O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:54 am

Só não quero que faça a mesma burrada que eu fiz.
Mas Florence quis tentar, viver sua própria história de amor, que infelizmente também não deu certo.
Voltou para casa trazendo Aline, então com cinco aninhos, e Rafael, ainda de colo.
E mais uma vez sua mãe a apoiou, sem fazer qualquer censura ou comentário.
Até porque era uma mulher de poucas palavras.
E foi em nome de todo este apoio e dedicação que Florence se resignou a jamais tentar buscar notícias do pai enquanto ela fosse viva, como uma atitude de respeito.
Com a morte de Aretusa, porém, não havia mais por que manter aquela postura.
Ainda assim, fora preciso esperar dois anos até que ela conseguisse vencer seu luto e decidisse buscar ajuda naquele programa de TV.
Perdeste toda a reportagem - Florence foi despertada pela voz de Rafael, que tocou docemente em seu ombro.
Ai, Filho... - embora houvesse permanecido todo aquele tempo reflectindo. ela havia revivido tão intensamente suas lembranças que agora sentia-se como se estivesse acordando de um longo sono.
Não sei o que me deu...
Fiquei tão emocionada quando me vi ali na tela, contando meu segredo para todo inundo...
Acho que saí do ar...
- Eu percebi - respondeu ele, terno, como se pudesse ler as entrelinhas do olhar da mãe.
Mas não te preocupes, eu gravei tudo.
Quando tiveres vontade de ver, é só voltar a fita.
- Obrigada, meu filho... - ela beijou com carinho a mão do garoto que se mantinha pousada sobre seu ombro.
Era um menino lindo.
O nariz era fino e arrebitado, todo salpicado de pequenas sardas; a boca, pequenina e rosada, emoldurando um sorriso de dentes perfeitos.
Os cabelos eram castanho-alourados, levemente ondulados, e tinha olhos pretos e perspicazes que, desde o berço, se mantinham atentos a tudo o que se passava a sua volta.
"De quem seriam aqueles olhos?", ela sempre se perguntava.
Todos na família, inclusive seu ex-marido, tinham olhos claros; os dela, de um mel quase caramelo, eram os mais escuros.
Aqueles olhos pretos como jabuticabas eram o grande charme de Rafael, em sua visão de mãe apaixonada.
Não era só exteriormente que ele era bonito.
Era um garoto compreensivo, sempre preocupado em entender e ajudar a todos.
Tinha lá seus arrufos com Aline, é verdade, mas era coisa de irmãos, que muito implicam um com o outro, porém no fundo se adoram.
Florence e os filhos eram muito unidos.
-Taí! Gostei!
Arrombassi! (13) - gritou Aline, toda espevitada, entrando na cozinha arrastando os tamancos, de forma despojada.
Por alguns instantes, tinha conseguido até esquecer o drama da amiga Mariana.
Tirando aquela foto ridícula, que tinha que aparecer de novo para estragar tudo, a reportagem ficou o máximo!
Sinceramente?
Eu, se fosse o meu avô, ligava correndo pra cá!
Já pensaste? Depois de mais de trinta anos, o cara descobre que a filha nunca esqueceu dele e ainda tem dois netos para ele conhecer...
É muito bonita a tua história, mãe...
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:54 am

- Será que ele ainda se lembra de mim?...
Será que gostou de nos ver na reportagem? - perguntava-se Florence, preocupada.
Rafael abriu a boca e tomou fôlego, como se preparando para contar à mãe o estranho ocorrido daquela tarde.
Aline, porém, percebeu no ar sua intenção e o impediu:
- Se gostou?
Periga ele ter um enfarte, de tanta emoção!
Qualquer um ia ficar louco de vontade de abraçar a filha e os netos, depois de todos esses anos...
Aline olhou séria para o irmão, como que alertando-o de que ainda não era hora, depois beliscou o panetone que estava sobre a mesa.
- Hummm... Mas ficou uma delícia este panetone!
- Ai, que bom! - suspirou Florence, aliviada.
- Tens certeza de que não queimou nem um pouquinho?
Aline tirou outro pedacinho, que mastigou por alguns instantes antes de responder:
- Está crocante por fora e macio por dentro, perfeito!
O mais perfeito que já fizeste! - tentou definir, de olhos fechados, o panetone da mãe, enquanto capturava com a pontinha da língua um pequeno farelo que restara nos lábios.
- Deixa eu experimentar - pediu Rafael, já encostando a faca no bolo ainda na forma.
- Mas esse panetone era para amanhã! - protestou Florence, enquanto recolhia rapidamente as travessas ainda espalhadas sobre a mesa, sem conseguir deixar de sorrir.
Sua maior alegria era ver os filhos se deliciando com quitutes que preparava.
- Ah, mãe... - sugeriu Aline, sentando-se à mesa e também servindo-se agora de uma grossa fatia.
Por que tu não ofereces o panetone, ou melhor, o que sobrar dele, no café da manhã?
Vai ficar chiquérrimo...
- Gostei da ideia! - aprovou Rafael.
Poderíamos até instituir, todos os anos, o café da manhã especial da véspera de Natal!
Seria uma espécie de marca da nossa família!
- Marca, não, tradição, tanso! (14) - corrigiu Aline, de imediato.
Como sempre, em seus rompantes acabava falando a primeira coisa que lhe vinha na mente.
- Tansa és tu! - respondeu Rafael de boca cheia.
-Ai, ai, ai!
Estava tudo tão bem, vocês não vão começar... - pediu Florence.
Se soubessem como estou angustiada...
Nossa, faz mais de dez dias que eu não durmo, só pensando no dia em que...
- Será que o meu avô também gosta de panetone? - interrompeu Aline, mudando de assunto.
Parecia contagiada pela nostalgia da mãe.
- Sabes que eu não sei? - tornou Florence, reflexiva.
Na verdade eu não conheço nada sobre o meu pai...
- Podias era ter chamado a gente para aparecer na reportagem! - protestou Rafael.
- Vocês estavam na escola quando o repórter veio aqui...
Era dia de prova, não lembram?
- Eu ia falar pra ele - continuou Rafael:
-"Vô, quando o senhor quiser jogar uma partida de videogame, eu tenho muito jogo legal!" - ele sem querei lembrou-se de novo de seu Gentil e sentiu um aperto no coração.
A esta hora o corpo ainda devia estar sendo velado.
-Isso é o que eu chamo de mico! - Aline não se conteve.
Onde já se viu convidar o avô para jogar videogame!
A essas alturas o vô José deve ter quase setenta anos!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:54 am

- Falou a Chita! - debochou Rafael.
E o que é que tem? - questionou, mexendo os ombros sucessivamente em um trejeito de "nem te ligo".
Eu ia achar muito legal se ele quisesse jogar comigo!
Não tem limite de idade escrito no jogo, não sabes?
- Chita é o raio que te parta!
Ainda bem - ela fez questão de grifar as palavras - que a mamãe nos poupou desse mico!
Florence sorriu ao constatar o quanto seus filhos também idealizavam a figura daquele avô e pensou o quanto eles também sentiam a falta de um pai.
Ornar, seu ex-marido, era muito ocupado e raramente tinha tempo para vê-los.
Trabalhava em uma escuna, fazendo passeios com turistas na baía dos Golfinhos e só aparecia uma vez a cada dois meses, quando aparecia.
Os três ainda conversavam quando deixaram a cozinha.
Florence deteve-se ao lado da árvore de Natal logo ao entrar na sala.
Ela caminhou dois passos para trás, fechou um dos olhos e apertou bem o outro para examinar melhor o conjunto de longe.
- Estou achando que concentrei muitas bolas azuis deste lado.
O que é que tu achas, Aline? - perguntou, já tirando uma bola da árvore.
- Hummm... - ela virou a cabeça, também tentando uma noção melhor do conjunto.
Estou achando é que há um excesso de prateadas daquele lado!
- Deste lado? - estranhou a mãe, franzindo a boca.
Não... Tens certeza?
E se eu pendurasse uma azul do lado de cá... — ela retirou uma das bolas prateadas - e...
Nossa! Esqueci de buscar os enfeites de pano que encomendei para dona Preciosa.
Vou agora mesmo ligar para ela!
Rafael e Aline trocaram um olhar assustado.
Precisavam contar à mãe sobre a morte de seu Gentil antes que ela descobrisse por si própria.
Aliás, era quase um milagre que nenhum conhecido tivesse já telefonado para dar a notícia.
- Não liga agora não, mãe, já é tarde... - despistou Aline, barrando-lhe a passagem.
- É... concordou Rafael, olhando para a irmã com olhos de quem não concordava, mas também não via outra alternativa - vamos arrumar essas bolas; amanhã buscas o restante dos enfeites...
- Vocês estão tão esquisitos - percebeu Florence, trocando as bolas de lugar -, aconteceu alguma coisa?
Que aconteceu, aconteceu, disto eu tenho certeza - ela retirou outra bola e os encarou.
- Bem, mãe... - ensaiou Aline, estalando os dedos, sem saber por onde começar.
O que Rafael está tentando dizer é que...
A dona Preciosa, quer dizer...
O seu Gentil...
- O que aconteceu com eles? - alarmou-se Florence, sentindo um aperto no peito.
- O seu Gentil morreu, mãe! - Rafael disse de uma vez.
A bola de Natal escapuliu das mãos de Florence e espatifou-se no chão.
Seus olhos encheram-se de lágrimas, ela não sabia o que dizer.
Neste minuto o telefone tocou.
Rafael lançou-se sobre o aparelho:
- Quem? E, é sim, é daqui mesmo...
É o filho dela que está falando.
O quê? Um minutinho que eu já vou chamar - ele tampou a boca do fone:
- Mãe! Depressa!
É uma pessoa do programa "Isto é Incrível"!
Parece que localizaram o meu avô!!!

10- Expressão idiomática usada para dizer que a pessoa está demorando demais.
11- Expressão idiomática típica dos moradores de Florianópolis (Estás tolo, estás?)
12 - Não incomode, não perturbe.
13- Expressão idiomática que quer dizer "foi demais, muito bom".
14 Parvo, tolo, palerma.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:55 am

- VI -
Luís Paulo bateu a porta do carro e soltou uma profunda baforada de fumaça.
Do lado de fora do veículo, caía um temporal.
Ainda assim, abriu a janela e continuou a fumar seu cigarro, sentindo os pingos gelados batendo em seu rosto como finas agulhadas.
Não tinha coragem de dar partida no veículo.
Estava encharcado da cabeça aos pés, empapuçado de nicotina até a raiz dos cabelos, de tanto que já fumara naquele dia.
Mas não sabia raciocinar sem um cigarro na boca.
Cocou nervosamente o cavanhaque com a mão que não estava segurando o cigarro, em um cacoete que lhe era típico.
Aos quarenta e dois anos de idade, charmoso e precocemente grisalho, era um homem bem sucedido na profissão.
Já saíra da faculdade com emprego fixo em um grande jornal; pouco tempo depois era promovido a editor da seção policial.
O convite para passar para a televisão viera de um colega de faculdade, Maurício Moneda, actualmente um dos directores de jornalismo da TV Paladium, a emissora onde trabalhava.
"Você é o Sherlock Holmes do jornalismo brasileiro", costumava dizer Mofieda, referindo-se a seu talento para desvendar os mais misteriosos casos, muitas vezes antecipando-se até à conclusão da polícia.
Naquela noite, porém, Luís Paulo sentia-se como o último dos repórteres, faltavam-lhe palavras para definir o sentimento de frustração que lhe corroía por dentro.
Há dez anos ocupando o cargo de editor-chefe do programa "Isto é Incrível", nunca se empenhara tanto na apuração de uma matéria quanto naquele caso da moça de Florianópolis.
Deslocara quatro repórteres para trabalhar na pesquisa, fora pessoalmente a todos os cartórios da cidade em busca de alguma pista, pedira a colaboração da Cruz Vermelha e até da Igreja dos Mórmons (15) para localizar aquele pai desaparecido.
Não contente, mandara verificar em todos os distritos policiais se havia nos arquivos alguma queixa registada na época em que a moça dissera ter saído do Rio com a mãe.
Vasculhara até mesmo o prédio em Copacabana onde Florence dissera ter morado.
Os poucos moradores que ainda se lembravam da família, contudo, afirmavam jamais terem voltado a cruzar com o homem.
O facto é que era quase impossível encontrar uma pessoa com o nome de José da Silva Filho, que tinha como pais um cidadão chamado José da Silva e uma mulher com a raríssima alcunha de Maria José da Silva.
Espalhados pelo Brasil existiam milhares, talvez milhões com estes nomes.
Como descobrir o certo?
- É furada - alertou o sempre previdente Mofieda -, não podemos colocar no ar uma história dessas sem oferecer, na semana seguinte, uma resolução para o telespectador.
Acho melhor descartar esta matéria.
Mas Luís Paulo gostava de desafios.
Tinha, acima de tudo, um faro incrível para reportagens polémicas, destas que mexem com a emoção das pessoas.
Tanto insistiu que acabou convencendo o director.
Aquela história tinha esse 'quê '.
Ele estava certo de que, mesmo que a equipe não conseguisse localizar o tal José da Silva Filho pelas vias convencionais, o próprio público iria localizá-lo.
De uma forma ou de outra, o sujeito acabaria aparecendo depois que fosse ao ar a reportagem.
O editor sentiu uma satisfação imensa ao explicar tudo isso, por telefone, àquela moça tão sofrida de Florianópolis.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:55 am

As vezes, por contar com toda a mega-estrutura que a TV Paladium lhe oferecia, ele se sentia uma espécie de Deus poderoso, infalível e temperamental, nos moldes daqueles da Grécia Antiga que tanto adorava estudar.
- Pode ficar tranquila.
Nosso programa vai fazer você reencontrar seu pai - garantiu à Florence na última vez em que conversaram.
Ele soltou mais uma profunda baforada de fumaça e lembrou-se novamente dos últimos acontecimentos.
A única coisa que ele não esperava era que, naquela mesma noite, o tal José da Silva Filho, em pessoa, telefonasse para a emissora com uma disposição tão pouco amistosa:
- Por obséquio, eu gostaria de falar com o responsável por essa reportagem que acaba de ir ao ar - disse uma voz de homem, em tom nervoso, quase ríspido.
Luís Paulo não tinha hábito de atender telefones na redacção.
Não era uma de suas atribuições como editor do programa.
Todavia, como fosse domingo, havia na sala apenas os jornalistas de plantão.
Por uma incrível coincidência, todos nesse momento haviam saído para fazer um lanche na cantina, ali perto.
- O senhor poderia me adiantar do que se trata? - respondeu, seguindo a convenção combinada entre os repórteres.
- Eu disse que gostaria de falar com o responsável pela reportagem que acaba de ir ao ar, terei sido claro o suficiente? - insistiu, arrogante, a pessoa do outro lado da linha.
De imediato, Luís Paulo captou que estava prestes a receber alguma pista a respeito do homem a quem procurava e correu os olhos em direcção ao aparelho que registava o número de onde procedia a chamada.
Todos os telefones da redacção eram equipados com este dispositivo.
- É ele mesmo quem está falando.
Sou Luís Paulo Moutinho Soares, o editor-chefe do programa.
E o senhor? - quis saber, enquanto anotava rapidamente o número no bloco que tinha à sua frente.
O interlocutor ficou alguns minutos em silêncio, como se titubeasse antes de responder:
- Aqui quem está falando é José da Silva Filho...
- Que óptima notícia! - ele fechou a mão direita em silencioso sinal de vitória.
Então o senhor é o pai da moça que acabamos de...
- Eu não acharia tão óptimo, se fosse o senhor - interrompeu ele, pouco simpático.
- Mas... - Luís Paulo não entendeu de imediato.
- O que eu tenho a dizer é que não gostaria que esta investigação fosse adiante.
Muito tempo se passou, não estou disposto a reencontrar essa moça - declarou sem meandros.
- O senhor está certo disto?
Mas espere um pouco, como vou saber se estou mesmo falando com a pessoa que estou procurando?
O senhor não gostaria de marcar um encontro para...
- Tenho absoluta certeza do que estou dizendo.
Agora, quanto ao senhor, volto a dizer que seria melhor interromper a investigação - reafirmou, enfático.
- Que mal lhe pergunte, que razões o senhor teria para não querer ver sua própria filha, depois de tantos anos? – o jornalista insistiu, tentando ganhar tempo.
Tenho outra família.
Minha esposa nem imagina que um dia vivi com outra mulher.
Não quero dar este desgosto a ela, nem a meus filhos respondeu - o pai de Florence.
De mais a mais, não gosto de aparecer em reportagens de televisão.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:55 am

- Mas o senhor nunca sentiu falta de sua filha, nunca quis vê-la ou saber como ela está?
- Se eu tinha alguma curiosidade, ela já foi satisfeita com o que vi hoje em seu programa.
Não gostaria que o senhor voltasse a insistir neste ponto.
Luís Paulo ficou atónito.
Jamais imaginara que pudesse existir no mundo alguém dotado de tamanha frieza.
Sentia-se ainda mais chocado ao pensar no amor, na expectativa daquela filha.
Além de tudo, não poderia resolver o caso assim, com um telefonema que só ele ouvira.
Precisava encontrar um meio de gravar imagens daquele homem ou pelo menos um trecho daquela conversa para levar ao ar na semana seguinte.
- Escute - tentou convencê-lo mais urna vez, enquanto revirava a gaveta em busca de um pequeno gravador específico para este tipo de procedimento -, eu entendo o seu ponto de vista, quero que tenha a certeza de que não vou obrigá-lo a fazer nada que não queira... - ele fez uma careta de descontentamento ao perceber que a aparelhagem não estava na gaveta.
Droga... - disse baixinho.
- Como disse? - estranhou o homem do outro lado da linha.
- Que tal se nós marcássemos um encontro, apenas o senhor e eu, onde pudéssemos conversar sem que sua família desconfiasse de...
- Não há o que conversar - o pai de Florence parecia estar perdendo a paciência.
Já disse o que tinha a dizer.
Tenha urna boa noite - ele desligou o telefone.
Luís Paulo não teve coragem de ligar para Moneda em seguida.
Estava tão desnorteado que precisava pensar antes de agir.
A única coisa de que tinha certeza era de que Florence tinha de ser avisada do ocorrido.
Era sua obrigação moral como repórter.
O chefe de reportagem chamou então Louise, a secretária em quem depositava total confiança, e instruiu-a cuidadosamente sobre o que dizer à jovem de Florianópolis.
- Meu Deus, coitada! - exclamou Louise ao tomar ciência do desfecho da história que acompanhara tão sensibilizada.
Você não acha melhor esperar passarem as festas para dar a ela esta notícia?
Quem sabe o espírito do Natal não faz este homem repensar sua atitude?
- Não adianta, Louise.
Acho que, nem mesmo se Jesus Cristo viesse à Terra de novo, este homem mudaria de opinião.
É um sujeito completamente insensível - definiu, lembrando-se das últimas palavras do tal José.
O melhor é pouparmos esta moça de um desgosto maior - ele colocou o cigarro apagado na boca, já se preparando para deixar a sala de redacção rumo ao estacionamento.
- Você vai sair debaixo deste pé d'água? - estranhou a secretária.
- É... estou precisando esfriar um pouco as ideias - ele pegou a pasta e seguiu pelo corredor em direcção aos elevadores.
Agora, ainda sentado no carro dentro do estacionamento com o toco de cigarro aceso na boca, Luís Paulo pensava se agira precipitadamente mandando avisar à moça.
Não era possível, não podia ser verdade tudo o que ouvira...
Como um pai poderia nunca mais querer ver a própria filha?
O telefone celular tocou estridentemente dentro de sua pasta, uma única vez, indicando que a bateria estava no fim.
Luís Paulo jogou fora o cigarro e pôs-se a remexer apressadamente a pasta abarrotada de papéis em busca do aparelho.
- E se for o Moneda, o que é que eu digo?
Ficou apertando na mão o minúsculo e moderno dispositivo até que ele parasse de tocar.
Tentou em seguida verificar o número mostrado à tela, indicando a proveniência da chamada, mas a bateria estava muito fraca, impossibilitando a visualização.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:55 am

Luís Paulo ainda tentou encontrar sua bateria reserva na pasta.
- Ela tinha de estar neste compartimento... - estranhou ao perceber o pequeno bolso vazio.
Ah, não... - só então lembrou-se que havia trocado de pasta naquela manhã.
Ficou na outra...
Ele ficou algum tempo alisando o cavanhaque, olhando para longe, embora não fosse possível enxergar nada através do vidro do carro por causa da chuva muito forte.
- A esta hora a pobre moça já deve estar sabendo de tudo - considerou, depois de verificar o relógio, batendo o maço de cigarros contra o dedo indicador direito para tirar mais um.
O pior é que a solução do caso não vai poder ir ao ar do jeito que nós planeávamos...
O Mofieda vai me matar... - ele acendeu o cigano antes de dar partida no carro.
-E, eu acho que com esta eu estou desempregado - e arrancou cantando pneu sob uma chuva cada vez mais forte.
Só então lembrou-se de que era domingo e havia prometido à esposa chegar mais cedo para realizarem juntos o tal estudo do Evangelho no lar.
Cenyra, sua mulher, agora estava tentando buscar respostas no espiritismo de Allan Kardec para o problema de Vítor, seu filho mais novo.
Céptico como convém aos jornalistas, Luís Paulo não acreditava em nenhuma religião e muito menos em espiritismo.
Mas comovia-o tanto o empenho de Cenyra em ajudar o garoto que acabara por concordar em participar do tal estudo do Evangelho no lar, que ele nem sabia direito o que era.
Em seu íntimo, temia que Vítor acabasse por revelar uma esquizofrenia incurável.
Recentemente, Cenyra descobrira que ele era portador da tal síndrome do pânico.
Ou transtorno do pânico, como os inéditos preferiam dizer.
Efectivamente, transtorno era o que aquela doença estava causando na vida de toda a família desde que o garoto tivera sua primeira crise.
Sozinho com seus pensamentos, enquanto dirigia pelas ruas molhadas do aterro do Flamengo, rumo ao bairro de Laranjeiras, onde morava, Luís Paulo questionava até que ponto o filho era sincero em seus relatos.
Não estaria apenas vivendo uma crise adolescente, tentando chamar a atenção dos pais com uma doença fabricada por sua própria mente?
Até que ponto tudo isto não era simplesmente uma estratégia para fugir de algum problema na escola que Vítor não queria admitir para os pais?
Naquele domingo, aliás, completavam-se exactos quinze dias da última crise de Vítor, mas todos estavam confiantes de que a situação estava finalmente sob controle.
Não fosse por isso, Luís Paulo teria a família perfeita.
Cenyra era uma mulher adorável, doce, meiga, organizada, eficiente e equilibrada.
Em todos aqueles anos de casados, nunca a vira alterar a voz, nem mesmo quando ele a atordoava com suas absurdas crises de ciúmes.
Luís Paulo era uma pessoa extremamente ansiosa e possessiva.
Amava tanto sua mulher que, só de pensar que um feirante pudesse mexer com ela durante as compras, tinha vontade de prendê-la em casa.
Para sorte de Cenyra, ele trabalhava tanto que mal tinha tempo de dar vazão a suas crises, embora andasse bastante incomodado nos últimos meses com aquela história dela não poder desgrudar-se do filho mais novo.
Vinícius, o filho mais velho, por sua vez, era seu orgulho.
Aos dezoito anos, havia acabado de entrar para a faculdade de jornalismo.
Tinha um temperamento um pouco forte e agressivo, é verdade, mas Luís Paulo não via isto como um problema.
No fundo, ele, que crescera apanhando de todos os colegas na escola, achava o máximo que Vinícius tivesse a coragem de bater em quem quer que fosse.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:55 am

Luís Paulo olhava para ele e sentia que conseguira criar um filho seguro, sem medos, mais preparado para a vida.
Tão bom se Vítor também fosse assim...
Vítor também era um filho exemplar, não fossem os problemas que recentemente vinham acontecendo.
Luís Paulo enchia-se de brios sempre que via o filho falando sobre as últimas descobertas no campo da genética; poucas vezes conhecera um adolescente tão certo do que queria fazer no seu futuro.
Mas não podia negar que sentia muito mais afinidade com o mais velho, sem perceber que, efectivamente, Vítor era muito mais parecido com ele em temperamento.
Incomodava-o sobretudo a implicância do mais novo com seu cigarro.
Mais ainda porque o garoto nunca falava nada.
Apenas tossia e se retirava de sua presença, numa espécie de postura silenciosa de protesto que o deixava profundamente irritado.
Era incrível como Vítor, mesmo doente, estava sempre tentando controlar as coisas e as pessoas, ainda que de maneira subtil.
No fundo, o jornalista ressentia-se da completa falta de diálogo com o menino.
Não entendia por que ele se dava tão bem com a mãe e mal trocava duas palavras com ele.
O que Luís Paulo não podia admitir para si mesmo, porém, é que sentia muito ciúme da relação de Cenyra com o filho mais novo.
Luís Paulo atirou pela janela a ponta do cigarro que acabara de fumar e só então percebeu que a chuva havia parado.
Estava a poucos metros de casa.
O sinal fechou e, vendo-se diante da padaria, resolveu fazer uma surpresa para a esposa, que adorava as bombas de chocolate dali.
Estacionou o carro e entrou calmamente na fila da caixa, sem imaginar que fora Cenyra quem ligara há pouco para seu telefone celular.
Algo de realmente grave acontecia.

15 - Seita religiosa norte-americana fundada em 1827, que instalou-se oficialmente no Brasil em 1935, onde é também conhecida como Igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Especialistas em genealogia, os mórmons são famosos por possuírem os mais completos arquivos de pessoas do mundo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:56 am

- VII -
Há cinco dias, por sua conta e risco, Vítor havia parado de tomar os medicamentos.
Depois de muito pensar sobre o assunto, deduziu que os remédios acabariam por afectar o funcionamento de sua mente, provocando-lhe uma espécie de lavagem cerebral, e tomou sua decisão, sem dizer nada a ninguém.
Como fosse domingo, já sabendo de antemão da ansiedade descomunal que tomava conta do filho naqueles dias, Cenyra tivera a ideia de chamar alguns vizinhos amigos de Vítor para conversarem um pouco em sua casa naquele fim de tarde.
Há tanto tempo Vítor não os via...
Quem sabe assim ele não se animava e parava um pouco de pensar em seus medos?
Não contou nada ao filho.
Enquanto ele tomava banho, preparou cuidadosamente a mesa para o estudo evangélico que pretendia fazer naquela noite com o marido, depois ligou para os rapazes e pediu que viessem o quanto antes.
Eles também não sabiam de nada a respeito do que vinha se passando com o amigo nos últimos três meses; haviam sido informados apenas de que Vítor atravessava uma profunda depressão e logo se prontificaram a ajudar.
Ao sair do banho, Vítor já os encontrou esperando por ele no quarto.
Parou na porta, surpreso, e ficou um tempo a observá-los, sem coragem de se anunciar.
"E se ele tivesse uma crise na frente de todo mundo?" - era tudo em que conseguia pensar.
Mas não podia simplesmente mandar os amigos embora sem nenhuma explicação.
Até porque fazia meses que não os via; também estava saudoso das antigas conversas.
Mas será que conseguiria conversar normalmente como antes?
Como sua mãe os deixara entrar assim, sem sequer consultá-lo?
Não. Ele tinha de enfrentar.
O médico dissera que era bom conviver com as pessoas, estabelecer metas para voltar à sua vida normal.
E sua meta da semana era justamente criar coragem e procurar um amigo.
Lembrando disto, Vítor esforçou-se o máximo para sair de seu mundo interior e ouvir o que os colegas diziam:
- Querem saber?
Eu acho muito atrasada essa história das garotas ficarem se guardando para o casamento - dizia Fabrício, de costas para a porta, os olhos fixos no pequeno mural de fotografias que ficava na parede ao lado da cama.
Era um gordinho de quatorze anos, que nunca tinha tido uma namorada sequer, mas era todo metido a sabichão.
-Tudo por causa dessa tal cantora Sandy, que não tem o que fazer e fica enchendo a cabeça das garotas com essas ideias ultrapassadas - opinou Jorjão, um compridão sardento de dezasseis anos, que ainda cursava a sétima série, depois de tomar bomba quatro vezes seguidas
- Hi! Não lembrava dessa foto... - disse apontando para um recorte do grupo na porta do prédio, tirada quando todos estavam na faixa dos seis, sete anos de idade.
- Mas que a Sandy é uma gatinha, isso ninguém pode negar - observou Ivan, um mulato de quinze anos muito bonito, enquanto brincava com uma pequena bolinha que encontrara na escrivaninha de Vítor.
Aparentemente mais equilibrado que os amigos, ele já trabalhava como modelo publicitário e tornara-se por isto uma espécie de ídolo do grupo.
Por mim, ela pode dizer a besteira que quiser que eu vou continuar apaixonado por ela... - ele lançou a bolinha no ar e a apanhou em seguida.
- Po... po... pois eu não acho que seja besteira o que ela diz - começou a defender Vítor.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:56 am

Por excesso de timidez, ele sempre gaguejava antes de iniciar uma frase, sobretudo depois que passara a ter as crises.
Os três voltaram-se para a porta de imediato, e só então perceberam o amigo, de cabelos molhados e ainda descalço.
Ivan deixou cair a bolinha, que ficou batendo no chão repetidas vezes.
Ninguém sabia o que dizer.
Vítor estava magro e abatido, parecia ter esticado nos últimos meses.
Por alguns instantes ficaram todos se olhando, até que Ivan tomou a iniciativa:
- E aí, cara?
Você sumiu! - ele aproximou-se para abraçar o amigo, mas Vítor instintivamente deu um passo para trás.
-Vo.. vo.. vo... cês viram a minha mãe? - perguntou, um tanto aflito, virando-se para o corredor como que buscando-a no resto da casa.
- Ela foi até a padaria, buscar uns pãezinhos, disse que não demorava - explicou Jorjão.
- É, falou até que voltava antes de você sair do banho... - complementou Fabrício, notando algo de errado no ar.
Vítor estava muito estranho.
- Talvez ela esteja demorando porque domingo, neste horário, a padaria sempre fica muito cheia...
Mas o que era mesmo que você ia dizendo sobre a Sandy? - Ivan tentou retomar a conversa, querendo aparentar naturalidade.
Vítor tentou se concentrar ao máximo para responder.
Era domingo, ele até então não tinha se dado conta.
Esta simples constatação o fazia tremer nas bases.
Sentiu um calafrio. Era inevitável.
A coisa estava chegando.
Buscou todas as reservas de força em seu íntimo, não podia deixar que viesse.
Pelo menos até que sua mãe voltasse.
E se viesse, o que fazer?
Seus amigos não sabiam de nada, não teriam como socorrê-lo.
Cenyra já devia estar voltando.
Ela tinha que estar voltando.
Afinal, ninguém poderia demorar tanto tempo em uma padaria!
Quanto mais ele tentava se controlar, porém, mais nervoso ficava.
Fechou as duas mãos para disfarçar a tremedeira e notou que já estavam completamente molhadas de suor, pulsando como se fossem dois pássaros que acabaram de ser capturados.
Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que suava como um touro, sentia muito frio.
Era 'a coisa', ele não tinha a menor dúvida. O que fazer?
- A gente estava falando sobre a Sandy, lembra? - insistiu Ivan, observando que os olhos de Vítor pareciam tentar localizar-se no tempo e no espaço.
Vítor fez um esforço muito grande para fixar em sua mente a imagem da cantora.
Mas o que era mesmo que eles estavam falando sobre ela?
Sua cabeça parecia varrida por um furacão, não conseguia pensar em nada, apenas no medo enorme que se espalhava, como uma mancha de tinta escura sobre todo o seu cérebro.
- Pe... pe... penso que....
Ele disse só por dizer.
Mas não conseguiu terminar a frase.
Naquele minuto, vinda não se sabe de onde, uma onda de pavor, a pior de todas que já havia sentido, apossou-se de todo o seu corpo.
Segurou-se na parede.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:56 am

Tinha a certeza de que desmaiaria em seguida, o ar começava a faltar-lhe.
A sensação que ele tinha era de que estava morrendo, tamanha era a pressão em seu peito.
Ao mesmo tempo, sentia esvaírem-se suas últimas energias e também o esfriamento progressivo de todos os músculos de seu corpo.
Mas o desmaio não vinha.
- Vítor, fale comigo, cara...
Tá tudo bem? - preocupou-se Ivan, já se preparando para ampará-lo caso ele caísse.
- E... e... estou passando... muito... mal - ele explicou, com falta de ar.
- Não seria melhor a gente chamar uma ambulância? - sugeriu Jorjão, bastante assustado.
Ele tá pálido, gente, da cor dessa parede!
-Na... na... não...
Não vai... acontecer nada... a minha mãe... - pediu Vítor, com muita dificuldade.
Ele tinha cada vez mais certeza de que iria desmaiar em poucos minutos e só queria que a mãe chegasse a tempo de socorrê-lo.
Sentia mesmo que poderia morrer se ela não chegasse.
- Corre lá embaixo, na padaria, Fabrício, e pede pra tia Cenyra vir depressa! - determinou Ivan, enquanto apoiava Vítor com o braço direito.
Vem... Vamos sentar um pouquinho...
Vai ficar tudo bem, você vai ver...
- Cara, ele tá gelado! - observou Jorjão, também começando a ficar pálido de medo, enquanto ajudava Ivan a sentar Vítor na cama.
- Eu acho que ele tá morrendo - concluiu Fabrício, sem conseguir conter os soluços.
- A mãe dele! - gritou Ivan numa ordem que era quase um grito de desespero.
Depressa! Vai!
O elevador não vinha.
Fabrício achou melhor ir pela escada.
Desceu os três andares como um raio, sobrevoando os degraus de cinco em cinco, em pulos arriscados.
Só ao chegar lá embaixo, pensou:
"E se a mãe de Vítor tivesse subido de elevador enquanto ele descia?"
- Severino! Severino! - atravessou a portaria gritando.
- A dona Cenyra já passou por aqui? - perguntou, logo ao avistar o porteiro, num resto de fôlego.
- Eu, hein!
O que é que deu em você, Fabrício? - estranhou o porteiro, de sua cadeira cativa na entrada do prédio, com seu tranquilo e ritmado sotaque nordestino.
-A dona Cenyra, do 302!
É uma emergência!
O Vítor tá morrendo!
- O Vítor? Mais óie!
E o que é que ele tem? - quis saber Severino.
- Ela voltou ou não voltou, Severino? - Fabrício estava cada vez mais ansioso.
- Por aqui passo não...
Fabrício já estava voando para a padaria quando trombou, na escadaria de acesso ao prédio, com Vinícius, que vinha voltando do treino de capoeira.
Por pouco os dois não rolaram juntos até a calçada.
- O moleque!
Não olha por onde anda, não? - resmungou Vinícius, contrariado, meio grosseirão.
Que gritaria é essa?
Lá da esquina eu tava ouvindo você berrando o Severino!
Tá pensando que isso aqui é...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:56 am

- Vinícius, graças a Deus que você apareceu!
O Vítor... - Fabrício mal conseguia falar, de tão agitado.
- Que é que tem o Vítor?
Vinícius o encarou sério, já fechando o punho direito com força.
- Desembucha de uma vez!
Vinícius logo intuiu que o irmão tivera outra crise e ficou com muito ódio.
Estava farto daquelas frescuras de garoto mimado; não acreditava em uma só palavra do que sua mãe dizia.
Síndrome de pânico! Onde já se viu?
Para ele, Vítor havia inventado tudo aquilo só para chamar a atenção.
Já devia estar indo mal nos estudos, com toda certeza já sabia que ia acabar sendo reprovado.
Daí toda aquela encenação.
Na opinião de Vinícius, o irmão sempre fora sonso e bajulador.
Não entendia por que a mãe sempre caía em suas armadilhas.
Por trás daquele ar de 'bonzinho indefeso', estava sempre manipulando as pessoas em seu proveito próprio.
Todos, menos ele, Vinícius, que já estava cansado de conhecer aquele jogo.
- Não foi culpa minha, eu juro!
Ele... ele... - Fabrício estava tão nervoso que não sabia como explicar.
- Cala essa boca, imbecil!
Onde é que ele tá? - ele parecia alterado, tinha os olhos vermelhos e estava mais agressivo do que de costume.
- Lá em cima... - encolheu-se Fabrício, morrendo de medo.
Quando Vinícius entrou no quarto, encontrou Vítor ainda sentado na cama.
Seu corpo estava completamente gelado e o coração batia muito rápido.
Sentado a seu lado, tentando ser o mais paciente possível, Ivan tentava a todo custo reanimá-lo, enquanto Jorjão, de costas, chorava temendo pelo pior.
-Vítor! Vítor! - chamava Ivan.
Você não pode se entregar!
Explica pra mim o que você tá sentindo?
- Deixa que eu falo com ele - disse Vinícius, afastando Ivan de maneira brusca.
Levanta daí, Vítor!
Pode parar com a encenação.
A dois passos de distância, Ivan roeu a ponta de uma unha e trocou um olhar angustiado com Jorjão.
Desde pequeno, Vinícius sempre fora violento.
Todos os amigos de Vítor tinham medo dele.
- Levanta, eu já disse, droga! - ele insistiu, fechando os punhos de raiva, já se preparando para partir para cima do irmão.
- Peraí, cara - Jorjão resolveu interferir.
Ele tá mal!
Vítor olhava fixamente para o irmão, mas não esboçava nenhuma reacção.
Parecia desligado do próprio corpo.
Em sua mente reinava apenas uma imensa, incomensurável tristeza, como se tudo na vida houvesse perdido o sentido.
Vinícius segurou-o com as duas mãos, levantando-o da cama e começou a sacudi-lo.
- Até quando você pensa que vai continuar enganando as pessoas com os seus faniquitos, hein?
Até quando?
Vítor abaixou os olhos e começou a tremer ainda mais.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:56 am

Chegava a bater os dentes de tanto que tremia.
- Vinícius, pelo amor de Deus... - implorou Ivan.
Não faça is...
-Tá pensando que me comove com a sua tremedeira? - ele parecia tomado por alguma coisa muito ruim e sacudia o irmão cada vez mais forte.
"Eu vou morrer", era tudo o que passava na cabeça de Vítor.
"Se ele me bater, não vai fazer a menor diferença".
- Larga ele, cara! - de um ímpeto, Ivan pulou nas costas de Vinícius, que virou-se em um golpe de capoeira que o atirou ao chão.
Em seguida, pulou novamente sobre Ivan e começou a esmurrá-lo, descarregando nele toda a raiva que estava sentindo do irmão.
- Socorro! - gritou Jorjão desesperado.
- O que é que está acontecendo aqui?
Cenyra surgiu assustada na porta do quarto, seguida por Fabrício.
Ela era dessas pessoas cuja voz conserva a doçura mesmo quando se coloca mais grave, impondo respeito.
Vinícius soltou Ivan e levantou-se de um pulo.
Depois a encarou, soltando faíscas:
- Sempre o coitadinho da mamãe! Sempre!
- Vinícius, por que você está fazendo isso com o seu irmão?
Com os amigos do seu irmão? - ela se manteve firme.
- Coitadinho do Vítor! - ele respondeu com cara de nojo, saindo do quarto em seguida.
-Vinícius! Volte aqui! - ela ordenou, brava, ainda parada na entrada do quarto.
Mas a resposta foi um bater de porta do outro lado do corredor.
Cenyra fechou os olhos e respirou fundo, procurando se reequilibrar, depois caminhou até Vítor.
Desde que o irmão o soltara, ele se mantinha agachado no chão, abraçando fortemente as pernas com os dois braços.
A crise havia passado, mas ele continuava sentindo muito medo.
Cenyra agachou-se junto a ele e abraçou-o com toda a sua ternura de mãe.
- Pronto... passou....
Depois seu pai irá conversar com ele....
Vítor nada respondia, apenas chorava.
Um choro que parecia vir do fundo de sua alma atormentada.
Do outro lado do quarto, Jorjão e Fabrício ajudaram Ivan a levantar e os três, ainda sem conseguir entender direito o que acontecia, dirigiram-se à saída do quarto.
- Me desculpem por tudo... - disse Cenyra, de costas, sem largar Vítor.
Ela fazia força para não chorar também, mas as lágrimas teimavam em pular-lhe dos olhos, banhando-lhe o rosto sereno e bonito.
Eu jamais deveria ter saído...
- Tá tudo bem, tia - Ivan voltou e tocou-lhe nas costas com carinho.
Depois a gente conversa...
Agora cuida do Vítor que ele tá precisando... - ele beijou os cabelos de Cenyra antes de sair do quarto.
Horas mais tarde, quando Luís Paulo chegou da rua com as bombinhas de chocolate, encontrou Cenyra sentada na sala, pensativa, sob a luz fria de um abajur, apertando nas mãos um livro de mensagens psicografadas por Chico Xavier.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:57 am

As últimas palavras lidas durante o estudo evangélico que acabara de realizar ainda ecoavam em sua mente:
"Seja na vida particular ou portas a dentro de casa, no grupo de serviço a que te vinculas ou na grande esfera social em que se te decorre a existência, sempre que te vejas à beira do ressentimento ou revide, rebeldia ou desânimo, nunca te entregues a semelhantes agentes destrutivos.
Tenta a humildade.(16)
"Tens contigo uma chave bendita - a chave da humildade, cunhada no metal puro da paciência", sua cabeça repetia sem cessar, embora Cenyra ainda não conseguisse entender o que, efectivamente, significaria "tentar a humildade" para resolver os problemas que tanto a atormentavam.
Os meninos aparentemente dormiam, cada qual em seu quarto.
Vinícius não saíra de lá nem mesmo para tomar banho, Vítor apagara depois de muito chorar.
- Aposto que está zangada comigo porque me atrasei... - disse Luís Paulo, beijando-a levemente nos lábios em seguida.
Eu trouxe um presente....
- Obrigada, meu amor... - ela respondeu, ainda um pouco triste, tomando nas mãos o pacote de doces.
- Aconteceu de novo? - ele sentou ao lado dela e apertou sua mão.
- Sim, aconteceu... - ela continuava reflexiva.
Mas não é só isso que está me preocupando...
Neste momento, Vinícius surgiu na sala, de olhos inchados, com uma mala na mão e comunicou:
- Eu vou-me embora.

16 -Trecho da mensagem "A Chave Bendita", contida no livro Mais perto, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier.
São Bernardo do Campo, G.E.E.M., 1983.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:57 am

- VIII -
- Você só pode estar ficando maluca, Chuva!
Só pode ter titica de galinha na cabeça!
Só pode! - gritava Paloma, alterada, andando de um lado para o outro.
Ir passar o Natal na Ilha Grande com o Vinícius!
Era só o que me faltava!
Era uma mulher de trinta e dois anos, baixa, muito magra, de cabelos compridos e pretos.
Vegetariana radical tinha um jeito meio hippie de ser, o que podia ser percebido pelas roupas que costumava vestir, quase sempre vaporosas e em estilo indiano, como o vestido que agora usava.
E também pelas bijuterias, sempre muito cheias de cristais e de pedras trabalhadas.
Era técnica em enfermagem, mas nunca havia trabalhado exactamente com isto.
Tinha consultório próprio, dizia-se holo-terapeuta.
Dava consulta de florais, cromoterapia, jogava taro e fazia reiki.
O que tinha de alternativa, porém, tinha de stressada.
Sobretudo quando o assunto era a filha.
Chuva era o oposto da mãe.
Em todos os sentidos.
Alta, de longos cabelos louros e cacheados e corpo muito bem definido, tinha apenas dezasseis anos.
Gostava de shoppings, boutiques, ginástica de impacto e comida industrializada, especialmente hambúrgueres e batatas fritas.
Odiava granola, mel de laranjeira, chá de erva cidreira, máscaras de argila e toda aquela parafernália natureza com que a mãe a atormentava.
Seu sonho era ser economista e havia acabado de ser aprovada para a Universidade Federal do Rio de Janeiro.
- O que é que tem demais? - perguntou à mãe, olhando para o esmalte das unhas sem encará-la, enquanto segurava uma lixa com a outra mão.
- Tem que eu já comprei a sua passagem para Florianópolis!
Caríssima por sinal!
- E não dá para desistir? - ela continuava lixando as unhas com o mesmo ar de desprezo.
- É claro que não!
Já está tudo combinado, as pessoas estão nos esperando, o avião sai amanhã de manhã cedo! - ela fechou o zíper da bolsa de viagem de Chuva que estava sobre a cama.
- Mãe - ela finalmente levantou os olhos e encarou Paloma — é uma emergência, será que você entende isto? - ela fazia gestos o tempo todo, enquanto expressava-se, quase falava com as mãos.
O Vinícius me ligou desesperado, está indo embora de casa e eu não posso deixá-lo sozinho numa hora dessas! - caminhou até a cama e abriu novamente o zíper.
- O que você não pode é fazer a família inteira de palhaça! - Paloma fechou novamente o zíper.
Namorado, minha filha, você ainda vai ter muitos!
- Quer parar de fechar esta bolsa que eu ainda não terminei de arrumar? - protestou Chuva.
- Como não terminou se ontem à noite ela já estava pronta? - a mãe arrastou a bolsa até a porta do quarto.
Você vai para Florianópolis ou eu não me chamo Paloma!
- Me dá essa bolsa aqui, mãe!
Enquanto as duas discutiam no quarto, dona Noémia entrou na sala e ficou olhando intrigada para as três malas que já estavam enfileiradas ao lado da porta.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:57 am

- Quem será que vai viajar? - ela se perguntou alto.
Ninguém me falou nada...
Dona Noémia tinha sessenta e nove anos e, embora se mantivesse franzina e elegante, destoava bastante dessas senhoras modernas que conseguem se manter joviais mesmo após os oitenta.
Noémia era contra qualquer tipo de produto que lhe mascarasse os sinais do tempo.
Usava os cabelos grisalhos e semi-longos presos atrás da orelha por dois grampinhos; tratava-os apenas com sabão de coco e algumas gotas de violeta de genciana, que davam-lhe um aspecto levemente arroxeado.
Não era mulher de muitas vaidades.
Seus poucos vestidos haviam sido feitos por ela mesma, a maioria encontrava-se já rota pelo prolongado uso.
Há tempos deixara de costurar por causa da vista, bastante enfraquecida por uma catarata, mas inventara que tinha pavor de roupas compradas prontas, alegando serem todas "costuradas com cuspe".
Era brava e temperamental, sim, mas estava também cada dia mais esclerosada.
A filha mais velha, Lucila, que era pediatra, já a tinha levado a vários médicos, mas todos diziam que seu problema era apenas uma degeneração senil comum, causada pela morte de células cerebrais que ocorre naturalmente com o passar dos anos, mais cedo para uns e mais tarde para outros.
A grande questão é que ela vivia se lembrando de acontecimentos do passado, como a formatura de Lucila, que acontecera há quase vinte anos, ou o dia de seu casamento com o finado marido, há quase cinquenta, mas experimentava incrível dificuldade de fixar na memória os factos mais recentes.
- Esta mala aqui é de Lucila - ela abaixou-se para verificar de perto.
Será que é ela quem vai viajar?
Meu Deus... Mas para onde?
E essas outras malas aqui?
De quem serão? - dona Noémia não se conteve e abriu uma das malas ali mesmo.
Mas essas aqui são minhas roupas! - constatou estupefacta.
O meu despertador!
E foi tirando tudo de dentro da mala, fazendo uma grande bagunça na entrada do apartamento.
- Será que elas estão pretendendo me mandar para algum asilo? -perguntou-se sentida, já começando a vasculhar outra mala.
- Mamãe! - gritou Paloma, que vinha do quarto arrastando a bolsa de viagem da filha.
O que é que a senhora está fazendo?
- Eu é que pergunto! - questionou Noémia, com uma das mãos na cintura, segurando com a outra o despertador.
O que é que vocês estão aprontando desta vez?
- Mamãe, nós vamos viajar!
Não é possível que a senhora tenha esquecido!
- Nós vamos? - ela cocou a cabeça, preocupada, sem largar o despertador.
Para onde?
- Para Florianópolis, mãe!
Passar o Natal na casa da Florence, filha da sua irmã Aretusa, a senhora não se lembra?
-Ah, sim... - ela pareceu recordar-se vagamente, fixando em seguida os olhos nos ponteiros do relógio.
Mas escute, Paloma, a Aretusa não morreu?
- Ai, meu Deus... - Paloma abaixou-se e começou a catar as roupas da mãe espalhadas pelo chão.
Não sei onde a Lucila estava com a cabeça quando inventou esta viagem!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:57 am

- Ela não vai? - Noémia ainda tentava se situar no tempo e no espaço.
- Vai, mamãe! - Paloma sentou-se no chão para arrumar as roupas de novo dentro da mala.
Ela foi atender a uma emergência no hospital, daqui a pouco está de volta.
- Ah, sei...
- Amanhã cedo nós embarcamos - explicou Paloma.
- Nós vamos de navio? - perguntou Noémia, com ingenuidade.
- Não, mamãe!
Desse jeito quem vai acabar ficando maluca sou eu!
Chuvaaaaa! - Paloma gritou pela filha.
Ela veio lá de dentro com a cara mais mal-humorada do mundo.
Estava achando "um atraso de vida" aquela viagem com a família; ainda queria por toda lei ir para a Ilha Grande com o namorado.
Paloma chegara a sugerir que ela convidasse Vinícius para acompanhá-las, já que o caso era assim tão grave, mas Chuva nem cogitou a hipótese.
Não queria expor o rapaz à loucura que acreditava ser privilégio patenteado da sua família.
Assim, o único meio que restara a Paloma para convencê-la fora lançar mão de sua autoridade de mãe:
ou vai ou fica três meses sem mesada, argumento que imediatamente se impusera como indiscutível.
- O que foi agora? - a garota perguntou contrariada.
- Me ajude aqui com essa mala! - pediu Paloma, agoniada.
Não bastasse uma filha adolescente, agora eu tenho também uma mãe que é pior do que uma adolescente.
Ai, eu preciso urgentemente me reenergizar! - ela agarrou um cristal lilás que trazia pendurado ao pescoço e começou a cantar baixinho um mantra:
"Hare Krishna, hare Krishna, Krishna Krishna, hare hare..."
Chuva olhou para a avó, depois para a mãe naquela esdrúxula postura e não pôde evitar um balançar risonho de cabeça.
Abaixou-se no chão e começou a recolher algumas peças do chão.
Dona Noémia olhava tudo sem entender direito; a essas alturas já estava achando que fora a própria Paloma quem espalhara as roupas daquele jeito.
O pior é que ela acabara por misturar suas roupas com as de Lucila.
Em poucos minutos, porém, já parecia novamente desligada de tudo.
Caminhou alguns passos até a estante e pôs-se a verificar o pó nas prateleiras.
Tinha fixação em relógios, em limpeza e na ideia de roubo; sempre achando que alguém a pudesse ter roubado algo sem que ela houvesse percebido.
- Mas esta faxineira é muito relaxada! - resmungou, limpando um antigo porta-retratos com a própria manga comprida da camisa.
- Hare Rama, hare Rama, Rama Rama, hare hare ... - Paloma continuava concentrada, entoando seu mantra.
- Mãe, deixa eu te falar, me escuta ... - pediu Chuva, ajoelhando-se a seu lado e dobrando com cuidado um vestido da avó.
- Hare Rama, Rama Rama...
- Será que o Vinícius não podia pelo menos passar esta noite aqui? -perseverou a moça.
Por favor, só esta noite...
- Chuva, pense! - explodiu Paloma.
Como é que eu vou hospedar o seu namorado aqui em casa?
- O que é que tem demais, mãe? - ela ficou vincando o vestido com a ponta da unha.
Ele dorme na sala e...
- E o que é que eu vou dizer para a minha mãe? - ela simulou um diálogo imaginário.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:58 am

Mamãe, este bonitinho aqui é o namoradinho da Chuva, que mora aqui embaixo, no 302, a senhora está lembrada?
Pois é, ele brigou com a família e não tem onde dormir... - ela depositou uma porção de blusas dobradas dentro da mala que estava aberta diante de si.
Ela ia ter um troço!
- Homem nesta casa de jeito nenhum! - declarou Noémia, sempre alerta.
Quem é que está querendo dormir aqui?
- Está vendo? - confirmou Paloma, sem parar de dobrar roupas.
Não é que eu seja careta, filha, mas do momento em que moramos com outras pessoas, precisamos respeitar a maneira de pensar dessas outras pessoas, você me entende?
Chuva abaixou a cabeça, sem saber o que dizer.
No fundo, compreendia que a mãe não estava errada, mas ao mesmo tempo tinha muito medo de negar um favor ao namorado.
Era completamente apaixonada por Vinícius.
- Eu sabia que tinha homem nesta história! - deduziu Noémia em seu delírio particular.
Nem adianta arrumar de novo estas malas, Paloma.
Você não vai sair daqui com esse rapaz - ela agora parecia ter voltado ao tempo em que Paloma saiu de casa, com a mesma idade de Chuva, para ir morar com um companheiro de partido, que mais tarde viria a ser o pai de sua filha.
- Saint-Germain! - Paloma levou as mãos à testa olhando para o punhado de roupas que restara no chão.
É demais para mim, eu juro que não estou mais aguentando!
- Mãe, essa calçona aqui é da vovó ou da tia Lucila? - Chuva levantou uma enorme calcinha de algodão, morrendo de vontade de rir.
- Ai, meu Deus, pior é que eu não sei! - suspirou Paloma.
Só falta agora a Lucila chegar!
Nem bem ela acabou de falar, a chave girou na porta e Lucila entrou, exultante, carregando sua malinha de médica.
Era uma moça forte, tendendo para gordinha, toda vestida de branco.
Tinha feições bonitas que, no entanto, eram desfavorecidas por seus grandes óculos redondos de aros escuros que davam-lhe um ar envelhecido, fazendo-a aparentar bem mais do que seus trinta e sete anos de idade.
- Graças a Deus estou de férias!
Uma semana sem atender nenhuma criança doente, nenhuma mãe histérica, nenhu... - seu sorriso imediatamente se transformou numa careta de horror ao ver aquela bagunça.
Mas o que houve nesta sala? — ela arrancou a calcinha das mãos de Chuva.
Me dê isso aqui!
Com que direito vocês reviraram as minhas coisas?
- Calma, Lucila! - pediu Paloma.
Eu posso explicar tudo!
Enquanto as duas discutiam, acompanhadas pelo olhar cada vez mais confuso de Noémia, Chuva retirou-se sorrateiramente para seu quarto, carregando sua bolsa de viagem.
Lá chegando, abriu rapidamente o zíper e acrescentou uma lanterna, um repelente de mosquitos e mais alguns biquínis.
- Eu vou com o Vinícius! - disse alto para si, com ar decidido.
De qualquer jeito!
Fechou novamente a mala e sentou-se ao lado do telefone, à espera da ligação do namorado.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:58 am

- IX -
- Guarde essa mala, Vinícius - gritou Luís Paulo, levantando-se do sofá e postando-se diante do filho, de maneira a impedir-lhe a passagem.
- Luís Paulo, espere... - disse Cenyra, também levantando-se e tocando de leve em seu braço.
Se ele quer ir, deixe ele ir...
Luís Paulo olhou incrédulo para a esposa, mas ela parecia convicta do que estava dizendo.
No minuto em que vira o filho parado na porta com aquela mala na mão, sentira-se tomada por uma força descomunal, uma força quente e luminosa que ela não tinha a menor noção de onde provinha.
Era como se essa força lhe soprasse frases dentro de sua mente, palavras fortes que rapidamente lhe chegassem aos lábios, sem que ela pudesse resistir.
Fora então que lhe viera aquela ideia.
- Mas... - ainda tentou protestar o marido.
- Se você acha que isto é o melhor para você, meu filho - ela continuou com doçura -, eu não tenho o direito de impedir que lute pela sua felicidade... - ela fez uma pausa, levantou-se do sofá e caminhou até ficar em frente ao filho.
Só não queria que saísse assim, no meio da noite, sem nada no estômago... - ela esticou a mão para fazer-lhe um carinho, mas o rapaz, em acto reflexo, deu um passo para trás.
Cenyra entendeu que ele continuava na defensiva e abaixou o braço, dando também um pequeno passo para trás, em sinal de que não estava tentando ultrapassar seus limites.
- Sente-se - disse, indicando a mesa - vamos conversar, fazer um lanche, trocar ideias.
Se, depois de tudo, você ainda estiver disposto a sair, ninguém vai segurá-lo aqui contra a sua vontade, eu prometo isto a você.
Vinícius olhou para a mãe, desconfiado, mas não disse nada.
Ficou parado no mesmo lugar, confuso, sem saber direito o que fazer.
Não contava com aquela reacção da parte dela.
Cenyra também não ficou insistindo.
Calmamente, abriu o armário de louças que ficava atrás da mesa de jantar, coberta por fina toalha de renda, e dele tirou alguns pratos azuis de cerâmica e um pote de vidro repleto de rosquinhas de coco que comprara de tarde na padaria.
Em seguida, desembrulhou um pacote de cheirosos pãezinhos de leite e também o pacote de doces que acabara de ganhar do marido.
Só depois da mesa pronta, ela virou-se novamente para Vinícius e para Luís Paulo, que permaneciam olhando para ela surpresos:
- Só faltou pegar a manteiga e o refrigerante na cozinha.
Vocês não vêm?
O rapaz, que havia se preparado para travar longa e desgastante discussão com os pais, depois de horas ruminando uma porção de desaforos para cuspir-lhes no rosto, continuava sem saber o que dizer.
Luís Paulo, por sua vez, só conseguia pensar em acender um cigarro.
Só não o fez para não quebrar o clima mágico que parecia ter tomado conta da casa naqueles breves instantes.
Tirou o cigarro do maço e ficou girando-o entre os dedos.
"O que, afinal, estaria acontecendo?", não conseguia deixar de se perguntar.
"Por que Vinícius queria ir embora, por que Cenyra estava evitando discutir com ele?
Haveria alguma ligação com o problema de Vítor?", tentava juntar as peças em sua cabeça.
Nenhum deles podia ver, mas a casa estava cheia de gente.
Ao realizar seu estudo do Evangelho no lar, Cenyra atraíra para o local verdadeira plêiade de espíritos iluminados, que agora se cotizavam na tentativa de reconstruir o equilíbrio energético daquele ambiente.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:58 am

Tais entidades haviam sido mobilizadas sobretudo pela sinceridade e pela humildade com que a dona da casa fizera sua prece no encerramento do culto, quando, de imediato, já lhe fora sugerido que abrisse o livro de mensagens que tinha nas mãos no momento em que o marido entrou em casa.
Cenyra era uma alma boníssima.
Vivia empenhada em auxiliar o próximo, dentro e fora de seu ambiente doméstico.
Era natural, portanto, que seu momento de dificuldade também não passasse despercebido aos guias e mentores da espiritualidade maior que a acompanhavam em seu discreto dia-a-dia.
Ao todo, encontravam-se na sala sete personalidades espirituais de magnânima bondade, quatro homens e três mulheres.
Em grupos de dois, eles envolviam cada um dos encarnados presentes, enviando-lhes fluidos de paz, amor e harmonia.
Apenas um desses espíritos se mantinha afastado dos demais, tendo se posicionado em uma das cabeceiras da mesa, onde permanecia com os olhos fechados e muito concentrado.
- Vocês não vão se sentar? - insistiu Cenyra, voltando da cozinha com a manteigueira e a garrafa de refrigerante gelado.
- Está bem - concordou Vinícius, puxando a cadeira, no que foi logo imitado pelo pai.
"Estou ficando louco", pensava o rapaz olhando para as mãos da mãe passando manteiga num pão, enquanto as mãos do pai rodavam nervosamente o cigarro na mesa.
"Só posso estar ficando louco...
Há duas horas atrás eu estava com ódio da minha mãe e agora estou aqui, que nem uma ovelhinha mansa de presépio, esperando que ela me prepare um pãozinho...
Porque será que não consigo discutir com ela, botar para fora o monte de coisas que está engasgado na minha garganta?
Ela tem umas mãos tão bonitas..."
Ao mesmo tempo em que Vinícius estranhava a própria passividade, o casal de espíritos que impunha as mãos sobre ele enviava-lhe, de mente para mente, imagens pacificadoras como a lembrança da mãe desembaraçando-lhe carinhosamente os cabelos cacheados, quando ainda menino, a cena de Cenyra montando com os filhos, pela primeira vez, a árvore de Natal que ainda hoje ornamentava a sala.
Tocado por esta lembrança, Vinícius recordou o quanto ele e o irmão eram unidos naquela época, o quanto no fundo sentia falta daquela amizade, que não sabia dizer exactamente quando e nem por que havia se rompido.
Recebeu das mãos da mãe o pão e abaixou a cabeça entristecido.
Sentia vontade de chorar.
Era como se só agora houvesse caído em si depois de todo o escândalo da tarde; estava quase arrependido de ter perdido a cabeça daquele jeito.
Será que seu desequilíbrio tivera alguma coisa a ver com as cervejas que tomara com os amigos no Aterro do Flamengo, logo depois do treino de capoeira?
Não, assegurou rapidamente a si próprio, ele quase não bebera, apenas duas garrafas de cerveja, nada que deixasse uma pessoa assim alterada... - ele imaginava.
A questão era que a bebida, ao invés de fazê-lo sentir-se aliviado, parecia ter aumentado a imensa indignação que o vinha consumindo nos últimos tempos.
"Talvez nem Vítor, nem a mãe e muito menos o pai, a quem tanto idolatrava, merecessem sua revolta", chegou a pensar por alguns instantes.
Mas, ao mesmo tempo, estava tão saturado das crises do irmão que não conseguia mais cultivar bons sentimentos.
Há quase três meses tudo naquela casa girava em torno de Vítor.
Dos medos de Vítor, daquela sua irritante certeza de que 'a coisa' iria voltar a despeito de todos os pareceres e receitas médicas.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:58 am

A coisa' havia praticamente se transformado numa pessoa concreta, uma assombração que só Vítor pressentia, mas que vivia infernizando a vida de todo mundo.
Lágrimas escorreram dos olhos de Vinícius, molhando o pão que descansava sobre o prato.
- Será que alguém poderia me explicar o que é que está acontecendo nesta casa? - pediu Luís Paulo, angustiado com aquele silêncio.
Primeiro, Cenyra me diz que está preocupada demais com alguma coisa, mas que não é nada referente a Vítor.
Depois, Vinícius aparece com a mala na mão...
Vocês brigaram?
- Sim - respondeu Vinícius.
- Não - respondeu Cenyra, ao mesmo tempo.
- Brigaram ou não brigaram? - insistiu o pai.
Cenyra tomou longo gole de refrigerante antes de responder.
"É agora", pensava preocupada.
Estava com tanto medo de não conseguir convencer o filho a não ir embora de casa, não podia, de maneira nenhuma, perder aquela oportunidade que conseguira criar por inspiração divina.
"Tenta a humildade", sentia os mentores soprarem-lhe à mente, sem qualquer consciência disso.
- Na verdade o erro todo foi meu... - declarou.
-Você não pode se culpar pelas crises do Vítor! - protestou Vinícius.
- Deixe sua mãe falar - pediu Luís Paulo, batendo o cigarro na mesa, como que preparando-se para acendê-lo.
Erro em que sentido, Cenyra?
Ela então explicou todo o ocorrido, sua vontade de fazer uma surpresa para o filho mais novo, achando que estivesse finalmente restabelecido, a ideia de chamar seus amigos para uma visita, a descida rápida até a padaria que acabou durando mais do que ela imaginava.
Na medida em que ela falava, Vinícius ia esmigalhando seu pão com a pontinha dos dedos.
Não conseguia acreditar que o irmão não tivesse controle sobre aquelas crises; sentia que Vítor usava Cenyra para atingir seus objectivos de chamar a atenção e isso o irritava sobremaneira.
- Mas você atacou o garoto, Vinícius? - reagiu Luís Paulo ao ter ciência da cena que a esposa presenciara ao entrar em casa.
- Ele ficou nervoso - defendeu Cenyra -, perdeu a cabeça.
Por isso é que digo, se eu não tivesse inventado de ir na padaria, nada disso teria...
- Mas ele não podia ter sacudido o irmão daquela maneira!
E muito menos ter atacado o Ivan, que não tinha nada com isso! - exaltou-se o marido, tomando finalmente o isqueiro que há tempos afagava a seu lado e acendendo o cigarro.
Quem você pensa que é, Vinícius? - disse, numa baforada nervosa.
O Jean-Claude van Damme?
- Eu não penso nada! - explodiu Vinícius, dando um murro na mesa.
E, se penso, também não importa.
Ninguém está preocupado em saber o que eu penso!
É por isto que eu estou saindo fora desta casa!
Pesado silêncio abateu-se sobre todos, fazendo com que parecessem horas os poucos minutos que tiquetaqueavam no antigo relógio da parede.
- Vinícius tem toda razão! - interferiu Cenyra.
Com este problema do Vítor, mal temos tido tempo de conversar; há meses temos vivido só em função do outro...
- Você tem vivido - corrigiu Luís Paulo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:58 am

- Filho, por favor, me perdoe se eu não tenho sido uma boa mãe para você, se eu gritei demais com você hoje de tarde...
Eu entendo as razões que o levaram a agir daquela maneira - continuou Cenyra, indiferente à provocação do marido.
Apoiado na mesa com as duas mãos fechadas, Vinícius olhou fundo nos olhos da mãe, depois abaixou a cabeça e não conseguiu controlar mais o choro.
Não existe remorso maior do que aquele que vem quando a pessoa sabe que está errada e alguém a defende como se estivesse certa.
Bem de mansinho, Cenyra caminhou até ele e o abraçou com ternura, da mesma forma como fizera com Vítor horas atrás, enquanto Luís Paulo quase devorava o cigarro em sua angústia de não saber o que dizer.
Após o último trago, apertou contra o cinzeiro o filtro que restara e aproximou-se também do filho.
Inicialmente tocou em suas costas apenas com a ponta dos dedos, acabando por abraçá-lo com toda a sua força.
Os três ficaram ali, chorando abraçados por algum tempo, envoltos em verdadeira onda de fluidos magnéticos que lhes era lançada pelos espíritos de luz ali presentes.
Até que Cenyra se afastou, limpando os olhos e disse:
- Acho que só existe um meio de resolvermos o problema de Vítor.
- Qual? - perguntou Luís Paulo, também recompondo-se.
Temos de nos unir, actuar juntos para tentar descobrir o que é que o está levando a ter essas crises.
- Mas ele não estava tomando remédios? - lembrou o marido.
- Hoje à tarde, depois que ele dormiu, descobri que há dias ele deixou de usar os comprimidos.
- Estão vendo?
Ele não quer ficar bom! - protestou Vinícius.
Para dizer a verdade, tenho sérias dúvidas se...
- Ele tem realmente um problema, filho - assegurou Cenyra.
Acho que o primeiro passo para ajudá-lo é acreditarmos no que ele nos diz.
- Mas então por que ele parou de tomar o remédio?
Não posso entender! - desabafou Luís Paulo.
Cenyra começou a juntar a louça da mesa, tentando encontrar uma resposta para aquela questão que ela própria também não podia ainda compreender.
- Não sei... - disse por fim.
O que sei é que Vítor está precisando muito da ajuda de todos nós.
Ele não é mais o mesmo, nem estudar está conseguindo mais... - ela depôs novamente sobre a mesa os pratos que acabara de empilhar.
- E não será esta a razão de todas as suas crises?
Vai ver criou tudo isso só para vocês não pegarem no pé dele por não ter passado de ano! - aventou Vinícius.
- Não, isto não - considerou Luís Paulo, sentando-se novamente à mesa e acendendo outro cigarro.
Ele sempre adorou os estudos, sempre teve prazer em ser o primeiro da classe...
Tenho certeza de que jamais deixaria uma prova inteira em branco, como aconteceu nas últimas vezes em que esteve na escola, se não estivesse realmente com algum problema - ele soltou uma baforada.
- Mas então o que é que vocês sugerem?
Que todos nós continuemos a nos submeter aos caprichos do Vítor? - impacientou-se Vinícius.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:59 am

- Filho, por favor, me perdoe se eu não tenho sido uma boa mãe para você, se eu gritei demais com você hoje de tarde...
Eu entendo as razões que o levaram a agir daquela maneira - continuou Cenyra, indiferente à provocação do marido.
Apoiado na mesa com as duas mãos fechadas, Vinícius olhou fundo nos olhos da mãe, depois abaixou a cabeça e não conseguiu controlar mais o choro.
Não existe remorso maior do que aquele que vem quando a pessoa sabe que está errada e alguém a defende como se estivesse certa.
Bem de mansinho, Cenyra caminhou até ele e o abraçou com ternura, da mesma forma como fizera com Vítor horas atrás, enquanto Luís Paulo quase devorava o cigarro em sua angústia de não saber o que dizer.
Após o último trago, apertou contra o cinzeiro o filtro que restara e aproximou-se também do filho.
Inicialmente tocou em suas costas apenas com a ponta dos dedos, acabando por abraçá-lo com toda a sua força.
Os três ficaram ali, chorando abraçados por algum tempo, envoltos em verdadeira onda de fluidos magnéticos que lhes era lançada pelos espíritos de luz ali presentes.
Até que Cenyra se afastou, limpando os olhos e disse:
- Acho que só existe um meio de resolvermos o problema de Vítor.
- Qual? - perguntou Luís Paulo, também recompondo-se.
Temos de nos unir, actuar juntos para tentar descobrir o que é que o está levando a ter essas crises.
- Mas ele não estava tomando remédios? - lembrou o marido.
- Hoje à tarde, depois que ele dormiu, descobri que há dias ele deixou de usar os comprimidos.
- Estão vendo?
Ele não quer ficar bom! - protestou Vinícius.
Para dizer a verdade, tenho sérias dúvidas se...
- Ele tem realmente um problema, filho - assegurou Cenyra.
Acho que o primeiro passo para ajudá-lo é acreditarmos no que ele nos diz.
- Mas então por que ele parou de tomar o remédio?
Não posso entender! - desabafou Luís Paulo.
Cenyra começou a juntar a louça da mesa, tentando encontrar uma resposta para aquela questão que ela própria também não podia ainda compreender.
- Não sei... - disse por fim.
O que sei é que Vítor está precisando muito da ajuda de todos nós.
Ele não é mais o mesmo, nem estudar está conseguindo mais... - ela depôs novamente sobre a mesa os pratos que acabara de empilhar.
- E não será esta a razão de todas as suas crises?
Vai ver criou tudo isso só para vocês não pegarem no pé dele por não ter passado de ano! - aventou Vinícius.
- Não, isto não - considerou Luís Paulo, sentando-se novamente à mesa e acendendo outro cigarro.
Ele sempre adorou os estudos, sempre teve prazer em ser o primeiro da classe...
Tenho certeza de que jamais deixaria uma prova inteira em branco, como aconteceu nas últimas vezes em que esteve na escola, se não estivesse realmente com algum problema - ele soltou uma baforada.
- Mas então o que é que vocês sugerem?
Que todos nós continuemos a nos submeter aos caprichos do Vítor? - impacientou-se Vinícius.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:59 am

"Por que não?", perguntou-se, sem sequer se lembrar que horas antes havia convocado Chuva para passar o Natal e o Ano Novo na Ilha Grande, e que ela, a essas alturas, esperava apenas seu telefonema para mandar para o espaço toda a sua antiga programação de fim de ano.
Vinícius gostava de Chuva, a seu jeito, mas não era tão apaixonado por ela quanto ela por ele.
- Eu vou pensar, está bem?
Amanhã te dou uma resposta.
Agora eu vou deitar que eu estou exausto - disse, beijando a testa da mãe e repetindo o gesto na bochecha do pai.
Boa-noite para vocês!
Cenyra curvou os lábios num discreto sorriso, enquanto ele se encaminhava para o quarto, sem sequer se dar ao trabalho de retirar a mala da sala.
- Você não existe! - Luís Paulo, sentado na cadeira, puxou-lhe o braço e beijou-lhe a mão demoradamente.
-Agora, nós precisamos é pensar no nosso Natal! - ela abaixou-se, encostando sua cabeça na do marido e enlaçou seus ombros num abraço.
- Meu Deus... - ele respirou fundo, preocupado.
- O que foi meu amor?
- Lembrei-me agora do caso da moça de Florianópolis...
Coitada! Sei á que já recebeu a notícia?
- Que moça de Florianópolis? - estranhou Cenyra.
- Vamos deitar que lá no quarto eu te conto.
- Mas e esta louça?
Não posso deixar tudo as...
- Amanhã eu te ajudo - prometeu Luís Paulo, já puxando-a pela cintura.
Os dois seguiram abraçados para o quarto, sem imaginar que do canto mais escuro da sala estranhos olhos os observavam assustados.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 26, 2016 10:59 am

- X -
Florence não podia dormir.
Por diversas vezes tentara deitar-se, mas não havia meios de fechar os olhos.
Era como se houvesse pedras entre suas pálpebras.
Virava-se para um lado, para outro, mas não conseguia encontrar uma posição.
O corpo negava-se a relaxar.
"Que coisa engraçada", matutava consigo.
"Durante tantos anos condenara a mãe por seu jeito contido e naquela noite, pela primeira vez em sua vida, sem querer, agira da mesma forma.
Era quase como se trouxesse um pedaço dela entranhado no próprio cérebro...”.
Com efeito, não derramara uma única lágrima sequer diante de Aline e Rafael.
Mostrara-se forte, controlada, inabalável, monossilábica.
Não queria que suas palavras gritassem sua dor.
Todavia, fizera tanto, mas tanto esforço para manter-se equilibrada na frente dos dois, que acabara por ficar entalada com os próprios sentimentos.
Era quase como se tivesse engolido uma galinha viva, que agora bicasse-lhe a goela querendo sair.
O choque fora muito grande.
Tão grande que, mesmo depois de fechar-se em seu quarto, ela não se permitia chorar.
Tinha medo de afogar-se nas próprias lágrimas.
Lembrou-se então de uma cena do filme de que tanto gostava, onde uma personagem explicava na cozinha que "o ruim de chorar quando se pica uma cebola não é o facto de chorar", e sim que, às vezes, não se consegue parar".
Era exactamente assim que ela se sentia.
Por que seu pai agira daquela forma?
Por quê? Não conseguia parar de perguntar-se.
Teria mesmo ele dito tudo aquilo?
Ou será que todo aquele pessoal do programa não havia usado simplesmente sua história para preencher um espaço?
Teriam de facto se empenhado em ajudá-la?
Ou queriam apenas o ibope de seu apelo sentimentalista?
Será que as emissoras de televisão eram tão perversas como diziam certos telespectadores?
Será que agiam mesmo assim com as pessoas?
Pensava em tantas coisas ao mesmo tempo em que os raciocínios acabavam por se misturar dentro de sua cabeça, e ela só conseguia ficar cada vez mais confusa, sem chegar a nenhuma conclusão.
Nem mesmo sobre o que fazer naquele momento.
Tinha a sensação de que alguém dera um nó nos neurónios de seu cérebro, bloqueando a livre circulação de suas ideias.
Depois de caminhar até a cozinha pela décima vez e abrir vagamente a geladeira, em busca de algo que não sabia o que era e nem tampouco conseguia encontrar entre as prateleiras repletas de iguarias deliciosas, decidiu sair para caminhar um pouco.
"As crianças estão dormindo", pensou, "não vão perceber.
Nem vou demorar muito.
Apenas urna voltinha para espairecer."
Vestiu o velho jeans e a camiseta de malha amarela com gola alta que descansavam no cabide atrás da porta de seu quarto.
Depois, prendeu os cabelos com seu palito de sempre e tingiu rapidamente os lábios com uma leve camada de batom.
Não queria sair na rua parecendo uma assombração.
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