O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:13 am

Porquê? Aconteceu alguma coisa?
Ela marcou algum compromisso com você? - só então ela se deu conta do quão estranho era Vítor estar ali perguntando por Aline.
- Não, é que... - Vítor não sabia o que dizer.
E a mãe dela, está aí?
- Não, Florence também saiu cedo daqui com o Moneda, nem sei onde ela foi - disse Paloma, achando tudo aquilo cada vez mais esquisito.
Você quer entrar?
- É... Na verdade não, eu...
Neste minuto, intuído pelo irmão Guilhôme, ele olhou para o chão e deu com um pequeno papel dobrado, que estava caído junto à porta.
Vítor abaixou-se rapidamente para pegá-lo e, ao abri-lo, encontrou o endereço de um consultório médico no Méier.
- Ela só pode ter ido para lá! - ele disse alto, sentindo aumentar cada vez mais sua aflição.
Paloma continuava olhando-o, sem nada entender.
"Eu vou até lá", ele pensou depressa.
"Se eu pegar um táxi, em menos de vinte minutos es..."
Só neste momento bateu a mão no bolso e percebeu que estava sem dinheiro.
- E o endereço de onde ela está? - perguntou Paloma.
Afinal, o que está acontecendo?
- Será que você poderia me emprestar vinte reais? - ele pediu, sem responder à sua pergunta.
- Falta muito para chegar no ponto final?
Aline perguntou ao aproximar-se da roleta, lembrando-se da explicação que lhe dera a secretária do médico.
- Mais ou menos uns seis pontos.
Para que rua você vai? - quis saber o trocador, sem conseguir disfarçar sua curiosidade.
- Deixa eu ver...
Aline apalpou os dois bolsos da calça, revirou a bolsa sobre a roleta e só então percebeu que havia perdido o endereço.
- Só me faltava essa agora... - exclamou desolada.
- Você não se lembra do nome? - insistiu o trocador.
- Não tem problema.
Eu sei chegar lá - ela afirmou convicta, lembrando-se mais uma vez das indicações da secretária.
Era uma casa amarela bem grande, que ficava no final de uma ruazinha residencial que começava em frente ao ponto final, não havia o que errar.
Atravessou a roleta e foi sentar-se em um dos bancos vazios no meio do ônibus, deixando o trocador curioso.
Ajoelhada a seu lado, como pequeno ratinho, Odilie orava em soluços:
"Mãe querida!...
Sustenta-me agora para que eu te sustente depois...
Não me expulses, nem me desprezes...
Venho ao encontro de tuas mais profundas esperanças...
Junto de ti, estou na condição de anseio de teu anseio e de alma de tua alma...
Hoje, sou apenas flor, sonho, pensamentos...
Mas, um dia, serei tua própria realização...
Resguarda-me com amor para que a confiança não me abandone...
Protege-me contra o desequilíbrio...
Cultiva as ideias positivas do bem para que não me falte segurança contra o mal...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:13 am

Guarda-me no colo, em nome de Deus, para que a luz da fé se mantenha acesa dentro de mim...
Não me mates...
Tenho tanta necessidade de ti, quanto a semente precisa da terra para germinar e viver...
Dá-me a tua bondade e dar-te-ei a mim mesma...
Dê-me esta chance, eu te imploro...
De ti depende que eu possa estar amanhã entre os homens a fim de cooperar na construção de um Mundo Melhor.
Aline não podia ouvir suas palavras.
Sentiu, no entanto, uma emoção tão forte enquanto Odilie orava que mais uma vez escondeu a cabeça entre as mãos e começou a chorar, sob o olhar cada vez mais intrigado do trocador.
Sentado a seu lado, Oto também chorava desconsolado, cercado por Têmis, Pablo e Demóstenes.
De tão fixado no problema de Odilie, havia novamente recuperado o aspecto deformado que o caracterizava desde o momento em que fora abortado ao lado da própria Odilie.
- Não fique assim - Têmis tentou consolá-lo.
Ela ainda não perdeu as esperanças.
Tente você também confiar nos desígnios do Pai...
- Não posso me conformar que ela passe duas vezes por esta mesma situação - disse ele, mal conseguindo segurar o pranto.
Já posso até ouvir de novo o barulho daquele implacável aspirador de gente...
Se ao menos fosse comigo, que não sou digno de nenhuma misericórdia...
Mas Odilie é pura, é boa...
Ela não merece isso...
- Ninguém é indigno da misericórdia divina, Oto... - interferiu Demóstenes.
Só não recebem ajuda de Deus aqueles que não querem ser ajudados...
E, ainda assim, há quem vele incessantemente por estes seres, com infinita paciência, à espera do momento em que balbuciem um sincero pedido de socorro...
Se Odilie está passando por isso agora, mais uma vez, é porque ela necessita desta experiência a fim de valorizar ainda mais a oportunidade da vida...
Acredite, nós fizemos tudo o que nos era possível!
- Se ao menos eu pudesse trocar de lugar com ela, nestes instantes... - Oto lamentou desconsolado.
Daria minha vida para que Odilie não precisasse passar por isto...
Comovido com sua dor, aos poucos, Pablo foi envolvendo-o com passes calmantes até que ele cochilou, recostado no ombro de Aline.
Vítor, enquanto isso, chegava correndo aos portões do Parque Guinle, na ânsia de encontrar logo um táxi, e deparava-se novamente com a figura do leão alado.
"Eu não vou conseguir...", estancou de repente, como que hipnotizado por aquela fria figura.
"A coisa' não vai deixar eu chegar lá!", imaginou, antecipando os factos.
Neste momento, porém, sempre guiado pelas vibrações do irmão Guilhôme, virou o pescoço e deparou-se então com outra estatueta que ficava junto ao portão, que actuou ainda mais profundamente sobre ele.
Era uma figura em mármore, que reproduzia o corpo de um leão sentado, em postura mansa, tendo, porém uma cabeça humana, de traços clássicos, tal qual uma esfinge, a qual parecia convidar Vítor a desvendar algo que ele ainda não sabia exactamente o que era.
Sobre a esfinge, também reproduzida do outro lado do portão, brincava um cupido de ferro de ar inquieto, fazendo lembrar uma criança gordinha de pouco mais de um aninho.
Vítor lembrou-se então mais uma vez do bebé de Aline e, num frémito de coragem, acenou decidido para o táxi que passava.
No ônibus, a jovem continuava lacrimejando na janela, com os dois braços entrelaçados ao ventre.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:13 am

- Ela não parece verdadeiramente disposta a tirar a criança - observou Têmis, enquanto afagava o rosto de Oto, adormecido a seu lado.
Ainda há esperanças? - ela perguntou, olhando preocupada para Pablo e Demóstenes.
- Estamos fazendo tudo o que nos é possível - asseverou Demóstenes.
- Até o endereço conseguimos fazer com que lhe caísse do bolso.
Como vê, o aborto muito raramente se verifica obedecendo a causas de nossa esfera de acção.
Em regra geral, origina-se do recuo inesperado dos pais terrestres, diante das sagradas obrigações assumidas ou aos excessos de leviandade e inconsciência criminosa das mães menos preparadas na responsabilidade e na compreensão para este ministério divino.
É uma questão de livre-arbítrio, você percebe?
- Entretanto, mesmo nestes casos, tudo fazemos para opor-lhes resistência aos projectos de fuga ao dever, quando essa fuga representa mero capricho da irresponsabilidade, sem qualquer base em programas edificantes - destacou Pablo.
- É claro, porém, que a nossa interferência no assunto também tem seus limites - reiterou Demóstenes.
Se os interessados, transitoriamente esquecidos dos compromissos assumidos, retrocedem em suas decisões espirituais, perseverando sistematicamente contra nós, somos compelidos a deixá-los entregues à própria sorte...
- Será que ele vai conseguir chegar a tempo? - inquietou-se Têmis.
Sentado agora no banco traseiro de um táxi, Vítor esforçava-se para manter os olhos fechados, angustiado com o movimento de carros que cortavam o centro da cidade em alta velocidade, em direcção ao Méier.
Nem sabia como havia conseguido chegar até ali, era a primeira vez, em muitos meses, que ele saía sozinho de casa.
E ainda por cima para um lugar longe e desconhecido.
"Eu vou conseguir", tentava pensar, enquanto apertava nervosamente os dedos contra as mãos fechadas, num esforço de conter o próprio suor.
"Se ao menos houvesse trazido o relógio...", lamentou sentindo o coração disparado.
"Não, 'a coisa' não pode vir agora...
Eu não quero que ela venha..."
Era sua própria ansiedade quem fabricava os sintomas da crise.
- Lembre-se da contagem - sugeriu o irmão Guilhôme, a seu fado.
Imediatamente Vítor intuiu sua mensagem e procurou concentrar-se em mais uma contagem regressiva a partir de trezentos.
"Ai, meu Deus, será que eu estou louco, será que vai dar tempo?", ainda assim conseguia pensar, entre um número e outro.
O táxi parou diante da casa amarela no exacto minuto em que o ônibus chegava ao ponto final.
A primeira vista era uma residência como outra qualquer, cercada por grosso portão de ferro electrónico.
Não havia nenhum letreiro na fachada.
Enjoada com a viagem, Aline atravessou a rua e seguiu pela rua deserta.
Ao avistar finalmente a casa, apoiou-se na mala do táxi que estava parado na porta, com muita vontade de vomitar.
Estava inteiramente envolvida pelas energias de Oto, que chorava agarrado a suas pernas.
Respirou fundo e comprimiu o abdómen com as mãos, na tentativa de controlar seu mal-estar.
Ainda tonta e nauseada, ouviu a porta do carro bater e sentiu um estremecimento.
Ao abrir os olhos, deu de cara com Vítor parado a sua frente.
-T... T... Tu? - tartamudeou incrédula, enquanto o táxi se afastava.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:14 am

- LXI -
- Ele veio! - Oto arregalou os olhos admirado, parando imediatamente de chorar.
- Vamos embora daqui! - Vítor pediu, segurando Aline pelo braço.
- Quem és tu para tomar decisões sobre a minha vida? - ela reagiu indignada.
- Eu sou o pai desta criança que você quer matar - ele respondeu num impulso, imaginando estar mentindo.
Naquele momento, faria qualquer coisa para evitar que Aline entrasse naquela casa.
- O que é que tu estás dizendo? - ela estancou, pasma.
- Sim, fui eu quem entrou no quarto naquela noite - ele assumiu sua dúvida como se fosse uma certeza.
- O quê? - ela não acreditou no que ouviu.
- Sim, fui eu.
Naquela noite eu senti muito ódio quando vi meu irmão cantando você, quando te vi bebendo com ele depois de tudo o que havia acontecido entre nós...
Embora houvesse começado seu discurso com o simples intuito de demover Aline da ideia de abortar a criança, à medida em que ele ia falando, as cenas iam se refazendo em sua memória de maneira nítida, completando todos os claros que ele antes não conseguia preencher.
Parado a seu lado, Oto também estava boquiaberto.
Jamais imaginara que Vítor tivesse essa coragem.
- Horas antes você tinha me beijado, disse que tinha ido naquela festa só por minha causa... - ele continuou, sincero.
- Mas você saiu para buscar um café e nunca mais voltou! - ela disse alto, com lágrimas escorrendo dos olhos.
- Eu não voltei porque sofro de uma doença chamada síndrome do pânico!
Eu não consegui voltar, será que você entende isto? - ele confessou, despojando-se de todas as suas defesas.
Quando vi você apagada no sofá da minha casa, com meu irmão passando as mãos nos seus cabelos, pensei que ia enlouquecer de tanta dor!
E então ele te pegou no colo, do jeito que eu queria te pegar, e te levou para o quarto dele.
Por um instante eu tive vontade de me jogar pela janela do edifício!
Mas, então, o telefone tocou, eu ouvi a voz da minha mãe e me acalmei um pouco...
Aline ouvia a tudo sacudindo os ombros de tanto chorar, tapando a boca com a mão direita para que ele não lhe ouvisse os soluços.
- Ainda estava tentando me acalmar, contando de trás para frente e da frente para trás, porque é assim que eu faço cada vez que sinto que estou prestes a entrar em crise - ele continuou, nervoso -, quando, de repente, ouvi a porta do quarto de Vinícius novamente se abrindo.
Desesperado, eu segui Vinícius até a cozinha, vi quando ele se serviu de mais uma dose de tequila.
Ele ficou resmungando alguma coisa que eu não entendi, depois sentou na mesa e acabou dormindo...
Foi então que eu entrei no quarto e fiz tudo aquilo com você... - ele abaixou a cabeça, envergonhado.
Aline ficou ainda alguns instantes chorando sem saber o que dizer.
Se outra pessoa lhe contasse tudo aquilo, se o próprio Vinícius lhe narrasse aquela história, ela jamais acreditaria.
Não conseguia entender que Vítor só chegara àquele ponto porque estava enlouquecido de ciúmes, porque não queria que ela fosse de mais ninguém.
Sentia apenas o peso da decepção com alguém que ela até então julgava diferente de todos os rapazes que ela já havia conhecido.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:14 am

Vítor fora o primeiro homem por quem ela havia se interessado verdadeiramente, o rapaz com quem um dia ela chegara a sonhar em se casar.
Não podia, não conseguia perdoar que ele a tivesse enganado deste jeito.
- Tu tens noção de tudo o que me causaste? - Aline o empurrou com raiva.
Tu tens noção de tudo o que eu passei, de tudo o que eu senti por causa do teu acto de brutalidade? - lágrimas continuavam escorrendo-lhe dos olhos enquanto ela falava, com o dedo em riste.
Eu odiei o teu irmão por causa disso!
Cheguei a desejar a morte dele quando soube do acidente!...
E, no entanto, foi em ti que eu pensei na hora em que eu estava lá com ele!...
Eu estava apaixonada por ti e tu fizeste isto comigo!...
- Você pode não acreditar, mas eu não sabia!
No dia seguinte me deu um branco, só agora eu... - ele tentou se explicar, ainda de cabeça baixa.
- E ainda ficaste te fazendo de bonzinho na hora em que eu desabafei contigo! - ela continuou, olhando para ele com profundo desprezo.
Era tudo falsidade!
Por isso saíste correndo, ontem, na hora em que eu te elogiei!
- Você não me elogiou! - ele levantou a cabeça, fungando, só então mostrando que também estava chorando.
Você me chamou de monstro!
- Na minha terra, quando a gente diz que a pessoa é um monstro, é porque ela não existe de tão bacana.... - ela explicou, chorando.
Mas eu estava errada!
Tu não és a pessoa que eu pensei...
És mesmo um monstro pior do que esses de filme! - ela foi aumentando a voz.
Um monstro! - gritou a toda voz, tomada por mais um de seus rompantes.
Tu queres saber? Suma daqui!
Eu nunca mais quero olhar na tua cara!
Eu te odeio! - disse, olhando-o no fundo dos olhos, antes de sair pisando firme em direcção à entrada da casa.
Tremendo como se estivesse ardendo em febre, Vítor assistiu da calçada ao momento em que ela tocou a campainha.
Era como se ela o houvesse esbofeteado com suas palavras duras.
O portão electrónico, então, se abriu e Aline seguiu em direcção ao interior da casa.
-Volte aqui! - ele correu até o portão de ferro, agarrando-se às grades, desesperado, no momento em que viu que a porta havia automaticamente sido travada após a entrada de Aline.
Abram esta porta, eu estou mandando!
Volte aqui, Aline!
Eu te amo... - gritou, num fio de voz.
Logo, porém, ele percebeu que era inútil gritar.
Não havia ninguém na rua, todas as outras casas, e inclusive aquela, estavam com as janelas fechadas como se houvesse uma tácita combinação entre seus moradores.
Ainda por cima, era domingo.
Vítor sentou-se então no meio-fio e chorou.
Não havia mais nada que pudesse fazer.
Naquele momento, pela primeira vez em sua vida, percebia que não podia ter o controle sobre as pessoas e suas decisões.
A este pensamento, viu-se imediatamente como o médico do passado e ouvia-se de novo dizendo:
"Não me importo com eles ou com o que possa lhes ter acontecido...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:14 am

Apenas estavam em meu caminho e os eliminei...
Eu tenho o controle sobre todas as situações...
E muito bom poder resolver as coisas do meu modo, sem precisar dar satisfações a ninguém..."
- Eu não quero mais ser assim! - ele disse, em soluços.
Oto, pelo amor de Deus, me perdoa!
Não deixe que ela mate o meu filho!
Sentado a seu lado, Oto também chorava compulsivamente.
Não tinha coragem de entrar na casa atrás de Aline.
Sabia exactamente tudo o que aconteceria a partir da porta que se fechara.
Fora exactamente ali, naquela mesma casa, que fracassara em sua última tentativa de reencarne.
E agora as duas estavam novamente ali, prontas a reviver aquela mesma tragédia.
Ele não queria ver isso.
- Eu te perdoo... - ele disse aos ouvidos perispirituais de Vítor.
Não só te perdoo como me orgulho de você...
Com sua coragem, você me mostrou que realmente mudou, não é mais o mesmo...
Eu é que agora te peço perdão por tudo o que te fiz sofrer, aproveitando-me de sua doença...
Pensando bem, eu também já te fiz muito mal...
Desta vez, Vítor não ouviu suas palavras.
Mas pôde senti-las em sua alma como se acabasse de receber um beijo de Oto e olhou em torno como se o procurasse.
Profundamente emocionado, o antigo obsessor olhou então para Têmis e sentiu uma vontade maior ainda de chorar.
O tempo todo ela se mantivera a seu lado, deixara mesmo de acompanhar Odilie para poder melhor ampará-lo.
"O Pai jamais nos deixa desamparados", ele lembrou-se das palavras que ouvira no centro.
Foi então que aconteceu algo de muito especial.
Pela primeira vez, Oto percebeu quem era Têmis.
Naquele momento de conscientização e reconhecimento, ele a viu como aquela que fora sua mãe na encarnação que vivera na Alemanha ao lado de Vítor.
- Venha, meu filho - ela abriu os braços para ele de maneira terna.
Já é hora de cuidarmos de você...
Os dois se abraçaram com a força do amor que os havia unido por todo aquele tempo.
Logo, desapareciam no espaço, sem que Vítor desconfiasse de nada.
Ele continuava sendo amparado pelo irmão Guilhôme, que mais uma vez o envolvia com suas vibrações de luz.
"O que é que eu faço, meu Deus?
O que é que eu faço?", Vítor se perguntava em soluços, sem nem por um instante imaginar que, meses atrás, Aline havia vivido aquela mesma situação em Florianópolis.
- Ore, meu filho! - sugeriu o irmão Guilhôme, a seu lado.
Vítor captou suas palavras e fechou os olhos, lembrando-se do quadro do consultório de Olívia.
"Jesus, por favor, fazei com que ela mude de ideia", pediu com sincera humildade.
"Eu não sou nada, mas o Senhor pode tudo...
Na requintada sala de espera do consultório, Aline vivia momentos de angústia e indecisão, enquanto aguardava que o médico a chamasse.
Segundo lhe explicara a secretária, ele estava terminando um outro "atendimento de emergência" que surgira de repente.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:14 am

Ao imaginar que outra jovem estava se submetendo a um aborto naquele momento, Aline sentiu como se um temporal houvesse desabado dentro de sua cabeça, onde agora se misturavam frases aparentemente desconexas:
- Eu posso assumir esta criança, eu posso casar com você! - dizia a voz de Vítor.
- Se fosse minha filha, diria para vos tomar mais cuidado com esses seus rompantes.
A gente não deve tomar nenhuma decisão de cabeça quente.
A pessoa nervosa perde a noção de tudo, magoa aqueles que ama, fica tão bloqueada que não consegue escutar nem a voz da própria consciência.
Portanto, se fosse seu pai, eu recomendaria que ficasse atenta para este seu lado e tentasse ir aprimorando-o na medida do possível... - lembrava-lhe a voz do motorista que lhe dera carona na rodoviária de Resende.
- Deus é tão bom que jamais nos deixa sozinhos.
Se a gente tem de passar por alguma dificuldade, podem ter certeza de que sempre haverá em nosso caminho amigos ali especialmente posicionados para nos ajudar.
Não só amigos encarnados, como também amigos desencarnados.
Seres que nos acompanham desde que deixamos o plano espiritual dispostos a vivenciar mais uma experiência reencarnatória, que nos orientaram no planeamento desta experiência e que jamais nos abandonam - dizia ainda a voz do dirigente do centro onde ela assistira à reunião há alguns dias.
Pablo e Demóstenes, enquanto isso, se intercalavam pressurosos na tarefa de seleccionar-lhe as frases arquivadas em seu inconsciente e trazê-las à tona naquele momento grave, ajudados por toda uma equipe de irmãos cujo trabalho era justamente actuar em casos como aquele.
Entre eles estavam Lupércio e seus comparsas.
Não tinham noção de que integravam um grupo.
Dadas suas condições vibratórias, sequer conseguiam enxergar os irmãos das esferas mais altas.
Actuavam meramente por vingança, com o único intuito de prejudicar Faustino.
Em alguns momentos, por ignorância, chegavam mesmo a creditar a si próprios os pensamentos de Aline arduamente despertados pela equipe da luz.
Ainda assim, muito contribuíam no trabalho com seu esforço de convencer a jovem a desistir de seu intento.
- Nunca pensei que fosse ser tão difícil para mim entrar novamente nesta casa onde um dia ajudei a trazer ao mundo tantas vidas... - confessou Demóstenes, enxugando uma lágrima que teimara em escorrer-lhe dos olhos.
E pensar que eu o preparei para que continuasse o meu trabalho... - ele lamentou, olhando para a porta do consultório onde Faustino continuava fechado.
- Não deixe que suas recordações o desequilibrem, meu irmão - aconselhou Pablo.
Pense apenas que continua ajudando a trazer ao mundo uma alma que muito necessita dessa experiência...
- A moça parece irredutível - observou uma das entidades de plantão.
Não seria melhor iniciarmos logo a operação de desligamento do espírito que se encontra acoplado ao embrião?
- Não! - gritou Odilie, agarrando-se ainda mais fortemente aos laços fluídicos que a prendiam a Aline.
Ela não vai me matar!
Eu tenho certeza de que ela ainda vai mudar de ideia!
- Odilie tem razão - opinou Pablo.
Até o último minuto ainda há esperança!
Sempre inspirada por aqueles abnegados espíritos, Aline revia agora mentalmente cada etapa de sua desesperada tentativa de evitar o aborto de Mariana.
"Como é que alguém pode sequer cogitar a ideia de matar um bebé?
Sim, porque desde o momento em que o óvulo foi fecundado, já existe um bebé!
Não, eu não posso deixar Mariana cometer esse crime", reviu-se dizendo a si própria.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:15 am

Pensou então que Vítor, apesar de tudo, fora a única pessoa que tivera a coragem de fazer por ela o mesmo que ela fizera por Mariana.
Aos poucos, esta ideia foi crescendo dentro de Aline como uma gota de amor.
"Eu não te conheço, mas eu gosto de você!
Eu gosto muito de você!", ela o ouviu novamente dizendo.
Quanto mais ela se lembrava de suas palavras, mais sentia crescer seu amor por ele.
Neste momento, a porta se abriu e a secretária convidou-a a entrar.
A sala do médico estava vazia, nem parecia que há poucos minutos houvera outra jovem lá dentro.
"Por onde teria passado?
Será que ainda estava lá dentro?", Aline perguntou-se, olhando para a outra porta de madeira que ficava no fundo da sala.
- Eu... eu... eu não quero mais tirar a criança! - ela disse, cabisbaixa, no momento em que o médico surgia nesta outra porta.
Sua vontade era sair correndo dali e ver se Vítor ainda continuava esperando-a diante da casa.
- Aline! - exclamou o médico assustado.
Só então ela levantou a cabeça e encontrou-se com o olhar de Faustino, que a encarava boquiaberto.
Andava tão transtornado que sequer verificara antes o nome da paciente na ficha que lhe fora entregue pela secretária.
Nem por um minuto sequer passara-lhe pela cabeça que a jovem que tanto insistira naquele atendimento de emergência fosse a própria neta, tão menina ainda.
- O senhor? - ela perguntou surpresa.
- Minha neta! - ele se lançou de joelhos a seus pés.
Eu não sabia...
Jamais faria uma coisa dessas com você... - ele agarrou-se a suas pernas chorando, sob o olhar apalermado de Aline e da secretária.
Com você não... - ele repetiu, entre lágrimas.
Antes que ele pudesse dar qualquer explicação, porém, ouviu-se o barulho de sirenes e, em seguida, alguém soou insistentemente a campainha.
Ainda atónita, a secretária correu a atender.
Os policiais empurraram-na e foram entrando directo na casa, seguidos por Florence e Moneda.
- Pai! - Florence gritou ao chegar na porta do consultório, intrometendo-se entre os policiais que, a essas alturas, já ganhavam a pequena sala no fundo, e descobriam a outra paciente ainda em repouso, cercada pelos mais sofisticados aparelhos de aborto.
- O senhor está preso! - disse o delegado.
Só então Florence percebeu que era a própria filha que Faustino estava agarrado de joelhos e que era ele o mesmo homem que desmaiara diante dela na noite em que estivera na casa de Clarinha.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:15 am

- LXII -
Faustino deixou o consultório algemado e cabisbaixo, sem dizer mais nenhuma palavra.
Tal qual uma sombra, Lupércio seguia atrás dele, gargalhando sem parar, enquanto o restante do bando era amparado por Demóstenes e pelos demais integrantes da equipe de socorristas da colónia Renascer.
A secretária do médico também foi levada para prestar depoimento na delegacia e a moça que se encontrava na sala de operações, depois de acomodada em uma ambulância da polícia, foi levada directamente para um hospital.
A pedido de Moneda, Florence e Aline foram liberadas de acompanhar o comboio.
A secretária e a paciente que acabara de ser submetida a um aborto eram suficientes para atestar as actividades ilícitas de Faustino.
Moneda também prestaria seu testemunho, mas combinou com os policiais que levaria primeiro as duas em casa e só depois seguiria para a delegacia.
- Vítor? Você aqui? - ele estranhou ao perceber o rapaz ao lado de uma árvore, observando toda aquela movimentação.
Alheias a tudo o que acontecia lá fora, Florence e Aline continuavam paradas no consultório, olhando uma para outra, com lágrimas escorrendo sem parar.
Aline só conseguia lembrar do retrato do avô que vira no escritório na noite da festa de Jaqueline.
Só agora entendia porque se familiarizara tanto com aquela foto.
Era quase idêntica àquela que tinham em casa.
- Era ele, não era mãe?
Era por isso que ele não queria conhecer a gente... - Aline, por fim, quebrou o silêncio.
- Não pense nisto agora, filha, pense apenas que... - ela olhou para a barriga da filha.
Por que não me avisaste, Aline, por que não falaste comigo?
- Eu tive medo...
Achei que nunca me perdoarias... - ela respondeu, sem coragem de aproximar-se da mãe.
Eu estou esperando um filho e não quero tirá-lo de mim - disse, abraçando a barriga.
Eu quero ficar com ele, mãe...
- Filha! - Florence correu a abraçá-la.
E quem foi que disse que eu ia pedir para que tirasses teu filho?
Se ele é teu, ele é meu também!
Eu vou te ajudar a criá-lo, com o mesmo amor que eu sempre te criei...
- Desculpa, mãe... Desculpa!
Eu juro que não queria que tu passasses por isso...
Aconteceu sem querer, eu não tive coragem de te contar... - ela disse, chorando muito.
- A culpa foi toda minha - disse Vítor, entrando na sala.
Depois de explicar-se com Moneda sem entrar em maiores detalhes, aproveitara-se de um descuido dos policiais para entrar na casa sem ser visto.
Aline soltou-se da mãe e correu até ele.
- Não diga nada - ela pediu, tapando-lhe carinhosamente a boca com os dedos.
Não fosse por você, eu... - ela o encarou no fundo dos olhos, quase encostando seus lábios nos dele, sem saber como continuar.
Tudo o que sabia era que ela o amava profundamente, independente de todas as bobagens que ele havia feito.
Era um sentimento mais forte do que ela, que extrapolava sua própria capacidade de raciocínio.
- Acho que os dois têm muito o que conversar, mas não aqui. - disse Moneda, também entrando na sala.
Vem... - ele estendeu a mão a Florence.
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:15 am

Vamos todos lá para fora porque a polícia ainda precisa terminar seu trabalho.
Ainda perdidos e sem saber o que dizer, Vítor e Aline deixaram a sala e encaminharam-se para fora da casa, enquanto Moneda continuou por alguns instantes com a mão estendida para Florence.
Ela, porém, não estendeu-lhe a mão de volta.
Ao invés disto, cruzou os braços de maneira defensiva e seguiu rapidamente atrás de Vítor e Aline, como se Moneda não estivesse na sala.
- Espere! - ele a segurou pelo braço, no minuto em que Florence estava prestes a ultrapassar a porta.
Eu sei que é difícil para você, mas procure entender...
Se eu não tivesse feito o que fiz, a esta hora sua própria filha poderia...
- Eu entendo tuas razões - ela disse, grave.
Só não entendo que queiras me fazer passar pela tua esposa que morreu.
- Por que você está dizendo isso? - ele não compreendeu de imediato.
- Então tu negas a semelhança que existe entre mim e Lorraine? - ela continuou encarando-o da porta.
- Quem disse isto a você? - ele reagiu surpreso.
- Ninguém me disse, Maurício. Eu vi.
- Mas como? Onde? - ele não conseguia entender.
- Que diferença faz isso para ti?
O facto é que eu vi uma foto dela e fiquei tão chocada com a semelhança que cheguei a pensar que fosse eu mesma na foto...
Moneda enfiou as duas mãos no bolso e ficou como que girando, dando passos em torno de um mesmo ponto, enquanto procurava palavras para se explicar.
Como diria para ela que ele próprio havia se questionado muito a respeito da absurda semelhança entre as duas?
Que durante muito tempo tivera mesmo a sensação de estar de novo diante de sua ex-mulher quando estava a seu lado?
Estava, contudo, ainda tão nervoso com toda aquela situação que mal conseguia concatenar as ideias numa explicação.
-Talvez você tenha razão - admitiu por fim.
Vocês são muito parecidas, não sei até que ponto isto influi no que sinto por você...
Ao ouvir isto, Florence levou as duas mãos ao peito, como se tentasse abafar as batidas do próprio coração.
Esperava tudo, menos que ele confessasse sua dúvida com tanta sinceridade.
Por um momento teve vontade de jogar-se nos braços dele e pedir-lhe, implorar-lhe que dissesse que ela era diferente da outra, que ele a amava muito mais que um dia amara Lorraine.
Sabia, contudo, ser isto impossível.
Mesmo que ele lhe dissesse tudo isto, ela jamais acreditaria.
Ao mesmo tempo, o facto dele admitir sua dúvida, deixava-a profundamente balançada.
Ele estava sendo honesto.
Mas será que ela conseguiria viver um relacionamento com ele sabendo que ele olhava para ela e pensava na outra?
"Não", disse a si própria.
A história de amor entre os dois terminava ali.
Enquanto isso, lá fora, Vítor e Aline estavam agora parados no mesmo ponto onde haviam antes discutido.
- Moneda me falou sobre o seu avô... - ele disse, constrangido.
- Sinceramente, eu ainda não consegui entender nada até agora.
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:15 am

A sensação que tenho é de que estou vivendo um pesadelo... - disse ela, levando instintivamente as mãos à barriga.
O mais importante de tudo isso é que, graças a Deus... - ela fez uma pausa olhando para ele -, graças a você... eu não matei o nosso filho...
Vítor abriu um largo sorriso alegre e aliviado.
Até aquele momento não tinha conseguido descobrir se ela fizera ou não o aborto.
- Eu... eu... - tentou dizer, emocionado.
Eu juro que vou fazer de tudo para que jamais se arrependa desta sua decisão...
- Tu ias continuar gostando de mim mesmo se eu... - ela não teve coragem de terminar a frase.
Ele aproximou-se dela, segurou seu rosto com as duas mãos e disse:
- Estava aqui até agora esperando por você...
Mesmo que... - ele também ficou constrangido de mencionar o assunto - ...eu continuaria amando você...
Quer dizer, se você me quisesse...
Emocionada, Aline apenas fechou os olhos e deixou que ele a beijasse.
Naquele momento, teve a certeza de que era ele realmente o pai do filho que esperava e pela primeira vez lembrou-se da noite que haviam passado juntos sem sentir tanto horror.
Era nele que ela pensava quando tudo aconteceu, era com ele que ela gostaria que tudo tivesse acontecido, ainda que não da forma como havia acontecido.
- Você acha que... a gente deve casar? - ele perguntou, ainda olhando-a no fundo dos olhos.
- Casar? - ela espantou-se.
Mas... Nós só temos quinze anos!
Nem terminamos os estudos!
- Mas, então, como vamos fazer?
Eu tenho certeza de que quero me casar com você! - ele disse.
- Eu também, mas, mesmo assim, acho que é muito cedo para a gente casar! - ela argumentou.
Depois, tu ainda nem sabes como teus pais vão reagir quando souberem de tudo isso...
Vítor pensou por alguns instantes.
Ela tinha razão.
Contudo, não queria que Aline achasse que ele não queria assumi-la, e nem à criança.
Embora fosse apenas um adolescente, ele estava realmente certo de que jamais amaria outra mulher pelo resto de sua vida.
- Eu também gosto de ti - ela disse.
Nem sei por que eu gosto tanto de ti...
E quase como se sempre houvesse esperado por aquele dia em que nos encontramos...
Mas, mesmo assim, a verdade é que nem nos conhecemos direito...
- E se a gente namorasse? - ele pensou depressa.
Quer dizer...
Você quer namorar comigo?
Lágrimas escorriam dos olhos de Aline quando, num sorriso, ela novamente aproximou seu rosto do dele.
- É claro que eu quero! - disse antes de beijá-lo.
Nos três meses que se passaram, o sentimento entre os dois apenas cresceu.
Vítor voltou a estudar.
Tinha agora um objectivo maior na vida, que era o de formar-se o quanto antes, arrumar um emprego e casar-se com Aline.
Enquanto isso, viveriam em casas separadas.
Passado o susto inicial, toda a família concordou com a decisão dos dois, esforçando-se mesmo para incentivá-los de todas as formas possíveis.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:16 am

A relação entre os dois não poderia ser mais intensa.
Todos os dias, excepto às terças e quintas, quando suas aulas terminavam mais tarde, Vítor ia buscá-la na escola.
Depois, almoçavam na casa dele e passavam o resto da tarde estudando juntos para recuperar o tempo perdido.
Com a ajuda de Vítor, Aline até superou suas dificuldades em biologia, enquanto ele, graças a ela, aprendeu a fazer melhores redacções.
Mais do que nunca, sonhava em tornar-se um geneticista e especializar-se na área de clonagens.
No entanto, não se sentia mais tão ansioso quando lia as últimas novidades sobre o assunto.
Curiosamente, desde o domingo em que vencera a si próprio para tentar evitar o aborto de Aline, não voltara a experimentar nenhum de seus antigos sintomas.
Continuava a tomar os medicamentos, em dosagens cada vez menores, sempre assistido pelo psiquiatra, a quem não olhava mais com olhos tão desconfiados, e por Olívia.
Ao longo desses três meses, foram realizadas algumas sessões onde Vítor pôde se lembrar de outras situações, nem todas com a mesma intensidade da primeira.
Mas, em quase todas, pôde identificar traços e reacções que se repetiam na sua vida actual, inclusive relacionados à crise de pânico.
Entre as vivências a que teve acesso através da terapia de vidas passadas, viu-se como uma jovem que passava toda a sua vida apavorada pelos rigores de um marido mais velho, violento e dominador, exigindo dela redobrada e permanente atenção para não desagradá-lo.
Viu-se também como um soldado, vaidoso e prepotente, responsável por um batalhão, e que costumeiramente era obrigado a tomar decisões importantes, até que uma dessas decisões resulta na morte de quase todos os seus homens, tornando-o extremamente exigente e rigoroso com os efeitos de suas atitudes, o que explicaria seu lado controlador excessivo na actual existência.
Viu-se ainda como um colector de impostos, exclusivamente preocupado em que tudo acontecesse do jeito que ele queria e que usava seu poder e prestígio para conseguir as mulheres que desejava, sem assumir qualquer tipo de compromisso ou responsabilidade com elas.
A este personagem, Vítor associou sua atitude cega e dominadora por ocasião do estupro de Aline e sentiu-se aliviado por estar agora assumindo a responsabilidade por ela e pelo filho.
De todas estas experiências posteriores, porém, a mais significativa, a que mexeu mais com ele depois da primeira, foi aquela em que ele se viu como um aspirante a cientista nos primórdios da medicina, em um local que se assemelhava a pequeno anfiteatro, todo de pedras, com uma pequena mesa, também de pedra, ao centro.
Ali, um grupo fazia experiências com indigentes recolhidos nas ruas, para avaliação do funcionamento, em vida, de algumas funções orgânicas.
Sempre obcecado por agradar aquele que era uma espécie de mestre desses pesquisadores, Vítor tinha a responsabilidade de anotar todas as reacções dos indigentes diante de cada experiência.
Também nessa existência, que situou cronologicamente como anterior à que vivera na Alemanha, ele se percebeu como alguém vaidoso, prepotente, egoísta e excessivamente dominador, características essas que agora tinha certeza de que precisava reformular em sua vida actual.
- Nosso passado, traga ele recordações suaves ou dolorosas - disse Olívia, na tarde em que acabavam de analisar esta sua última experiência regressiva -, deve ser lembrado apenas com uma única finalidade, que é a de retirar dele as lições provenientes das situações por que passamos.
Aprendemos, nas regressões, a identificar as atitudes e valores que continuamos a repetir na vida actual, mas que representam um entrave ao nosso equilíbrio.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:16 am

Percebemos que ainda gostamos de ser daquela maneira vivida no passado que, contudo, traz hoje consequências inadequadas.
Portanto, acabamos concluindo que estamos diante de um dilema:
ou continuamos do mesmo jeito e sofrendo, ou transformamos, conscientemente, essas atitudes e valores para superarmos o sofrimento.
Tais lições, na verdade, nos ensinam a ser mais prudentes.
Delas retiramos o ensinamento preventivo para muitas situações.
Uma vez alcançado este objectivo, o melhor que temos a fazer é esquecer o passado.
- Mas é impossível esquecer tudo isso - argumentou Vítor.
Não fosse por essas voltas ao passado eu continuaria prisioneiro do pânico, sem entender o que estava me acontecendo.
Mesmo que eu obtivesse a vitória sobre as crises e voltasse a me dedicar aos estudos com uma meta para o futuro, como agora estou fazendo, não sei se conseguiria encarar este meu sonho de trabalhar com clonagens com a mesma determinação, com a mesma clareza como passei a ver esta minha verdadeira obstinação.
- Como você sente agora esta sua obstinação? - quis saber Olívia.
- Depois de tudo o que vivenciei através destas experiências regressivas e até da minha própria história actual com a Aline, eu hoje sei que não é por acaso que trago comigo esta paixão pela ciência, pelo estudo do funcionamento dos órgãos humanos - ele respondeu, reflexivo.
Tenho certeza de que um dia vou trabalhar com isso, porque eu vim ao mundo com esta tarefa.
E como se fosse uma espécie de missão, sabe? - ele continuou, empolgado.
- E você acha que o pânico te ajudou de alguma maneira para que chegasse a essa conclusão? - a terapeuta continuou sua investigação.
- Com certeza - avaliou Vítor.
Estava mais falante, mais seguro e maduro em suas explanações.
Se não fosse o pânico, se não fosse tudo o que eu descobri através dele, não sei se não acabaria me satisfazendo com a parte puramente científica da coisa, você me entende?
Talvez ficasse meramente fabricando embriões em laboratório, manipulando células para duplicar pessoas ricas com dinheiro suficiente para bancar tal extravagância.
Mas agora não...
- E como você encara isto agora? - perguntou Olívia, interessada.
- Eu quero mais do que isto, muito mais do que isto!
Compreendi finalmente que a clonagem pode ser encarada sob um sentido muito mais nobre do que a maioria das pessoas costuma encarar.
Quero produzir células diferenciadas de qualquer órgão do corpo, partindo das chamadas "células-tronco" embrionárias.
Quero encontrar maneiras de ajudar as pessoas que sofrem das mais variadas doenças e não vêem perspectivas de cura pela impossibilidade de encontrar doadores dos órgãos de que necessitam.
Muitas vezes, quando esta pessoa consegue um doador, acontece o problema da rejeição.
Quero ajudar a descobrir maneiras de criar órgãos em laboratório a partir de células da própria pessoa, para acabar não só com o problema da espera angustiosa por um órgão, como também evitar os danos que costumam provocar as rejeições nos transplantes atuais - Vítor explicou, cheio de entusiasmo no olhar.
- E será que não tem nem um pouquinho de vaidade nesse sonho?
Conseguindo tudo isso, você certamente será reconhecido internacionalmente... - provocou a psicóloga.
Vítor meditou por algum tempo.
É claro que mexia com ele a fantasia de receber aplausos do mundo inteiro pelo bom desempenho de seu trabalho.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:16 am

Há algum tempo talvez fosse mesmo isso o que mais desejasse, o que o movesse em direcção a seu objectivo.
Todavia, as situações vivenciadas através da terapia regressiva e até mesmo os estudos a respeito da reencarnação que empreendera em função disso haviam mudado algo de essencial dentro dele.
- Se há algum tempo atrás eu te dissesse que isto não contava nada para mim, estaria mentindo - ensaiou de maneira ponderada.
Agora, porém, é como se eu tivesse mudado a minha maneira de olhar para o mundo...
Talvez até eu tenha mudado...
De repente, quando percebi que a gente não morre, apenas muda de corpo ao longo de várias existências, morrendo e continuando vivo, experimentando sempre as consequências de meus actos passados, acho que passei a encarar a vida de uma forma diferente...
Pensando bem, eu acho que realmente mudei...
- Me fale um pouco sobre essa mudança - pediu Olívia.
- A questão é que essa coisa do reconhecimento das pessoas deixou de ser tão importante para mim.
Não posso dizer ainda que não estou nem aí para o que as pessoas vão pensar de mim ou do meu trabalho - ele continuou, de maneira honesta.
Mas existem outras coisas que, de repente, se tornaram muito mais importantes do que isso.
Minha meta não é mais a experiência científica em si, nem os aplausos que ela pode acarretar, e sim os benefícios que ela pode trazer para as pessoas.
Sinto que através dela eu posso, de alguma maneira, reeditar todos os erros do meu passado de forma mais digna, sabe como é que é?
Eu quero ajudar a salvar vidas!
Sinto que assim estarei salvando minha própria vida, reintegrando minha actuação a uma meta existencial mais nobre, atendendo aos apelos de crescimento de meu próprio espírito...
Olívia ficou com os olhos cheios d'água ao vê-lo falar com tamanha convicção.
Através do sofrimento e do esforço pessoal para vencer seu sofrimento, Vítor havia nitidamente se transformado numa pessoa mais forte, mais humana, mais apta a lutar pela própria felicidade.
- E maravilhoso que você tenha conseguido alcançar essa consciência, Vítor.
Me sinto realmente muito orgulhosa de você por isso.
Justamente por essa consciência estar tão consolidada em você, que eu insisto que não há mais necessidade de ficar remoendo o passado, lembrando a toda hora de detalhes de suas experiências regressivas.
Faça o seu melhor daqui para frente e deixe o seu passado para trás.
"Um acto de amor cobre uma multidão de pecados", já dizia o apóstolo Pedro.
- Engraçado...
Ouvindo você falar, lembrei sem querer daquele sonho que eu tive com a minha avó, onde ela me mostrava as portas batendo nos porões escuros de meu inconsciente e me convidava a enfrentar o presente... - associou ele.
Ela dizia que era preciso ir até lá embaixo para podermos descobrir exactamente onde comprometemos a nossa liberdade de ser felizes na presente existência, onde se encontrava a porta aberta que necessitava ser fechada...
- E exactamente o que estou tentando te dizer.
Nós vamos ao passado para nos livrarmos, pela transformação, dos efeitos nocivos dele na vida actual.
Você já fechou as portas que haviam ficado abertas em seu inconsciente.
Daqui para frente, elas não vão mais ficar batendo e retumbando dentro de você de maneira a comprometer o seu presente, porque você já resolveu as questões pendentes, as culpas que trazia impressas em seu eu mais profundo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:16 am

Portanto, na medida do possível, agora procure apagar de sua mente os actos do passado, deixando impressos apenas o saldo de conhecimentos que a experiência te legou.
- Mas como é que eu vou esquecer, como não vou me lembrar? - ele não conseguia realizar isto em sua mente.
- Simplesmente não pensando, não supervalorizando esses factos, seguindo adiante e deixando-os para trás.
Quando uma pessoa aprende a dirigir, por exemplo, ela não fica o resto da vida lembrando de quantas balizas derrubou durante o tempo de auto-escola ou se aprendeu primeiro a passar a primeira ou a marcha a ré.
Ela simplesmente dirige, com base em todos os conhecimentos que ficaram arquivados em seu inconsciente - figurou a terapeuta.
-Talvez você tenha razão... - concordou Vítor.
No meu relacionamento com Aline fazemos o possível para não pensar, não lembrar do dia em que aquilo tudo aconteceu.
Seria muito bom se algum dia nós conseguíssemos nos esquecer de certos detalhes de nossa história... - ele comparou.
- No que se refere às regressões, o importante é lembrar quando estiver repetindo algum tipo de padrão de comportamento do passado.
Essa lembrança, que ocorre naturalmente nessas horas, costuma ser o estímulo necessário à vigilância na transformação que se processa a todo instante.
Quem hoje tomba, não deverá, amanhã, recordar-se do tombo, mas da sua maneira descuidada de caminhar, ou seja, da causa da queda.
Por outro lado, se você dispersar a sua atenção e ficar olhando só para o passado ou só para o futuro, fazendo milhares de planos para consertar o passado, lá na frente, sem se preocupar em viver o presente e fazer aquilo que é possível no presente, vai acabar caindo de novo.
O que eu quero recomendar para você é que daqui para frente, você olhe para o chão de seus passos presentes e caminhe seguro, sem temor, em relação ao futuro, sem ansiedades e expectativas desnecessárias...
-Você está me dando alta ou é impressão minha? - ele deduziu surpreso.
- Sim, Vítor.
Creio que, a partir de hoje, você já pode continuar sem mim.
Você hoje conhece muito mais a si mesmo, sabe os recursos que tem e o que precisa fazer a cada situação que terá pela frente.
Terá muitos desafios, é claro, mas já tem os meios para superá-los.
Portanto, já está pronto para seguir seu próprio caminho sem a minha interferência.
De qualquer forma, quero que saiba que, sempre que precisar de mim, estarei pronta a atendê-lo...
Ao deixar o consultório, Vítor sentia-se ao mesmo tempo feliz por sua conquista e inseguro em pensar que não teria mais seu grilo-falante - era assim que ele agora a chamava, de brincadeira - ajudando-o a desvendar os recados de seu eu inconsciente.
"Será que eu vou conseguir?", ele se perguntou ao deparar-se com o sol brilhando na rua movimentada.
"Como será minha vida daqui para frente sem a Olívia?"
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:16 am

- LXIII -
- Será que algum dia eu vou conseguir tirar o Maurício da minha cabeça? - Florence perguntou-se ao ver a família e os amigos reunidos em torno da TV.
Passados três meses desde a última vez que o vira, ela ainda se questionava se tinha agido correctamente ao terminar tudo daquela maneira, quase arrependida por sua atitude.
Mas não era hora para pensar sobre estas coisas.
Era um dia especial.
Domingo, 30 de junho de 2002, dia da última disputa do Brasil na Copa do inundo, na final contra a Alemanha.
A mesa estava cheia de quitutes e iguarias que ela havia especialmente preparado para a ocasião.
Salgadinhos, canapés, roscas, biscoitos caseiros e até os grústolis, ou cuecas-viradas, como Rafael insistia em chamar, que todos adoravam.
- Isso aqui é muito bom! - disse Clarinha, experimentando um.
Ela agora morava também no apartamento de Paloma.
Após o escândalo da prisão de Faustino, a mãe mudara-se definitivamente para Paris, deixando-a aos cuidados da irmã mais velha.
Para a menina, que sofrerá tanto com os últimos acontecimentos que marcaram sua família, esta fora a melhor notícia do século depois da descoberta de que Florence era sua irmã.
Na verdade, via nela a mãe que nunca tivera.
Sem contar a alegria de ter um 'sobrinho' como Rafael.
A não ser por algumas pequenas crises de ciúmes de ambas as partes, seu relacionamento com Aline também era muito bom e Clarinha não via a hora de sua 'sobrinha-neta' nascer.
Aline entrava em seu quinto mês de gravidez e o sexo do bebé acabara de ser revelado por um exame de ultra-sonografia.
- Eu e Rafael estivemos pesquisando e encontramos uma porção de sugestões de nomes para ela - disse Clarinha, aproximando-se de Vítor e Aline com um desses livros de nomes vendidos em bancas de jornal.
Que tal Isménia?
- Que nome estranho! - disse Vítor, sem soltar sequer por um instante a mão de Aline.
Não tem nenhum outro mais simpático?
- Significa saudade, desejo vermente de amor! - atalhou Rafael.
- Vermente não, deve ser veemente!
Entusiástico, fervoroso, caloroso, intenso! - corrigiu Chuva.
- Ali, eu acho bonito... - reflectiu Aline.
- Isménia...
- Eles parecem todos tão felizes - Florence comentou com Paloma.
- Que Saint-Germain os envolva com sua chama violeta! - exclamou Paloma.
A poucos passos de distância, Pablo e Têmis, que naquele dia voltava a visitar a família, também os observavam satisfeitos.
Pablo continuava acompanhando de perto o gradual acoplamento de Odilie ao feto que se desenvolvia no útero de Aline.
Deveria permanecer ao lado de Odilie como uma espécie de segundo anjo da guarda, até que ela chegasse a sete anos de idade, quando finalmente estaria consolidado seu processo de reencarne.
- Aretusa ficaria emocionada se pudesse vê-los neste momento... - Têmis não pôde deixar de comentar.
- E como ela está? - quis saber Pablo.
- Ela continua em tratamento na colónia.
Assim como acontece aos encarnados, é muito delicado para os espíritos ter acesso a informações que ainda não estão preparados para digerir...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:17 am

No encontro com Faustino, ela não só ficou sabendo da triste realidade que envolvia o ex-marido, como também teve acesso a recordações de vidas anteriores, através de mergulhos de memória provocados pelo choque violento - lamentou Têmis.
- A maioria dos seres ignora o quanto são fortes os laços que os ligam aos seres com quem convivem em seu dia-a-dia.
Quase sempre um mesmo grupo de espíritos se reúne, em sucessivas reencarnações, a fim de purificar os afectos que os unem.
Veja, por exemplo, o caso de Maurício, Florence e Aline.
Os três estão juntos há dezenas de encarnações e, mesmo assim, ainda não conseguiram aparar suas arestas...
- Me explique uma coisa - pediu Têmis, curiosa.
Se a primeira esposa de Maurício não tivesse morrido em consequência de um aborto, Florence e Moneda se encontrariam mesmo assim?
- Sim. Estava previsto que Aline ou Lorraine, como você preferir, deveria desencarnar poucos meses depois, após um acidente e, embora ela não tivesse ideia disso, a espiritualidade também já havia planeado seu reencarne como filha de Florence.
A única diferença entre o que está acontecendo e o planeamento divino é que Florence deveria ajudar a criar os filhos de Maurício, caso não houvessem sido abortados.
Agora, será Maurício quem ajudará a criar a neta de Florence, caso os dois consigam se acertar... - elucidou Pablo.
- Oto não vê a hora de reencarnar! - comentou Têmis, animada.
Quem sabe ele não volta como filho dos dois?
- Não nos antecipemos aos desígnios maiores.
A providência divina certamente saberá optar pelo melhor para todos - advertiu Pablo.
- Mas Maurício e Florence vão ou não vão se acertar? - insistiu Têmis.
- O irmão Guilhôme ficou de "dar uma mãozinha".
Vamos ver como é que eles vão reagir - prometeu Pablo.
Nesse momento, a campainha tocou.
- Deve ser Lucila! - disse Noémia, correndo a atender.
- Não, mamãe - interferiu Paloma, carinhosa.
Lucila ainda demora.
A cada dia, parecia mais apta no trato com a mãe.
Nas horas vagas brincava até de bonecas com Noémia, fazia o possível e o impossível para não contrariá-la.
Sabia que a mãe tinha pouco tempo de vida e esforçava-se ao máximo para que esse tempo pudesse ser vivido da maneira mais harmoniosa possível.
Não era fácil.
Noémia agora havia entrado numa fase de achar que Paloma não sabia gerir o dinheiro da pensão que recebia do marido e passava o dia contando e recontando as cedidas do jogo banco imobiliário que Rafael cedera para contentá-la.
De vez em quando, distribuía dinheiro entre os meninos, mas depois esquecia que havia feito a 'doação' e revistava a casa inteira dizendo que havia sido roubada.
"E eu que, em minha ingenuidade, cheguei a pensar que ela pudesse ter escondido os dólares de Lucila sem dizer nada...", lembrou Paloma, ainda olhando de maneira afectuosa para a mãe.
Depois que tudo fora explicado e o dinheiro lhe fora entregue por Aline, ela correra a depositá-lo na conta da irmã.
Mas não contara nada a Lucila, para não tornar ainda mais difícil a situação da filha de Florence.
A fim de poupar maiores desgastes, dissera à irmã simplesmente que o dinheiro ficara preso, sem querer, às páginas do livro de física que Aline guardara na gaveta.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:17 am

Fora realmente uma sorte conseguir reaver aquelas economias, mas Lucila não tinha a menor noção disto.
E, aliás, nem lhe pedira desculpas por todos os desaforos e insinuações que a havia obrigado a ouvir.
Lucila ligava sempre, mas Noémia piorava de uma tal forma a cada vez que falava com ela, que Paloma e Florence haviam decidido evitar, o quanto possível, que as duas entrassem em contacto directo com muita frequência.
A princípio Lucila não gostara da ideia.
Mesmo à distância continuava querendo controlar a família nos mínimos detalhes.
Mas acabará tendo de compreender.
Afinal, por mais que isto a incomodasse, pela primeira vez na vida era obrigada a admitir que Paloma era quem cuidava de Noémia e, portanto, deveria saber o que era melhor para a mãe.
- Até hoje não consegui compreender - disse Têmis, agora observando Noémia em sua habitual alienação.
Fico tão tocada sempre que vejo a situação desta senhora...
Afinal, a filha mais velha tinha ou não tinha o direito de abandoná-la neste momento?
- Direito todos nós temos de fazer o que bem entendermos - explicou Pablo.
Para isso temos o livre-arbítrio.
A questão, porém, é que nem sempre aquilo que escolhemos é o melhor para nós.
- Mas, pelo que fiquei sabendo, a oportunidade pela qual Lucila sempre lutou apareceu justamente no momento em que foi diagnosticada a doença da mãe.
Isto quer dizer que, mesmo as portas tendo sido abertas para que ela realizasse seu desejo, ela deveria ter aberto mão para permanecer ao lado da família? - Têmis questionou.
- Muitas vezes o que parece ser uma chance irrecusável é na realidade uma prova que se coloca em nossas vidas para ver seja adquirimos a capacidade e a maturidade para optar correctamente - esclareceu Pablo.
A solução, nestes casos, é agir com bom senso.
Diante de qualquer situação em que estejamos indecisos sobre o que fazer, devemos, antes de mais nada, propor-nos as seguintes questões:
Será que aquilo que hesito em fazer pode acarretar qualquer prejuízo a outrem?
Pode ser proveitoso a alguém?
E se agissem assim comigo, eu ficaria satisfeito?
Com toda a certeza, se Lucila houvesse feito a si mesma estas perguntas antes de viajar, ela não teria partido.
- Ela perderia então a oportunidade com que sempre sonhou? - argumentou Têmis.
- Lucila ganharia a oportunidade de aprender e de se aprimorar como espírito caso houvesse optado por permanecer ao lado da mãe e do restante de sua família.
Mais tarde, caso a providência divina julgasse frutífero o seu desejo, uma nova oportunidade certamente surgiria - afirmou Pablo.
- É o mesmo caso da Jaqueline... - observou Têmis.
Fico pensando no trabalho que Demóstenes está tendo a esta hora junto da filha em Paris...
Ela é tão sem juízo...
Neste momento, os dois tiveram sua atenção voltada para Cenyra, Luís Paulo e Vinícius, que acabavam de chegar.
- Eu queria aproveitar que está todo mundo aqui reunido para dar unia notícia que acho que todos vão gostar de saber - disse Vinícius, olhando significativamente para Chuva, que logo correu para perto dele, toda sorridente.
- Uma notícia? - estranhou Vítor.
- Sim. Amanhã inicio meu estágio na TV Paladium.
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Ave sem Ninho

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:17 am

Se tudo der certo, eu e Chuva nos casamos no ano que vem!
A alegria foi geral.
Chuva não cabia em si de tanta felicidade.
- Isso quer dizer que o Vinícius vai ser meu primo de agora em diante? - tentou entender Clarinha.
- Nada, sua tansinha!
A Chuva não é tua prima de verdade, porque ela é nossa parente por parte de vó, entendeu?
Tu és irmã da minha mãe, mas só por parte de pai! - explicou Rafael.
- O que é que tem? - disse Clarinha, sacudindo os ombros.
Para mim, ela é prima assim mesmo, tá?
- O jogo vai começar! - avisou Luís Paulo ansioso.
Curiosamente, porém, não acendeu nenhum cigarro.
Impressionado com o sucesso do tratamento de Vítor, vinha lendo muito sobre as ideias de Platão e o espiritismo.
Mesmo sendo um iniciante na doutrina codificada por Allan Kardec, ficara muito preocupado com a hipótese de que poderia estar se matando através do tabagismo e acabara decidindo largar o vício depois de acompanhar uma série de reportagens produzida pela equipe do programa "Isto é incrível" sobre os malefícios do cigarro.
Era uma decisão custosa.
Havia dias em que sentia vontade de subir pelas paredes de tanta vontade de fumar, mas Luís Paulo estava lutando com todas as suas forças para conseguir.
- Há exactamente três semanas que ele não leva um cigarro à boca! - Cenyra contou a Paloma, toda orgulhosa, enquanto abria no colo a tapeçaria quase completa, que trouxera para mostrar às amigas.
- Está maravilhosa! - contemplou Paloma, admirada.
- Tu és mesmo uma artista, Cenyra!
Que perfeição! - exclamou Florence.
- Está faltando apenas terminar o céu - explicou Cenyra, mostrando o pequeno trecho ainda vazio.
Acho que até o final do dia fica pronta...
Eu trouxe até as linhas... - disse mostrando a sacola cheia de novelos e pacotes.
- Ficou tão delicado... - observou Aline, aproximando-se.
Queria que a senhora fizesse uma especialmente para colocar no quarto do neném, será que dá tempo?
- Acho que sim.
Ainda falta bastante tempo até o neném nascer...
Falando nisso, eu trouxe aqui umas lembrancinhas para você - anunciou Cenyra, remexendo a sacola e dela retirando um primeiro pacote.
Na tela, enquanto isso, os instantes passavam depressa.
- Até que enfim esse Lúcio está mostrando ao que veio... - comentou Vítor, de olhos atentos no campo.
Mas este Ronaldo também não faz nada...
Artilheiro da copa!...
Eu, se fosse esse técnico, mandava entrar logo o Denílson...
- Vai Ronaldo! Vai! - Luís Paulo gritou, mordendo nervosamente duas unhas ao mesmo tempo!
É golo! Goooolo! Esse garoto vai longe!
Enquanto todos comemoravam, Vítor manteve-se no sofá pensativo.
O golo de Ronaldo, segundos depois que ele havia acabado de criticá-lo, mostrava o quanto havia sido radical em suas colocações.
"Será que estava novamente sendo vaidoso, prepotente e dominador, querendo saber mais do que o técnico da selecção?", alertou-lhe o consciente, exactamente da maneira como previra Olívia.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:17 am

Por via das dúvidas, resolveu não dar mais nenhum palpite.
Minuto a minuto, aquele jogo fazia-se realmente marcante para toda a família, à excepção de Noémia, que não conseguia entender exactamente o que estava se passando.
O facto da selecção brasileira ter entrado na Copa desacreditada e aparentemente sem qualquer chance de chegar à final dava um sabor especial à vitória, conquistada sobretudo graças à perseverança, à união e à humildade da equipa.
Era como se, vendo aquele jogo, todos se identificassem com aqueles atletas que agora venciam seus limites e fantasmas, com a máxima garra e determinação, e se sentissem também capazes de superar seus problemas.
- Goooooolo! - comemoraram todos, após o segundo gol de Ronaldo, pouco antes dos minutos finais.
- Foi do Pele, foi? - perguntou Noémia, alienada como sempre.
- O Brasil é penta! - urrou Rafael. – Penta campeão!!
Momentos depois, todos choravam vendo a selecção de mãos dadas
no imenso campo verde de Yokohama, agradecendo a vitória numa oração. Florence aproveitou aqueles instantes de comoção conjunta para sair de fininho, sem que ninguém notasse. Precisava correr antes que as ruas fossem tomadas pela febril comemoração.
Afinal, era dia de vitória do Brasil, mas era também dia de visita no presídio especial onde Faustino há três meses se encontrava detido, à espera de seu julgamento.
Têmis seguiu junto com ela.
Havia combinado de encontrar-se, no próprio presídio, com o irmão Guilhôme.
Todos os domingos, Florence ia visitar o pai sem dizer nada aos filhos, nem a Clarinha, já que os três se encontravam bastante revoltados com o que acontecera.
Ela, contudo, que esperara tanto por aquele pai durante tantos anos, não podia simplesmente deixá-lo esquecido numa cela, sem tomar conhecimento de sua existência.
Como a jovem da história que um dia lhe fora contada por Moneda, agora que ela finalmente o encontrara, não queria nunca mais perdê-lo.
- Você trouxe o álcool que eu pedi? - ele foi logo dizendo, tão logo a viu, sob o olhar consternado de Têmis e do irmão Guilhôme que, em vão, tentavam aplicar-lhe passes restauradores para que pudesse ao menos regozijar-se um pouco com a visita da filha.
- Sim, papai, eu trouxe... - ela disse, tirando da bolsa a garrafa.
Para dizer a verdade, nem sei como esses homens me deixam passar toda a semana com este álcool na bolsa...
A sorte é que eles nunca me revistam direito..
- Depressa, depressa... - ele disse, já virando a garrafa em um dos panos impecavelmente limpos que mantinha empilhados ao lado da cama.
Depois de sua prisão, Faustino enlouquecera.
Passava o dia inteiro esfregando as paredes, o chão e todos os móveis da cela com álcool, transtornado por sua mania de limpeza.
- Se eu não fizer isso, não consigo suportar viver aqui... - ele explicou, tenso, ainda esfregando freneticamente a cabeceira da cama, sempre observado de perto por Lupércio que, quase tão louco quanto ele, vivia quase o tempo todo às gargalhadas.
É tudo muito sujo...
Escorre sangue por estas paredes!
Durante os quinze minutos de visita a que tinha direito, Florence ficava observando aquela cena patética, morrendo de vontade de chorar.
Embora não pudesse ver Lupércio, sentia sempre uma aura estranha em torno do pai dementado.
Ainda assim, mantinha-se firme.
Queria passar-lhe uma sensação de apoio e segurança com sua presença.
Tão logo ultrapassava o portão que dava acesso ao corredor de celas especiais, porém, não conseguia conter mais o pranto e invariavelmente deixava o presídio chorando muito.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:18 am

Mas todos os guardas pareciam alheios a sua dor, concentrados em sua rotineira tarefa de abrir e fechar celas, portões, cadeados, correntes e trancas no horário de saída das visitas daquele mundo cão.
Naquele domingo, especialmente, ninguém notou sua tristeza em meio às comemorações que, a essas alturas, já espoucavam por toda parte até mesmo no presídio.
No momento em que deixava o imenso prédio no subúrbio, porém, Florence foi surpreendida por uma buzina.
A princípio, hesitou em olhar para trás, imaginando tratar-se de mais uma manifestação de torcedores inebriados com a vitória recém-conquistada.
Contudo, a buzina parecia segui-la em direcção ao ponto do ônibus, e insistiu tanto que ela acabou virando-se para ver do que se tratava.
Era Moneda.
Ele desceu do carro e abriu a porta, convidando-a a entrar.
Por infinitos instantes, Florence, ainda de olhos inchados, reflectiu se aceitava ou não aquele convite.
Estava com tantas saudades, queria tanto vê-lo...
Acabou entrando.
- Estive no apartamento da Paloma e ela me disse que estava aqui... - ele explicou, dando partida no carro.
- Tu fostes até lá? - ela perguntou, surpresa.
"Se ele imaginasse o quanto ela havia pensado nele durante todo o jogo...", ela pensou consigo.
- Eu fui porque tinha algo de muito importante para dizer para você - ele anunciou, enquanto colocava para tocar o CD que marcara o início do relacionamento dos dois.
- Pensei que nunca mais fosse te ver... - ela confessou, morrendo de vontade de chorar novamente ao ouvir os primeiros acordes da música que começava a tocar.
- Desde aquele dia, eu pensei muito em tudo o que me falou e cheguei a uma conclusão - ele disse.
- Chegou? - ela mal conseguia crer que estivesse ali com ele naquele momento.
- Sim. Cheguei - ele afirmou, enquanto entrava no estacionamento de um shopping.
- Que mal te pergunte, para onde estás me levando? - ela estranhou ao se ver no estacionamento.
- Queria um lugar vazio, onde pudéssemos conversar, e então me lembrei deste shopping.
As lojas não abrem aos domingos, mas o estacionamento funciona normalmente - ele explicou, parando o carro numa vaga ao ar livre.
Você se importa?
- Não... - ela respondeu, ainda confusa com tudo aquilo.
Ele então desligou o motor e virou-se para encará-la.
- Queria que soubesse que, no dia em que eu te conheci, no momento em que me apaixonei por você, eu não vi o seu rosto...
- Não? - ela não se lembrava deste detalhe.
- Não. Estava escuro no cano, mais escuro ainda na praia.
Nos poucos minutos em que conversamos, antes que você descesse até o mar, achei algo de familiar em você, mas não consegui identificar de imediato o que era.
Então aconteceu tudo aquilo, nós conversamos, só quando estava te levando para casa percebi nitidamente sua semelhança com Lorraine...
- Então que diferença faz se...
Florence tentou argumentar, já com o coração apertado.
- Espere, eu ainda não acabei - ele olhou fundo em seus olhos, como se fosse beijá-la.
Cheguei à conclusão de que esta sua semelhança com ela foi apenas um atractivo, um chamariz que fez com que eu tivesse ainda mais vontade de me aproximar de você.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:18 am

Aliás, você também achou que eu parecia com aquele artista de cinema...
Você mesma me confessou naquela noite no café!
Florence abaixou a cabeça envergonhada.
Entendia o que ele estava dizendo.
Talvez ela própria também tivesse necessitado de um atractivo para vencer o trauma de seu primeiro casamento fracassado.
- Eu estava viúvo há dezoito anos, jamais havia me permitido sequer olhar para uma outra mulher - ele continuou.
Não porque amasse Lorraine desesperadamente, mas porque carregava comigo uma culpa descomunal, uma culpa que me impedia até de viver como qualquer outra pessoa!
- Mas tu não tiveste culpa da morte dela!
Florence não pôde se conter.
- Agora eu sei disso, mas naquela época eu não sabia.
Achava que ela tinha feito o aborto por minha causa, que tinha morrido por minha causa.
O caso de Vítor e Aline, porém, me fez ver que uma pessoa só faz uma coisa dessas se realmente estiver disposta a fazer...
De qualquer maneira, me senti redimido desta culpa ao prender o verdadeiro responsável pela morte dela.
E então descobri que... - ele parecia hesitante, como se estivesse com vergonha ou mesmo receio de continuar.
- Que... - insistiu Florence, morrendo de medo que ele dissesse que havia descoberto que nunca sentira nada por ela.
- Eu descobri que eu nunca amei Lorraine como eu amo você - ele conseguiu finalmente dizer.
Minha relação com ela era diferente, quase infantil.
Eu nunca tive com ela a afinidade que eu tenho com você...
- Moneda, eu... - ela levantou os dois braços num gesto expressivo de quem não sabe o que dizer.
- Eu nunca senti por Lorraine o que eu sinto por você, será que você não entende isso? - ele disse, segurando seus dois braços na altura dos pulsos e beijando-a em seguida com toda a paixão que mantivera contida durante tanto tempo.
Florence não pôde resistir.
Entregou-se àquele beijo e sentiu como se a Terra houvesse parado de rodar naqueles instantes.
- Eu nunca mais quero me separar de você... - ele disse, beijando levemente seus lábios, várias vezes seguidas.
Se te incomoda tanto essa sua semelhança com Lorraine, então corte os cabelos, pinte-os até de vermelho, se quiser...
Mas eu não quero mais ficar nem um dia longe de você...
Como diz esta música que eu adoro, "non me lasciare mai", não me deixe nunca mais...
Novamente os dois se beijaram, ao som da música que continuava tocando, tomados por um sentimento intenso, que era muito mais do que uma paixão.
- Por falar nisso, eu trouxe um presente para você...
Ele tirou da gaveta um papel dobrado e um CD, o mesmo que tocava agora no aparelho do carro.
- Não acredito... - ela disse, abrindo o papel surpresa.
Você traduziu a letra para mim?
- Fiz isso porque ela diz o que eu queria dizer para você... - ele respondeu com olhos brilhantes, enquanto ela lia o que estava escrito no papel.
"Vento e Memória", dizia o título.
"Vivo a recordação daquele primeiro momento, mágico encontro em um dia de vento.
E a palavra que eu não conseguia mais encontrar, como um milagre, através de você eu achei.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:18 am

Eu te chamei paixão, encanto e harmonia.
Palavra antiga, palavra nova, veio, não se sabe de onde, para te dizer que você é um sonho, sonho que eu sempre sonhei, você é vento e memória, e eu sempre te amarei.
Vento e memória é a história de uma história, respiro e sinto que você vive em mim.
E o infinito agora existe e só consiste em saber amar como eu te amo.
Te chamarei paixão, encanto e harmonia, palavra cheia que, como um rio, se derrama no peito, no coração.
Te falarei de amor para que não durmas, serei vento e memória, não me deixes nunca mais".
- E... é... - ela tentou dizer, com a voz embargada.
Pela primeira vez na vida, não sentia o peso do silêncio dos domingos.
Era como se aquela música, cuja tradução apertava agora em suas mãos, envolvesse inteiramente sua alma com sua melodia e suas palavras, fazendo ventar para longe toda a tristeza que sentira nos últimos meses.
Maurício, enquanto isso, abria novamente o porta-luvas e tirava de lá uma delicada caixinha embrulhada com papel florido com desenho de violetas e envolvida por uma fita violeta.
"La Violeta - Bombones", dizia a etiqueta.
- Isto aqui eu trouxe para você da Espanha... - ele disse, entregando-lhe o presente.
São balas de violeta...
Achei tão delicadas que me lembrei de você...
Comprei também o livro daquele filme que você tanto gosta, mas, na pressa de sair, acabei esquecendo em casa...
- Oh, Maurício, eu te amo! - ela disse, beijando-o, com toda a sua ternura.
Acho que sempre te amei, desde antes de nascer nesta vida...
Após mais alguns beijos, porém, ela o afastou, pensativa.
- E o meu pai?
Tu vais aceitar que eu...
Moneda, porém, a envolveu ainda mais forte com seu abraço:
- Eu não estou aqui?
É claro que eu não vou poder visitá-lo, junto com você, mas posso vir te trazer sempre que você quiser...
Uma das lições que tirei de meu relacionamento anterior é que ninguém pode viver sufocado pelas neuroses do outro.
Eu não posso te impedir de ver o seu pai...
Nem de ser quem você é...
Ela passou as duas mãos pelo rosto de Maurício, acarinhando-o como se quisesse guardar para sempre, em todos os seus sentidos, a imagem dele naquele momento mágico.
- Às vezes eu não consigo acreditar que tu existas de verdade...
Fico me perguntando por que é que não te conheci antes de me casar com o Osmar...
- Simplesmente porque não era para conhecer.
Nossa história é agora! - ele disse, num largo sorriso.
Vamos procurar um lugar tranquilo para a gente almoçar?
- Acho que vai ser difícil... - disse Florence, sem conseguir desmanchar também o sorriso.
Com a vitória do Brasil, a cidade inteira está em polvorosa!
- Tenho uma ideia!
Podíamos ir até o meu apartamento e preparar um almoço juntos.
Tenho codornas no freezer e pétalas de rosa no jardim!
- Codornas com pétalas de rosa...
Florence sorriu enternecida.
-Eu acho uma óptima ideia! - comemorou, sentindo o coração doer de tanta felicidade.
- Assim você aproveita para ver se vai querer mudar alguma coisa antes de ir morar lá definitivamente comigo! - ele anunciou, maroto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:18 am

- Maurício! - ela exclamou em tom de censura, sem contudo dissolver as covinhas da bochecha sorridente.
- E o que é que tem de mais?
Eu quero me casar com você!
- Mas e meus filhos?
E a Clarinha?
- O apartamento é grande, cabe até o Vítor, se ele quiser...
-Tu és incrível - ela disse, antes de entregar-se mais uma vez a seus lábios.
Só então Têmis e Guilhôme afastaram-se.
Estavam verdadeiramente radiantes pela felicidade dos dois.
- Precisamos nos apressar pois está quase na hora! - anunciou Guilhôme.
- Nunca pensei que fosse poder assistir o desencarne de um espírito tão abnegado...
Nem sei como te agradecer por este convite! - ela disse maravilhada, com ar de profunda alegria e gratidão.
- Ele foi um dos maiores médiuns e um dos maiores exemplos de perseverança, humildade e dedicação que a Terra já conheceu, depois de Jesus.
Por isso, os espíritos prepararam uma verdadeira festa para recebê-lo.
Todo o caminho que deverá percorrer da casa onde abandonará seu corpo de carne até a colónia magnífica que habitará no plano maior foi inteiramente enfeitado de pontos de luz e flores perfumadas.
Ele passará por este caminho sob os aplausos de verdadeira plêiade de espíritos das mais variadas categorias e será recebido nas esferas mais altas pelo próprio Mestre Jesus - contou Guilhôme, já emocionado.
- Mal posso esperar para chegar em Uberaba e conhecer Chico Xavier! - disse Têmis, desaparecendo com ele, em seguida, numa fagulha de luz.
Enquanto isso, no quarto de Aline, ela e Vítor, felizes, se divertiam, olhando as primeiras roupinhas de bebé que haviam acabado de ganhar de Cenyra.
Toda a família continuava comemorando na sala o penta campeonato, em clima de grande alegria.
- Olha esse macacãozinho de tricô que coisinha mais linda... - dizia ela, embevecida.
E a camisetinha do Brasil então?
Dona Cenyra disse que foi teu pai quem escolheu...
- Você vai querer mesmo que nossa filha se chame Isménia? - ele perguntou, preocupado.
-Ali! O que é que tem?
Pensei também em Odília, o que você acha?
- Cada nome esquisito que você arranja! - ele reclamou, já buscando mentalmente um bom nome para sugerir.
Nesse momento, porém, o consciente novamente o alertou, como se dissesse:
"você não pode controlar tudo!
Ela é a mãe da criança, tem todo o direito de escolher um nome para ela!"
Ele então se lembrou de seu infeliz comentário durante o jogo.
- Se não tiver jeito...
Se você quiser mesmo um desses nomes... - ele disse, tomando-a nos braços - não tem problema.
Com o tempo eu me acostumo!
Os dois se beijaram, apaixonados, para alegria de Odilie e de Pablo, que assistiam à cena exultantes.
- Queres saber, estou com muita vontade de ligar para o meu pai... - revelou Aline, ainda envolvida no abraço de Vítor.
Tu achas que eu devo fazer as pazes com ele?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 9:19 am

- Acho que sim - reflectiu Vítor.
Não devemos ficar guardando rancores das pessoas.
Viemos ao mundo para cultivar amigos - ele afirmou, convicto, estalando-lhe um beijinho na ponta do nariz.
Se quiser, nas férias podemos até fazer uma viagem para Florianópolis...
Eu tenho um dinheiro guardado e...
- Eu acho óptimo! - sorriu Aline, satisfeita.
No pequeno aparelho de som tocava um CD infantil que ela havia comprado pensando no bebé, enchendo de música aquele primeiro domingo de sonhos e esperanças compartilhadas:
"Domingo pede cachimbo, Lição, brincadeira
O cachimbo é de barro, E, na terça-feira,
Bate no jarro, Que a gente aprenda,
O jarro é bem fino, E divida a merenda,
Bate no sino, Que lá pela quarta,
0 sino é de ouro, Já não ê tão farta,
Bate no touro, Na quinta, se pinta.
0 touro é valente, Na sexta, a gente
Bate na gente, Reza um bocado
A gente é fraco, Pra -não cair,
Cai no buraco, E logo afunda,
Uma chuva no sábado,
Nem uma gota,
Nem um só pingo,
E que o sol ilumine esse nosso...
Domingo pede cachimbo..."
Acaba o domingo, Começa a segunda Que barafunda!

FIM

A gratidão é o sentimento digno que deve viger no homem que recebe benefícios da vida.
Todos a devemos a alguém ou a muitas pessoas que nos socorreram nos momentos mais graves da existência.
A ajuda na hora certa é responsável por tudo de bom que nos venha a acontecer.

Joanna de Ângelis
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