O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:43 am

A culpa ultrapassa os limites da normalidade e torna-se uma doença quando as lembranças do que se fez, ou ainda, do que se poderia ter feito ficam remoendo incessantemente os pensamentos, numa espécie de tortura mental...
- E é normal a pessoa ouvir vozes dizendo que ela é culpada? - ele perguntou, voltando ao ponto inicial da conversa .
- Você ainda não terminou de me contar como foi que as vozes começaram.
Não aconteceu mais nada depois que você voltou para casa? - ela insistiu, sentindo que a história que ele lhe narrara ainda estava incompleta.
- Agora que eu quero ver! - Oto redobrou sua atenção.
- Aconteceu - disse Vítor.
De olhos baixos, ele contou a ela todo o seu desespero ao ver o irmão em casa com a garota que ele havia deixado bêbada no escritório.
Sem que pudesse se dar conta disso, à medida em que ia relatando os factos, seu tom de voz ia se alterando, de maneira a transmitir todo o seu ódio.
Com riqueza de detalhes, ele então narrou tudo o que acontecera no quarto entre Vinícius e Aline até o momento em que a porta bateu e Aline ficou chorando no escuro.
- Espera aí...
Se você não estava no quarto, como pode saber de todos esses detalhes? - questionou a terapeuta, desconfiada de seu relato.
Ao ouvi-lo narrando os factos, ficara com a sensação de que fora ele próprio e não o irmão quem violentara a menina, mas sabia que não podia dizer isso a ele de maneira directa.
- Eu... eu... - Vítor ficou confuso ao se ver pego de surpresa.
Eu ouvi atrás da porta, acho que foi isso! - disse por fim.
- Hipócrita! - protestou Oto.
Então essa mulher não vê que ele está mentindo?
- Como assim, eu acho que foi isso? - questionou Olívia.
- Na verdade, você pode até não acreditar, mas me deu um branco na hora em que eu acordei no domingo.
Eu sei que aconteceu tudo isso, mas não sei te dizer como eu sei, onde é que eu estava quando as coisas ocorreram...
A sensação que tenho é que vi tudo do alto, como se fosse um espírito pairando no quarto na hora em que tudo aconteceu...
- Não é impossível, mas é bastante estranho... - conjecturou Olívia.
E em nenhum momento você pensou em abrir a porta, gritar, sei lá, fazer qualquer coisa que impedisse o seu irmão de continuar a fazer o que estava fazendo?
- Não... Na hora eu apenas sentia muita raiva dos dois... - explicou Vítor. Olívia ficou alguns instantes batucando com o indicador nos lábios, parecia esforçar-se para concatenar os próprios pensamentos.
Percebia que faltava um pedaço naquele quebra-cabeças, mas não tinha como confrontar Vítor de uma maneira mais explícita.
"Teria mesmo sido ele?
Por que estaria mentindo?
Teria fabricado aquela mentira para encobrir sua enorme culpa?
Será que o nível dessa culpa era tão grande a ponto de fazê-lo esquecer-se dos próprios actos?", as perguntas sucediam-se cada vez mais complexas em seu raciocínio.
- Não acredite nele!
É um hipócrita safado!
Expulse-o de seu consultório! - insistia Oto, a essas alturas postado a seu lado.
Olívia, contudo, não lhe oferecia a menor sintonia e, portanto, nada escutava.
- Imagino que deve ter sido horrível tudo isso o que você passou... - ela retomou sua estratégia.
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:43 am

Só não entendi até agora por que se sentiu tão culpado em relação ao acidente do seu irmão...
Afinal, você tinha todos os motivos para odiá-lo, ele seduziu a garota que você queria conquistar!
- E eu o odiei por isso! - Vítor confessou, fechando os punhos de raiva.
- Odiei tanto que desejei que ele morresse!
Com todas as minhas forças, naquele dia eu desejei que ele morresse!!! - disse, numa explosão de todos os sentimentos que até então esforçara-se por conter.
Nesse ponto, foi Oto quem não conseguiu mais se conter.
Fortalecido pelos pensamentos de ódio e revolta de Vítor, como se esses tivessem o mágico poder de alimentá-lo, ele pulou novamente sobre seus ombros, gritando a toda voz:
- Hipócrita! Dissimulado!
Você não mudou nada!
Você continua o mesmo e eu vou acabar com você!
Imediatamente, Vítor levou as duas mãos aos ouvidos, curvando-se sobre si mesmo na desesperada tentativa de não mais escutá-lo.
- Ele começou de novo!
Pelo amor de Deus, faça-o parar! - implorou desesperado a Olívia.
A terapeuta meditou por alguns instantes, enquanto Vítor se contorcia cada vez mais, torturado pela voz que só ele podia ouvir.
A terapeuta chegou à conclusão de que não tinha outra alternativa senão colocá-lo em contacto com a presença que o obsediava.
Do contrário, ele jamais admitiria para si próprio sua verdadeira participação em todo aquele evento que acabara de narrar-lhe.
Era preciso que Vítor assumisse a responsabilidade por seus próprios actos.
- Feche os olhos - ela pediu, acomodando-o melhor na comprida poltrona onde estava sentado.
- Mas ele não pára de falar na minha cabeça! - Vítor ainda tentou resistir.
- Não tem problema - Olívia disse calmamente.
Escute o que ele está dizendo, entre em contacto com ele ...
Instantes depois, Vítor expressou uma fisionomia de terror:
- Sinto que há alguém a meu lado... - avisou assustado.
- Procure estar com ele, escutar o que está dizendo sem experimentar qualquer tipo de medo - insistiu a terapeuta.
Observe o que as palavras dele despertam dentro de você, que tipo de sentimento elas fazem aflorar em você...
Não tenha medo, apenas escute...
- Está tudo muito escuro... - informou Vítor.
- Você pode vê-lo?
- Não, eu não vejo nada, está tudo muito escuro aqui... - ele repetiu.
Você pode perceber essa situação com seus outros sentidos...
O escuro não faz a menor diferença... - sugestionou Olívia.
- Eu não o estou vendo, mas sinto como se ele estivesse bem aqui a meu lado...
Espere... Agora eu o vejo...
Tem razão, consigo enxergar no escuro tão nitidamente como se estivesse no sol e aiiiii! - ele gritou assustado.
- O que houve? - perguntou a terapeuta.
- Ele é horrível...
Parece todo deformado...
Sua figura me dá medo!
- Então escoe o medo de dentro de você... - prosseguiu Olívia, com sua voz pausada e clara.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:43 am

Ele não pode fazer nada contra você neste momento...
Apenas escute o que ele tem a dizer, tente interagir com ele de alguma maneira...
Perceba o que ele sente por você...
O que é que ele está dizendo?
- O mesmo de sempre... Ele me xinga...
Parece tomado de ódio...
Ei, não! - ele disse limpando o rosto com uma fisionomia de nojo.
- O que aconteceu agora? - perguntou a terapeuta.
- Ele cuspiu no meu rosto!
- Então peça a ele para que fale o que aconteceu para ele ter tanto ódio, por que guarda esse sentimento há tanto tempo...
Vítor ficou mexendo nervosamente a cabeça de um lado para o outro por alguns instantes, atormentado.
Era como se sonhasse e no sonho discutisse com alguém.
Até que finalmente informou:
- Ele está falando em outra língua, não consigo entender mais nada do que diz...
- Pois então procure em sua mente o código necessário para ajudá-lo a decifrar essa outra língua...
Seu inconsciente possui a chave de todos os idiomas que um dia já utilizou em suas outras vidas...
Eles estão lá, guardados em sua memória extra cerebral...
Procure aquele que precisa neste momento.
Se ele está falando com você nesse idioma, é porque certamente você pode entendê-lo...
Provavelmente era o idioma que vocês utilizavam na época em que conviveram...
- Ele está falando em alemão - Vítor decodificou, após alguns minutos de silêncio.
- Você consegue entender o que ele está dizendo? - a terapeuta insistiu.
- Sim. Ele continua a me xingar do mesmo jeito, só que agora em alemão...
Espere... Ele agora está falando em uma tal de Geheim...
Ele me mostra uma porta, a mesma porta que vi no sonho que tive com a minha avó...
Ela tem desenhos estranhos que só agora entendo...
É uma enorme suástica...
- Entre com ele! - determinou Olívia.
Provavelmente, lá dentro você vai encontrar a história do passado que viveu ao lado dessa 'presença'.
Não tenha medo...
É importante saber o que aconteceu entre vocês no passado para a sua melhora de hoje...
Vítor então se viu em um campo de concentração, durante a segunda guerra mundial.
Era um médico com estreitas relações com a Gestapo, a polícia secreta alemã.
- E em quê exactamente consiste esse seu trabalho? - perguntou Olívia, enquanto anotava rapidamente num bloquinho todas as suas últimas descrições.
- Faço experiências com mulheres judias grávidas e seus embriões.
Meu objectivo é descobrir o limite da dor, trabalho em nome da ciência.
- E o que você sente quando faz esse seu trabalho em nome da ciência? - quis saber a terapeuta.
- Muito orgulho - Vítor respondeu de pronto.
Estou satisfeito porque estou sendo útil a meu país e a mim mesmo.
- E a 'presença'?
Onde ela está neste momento? - quis saber a terapeuta.
- Ele perdeu o aspecto deformado, agora é um homem como outro qualquer...
Um alemão... Seu nome é ... Oto!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:44 am

Estamos agora discutindo na porta da sala onde trabalho.
Ele diz que é meu irmão...
Sim, ele é meu irmão.
- E sobre o que vocês discutem? - ela o incentivou a continuar sua investigação.
- Ele diz que eu mandei aprisionar a mulher dele...
Seu nome é Odilie.
É uma judia e está grávida de um filho dele.
Ou melhor, ele pensa que ela está grávida de um filho dele.
- Ele pensa? - estranhou Olívia.
- O filho que ela espera é meu - esclareceu Vítor.
Mas ninguém sabe disso, nem nunca vai saber - ele afirmou convicto.
- Mas por que ela está grávida de um filho seu, se ela é casada com ele? - tentou entender Olívia.
- Eu a possuí à força, quando ele estava viajando.
- E o que levou você a fazer isto? - ela perguntou, mantendo sua postura de neutralidade.
- Tenho muita raiva por ela o ter escolhido e não a mim.
Nós dois nos interessamos por ela, quando ainda éramos solteiros, mas ela quis casar-se com ele.
- E por causa disso você a aprisionou?
- Isso eu não sei - ele respondeu.
- Localize então de novo o homem, o seu irmão que discute com você.
O que acontece?
- Ele continua discutindo comigo na porta da sala...
Insiste em dizer que eu aprisionei a mulher dele, exige, em nome de nosso parentesco de sangue, que eu a solte...
Mas digo a ele que não, que ela não está na sala junto com as outras, embora ela esteja...
- E por que você faz isso? - quis saber Olívia.
- Porque é judia e não quero que o sangue judeu se espalhe na nossa família...
Além disso, ela me chantageou...
- Como foi isso?
- Ao descobrir que estava grávida, ela me procurou, desesperada, e eu então mandei que a aprisionassem, para que ele jamais viesse a saber da verdade...
Tenho muitos contactos na Gestapo e me sinto orgulhoso por poder resolver meus problemas desta maneira...
- Você também é casado?
- Sim, sou. Muito bem casado, por sinal.
Minha mulher é filha de um dos generais do Reich... Eu a amo.
Por isso, tenho de tomar cuidado redobrado para que ninguém descubra nada.
- Caminhe agora um pouco no tempo - pediu Olívia.
Você levou a termo as experiências com a mulher de seu irmão?
- Não! - ele deu um grito desesperado.
- O que aconteceu? - perguntou Olívia.
- Matei minha mulher!
Eu não sabia, ela estava coberta... - ele disse, chorando muito.
- Como assim? - insistiu a terapeuta.
- Eles fizeram uma armação...
Oto entrou em minha sala no meio da noite, vestido como se fosse eu...
Somos muito parecidos, ninguém desconfiou de nada...
Minha mulher veio com ele, disposta a ajudá-lo...
Ele a dopou e trocou as duas de lugar...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:44 am

Embora não estivesse lá no momento, eu posso agora ver a cena...
Odilie está muito fraca, nesta mesma manhã havia perdido o bebé na mesa de torturas...
Ainda assim ele consegue vesti-la com as roupas de minha esposa e os dois deixam o campo de concentração como se fossem eu e minha mulher...
- E como você matou sua esposa? - Olívia ainda não conseguira compreender.
- No dia seguinte entrei na sala para terminar meu trabalho.
Ela estava com o rosto coberto, eu não gostava de olhar para a fisionomia delas enquanto as torturava...
Estranhei que estivesse dopada, mas era comum os enfermeiros da noite doparem as judias, para que não gritassem de dor a madrugada inteira...
Elas todas tomavam grande quantidade de medicamentos abortivos durante o dia; costumavam expelir os fetos de madrugada...
Abri então seu corpo para examinar lhe o útero, fiquei surpreso ao perceber que não havia o menor sinal de uma gravidez interrompida.
Só então verifiquei seu rosto e descobri que havia matado minha esposa...
Mas já era tarde demais - ele voltou a chorar desesperado.
- Procure se acalmar... - pediu Olívia.
Tudo isso ficou no passado, você já superou essa dor...
Caminhe agora um pouco mais no tempo.
O que é feito da sua vida a partir desse facto?
- Continuo meu trabalho - respondeu Vítor.
A causa alemã é mais importante do que minha própria família.
- E o que aconteceu a seu irmão?
Você voltou a vê-lo?
- Não, mandei matá-lo.
Ele e a mulher foram fuzilados, depois pisoteados por uma multidão de judeus famintos.
- E o que você sente quando manda matá-los?
Vítor pensou por alguns instantes antes de responder:
- Não me importo com eles ou com o que possa ter acontecido a eles...
Apenas estavam em meu caminho e os eliminei...
Eu tenho o controle sobre todas as situações...
É muito bom poder resolver as coisas do meu modo, sem precisar dar satisfações a ninguém...
Minha mãe faz muitas perguntas, ela desconfia de mim...
Mas finjo não saber de nada...
A tristeza dela não me abala...
Até porque acabo de ser homenageado pelo Führer...
Fiz importantes descobertas a respeito da hereditariedade dos genes...
Sou realmente uma figura notável no Reich... Todos me admiram...
A ciência não seria a mesma sem a minha participação...
- Então caminhe agora um pouco mais no tempo.
Você pode se ver após essa existência?
- Está tudo muito escuro... Pessoas me perseguem...
Sou um desgraçado! Eu sofro!...
Debato-me e vivo arrastando-me, como o estropiado que rasteja ao longo do caminho...
Alguém me fala de Deus, mas não consigo conceber que acima de toda esta miséria reine o Deus-Pai para o qual tudo se encaminha...
Quero pensar n'Ele, quero implorar-lhe misericórdia, mas não consigo...
- O que parece acontecer aí de importante que você precise saber agora? - procurou detectar Olívia.
- O medo que sinto o tempo todo, o desespero da situação, a sensação de perseguição e de estar completamente desprotegido...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:44 am

É o mesmo que sinto no momento das crises.
É como se estivesse tudo entrelaçado... - respondeu Vítor, hesitante.
- Muito bem, você parece ter encontrado a origem de alguns de seus sintomas atuais - analisou a terapeuta.
E quanto tempo você fica aí, nessa situação?
Muito ou pouco tempo?
- Um dia, um ano, um século... Que sei eu?
Se as horas não dividem mais o tempo, as estações não variam...
Eterno e lento como a água que o rochedo destila, este dia execrado, maldito, pesa sobre mim como avalanche de chumbo...
Minha desgraça só aumenta à medida em que percebo a eternidade.
Ó miséria! Malditas sejam todas as horas de egoísmo e inércia, nas quais, esquecido de toda a caridade, de todo o afecto, eu só pensava no meu bem-estar, na minha vaidade!
Malditos interesses humanos, preocupações materiais que me cegaram e me perderam!
Sinto agora apenas o remorso do tempo perdido...
Olívia sorriu, satisfeita.
Percebia que Vítor havia chegado ao momento de sua consciência de culpa, o que era óptimo para seu tratamento.
Se todos os seus pacientes naquela mesma situação percebessem esse momento com aquela mesma clareza, decerto todos conseguiriam melhorar bem mais rapidamente.
- Volte então ao momento actual e perceba a 'presença' aqui e agora.
Como ele está? - ela prosseguiu em sua técnica.
- Continua com muito ódio depois de rever toda a minha actuação neste episódio...
Não diz coisa com coisa, apenas me xinga...
Sim, ele sente muito ódio de mim...
- E o que você acha que poderia dizer a ele neste momento?
Vítor permaneceu em silêncio.
Parecia rever de novo as imagens que havia acabado de descrever, como se as avaliasse em cada detalhe.
- Sim, eu me arrependo - disse por fim.
Em nome de minha vaidade e de minha paixão pela ciência, destruí pessoas que deveria ter aprendido a amar nesta minha existência... - ele começou novamente a chorar.
Olívia não interferiu desta vez.
Sabia que era importante deixar que o remorso brotasse do fundo de sua alma para que seus erros do passado não voltassem mais a se repetir no presente.
Era necessário que Vítor, no estado de consciência alterada em que ainda se encontrava, se percebesse como responsável por toda aquela grande tragédia para tentar, de alguma maneira, amortizar os traços de carácter daquela época que ainda trazia gravados em sua personalidade.
- Sinto vergonha de tudo o que fiz e não tenho coragem de encará-lo... - ele finalmente confessou.
- Você acha que teria alguma coisa a dizer a ele? - ela insistiu.
- Eu queria... - Vítor parecia titubeante.
Eu queria que me perdoasse, embora ele tenha também me feito muito mal...
Olívia notou então que seu arrependimento não era completo, o que também não passou despercebido ao olhar de Oto, que continuava gritando a seu lado:
- Não adianta! Ele não mudou nada!
- Mas, pensando na sua parte, na sua responsabilidade, na dor dessa 'presença' que está com você até hoje, você seria capaz de pedir perdão a ele?
Vítor ficou novamente em silêncio, reflectindo sobre as suas atitudes naquela vida passada.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:44 am

Mas, embora admitisse que havia errado e até se sentisse arrependido por seus actos, ainda era orgulhoso demais para pedir perdão.
- A 'presença' continua ainda a seu lado? - perguntou a terapeuta.
- Sim. Ele me olha como se ainda estivesse muito bravo comigo.
Mas parou de me xingar.
Acostumada a lidar com casos como aquele, Olívia entendeu que Oto ficara reflexivo com o arrependimento de Vítor.
Afinal, o facto do rapaz ter admitido sua vaidade e até ter conseguido pedir perdão, ainda que se isentando em parte da responsabilidade, era um sinal de que em alguma coisa já havia mudado.
- Avaliando essa vivência, que características você acha que levaram o médico alemão a agir como agiu? - ela novamente perguntou a Vítor, com a finalidade de marcar os traços de carácter a serem trabalhados nas próximas sessões.
- Ele era uma pessoa extremamente vaidosa, dominadora e prepotente, que achava que podia resolver tudo do jeito dele, em nome de seu amor pela ciência.
- Será que era um amor pela ciência ou por ele mesmo? - Olívia questionou.
Vítor, porém, não respondeu.
- Você consegue visualizar em que medida ainda é parecido com aquele personagem do passado hoje?
- Não - ele respondeu convicto.
- Você acha então que não repete hoje nenhum daqueles comportamentos do passado? - ela voltou a perguntar.
- Acho que não.
Para a terapeuta, muitas coisas se encaixavam, embora Vítor não conseguisse ainda captar-lhes a dimensão e a profundidade.
Desde o interesse do rapaz pela genética que se repetia na vida actual, talvez até com uma proposta de renovação dos propósitos de sua mente privilegiada, já que a técnica de clonagem que tanto o fascinava visava sobretudo permitir a criação de órgãos de maneira a conhecer melhor as doenças e combater seus efeitos, até as manifestações de ódio de um carácter dominador que ainda permanecia, favorecendo o intercâmbio do paciente com a 'presença'.
Sem falar no próprio pânico, que certamente surgia como alarme, advertindo-o de sua necessária e urgente transformação.
Por ironia, era o pânico o grande aliado de Vítor em sua jornada evolutiva.
Em sua doença estavam contidos o sinal que desperta e o sentido para seu sofrimento.
Mas ela sabia que Vítor não poderia captar tudo aquilo de imediato.
Cada pessoa tem seu próprio momento de conscientização, que jamais pode ser forçado, devendo brotar naturalmente de sua própria reflexão em cima dos factos revistos e de suas próprias atitudes que se sucederão à experiência regressiva. Com o tempo, mesmo que não quisesse, Vítor começaria a fazer as necessárias associações, iniciando assim seu processo de cura e libertação.
Enfim, a semente estava plantada.
Vendo que não havia mais nada a fazer naquela sessão, ela então o conduziu de volta a sua vida actual.
- E então? Como se sente? - ela perguntou, tão logo ele abriu os olhos.
- Confuso - ele respondeu, parecendo ainda um pouco distante.
A verdade é que toda aquela experiência servira-lhe sobretudo para levantar uma dúvida em sua consciência:
afinal fora ele ou fora Vinícius quem violentara Aline na noite da festa?
- Você é culpado!
Você não mudou nada! - Oto gritou novamente a seus ouvidos.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:44 am

Parecia um tanto exaurido pela revivência de todas aquelas cenas, talvez até um pouco cansado de tanta perseguição e ódio.
Todavia, embora não houvesse efectivamente presenciado a cena, guardava a íntima certeza de que fora Vítor o responsável por mais aquele estupro e isso o impedia de aceitar o arrependimento do rapaz, forçando-o a permanecer em sua postura de cobrador implacável.
- Mas ele ... ele pode ver tudo o que eu faço? - Vítor perguntou, novamente olhando em torno, como se procurasse pelo obsessor invisível.
- Sim. Ele é um ser como você, que certamente já esteve encarnado muitas vezes.
A diferença é que, neste momento, ele encontra-se numa outra dimensão, e só por isso não podemos enxergá-lo.
- E como é que eu vou me livrar dele?
Por que ele só fica gritando que eu não mudei nada? - Vítor preocupou-se.
- Talvez a única maneira seja mostrar a ele que você não é mais aquele personagem do passado, que algo verdadeiramente mudou em você... - contemporizou Olívia.
Procure reflectir o que você mantém como traços semelhantes ou proporcionalmente parecidos com aquele personagem do passado para que a 'presença' insista tanto em dizer que você não mudou nada...
Vítor deixou o consultório em silêncio.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:45 am

- LIII -
- Nãããão!!!!!!! - gritou Aline, do banheiro.
Em uma das mãos segurava pequeno tubinho contendo urina, na outra, uma espécie de tira plástica que havia acabado de retirar do líquido, depois de tê-la deixado ali imersa por dez minutos.
Nela estavam agora marcadas duas listras rosadas.
Quase três semanas haviam se passado após aquela noite na casa de Vinícius.
Desde então, sua menstruação, prevista para descer neste meio tempo, ainda não chegara.
Confirmava agora suas angustiosas suspeitas com um teste caseiro de farmácia:
- A formação de uma segunda linha de coloração rósea logo abaixo da linha de controle indica que o teste é positivo, o que significa que você está grávida e deve consultar seu médico... - ela leu de novo as instruções na bula, na esperança de ter feito alguma confusão.
Não havia dúvida.
A segunda linha estava lá e, portanto, ela estava grávida.
- E agora, meu Deus, o que é que eu faço? - perguntou-se em lágrimas diante do espelho, esticando para baixo os olhos numa careta de desespero.
Era uma quinta-feira à tarde, estava sozinha em casa.
Florence, Paloma e Rafael haviam saído para levar Noémia ao médico, Chuva desde o acidente não saía mais do apartamento de Vinícius.
Em vão, o espírito Pablo e os irmãos construtores que haviam participado da implantação de Odilie e continuavam ali de plantão, ainda cuidando do desenvolvimento do embrião, tentaram envolvê-la com seus passes restauradores, mas Aline, com seus pensamentos desnorteados, repelia toda energia positiva que lhe era dirigida.
- Não, eu não posso ter este filho! - repetia, andando pela casa, apertando fortemente a barriga.
Definitivamente, eu não posso ter este filho!
Vovó Aretusa, onde quer que a senhora esteja, por favor me ajude!
Na cabeça de Aline, a notícia mais parecia uma bomba, destruindo tudo de bom que lograra conquistar depois de sua dolorosa chegada ao Rio.
Ela e Rafael haviam acabado de entrar para uma nova escola, que ela estava adorando; depois da partida de Moneda para a Espanha, a mãe vinha se mostrando bem mais atenciosa com eles; na ausência de Lucila a família estava até mais à vontade no apartamento, até tia Noémia parecia mais controlada em suas crises de caduquice.
É verdade que, às vezes, sentia-se um pouco incomodada pela presença constante de Clarinha na casa, mas aos poucos também começava a gostar dela, sobretudo depois de perceber o quanto ficara ainda mais largada após a morte do irmão no acidente.
Enfim, ao contrário do que acontecia com Clarinha, toda a sua vida parecia finalmente encaixada nos eixos.
E como ela iria dizer para todo mundo que estava grávida?
Sem contar que Chuva havia praticamente reatado seu namoro com Vinícius e as duas dividiam agora o mesmo quarto.
Como explicaria para a prima que o rapaz por quem ela era apaixonada vinha a ser o pai do filho que ela, Aline, estava esperando?
Atordoada, pegou o telefone e ligou para Mariana, em Florianópolis:
- Mari, pelo amor de Deus, tu me perdoas?...
Só agora entendo o que tu passaste! - confessou arrasada.
- Aline? És tu? - estranhou Mariana, do outro lado da linha.
-Sim, sou eu, Mari...
Acabo de descobrir que estou grávida!
Não tenho outra saída senão fazer o mesmo que tu fizeste!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:45 am

- Por Nossa Senhora do Desterro, não faças uma coisa destas!
Até hoje me arrependo por aquele dia, não posso ver uma criança que logo entro em profunda crise de depressão!
Estou tendo de fazer até tratamento com uma psicóloga.
Escute-me, Aline, não faças isto!
- Mas eu não tenho outra saída!
- Eu, se estivesse no teu lugar, conversaria com o pai da criança.
O Mairon garante que, se soubesse, jamais teria me deixado tirar o bebé!
- Tu não estás entendendo!
Eu não engravidei de um namorado.
Fui estuprada pelo namorado da minha prima! - ela confessou em prantos.
- Caramba!... - Mariana não sabia o que dizer.
Mesmo assim, acho que deverias conversar com ele! - ela insistiu no conselho.
Afinal, ele pode até ser namorado da tua prima, mas tem de assumir a responsabilidade pelo que fez!
- Se ao menos eu ainda tivesse a minha avó... - Aline choramingou na linha.
Enquanto isso, no plano espiritual, Aretusa continuava implorando por uma chance de ir à Terra ver a neta.
- Ela chama por mim, eu sinto! - tentava argumentar na sala simples que era ocupada pelo irmão Guilhôme.
- Ainda assim é impossível - ponderou o mentor.
- Mas por que eu não posso ir, se Têmis, que é a avó do pai da criança, está lá este tempo todo?
- Aretusa, por favor, entenda nossas objecções.
Têmis tem motivos para estar lá que no momento não podemos lhe explicar.
Além disso, ela encontra-se no plano espiritual há muito mais tempo que você.
Neste período teve oportunidade de adquirir muitos conhecimentos que você ainda não possui.
Não é um espírito com a mesma experiência de Pablo ou mesmo de Demóstenes, cujos méritos adquiridos no plano terrestre contribuíram para que se tornasse um colaborador desta colónia quase que imediatamente após o seu desencarne.
Mas, ainda assim, ela tem muito mais condições de auxiliá-los nesta missão do que você, que ainda não se encontra devidamente preparada para passar por determinadas situações - explicou o irmão Guilhôme com sua infinita generosidade.
- Mas eu também aprendi muito no pouco tempo em que venho actuando aqui no plano espiritual! - insistiu Aretusa, inconformada.
A não ser pela fuga de Oto, com a qual até hoje não pude deixar de me culpar, creio que em nenhum outro momento decepcionei os mentores desta colónia!
Por que todos parecem sempre tão cheios de segredos para comigo?
O irmão Guilhôme respirou fundo, como que reflectindo sobre como iria convencê-la.
Há dias negava-se a atender a seu pedido, mas Aretusa mostrava-se irredutível, havia mesmo mobilizado um sem número de enfermeiros para intercederem por ela junto ao director da colónia.
- É verdade, minha irmã - ele concordou, ainda reflexivo.
Seu trabalho abnegado tem sido muito útil para todos nós, todavia cumpre-lhe ainda, para seu próprio bem, frequentar o curso de auto-domínio a fim de que possa receber determinadas notícias, sem automaticamente provocar alterações em seu campo emocional.
Somente depois de concluir esse curso, estará apta a seleccionar as forças que a procuram, ambientando nas zonas íntimas de sua alma apenas aquelas de teor reconfortante e construtivo, podendo assim fazer parte de excursões à crosta sem correr riscos desnecessários.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:45 am

Aretusa entristeceu.
Não entendia a necessidade de tantos cursos para poder actuar junto aos encarnados.
Tudo na espiritualidade era minucioso e complicado, até para aprender a se alimentar e se locomover como espírito fora preciso fazer cursos.
Ela, no entanto, tinha pressa em ajudar aos seus, não fazia questão de aprender tantas coisas sobre o plano etéreo.
Até porque ela sentia que estava sendo necessária naquele momento.
Os insistentes chamados da neta ecoavam nela como alarmes intermitentes, implorando por socorro urgente.
Depois que as coisas estivessem sob controle na Terra, teria todo o tempo do mundo para fazer todos os cursos que seus mentores julgassem necessários.
"O que eu não posso é deixar minha neta desamparada num momento como este", reafirmava a si mesma com a mais profunda convicção.
Ainda vinculada ao papel de mãe possessiva e dominadora que exercera em sua última encarnação, achava que nenhum outro espírito, por mais evoluído que fosse, poderia proteger sua família como ela própria.
- Sempre soube que os espíritos recebiam votos de confiança conforme o seu merecimento - ela deu sua última cartada.
Não que eu queira cobrar pelos meus serviços, mas será que ao longo de todo o tempo em que actuei como trabalhadora desta colónia e da outra em que antes vivia sem, em nenhum momento, questionar as tarefas que me eram designadas, não acumulei nenhum merecimento?
- Sua argumentação é justa - acedeu, por fim, o nobre director da colónia, compreendendo que seria inútil continuar tentando convencê-la do contrário.
Estamos tentando poupá-la de grandes dissabores que podem, inclusive, afectar-lhe o equilíbrio adquirido.
Receamos grandes riscos que, por ora, não pode avaliar.
Entretanto, se, mesmo sabendo disso, se mantém firme em sua teimosia, não tenho outra alternativa senão aderir a seu pedido.
- Quer dizer então que poderei ir? - entusiasmou-se Aretusa.
- Esta noite mesmo entrarei em contacto com Pablo e Demóstenes e lhes pedirei para que tomem as devidas providências para que se efectue a excursão.
Devo informá-la, contudo, que terá de esperar ainda mais alguns dias para realizar seu desejo de visitar sua neta.
- Mais alguns dias? - Aretusa desmanchou o largo sorriso que havia acabado de pendurar nos lábios.
Mas por quê?
O paciente instrutor explicou-lhe então que, até o vigésimo-primeiro dia de gestação, estavam vedadas todas as visitas à jovem, posto que neste período a gestante deveria ficar apenas sob os cuidados de Pablo e da equipe dos construtores:
- O corpo carnal em formação é também um edifício delicado e complexo.
Urge cuidar dos alicerces com serenidade e conhecimento.
Desde o momento da fecundação, cada entidade microscópica vem sendo cuidadosamente acompanhada pela equipe dos construtores, que segue passo a passo o desenvolvimento da estrutura celular, incentivando-a através de seus toques magnéticos.
- Mas nem à noite poderei visitá-la?
Não posso conversar com ela nem durante seu sono físico, nos minutos em que seu espírito estiver liberto do corpo carnal? - inquiriu Aretusa, cada vez mais atordoada com os chamados da neta.
- Depois do vigésimo-primeiro dia, quando o embrião atingir sua configuração básica, nossas amigas poderão ser visitadas a qualquer hora.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:45 am

Só a esse tempo, mãe e filha conseguirão ausentar-se do corpo com facilidade durante seu período de sono.
Por enquanto, porém, Odilie não pode afastar-se de Aline.
Ainda mesmo em estado de sono físico as duas são obrigadas a permanecer junto aos colaboradores de nossa esfera, a pequena distância - esclareceu Guilhôme.
- E quando poderei então partir? - quis saber Aretusa.
- Acredito que no máximo em uma semana - asseverou, conformado, o prestimoso mentor.
- Mal vejo a hora de conhecer o pai de meu bisneto! - ela comentou ansiosa.
Na Terra, Vinícius preparava-se para seu primeiro passeio após o acidente, assistido de perto por Vítor e Chuva.
Não era exactamente um passeio.
Precisava ir até uma clínica, bem próxima ao local onde moravam, tirar algumas chapas para ver se as costelas estavam respondendo ao tratamento.
Até então mantinha-se imobilizado por uma tala removível, mas, caso fosse constatado que não estava obtendo os resultados esperados, seria preciso engessar também o tronco, do mesmo modo como os médicos já haviam feito com sua perna esquerda.
Apesar de tudo, porém, o rapaz estava optimista.
Para quem já estava preso em casa há quase três semanas, qualquer possibilidade de ir à rua era uma alegria.
- Sua prima não veio me ver nem uma vez depois do acidente - ele comentou, enquanto Chuva e Vítor o acomodavam em uma cadeira de rodas especial.
Ai! - ele reclamou, sentindo que Vítor soltara sua perna antes do momento devido.
- Desculpe... foi sem querer - disse Vítor, abalado com o comentário.
- Puxa vida!
Pensei que estivesse gostando da minha companhia! - Chuva respondeu enciumada.
- É claro que eu estou, sua bobinha - ele disse, apertando sua mão com carinho.
Nem sei o que seria de mim se não fosse você...
De facto, ao vê-la desvelando-se em tantos cuidados para com ele, Vinícius sentira brotar dentro de si um sentimento muito forte por Chuva, diferente de tudo o que já havia sentido até então por qualquer garota e até mesmo pela própria Chuva, quando namoravam.
Afinal, não era qualquer jovem que largava tudo em sua vida para ficar pajeando um ex-namorado doente.
Chuva dedicava quase todo seu tempo livre a Vinícius.
Só não ficava a seu lado nos horários em que tinha aulas na faculdade de economia recém-iniciada, e, ainda assim, se dava ao trabalho de ir todos os dias no prédio da comunicação, onde Vinícius estava matriculado, para buscar as anotações de aula que alguns amigos enviavam para ele.
Em casa, ela própria se encarregava de passar tudo a limpo no caderno dele.
- Não fique chateada, só perguntei por perguntar... - ele justificou, depois de dar um beijinho na mão que ainda há pouco apertava.
É que achei estranho ela não ter vindo nem uma vez me visitar...
Pensei que também fosse minha amiga...
- Quer saber?
Aquela minha prima é muito esquisita...
Sinceramente, eu acho que ela não é amiga de ninguém... - observou Chuva.
- Você acha que vai dar para chegar até a clínica numa boa? - desconversou Vítor, ainda sentindo-se incomodado com aquela conversa.
"Será que o irmão não se lembrava mesmo de nada?", questionou-se em silêncio.
"Será que não se sentia nem um pouco culpado por tudo o que tinha feito com a garota?"
Mas, definitivamente, não estava disposto a discutir este assunto com Vinícius.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:46 am

Desde que participara daquela experiência regressiva no consultório de Olívia, vinha reflectindo sobre seu relacionamento com o irmão.
Havia discutido bastante o assunto com a terapeuta em sua última sessão.
Ainda não conseguia identificar muitos traços de semelhança com a personalidade do passado a que tivera acesso, nem tampouco lembrar-se do que efectivamente ocorrera na noite em que Vinícius levara Aline para casa.
De uma coisa, porém, chegara à conclusão:
não queria mais viver brigado com Vinícius, muito menos por causa de uma garota que ele nem conhecia direito.
A iminência de morte do irmão associada àquela vivência regressiva haviam feito com que passasse a valorizar mais a oportunidade de ter um irmão na sua vida actual.
Era estranho, mas aquela soma de experiências o fizera reformular, de alguma maneira quase inconsciente, suas relações com toda a família.
Estava um pouco mais condescendente com a mãe e até um pouco mais atencioso com o irmão.
O pai, por sua vez, mudara por si só.
Estava mais amigo, mais presente.
A seu pedido, desistira até de fazer a tal reportagem sobre o pânico que tanto o incomodava.
Ligara para Moneda na Espanha e, depois de muito argumentar, acabara obtendo permissão para adiar a matéria por mais alguns meses.
Era o tempo de que Vítor precisava.
Animado com os pequenos progressos que vinha fazendo na terapia, começava a acreditar numa remota possibilidade de cura de sua doença.
Desde o dia da regressão não voltara a ter mais nenhuma crise; todas as noites orava para seu obsessor, pedindo-lhe que o perdoasse.
Oto, porém, ainda não aceitara suas desculpas.
Recuara um pouco em sua estratégia de vingança, ao observar as pequenas mudanças no comportamento de Vítor; mas tinha certeza de que logo o rapaz recairia novamente em erro, abrindo novas brechas à sua actuação.
Com esta certeza, aguardava, curioso e desconfiado, o desenrolar dos factos.
- Só quero ver quanto tempo vai durar esta fase de anjo da asa quebrada... - debochou, enquanto Vítor empurrava a cadeira de rodas do irmão em direcção à sala.
- E então, já estão prontos? - Cenyra apareceu no corredor.
A ambulância especial nos espera lá embaixo!
- Eu vou ficar em casa, mãe - informou Vítor, discreto, sem querer que Chuva percebesse suas limitações.
- Tem certeza de que vai ficar bem? - perguntou Cenyra preocupada.
- Sim, tenho.
Vou aproveitar para estudar um material novo que acabei de descobrir na internet sobre 'aquele assunto'... - ele despistou.
Cerca de vinte minutos depois, estava acabando de imprimir a nova edição do jornalzinho que costumava acompanhar pela internet, quando ouviu a campainha.
Pensando que fossem eles que já tivessem voltado, abriu a porta despreocupado:
- Puxa, mas vocês foram muito rápido, nem deu tempo de...
Ele se interrompeu ao perceber que estava diante de Aline.
- Você? - estranhou ela.
Até hoje não sabia que Vítor era irmão de Vinícius.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:46 am

- LIV -
- E... e... entra! - Vítor convidou nervoso.
- Eu precisava falar com o Vinícius, mas... - como da outra vez, Aline estava quase arrependida de ter vindo.
- E... e... ele saiu, mas não vai demorar.
Entra! - ele insistiu num impulso.
Mal podia acreditar no que via.
A garota que ele adorava estava agora ali, diante dele, os dois sozinhos em casa.
Mas não podia esquecer que ela estava ali procurando por Vinícius, seu lado racional alertou-o.
O que será que ela queria com ele?
Aline, por sua vez, não sabia se ria ou se chorava.
Acabava finalmente de descobrir quem era o cara por quem ela estava perdidamente apaixonada, onde morava.
Então ele era mesmo Vítor, o irmão de Vinícius.
Ela ainda se lembrava do nome.
Por ironia do destino, ela estava ali justamente para destruir todas as possíveis chances de relacionamento entre os dois.
"Ai, o que é que eu faço?" ela pensou nervosa.
"Será que não seria melhor tirar logo este filho da minha barriga e continuar minha vida como se nada houvesse acontecido?"
Ao imaginar esta possibilidade, imediatamente sentiu um estranho aperto no ventre.
Era como se algo dentro dela houvesse se assustado com as palavras que mentalizara em silêncio.
- Está tudo bem? - perguntou Vítor, estranhando ao vê-la levar instintivamente as duas mãos à barriga.
Seu nome é Aline, não é?
- Sim... - ela concordou surpresa.
Você já sabia?
- Ouvi Chuva falando de você - mentiu Vítor, que descobrira seu nome na noite em que a vira conversando na sala com Vinícius.
- E claro... - concordou Aline, ainda atónita.
- O meu é Vítor - ele disse.
- Imaginei logo que te vi.
Vinícius também me falou de você...
"Será que algum dia eu conseguiria namorar este cara sabendo que ele é irmão do Vinícius?
E se um dia ele descobrisse o que aconteceu entre nós?
E por que meu coração não para de bater desse jeito?", ela voltou a questionar-se em silêncio.
"O que será que o Vinícius falou de mim para ela?
E por que meu coração está disparado assim?", Vítor também perguntou-se em silêncio.
"Será que vou ter uma crise?
Não, acho que não.
O disparado da crise é diferente...
Não tem essa expectativa, essa força..."
O mais incrível era que ele não conseguia sentir nem um pouco de raiva dela.
Ao contrário, seu ar desprotegido dava-lhe uma vontade enorme de abraçá-la, sentir de novo o cheiro de seus cabelos, o gosto de sua boca.
Mas ele sabia que não podia fazer isso.
"Ela veio aqui à procura de Vinícius", lembrou-lhe de novo seu lado racional.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:46 am

Ainda estavam os dois parados, um diante do outro, cada qual travando sua batalha íntima, quando subitamente foram surpreendidos pela música alta vinda de algum apartamento vizinho.
Era um sucesso da dupla Sandy e Júnior que falava exactamente do coração disparado de alguém apaixonado.
"Turu, turu, turu", dizia a canção.
"Esse turu, turu, turu aqui dentro/ Que faz turu, turu quando você passa / Meu olhar decora cada movimento/ Até seu sorriso me deixa sem graça...
- Puxa, eu adoro esta música... - confessou Aline sem-graça.
- Só pode ter sido o Ivan... - deduziu Vítor.
- Quem?
- Um amigo meu do primeiro andar.
Ele adora Sandy e Júnior - explicou Vítor.
- Tu não gostas?
- É... mais ou menos - disse ele, angustiado com aquela letra que parecia entregar todos os seus sentimentos.
Na verdade eu gosto muito das reportagens que leio sobre eles, acho legal o que eles dizem.
Mas... senta!
Você quer uma água, um café? - perguntou, sem saber o que dizer, repetindo as palavras que sempre ouvia da mãe quando chegava uma visita.
Aline sentou-se, tímida, na pontinha do sofá, e ficou olhando para ele.
A música parou.
Parecia que o vizinho só quisera mesmo ouvir aquela faixa com o intuito de provocá-los.
Ainda assim, alguns versos da canção ainda ecoavam dentro dela:
"Qualquer coisa entre nós/ Vem crescendo pouco a pouco/ E já não nos deixa sós/ Isso vai nos deixar loucos".
- Estou até hoje esperando o café que tu fostes buscar para mim naquela festa... - ela deixou escapar.
- Eu... - Vítor abaixou a cabeça envergonhado.
Nem sei como te dizer, mas... ei!
Não fique assim! - só então ele percebeu que ela estava chorando e agachou-se a seu lado.
Puxa, me desculpe, eu...
- Liga não...
É que eu hoje estou um pouco triste...
Tu me desculpes...
Constrangida, Aline não conseguia conter as próprias lágrimas.
Era como se a lembrança daquela cena no escritório houvesse trazido à tona todos os seus medos e esperanças frustradas.
"Se naquele dia ele tivesse voltado com o café, eu certamente não estaria aqui agora, nesta situação", pensava desconsolada.
"Mas, também, que culpa ele tem por eu ser uma boba irresponsável?
A culpa toda foi minha, ele não tem nada a ver com isso", convenceu-se, ressentida com ela mesma.
- Eu queria ter voltado! - ele conseguiu finalmente dizer.
Você pode até não acreditar, mas..
- Tu não precisas ficar me dando explicações.
Eu é que te peço desculpas - ela repetiu, levantando-se de repente e enxugando as lágrimas.
- É que hoje... - ela tocou novamente na barriga olhando fixamente em seus olhos.
É que hoje eu realmente não estou legal! - desconversou.
Nisso, Oto, que vinha lá de dentro curioso com aquela voz diferente que ouvia na casa pela primeira vez, estancou assustado.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:46 am

Ao encontrar-se com os olhos de Aline sentiu como se uma energia diferente o envolvesse, chegou mesmo a ficar com vontade de chorar.
- Eu conheço essa pessoa...
Quem é essa pessoa? - ele foi lentamente se aproximando.
A poucos passos de Aline, porém, foi detido por Pablo, que só então se fez visível a seus olhos.
- Irmão Pablo! - Oto recuou assustado.
- Não se assuste, não vim para capturá-lo.
Só pediria que não se aproximasse demais da jovem.
- Quem é ela?
Eu sei que a conheço! - ele afirmou confuso, sentindo seus olhos se encherem novamente de lágrimas.
- Sim, você a conhece.
Mas imagino que esteja assim não propriamente por causa dela...
Ao ouvir isso, Oto olhou novamente para Aline e percebeu que Odilie estava ao lado da moça.
Parecia uma boneca em miniatura, ligada ao ventre de Aline por ténue fio prateado.
- E Odilie! - exclamou ainda mais emocionado.
Por que as duas estão assim ligadas?
Por que ela não me vê?
- Ela encontra-se numa outra sintonia.
No momento, está por demais preocupada com os pensamentos da mãe, não consegue captar nenhuma outra vibração no ambiente - explicou Pablo.
- Mãe? - ele repetiu assustado.
Então quer dizer que...
- Sim, Odilie já se encontra ligada a esta jovem, o processo, aliás, deve ser concluído nos próximos dias.
Por isso pedi que se mantivesse afastado - Pablo voltou a esclarecer.
Não seria bom para ela, neste momento, deixar-se envolver por suas vibrações, reviver emoções que luta para manter sepultadas no passado...
- Você está pálida... Sente-se mais um pouco - pediu Vítor.
Naquele dia você tentou me ajudar e conseguiu, hoje sou eu quem...
- Não adianta, ninguém pode me ajudar! - interrompeu Aline, sem conseguir parar de chorar.
- Me deixa ao menos tentar! - ele pediu, aproximando-se e enxugando carinhosamente as lágrimas de seu rosto.
Era estranho.
Ele sentia por ela uma ternura tão profunda, um amor tão gratuito...
"Será que ela também faz parte do meu passado?", ele cogitou, sem querer lembrando-se de sua experiência regressiva.
Corno que atraídos por algum magnetismo invisível, os dois ficaram outra vez muito próximos.
Sentindo-se cada vez mais irresistivelmente atraído por ela, Vítor já se inclinava para beijá-la, quando Oto gritou:
- Ei! Você não pode fazer isso!
Pablo novamente o conteve, mantendo-o à razoável distância dos dois.
- Não faça isso! - Aline, porém, disse quase ao mesmo tempo, sob o olhar surpreso de Odilie, que parecia desejar aquele beijo tanto quanto ela.
- E por que não? - disse Vítor, olhando no fundo de seus olhos.
- Eu... eu... eu estou grávida! - ela confessou num rompante, quase como que hipnotizada pelos olhos dele.
- Grávida? - Vítor deu um passo para trás e ficou encarando-a estupefacto.
"E se aquele filho fosse dele?", foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:46 am

Embora não houvesse tido coragem de admitir isso ainda para Olívia, ficara com uma dúvida muito forte a esse respeito depois de reviver aquela experiência passada.
Mas como é que ele ia explicar isso agora para Aline?
Se ao menos conseguisse se lembrar o que, de facto, havia acontecido com ele depois que Aline e Vinícius entraram no quarto naquela noite...
Todavia, por mais que se esforçasse, não conseguia achar resposta para suas incertezas.
Era corno se seu cérebro houvesse mastigado aquele minúsculo pedaço de fita, onde estavam gravadas as imagens de como ele conseguira ter acesso à cena do irmão violentando a garota.
- Eu e minha boca enorme! - Aline estalou nervosamente os dedos das mãos.
Escute! Me faças um favor.
Pelo amor de Deus, esqueças tudo o que acabei de falar e...
- Como assim esquecer? - Vítor voltou a se aproximar, morrendo de vontade de fazer um carinho em seus cabelos.
- Esquecendo, ora essa.
Tu faças de conta que eu jamais vim aqui, que eu jamais te disse isso! - insistiu Aline.
- O filho é de Vinícius?
Foi por isso que você veio até aqui? - deduziu o rapaz.
- Não, na verdade...
Os dois se encararam por mais alguns instantes.
Aline não sabia por que, mas não conseguia mentir para ele.
Era como se aqueles olhos profundos conhecessem todos os seus segredos.
Acho que sim!
Não pode ser de outra pessoa!
Eu nunca estive antes com urna outra pessoa... - as lágrimas começaram a rolar novamente em seu rosto.
Mas acho melhor tu não dizeres nada a ele.
Sim, eu não quero que ele saiba...
Jamais deveria ter vindo até aqui...
Eu tenho que parar com essa mania de agir por impulsos...
- Você não acha que... - Vítor tentou dizer, ainda perplexo.
- Pelo amor de Deus, tu me prometas - ela pediu, segurando fortemente as mãos dele.
- Mas... - ele ainda tentou argumentar.
- Prometas que não vai dizer nada a ele...
Por favor, em nome dessa coisa que eu sei que tu também sentes por mim... - ela o encarou novamente no fundo dos olhos.
Eu estou te pedindo...
- Está bem, eu prometo... - Vítor não pôde resistir.
- Ele não pode saber de nada... - ela repetiu.
Eu tenho que resolver isso sozinha...
- Espere! - exclamou Oto, ainda mais assustado, como que finalmente reconhecendo algo na frase que acabara de ser dita por Aline.
Eu já ouvi isso antes!
Ela é... - de tão espantado, não conseguiu terminar a frase.
- Sim, ela é o mesmo espírito que se dispôs a receber você e Odilie em sua última tentativa frustrada de reencarnação - confirmou Pablo.
- Ela nos abortou! - Oto imediatamente ligou os factos, chorando agora como um criança.
- É verdade. Entretanto, tocada de sincero arrependimento no plano espiritual, ela implorou por esta chance que agora está tendo.
Pediu para reencarnar e engravidar tão logo seu aparelho reprodutivo tivesse condições de receber uma criança.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:47 am

- Mas então ele precisa imediatamente ser afastado de sua presença!
Oto apontou desesperado para Vítor, já preparando-se para pular sobre ele.
Ele não vai deixar esta criança nascer, do mesmo jeito como...
- Você está enganado - Pablo mais uma vez o deteve, irradiando desta vez uma espécie de escudo luminoso em torno de Vítor e Aline, cuja intensa vibração repeliu Oto para longe, fazendo com que caísse estatelado do outro lado da sala.
Ele é a única pessoa que pode ajudá-la! - destacou o mentor, enquanto ajudava Oto a levantar-se.
Ainda atónitos, Vítor e Aline, se despediam na porta.
- Então... então a gente se fala - ele disse, olhando para ela com muita vontade de implorar para que não fosse.
- Tá... - ela respondeu sem muita convicção.
A gente se fala...
- Por que a barriga dela parece envolta por uma teia de raízes escuras? - estranhou Oto, ainda observando-a assustado.
E por que Odilie está chorando a seu lado?
- Porque ela, infelizmente, já pensa em outra vez recorrer ao aborto para resolver seus problemas - explicou Pablo, triste.
- Eu tinha certeza disso!
Eu sabia! - ele desabafou nervoso.
E você acha que ele, justamente ele, vai fazer algo para ajudá-las? - questionou, incrédulo, apontando para Vítor com desdém.
Parado na porta do apartamento, o rapaz olhava desolado para Aline, enquanto ela, de costas para ele, enxugava suas lágrimas à espera do elevador.
- Como disse, ele é a única pessoa que pode ajudá-las - repetiu Pablo, antes de entrar no elevador junto com Aline.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:47 am

- LV -
Uma semana depois, vendo que Aline não voltara a procurar Vítor e este, cada vez mais atormentado por suas dúvidas, nunca que tomava coragem para ligar para ela, Oto tomou uma decisão:
- Preciso fazer alguma coisa por Odilie!
Movido por esta firme convicção, seguiu para o apartamento de Faustino, disposto a pedir ajuda a Lupércio.
- Ora, ora!
Quem desencarna não morre e quem é vivo sempre aparece! - debochou o obsessor do médico.
Vejo que não voltou muito bem disposto de sua temporada de férias na colónia dos bons!
- Não seja irónico, Lupércio.
Você sabe muito bem que não fui para lá por minha própria vontade! - argumentou Oto.
- No entanto, desde que chegou não teve a hombridade de vir até aqui se apresentar para o serviço!
E isso que eu ganho por ser legal com as pessoas.
Ajudei você, mantive minha palavra enquanto você se refestelava entre os bons...- Lupércio prosseguiu debochado.
- Escute, eu não... - tentou dizer Oto.
- E ainda se deu ao luxo de permitir que três de nossos melhores homens fossem capturados pelos exércitos da luz! - Lupércio berrou zangado.
O que é que você quer agora?
Devia se dar por satisfeito por eu ter permitido que continuasse sozinho a sua vingança particular!
O certo seria tê-lo feito prisioneiro por incompetência e insubordinação!
Os dois conversavam diante da porta do apartamento que, embora parecesse fechada a olhos comuns, encontrava-se aberta na dimensão dos desencarnados.
Lupércio já se preparava para bater a porta na cara de Oto, quando este o segurou fortemente pelo pulso:
- Por favor, me ajude!
Alguém que me é muito querido encontra-se prestes a ser abortado! - ele explicou com olhos súplices.
- O caso envolve o nosso doutor? - Lupércio interessou-se.
- Não exactamente.
Não sei ainda quando acontecerá a tragédia ou pelas mãos de quem, mas sinto, uma voz aqui dentro me diz que será inevitável - Oto desabafou preocupado.
- Só posso lhe dizer uma coisa.
Se a amblose cair nas mãos de Faustino - como resquício de seus tempos de enfermeiro, Lupércio sempre gostava de usar termos médicos, - terei muito prazer em ajudar.
Do contrário, o problema é seu.
Meu objectivo é prejudicar aquele cretino e não integrar uma caravana contra o aborto! - ele avisou, antes de bater finalmente a porta.
Oto saiu dali desconcertado e sentou-se na escada para meditar.
A quem pediria ajuda?
Em todo o tempo que passara fora da colónia, ele não travara novas amizades.
Conhecia apenas Lupércio e os demais integrantes do bando que haviam fugido da colónia na mesma época que ele.
Se ao menos Yuron, Bertillo e Constanza não o houvessem abandonado...
O facto, porém, é que agora não podia contar com mais ninguém.
"O que faria então?", ele se torturava tentando encontrar uma solução.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:47 am

Seria mais eficiente convencer Aline a ir fazer seu aborto com Faustino, para que Lupércio e seu antigo bando a demovessem da ideia, ou fazia ele mesmo este papel, insuflando-lhe ideias para que desistisse de seu intento?
Mas e se Pablo continuasse impedindo que se aproximasse da moça?
Será que conseguiria impedir um bando inteiro de aproximar-se da moça?
E se Lupércio, mesmo empregando todo o bando nesta tarefa, não conseguisse demovê-la da ideia?
Estava tão concentrado em suas reflexões que nem percebeu quando Têmis e Aretusa dele se aproximaram.
Aretusa havia acabado de chegar do espaço para a rápida excursão de visita à neta que lhe (ora autorizada pelo irmão Guilhôme, quando Têmis, ouvindo de longe os pensamentos de Oto, a quem vivia permanentemente ligada na expectativa de um próximo resgate, a arrastou até o local onde este havia se isolado:
- Se o seu objectivo é evitar um mal, por que não unir-se a nós, que lutamos pelo mesmo propósito? - ela se aproximou, meiga, fazendo-se visível a seus olhos.
- Irmã Têmis!
Irmã Aretusa! - ele tomou um susto.
- Não tema.
Viemos em missão de paz! - anunciou Têmis.
- Então não vieram me pegar? - ele olhou envergonhado para Aretusa.
- Não - garantiu Têmis.
Neste momento, nossa principal meta é evitar que Odilie fracasse em sua nova tentativa de reencarne.
- Quer dizer então que vou poder ajudá-los? - alegrou-se Oto.
- Sim, desde que respeite o comando de nossos mentores maiores, agindo com a necessária cautela que pede a situação - Têmis deixou claro.
- E a senhora garante que, uma vez atingida a meta, vocês não irão me obrigar a voltar para a colónia? - ele tentou assegurar-se.
- A menos que seja essa a sua vontade - garantiu a generosa benfeitora.
- Se é assim, então eu aceito!
Quando iremos começar?
Pouco tempo depois, os três adentravam, na companhia de Pablo e Demóstenes, o escritório de Lucila, onde Aline preparava-se para seu primeiro teste na nova escola.
Embora o quarto fosse agora ocupado por Rafael, Aline gostava de passar suas tardes ali, estudando ou fazendo seus deveres de casa.
Ainda angustiada com a gravidez recém-descoberta, ela experimentava incrível dificuldade em se concentrar no livro de física aberto a sua frente.
Ligada a ela por ténue fio brilhante, que a conduzia ao ventre de Aline, Odilie partilhava-lhe o doloroso estado de apreensão e expectativa.
- Droga! Eu não consigo aprender isto!
Não adianta! - protestou, abrindo a gaveta com violência, pronta para atirar o livro lá dentro.
Deteve-se, pasma, porém, ao notar o maço de dólares que com o tranco emergiu do fundo da gaveta.
Tocou o dinheiro ressabiada, como quem toca em algo proibido, e contou pausadamente as notas. Havia exactamente mil dólares novinhos, em notas de cem.
- Isso só pode ser da tia Lucila... - deduziu de imediato, ainda desnorteada com a descoberta.
Será que ela esqueceu?
Será que alguém sabe que este dinheiro...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:47 am

Aline emudeceu, tomada pela rapidez dos próprios pensamentos.
"E se eu conseguisse o endereço daquele tal médico de abortos?", meditava Aline, rabiscando a esmo a folha que tinha diante de si.
Completamente esquecida das convicções que a animavam quando ainda vivia em Florianópolis, não conseguia parar de lembrar-se da conversa que ouvira, por acaso, no banheiro da escola, entre duas colegas de classe.
"A Latira comentou que o consultório só tem aparelhos de última geração...
Disse que tudo é feito no mais absoluto sigilo...
A pessoa sai de lá como se houvesse apenas arrancado um dente...", ela ouviu de novo a voz da colega em suas lembranças.
"Será que eu pergunto para ela onde fica esse tal médico?", questionou-se mais uma vez.
"Mas como é que eu vou perguntar isso sem que ninguém desconfie de nada?
Será que ela vai ficar chateada quando souber que ouvi sem querer sua conversa com a Verónica, quando eu estava no banheiro?
Não... - ela olhou para o maço de notas em suas mãos.
"É muita grana...
E se alguém descobrir que eu peguei este dinheiro?
Será que é suficiente para fazer um desmancho?"
- Por favor, não faça isso! - Odilie, desesperada, pedia-lhe em pensamentos, sob o olhar não menos afoito de Oto.
Eu quero tanto ser a sua filhinha...
Prometo que vou fazer de tudo para jamais decepcioná-la!
Por favor, não me negue esta chance!
Não me mate!
- Precisamos fazer alguma coisa! - suplicou Aretusa, olhando para Demóstenes.
Antes que Oto e Aretusa entrassem em desequilíbrio, Têmis tomou-lhes as mãos e fez um sinal com os olhos para que entrassem em prece.
Enquanto isso, Demóstenes activava no cérebro de Aline a imagem do bebé rechonchudo que ela havia visto na praça quando voltava para casa após as aulas.
Aline reviu-o em suas lembranças e sentiu seu coração apertar.
- Que gracinha!
Como é o nome dele? - recordou-se de si mesma perguntando à babá.
- Igor! - respondeu a moça, limpando a boquinha do neném com uma fralda.
Ontem ele completou quatro meses.
Veja, já está nascendo o primeiro dentinho.
Por isso ele não para de babar!
Aline encostou a mão no coração e ficou pensando que rosto teria seu nenezinho.
Será que podia entender tudo o que ela pensava?
- Sim, eu te escuto! - respondeu Odilie.
Posso compreender tudo o que sente, sinto tudo junto com você!
Queria tanto poder estar agora em seus braços...
Emocionados, Oto e Aretusa começaram a chorar diante da cena que acabavam de presenciar.
- Por favor, meus irmãos, recomponham-se!
Procurem manter os pensamentos elevados! - pediu Demóstenes.
É necessário que enviemos a elas nossas mais puras vibrações de amor a fim de que se fortaleçam!
Aproveitando a brecha oferecida por Aline, Pablo, que passara a noite vasculhando os livros pediátricos de Lucila que ainda continuavam no escritório, aproximou-se então da jovem, fazendo com que sentisse uma vontade irresistível de abrir o livro vermelho de capa dura que estava na prateleira a sua frente.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:48 am

Sem nenhuma noção de onde vinha a própria curiosidade, ela então tomou o livro nas mãos e o abriu ao acaso.
Para sua surpresa, lá dentro havia três folhas de xerox colorido grampeadas, com fotos de fetos dentro do útero materno.
Falavam justamente sobre o desenvolvimento do cérebro do bebé em gestação.
Admirada com sua 'casual descoberta', Aline foi directo ao parágrafo que Lucila havia destacado com caneta amarela fosforescente:
"O ser-humano é corpo e ao mesmo tempo mente, consciência.
Podemos dizer que as células que formam o embrião, o feto e o bebé possuem uma espécie de mente rudimentar, na qual se observa a actuação de uma memória biológica, pois estas células foram programadas para 'lembrar' como formar os braços, as pernas, o sexo, uma mão, um pé.
E quase como se houvesse um programa de computador em cada uma destas células, comandando a formação do futuro ser.
Com oito semanas de gestação, o sistema nervoso central compreende vinte e cinco por cento do peso do bebé, sendo que, a partir de doze semanas, o feto já reage a estímulos sonoros.
Os mais sensíveis apresentam taquicardia quando se toca uma corneta perto da barriga da mãe.
Nesse período, sabe-se ainda que o sistema nervoso central já está bem formado e precisa de tempos de vigília e de sono dentro do útero".
Chocada, ela levou as duas mãos ao útero e começou a fazer mentalmente as contas de quantas semanas tinha seu bebé.
"Ele tem quase um mês", disse a si própria, "mais precisamente, 29 dias...
Será que já percebe alguma coisa?
Será que tem consciência de que eu penso em abortá-lo?"
Sua atenção, contudo, foi nesse momento atraída para o outro trecho marcado por Lucila, desta vez com caneta laranja fosforescente.
Neste trecho, um médico falava sobre experiências práticas que comprovavam a existência de uma memória fetal:
"Há casos muito complicados e tristes, como um com o qual me deparei certo dia numa maternidade pública:
o bebé, nascido com trinta e sete semanas de gestação, tinha um estranho defeito ósseo que ninguém conseguia identificar, até que se checou com a mãe a história da gravidez e descobriu-se que ela tentara várias vezes abortá-lo.
A posição que estavam os ossos era de uma pessoa que se defende de uma agressão, postando-se no fundo do útero".
Assustada com o que acabara de ler, Aline recolocou o dinheiro na gaveta.
Depois, fechou a reportagem dentro do livro e, abraçando-o fortemente contra o peito, deixou que lágrimas abundantes lhe escorressem da face.
- Ai, meu Deus...
Nessas horas eu sinto tanta falta da minha avó... - ela disse, fungando, ainda apertando o livro contra o peito.
O que será que ela me diria se fosse viva?
Será que também iria me odiar pelo que eu fiz?
Será que iria entender que eu não tive culpa?
A um sinal afirmativo de Demóstenes, Aretusa então aproximou-se da neta e de Odilie e enlaçou as duas num só abraço, dado com toda a sua ternura, enquanto Oto e os demais espíritos concentravam-se com o intuito de envolvê-las em uma aura positiva de paz e esperança.
- Eu entendo você, minha querida.
Eu estou aqui e entendo você.!. - a avó, emocionada, sussurrou aos ouvidos espirituais da neta.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:48 am

Não mate seu filho...
É isso o que eu diria a você se pudesse estar ainda a seu lado como antes...
Embora distantes, estamos unidas pelos laços do coração... - ela finalizou, inspirada pelas energias que lhe eram dirigidas pelo grupo de espíritos ali presentes.
Sentindo-se reconfortada por suas palavras, ainda que não pudesse ouvi-las textualmente com seus ouvidos carnais, Aline foi tomada por uma profunda sonolência e adormeceu, juntamente com Odilie, em cima da escrivaninha, ainda abraçada ao livro de Lucila.
Enquanto isso, Florence voltava da rua com Paloma, Noémia, Rafael e Clarinha.
Vinham do shopping, onde tinham ido fazer algumas pequenas compras.
- Eu posso vê-los? - pediu Aretusa.
Têmis, Demóstenes e Pablo trocaram um olhar em silêncio.
- Pode - Demóstenes autorizou por fim.
Mas tome cuidado com suas emoções!
- E quanto a mim? - Oto perguntou num fio de voz.
Sentia-se fundamente envergonhado diante daquelas entidades.
- Volte para o lado de Vítor e tente convencê-lo a entrar em contacto com Aline - determinou Demóstenes, depois de pensar por alguns instantes.
Enquanto isso, na sala, Rafael parava ao lado do retrato da avó que ficava na estante, tomado por um estranho sentimento de melancolia.
- O que houve, Rafael?
Você ficou quieto de repente! - observou Clarinha.
- Sei lá... De repente senti uma saudade tão grande da minha avó... - ele respondeu, captando no ar a presença de Aretusa.
- Fica assim não...
Eu também fico triste sempre que lembro do meu irmão...
Espera aí que eu já volto!
Ela dirigiu-se à cozinha, onde Florence e Paloma preparavam um café para Noémia.
Florence estava radiante, Moneda voltava da Espanha no dia seguinte.
-Ah, tu não achas que exagerei comprando aquele vestido vermelho?
- Florence perguntou a Paloma, enquanto escaldava o coador de pano.
Noémia só tomava café feito com coador de pano, e este tinha de ser sempre muito bem escaldado, senão ela dizia que estava com gosto de sapo.
- É claro que não. Flor!
Você ficou linda com ele!
De mais a mais, vermelho é uma cor super energética.
Dá iniciativa, força de vontade, necessidade de conquista e vitória, e, ainda por cima... - ela aproximou-se devagarinho sem que a prima percebesse.
Estimula a acção! - disse surpreendendo-a.
- Ai, Paloma! Quase que tu me queimas! - disse Florence, soltando sem querer o coador na pia.
- Desse jeito o café não pode prestar! - reclamou Noémia, ranzinza.
- Onde já se viu deixar cair o coador na pia?! Vai ter que escaldar de novo!
- Florence, não tem aí um daqueles chocolatinhos que o Rafael gosta? - Clarinha chegou correndo.
- Mas isso lá é hora de comer chocolatinho, dona Clarinha? - ralhou Florence, maternal.
Tu e ele não acabaram de tomar um baita de um sorvete no shopping?
- É que ele ficou triste de repente, pensei que um chocolatinho poderia animá-lo... - explicou a menina, solícita.
- Só um chocolatinho, o que é que tem? - atalhou Paloma, já pegando a caixa de chocolates no armário.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:48 am

Toma, um para ele e outro para você! - disse entregando duas barrinhas a Clarinha.
- Eu não vou querer chocolate não, quero café puro! - Noémia foi logo avisando.
Essas meninas têm cada uma!
Coar chocolate no coador de café, era só o que faltava!
Antes que Paloma pudesse responder alguma coisa, porém a cozinha foi tomada pelo grito de pavor que Rafael deu na sala.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 9:48 am

- LVI -
Florence, Paloma e Clarinha vieram o mais depressa possível.
Rafael estava agachado atrás de uma poltrona, com a cabeça escondida entre os braços, morrendo de medo.
- O que foi meu filho?
Parece até que viu assombração!
- E a vó, mãe!
Ela tá em pé bem aí ao lado da estante! - ele apontou, sem coragem de levantar a cabeça.
- Ah, Rafael! Tens tempo!
Não tens mais o que inventar? - Florence duvidou.
Não tem ninguém aqui do lado da estante!
- Vai ver foi porque ele viu o retrato da tia Aretusa - disse Paloma, virando o retrato para a parede.
- E, ele ficou todo triste por causa do retrato! - reforçou Clarinha.
- Eu juro, por tudo quanto é mais sagrado! - ainda agachado no chão, ele beijou os dedos cruzados.
- Pára com isso, Rafael! - zangou Florence. - Não vês que não tem graça!
- É sério, mãe!
Ela tava aqui ainda agorinha, levei um susto tão grande que... - ele olhou para o chão molhado, envergonhado de terminar a frase.
Florence olhou para a poça que se formara em torno do filho e só então reconheceu que ele não estava brincando.
"Ai, meu Deus, vai começar tudo de novo!", ela pensou levando as mãos à cabeça, enquanto ia até a cozinha para buscar um pano.
Nos últimos meses em que viveram em Florianópolis, andava mesmo preocupada com essa mania que Rafael tinha de viver vendo gente que já morreu.
Ela achava que era coisa da cabeça dele, provavelmente por influência do povo de lá, que era cheio de crendices e misticismos.
Recentemente, lhe viera com uma história de que vira seu Gentil no dia em que o pobre homem morreu e, ainda por cima, mandando recado para ela.
Obviamente, Florence não lhe deu muita atenção, sequer guardou o recado que o filho lhe transmitiu.
- Olha aqui, Rafael, vou te dizer uma coisa pra ti!
Se não parares com essa mania, eu vou ter que te levar a um psiquiatra! - Florence ameaçou, enquanto limpava o chão aborrecida.
O menino, contudo, continuava agachado no mesmo lugar.
- Peraí, Florence, calma!
Vai ver ele tem mesmo o dom de ver espíritos! - argumentou Paloma.
- Que dom, Paloma!
Isso é coisa daqueles meninos lá de Florianópolis, que vivem vendo coisa onde não existe.
Lá todo mundo já cresce educado deste jeito!
É história de bruxa, alma penada, boitatá...
-Tu nunca acreditas no que eu falo, não é mãe? - Rafael ficou sentido.
E você acha que eu por acaso gosto de ver essas coisas?
- Mas você viu a sua avó como? - quis saber Paloma.
Ela disse algo?
- Eu tava lembrando dela, de repente eu senti um arrepio; quando olhei para o lado, e ela estava lá, empezinha do meu lado, fazendo carinho na minha cabeça.
E fiquei tão assustado que abri a boca e a voz não saiu!
- Como não saiu se eu ouvi lá da cozinha quando tu gritastes? - duvidou Florence.
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