nossa mente todos os factos cruéis já vividos, vamos, então, fazer crescer a vontade da cura...
Plasmar com amor um corpo perfeito para nós...
Vamos fixar as lâmpadas no tecto e, agora, como se fôssemos pintores, tocar cada parte do nosso corpo, dando-lhe as formas das quais ele precisa...
Estabeleceu-se novamente completo silêncio.
As luzes ganharam uma nova irradiação e a pequena plateia, de olhos bem abertos, fixava as lâmpadas, para depois cerrar os olhos em busca do apagador sugerido pelo doutor.
Pouco a pouco, cada qual foi moldando um novo corpo.
Oto adequou o tronco e as pernas de maneira a formarem um conjunto harmonioso com a cabeça e os braços de homem.
Para completo espanto de Aretusa, logo ele ganhava a aparência de um rapaz de traços germânicos, beirando os trinta anos de idade, muito bonito em seu conjunto.
Instantes depois, o auditório estava diferente.
Todos que haviam entrado ali deformados pareciam ter adquirido uma forma mais equilibrada.
Não eram mais crianças, eram homens e mulheres, espíritos que, como Oto, haviam retornado à sua antiga roupagem perispiritual, à forma que tinham antes de planejarem a reencarnação em que seriam abortados.
O doutor Milton Daves parabenizou-os:
- Conseguiram!
De hoje em diante todos sabem que a chave da felicidade se encontra dentro de nós e que, para vivermos em paz, precisamos amar a Deus e ao próximo.
Só então todos os olhos se abriram e deu-se a grande surpresa.
Ao perceberem que a cura havia mesmo se operado, muitos não conseguiram conter o pranto sentido, enquanto outros riam e choravam ao mesmo tempo, tal a emoção que os dominava.
- Este sou eu! – dizia Oto, em um sorriso comovido.
Não sou mais um monstro!
- Você nunca foi um monstro, querido! - corrigiu Têmis.
Apenas encontrava-se sob o impacto de um grande choque, necessitando de tratamento adequado,
- Sou eu... - ele não se cansava de olhar para as próprias pernas.
É muito bom estar de volta!
- Que bom que está feliz! - comemorou Aretusa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:31 am

O doutor Daves convidou todos a fazerem uma prece de agradecimento, depois deu por encerrada a sessão de terapia daquele dia.
Oto, Têmis e Aretusa seguiram em direcção ao novo departamento do hospital onde temporariamente ele ficaria internado naquela nova etapa de seu tratamento.
Estava, porém, tão inebriado com seu novo-velho corpo que nem se dava conta de para onde ia ou o que lhe sucederia depois.
Queria apenas caminhar pela grama com suas longas pernas.
- Será que todo o ódio que ele sentia acabou? - questionou Aretusa no momento em que ele se distanciou um pouco das duas.
- Certamente que não.
O ódio que desorganiza o equilíbrio emocional de Oto não é algo que surgiu com a experiência do aborto, mas um sentimento que o acompanha já há algumas existências e que foi exacerbado com o último trauma por que passou.
É, portanto, um sentimento difícil de ser curado de uma maneira fulminante e definitiva.
Até porque ele submeteu-se apenas a uma sessão com o doutor Milton Daves - explicou Têmis.
- Então quer dizer que a qualquer momento ele pode voltar à forma monstruosa de antes? - assustou-se Aretusa.
- Sim e não.
Pode acontecer de, tempos após a terapia, as anomalias voltarem por ainda estarem muito fixadas no perispírito.
Acredito que só com o decorrer do tratamento ele consiga efectivamente apagá-las de sua memória espiritual.
- Pobre Oto...
Por um instante pensei que...
De quantas sessões ele ainda vai necessitar?
- Não temos como precisar, tudo vai depender da maneira como ele vai reagir ao tratamento.
Porque, até o momento, o que aconteceu foi uma indução.
O doutor Daves procurou trabalhar o perdão como ingrediente indispensável à perfeita harmonização do ser como um todo e mostrar a eles que é a própria mente de cada um que imprime as formas que serão ostentadas pelo corpo perispiritual. Eles realizaram, portanto, um exercício, mas, para que consigam manter as formas obtidas neste exercício, será preciso que as mentes individuais aprendam a se preparar para exercer naturalmente este comando, sem qualquer indução externa, você compreende?
- Isto quer dizer que ele terá de aprender a controlar melhor os próprios pensamentos?
- No mundo espiritual, tudo funciona através da emissão de formas-pensamento, que nada mais são do que pensamentos potencializados pela força da vontade, capaz de tudo criar - complementou Têmis.
- Mas e os outros seres que estavam no auditório?
Também estavam ali pela primeira vez?
Também estarão sujeitos a uma súbita volta de suas anomalias? - Aretusa de novo mal podia conter sua imensa curiosidade.
- Alguns sim, outros não.
São tantos casos...
O espírito que foi abortado junto com Oto, por exemplo, não sofreu nenhuma anomalia e já se encontra, inclusive, em preparo para reencarnar...
As duas não perceberam, mas Oto, que havia parado para esperá-las e encontrava-se agora a poucos passos de distância, ao ouvir isso teve um sobressalto.
"Odilie não pode voltar!", ele pensou consigo, angustiado.
"E se Vítor a encontrar?
Se fizer algum mal a ela?"
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:31 am

Tomado por ódio profundo, estabeleceu imediata ligação mental com o encarnado a quem perseguia.
- Não se esqueça de que a todo momento chegam milhares de espíritos que vivenciaram a triste experiência do aborto.
Têmis continuava sua explanação sem notar o que se passava.
- Segundo me informou o doutor Demóstenes, o Brasil é recordista mundial desse covarde crime.
Calcula-se que de 4 a 6 milhões de brasileiras o pratiquem a cada ano, sendo o número de interrupções de gravidez maior do que a taxa anual de nascimentos no país. (24)
- Meu Deus! - exclamou Aretusa alarmada.
Não tinha ideia de um número tão grande, na verdade eu nunca...
Ahn! Veja! - ela estancou assustada, reparando que Oto havia se agachado subitamente no meio do caminho, como que acometido por uma dor muito forte, e agora tapava os ouvidos desesperado.
- O que houve Oto? - Têmis correu até ele e agachou-se a seu lado.
- Façam-no parar, eu imploro!
Se ele continuar dizendo isso, não sei se vou conseguir me aguentar!!!
- O que ele está dizendo?
De quem está falando? - quis saber Aretusa preocupada.
- De Vítor.
É tão grande o ódio entre os dois, que eles não conseguem se manter desligados por muito tempo.
Estão sempre sintonizados através deste sentimento - deduziu Têmis.
Aretusa olhou assustada para Oto e percebeu que havia retomado as anomalias de seu corpo perispiritual.
Era novamente um adulto barbado de longos braços, comprimido num tronco de criança.

24 - Tais informações foram extraídas do livro "Deixe-me Viver", de autoria espiritual de Luiz Sérgio e psicografado por Irene Pacheco Machado no ano de 1990.
Brasília: Livraria e Editora Recanto, 2000.
Segundo dados publicados na revista Época, em 06/05/2002, no Brasil o número de abortos registados oficialmente é de 1,2 milhão por ano.
Deve-se, no entanto, ressaltar que, seja por constrangimento das famílias ou mesmo pela grande quantidade de operações clandestinas realizadas, a grande maioria dos casos não tem como ser registada.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:31 am

- XXI -
- Eu tenho o controle!
Eu posso controlar todas as minhas crises! - dizia Vítor, nervoso, no consultório da doutora Olívia, apertando fortemente o despertador no bolso da bermuda.
Acabara de adentrar a sala particular da psicóloga, contra a vontade.
Mantinha-se de pé ao lado da porta que acabara de ser fechada, enquanto a mãe, apreensiva, o aguardava na ante-sala.
- Você já me ajudou tudo o que podia e, portanto, agora eu, eu... - tentou esticar o braço para abrir novamente a porta, mas foi impedido por uma forte tontura que por pouco não o derrubou.
Era como se tudo na sala subitamente houvesse se tornado distorcido, não conseguia sequer ter noção da distância que existia entre ele e a maçaneta da porta.
As mãos suavam, o coração pulsava descompassado, o corpo todo tremia.
A crise o atingira no auge de sua prepotência, transformada agora no medo enorme que avassaladoramente o tragava.
- Não... não... - dizia com a boca seca, quase sem fôlego, tentando puxar o relógio que mantinha dentro do bolso apertado.
Mas o danado do relógio parecia preso em alguma costura e não saía de jeito nenhum.
Ou talvez fosse ele que houvesse perdido o controle da própria força.
- Procure respirar fundo... - disse a doutora, calmamente, conduzindo-o até uma confortável poltrona.
Não se fixe nos sintomas, pense que eles logo vão passar, assim como passaram todas as outras vezes...
Vítor estava tão nervoso que novamente não conseguiu controlar a urina que, em segundos, molhou toda a poltrona da doutora, fazendo-o sentir-se ainda mais humilhado.
Envergonhado, soltou o despertador e deixou-se envolver inteiramente pelos sintomas da crise.
Sentia-se irremediavelmente só e desprotegido diante daquela estranha que mais uma vez o surpreendia em um de seus momentos de absoluta impotência e falta de controle sobre si mesmo.
- Eu vou morrer... - desabafou, com os olhos molhados, apertando fortemente as duas mãos contra o peito.
O ar não entra...
Não consigo mais res...
- Não se desespere... - pediu a doutora Olívia, sentando-se diante dele em uma cadeira giratória.
Procure manter a calma...
Não é a primeira vez que você sente isso - insistiu, enquanto virava-se rapidamente para alcançar sobre a mesa um pequeno saco de papel de cor parda.
Tome - disse, estendendo-o a Vítor.
Encha-o de ar e inspire em seguida. Vamos!
Durante cerca de cinco minutos ele ficou respirando dentro do pacote, observado de perto pela psicóloga, até que finalmente sentiu-se aliviado, ao perceber que sua pulsação havia se regularizado.
Abaixou então a cabeça, ainda sem coragem de desenvencilhar-se do saco de papel, e olhou envergonhado para as calças molhadas.
- Não se preocupe...
Te garanto que não foi a primeira vez que isso aconteceu aqui no meu consultório... - disse ela, tirando delicadamente o saco de suas mãos.
E agora? Acha que podemos conversar um pouco?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:31 am

Vítor continuou cabisbaixo e envergonhado.
Não sabia o que dizer.
"Será que se eu tivesse conseguido tirar o relógio do bolso a tempo teria podido evitar a crise?", questionava-se, ainda tenso e ansioso.
- Lamento informá-lo - disse Olívia, como se pudesse adivinhar seus pensamentos -, mas a técnica do relógio que lhe ensinei, assim como este exercício do saco que acabamos de fazer, são apenas paliativos, recursos extremos para ajudá-lo a vencer a ansiedade nos momentos de desespero.
Mas nenhuma destas técnicas têm o mágico poder de solucionar definitivamente o seu problema... porque não basta controlar a ansiedade.
É preciso descobrir de onde ela vem.
- E o que então pode me ajudar?
Existe cura para o meu caso? - ele perguntou angustiado, voltando a abaixar a cabeça em seguida.
Apesar da postura aparentemente humilde e envergonhada, havia despeito e revolta em seu tom de voz, e isto não escapou ao olho clínico da terapeuta:
- Talvez a cura requeira uma mudança de sua postura diante da vida - diagnosticou.
- Como assim? - ele a encarou desconfiado.
- Em todos os casos que tratei dessa doença, observei sempre pessoas muito rígidas, cheias de agressividade e raiva contidas.
Embora tais sentimentos não lhes pudessem ser detectados de um primeiro golpe de vista, não fossem sentimentos aparentes, por assim dizer, eram nocivos na medida em que aquelas pessoas os projectavam contra elas mesmas através de suas crises de ansiedade... - ensaiou Olívia.
- E o que isto tem a ver com uma mudança de postura diante da vida? - estranhou Vítor.
Incomodava-o perceber que a terapeuta o estava investigando, "jogando verde para colher maduro", como popularmente se costuma dizer.
De mais a mais, a ideia de mudança o irritava.
Por que todos insistiam tanto naquele ponto?
Sinceramente não via nada em sua maneira de ser que necessitasse ser mudado.
- Tem a ver na medida em que aquelas pessoas tiveram de buscar as raízes de sua ansiedade para, uma vez conscientes de suas origens, poderem impedir que esse sentimento continuasse a ser projectado contra elas mesmas.
- Mas é justamente aí que está o problema! - desabafou Vítor.
Não existem raízes, não existe uma causa para que 'a coisa' aconteça.
Ela simplesmente vem e me derruba!
- Será que não existe ou será que é você quem ainda não consegue enxergar?
A pergunta da terapeuta ficou pairando no ar por alguns instantes, ecoando dentro de Vítor.
Ela falava com tanta segurança...
Realmente, a ansiedade era algo que o incomodava.
Existiria mesmo uma razão capaz de explicar tudo aquilo, uma origem para aquela horrível sensação?
Vasculhou rapidamente a memória, tentando lembrar com detalhes a primeira vez em que tudo acontecera.
Mas não havia nada, nenhum indício que pudesse ser resgatado.
Ele simplesmente assistia a uma reportagem na TV quando tudo começou!
É certo que não era uma reportagem qualquer, era algo que realmente o interessava e que mexia com as suas fibras mais íntimas, já que o programa falava sobre a primeira clonagem humana e, até então, especializar-se nesta área era o seu grande sonho.
Mas por que o simples constatar de que um sonho seu estava cada vez mais próximo de se tornar real poderia desestabilizá-lo daquela tal maneira, a ponto de chegar mesmo a impedi-lo de continuar estudando para concretizar seus anseios?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:32 am

Relatou o facto à terapeuta, ávido por um diagnóstico imediato.
Ela, porém, deixou-o ainda mais confuso com suas ponderações:
- Quando falo de origem, não estou necessariamente me referindo a uma situação prática e objectiva que aconteceu em determinada data, marcando o início de suas crises.
Com toda certeza, a situação que acaba de me descrever contém ingredientes que fizeram seu cérebro identificá-la com outras situações, registadas em regiões bem mais profundas do seu inconsciente.
- Como assim? - tentou entender Vítor.
- Lembra que, em nosso último encontro, em sua casa, eu lhe falei a respeito de uma nova abordagem a respeito do pânico?
- Sim. Aliás, foi assim que você me convenceu a vir até o seu consultório - confessou Vítor.
- Pois então.
A maioria dos especialistas que lidam com esta doença baseia-se no chamado modelo de interpretação materialista, que acha que o pânico é puramente uma disfunção bioquímica ou psicológica actual.
- E não é? - provocou o rapaz.
- Eu, pessoalmente, trabalho com outro paradigma, segundo o qual a disfunção não é a causa da doença, e sim uma consequência de uma causa anterior, de um desequilíbrio, de um psiquismo que a pessoa traz de suas vidas passadas...
"Vidas passadas?", reagiu Vítor de imediato, arregalando os olhos e abrindo ligeiramente a boca de espanto.
"Era o fim da picada!", pensava consigo.
Como é que aquela louca iria convencê-lo da existência de outras vidas?
Logo ele, que não acreditava sequer em religião nenhuma, que achava que a ciência estava acima de qualquer dogma religioso e até mesmo da ideia de Deus...
Talvez fosse melhor ir embora dali para não perder seu tempo ouvindo bobagens.
Todavia, caracterizava-o uma curiosidade científica sobre todos os assuntos.
"Taí", disse para si próprio.
"Quero ver como é que ela vai embasar essa afirmação absurda!"
- Falo de uma hipótese que vem ganhando cada vez mais espaço na ciência, que é o fenómeno da regressão de memória.
É óbvio que nem todos os teóricos do assunto encaram o facto dentro da visão espiritualista da reencarnação.
Muitos pesquisadores partem de pressupostos diferenciados para dar conta do processo em questão, tentando explicar os relatos dos indivíduos em regressão.
- Como assim? - ele não conseguiu entender o que seriam pressupostos diferenciados.
-Alguns defendem a memória genética, ou seja, que o conteúdo dos relatos do cliente em um estado alterado de consciência não seria propriamente de nina de suas vidas passadas, mas sim a reprodução de vivências de seus antepassados que lhe teriam sido transmitidas geneticamente, ao nível dos cromossomas, com toda a gama de emoções, pensamentos e sensações vividas à época - detalhou a terapeuta.
A explicação agradou Vítor, que quis ouvir mais.
- Continue! - pediu, como se ele fosse o terapeuta e Olívia, a paciente.
-Já outros estudiosos do assunto têm explicado o processo através da possibilidade do indivíduo acessar estes conteúdos de uma memória geral do nosso planeta, que ficaria disponível a qualquer indivíduo que se 'sintonizasse' com ela - ela fez um gesto com as mãos para colocar aspas na palavra.
- Seriam as experiências colectivas e raciais comuns ocorridas ao longo da história, envolvendo grande parte dos habitantes da Terra.
Ela fez uma pausa para servir-se de um pouco de água, que Vítor também aceitou.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:32 am

- Existem ainda aqueles que defendem a posição de que - ela tomou um longo gole antes de dar continuidade à frase - tudo se trata de uma grande fantasia do nosso inconsciente actual para dar conta dos traumas que estão ali registrados, ficando mais fácil para o indivíduo se perceber nas personagens do passado do que em sua própria história de vida actual.
- E a abordagem reencarnacionista - deduziu Vítor - trabalha com a hipótese de que esses relatos sejam lembranças de situações ocorridas em vidas passadas.
Mas por que você tinha de optar justamente por este lado mais místico e fantasioso? - embora não se desse conta disso, havia momentos em que repetia exactamente as frases do pai, igualmente céptico e descrente, quase irónico em suas colocações.
- Você pode interpretar o processo sob a óptica que lhe for mais conveniente.
A abordagem reencarnacionista, porém, é de uma lógica irresistível.
Quer ver só?
Você já foi assaltado alguma vez no Rio de Janeiro?
- Já - Vítor respondeu de imediato, embora não soubesse ainda aonde a terapeuta queria chegar com aquela pergunta.
Estava em um ônibus 569, indo para a praia, quando, de repente, numa rua mais deserta do Leblon, dois caras puxaram as armas e assaltaram todo mundo.
- Pois bem.
Quando você voltou a entrar num ônibus dessa mesma linha e passar por essa rua, você sentiu alguma coisa?
Vítor pensou por alguns instantes antes de responder.
A verdade é que havia passado a tomar outro ônibus só para não voltar a repetir o trajecto, com medo de que a desagradável situação pudesse acontecer novamente, embora soubesse que assaltos sempre podem ocorrer em qualquer hora e em qualquer lugar do Rio.
Só de lembrar disso, sentiu uma pontada do medo se desencadeando, mas procurou concentrar-se na respiração.
- Então você admite que aquele acontecimento traumático ficou de alguma maneira gravado no seu inconsciente - prosseguiu Olívia, após ouvi-lo.
- Profundamente marcado - disse Vítor, com o ar preso nos pulmões.
Para você ter uma ideia - ele soltou o ar antes de continuar a frase -, eu nunca mais consegui sentar de novo no mesmo banco em que estava sentado quando o assalto aconteceu!
- Excelente - comemorou Olívia, de olhos brilhantes.
Vítor não entendeu se ela se referia ao seu comentário ou à sua respiração.
Ainda assim, ficou feliz com o "excelente".
- E você, por acaso, se lembra de alguma característica específica da rua onde tudo aconteceu? - prosseguiu a terapeuta.
Vítor reflectiu por mais alguns instantes.
- Sim - respondeu por fim.
É uma rua comprida, meio deserta, que é cortada no meio por um canal.
- E você acha que, se, por um acaso, algum dia passasse por uma rua com estas características, comprida, deserta, com um canal, localizada em outro bairro, em outra cidade, você ficaria de alguma forma mobilizado?
- Isso já aconteceu! - Vítor começava a se empolgar com a discussão.
Olha que coisa incrível!
Estive uma vez em São Lourenço, no sul de Minas, com meu pais, algum tempo depois.
Lá tem exactamente uma rua comprida, com trechos um pouco desertos, que é cortada por um canal.
São Lourenço é uma cidade pacata, onde praticamente não existem assaltos, nem violência, mas você acredita que só de passar por ali uma noite, sozinho, eu fiquei todo angustiado, olhando para os lados, na certeza de que alguma coisa iria me acontecer?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:32 am

E olha que nessa época eu ainda nem conhecia 'a coisa'...
- Perfeito - sorriu Olívia.
Era exactamente isto o que eu queria demonstrar.
Após vivermos um momento traumático, nossa mente faz um apanhado geral de todas as imagens, sensações, emoções, sentimentos, comportamentos, reacções enfim, de tudo o que pôde registrar no decorrer daquele evento.
Assim, de acordo com esta avaliação do momento em que foi vivido o trauma, o inconsciente estabelece uma estratégia para evitar que tal sofrimento ocorra novamente, de maneira a nos proteger do risco.
- Você fala como se tudo não passasse de um programa de computador - observou o rapaz.
- Mas é exactamente isso, você atingiu o ponto certo.
Nosso inconsciente actua mais ou menos como um computador.
Um grande computador, diga-se de passagem, no qual processamos diversos 'programas' -ela fez de novo um movimento com as mãos como se desenhasse aspas em torno da palavra - de comportamentos e reacções a serem executados diante de cada situação vivida.
Cada vez que algo nos acontece, nosso inconsciente nos apresenta uma série de possibilidades de acontecimentos que tendem a suceder diante daquele quadro dado e também de comportamentos, decisões, atitudes e valores que podemos ter, diante daquela situação específica, com base em tudo o que ele vasculhou no nosso arquivo de vida.
- Quer dizer então que, quando eu estava lá em São Lourenço, meu computador interno captou que tua comprida e deserta, cortada por um canal, era igual a probabilidade de assalto e por isso eu fiquei todo agitado, olhando para os lados, embora não tivesse nenhuma informação concreta de que algo realmente pudesse me acontecer naquele lugar, é isso? - ele era muito rápido em seus raciocínios.
Olívia respirou fundo e esboçou um leve sorriso antes de afagar sua vaidade:
- É por isso que gosto de trabalhar com pessoas perspicazes, que captam aquilo que a gente quer dizer antes mesmo de terminarmos o raciocínio...
Vítor abaixou os olhos, tentando disfarçar o quanto ficara contente com o elogio.
Há tanto tempo ninguém exaltava sua inteligência...
Olívia aproveitou a deixa para prosseguir:
- Agora, fazendo de conta que você aceita a hipótese da reencarnação, imagine que...
- Mas eu não acredito em reencarnação! - ele protestou com veemência.
- Fazendo de conta, eu disse.
Será que você é tão radical que não consegue nem fazer de conta por alguns instantes?
- Tá - ele se conteve.
Pode continuar.
- Pois bem. Imagine então que você voltou ao mundo no corpo de uma outra pessoa chamada... - ela tentou inventar um nome rapidamente - chamada Tónico, ok?
Suponhamos, que um dia, Tónico, que carrega aquela lembrança em sua memória mais profunda, acidentalmente passasse por aquela mesma rua onde você, como Vítor, foi assaltado no passado.
O que você, racionalmente, acha que poderia acontecer?
- A mesma coisa que aconteceu em São Lourenço? - Vítor arriscou.
- Não de uma maneira tão clara.
Porque, quando estava em São Lourenço, você tinha consciência de que seu medo era decorrente de uma situação recente e que aparecia simplesmente porque você caminhava por uma rua parecida com aquela onde tudo aconteceu.
Tónico, porém, tenderá a sentir o alarme de seu inconsciente, como se seu computador interno gritasse:
"cuidado, perigo", mas não vai poder decodificar de imediato o sentido daquele alarme.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:32 am

E então, embora mobilizado por aquele aviso do inconsciente, ele vai achar que aquele medo não tem o menor sentido, que tudo não passa de mera figura da sua imaginação...
Vítor abriu a boca para argumentar, mas perdeu as palavras antes que estas lhe chegassem até as cordas vocais.
A explicação de Olívia era realmente de uma lógica irresistível.
"Mas as coisas não podiam ser tão simples assim!
Sua doença não era tão simples assim!", protestou seu inconsciente.
- É claro que um sentimento tão avassalador como o pânico que literalmente te desfigura nos momentos de crise envolve traumas bem mais profundos e complexos do que a lembrança de um assalto corriqueiro.
Este foi apenas um exemplo que utilizamos para que você compreendesse o meu método de trabalho - arrematou Olívia.
Aliás, não recomendo a ninguém que se submeta a este tipo de tratamento por mera curiosidade.
Não vale a pena remexer uma ferida pelo simples prazer de verificar se ela ainda sangra.
Todavia, em casos como o seu, a terapia de vidas passadas pode funcionar como uma luz; a luz que possivelmente vai te fazer enxergar que certas situações que o seu inconsciente cadastrou como perigosas não mais o ameaçam na vida actual...
Você está disposto a fazer esta experiência?
Vítor ficou em silêncio, brincando com o gole de água que restara no fundo do copo.
Sentia-se tentado a aceitar o desafio, mas, ao mesmo tempo, seu lado céptico alertava-o de que não devia acreditar piamente no que a terapeuta dizia.
Afinal, embora a terapeuta fosse bastante eloquente em suas argumentações, ele ainda não acreditava na reencarnação.
- Você não precisa me responder nada agora.
Gostaria apenas que pensasse em tudo o que conversamos, e, como intelectual que eu sei que é, que buscasse informações sobre o assunto.
Uma coisa é não acreditar porque você acha que não existe, e crer que não existe pelo simples facto de você não acreditar.
Outra, bem diferente, é a postura daquele que não crê porque não dispõe de conhecimentos que o façam crer e que, por isso, resolve examinar, vasculhar, descobrir indícios que reforcem ou até mesmo destruam sua ideia inicial.
E a postura lógica, racional de um verdadeiro cientista...
- Pode ser... - concordou ele, confuso.
- Tem mais uma coisa sobre a qual gostaria de conversar com você...
Pelo que me contou, as crises estão voltando com muita frequência.
Há, inclusive, dias, em que acontecem mais de uma vez...
- E, nesta última semana consegui controlar um pouco, com aqueles exercícios que você me ensinou, mas mesmo assim parece que 'a coisa’ está sempre pairando sobre mim, apenas esperando um momento de descuido para...
- Você tem tomado os remédios que o psiquiatra receitou? - ela o interrompeu enfática.
- Bem, na verdade.... - tentou enrolar Vítor.
- Tem ou não tem? - insistiu a terapeuta.
- Não. Tomei apenas por um tempo, depois parei... - confessou Vítor.
Eu não quero ficar dependente de remédios!
Olívia sacudiu levemente a cabeça, em sinal afirmativo, como se esperasse exactamente por aquela resposta.
- Olhe ,Victor, não sou uma defensora dos remédios; acho mesmo que eles só devem ser tomados quando a pessoa realmente necessita.
No porem, dada a intensidade com que as crises vêm acontecendo, penso que...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:33 am

- Mas você não disse que trabalhava dentro de uma linha diferente da convencional? - rebateu o rapaz, interrompendo-a.
- Sim meu método de treinamento é diferente, na medida em que considera a integração dos aspectos físicos, espiritual e emocional dos pacientes, enquanto que o modelo médico tradicional centraliza apenas na matéria a explicação de todos os fenómenos.
Eu não concordo com este ponto de vista, mas também não posso desconsiderar que a síndrome do pânico efectivamente envolve também sintomas materiais e objectivos, como o aumento dos níveis de serotonina e noradrenalina no organismo.
Acredito que um desequilíbrio de ordem espiritual e emocional gerou determinadas sequelas no físico, mas, uma vez que já foram geradas, não posso deixar de tratá-las.
Você compreende o que estou dizendo?
- Isto quer dizer que eu vou ter de tomar remédios pelo resto da minha vida? - deduziu Vítor, contrariado.
- Se você se tratar apenas com um psiquiatra, provavelmente sim, porque a psiquiatria normal não faz actuação na causa geradora dos sintomas.
Todavia, a psicologia acredita que, ao tratar o trauma, suas consequências sobre o organismo tendem a reduzir, na medida em que atuamos directamente na causa, na origem do problema.
E, com isso, a quantidade de remédio necessária para mantê-lo em equilíbrio também será cada vez menor até que você possa prescindir completamente de medicamentos.
- E o que você me aconselha então? - ele perguntou desconfiado.
- Eu te aconselho a voltar a tomar o medicamento receitado pelo psiquiatra, tendo o cuidado de voltar ao consultório ao menos uma vez por mês, para que ele possa reavaliar a dosagem.
- E eu não vou ficar dependente por causa disso?
- O que eu posso te assegurar é que nenhum dos pacientes que tratei até hoje ficou... - ela consultou o relógio.
Nossa, como o tempo passou rápido!
Imagino que você deve ter ficado com muitas questões a serem respondidas.
Mas não dá para falar tudo em uma sessão.
Ela girou a cadeira para pegar na mesa um pequeno bloquinho, onde pôs-se a anotar rapidamente algo na primeira página.
- Aqui estão meus telefones - disse, por fim, arrancando a folha e estendendo-a a Vítor.
A qualquer momento, você pode me ligar.
Anote suas principais questões e me traga na próxima sessão.
Se nós viermos a trabalhar com a regressão de memória, é fundamental que você conheça bem o processo, saiba de tudo o que pode acontecer.
Vamos ficar por aqui hoje?
Vítor se levantou, atónito com o monte de vozes que pareciam brigar dentro de sua cabeça, e ficou parado, esperando que ela dissesse mais alguma coisa.
- Tá... - foi tudo o que conseguiu responder.
- Ali! - ela virou-se para pegar algumas folhas que havia deixado separadas sobre a mesa.
Aqui você tem mais alguns exercícios para ajudá-lo nos momentos de crise e também a receita de um floral de Bach, que você deverá mandar manipular em uma farmácia especializada.
Você já ouviu falar em florais?
- Na... na... não - titubeou Vítor.
- Pois então pesquise também sobre isso.
Seria interessante que você pudesse fazer uso de medicamentos mais subtis como auxiliares no tratamento.
- São comprimidos? - perguntou ele.
- Não, é um líquido.
Você deverá pingar quatro gotinhas debaixo da língua sempre que se sentir ansioso.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:33 am

- Só isso?
- Hum, hum. Deixa só eu te dizer mais uma coisa.
Pode ocorrer, e isto é bastante comum, de pensamentos o assaltarem de vez em quando, dizendo-lhe para não vir à consulta, que não adianta, que vai dar a crise etc.
Se isto acontecer, não dê importância.
Mais tarde, a partir do que nós trabalharemos aqui no consultório, você compreenderá a razão destes pensamentos e também aprenderá a lidar melhor com eles.
Vítor pegou as folhas das mãos de Olívia e lançou lhe um último olhar desconfiado antes de atravessar a porta, sem sequer se lembrar de que estava todo molhado.
"Como ela poderia saber das vozes que constantemente ouvia dentro de sua própria cabeça?
Que explicação teria para isso?", perguntava-se em silêncio.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:33 am

- XXII -
Chuva estava certa em seus pressentimentos.
Na noite seguinte, quando Florence e Rafael desceram do táxi, cheios de malas e bagagens, em frente ao imponente edifício no parque Guinle, em Laranjeiras, Aline ainda não havia dado sinal de vida.
Noémia, que curiosamente durante todo aquele dia comportara-se de maneira lúcida e exemplar, Paloma e Chuva desceram para recebê-los.
- Querida, que bom que chegou! - disse Noémia, abraçando a sobrinha.
Seja bem-vinda!
Florence, no entanto, estava tão preocupada que mal conseguiu retribuir os abraços calorosos da família.
A primeira coisa que percebeu, logo de cara, foi que Aline não estava entre elas e, portanto, ainda não havia chegado.
Durante toda a viagem, havia telefonado para Paloma a cada parada do ônibus, ansiosa por notícias da filha, a essas alturas não sabia mais em que pensar.
- Procure ficar calma - aconselhou Paloma, ajudando-a a pegar as malas.
Mais cedo ou mais tarde, ela vai aparecer...
- Mais cedo ou mais tarde quando? - lágrimas escorreram de seus olhos cansados, enquanto ela subia as escadas que davam acesso à portaria.
Onde será que essa guria se meteu, Paloma?
- Bem, já estive na rodoviária duas vezes hoje, ninguém da empresa soube me informar nada.
Tudo o que sei é que ela não veio no ônibus que chegou de manhã cedo, nem no da tarde.
- A culpa é toda minha... - afirmou Rafael, sentido e cabisbaixo.
Devia ter engolido a chave da porta na hora em que ela falou que estava indo viajar para o Rio sozinha...
Eu fiz de tudo para impedir, mas a Aline quando fica nervosa é muito difícil de segurar...
- Tu não tiveste culpa de nada, filho - Florence afagou-lhe a cabeça com ternura, enquanto esperavam pelo elevador.
Uma total falta de assunto parecia prolongar ainda mais a demora do elevador.
Ninguém sabia o que dizer, estavam todos angustiados, apreensivos com aquele sumiço inesperado, e o elevador nada de chegar, parecia preso no último andar.
- Solta a porta! - gritou Chuva, depois de alguns murros no elevador.
- Não seria melhor chamarmos logo a polícia? - sugeriu Noémia, cujo olhar naquele instante pareceu diferente do que ostentava ainda há pouco.
- Vamos esperar mais algumas horas - opinou Chuva, que tinha verdadeiro pavor de polícia desde seus tempos de militante revolucionária.
Quem sabe ela ao menos telefona?
- Mas eles não podem continuar a prender o elevador desse jeito!
Isso é caso de polícia! - protestou Noémia, mostrando que efectivamente havia voltado a sua habitual alienação.
- Mamãe, pelo amor de Deus, agora não! - pediu Paloma.
- Mas eu não disse nada de mais! - protestou Noémia.
Ora, Paloma, você está de implicância comigo...
- Mãe, e aqueles papeizinhos que a gente preenche antes de entrar no ônibus?
Não tem como tu pedires para saber se o nome de Aline está em algum deles? - lembrou Rafael, interrompendo a discussão que estava prestes a se formar.
- O elevador! - insistiu Chuva, com murros cada vez mais fortes.
- Chuva! - ralhou Paloma, dirigindo-se aos primos em seguida.
Esses papéis ficam na chamada caixa-preta do ônibus, servem para o caso de acidentes.
Cheguei a falar com o gerente da empresa sobre isso, mas ele me informou que eles estão com um problema de pessoal e só no final da semana poderão fazer a verificação.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:33 am

Peguei o telefone para...
Ela se interrompeu ao ouvir o barulho do elevador, que finalmente chegava.
- Até que enfim! - disse, já se preparando para abrir a porta.
- Se demorasse mais um pouco, ia pedir de volta o dinheiro da pastagem! - protestou Noémia.
Nem bem Paloma tocou no puxador, a porta se abriu num tranco que por pouco não a derrubou no chão.
De dentro saiu Jaqueline, toda paramentada para fazer aula de ginástica, puxando a filha Clarinha, de sete anos, que parecia fincada no piso do elevador.
- Vamos menina já disse que em casa você não pode ficar! - gritou Jaqueline, sem se dar conta de quantos a observavam.
A menina não saiu do lugar.
Jaqueline respirou fundo com os dentes trincados, como que a ganhar forças para puxá-la novamente.
Só então percebeu Paloma e os outros.
- Paloma! - ela abriu um imenso sorriso foiçado, tão artificial quanto seu perfume, e disparou a falar como uma metralhadora.
Que bom te encontrar!
Já havia ligado para sua casa nem sei quantas vezes.
Você caiu do céu! Posso deixar a Clarinha com você?
Ainda não consegui encontrar uma babá.
Minha cozinheira não fica com ela de jeito nenhum.
Será que você me quebraria esse galho mais uma vez?
De dentro do elevador, a menina arregalou os olhos como se dissesse "oba!"
- Sabe o que é, Jaqueline? - ensaiou Paloma, constrangida.
É que minha família acabou de chegar de fora - ela fez um gesto mostrando a prima e o filho -, eu, sinceramente...
A menina de imediato dissolveu a alegria que acabara de iluminar seu olhar, mas a mãe se fez de desentendida:
- Ah, eu sabia que você não ia me negar este favor! - disse, estalando os lábios num beijo torto, que desviou antes de atingir o rosto de Paloma.
- Clarinha comporte-se, hein! - recomendou afectada, já ultrapassando a porta de vidro do prédio.
Paloma, amanhã estou lá para fazer minha massagem!
Ah! E no sábado estão todos convidados para o meu aniversário! - disse já na escada.
Vou estar inaugurando meu forno de pizza caseiro.
Vai ser um escândalo!
- Que moça simpática!
Ela é quem mesmo? - perguntou Noémia.
Ninguém respondeu.
Espremida no canto do elevador, morrendo de vergonha, Clarinha parecia um ratinho acuado.
Florence olhou para ela e sentiu como se um pote de ternura se esparramasse dentro de seu coração.
De tão compungida ficou com a situação daquela menina, com quem simpatizara de imediato, que por breves instantes até se esqueceu da filha:
- Não te assustes com a quantidade de malas! - disse, enquanto empilhava a bagagem no outro canto, ajudada por Chuva, Paloma e Rafael.
- É que talvez tenhamos de ficar aqui por muito tempo...
Clarinha sorriu como se também já a conhecesse há séculos.
- Deixa que eu ajudo! - disse solícita, já correndo a pegar uma sacola.
Era toda bonitinha, quase uma bonequinha.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:34 am

Tinha os cabelos castanhos e lisos, presos num rabo de cavalo enfeitado com pequenos prendedores coloridos; o narizinho era arrebitado e bem-feito.
Parecia mesmo uma mini mocinha com suas roupinhas na moda combinando com a sandalinha jeans de salto anabela.
Alguma coisa nela fazia lembrar Aline quando criança.
Ou até mesmo a própria Florence, em suas longínquas recordações da infância.
"Ali, minha Aline, onde estarás a uma hora dessas?", ela pensou consigo, triste, sem nem por um instante cogitar que estivesse diante da própria irmã, tão próxima do pai que tanto sonhava reencontrar.
- Sabe, o que eu queria mesmo era ficar em casa com a minha boneca Jade.
Ela é tão lindinha, só falta falar...
Eu faço a unha dela, coloco lacinho no cabelo, até uniforme da escola ela tem... - dizia Clarinha, toda contente, ao mesmo tempo em que saía do elevador para ajudá-los com os pacotes.
E tem também a Judite, a Esperança, a Kênia...
- Que nomes mais lindos!
Es tu mesma quem os inventa? - perguntou Florence.
- E quem mais poderia ser? - Clarinha balançou a cabeça e fechou levemente os olhinhos, toda orgulhosa, antes de abaixar-se para pegar mais um embrulho.
- Cuidado com esta caixa! - pediu Florence.
Aí dentro tem um relógio muito valioso - ela sorriu olhando para tia Noémia.
- Florence, eu não acredito que você... - admirou-se Paloma.
- Ela vai ficar satisfeita, é isso o que importa.
De mais a mais, foi a única coisa que trouxe da minha casa...
Aqui está seu relógio, tia Noémia! - ela anunciou, mostrando a caixa para a tia.
- Relógio? Que relógio? - estranhou Noémia, esquecida do escândalo que aprontara em Florianópolis.
- Hi... - suspirou Paloma. - É uma surpresa, mamãe.
Logo a senhora vai ver...
Mas por que é que a cozinheira não fica com você de jeito nenhum Clarinha? - ela desconversou.
- Ora, por quê!
Por que ela rouba! - disse a menina com simplicidade, num trejeito de mãos.
Como a mãe, ela falava cheia de gestos.
- Rouba comida, rouba produtos de limpeza, até brinquedo do meu quarto ela já roubou, vocês acreditam? - suspirou levando as mãozinhas à cintura.
- Disso eu sei bem!
A faxineira lá de casa é a mesma coisa! - opinou Noémia.
Aliás, por falar em relógio, ando desconfiada que a danada me levou um relógio de parede.
Um relógio cuco suíço, uma beleza...
Paloma cobriu a testa com a mão direita e balançou a cabeça com certo desalento, ao mesmo tempo em que Florence olhava sério para Rafael, numa ordem silenciosa para que o garoto contivesse o riso.
Enquanto isso, na pequena cidade de Resende, a cerca de 200 quilómetros do Rio, sentada na beirada de um meio-fio, Aline devorava, nervosa e faminta, um pacote inteiro de jujubas.
Havia perdido o ônibus sem querer, distraída com uma revista de horóscopos numa banca de revistas.
Junto com ele fora a bagagem, o casaco e até mesmo o travesseirinho de estimação, em cuja fronha havia guardado o endereço e o telefone das primas no Rio.
Já fazia, porém quase vinte e quatro horas que isto acontecera.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:34 am

No primeiro momento chegara a pensar em ir até um guiché qualquer, reclamar que o ônibus a havia deixado para trás, fazer um escândalo para que a pusessem em outro carro.
Todavia, ao se aproximar de uma das cabines onde eram vendidas passagens, percebeu uma confusão em torno de um garoto de dez anos que viajava sozinho sem nenhuma autorização.
Havia sido descoberto no meio da viagem, Aline não pôde entender bem por que, em meio do pequeno tumulto de curiosos que logo cercou os envolvidos na confusão.
Sentiu muito medo de ser descoberta, pois não tinha certeza se precisava de autorização para viajar sozinha.
Angustiada ao ver de alguma maneira reflectida sua própria história nos olhos assustados daquele menino, saiu de fininho, indo se refugiar na imensa lanchonete da rodoviária.
"O que fazer?", perguntara-se a madrugada inteira.
Mas estava ainda tão abalada com os últimos acontecimentos, tão ferida, tão machucada em seus sentimentos mais íntimos, que acabou optando por não fazer nada.
Tomou rapidamente um copo de café com leite quente, depois sentou-se em um dos bancos da plataforma de espera e ficou pensando na vida, enquanto acompanhava o intenso movimento de ônibus que a todo momento chegavam e partiam.
Pouco a pouco, lembrou-se de cada uma das amigas que deixara em Florianópolis, da prova final de biologia que deixara de fazer por causa da perturbação que se instalara em sua vida depois daquele fatídico Natal.
Em função disso, repetira de ano e não tinha sequer a noção se a mãe pensava em matriculá-la em alguma escola no Rio de Janeiro.
Florence simplesmente tirara dois meses de licença sem vencimentos e transferira para a vida dos filhos sua desesperadora falta de perspectivas.
Nunca, em toda sua vida, vira a mãe tão perdida e desestruturada.
E tudo isso só por causa de uma ideia fixa, de um pai que nunca mexera um só dedo para tentar descobrir seu paradeiro.
Aline ressentia-se do facto da mãe dar tanta importância àquele pai a ponto de esquecer-se de seus próprios filhos.
Então ela não pensara que ela e Rafael haviam nascido e sido criados em Florianópolis, que tinham já toda uma vida organizada na ilha?
A princípio, ela mesma achara maravilhosa a ideia de uma temporada no Rio.
Mas, quando, com a notícia de que a família tinha um prazo inadiável para desocupar a casa, a simples viagem foi se transformando numa possível ida definitiva para outra cidade, Aline ficou muito assustada.
Achava que a mãe não devia ter aceitado o convite de Paloma naquelas circunstâncias.
Devia, sim, ter batalhado para alugar uma outra casa, ter primeiro assegurado a estabilidade mínima da família, antes de correr atrás daquele sonho maluco.
Depois, ela, Aline, era quem tinha cabeça de adolescente...
Tão preocupada estava Florence em encontrar o pai que nem por um minuto pensara que ela e Rafael também sentiam a ausência paterna, que também sonhavam com um meio de reconciliarem-se com Osmar.
Mas ele também não estava nem aí para os filhos, e isto lhes fora dolorosamente provado pelo descaso com que ele respondera quando os dois lhe pediram aquele encontro de despedida.
"Rafael pensa que ele simplesmente esqueceu, ocupado com suas obrigações de trabalho, como se fazer passeios de escuna com turistas fosse algo que pudesse ser chamado de obrigação de trabalho...", protestou mentalmente, enquanto estalava os dedos revoltada.
A verdade é que, enquanto os dois esperavam, havia mais de uma hora, por Osmar, em frente ao posto de saúde do Canto da Lagoa, onde tinham marcado, ela o vira beijando, quase engolindo uma mulher no bar Café dos Artistas, que ficava do outro lado da rua.
Trocando em miúdos, ele não aparecera porque encontrara algo melhor para fazer.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:34 am

Aline ficou tão indignada com a cena que não conseguiu nem dizer nada a Rafael.
A voz travou na garganta.
Apenas puxou o irmão pelo braço e acenou depressa para o ônibus que passava.
Chegando em casa, socou suas roupas dentro da mochila, pegou um pouco de dinheiro dentro da gaveta onde sabia que a mãe guardava as economias e seguiu espumando para a rodoviária.
De táxi, só pelo desaforo.
- Estou indo para o Rio - foi tudo o que disse ao irmão, pouco antes de passar por ele como um trator, com sua pesada mochila nas costas.
E pensar que agora ela não tinha mais nada.
Nem casa, nem mochila, nem sequer um número de telefone para onde ligar, posto que o mesmo fora vendido na tarde anterior.
"O que será que eles estão fazendo agora?", não pôde deixar de perguntar-se.
"Será que mamãe sentiu alguma coisa?
Será que falou com meu pai?
Tadinho do Rafael...", ela enxugou a lágrima que lhe escorreu dos olhos.
Sabia que ele não tinha culpa de nada, não o queria ter magoado em seu rompante de raiva.
Só agora, contudo, quando o dia já quase amanhecia, ela começava a cair em si e se dar conta da bobagem que havia feito.
Aline era assim. De rompantes.
Depois, quase sempre se arrependia das próprias palavras, mas então era tarde para voltar atrás.
Jogou para trás os cabelos, num trejeito nervoso, e continuou com suas lembranças.
O que mais lhe doía era o facto de não ter sequer se despedido de Mariana, sua grande amiga de infância.
Não tinha notícias dela desde o "quase encontro" da véspera de Natal.
Será que continuava namorando com Mairon?
Aline planeava reconciliar-se com Mariana antes da viagem e colocar uma pedra sobre este assunto.
Só não imaginava que fosse acabar partindo tão abruptamente antes da data prevista.
Mas era tarde para lamentar-se.
“Ai meu Deus e agora o que é que eu faço?"
Choramingou por dentro, enquanto estalava mais uma vez os dedos, morrendo de medo de expressar qualquer reacção no meio de tantos estranhos.
Os ônibus não paravam de chegar e partir, num vai e vem interminável, e ela ali, sem saber para onde ir, com quem falar, o que dizer.
Estava tão tensa, tão perturbada que sequer conseguia captar as sugestões do espírito de luz a seu lado, que o tempo todo aconselhava que ligasse a cobrar do orelhão para dona Preciosa, cujo telefone sabia de cor, e mandasse um recado para a mãe.
O frio da madrugada começava a incomodá-la.
A seu lado, uma mulher tentava embalar um bebé embrulhado numa manta.
O neném chorava sem parar, enquanto alguns passageiros fumavam perto da porta de um ônibus, aguardando o momento da partida.
- E aí, tá a fim de um programa? - perguntou um caminhoneiro, exalando forte cheiro de álcool.
O susto foi tão grande que Aline levantou de um pulo e correu para o banheiro.
Estava exausta.
Trancou-se num compartimento, e depois de chorar em silêncio por algum tempo, acabou adormecendo sentada sobre a tampa do vaso.
Só despertou por volta das sete da manhã, com o barulho de verdadeira multidão de mulheres que acabara de desembarcar de um ônibus vindo do nordeste.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:34 am

Saiu então do banheiro e descobriu que era dia.
"Preciso fazer alguma coisa, preciso fazer alguma coisa...", pensava sem cessar.
Todavia, estava ainda tão tensa, tão nervosa e amedrontada que não conseguia ter uma ideia sequer.
"Tente fazer amizade com alguma pessoa que esteja indo para o Rio, verifique qual guiché vende passagens Resende-Rio!", sugeria o espírito de luz que a protegia.
Aline, porém, nada registrava.
Todos os seus sentidos estavam bloqueados, todas as suas energias canalizadas para que se mantivesse atenta e alerta.
Depois de horas perambulando pela imensa loja-lanchonete da rodoviária, verificando sem muito interesse o preço de pequenos objectos que ficavam dispostos no fundo, sentiu que os funcionários começavam a olhá-la com certa desconfiança. "Eles vão acabar percebendo", imaginou, sentindo-se quase como uma criminosa de filme.
"Nenhuma pessoa fica mais de oito horas esperando um ônibus na rodoviária!
E muito menos rodando de um lado para o outro dentro de uma lanchonete como esta!", pensou olhando para as imensas frutas que pendiam do tecto como parte da decoração, enquanto estalava mais uma vez os dedos.
Decidiu então refugiar-se no fast food do outro lado da rua.
"Não gaste muito dinheiro, procure guardar o que tem para comprar uma passagem para o Rio", aconselhou seu protector espiritual.
Mais uma vez, contudo, Aline não o ouviu.
Pediu um hambúrguer, depois um milk-shake, já pensava no que mais poderia comprar para ganhar tempo quando finalmente lembrou-se de que o dinheiro estava no fim e resolveu fazer hora no parquinho que havia em frente à lanchonete.
Várias crianças ali brincavam, observadas pelas mães.
Vendo-as, ela não pôde deixar de pensar em Florence e sentiu uma angústia profunda no coração.
Estava tão arrependida...
"Converse com alguma destas senhoras", insistia o protector em sua mente, "são todas mães, vão entender seu problema".
Mas Aline nada captava, apenas estalava os dedos das mãos nervosamente, o tempo todo repetindo sem cessar:
"Preciso fazer alguma coisa, preciso fazer alguma coisa..."
Dezenas de pessoas entravam e saíam da lanchonete a cada minuto, mas Aline parecia nem enxergá-las.
Até que, em um esforço supremo de seu protector, sentiu vontade de pedir ajuda.
Vasculhou rapidamente a sanduicheira com os olhos e escolheu uma mesa onde um pai e uma mãe lutavam para que uma criança de pouco mais de um ano engolisse o conteúdo de um vidro de papinha industrializada.
Parou a poucos metros e ficou observando o desespero do jovem casal, sem saber o que dizer.
- Filhinho, pelo amor de Deus, só mais uma colherzinha... * pedia aquela mãe descabelada, cujos olhos fundos atestavam o quanto andava stressada.
- Não - respondia a criança, virando o rosto e soprando a língua para fora para eliminar a porção de comida que ainda retinha na boca.
- Desse jeito não adianta, Tilde, ele não está com fome! - replicava
0 pai, nervoso, limpando a boca da criança e a própria camisa com uma fraldinha.
- Como não está com fome?
Ele não comeu nada o dia todo! - argumentava a mãe, com os olhos cheios d'água.
- Por que tu não tentas dar-lhe um pouco de sorvete? - sugeriu Aline, num rompante de coragem.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Toda criança adora sorvete e...
- Ele está resfriado - respondeu a mãe, seca, mostrando que não gostava de receber conselhos de estranhos.
Envergonhada, Aline afastou-se dali rapidamente.
Pouco tempo depois que a família deixou a lanchonete com a criança aos berros, sentiu vontade de aproximar-se de uma outra mesa, onde uma mulher tomava sorvete com a filha adolescente.
O orgulho, porém, desta vez foi mais forte e ela acabou desistindo da ideia.
E assim, inúmeras vezes ao longo da tarde atravessou a rua da lanchonete para a rodoviária, da rodoviária para a lanchonete.
Só se sentiu aliviada ao perceber que os funcionários trocavam de turno, o que, segundo imaginava, tornava um pouco menos arriscada sua situação.
Apenas as mudas fretas do tecto pareciam ter ciência de sua desesperadora peregrinação.
Por volta das quatro da tarde, estava no parquinho da lanchonete quando sentiu um apelo muito forte dentro de si para que fosse outra vez até a plataforma.
Era novamente o espírito de luz que acompanhava, tentando intuí-la para que encontrasse a mãe e o irmão que acabavam de descer de um ônibus.
Todavia, neste momento estava tão faminta que achou melhor contar os trocados para comer mais um hambúrguer.
Do outro lado da rua, Rafael, também intuído por benfeitores de luz, quase implorava à mãe para levá-lo até a lanchonete em frente.
Florence, contudo, tão transtornada quanto afilha, não captou as vibrações que lhe eram transmitidas e achou melhor ficarem por ali mesmo para não correrem o risco de perderem o ônibus.
Até porque precisava ainda ligar para Paloma, para saber se havia alguma notícia.
Por inúmeras vezes ao longo do dia, o abnegado protector de Aline tentou também influenciar pessoas para que se aproximassem da menina e lhe oferecessem ajuda.
Todavia, os poucos que intuíam-lhe os pedidos não levavam a termo o que suas próprias mentes pareciam sugerir-lhes.
Em parte porque, adestrados pelo medo que impera nas grandes cidades, já haviam se acostumado a não socorrer o próximo para não correr riscos desnecessários.
Em parte também porque Aline, em sua perturbação, não emanasse fluidos que lhes incentivassem a aproximação.
E assim caiu a noite e novamente a madrugada.
O tempo todo Aline só conseguia pensar em ligar para alguém para pedir ajuda.
Mas ligar para quem se Florianópolis estava tão longe e ela não tinha o número das primas que moravam no Rio?
Já devia ser por volta das três horas da manhã, quando, não aguentando mais de desespero, gastou seus últimos centavos no pacote de jujubas e, aproveitando um descuido do vigia que cochilava na cabine, foi esconder-se numa garagem de ônibus que havia nos fundos da rodoviária.
Foi quando sentou-se no meio-fio e pôs-se a devorar as jujubas, enquanto as lágrimas banhavam-lhe a face.
Na garagem havia apenas um silencioso motorista de ônibus que, exausto após encerrar sua última viagem, preparava-se para entrar em seu próprio carro e enfrentar a estrada para o Rio naquela madrugada, ansioso por reencontrar a esposa e os filhos.
Cansado como estava, teria saído sem ver Aline não fosse a astúcia de seu protector pessoal, que tentava ganhar tempo para demovê-lo da ideia de viajar sozinho naquelas condições:
- Espere um pouco! - disse a seus ouvidos.
Há alguém chorando na garagem!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:35 am

Alertado por sua 'voz interior', o homem soltou imediatamente a chave que acabara de fincar na ignição de seu velho fusca e procurou atentar para os ruídos na garagem.
Ouvindo um soluço mais profundo, desceu do carro pé ante pé e caminhou pela garagem até dar com Aline sentada no meio-fio.
- Graças a Deus, irmão! - saudou o protector de Aline, ao ver o motorista se aproximando seguido por seu próprio mentor espiritual.
- A moça é sua tutelada? - quis saber o protector do motorista.
- Sim, é menor de idade, perdeu o ônibus e precisa urgentemente de uma carona para o Rio - explicou o iluminado mentor de Aline.
- E meu protegido necessita justamente de uma companhia que não o deixe dormir no volante.
Pode deixar comigo! - ele fez um sinal positivo para a outra entidade.
Em seguida, aproximou-se de novo do motorista e sussurrou aos seus ouvidos:
- É uma menina de família, deve ter a mesma idade de sua filha.
Você precisa ajudá-la!
Tocado por estas ideias, o motorista se aproximou com cuidado e, ao ser notado pela menina, foi logo avisando:
- Não lenha medo!
Eu sou motorista da companhia Cerúlea e só quero ajudá-la!
Estava me preparando para seguir viagem para o Rio quando ouvi seu choro e...
- Para o Rio?
O senhor disse para o Rio? - Aline o encarou cheia de expectativa, sem preocupar-se em esconder os olhos vermelhos de tanto chorar.
Pelo amor de Deus, me dê uma carona!
Tão envolvidos estavam os dois pelas vibrações de seus protectores que nem por um instante desconfiaram um do outro.
Ao contrário, tiveram mesmo a sensação de que já se haviam visto antes, como se aquele encontro estivesse pré-determinado a acontecer.
Neste clima de confiança mútua, entraram no fusquinha e seguiram para o Rio.
Aliviada depois de amargar tantas horas de tensão e solidão, Aline contou-lhe as razões que a haviam conduzido até aquela lamentável situação.
Ele aconselhou-a como um verdadeiro pai, sempre inspirado pelos benfeitores de luz que os acompanhavam:
- Se fosse minha filha, diria para tomar mais cuidado com esses seus rompantes.
A gente não deve tomar nenhuma decisão de cabeça quente.
A pessoa nervosa perde a noção de tudo, magoa aqueles que ama, fica tão bloqueada que não consegue escutar nem a voz da própria consciência.
Portanto, se fosse seu pai, eu recomendaria que ficasse atenta para este seu lado e tentasse ir aprimorando-o na medida do possível...
A conversa fluiu tão agradável que os dois nem sentiram a viagem.
O clima só ficou tenso no minuto em que, já começando a subir o viaduto para pegar a Linha Vermelha, o motorista comentou:
- Estamos quase chegando na minha casa, que fica em São Cristóvão.
Você ainda não me disse onde moram suas primas...
- Aí é que está o problema... - titubeou Aline, estalando os dedos das mãos.
Eu não sei...
- Como não sabe?
Por que não me disse antes?
Ele freou o carro bruscamente, por pouco não foi atingido por uma Kombi que vinha logo atrás.
- Eu não posso deixar você no meio da rua! - protestou estupefacto.
E agora, o que é que eu faço com você?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:35 am

- XXIII -
Naquela noite, depois de passar muitas horas no computador, pesquisando sobre o espiritismo e a teoria da reencarnação, Vítor teve um sonho estranho.
Uma senhora, cujo rosto ele não podia distinguir direito por falta de luminosidade, conduzia-o pela mão por um corredor abaulado, sombrio e cheio de portas, onde podia escutar o eco de seus próprios passos.
- Vítor, querido, nossa existência é comparável a um grande, imenso livro de muitos capítulos - dizia ela.
- Sua voz não me é estranha...
De onde eu a conheço? - ele cocou levemente a cabeça, tentando lembrar-se.
Ela parou então diante de uma porta e começou a abri-la bem devagarinho.
Era como se lá dentro estivesse guardado um dia de sol, pois, na medida em que a porta foi se deslocando, todo o corredor se iluminou.
Surpreso, Vítor viu então descortinar-se ante seus olhos a praia de Copacabana de tempos atrás.
Teve certeza disso ao ver a própria mãe de biquíni, carregando um menininho de colo.
- Aquele... aquele sou eu? - perguntou, apontando para o bebé.
Em lugar de uma resposta, porém, a cena continuou a desenrolar-se.
- Meu Deus, onde ele está, onde pode ter se metido esse menino?
Meu filho! Onde está meu filho? - repetia Cenyra, angustiada. "
As batidas de seu coração eram tão fortes que pareciam ocupar toda a cena como uma música alta.
Como se fosse de novo o bebezinho no colo da mãe, Vítor sentia as batidas tal qual se viessem de dentro dele.
Foi então que surgiu ao longe uma senhora de chapéu, carregando outro menino pequeno pela mão, de uns quatro anos presumíveis.
Ele tinha um jeito maroto, parecia sorrir por trás do rostinho carrancudo.
- Mamãe! Graças a Deus! - disse Cenyra, correndo a seu encontro.
- Esse danadinho foi me buscar lá no calçadão, nem sei como é que conseguiu me encontrar! - disse a senhora sorridente.
Minha filha... - ela mudou o tom ao perceber a tensão no rosto do Cenyra.
Não pensei que fosse encontrá-la assim tão nervosa...
Você não viu quando ele correu ao meu encontro?
- Não, estávamos voltando da água quando ele sumiu, pensei que tivesse se perdido!
Cenyra abaixou-se e abraçou o menino em prantos:
- Ah, Vinícius...
Por que é que você faz isso com a mamãe?
O menino permaneceu de olhos baixos, sem participar do abraço.
Parecia zangado com a mãe.
- Já entendi tudo.
Vinícius fugiu porque ficou com ciúmes do irmãozinho, não foi mesmo meu boneco?
Mas por sorte a vovó chegou bem na hora de evitar o pior! - ela estendeu os braços para o neném.
E você, meu pequenino?
Por que essa carinha tão assustada?
Vem cá com a vovó...
Só então Vítor rapaz, paralisado pela cena que se desenrolava a seus olhos como se acontecesse de novo naquele exacto momento, percebeu algo de familiar naquela voz.
Era exactamente igual a ...
- Vovó Têmis! - ele exclamou, associando os factos.
É a senhora?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:35 am

A porta se fechou e o rosto da mulher que o acompanhava naquele estranho labirinto se iluminou num sorriso como o que acabara de ver.
Ela o aconchegou num abraço apertado, dizendo:
- Meu pequenino...
Eu nunca estive longe de vocês!
- Mas a senhora está tão... - tentou definir Vítor.
- Tão jovem? - ela adivinhou seus pensamentos:
- Só porque me livrei de algumas ruguinhas?
Você não queria que eu ficasse para sempre com aquele ar de doente, queria?
- É que faz tanto tempo que nós nos vimos pela última vez... - ele olhou para ela fascinado.
- Que você me viu pela última vez, pequenino.
Eu te vejo sempre, muito mais do que você imagina - corrigiu Têmis.
Falando nisso, ainda não terminamos a nossa conversa.
Ela o tomou pelo braço e continuou a conduzi-lo por aquele corredor cheio de portas.
Curiosamente, porém, não estava mais escuro.
Era como se a luz que escapara daquela porta do passado de Vítor houvesse impregnado o local de uma ténue claridade.
Vítor pôde observar então que, cada porta tinha uma cor, um desenho, um acabamento particular.
Alguns eram rusticas, outras modernas, havia mesmo uma que era quase inteiramente ocupada por estranhas letras e desenhos cujo significado ele não conseguia decifrar de imediato.
"O que haverá dentro de cada uma dessas, portas ". pensava, entre preocupado e curioso.
- Sabe, querido, todos nós carregamos muitas portas dentro de nós mesmo.
Algumas guardam acontecimentos relativamente recentes, que de certa maneira nos marcamos na presente existência, como a que acabamos de abrir, outras são mais profundas e precisam ser literalmente trancadas a sete chaves, sob o risco de nos enlouquecer com o que trazem dentro de si...
Mas é preciso que tenhamos o controle sobre todas as portas.
Mesmo que não as mantenhamos trancadas a chave, é necessário que permaneçam sempre fechadas.
Podemos entrar quando necessário, mas não devemos jamais deixá-las encostadas ao sair.
Caso contrário, qualquer vento inesperado, qualquer pequena turbulência pode fazer com que se escancarem, deixando vir à tona conteúdos que podem comprometer seriamente o nosso dia-a-dia...
Eles pararam diante de uma escada escura e retorcida, que parecia conduzir a andares inferiores, onde muitas portas batiam sem cessar.
Vítor sentiu medo.
- Eu não quero descer, vovó! - pediu, morrendo de vontade de chorar.
Ela apertou sua mão, transmitindo-lhe força e carinho antes de responder:
- Às vezes, no entanto, querido, é preciso descer às profundezas de nós mesmos para que possamos descobrir a razão de certos comportamentos que carregamos na nossa essência, comportamentos esses que podem mesmo pôr a perder todo o compromisso de mudança que assumimos quando decidimos iniciar novo capítulo na nossa trajectória evolutiva...
Só indo até lá embaixo - ela apontou para a escada escura - poderemos descobrir exactamente onde comprometemos a nossa liberdade de ser felizes na presente existência, onde se encontra a porta aberta que necessita ser fechada.
- Eu não quero vovó! - insistiu Vítor, puxando-a para trás.
Vamos voltar... Tenho a sensação de que esses corredores estão cheios de monstros horríveis.
Vamos voltar para a praia!
- Ah, Vítor... - Têmis continuava parada diante da escada.
Nossa imaginação é muito mais monstruosa do que a realidade...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:35 am

Por que será que você tem tanto medo de reconhecer que pode ter errado algum dia, como qualquer ser humano que transita sobre a Terra, mas que tem nas mãos agora a chave para consertar seus erros?
Será mais fácil entregar-se ao medo do desconhecido do que conhecer-se melhor para tentar vencer esse medo?
- Vovó, vamos, por favor!
- Pois eu te trouxe até aqui para te fazer um convite, Vítor...
Eu te convido a enfrentar a realidade!
Vítor abriu os olhos de repente e respirou aliviado ao perceber que estava de novo em seu próprio quarto.
Estava tão suado que parecia até que havia acabado de sair do chuveiro.
Felizmente, tudo não passara de um sonho.
Ao mesmo tempo, porém, aquela conversa com a avó deixara uma impressão tão forte em seu íntimo que era como se ele realmente a tivesse encontrado.
Correu até a escrivaninha e, depois de pingar as quatro gotinhas de floral debaixo da língua, remexeu atabalhoadamente as gavetas em busca de um antigo retrato da avó que guardava entre seus pertences.
Lá estava ela.
De olhos profundos, bastante abatida por causa da doença.
Havia morrido em consequência de um câncer raro; lutara muito para sobreviver apesar da doença, mas não resistira, embora houvesse deixado o mundo com um sorriso vitorioso nos lábios.
Vítor a vira pela última vez aos seis anos de idade; precisava olhar sempre para aquela foto para não esquecer-se de sua fisionomia.
"Será mais fácil entregar-se ao medo do desconhecido do que conhecer-se melhor para tentar vencer esse medo?", a frase não parava de repetir-se em sua cabeça.
"Talvez a cura requeira uma mudança de sua postura diante da vida", complementava a voz de Olívia em suas lembranças.
Sentiu então os primeiros sintomas da crise começando a chegar e imediatamente fechou as mãos em concha em torno da boca e do nariz.
Segundo lhe explicara a psicóloga, o movimento funcionava do mesmo modo que o saco de papel que usara no consultório, já que levava a pessoa a inspirar o gás carbónico que ela mesma acabara de expelir.(25)
Enquanto respirava, ele lembrou-se também da lista de exercícios que lera nas folhas que lhe haviam sido dadas por Olívia e decidiu experimentar um.
Era uma contagem regressiva, de dez em dez números, a partir de trezentos.
Tal como o artifício do relógio, a estratégia o obrigava a concentrar-se nos números e exigia até mesmo um pouco de raciocínio, já que não consistia simplesmente numa contagem mecânica.
-Trezentos... duzentos e noventa... duzentos e oitenta...
Ao chegar a cento e vinte, quando a recomendação da psicóloga era de passar a contagem para intervalos de apenas cinco números, a crise havia passado.
Ainda assim, por medida de segurança, continuou concentrado no exercício.
-Vinte e cinco... vinte... quinze... dez... cinco... zero! - suspirou aliviado por fim.
Embora houvesse conseguido impedir a crise de se manifestar em sua plenitude, estava exausto; as mãos e as pernas tremiam.
Era quase como se houvesse acabado de anestesiar um leão voraz.
Durante todo o tempo, as palavras que ouvira de Têmis no sonho não lhe saíam da cabeça “Eu te convido a enfrentar a realidade!"
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:36 am

Era um absurdo aquilo, pensava consigo, enquanto organizava o monte de papéis que tirara da gaveta no momento em que a vasculhara em busca de papéis que tirara da gaveta no momento em que a vasculhava em busca do retrato da avó.
Então ele não estava lutando?
De que outra maneira poderia enfrentar a realidade?
Até na psicóloga tinha ido, até sobre reencarnação andava pesquisando!
Sem falar naquele tal floral que não estava que ele pessoalmente, achava que não estava tendo efeito nenhum.
O que mais a avó queria que ele fizesse?
Nesse exacto instante caiu da gaveta um pequeno livrinho de capa marrom, que foi parar quase na porta do quarto.
Vítor foi até lá.
Não tinha a menor ideia do que se tratava.
Só ao divisar as pequenas letras douradas, lembrou-se que o ganhara da mãe há alguns anos, na véspera de uma prova muito difícil de matemática.
Era uma edição de bolso de O evangelho segundo o espiritismo.
- Antes da prova, leia a prece dos aflitos - recomendara-lhe Cenyra na ocasião.
Se não me engano, no título está escrito "Nas aflições da vida", fica lá no finzinho do livro, junto com várias outras preces...
Apesar de aflito, Vítor não deu muita atenção ao conselho da mãe, mas não disse nada para não magoá-la.
Colocou o livro na mochila e, ao voltar da escola, guardou-o ali naquela gaveta, do mesmo jeitinho que o ganhara, sem sequer folheá-lo nem por um instante.
Agora, no entanto, inexplicavelmente sentia-se curioso.
Abriu-o ao acaso nas últimas páginas, em busca da prece recomendada por Cenyra, e acabou deparando-se com outro trecho que o atraiu de imediato.
Dizia:
O sono tem por fim dar repouso ao corpo; o Espírito, porém, não precisa de repousar.
Enquanto os sentidos físicos se acham entorpecidos, a alma se desprende, em parte, da matéria e entra no gozo das faculdades do Espírito.
O sono foi dado ao homem para reparação das forças orgânicas e também para a das forças morais.
Enquanto o corpo recupera os elementos que perdeu por efeito da actividade da vigília, o Espírito vai retemperar-se entre os outros Espíritos.
Haure, no que vê, no que ouve e nos conselhos que lhe dão, ideias que, ao despertar, lhe surgem em estado de intuição. (26)
Vítor fechou o livro e ficou meditando por alguns instantes naquelas palavras.
Teria mesmo seu espírito encontrado com o da avó naquela noite?
Faria algum sentido tudo aquilo que vira em seu sonho?
Afinal de contas, por que um simples sonho o deixara tão impressionado?
"Eu te convido a enfrentar a realidade!" - a voz da avó repetiu-se mais uma vez na sua cabeça.
Já estava ficando agoniado com aquilo.
O meigo conselho de Têmis era para ele quase como uma afronta pessoal, como se ela, ao invés de fazer-lhe um convite, o estivesse acusando de algo.
Na dimensão de perfeição em que ele vivia tentando se enquadrar, não havia espaços para críticas; ele odiava ver seus defeitos apontados, ainda que sutilmente.
Irritado, tomou uma das pilhas de folhas que imprimira do site sobre pânico da internet e pôs-se a pesquisar.
Queria fazer alguma coisa de concreto, realizar algum exercício, mostrar a si mesmo que não estava de braços cruzados diante da doença, que não era impermeável a mudanças.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 9:36 am

- Yes!- comemorou num bramido, sem se dar conta de que passava das cinco da madrugada.
Era exactamente isso o que eu estava procurando!
"Uma etapa muito importante para a superação das fobias e que deve fazer parte do tratamento da Síndrome do Pânico é o enfrentamento programado de tudo aquilo que é temido" - ele começou a ler alto.
"Enfrentamento programado, conforme o próprio nome sugere, consiste em programar uma série de exercícios de exposição a situações ou a lugares que provocam o aumento da ansiedade".
Depois de passar rapidamente os olhos por uma dezena de páginas, tomou lápis e papel e pôs-se a traçar sua estratégia pessoal.
Era preciso escolher metas que pretendia conquistar, do tipo "ir sozinho até a banca de jornal na esquina no prazo de uma semana".
Em seguida, as páginas aconselhavam a idealizar pequenos passos de maneira a dividir o processo em módicas etapas a serem executadas gradativamente.
Vítor, porém, a despeito de todas as limitações que lhe eram impostas por sua doença, tinha a prepotência como um de seus mais fortes traços de carácter.
Por causa disso, sempre tendia a achar que podia mais do que efectivamente tinha condições, a ponto de querer seguir aqueles exercícios prescindindo de qualquer auxílio psicológico.
E, o que era pior queimando etapas.
Ora essa! Onde já se viu o camarada estipular um prazo de quatro semanas para chegar até a padaria!
Em quatro semanas eu chego no Maracanã!
E com esta mentalidade, ainda alfinetado pelas palavras que ouvira da avó em seu sonho, traçou para si mesmo as mais ambiciosas metas, antes mesmo de terminar de ler o explicativo até o fim.
Eram seis horas da manhã quando acabou de programar suas "Folhas de Tarefas Diárias" para a semana toda, desconsiderando a indicação de que cada dia deveria ser planeado separadamente com base nos êxitos obtidos no anterior.
Vítor deliberou iniciar os exercícios indo até um quiosque de flores que ficava cerca de três quarteirões de casa, desconsiderando também a advertência de que, talvez, no início, fosse aconselhável estar acompanhado de uma pessoa de confiança.
Queria fazer uma surpresa para a mãe.
Muito ansioso, minou mais quatro gotas do floral e trocou-se rapidamente, disposto a iniciar a experiência o mais depressa possível, como se assim pudesse vencer o próprio cérebro.
"E se você tiver uma crise na entrada do prédio?", acoitava-lhe a mente, contrariando suas expectativas mais optimistas.
“E se der vexame na rua?
Já pensou que vai ter de atravessar uma rua para chegar até o quiosque?
E se 'a coisa' acontece bem no meio da rua?
E se passa um carro bem nessa hora?"
Entrou em crise antes mesmo que os pensamentos terminassem o incómodo questionário.
-Trezentos... duzentos e noventa... - lutou novamente para dominar-se.
E conseguiu. Desta vez no oitenta.
"Será que eu saio ou desisto de tudo de uma vez?", foi a primeira pergunta que lhe veio na cabeça após a contagem.
"Eu te convido a enfrentar a realidade", repetiu-se de novo a voz da avó em sua memória.
"Eu vou" - decidiu com coragem.
"Nem que seja apenas até à portaria do prédio".
Enquanto isso, diante da rodoviária Novo Rio, onde Aline pedira para ser deixada, o motorista que a trouxera de Resende até ali continuava preocupado com sua situação:
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