O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:50 am

- Eu gritei, mas foi depois! - ele disse.
- E o que foi que ela disse? - Paloma estava curiosa.
- Ela só disse:
"Cuida da tua irmã, Rafael!
Cuida bem das duas por mim!"
- Que duas? - estranhou Clarinha.
- Acho que devia estar falando da mamãe - ele imaginou.
Daí eu fiquei tão nervoso que me joguei atrás dessa poltrona.
Foi então que eu gritei...
- Ali, Rafael, vá trocar esta roupa, vá! - desconversou Florence.
- Ai! - ele gemeu ao levantar-se.
- Que foi agora, Rafael?
- Eu tô embrulhado...
E também com um pouco de tonteira...
- Eu avisei que esse negócio de café com chocolate não dava certo! - atalhou Noémia, que vinha lá de dentro ainda mastigando um pedaço de pão.
A pessoa até vê coisas se come estas bobagens!
- Deve ter sido do sorvete! - deduziu Florence.
Vamos. Vamos até lá dentro que eu vou te dar um antiácido.
- Leva ele lá para o nosso quarto que a Aline cochilou no escritório.
Tadinha, deve ter ficado cansada de tanto estudar - avisou Paloma.
Enquanto Florence acudia Rafael, ela tinha corrido para ver se o quarto estava arrumado, a fim de que a prima não brigasse novamente com o menino.
- Tu ficas lá dentro comigo, mãe?
Não quero ficar sozinho - ele pediu.
- Eu te faço companhia - ofereceu Clarinha, solícita.
Enquanto isso, no escritório onde Aline dormia, Aretusa chorava abraçada a Demóstenes:
- Eu não fiz por mal, juro que não fiz por mal!
- Fique calma, minha irmã.
Eu é que não me lembrei do problema da mediunidade de Rafael, quando autorizei que fosse até a sala.
- Mas por que ele me viu?
Isso nunca havia acontecido antes comigo! - ela ainda chorava nervosa.
Temia ter causado algum tipo de dano ao neto.
- Como te expliquei da vez em que estivemos em Florianópolis no Natal, seu neto está vivendo o desabrochar de sua faculdade mediúnica.
Ele tem mediunidade ostensiva, que, ao que tudo indica, se manifesta através da vidência.
Como você desejava muito que ele pudesse vê-la e ele naquele momento desejava a mesma coisa, embora sem acreditar que isto pudesse acontecer, vocês novamente entraram em sintonia, criando uma predisposição para que ele enxergasse seu corpo perispiritual.
- Eu desejei que ele me visse, é verdade...
Queria muito pedir que ele tivesse mais paciência com Aline, que cuidasse bem da irmã... - ela reconheceu.
- E por pouco não acaba falando o que não devia! - alertou Pablo.
Tem razão... Por sorte eu não cheguei a mencionar o bebé...
- Não devemos antecipar os factos desnecessariamente - lembrou Têmis.
- Só não pensei que ele fosse ficar com tanto medo! - disse Aretusa, outra vez com os olhos rasos d'água.
Pobrezinho... Pior é que ninguém acredita nele...
Será que não há nada que possamos fazer para ajudá-lo?
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:51 am

Se ele possui essa faculdade, precisa aprender a lidar melhor com ela!
- Vamos ver o que é possível fazer - prometeu Demóstenes.
Por hora, no entanto, faça o favor de ficar bem afastada de seu neto!
Horas mais tarde, depois que Noémia e as crianças foram dormir, Florence retomou o assunto com Paloma.
- Estou preocupada...
Tu achas que o Rafael vê mesmo essas coisas?
- Claro que sim! - respondeu Paloma, intuída por Demóstenes.
Isso é muito comum.
Seu filho é um médium.
- Eu te confesso que não entendo nada dessas coisas.
O que é um médium?
- Mediunidade é a capacidade que a pessoa tem de se comunicar com os seres que já passaram para o outro lado da vida.
Já ouvi dizer que todos nós somos médiuns, em alguma medida.
Alguns sentem apenas intuições, inspirações, palpites, urna dorzinha de cabeça quando entram em algum lugar muito carregado.
Outros, porém, tem a coisa mais aflorada.
Há os que ouvem vozes, os que escrevem mensagens, os que prevêem acontecimentos futuros e até mesmo os que são capazes de materializar espíritos.
Sabe uma óptima pessoa para conversar sobre isto com você?
Paloma se lembrou de repente, ainda intuída por Demóstenes.
- A Cenyra. Ela segue a doutrina kardecista, entende tudo de espiritismo!
- Ai, será que ela ainda está acordada a esta hora? - perguntou Florence, sentindo muita vontade de ouvir o que Cenyra tinha a dizer.
- Só um instantinho que eu vou ligar para ela! - disse Paloma, já discando o telefone.
Em poucos instantes, as duas chegavam à casa de Cenyra.
Ela estava sozinha na sala com sua imensa tapeçaria inacabada.
Luís Paulo ainda não voltara do trabalho, Vinícius e Chuva assistiam a um filme lá dentro, Vítor, como sempre, estava trancado em seu quarto.
- Vocês não reparem a bagunça.
Eu estava escolhendo algumas linhas para refazer a parte do desenho que acabei de desmanchar - ela explicou, recolhendo os novelos espalhados sobre o sofá e também alguns pedaços de fotos que ela havia acabado de colar..
- Você ainda não terminou essa tapeçaria? - admirou-se Paloma.
Mas você sempre foi tão rápida, eu me lembro que em dezembro ela já estava quase pronta! - ela esticou os olhos para verificar o andamento do trabalho.
Cenyra! Você desmanchou tudo! - ela admirou-se ainda mais.
- Desde que o Vítor começou com esta doença, eu nunca mais consegui me entender com este desenho.
Primeiro achei que estava vivo demais, então tirei todos os tons alaranjados e substituí por cores mais frias.
Depois achei que estava frio demais e comecei a substituir alguns azuis por cor-de-rosa...
Mas aí não gostei do tom e desmanchei tudo de novo - ela explicou, olhando para os poucos pontos que havia refeito na tela.
- Que curioso, a sensação que me dá é que tu ficas procurando uma cor para consertar a vida que levas do lado de fora da tapeçaria - observou Florence.
- Sabe que você tem razão?
Para ser sincera, cada vez que o Vítor tem uma crise mais grave, eu fico tão angustiada que desmancho tudo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:51 am

Só nestes últimos dias, quando ele pareceu melhorar um pouco, eu consegui recomeçar o trabalho.
Florence ficou um tempo olhando para Cenyra, sensibilizada com a ansiedade que ela parecia extravasar naquela tapeçaria.
Não tinha podido reparar da primeira vez em que haviam estado juntas, na festa de Jaqueline, mas era uma mulher doce, cuja beleza interior parecia estampada nos traços sofridos e delicados e até mesmo nas cores daquele pedaço de desenho que começava novamente a se delinear na tela.
Assim como aquele esboço de imagem, Cenyra trazia em si a essência de uma mulher atraente, de fala pausada e sincera.
Os cabelos curtos e louros davam-lhe um aspecto jovial.
Mas ainda assim dava para perceber que era uma mulher que há muito vinha passando por momentos difíceis.
- Você me lembra Penélope, a mulher do Ulisses da mitologia grega.
Quando o marido foi para a guerra de Tróia, vários homens começaram a cortejá-la, alegando que Ulisses jamais voltaria.
Diz o mito que esses pretendentes instalaram-se todos no palácio do herói, esbanjando os bens do marido ausente e pressionando a mulher a decidir-se por um deles.
Querendo fugir à decisão, ela então imaginou um ardil, dizendo aos pretendentes que quando acabasse de tecer a mortalha de Laerte, o pai de Ulisses, faria sua escolha.
Só que ela desfazia de noite o que tecia de dia, e assim o trabalho não avançava.
Com isso conseguiu enrolá-los por vinte anos, até que o marido voltasse - lembrou Paloma.
- Você e o Luís Paulo com essa mania de mitologia... - sorriu Cenyra, retomando seus pontos.
Só espero que não demore vinte anos até que Vítor fique curado - ela limpou uma lágrima que instantaneamente brotou-lhe no canto do olho.
- Mas, afinal, que desenho tu estás bordando? - Florence perguntou curiosa.
- É uma família de cactos diante de um oásis no deserto - ela esticou a tela para que Florence pudesse ver o traçado.
Veja só, este aqui parece até uma flor...
Na minha cabeça ele simboliza a mãe...
- E este aqui, mais altivo e espinhoso, deve ser o pai - deduziu Paloma.
- Sabe que eu também o achei com cara de pai? - ela sorriu de novo.
Eu gosto muito de cactos.
Eles representam a perseverança...
Mas certamente não foi para falar sobre cactos que vocês vieram até aqui! — ela prendeu a agulha no pano e virou-se disposta a ouvi-las.
- Não, não foi - admitiu Florence.
Paloma me trouxe porque também estou muito preocupada com meu filho...
Ela então narrou-lhe rapidamente tudo o que vinha acontecendo com Rafael nos últimos meses.
As visões, os avisos, o desespero do garoto cada vez que algo de incomum acontecia, sua dificuldade em acreditar no que o filho lhe narrava, as explicações de Paloma.
- Paloma não está errada.
Pelo que está me dizendo, seu filho necessita urgentemente procurar um centro espírita - avaliou Cenyra.
Quando este tipo de mediunidade aparece numa pessoa, é preciso que ela se instrua para que possa se relacionar com isso de uma maneira saudável.
O próprio Chico Xavier sofreu muito até aprender a lidar com sua mediunidade.
Não adianta a gente fingir que o fenómeno não existe.
Ele não deixa de existir simplesmente porque a gente não quer que ele exista.
Quando ele se manifesta de uma maneira ostensiva, como está acontecendo com seu filho, é porque ele precisa ser trabalhado.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:51 am

- A pessoa precisa aprender a se cercar de boas energias, a se sintonizar com bons espíritos, senão acaba servindo de canal para todo e qualquer espírito se manifestar, gerando sérios desequilíbrios - complementou Paloma.
- E como é que a pessoa faz para trabalhar sua mediunidade? - Florence queria entender.
- Escutem, amanhã é dia de sessão pública no centro que costumo frequentar, é uma reunião de estudos muito interessante.
Há tempos que eu estava querendo voltar a participar.
Agora que o Vítor parece estar mais calmo e que o Vinícius fica em casa o tempo todo, vocês não gostariam de ir comigo?
Se não me engano, no mesmo horário funciona uma escolinha de evangelização para crianças e pré-adolescentes.
O Rafael poderia ir connosco!
- Eu aceito - Florence concordou de imediato.
Há muitos anos sinto vontade de aprender sobre o espiritismo.
Eu simpatizo muito com essas ideias de Allan Kardec.
Até para conseguir compreender melhor essa necessidade que eu tenho de reencontrar o meu pai...
- Então está óptimo.
A reunião é às seis da tarde; dura mais ou menos uma hora.
No máximo, às sete e meia a gente está voltando para casa. - avisou Cenyra.
O centro é aqui pertinho, dá até para irmos a pé.
Florence achou o horário óptimo.
Assim sobrava bastante tempo para que depois pudesse ir buscar Moneda no aeroporto, como haviam combinado.
Durante todo esse tempo, os dois se falavam diariamente por telefone, era quase como seja estivessem namorando.
"Do centro eu pego um táxi directo para o aeroporto, o Rafael volta para casa com Paloma", ela logo planeou mentalmente.
O avião chegava às dez da noite.
Ela mal via a hora de poder ver Maurício de novo.
Depois de tudo combinado, Florence e Paloma já estavam se despedindo para irem embora, quando Florence reparou numa das fotos remendadas que estava ao lado da caixa de linhas de Cenyra.
Era uma foto de Vinícius recém-nascido no colo dos pais, que estavam cercados por vários amigos.
- Que coisa engraçada!
Este aqui não é o Maurício? - ela pegou a foto para ver melhor.
- É ele mesmo, dezoito anos atrás.
Ele e o Luís Paulo ainda eram recém-formados!
Tiramos esta foto no dia em que o Vinícius completou uma semana! - lembrou Cenyra.
- E esta aqui?
Quem é? - Florence perguntou intrigada.
Tu vais pensar que é mentira, mas esta pessoa é a minha cara há dezoito anos atrás!
- É mesmo! - concordou Paloma.
Se você morasse no Rio nesta época, ia dizer que era você quem estava na foto!
- Vocês têm toda razão.
A semelhança entre as duas é realmente impressionante, percebi isso desde a primeira vez que olhei para Florence, mas o Luís Paulo teimou comigo que não!
- E quem é ela? - insistiu Florence.
- Esta é Lorraine, a falecida esposa de Moneda.
Você nunca a tinha visto?
Florence desmanchou o sorriso e engoliu em seco.
Era como se um balde de gelo houvesse acabado de ser derramado sobre sua cabeça.
Aquele pequeno detalhe mudava tudo em sua relação com Moneda.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:51 am

- LVII -
- Ai, meu Saint-Germain, onde é que a Florence se meteu?
Paloma se perguntou, preocupada, tão logo despachou sua última cliente do dia.
Passavam das cinco da tarde e nada da prima.
Na noite anterior, Florence voltara esquisita para casa, mas dona Noémia estava tendo mais uma de suas crises, procurando Lucila por toda parte, e acabou que as duas nem tiveram chance de conversar.
De manhã cedo, Paloma encontrara apenas um bilhete na cozinha, onde a prima dizia que tinha saído para procurar emprego.
De facto, Paloma sabia que ela andava preocupada com sua situação financeira.
No dia anterior mesmo a vira pesquisando empregos no jornal.
Contudo, o que estava estranhando era que até agora Florence não houvesse dado nenhuma notícia.
Afinal, fazia mais de oito horas que ela estava na rua!
"Pior que nós marcamos às cinco e meia com a Cenyra lá embaixo, será que ela vai chegar a tempo?
E o Moneda que não pára de ligar para cá!
Que será que ele quer de tão urgente com ela?", Paloma tentou imaginar, enquanto espalhava fumaça de incenso em seu consultório improvisado, em seu costumeiro 'ritual de limpeza' de final de tarde.
- Saint-Germain, me inspira, me orienta!
Será que eu vou sem ela?
O pobrezinho do Rafael está há horas arrumado, esperando na sala!
Nem lanchou direito de tão ansioso!
Nesse momento, o telefone tocou e ela saiu correndo para atender:
-Alô? Moneda?
Não, ela ainda não chegou...
Não, ela também não ligou...
Não sei, também já estou começando a ficar preocupada...
Ela não tem hábito de fazer isso, nem conhece o Rio direito!...
Espere! Estou ouvindo barulho na fechadura, acho que é ela quem está chegando!
Era. Estava exausta e abatida, parecia mesmo que havia chorado o dia todo.
Ao ver a prima com o telefone na mão, foi logo fazendo sinal de que era para dizer que ela não estava.
- Não, não... Era a Chuva... - Paloma voltou ao telefone sem graça.
Tá... Eu digo que você ligou.
Outro... Faça uma boa viagem...
- Já não era para ele estar no avião? - perguntou Florence, assim que ela desligou.
- Era, mas acontece que houve um problema no aeroporto de Madrid - explicou Paloma.
Suspeita-se de uma acção terrorista.
Todos os voos foram suspensos até que a polícia termine de apurar os factos.
O coitado já ligou para cá mais de dez vezes, diz que tem algo de urgente para falar com você...
- Mas eu não tenho mais nada para falar com ele - ela disse, fria, colocando a bolsa sobre a cadeira.
- A gente não vai lá no tal centro, mãe? - perguntou Rafael.
- Vamos, filho.
Deixa eu só tomar um pouco de água.
Hoje foi um dia horrível...
- Tu não conseguiste nenhum emprego? - deduziu o garoto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:51 am

- Infelizmente não.
O máximo que consegui foi preencher uma ficha para trabalhar como vendedora no próximo Natal... - ela respondeu, arrasada.
Do jeito que as coisas estão, já estou pensando seriamente em voltar para o Sul.
Paloma foi atrás dela na cozinha:
- Florence, a mim você não engana!
Não é porque saiu um dia e não conseguiu emprego que você tem que voltar correndo para o Sul.
Cadê a sua determinação, a sua perseverança?
Fala a verdade, o que é que está acontecendo?
- Ai... Nada não... - ela respondeu desanimada, antes de virar seu copo de água.
Acho que fiz mesmo uma grande bobagem em largar meu emprego para vir para cá...
Não vou encontrar nunca o meu pai, essa história com o Moneda só serviu para me machucar ainda mais...
- Ah, Florence, vai me dizer que você ficou desse jeito só por causa da foto da mulher dele que viu na casa da Cenyra?
Até agora não entendi porque você ficou tão abalada com isso!
- Como não, Paloma?
A tal Lorraine era a minha cara; nunca me deparei com ninguém tão parecido comigo em toda a minha vida!
- E o que é que tem isso demais?
- Tem que ficou claro para mim que o Maurício nunca gostou de mim de verdade!
Ele vê em mim apenas uma continuidade da ex-mulher dele... - ela se deixou cair na cadeira arrasada.
- Será? - duvidou Paloma.
- Às vezes uma coisa que parece um mal pode nos ajudar a voltar para o caminho que tinha sido desviado...
Acontecimentos que nos parecem desastrosos representam escoras ao nosso equilíbrio e ao nosso êxito... - disse Rafael, parado à porta da cozinha.
- O que é que tu estás dizendo Rafael? - assustou-se Florence, reconhecendo aquelas palavras.
- Estava apenas me lembrando do recado que o seu Gentil pediu que eu te desse no dia em que ele morreu - respondeu o garoto, fortemente intuído pelo espírito Demóstenes, parado a seu lado.
-Ali, Rafael, tu não começas de novo com essas histórias não...
Eu estava quase desistindo de te levar nesse tal centro da Cenyra, não sabes?
Mas acabo de perceber que não tenho escolha. Vamos?
Nisso, Aline veio lá de dentro.
Também estava abatida.
Por mais que se esforçasse, Florence não conseguia descobrir o que havia de errado com a filha.
- Eu posso ir com vocês? - ela pediu tristonha.
Naquela manhã pegara o endereço do médico de abortos com a colega de escola.
Desde que voltara para casa sentia-se muito deprimida.
Com muito custo, Aretusa, Têmis, Pablo e Demóstenes, em esforço conjunto, haviam conseguido sugestioná-la para que fosse ao centro com a mãe e o irmão naquele final de tarde.
Na verdade, Aline nem sabia explicar como fora invadida por aquela súbita vontade de acompanhá-los.
A única certeza que tinha era de que estava completamente desesperada e necessitava muito ficar ao lado da mãe.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:52 am

- Mas tu não ias ficar com a tia Noémia para que Paloma pudesse ir? - perguntou Florence, preocupada em não magoar a prima.
- Não, deixa ela ir! - Paloma recuou de imediato, também intuída pelos benfeitores ali presentes.
Eu fico com a mamãe, num outro dia eu vou...
Cenyra já os esperava na porta do edifício.
Ao saber que ela era a mãe de Vítor e Vinícius, Aline ficou um pouco angustiada.
Sentia-se envergonhada por tudo o que acontecera com ela na noite em que estivera no apartamento com Vinícius.
Todavia, Cenyra era uma pessoa tão doce, tão delicada, que Aline não teve como não se sentir à vontade em sua presença.
Parecia mesmo que as duas já se conheciam há muitos e muitos anos.
Cenyra sentiu a mesma coisa com relação a ela.
- Vamos depressa senão perdemos a sessão - avisou, já puxando Aline pela mão.
Cruzaram rapidamente as ruas do largo do Machado em direcção ao Catete; em poucos minutos chegavam ao Centro Espírita Reduto da Paz, seguidos de perto por Têmis, Demóstenes e Aretusa.
- Os espíritos se manifestam aqui para as pessoas?
Eu não vou ver espíritos aí dentro, vou? - perguntou Rafael, curioso e ao mesmo tempo preocupado, no minuto em que cruzavam o pequeno portão da casinha antiga e modesta.
- Não precisa se preocupar com isto.
Esta noite você vai apenas conversar com outros meninos de sua mesma idade - garantiu Cenyra.
Recebidos de maneira extremamente carinhosa pelos trabalhadores daquela casa, Aline, Florence e Cenyra foram então encaminhadas para uma pequena salinha, enquanto Rafael era levado para o andar de cima, onde funcionava a Escola de Evangelização Infantil.
Demóstenes, Têmis e Aretusa também foram recepcionados calorosamente pelos espíritos que coordenavam os trabalhos daquele dia e logo se acomodavam em um andar invisível a olhos humanos, repleto de seres nas mais variadas condições que ali também encontravam-se para tomar parte na reunião de estudos que estava prestes a ser iniciada.
- De onde vêm todos esses espíritos? - perguntou Aretusa, admirada.
Alguns são trazidos de colónias como a nossa, com a finalidade de se instruírem, outros vêm junto com os encarnados, a quem obsidiam, e aqui recebem socorro e orientação.
Outros, ainda, são trabalhadores em serviço na crosta, como nós, e vêm para ajudar ou simplesmente para reequilibrar suas energias - esclareceu Demóstenes.
- Tão bom se Oto pudesse estar aqui connosco agora... - imaginou Têmis.
- E quem disse que ele não está? - sorriu Demóstenes.
Imediatamente as duas olharam para baixo, onde estavam sentados os encarnados, e o viram sentado no chão ao lado de Aline, como se fosse uma espécie de guardião de Odilie, a qual, por sua vez, encontrava-se agora adormecida sobre o ventre de Aline.
- Meu Deus! Como não reparamos que ele estava connosco? - estranhou Têmis.
- Vocês não perceberam, mas o tempo todo ele veio nos seguindo, esquivando-se por entre os postes e árvores do caminho para que não o notássemos.
Está tão preocupado com Odilie que não consegue sair de perto dela sequer por um instante - asseverou Demóstenes em sua calma habitual.
- E os demais trabalhadores da casa sabem que ele está aqui? -preocupou-se Aretusa.
- É claro que sabem, mas para que o socorro se efectue em casos como este, é preferível que o desencarnado pense que não está sendo visto - esclareceu o mentor.
- E ele não vê que a casa está cheia de espíritos? - insistiu Aretusa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:52 am

- Como seu padrão vibratório é muito baixo, ele divisa apenas aqueles que lhe são afins, mas acredita-se cercado apenas por encarnados - complementou Têmis, que já estava acostumada a frequentar centros como aquele.
A reunião ia começar.
O dirigente encarnado, um rapaz de aproximadamente trinta anos, cumprimentou a pequena plateia visível a olhos comuns.
Eram cerca de trinta pessoas, dispostas em cadeiras de plástico arrumadas em quatro fileiras.
O dirigente ficava a frente de todos, tal qual um professor escolar, diante de uma escrivaninha cheia de livros e de um quadro branco, desses que se escreve com pincel atómico.
Após sentida prece, pedindo a protecção dos mentores maiores para o estudo que seria realizado, ele então apresentou o tema da noite, já escrito no quadro:
- Nós hoje vamos falar sobre as causas atuais das aflições, segundo o capítulo quinto de O evangelho segundo o espiritismo.
Quem sabe me dizer o que é aflição?
- E o mesmo que agonia? - participou Cenyra.
- Para mim é um nervoso que dói na alma - opinou Florence.
- Não seria uma ansiedade? - questionou outra senhora.
E assim foram surgindo várias respostas da plateia.
Medo, angústia, quase desespero.
O dirigente anotou tudo no quadro, antes de virar-se novamente para a assistência:
-Aflição, na verdade, é tudo aquilo que se relaciona ao sofrimento - sintetizou o dirigente.
Quase sempre, estes sentimentos são acompanhados de reacções corporais, como dores no estômago, tremores, membros anestesiados, às vezes até rouquidão e afonia.
Nosso corpo expressa o resultado daquilo que sentimos.
Mas, quem sabe me responder, todo sofrimento na vida acontece devido ao destino?
Novamente a plateia se dividiu.
Uns achavam que sim, outros que não.
O dirigente contou as opiniões e anotou os números no quadro. Deu empate.
-Quer dizer então que metade das pessoas aqui presentes acha que tudo é culpa do destino -ele brincou.
Lamento, informar, todavia, que estes nossos amigos estão errados.
Entendendo como destino os factos que já vêm previamente determinados a acontecerem com uma pessoa, acredito que apenas vinte por cento de nossos sofrimentos, no máximo, possam ser creditados ao destino.
O restante estaria ligado a uma coisa chamada livre-arbítrio, que vem a ser a nossa liberdade de escolha - continuou.
Portanto, existem duas causas para as aflições que experimentamos na vida presente.
Algumas são, sim, resultantes de compromissos que assumimos no plano espiritual.
A maioria delas, porém, é uma consequência natural do carácter e do proceder daqueles que as suportam.
Na hora do desespero, a gente fica achando que tudo é consequência de dívidas que trazemos de outras vidas.
Mas vocês já pararam para pensar quantos de nossos problemas poderiam ter sido evitados se houvéssemos feito ou deixado de fazer alguma coisa na vida presente?
Quantos erros poderíamos evitar no nosso momento actual?
Silêncio geral.
Todos pareciam reflectir sobre a questão formulada.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:52 am

Sempre trocando perguntas com a plateia, dos males gerados por nossos próprios actos, o dirigente passou à importância da dor como mola propulsora da humanidade:
- Infelizmente, somos ainda crianças espirituais, que necessitam da dor para aprender o que deve e o que não deve ser feito.
Como dizia Allan Kardec, a dor é o aguilhão que faz com que avance a humanidade.
Algum de vocês sabe o que é um aguilhão?
- Não é uma espécie de ferrão usado para tocar o carro de bois? - disse um senhor.
- Exactamente.
E uma vara comprida com ferrão na ponta, usada para tanger os bois - ele desenhou no quadro uma espécie de gancho de três pontas para ilustrar o que estava dizendo.
Muitas vezes, a dor em nossas vidas atua como esta vara nos impulsionando para frente.
Se a vida coloca pedras e precipícios em nosso caminho, é porque quer que os atravessemos conscientemente, sabendo que nos compete romper todos os obstáculos para que conquistemos algo e não nos retiremos daqui com as mãos vazias.
- Mas será preciso sofrer para que possamos evoluir? - questionou outra senhora da plateia.
- Se não tivéssemos contacto com o lado ruim, não teríamos como dar valor ao lado bom - responde ele.
É necessário que saibamos extrair de cada experiência aquilo que ela tem a nos ensinar, ao invés de ficarmos nos lamentando, achando que não merecíamos isto ou aquilo.
Os senhores já repararam quantas vezes costumam repetir:
"Eu não merecia isso!"
Ou então:
"A vida é injusta comigo!"
Ou ainda:
"Todos os meus problemas são causados por minha família."
Quem da plateia nunca disse uma dessas frases?
Ouviram-se alguns risinhos aqui e acolá, havia também pessoas que sacudiam a cabeça para frente, em sinal afirmativo.
-Todo mundo já disse, não é? - prosseguiu o dirigente, fortemente inspirado pelos protectores espirituais invisíveis que o rodeavam.
Agora, digam lá: quem somos nós para julgar o que merecíamos ou não?
Deus é justo!
Se algo, portanto, nos acontece, é porque merecemos.
Seja por nossa imprudência actual ou de outras vidas.
Sabe lá o homem íntegro de hoje a que ou a quem está preso pelas vidas que viveu antes desta?
No entanto, tendemos sempre a achar que somos coitados quando atravessamos algum momento difícil em nossas vidas.
- Mas não é coitada uma pessoa que de repente perde tudo o que possui?
Ou outra que, da noite para o dia, perde um filho querido?
Ou ainda aquela que recebe a notícia de que sofre de uma doença incurável? - voltou a questionar a mesma senhora.
- Vamos por partes - disse o dirigente.
Primeiro de tudo, não devemos rotular ninguém de coitado, por pior que seja a dor que esta pessoa esteja passando.
Essa expressão tem um poder mórbido, capaz de fazer descer o nível moral do que mereceu tal comiseração.
Sem contar que carrega uma ideia de arrogante pretensão daquele que a emprega.
Não é coitado quem vive uma situação difícil, física ou moral.
Vamos trocar de óculos.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:52 am

Os senhores conhecem a história da vidraça?
A plateia fez silêncio, convidando-o a continuar.
- Faz um tempo que recebi esta historinha de um amigo pela internet, mas é mais ou menos assim - ensaiou o dirigente.
Um certo dia, uma mulher se levantou da cama, olhou pela janela e, ao ver sua vizinha estendendo o lençol no varal, disse ao marido:
"veja, querido, essa gente não sabe nem corno lavar direito um lençol!
O pano está completamente encardido!"
E assim, dia após dia, ela verificava as roupas de cama dos vizinhos no varal, repetindo sempre as mesmas observações.
Até que, numa determinada manhã, ela abriu a boca espantada e exclamou:
"Veja, querido!
Eles finalmente aprenderam a lavar seus lençóis!
Justo hoje que eu estava disposta a ir até lá para ensinar para eles como é que se faz!"
E o marido, muito calmo, respondeu:
"Não, querida, fui eu que limpei as nossas vidraças ontem à noite..."
Toda plateia caiu na gargalhada.
Até mesmo Oto, quieto em seu canto, não pôde evitar um discreto sorriso.
- Por isso, meus amigos - continuou o simpático rapaz —, devemos tomar sempre muito cuidado com o que vemos através das vidraças de nossa condição evolutiva.
Muitas vezes, além de limpar o vidro, é necessário trocar de óculos.
E por que não olharmos para a pessoa que passa por dificuldades corno uma criatura vivendo uma experiência necessária, corno alguém que precisa de estímulo que lhe alimente a coragem e a resistência em lugar da nossa arrogante piedade?
- Mas então corno devemos agir diante do sofrimento? - inquiriu um senhor que ainda não havia se manifestado.
- Aceitando nossas dores de maneira resignada? - opinou novamente Cenyra.
- Talvez um pouco mais do que isso - avaliou o dirigente.
Não basta sofrer, achando que temos de sofrer, porque aprendemos erradamente, ao longo de muitas gerações, que o sofrer em si é uma coisa boa.
É importante tentar descobrir as causas que provocaram o nosso sofrimento actual e lutar para combatê-las.
Porque, no final das contas, é muito cómodo sofrer, chorar pelo que a vida fez com a gente, ao invés de assumir a responsabilidade por nossos próprios actos que nos levaram a passar por esta ou aquela dificuldade.
Cabe, portanto, àquele que sofre, reagir, não se entregar simplesmente ao sofrimento, como se isso bastasse para o seu aperfeiçoamento.
Precisamos ser fortes e corajosos, fazer frente ao que a vida colocou diante de nós.
Nenhum pai envia um filho para executar uma tarefa, sabendo que este filho não está apto a cumpri-la.
Da mesma forma, Deus jamais nos dá provas superiores às nossas forças.
Sabendo disso, devemos agir sempre como um soldado confiante em seus superiores, seguro de que eles sabem onde o enviam e porque o enviam.
- Mesmo quando estivermos numa situação que temos a certeza de que não temos condições de suportar? - Aline não pôde se conter.
- Não duvides nunca do amparo d'Aquele que jamais daria pedra a quem lhe pedisse pão.
Se nós, que somos humanos, falíveis e ainda tão cheios de defeitos, temos tanto amor por nossos filhos, que nascem de nós sem que tenhamos lhes criado a alma, de que tamanho não será o amor do Pai que nos criou para que um dia nos tornássemos seres perfeitos e nos acompanha a cada passo de nossa evolução?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:52 am

Deus é tão bom que jamais nos deixa sozinhos.
Se a gente tem de passar por alguma dificuldade, podem ter certeza de que sempre haverá em nosso caminho amigos ali especialmente posicionados para nos ajudar.
Não só amigos encarnados, como também amigos desencarnados, seres que nos acompanham desde que deixamos o plano espiritual dispostos a vivenciar mais uma experiência reencarnatória, que nos orientaram no planeamento desta experiência e que jamais nos abandonam.
Ao ouvir isso, Têmis não pôde conter as lágrimas.
Enquanto o dirigente encerrava a reunião de estudos com uma prece de agradecimento, do alto do salão caía uma chuva de pétalas vermelhas e orvalhadas que envolviam a cada um dos presentes como beijos invisíveis da espiritualidade maior.
De sua cadeira, ela olhava para todos aqueles encarnados, para todos os espíritos necessitados que ali se encontravam e condoía-se em pensar que nenhum deles tinha noção do quanto era protegido e amado pelos seres celestiais que ali se reuniam para favorecê-los com suas bênçãos de luz.
- Como acaba de dizer o nosso amigo dirigente, ninguém é coitado, querida Têmis - lembrou Demóstenes.
Um dia todos eles terão noção do quanto é grande o trabalho da espiritualidade, do quanto estão equivocados ao se julgarem sós e desamparados.
Mas é necessário que cada qual descubra isso por si próprio.
Trata-se de uma importante etapa evolutiva que todos um dia terão de vencer.
Enquanto isso, no andar debaixo, Oto também chorava.
Ao ouvir tudo aquilo, lembrara-se do abnegado trabalho dos espíritos que, por duas vezes, o haviam acolhido na colónia Renascer.
Em seu íntimo, reconhecia o quanto o haviam ajudado, embora não se julgasse merecedor de toda aquela ajuda.
Este era seu grande problema.
As culpas que carregava consigo não permitiam que aceitasse as bênçãos que reconhecia lhe serem constantemente dirigidas de mais alto.
O ódio imenso que sentia por Vítor fazia com que se sentisse um ser inferior, impulsionando-o a continuar a agir como tal.
Instantes depois, Cenyra, Florence, Aline e Rafael deixavam o local com uma incrível sensação de leveza.
Aretusa, Pablo e Oto, que continuava imaginando poder se esconder do grupo, seguiram com eles.
Têmis e Demóstenes ainda permaneceriam no centro por algumas horas, ajudando nos trabalhos de assistência aos espíritos necessitados que haviam sido socorridos naquela noite pelas equipes que ali se encontravam de plantão.
- E aí, gostaram? - perguntou Cenyra, após caminharem quase um quarteirão inteiro em silêncio.
- Nossa, eu adorei! - Rafael foi logo o primeiro a responder.
Sabem que na minha sala tinha um menino com o mesmo problema que eu?
A professora explicou que, com o tempo, iremos desenvolver esta nossa faculdade e um dia ainda seremos muito úteis nos trabalhos da casa - ele comentou todo orgulhoso.
Ela disse que somos médiuns e que pessoas assim têm a missão de ajudar não só aqueles que as rodeiam, mas também aqueles que já passaram para o outro plano...
- O-lho-lhó! Mas quanta coisa tu aprendeste! - observou Florence, admirada.
- É muito legal estudar sobre essas coisas, descobrir que elas não acontecem apenas comigo, não sabem?
Eu estava até pensando em trazer a Clarinha na próxima vez que viermos.
Aposto como ela também vai gostar!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:53 am

Ao lado da sala que eu fiquei, havia uma turma só de crianças da idade dela!
- É uma óptima ideia, viste? - concordou Florence.
Puxa, eu também gostei tanto dessa casa.
Nunca imaginei que um centro fosse assim, não sabem?
Aquele rapaz, o dirigente, é tão novinho, mas quando fala parece um espírito muito elevado.
Ele com certeza deve estudar muito sobre o espiritismo.
Aliás, olhando para ele eu tinha a sensação de que tinha uns cinco metros de altura, nem sei explicar porquê.
Estou até agora sem conseguir parar de pensar nas coisas que ele falou...
- Há anos que eu frequento esse centro - contou Cenyra.
O que eu acho mais impressionante é que sempre saio daqui me sentindo muito melhor do que entrei.
E como se, durante a palestra, os espíritos me dessem uma injecção de força, de ânimo, sei lá...
É uma sensação de paz tão gratificante...
Mas por que você está tão quieta, Aline? - ela observou, percebendo que Aline era a única que não parecia contagiada pelo mesmo entusiasmo do grupo.
- Aline! - Florence chamou, estranhando o silêncio da filha.
- Hã? Ali!
- Foi legal... - ela respondeu, distante.
A verdade era que, em poucos instantes, sua sensação de leveza havia se transformado em peso.
"Como é que eles iriam reagir se eu dissesse agora que estou grávida?", ela pensava consigo preocupada.
"Garanto que num minuto esqueceriam de tudo o que acabaram de ouvir lá no centro.
Só queria ver a cara da minha mãe, se ela ia continuar sentindo toda essa paz que a Cenyra falou...
Coitada dessa Cenyra...
Tão legal e, no entanto...
Será que ela tem noção do bicho que ela tem em casa?", Aline questionou, lembrando-se de Vinícius com enorme ressentimento.
- Seus pensamentos de ódio estão destruindo toda a aura de luz que havia se formado em torno dela! - constatou Aretusa, chocada.
- Infelizmente, isto acontece com muitas pessoas que vão a um centro espírita e não se preocupam em manter seus pensamentos elevados quando saem de lá, de modo a prolongar ao máximo a sintonia com a espiritualidade maior - observou Pablo.
Depois saem dizendo por aí que o problema é da casa, que não transmite coisas boas àqueles que a frequentam...
"Quer saber?", Aline continuava fixada em seu negativismo.
"É muito bonito esse negócio de dizer que os espíritos nos ajudam, que estão sempre junto da gente etc. e tal.
Mas só queria ver, se eu tivesse essa criança, se algum deles ia se materializar do meu lado para me ajudar a trocar as fraldas ou fazer a mamadeira na hora em que o neném estivesse chorando..."
- Não diga isso, minha filha!
Eu sempre vou estar a seu lado! - protestou Aretusa, angustiada com aquele comentário da neta.
- Não adianta.
Ela está tão revoltada que repeliu todas as energias que lhe foram enviadas - lamentou Pablo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:53 am

"De mais a mais, se isto fosse verdade", continuou Aline, alheia às palavras carinhosas da avó, "eu não estaria agora nesta situação.
Os tais protectores espirituais estão sempre a nosso lado, mas nenhum deles conseguiu me ajudar na hora em que o Vinícius entrou no quarto!", ela imaginou, sentindo muita raiva das palavras que ouvira do dirigente da reunião.
- Ela não reteve nada do que foi dito! - angustiou-se Aretusa.
- Não compartilhe o radicalismo de sua neta.
Pense que a semente foi plantada.
Se o solo for fértil, no momento certo ela brotará - aconselhou Pablo.
"Amanhã cedo, eu vou ligar para esse tal médico que faz abortos", decidiu Aline, lembrando-se do dinheiro na gaveta do escritório, para desespero ainda maior de Aretusa.
"A Verónica disse que fica no Méier, não deve ser difícil chegar lá.
Se o dinheiro for suficiente, amanhã mesmo eu vou lá...
Será que funciona no sábado?"
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:53 am

- LVIII -
- Ela vai abortar a criança!
Você precisa fazer alguma coisa! - Vítor, em sonho, viu Oto dizendo para ele.
Pulou da cama transtornado.
Estava suando.
Era a primeira vez que sonhava com aquele homem que vira em sua viagem regressiva.
"Seria um aviso?", perguntou-se angustiado.
Fazia mais de uma semana que ouvira de Aline a revelação de que ela estava grávida e até hoje não conseguira tomar coragem de procurá-la novamente.
Com o coração disparado, aguardou por alguns instantes, com medo de que 'a coisa' estivesse por perto, mas nada aconteceu.
Curiosamente, a voz também não havia voltado a molestá-lo desde a tarde em que ouvira de Aline aquela revelação.
Será que o obsessor havia desistido de importuná-lo?, cogitou em silêncio.
Oto, contudo, estava a seu lado, mais agitado do que nunca.
A diferença era que agora precisava muito de sua ajuda e por isso não queria mais assustá-lo, embora não o tivesse perdoado.
A experiência regressiva de Vítor também mexera muito com ele.
Curiosamente, desde a tarde em que revira seu passado ao lado de Vítor, no consultório de Olívia, readquirira seu corpo daquela encarnação, que vinha a ser o mesmo que conseguira restituir através da hipnose com o doutor Milton Daves no plano espiritual.
- Será que você vai carregar para sempre essa culpa?
Será que vai ter coragem de cruzar seus braços novamente? - ele não pôde se conter.
Vítor ouviu e sentiu um arrepio.
Imediatamente entendeu que o obsessor continuava a seu lado.
- O que você quer que eu faça? - disse alto, querendo que ele o escutasse.
- Não deixe que ela mate a criança! - pediu Oto, nervoso.
Neste momento, Cenyra entrou no quarto e ele se escondeu depressa.
- Está tudo bem, filho?
Tive a impressão de tê-lo ouvido gritar...
Vítor chegou a abrir a boca, disposto a contar à mãe tudo que acabara de ouvir, mas desanimou antes de articular a primeira palavra.
Como iria explicar a ela tudo o que acontecera na noite da festa?
Como iria fazer com que ela entendesse aquele triste ocorrido se nem ele mesmo tinha certeza de sua participação no facto?
Era melhor não dizer nada.
- Foi só um pesadelo... - ele despistou.
Está tudo bem.
Depois que ela deixou o quarto, Vítor continuou debatendo o assunto consigo próprio, sempre observado de perto por Oto.
"Se eu ao menos tivesse a certeza de que foi de facto Vinícius quem violentou Aline....
Por que não consigo me lembrar onde estava no momento em que tudo aconteceu?
E se ela estiver esperando mesmo um filho de Vinícius, será que devo interferir?
Não seria melhor deixá-la abortar a criança e encerrar de uma vez aquele capítulo doloroso de nossas vidas?
Será que eu teria coragem de assumir um relacionamento com ela?"
Ainda influenciado pelas ideias de Oto, lembrou-se então das palavras que ele mesmo dissera quando regredido.
"Ao descobrir que estava grávida ela me procurou, desesperada, e eu então mandei que a aprisionassem, para que ele jamais viesse a saber da verdade...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:53 am

Tenho muitos contactos na Gestapo e me sinto orgulhoso por poder resolver meus problemas desta maneira..."
Será que estaria repetindo seu mesmo procedimento da outra encarnação?
Teria mesmo ainda algo em comum com aquele homem prepotente, egoísta e vaidoso que vira em seu passado?
O dia amanheceu sem que ele conseguisse chegar a uma conclusão.
Enquanto isso, no andar debaixo, Paloma pressionava Florence para que atendesse Moneda ao telefone:
- Desde ontem, eleja ligou mais de vinte vezes para cá, insiste que tem algo urgente para falar com você!
Escute pelo menos o que ele tem a dizer, Flor!
- Está bem - Florence concordou finalmente.
Eu vou falar com ele.
- Alô? Florence? - ele perguntou angustiado do outro lado da linha.
Até que enfim, já estava começando a achar que você não queria falar comigo...
Cheguei hoje, de madrugada e...
- Paloma me disse que tu tinhas algo urgente a me falar - ela desconversou.
- Sim, eu tenho...
Mas você está fria...
Aconteceu alguma coisa?
- Tu tens ou não tens algo de urgente para me falar? - ela insistiu, quase ríspida.
-Tenho. E sobre seu pai.
Luís Paulo finalmente conseguiu localizá-lo.
- Verdade? - ela perguntou ansiosa.
Onde ele mora?
Tu não podes me passar o telefone?
- Preferia conversar com você sobre isso pessoalmente. Você...
- Mas por que pessoalmente?
Tu não estás usando isso como uma desculpa para me ver, estás?
- Não, Florence, eu não estou, embora queira muito entender o que mudou entre nós para você estar agindo deste jeito.
Mas é realmente muito delicado o que eu tenho a dizer...
- A que horas tu podes me encontrar? - ela perguntou, querendo resolver logo as coisas.
- Ainda preciso passar na emissora para entregar alguns contractos.
Te pego à uma hora para almoçar, está bem assim?
Florence não teve outra alternativa senão concordar.
Passou o resto da manhã reflectindo sobre como iria dizer a ele que não queria ser uma extensão de sua ex-mulher, ao mesmo tempo em que se inquietava pensando sobre o que de tão delicado ele teria para revelar-lhe a respeito de seu pai.
Completamente indiferente a suas preocupações, Aline levantou quase na hora do almoço, comeu rapidamente um pedaço de pão e desceu, sem que ninguém percebesse, disposta a ligar do orelhão para o médico de abortos e marcar uma consulta para aquele dia.
O tempo todo, Têmis, Demóstenes, Pablo e Aretusa revezavam-se a seu lado, em supremo esforço para passar-lhe energias salutares e acalmar seu espírito, lutando para convencê-la a reflectir melhor sobre aquela ideia.
Aline, contudo, parecia envolvida por uma redoma particular e inquebrantável, erguida por seu próprio sentimento de ansiedade extrema, que lhe impedia qualquer contacto com as entidades de luz que a rodeavam.
Incansáveis em sua tarefa, eles faziam de tudo para tentar intuí-la de sua presença, como se batessem na redoma, dizendo:
"tenha calma, estamos aqui!".
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:53 am

Mas Aline, ainda assim, parecia obcecada para levar a termo suas últimas resoluções e não conseguia pensar em outra coisa senão em marcar logo a consulta com o tal médico.
- Será que não existe um meio de escondermos o dinheiro que ela pensa em usar para fazer o aborto?
Não poderíamos fazer com que ele desaparecesse por alguns dias? - perguntou Aretusa, mais uma vez querendo interferir de maneira directa na vida de seus entes queridos.
- Querida irmã, quantas vezes teremos de lembrá-la de que não podemos interferir no livre-arbítrio dos encarnados? - ponderou Demóstenes.
De mais a mais, não temos autorização para realizar este tipo de fenómeno...
Nossa tarefa não é realizar coisas fantásticas, mas dar apoio aos que precisam de nós...
- Irmão Demóstenes, será que não poderíamos ao menos dificultar um pouco as coisas para que Aline tivesse ao menos um pouco mais de tempo para repensar sua decisão? - insistiu Têmis, compreendendo a aflição da amiga.
- Como assim? - tentou entender Pablo, sem tirar os olhos de Aline, que se mantinha sentada sozinha e pensativa no gramado em frente ao orelhão.
- Pensei em Lucila... - explicou Têmis.
Ela parece que até hoje não se deu conta de que deixou na gaveta aqueles mil dólares...
- É verdade! - concordou Aretusa animada.
Provavelmente ainda não precisou do dinheiro, Lucila de certo deve imaginar que esteja guardado junto com o restante de suas economias!
- Não deixa de ser uma boa ideia - avaliou Demóstenes.
Sim, nada nos impede de fazer com que Lucila verifique o dinheiro guardado.
Isto nos é possível.
- E como vamos fazer isto? - inquietou-se Aretusa.
- Poderíamos conversar com ela durante seu período de sono ou então intuir-lhe essa ideia, mas é necessário que tenham claro que nem sempre o encarnado consegue captar a mensagem que tentamos lhe transmitir no momento que desejamos.
E necessária toda uma afinidade, toda uma sintonia para que a comunicação se verifique.
Não fosse assim, a própria Aline já teria se convencido com nossos argumentos - ressalvou Demóstenes.
- Eu poderia tentar! - ofereceu-se Aretusa.
Não se lembram daquela noite em Florianópolis em que Lucila devorava uma travessa de grústolis?
Ela captou de imediato minha sugestão!
O grupo de espíritos ainda discutia a melhor maneira de intuir Lucila, quando Aline voltou a se aproximar do orelhão e a discar para a clínica.
- Mas ele não atende nos sábados? - ela perguntou, nervosa, para a secretária na linha.
- Sim, normalmente ele atende, mas é que hoje foi o dia da missa de um mês de falecimento do filho dele, por isso ele não veio trabalhar.
- Mas é uma emergência, não posso esperar mais para fazer o que eu preciso fazer!
Será que não tem jeito de tu falares com ele e perguntar se ele não pode me atender no final da tarde?
- Eu vou entrar em contacto com ele e ver o que é possível.
A senhora gostaria que eu retornasse a ligação ou a senhora mesma volta a ligar? - disse a secretária, já acostumada a lidar com aquele tipo de situação.
- Eu volto a ligar - disse Aline, apoiando o telefone no ombro para poder estalar os dedos das mãos.
Em quanto tempo?
- Daqui a uma meia hora, está bem?
Acredito que ele deve estar chegando agora da missa - calculou a secretária.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:54 am

De facto estava.
Por uma dessas coincidências que ninguém consegue explicar, Aline havia conseguido justamente o telefone do consultório de Faustino, que acabava de voltar da missa de Binho.
Ao pegar o elevador para voltar para casa, ela encontrou Faustino e Jaqueline, que subiam da garagem.
- Aretusa, espere!
Não entre agora, eu... - Demóstenes tentou alertá-la, no momento em que ela adentrava o elevador atrás da neta.
- Como espere?
Não podemos sair de perto dela! - teimou Aretusa, negando-se a ouvir o que Demóstenes tinha a dizer, ainda sem reparar nas outras pessoas que estavam no elevador.
Ao ver Aline, Faustino imediatamente a reconheceu.
Teve ímpetos de abraçá-la e ajoelhar-se a seus pés pedindo perdão.
A morte de Binho o deixara extremamente sensível; há dias tentava tomar coragem para procurar a filha e os netos.
Conteve-se, porém, ao encontrar-se com o olhar altivo de Jaqueline.
Afinal, como faria para explicar a esposa todo o seu passado?
Em instantes, sem se dar conta de que se encontrava rodeado de espíritos que podiam ter acesso a todos os seus pensamentos, ele reviu todo o seu passado, desde o momento em que abandonara a antiga esposa, fixando-se nas imagens desalentadoras de seu trabalho na clínica.
Sem nem por um instante imaginar quem ele era ou o que passava por sua cabeça, Aline olhou para ele e sentiu muita vontade de dizer alguma coisa.
Afinal, chegara a conhecer Binho na festa, ainda que muito rapidamente.
Sem contar que Clarinha praticamente vivia no apartamento de Paloma, andando para cima e para baixo com Rafael, já era quase uma pessoa da família.
Em nome dela, Aline se solidarizava ainda mais com Faustino e Jaqueline naquela triste situação.
- Eu sinto muito pelo que aconteceu - ela ensaiou sem graça.
- Eu... eu agradeço as suas condolências - respondeu Faustino, limpando com um lenço os olhos húmidos.
- Ali... - suspirou Jaqueline afectada.
Era estranho, mas embora estivesse toda vestida de preto, ela não parecia nem um pouco abalada com a morte do filho.
Acabamos de voltar da missa dele...
O que é que se há-de fazer?
Eu já disse a meu marido, o pior é ficar em casa, lembrando o tempo todo...
Acho que o melhor que tínhamos a fazer neste momento era passar uma temporada em Paris, mas ele insiste em não querer viajar...
Aline abriu a boca de espanto.
"Como ela podia ser tão fria?
Tão fútil?", ela não pôde deixar de perguntar-se.
Nesse momento, o elevador chegou ao segundo andar e ela desceu, sem sequer por um instante associar a missa de Binho à missa do filho do médico com quem desejava consultar-se.
- Aretusa, vamos! - chamou Demóstenes, convidando-a a descer.
Ela, porém, parecia congelada no elevador, olhando aterrorizada para Faustino e Jaqueline.
Pablo então seguiu com Aline e Demóstenes e Têmis permaneceram no elevador, tentando fazer com que Aretusa reagisse.
- Aretusa, fale connosco, por favor - pediu Têmis.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:54 am

- Ela está em estado de choque! - verificou Demóstenes, no momento em que Faustino e a esposa deixavam o elevador.
Não estava preparada ainda para rever o ex-marido neste momento, e muito menos para ter acesso a tudo o que havia acontecido após a separação...
Eu bem que tentei evitar, mas ela não quis me ouvir! - ele argumentou preocupado, enquanto procurava ministrar-lhe passes revigorantes.
Aretusa, no entanto, parecia magnetizada pelas próprias recordações, era quase como se houvesse entrado numa espécie de coma.
- Agora entendo porque o irmão Guilhôme resistiu tanto em autorizar esta visita - observou Têmis, compungida.
E agora, o que faremos?
- Vou pedir reforços à colónia! - anunciou Demóstenes, concentrando-se numa prece.
Algum tempo depois, diversos médicos e enfermeiros da colónia Renascer chegavam ao local e, com a ajuda de Têmis e Demóstenes, deitavam Aretusa numa espécie de maca fluídica, sobre a qual havia um travesseiro munido de recursos electromagnéticos especiais.
- O irmão Guilhôme recomendou a imediata internação da enferma em hospital adequado, onde lhe será aplicada a sonoterapia, acompanhada de alguns exercícios de narcoanálise para que lhe sejam exumadas as informações a que teve acesso antes do momento devido.
E necessária muita cautela a fim de que ela, em função disso, não se precipite em mergulhos de memória alusivos a outras existências em que manteve ligação com as mesmas pessoas que deflagraram o choque - explicou o orientador da equipe médica que cuidava de sua remoção.
- E como vamos fazer para intuir Lucila sobre o dinheiro? - perguntou Têmis, ainda compungida com a cena.
- Eu mesmo irei até lá - prometeu Demóstenes.
Parado ao lado do carro estacionado na calçada em frente ao edifício, Maurício Moneda, enquanto isso, aguardava ansioso a chegada de Florence que, como sempre, estava atrasada.
- O que aconteceu?
O que foi, afinal, que tu descobristes sobre meu pai? - ela perguntou, esbaforida, antes mesmo de cumprimentá-lo, tão logo acabou de descer a escadaria do prédio.
- Entre - convidou Moneda, abrindo a porta do carro.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:54 am

- LIX -
Arrasados depois de assistirem à missa de Binho, Chuva e Vinícius resolveram descer para dar uma volta no parque.
Vinícius estava bem melhor, o médico autorizara pequenos passeios na cadeira de rodas.
- Vocês vão sair de novo? - perguntou Vítor, vendo-a passar protector solar no rosto de Vinícius.
- Vamos até o parque, tomar um pouco de sol - explicou Chuva.
O médico falou que a vitamina contida nos raios solares ajuda na recomposição e no fortalecimento dos ossos.
Além disso, minha mãe sempre diz que os raios de sol revigoram as energias e ajudam a dissolver a tristeza dentro de nós - ela acrescentou, séria, enquanto fechava o frasco de protector solar.
- Mas a esta hora? - estranhou Vítor, verificando o relógio e vendo que era quase uma e meia da tarde.
- O que é que tem?
O céu está nublado, está um mormaço agradável - disse Vinícius, de olhos ainda muito inchados de tanto chorar na missa.
Acho que, se eu não for tomar um pouco de sol agora, não vou conseguir segurar minha depressão...
- Eu vou com vocês - Vítor decidiu num ímpeto.
Também sentia uma urgente necessidade de respirar um pouco de ar puro.
De mais a mais, não queria ficar sozinho em casa.
Luís Paulo, como sempre, estava no trabalho, Cenyra tinha descido para fazer umas compras para o almoço assim que Vinícius e Chuva haviam chegado.
"Será que eu já estou preparado para isto?", Vítor ainda perguntou-se, no momento em que se viu no corredor.
Já desciam pelo atalho de pedras em frente ao prédio que ia dar no parque quando, tomado por uma súbita intuição, Vítor, sempre muito ressabiado, olhou para trás e viu Aline no orelhão.
"E agora? O que é que eu faço?", ele parou no meio do caminho, sem saber se seguia ou se voltava.
Moneda e Florence, enquanto isso, chegavam a um elegante restaurante no Leblon.
O clima era de pesado suspense.
Maurício negara-se a dizer qualquer coisa no caminho até lá; ela se calara zangada, achando que tudo não passasse de uma armação para obrigá-la a estar ali com ele naquele momento.
Na verdade, ele ainda procurava as palavras para relatar a Florence a lamentável descoberta que ele e Luís Paulo haviam feito sobre seu pai.
Era um restaurante espanhol, badaladíssimo no momento e muito requintado.
Havia sido projectado para ser uma réplica de um outro restaurante em Madrid, ainda mais famoso, que fora construído nas ruínas de uma antiga igreja renascentista.
- Você vai querer beber o quê? - ele perguntou, educado, sob o olhar atento do garçom.
- Uma água mineral com gás - ela respondeu, ainda zangada.
- Então o senhor traga, por favor, uma água mineral com gás, um suco de abacaxi com hortelã e uma entrada de favas com presunto e blazei... - ele disse, fechando o cardápio.
- Blazei? O que é que é isso? - estranhou Florence, não conseguindo se conter depois que o garçom saiu.
- Se você visse o programa "Isto é Incrível", saberia... - ele respondeu bem-humorado.
É um cogumelo raro, que somente pode ser cultivado em uma determinada latitude do planeta, o paralelo vinte graus sul, no trópico de capricórnio, que passa apenas por Minas Gerais, São Paulo e por uma região da África.
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:54 am

Segundo demonstram as pesquisas científicas, o blazei possui a propriedade de aumentar a imunidade do organismo, sendo, por isso, muito procurado no mercado internacional, onde é utilizado como complemento alimentar.
- Puxa, e o Brasil produz esse cogumelo? - ela quis confirmar.
- A produção vem crescendo dia após dia, porque a demanda mundial é muito grande, sobretudo do Japão e dos Estados Unidos.
Em nosso país propriamente dito, ele pode ser achado em algumas farmácias homeopáticas, mas é raríssimo encontrá-lo como condimento em algum restaurante.
Até por isso quis experimentar...
Dizem que seu consumo frequente aumenta também a longevidade das pessoas - ele explicou.
Nesse momento, o garçom chegou trazendo as bebidas.
- Até agora estás me enrolando - ela disse, após um longo gole de água.
Tu bem sabes que não foi para falar de cogumelos que eu vim até aqui...
Moneda também tomou um longo gole de suco antes de responder.
Era como se estivesse com receio de expor o que tinha para dizer.
- Está certo - ele concordou por fim.
Como te prometi da última vez em que estivemos juntos antes de minha viagem, eu movi mundos e fundos para encontrar teu pai... - ensaiou vacilante.
- E encontraste ou não encontraste? - Florence ainda não se convencera.
- Encontrei - ele disse, após mais um gole de suco.
Há cerca de uma semana nós conseguimos entrar em contacto com Louise, a secretária do programa.
Ela voltou antes que terminassem suas férias e localizou finalmente o bloquinho de anotações onde Luís Paulo havia anotado o telefone de seu pai...
- Uma semana?
Mas por que Luís Paulo não me avisou nada?
Porque ligou para ti na Espanha ao invés de entrar em contacto comigo que moro no apartamento embaixo do dele?
E por que tu não me falaste nada nas várias vezes em que me telefonaste nesse período? - inquietou-se Florence.
- Espera - ele pediu, enquanto o garçom aproximava-se para servir a entrada.
Florence não conseguia entender a razão de tanto mistério.
Estava com tanta raiva que tinha ímpetos de pegar aquele prato de favas com os tais cogumelos e lançá-lo contra o rosto de Moneda.
Por que ele estava fazendo isso com ela?
Não bastava ter usado seus sentimentos, sua boa-fé e sua imagem para fazê-la passar por uma continuidade de sua ex-mulher morta?, perguntava-se indignada.
- Ligamos para lá e descobrimos que o telefone era de uma clínica ginecológica - ele prosseguiu, depois de tomar seu último gole de suco para ganhar tempo.
Da Espanha, dei ordens então para que colocassem um detective no circuito.
Antes de te dar qualquer notícia, queria descobrir quem era exactamente o seu pai e que motivos ele tinha para negar-se a vê-la.
Nessa confusão, acabei descobrindo que ele vinha a ser a pessoa que há anos eu procurava... - ele abaixou os olhos, triste.
- Que tu procuravas?
Como assim? - Florence não conseguiu entender.
- Não sei como te dizer isto, mas...
- Fale de uma vez! - Florence não podia mais suportar aquela espera.
- Seu pai...
Seu pai é um médico de abortos - revelou Moneda, constrangido.
Foi ele quem matou minha esposa...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:55 am

- Meu pai, um médico de abortos que matou tua esposa? - Florence mal podia crer no que ouvia.
Como pode ser isso?
Profundamente embaraçado, Maurício então narrou-lhe toda a história da morte de Lorraine.
Os dois namoravam desde adolescentes, casaram-se assim que ele se formou em jornalismo e foi contratado pela TV Paladium.
Logo em seguida, ela engravidou.
No mesmo dia em que ela ficou sabendo da gravidez, porém, ele chegou em casa com a notícia de que havia sido convidado a morar em outro país, onde trabalharia como repórter internacional da emissora.
Lorraine, que era uma mulher profundamente insegura e ciumenta, ficou com muito medo de que ele não aceitasse o cargo por causa de sua gravidez ou então que decidisse deixá-la no Rio até que a criança nascesse.
Por causa disso, não disse nada a ele sobre o exame e decidiu, por conta própria, fazer o aborto.
- Só que ela estava grávida de gémeos, já entrando no terceiro mês de gestação.
Em consequência do aborto, teve urna hemorragia muito forte, entrou em profunda depressão e acabou morrendo, uma semana depois - ele explicou, com lágrimas descendo pela face.
O tempo todo ela se negava a ir ao médico.
Eu só vim a saber de tudo em seus últimos momentos de vida...
Depois que ela se foi, eu entrei em parafuso...
Minha vontade era de achar o irresponsável que tinha matado minha mulher e meus filhos, denunciá-lo às autoridades competentes, impedir que ele voltasse a fazer isto com qualquer outra pessoa!
- E por que não fez isso? - Florence, também em lágrimas, esqueceu por instantes do pai, da fisionomia de Lorraine e de todos os motivos que minutos antes a levavam a sentir raiva de Moneda e segurou sua mão com carinho.
Sentia-se profundamente tocada por aquela história, como se de alguma maneira também a tivesse vivido.
- Eu não fiz isso porque, na época, tudo o que eu sabia era o primeiro nome dele, que Lorraine deixou escapar pouco antes de morrer...
Doutor Faustino.
- Espere um pouco! - Florence soltou novamente sua mão, sentindo uma espécie de alívio.
Tu estás equivocado!
Meu pai se chamava José e não Faustino!
- Aí é que você se engana - insistiu Moneda, olhando-a no fundo dos olhos.
O nome dele é José Faustino da Silva Filho.
Ainda nervoso, ele então explicou a ela sobre o problema do registo de Faustino e de sua própria certidão de nascimento, que o excelente detective contratado pela emissora também conseguira descobrir no cartório.
- Isto pode até ser verdade, mas o que te garante que esse médico que descobriste é o mesmo que matou sua esposa?
Existem milhares de Faustino no mundo! - argumentou Florence, preocupada em tirar mais aquela culpa dos ombros do pai, já tão maculado nos últimos minutos.
- A questão, porém, é que Louise ligou para o consultório fazendo-se passar pela minha esposa.
Disse que fazia muito tempo que havia estado no consultório, que estava precisando de um novo atendimento e queria saber se eles ainda tinham a ficha dela.
E a secretária do consultório confirmou... - disse Moneda, segurando novamente nas mãos de Florence, como se pedisse desculpas por aquela confirmação.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:55 am

Ela chorou por alguns instantes, olhando para as favas e cogumelos que permaneciam intocados sobre a mesa.
Não sabia se sua dor maior era pelo facto de o pai ser um aborteiro ou por ele ter matado a esposa de Moneda.
Ou ainda por, apesar de tudo, ela continuar amando o pai e a Maurício da mesma maneira que antes.
Em seu íntimo, sabia que, mesmo que ela conseguisse perdoar Moneda pelo facto dele ter se aproximado dela em função de sua semelhança com Lorraine - a quem ela passara até a olhar com outros olhos, depois de ouvir toda aquela história -, Maurício jamais admitiria que ela perdoasse seu pai.
Era, portanto, inviável, em todos os sentidos, qualquer relação entre os dois.
- E o que é que tu pensas em fazer agora? - ela perguntou, enxugando as lágrimas e esforçando-se para conter o pranto.
Estava preocupada com a vingança que ele anunciara desejar efectivar contra seu pai.
Aline, enquanto isso, acabara de conseguir marcar finalmente sua consulta com Faustino, depois de ligar pela quarta vez para sua secretária.
Dada sua extrema insistência, o médico concordara em atendê-la no domingo, de manhã cedo.
Ainda chorava ao lado do telefone, tangida pela angústia profunda que lhe era transmitida pelo espírito ligado ao embrião que crescia em seu ventre, quando Vítor se aproximou.
- Vo... você está bem? - ele perguntou, tímido.
-Tudo bem... e tu? - ela respondeu, enxugando rapidamente as lágrimas.
- A... a... ainda aquele problema? - ele deduziu.
- Tu não contaste nada a ninguém, contaste?
- Na... não, não contei.
Mas você não pensa em...
-Já está tudo resolvido - ela disse, enfiando rapidamente o cartão telefónico no bolso.
Amanhã, a esta hora, eu já estarei livre deste problema...
É engraçado pensar que eu mal te conheço e no entanto tu és a única pessoa que sabe do meu problema - ela sorriu nervosa, estalando os dedos.
- Escute! - ele agarrou seus braços num impulso.
Eu não te conheço, mas eu gosto de você!
Eu gosto muito de você!
É por causa disso não quero que faça nenhuma besteira!
Não mate seu filho!
Não importa se foi o Vinícius ou quem quer que tenha sido.
Eu posso assumir esta criança, eu posso casar com você! - era tão grande a força interna que o movia que ele não conseguia conter as próprias palavras, que lhe saíam do fundo da alma, com toda a sua sinceridade.
Aline ficou um tempo olhando para ele, completamente perplexa com o que ouvia.
Era tudo o que ela mais desejava escutar em sua vida.
Amava aquele garoto com todas as forças de seu ser, nem sabia de onde provinha aquele sentimento tão intenso e profundo.
Todavia, ela não se imaginava digna de todo aquele altruísmo.
Afinal, esperava um filho do irmão dele, a quem havia se entregado, contra a vontade, numa noite de bebedeira.
Não era justo fazer alguém que ela gostava tanto passar por tamanha humilhação.
- És um monstro... - ela disse, de olhos molhados, levando a mão ao coração.
Era uma expressão usada em Florianópolis para dizer que uma pessoa é grande, invencível, a melhor do mundo.
Vítor, contudo, entendeu justamente ao contrário, associando-a imediatamente à voz que costumeiramente o assediava.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:55 am

Abriu a boca espantado, profundamente magoado, como se ela o houvesse esbofeteado com aquela expressão.
- Desculpe...
Eu estava sendo sincero...
Não pensei que achasse isso de mim... - disse, sentido, já rumando de volta ao prédio.
- Não é isso, eu quis dizer que... - ela ainda tentou explicar.
Mas ele saiu correndo antes que ela terminasse sua frase.
Não queria chorar novamente na frente dela.
Sentindo-se, ela própria, um verdadeiro monstro no sentido literal da palavra, Aline caminhou até a descida para o parque, sentou-se no chão entre as árvores e enterrou a cabeça entre as mãos, entregando-se ao pranto.
"É melhor assim...", ela disse sentida a si própria.
"Não poderia mesmo ser verdade aquilo tudo que ele falou..."
Nunca, em toda a sua vida, havia se sentido tão só e desprotegida.
Se ao menos pudesse contar com a ajuda de Florence...
Mas ela nem sabia onde estava a mãe naquele momento.
No restaurante, Maurício acabava de explicar a Florence os últimos detalhes de seu plano para que Faustino fosse preso em flagrante.
Naquela tarde, Louise iria novamente ligar para o consultório, tentando saber se o médico prestaria algum atendimento de emergência no domingo, alegando que também gostaria de marcar uma consulta logo em seguida.
Eles já haviam sido informados de que o médico às vezes costumava atender clientes no domingo.
Uma vez montada a armadilha, Moneda então accionaria as autoridades competentes.
A ideia era chegar lá juntamente com a polícia e invadir o consultório no momento em que Faustino estivesse realizando o aborto, a fim de que ele não tivesse a menor possibilidade de safar-se da acusação.
- Quero que entenda que não estou fazendo isto apenas para me vingar de seu pai - Maurício explicou, vendo o terror impresso na fisionomia de Florence.
Tudo o que eu quero é evitar que mais pessoas sejam vítimas desse acto hediondo.
Eu sinto muito se ele é seu pai...
Florence fechou os olhos imaginando a dor que Faustino sentiria naquele momento.
Mas ela sabia que Moneda tinha razão.
Seu pai era, acima de tudo, um criminoso.
- Eu não posso ao menos falar com ele antes de tudo isso? - ela pediu.
- Lamento, mas é impossível.
A única referência dele que temos é a do consultório, e já fui informado de que hoje ele não está lá.
Estamos tentando fazer tudo isso no domingo justamente para poupá-la.
Se o flagrante fosse dado no meio da semana, o escândalo seria certamente muito maior... - ele explicou, olhando para ela com profunda ternura.
- Então eu quero ir com você... - ela decidiu, no momento em que se levantavam para deixar o restaurante.
Nenhum dos dois havia sequer tocado na comida, ainda disposta sobre a mesa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:55 am

- LX -
Vítor estava sozinho em casa quando sentiu-se tomado por uma estranha aflição.
"Ai, meu Deus, será que é 'a coisa' que está voltando?", perguntou-se, já sentindo as mãos suarentas e geladas.
Desde o acidente de Vinícius, era a primeira vez que ficava sozinho.
O irmão havia descido para mais um passeio no parque com Chuva, os pais tinham ido a uma feira de antiguidades na Gávea.
Haviam insistido bastante para que os acompanhasse, mas, pela primeira vez desde que descobrira sua doença, tinha sentido vontade de estar apenas consigo próprio, enfrentar o domingo como se não fosse um inimigo.
A discussão com Aline, no dia anterior, o havia deixado verdadeiramente chateado.
Não com ele mesmo, mas com ela.
Sentia que havia vencido todos os seus limites, todas as suas barreiras, havia passado por cima até dos próprios brios para poder dizer a ela todas aquelas coisas.
Não fora prepotente, nem vaidoso, nem egoísta, chegara mesmo a cogitar em aceitar como seu o filho que Aline esperava de Vinícius.
Abrira-lhe seu coração sem nenhuma reserva.
E ela, no entanto, o chamara de monstro.
Por mais que se esforçasse, Vítor não conseguia se conformar com isso.
Ao lembrar-se dela, sentiu aumentar sua aflição.
Era como se uma coisa dentro dele dissesse que algo de errado estava acontecendo com ela.
Será que estava mesmo?, ele questionou-se, sentindo novamente aquela sensação de vazio, de insegurança em relação a algo que ele próprio não sabia o que era.
- O que mais você quer de mim? - ele disse alto, querendo ser ouvido pelo obsessor.
Ela não me quer, será que você não entendeu isso?
Ficou um tempo em silêncio, esperando por uma resposta, mas não pôde divisar nada além daquele insuportável silêncio de domingo.
Oto não estava a seu lado desta vez.
Sua aflição, contudo, crescia em ritmo vertiginoso.
A única coisa de que conseguia se lembrar era da imagem de Aline chorando ao lado do orelhão, enquanto algo quente e amargo começava novamente a lhe subir do estômago, atravessando seu esófago e já se fazendo sentir na garganta. "Amanhã, a esta hora, eu já estarei livre deste problema", ele recordou-se dela dizendo.
- Eu tenho de fazer alguma coisa! - decidiu, tomando nas mãos a chave de casa.
Não posso ficar mais uma vez aqui parado esperando por uma crise!
Alguma coisa acontece lá fora e eu preciso descobrir o que é!
Ele não podia ver, mas o irmão Guilhôme estava a seu lado, ajudando-o em suas decisões.
A situação era realmente grave.
Longe dali, sentada no último banco de um ônibus quase vazio, Aline seguia triste em direcção ao Méier.
Enquanto o veículo entrecortava as ruas desertas do centro da cidade naquele domingo de sol, ela segurava a barriga como se se despedisse do filho que carregava lá dentro.
"Sabe, neném, eu não queria fazer isso...
Há tempos atrás, eu fiz de tudo para evitar que uma amiga fizesse o mesmo com o nenezinho dela...", ela confessou, lembrando-se do dia em que atravessara as ruas de Florianópolis num ônibus como aquele, contando os minutos para chegar ao Campeche.
Agora, no entanto, tinha vontade de segurar os ponteiros do relógio para que aquele ônibus nunca chegasse no Méier.
Doía-lhe pensar no que estava fazendo, doía-lhe muito.
Ainda por cima, com um dinheiro que não era seu.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 9:55 am

Sentia-se uma ladra, uma criminosa, mas não via outra solução para seu problema.
Não tinha coragem de contar para a mãe o que lhe acontecera; sentia vergonha de dizer a Chuva o que havia ocorrido entre ela e Vinícius.
O que Paloma, o que Lucila, o que tia Noémia iriam dizer se soubessem?
Quando tudo terminasse, pensava em conseguir um emprego como vendedora e aos poucos repor o dinheiro que a tia esquecera na gaveta.
Até lá, tinha esperanças de que ninguém desse falta dele.
"Olha, Aline, vou te dizer uma coisa para ti", ela ouviu de novo a voz de sua colega Adriana, lembrando-se do dia em que esperava Rafael na gincana da escola, "não é por nada não, mas acho que estás a bancar a doutora-da-mula-ruça, pensando que sabes de tudo!
Tem certas coisas que a gente nunca pode dizer.
Sabes, por acaso, o que é que te esperas no dia de amanhã?"
"Adriana tá certa!", ela ouvia agora a voz de Eunice.
"Como podes saber o que é que vai te acontecer de sóli parido a sóli munido?".
Com lágrimas escorrendo dos olhos, ela era obrigada a admitir que as duas estavam cobertas de razão.
- Aposto como foi praga da Eunice! - ela sem querer disse alto para si, sob o olhar curioso do trocador, enquanto apertava mais uma vez as juntas dos dedos já doloridas de tanto serem estaladas.
Vítor, enquanto isso, tocava a campainha do apartamento de Paloma.
- Escute, Lucila, eu já te disse mais de mil vezes que não tem dinheiro nenhum na gaveta do escritório... - ela discutia ao telefone com a irmã.
Eu acabei de olhar!
Agora, se você não se importa, eu vou atender à campainha que...
Mas é claro que ninguém pegou este dinheiro, Lucila!
E muita petulância sua querer insinuar que... - ela afastou um pouco o fone do ouvido para não ouvir os gritos da irmã, olhando para a porta sem saber o que fazer.
Vítor tocou novamente.
Sentia-se cada vez mais ansioso.
Do corredor podia ouvir que havia gente em casa.
Por que então não atendiam a campainha?
- Eu? Mas você só pode estar maluca, Lucila!
Para que é que eu...
É claro que não!
Eu jamais faria isto!
E muito menos a Florence!
A menos que a mamãe...
Não, Lucila, eu não estou dizendo que a mamãe...
Você sabe que ela é doente!
Não, eu não estou me aproveitando da doença da mamãe para...
Não fui eu! Lucila, escute!
Cada vez mais desesperado, Vítor apertou a campainha de maneira intermitente, enquanto Lucila batia o telefone na cara da irmã.
- Era só o que me faltava! - Paloma esbravejou ao abrir a porta, sem sequer se dar conta do rapaz a sua frente.
- Eu... desculpe... eu... poderia falar com a Aline? - ele arriscou, tímido.
- Ela saiu cedo, disse que ia fazer um trabalho de grupo na casa de algumas amigas - informou Paloma, ríspida, ainda com a cabeça em Lucila.
- Mas ela disse ao menos onde moravam essas amigas? - ele insistiu.
- Não, não disse...
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