O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:27 am

Florence era uma pessoa muito transparente e tinha consciência disto.
Não era preciso nem olhar-se no espelho para constatar que sua desordem mental estava estampada em seu rosto.
Por força do hábito, empurrou para dentro do bolso apertado a nota de dez reais que deixara sobre a mesinha de cabeceira e seguiu em direcção à sala, sentindo aumentar sua urgência de chegar até a rua.
Precisava aspirar o ar puro da noite, como se só ao ar livre fosse efectivamente conseguir respirar.
Já estava no alpendre, trancando a porta, quando percebeu que estava descalça.
"Onde estou com a cabeça, meu Deus!", pensou consigo.
Abriu novamente a porta e deu com os tamancos que Aline deixara na entrada da sala.
Por sorte, as duas calçavam o mesmo número.
E assim, Florence ganhou a rua em passos firmes, sem a menor noção do quanto estava bonita a despeito de toda a sua dor.
A pracinha em frente estava vazia.
"Ali...", ela respirou profundamente, abraçando a si mesma como sê estivesse com frio, "como eu precisava ficar um pouco comigo mesma...
Só eu e esta noite estrelada...
Só eu e as estrelas..."
Respirou fundo mais algumas vezes e seguiu pela rua residencial deserta e arborizada em direcção à ponte, pelo mesmo caminho por onde seguira Aline na tarde anterior.
Não sentia medo, morava ali há tantos anos...
Ou será que sentia?
Há tanto tempo não saía sozinha, ainda mais assim tão tarde da noite.
Haveria algum perigo?
Estava ainda tão confusa que não conseguia responder às próprias indagações.
"Melhor não ficar pensando nestas coisas", decidiu.
Não tinha exactamente um desuno.
Queria apenas caminhar olhando a lagoa.
De noite ficava tudo tão diferente...
A lagoa mais parecia uma mulher madura, envolvida em seu manto cor da noite, onde se reflectiam as estrelas do céu.
Ei a como se nela estivessem escondidos todos os segredos da ilha.
De dia, tudo era festa e alegria, a mesma lagoa era quase uma cidade-menina, emoldurada por magnífica paisagem e habitada por barcos a vela, jet-skis, bananas boats, lanchas voadoras e baleeiras, enquanto em seus céus brincavam asas deltas e parapentes coloridos.
Florence não se identificava muito com a lagoa diurna, embora lhe apreciasse a beleza.
Preferia a lagoa da noite, sóbria e misteriosa.
Parou em um pequeno banco de madeira e tirou os tamancos para massagear os pés, que já doíam.
Tudo era silêncio, não havia nem mesmo um carro cruzando a rua.
Fixou os olhos nos dois balanços de pneu bem adiante e, sem querer, sua mente reviu a imagem do pai empurrando-a em um balanço como aquele, em alguma pracinha do Rio que não saberia localizar.
Vestiu novamente os tamancos e levantou de um só impulso.
Não queria pensar nisso agora.
Enquanto isso, do outro lado da ponte, um carro também vagueava sem destino.
Ao volante estava Maurício Mofieda, o jovem e sóbrio director geral de jornalismo da TV Paladium e supervisor do programa "Isto é Incrível".
Viúvo e solitário, decidira aproveitar o feriado do Natal para um rápido passeio em Florianópolis.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:27 am

Não escolhera a cidade por acaso.
Havia uma razão especial para estar ali.
De alguma maneira, queria sepultar as lembranças dolorosas da esposa Lorraine, que o impediam de ser feliz e até mesmo de relacionar-se com outras pessoas.
Ela havia morrido subitamente, aos vinte e quatro anos, e ele não conseguia deixar de culpar-se por causa disso, embora jamais falasse sobre os motivos de seu falecimento.
Florianópolis fora justamente o último lugar onde haviam estado antes do trágico ocorrido, a última lembrança feliz que restara na memória do taciturno director.
Inconscientemente, ao revisitar cada canto onde estivera antes com a esposa, tentava resgatar um pouco da energia viva que deixara impressa nos ares daquela ilha para ele tão mágica, quase como se buscasse na memória dos acontecimentos ali vivenciados um último alento para continuar vivo.
Todavia, depois de passar a tarde entre praias e pontos turísticos que visitara no passado com a esposa, sentia-se ainda mais solitário e deprimido.
Afinal, embora houvesse revisto na memória cada sorriso que Lorraine dera nestes lugares, e até mesmo seus olhares ciumentos e os apertões que ela lhe dava no braço, sempre que alguma moça bonita cruzava-lhes o caminho, o silêncio de sua não-presença a seu lado despertava-lhe um terrível vazio.
Ele agora podia olhar para onde quisesse, porém nada mais lhe interessava a não ser seu próprio trabalho, único elo que ainda o mantinha ligado à vida.
Lembrou-se então de uma praia que lhe havia sido recomendada por uma repórter da emissora como era dos lugares mais lindos da ilha e resolveu ir até lá.
Era um dos poucos locais turísticos de Florianópolis onde não havia estado com Lorraine, talvez fosse bom conhecer.
Sentia-se de uma tal maneira impregnado com as lembranças da esposa e com a dor que estas lhe suscitavam que parecia até que seu coração ia falir a qualquer momento, sufocado de tanta saudade.
Estacionou às margens da lagoa e tentou localizar-se no mapa que trazia dentro do porta-luvas.
Florence já havia caminhado mais de meia hora e sentia sede.
Apesar da brisa leve que vinha da água, estava uma noite quente.
Pensou em tomar um suco de frutas no simpático barzinho que havia logo adiante, próximo à ponte.
Contudo, como estivesse fechado, decidiu seguir pela ruazinha estreita costeando as águas, em direcção ao centro.
A boca salivava de vontade de tomar um suco de abacaxi.
Chegando ao Portinho próximo à ponte de Pedra, lembrou-se dos restaurantes da Avenida das Rendeiras, mas logo desistiu da ideia, sem coragem de cruzar a casa de dona Preciosa, onde o corpo de seu Gentil ainda estava sendo velado.
Não tinha condições de encará-los agora.
Culpada por esta decisão atravessou rapidamente para a ponte, fugindo do olhar de algum possível conhecido.
Sentiu então recrudescer novamente toda a sua angústia, esqueceu-se até do suco de abacaxi que tanto desejara momentos antes.
O que queria, na verdade, era fugir de si própria, não pensar em nada até que as suas ideias voltassem para o lugar.
Seus pés, porém, já começavam a doer outra vez.
"Maldita a hora em que resolvi vestir este sapato de Aline!", praguejou.
Em poucos instantes, chegava ao outro lado da lagoa, emoldurado pelas luzes e barulhos dos bares ali perto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:28 am

Já passava da meia-noite, mas o local fervilhava.
Parecia até uma outra cidade.
De longe, ouviam-se as gargalhadas, o característico bater de copos e garrafas, o eco de chapinhas pulando na calçada sob os letreiros coloridos e convidativos.
Florianópolis estava lotada e parecia que toda a população de moradores e visitantes estava agora ali reunida naquelas mesinhas.
Mas Florence não se sentia parte desta alegria viva e despudorada que se espalhava em torno da lagoa, bar após bar, em brindes e beijos que antecipavam a chegada do Natal.
Queria estar sozinha, esquecer que era Natal, se possível enterrar-se na areia até que aquela dor passasse.
“É isso, preciso pisar na areia", pensou, enquanto cruzava rapidamente a estreita calçada em frente aos bares.
"Mas as praias ficam tão distantes daqui, como é que eu faço para chegar até lá?"
- Olê, olê!
Gritou uma voz de homem de uma das mesas, tentando chamar sua atenção.
- Pra que tanta pressa, morena?
- Ah, me puxa, me puxa, vai! - provocou o outro rapaz que estava na mesma mesa. (17)
Florence, agoniada, respirou fundo e apertou mais o passo.
- Vai ver que o urubu tá cum raiva do boi! (18) - ela ainda pôde ouvir ao longe, sem conseguir evitar o sorriso.
Sem querer, lembrou-se de Ornar, o ex-marido, e sacudiu a cabeça como quem acaba de provar algo muito amargo.
Um mulherengo, isso sim que ele era.
Provavelmente, deveria estar agora em algum bar, cantando alguma pobre desavisada.
Quanta decepção...
Como pudera se enganar tanto com uma pessoa?, questionava-se em seu rápido caminhar sem direcção definida.
Por que, afinal, ela vivia se enganando com as pessoas?
Súbito, um carro parou a seu lado.
Era um moderno Renault azul-metálico.
- Você sabe dizer como é que eu faço para chegar na praia Mole? -perguntou o motorista, com sotaque carioca.
Era Maurício.
- Estou indo para lá.
Será que tu me darias uma carona? - Florence respondeu de um ímpeto, já entrando no carro.
O vidro eléctrico se fechou como num passe de mágica e ela se sentiu envolver pelo frio do ar condicionado ligado.
Só então se deu conta da loucura que talvez estivesse fazendo.
Era comum as pessoas pegarem carona em Florianópolis, contudo, àquela hora da noite, não estaria se arriscando em entrar no carro de um estranho, ainda por cima sendo alguém de uma outra cidade?
- E agora?
Eu subo por esta ponte? - perguntou o motorista, interrompendo lhe o fluxo desesperado de pensamentos.
- Isto! Depois é só seguires recto toda a via.
Vais atravessar a avenida das Rendeiras e começar a subir o morro da Lagoa, até encontrares uma bifurcação - Florence explicou.
"Meu Deus, vou passar de novo na porta de dona Preciosa...", pensou consigo, angustiada.
"E se eu pedisse para descer por lá, não seria melhor?"
Alguma coisa dentro dela, porém, parecia assegurar-lhe que não havia o menor perigo.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:28 am

De mais a mais, ela queria tanto chegar até a praia Mole, não teria sido uma bênção de Deus aquela carona inesperada?
Não, ela não queria descer, não queria ir para o velório, queria apenas caminhar nas areias quentes da praia Mole.
Nada de mal iria lhe acontecer, tentava, a todo custo, garantir a si própria, sem coragem de olhar para o motorista.
Fechou os olhos e procurou concentrar-se na música que tocava.
Era uma espécie de ópera melodiosa, quase um bolero italiano.
Falava sobre um mágico encontro, mas ela não conseguia compreender muito bem o que dizia exactamente a letra.
Aria e memória talvez fosse o refrão.
Pelo menos, fora isto o que ela conseguira identificar.
O que significaria?
- Que música bonita... - ela comentou, tentando parecer natural.
- Também gosto muito - ele respondeu atento ao caminho.
Esta, aliás, é minha faixa favorita.
- E corno se chama o cantor? - quis saber Florence.
- Alessandro Safina.
Nesta canção, ele é acompanhado pelo coro da Academia Romana e...
Nossa, que restaurante bonito! - ele observou ao cruzar o famoso Amendoeira, já na metade da avenida das Rendeiras.
É novo?
- Que novo que nada!
Minha mãe trabalhou muitos anos aqui - contou Florence, ainda envolvida pela música.
- Na verdade não conhecia esta parte da ilha...
Da outra vez em que estive aqui, fiquei mais ao sul...
Você nasceu aqui mesmo? - ele quis saber.
- Sim, sou manezinha... - ela respondeu tímida e atenta.
- Manezinha? - ele sorriu, estranhando.
- Todos os que nasceram na ilha são manes, manezinhos como a gente diz por aqui.
Antigamente, não era todo mundo que gostava de ser chamado assim.
Soava meio pejorativo, não sabes?
Mas, depois que o Guga saiu pelo mundo se apresentando como mane, o pessoal passou a ter orgulho de ser chamado desse jeito - explicou Florence.
- É mesmo, o Gustavo Kuerten é daqui... - lembrou o motorista, sempre com os olhos fixos na estrada.
- Não só ele, como também o nadador Fernando Scherer, o Xuxa, o surfista Teco Padaratz, que também é músico... - enumerou ela.
O pessoal aqui tem idolatria por estes desportistas!
Afinal, eles divulgaram muito o nome da nossa cidade...
Agora, depois desta curva, se seguires adiante, sairás na praia da Joaquina...
Diminua um pouquinho que logo vais ter de cambar à esquerda...
- Cambar? - estranhou ele.
- É, cambar, virar! - explicou ela.
Quando finalmente estacionaram no alto da praia, Florence sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.
Tinha uma coisa com aquela praia que não saberia definir para ninguém, o rapaz fez menção de tomar uma água de coco em um pequeno quiosque que permanecia aberto, apesar do adiantado da hora.
- Você não me faz companhia? - perguntou gentil.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:28 am

Só então ele olhou para ela de frente e percebeu o quanto era bonita.
Mais do que isso, ela tinha algo de familiar, aqueles olhos...
Ele conhecia aqueles olhos, mas de onde?
Se ela ao menos o deixasse olhá-la por mais alguns instantes...
- Não, obrigada... - ela respondeu, tirando os tamancos, com os olhos fixos nas ondas que estouravam na areia lá em baixo.
Nem sei como agradecer pela carona...
- Espere! Você não quer carona também para voltar? - ele perguntou, tentando ganhar tempo.
Mas Florence não respondeu, parecia hipnotizada pelo barulho do mar, inteiramente tragada pela emoção de pisar naquelas areias quentes e moles.
O movimento das ondas parecia encobrir todos os sons internos e externos; apenas o murmurar do vento por entre as folhas das árvores se fazia ouvir em meio ao estrondo das águas.
Ventava muito.
Florence estancou a poucos metros do mar e se deixou banhar pela língua de água quente que logo envolveu seus pés em pequena poça, enquanto a franja comprida que lhe escapara do coque dançava diante de seus olhos.
Soltou os cabelos e deixou que o vento os afagasse, em deliciosa sensação de liberdade.
Desde menina, aquela que agora era conhecida como a praia da moda e da 'azaração', frequentada por modelos, surfistas e todo o tipo de gente bonita, sempre fora sua preferida.
Mas não era nem a agitação, nem a exposição de corpos esculturais que a atraíam habitualmente para lá.
Gostava mesmo era de postar-se na beira da água da 'sua praia', com os dois pés enterrados na areia, exactamente como estava agora, e ficar ouvindo o quebrar das ondas que, em noites de lua crescente como aquela, pareciam ainda mais verdes, enormes e espumantes.
Ficou algum tempo ali, longe dos quiosques e do pequeno movimento no alto da praia, só ouvindo o barulho das águas batendo sobre a areia.
Aos poucos, começou a rememorar cada etapa de sua busca infrutífera.
"Nem sei como te dizer, mas seu pai foi encontrado...", informava, em seu retrospecto mental, a voz da secretária da TV Paladium.
"Só que... infelizmente, ele não quer ver você..."
"Como assim ele não quer me ver?", Florence replicou de imediato.
"Querida, sei que deve ser muito difícil para você ouvir isso, e você pode ter certeza de que também para mim é horrível a tarefa de transmitir-lhe estas informações", tentava desculpar-se a secretária.
"Mas o que foi exactamente que ele disse?", insistiu Florence.
"Bem", prosseguiu a moça após titubear por alguns instantes, "segundo me consta, seu pai formou outra família nesses anos todos em que ficaram separados e agora não quer misturar as estações...
Parece que tem medo da reacção da esposa, dos filhos; provavelmente eles não sabem que você existe e...
Ei, você está me ouvindo?"
Florence estancou suas lembranças no mesmo ponto em que havia desligado o telefone.
Lágrimas quentes começavam a cair de seus olhos, confundindo-se com os pingos salgados e frios que o mar salpicava em seu rosto a cada novo estouro.
Então seu pai tinha outra família, tinha até outros filhos...
Ela não significava nada para ele.
Desaparecera de sua vida como um rastro de água sobre a areia molhada.
Todo o seu passado explodira como uma onda.
Ela simplesmente não existia mais para o pai.
Seria possível isso? Seria verdade?
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:28 am

Quase como uma autómata, Florence começou a caminhar lentamente em direcção às águas.
Era perigoso, pois ondas gigantescas começavam a estourar cada vez mais forte, mais alguns passos e ela seria engolida por aquele turbilhão.
E, no entanto, ela parecia nem se dar conta disso, como se sua visão estivesse turvada pelas lágrimas que escorriam de seus olhos sem parar.
Só se deu conta do perigo que corria quando braços fortes a enlaçaram pela cintura:
- Cuidado! - disse a voz de homem, já puxando-a rapidamente para mais próximo da margem.
Menos de um segundo depois, a enorme onda estourava e quase o levava junto com ela no repuxo das águas.
Maurício, porém, foi mais forte e sem por um instante largar sua cintura, conseguiu conduzi-la de volta à areia sã e salva.
- Que susto você me deu! - ele disse, finalmente depositando-a no chão, exausto e muito molhado.
Só então ela o reconheceu.
- Eu... - abaixou a cabeça envergonhada, sem saber como continuar.
Florence não imaginava, mas há tempos ele a observava, entre atraído e curioso.
Quase sem querer a havia seguido em seu caminho pela areia, movido por um impulso que não sabia de onde vinha, tendo parado atrás dela a uma distância de poucos metros, de onde, tal como um anjo da guarda, acompanhara cada um de seus gestos.
Se não a enlaçasse naquele exacto instante, ela certamente teria se afogado.
- Se imaginasse que estava pensando em fazer isso, jamais teria te dado carona! - ele disse, bravo, juntando os sapatos que jogara na areia na corrida para salvá-la.
Se bobeasse, ainda era capaz de ter de responder a um processo por sua culpa.
Era só alguém testemunhar que me viu chegando na praia com você e...
Ao vê-la sentada no chão, sacudindo-se em pranto, porém, comoveu se e novamente aproximou-se.
Não fique assim...
Será que não há nada que eu possa fazer para ajudá-la?
Ela fez um movimento negativo com a cabeça, esforçando-se ao máximo para conter o choro.
- Eu não falei por mal, apenas fiquei nervoso porque... - ele tentou justificar.
- Está tudo bem - ela respondeu, engolindo um soluço.
- Você estava chorando de uma maneira tão sentida ... - ele abaixou-se a seu lado, limpando com delicadeza as lágrimas que ainda brilhavam em sua face.
Será que não há nada que eu possa fazer para ajudá-la? - repetiu.
Um forte e másculo perfume exalou de seus dedos, no momento em que ele tocou nas lágrimas de Florence.
Como que despertada por aquela fragrância, só então ela reparou que ele tinha os traços do actor que interpretara o papel de herói no filme Como Agua Para Chocolate, de que ela tanto gostava.
Os cabelos negros e lisos jogados para trás, os olhos levemente puxados... era um homem muito atraente.
"Como era mesmo o nome daquele actor?", tentava recordar.
Eles eram tão parecidos...
Não, não era possível. Não era ele.
Mesmo porque, o tal actor era mexicano. Ou não?
De qualquer forma, brasileiro não era.
Maurício, por sua vez, também a olhava estupefacto.
Assim de cabelos soltos, os olhos molhados fazendo parecerem maiores os cílios, não, não era possível...
Aquela moça era muito parecida com Lorraine, por isso lhe parecera tão familiar no alto da praia.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:29 am

Os olhos! As duas tinham os mesmos olhos!
Não fosse pelo sotaque tão carregado, ele diria que...
Não. Ele sabia que isto era impossível.
"Marco Leonardi, era este o nome", Florence lembrou-se de um estalo.
Tinha quase certeza.
Nunca mais o vira em nenhum filme, todavia jamais esquecera seus olhos expressivos.
"Nossa Senhora do Desterro...
Será que estou sonhando?
Como alguém poderia ter olhos exactamente iguais aos de outra pessoa?
Seria um efeito da lua?", questionava-se, intrigada, sem imaginar que ele se fazia a mesma pergunta.
E como não reparara em nada disso durante todo o trajecto do centro até ali?
Seria ele mesmo o rapaz da carona?
A voz, porém, não deixava qualquer dúvida.
Ainda mais aquele sotaque...
Devia ter pouco mais de quarenta anos, uns quarenta e quatro talvez.
Usava uma camisa polo listrada, de grife, e calças jeans escuras, de aspecto seminovo.
E estava inteiramente encharcado por causa dela.
"Meu Deus, que vergonha...", ela escondeu o rosto entre as mãos.
- Você está sentindo alguma coisa? - ele perguntou preocupado.
- Tu deves estar achando que sou uma louca, não é mesmo? - ela perguntou, sem levantar o rosto.
Ele acarinhou, terno e trémulo, seus cabelos molhados antes de responder.
Era quase como se tocasse nos cabelos da esposa morta.
- Não, não acho que você seja louca...
Mas, com certeza, deve estar passando por algum momento difícil na sua vida...
Me deixe ajudá-la...
- Está tudo bem... - ela garantiu, recompondo-se.
Olhe, se quiseres, podes ir.
Eu já te dei muito trabalho, não quero tomar mais seu tem...
- Não diga bobagens - ele tampou seus lábios levemente com a ponta dos dedos.
Sentia uma vontade incrível de beijá-la, mas sabia que não podia fazer isso.
Florence, por sua vez, ao inspirar novamente aquele perfume, também sentiu um arrepio, um estranho desejo de ser beijada.
Mas apenas olhou para ele assustada.
- Você pode não acreditar, mas eu posso imaginar exactamente como está se sentindo... - ele atirou de novo na areia as sapatilhas de couro e apoiou uma das mãos no chão, preparando-se para sentar.
- Posso?
Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça.
Seu íntimo, no entanto, gritava:
"Meu Deus, Florence, tu enlouqueceste?
Nem sabes quem é esse homem, como podes deixar que se sente a seu lado assim sem mais nem menos, só porque se parece com o Marco Leonardi?"
"Não, não é por causa disso", ela mesma se respondeu.
"Este homem salvou a minha vida, não pode me fazer mal".
"Mas esta praia está tão deserta", protestava o outro lado de sua personalidade, "ele pode muito bem se aproveitar da situação e..."
- Não se preocupe.
Não vou fazer nada com você. - ele afirmou, como se lesse seus pensamentos.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:29 am

Só me sentei aqui porque achei que talvez estivesse precisando de alguém para conversar...
Sabe, eu também já chorei muito diante do mar... - confessou, com certa melancolia na voz.
E até tentei afogar toda a minha dor no meio das águas, do mesmo jeito que... - ele procurava as palavras para não magoá-la.
- Falas sério? - ela sorriu, surpresa.
Não estivesse tão atormentada com seus problemas, podia se apaixonar por ele só de ouvi-lo dizer estas coisas.
Era tão difícil um homem chorar, mais difícil ainda um homem confessar que chorou muitas vezes, e ainda por cima identificar-se com a sua situação.
Florence admirava homens sensíveis, embora não mais acreditasse que eles existissem fora das telas do cinema.
- E quem te salvou?
Quer dizer... - por razões óbvias, o assunto a constrangia.
- Um pescador. Mas tudo isso já faz muito tempo...
Você queria mesmo morrer? - a imagem de Florence entrando na água ainda se repetia em sua mente.
- Se eu dissesse pra ti que não tinha pensado nisso, tu acreditarias?
Eu não queria morrer, não vim aqui para me matar.
Apenas tive vontade de entrar ai na água, como que para limpar a dor que eu estava sentindo, entendes
- Sim, entendo.
Como te disse, eu também já senti uma dor como essa - ele reiterou pensativo.
"Como podiam ser tão parecidas?", ele não conseguia parar de perguntar-se.
Florence esboçou um sorriso curto com um mexer de ombros.
Havia um quê de despeito, de ironia em sua voz quando ela observou:
- E engraçado pensar que um homem também possa sentir estas coisas...
- Por quê? Você também não acredita que os homens sintam dor? - ele perguntou, com os olhos perdidos no infinito do mar.
"Com toda certeza tudo não passava de uma ideia fixa, de uma brincadeira de sua imaginação", pensava consigo.
Imediatamente Florence lembrou-se do pai e respondeu ressentida:
- Queres saber?
Não acredito nem que um homem seja capaz de amar.
- Você pensa isto mesmo? - desta vez foi ele quem olhou para ela incrédulo.
quem foi que te fez pensar assim? Algum namorado?
- Tu já tiveste, por acaso, algum grande sonho, alguma coisa que desejasses muito, muito mesmo na tua vida? - ela desconversou, voltando o foco para os próprios sentimentos.
- Já - ele respondeu monossilábico.
- Pois é. Eu estou assim por causa de um sonho.
Um sonho que me foi negado realizar... - ela aspirou profundamente à brisa do mar.
- E ao menos era um sonho possível de ser realizado? - perguntou ele.
- Sim. Possível era, só que...
Escute, tu acreditas mesmo que esses programas de televisão se empenhem de verdade para ajudar uma pessoa?
- Como assim? - ele reagiu ressabiado.
- Tu nunca viste esses programas onde eles mostram uma pessoa procurando por uma outra pessoa?
- Você quer saber se a equipe do programa realmente ajuda nessa procura?
É claro que sim!
É vantagem para o programa promover o reencontro.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:29 am

É isso o que os telespectadores desejam ver!
- Estás falando de ibope?
- E óbvio! Sem ibope, um programa não fica no ar!
Você não tem ideia da quantidade de coisas em que isto implica.
Mas... Por que você está me perguntando isso?
Já esteve, por acaso, procurando alguém em algum programa de televisão?
Ele parecia entender muito do assunto, mas, por alguma razão que Florence desconhecia, o tema havia alterado o tom de sua voz, que então se tornara mais incisiva, quase defensiva.
- Não... - ela desconversou, sentindo-se inferiorizada por aquela indagação.
Foi só uma coisa que me passou pela cabeça...
Obviamente, não iria contar a mais um estranho toda a sua dolorosa história.
Não queria que ninguém mais soubesse de seu segredo.
De mais a mais, ele parecia tão rico, tão distinto, com toda certeza deveria achar ridículas essas pessoas que aparecem na televisão fazendo apelos.
Aliás, não queria nem que soubesse seu nome.
Se ele perguntasse, inventaria qualquer mentira.
Os dois ficaram alguns minutos olhando o mar em silêncio, como se cada qual houvesse sido tragado pelos próprios pensamentos.
- Você se arrepende de ter desejado ou de ter lutado para realizar o seu desejo? - ele readquiriu seu tom sensato, quase meigo.
- As duas coisas... a verdade é que eu me decepcionei muito...
Alguma vez tu já te decepcionaste profundamente com uma pessoa? - ela quis saber.
Ele demorou mais alguns instantes para responder.
- Eu me decepcionei com Deus - disse melancólico.
- Como assim?
Tu não acreditas mais em Deus? - ela estava surpresa.
- Não sei. Olhando para esse mar imenso, é difícil dizer que não acredito mais em Deus.
Eu sei que Ele existe, eu vejo que Ele existe, mas o meu coração não consegue confiar n'Ele como as pessoas confiam, será que você pode compreender o que estou dizendo?
- Mais ou menos - respondeu Florence, reflexiva.
Mas o que foi que fez com que perdesses a confiança em Deus desta forma?
- Ele me tirou o que eu tinha de mais raro, de mais precioso em minha vida...
- E o que foi que Ele te tirou?
- Minha esposa...
- Puxa... - Florence não sabia o que dizer.
Uma onda estourou pesadamente na areia.
Ela estava pasma.
Como um homem poderia amar tanto uma mulher a ponto de brigar com Deus por causa dela?
Como ela gostaria de um dia ser amada assim...
Mas já havia se convencido de que o amor não era para ela.
A desilusão com Ornar fora tão grande, tão imensa, que ela imaginava que jamais conseguiria amar de novo um homem.
Nem mesmo se ele fosse a cara do Marco Leonardi.
Era como se sua capacidade de amar houvesse fenecido junto com seu casamento fracassado.
Estranhamente, porém, pela primeira vez, desde que se separara de Ornar, ela sentia uma ternura diferente dentro de si, enquanto conversava com aquele estranho.
Agora mesmo, ouvindo-o falar da esposa de maneira a tão poética, sentia uma vontade tão grande de abraçá-lo...
Ele parecia uma pessoa tão especial, ao mesmo tempo tão forte e tão frágil.
“Você só pode estar ficando maluca, Florence", reprimiu-se novamente.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:29 am

"É claro, é óbvio que este homem jamais vai amar outra mulher!”
- Já faz muito tempo que... - ela ensaiou, procurando as palavras.
- Dezoito anos.
Acho melhor nos apressarmos, pois a maré está subindo e, logo, logo vamos estar dentro da água de novo se permanecermos aqui - ele respondeu, levantando-se e estendendo a mão para que ela também pudesse se erguer.
Parecia não querer falar mais sobre aquele assunto.
- E nunca mais você... - ela ainda tentou perguntar, enquanto se punha de pé.
Neste momento, porém, os corpos dos dois quase se encontraram e novamente algo de estranho aconteceu.
Era como se uma mágica energia os envolvesse.
Ficaram tão perto, que por pouco não se beijaram.
- Sabe que você é muito bonita? - ele disse, olhando-a no fundo dos olhos.
Tão bonita que... - ele aproximou os lábios para beijá-la.
- Eu preciso ir - ela desconversou, limpando a areia grudada em sua calça molhada.
Se meus filhos acordam e não me encontram em casa eu nem sei o que...
- Você tem filhos? - ele não conseguiu disfarçar seu desapontamento.
- Eu tenho dois - ela sorriu, antes de estalar-lhe um leve beijo na bochecha.
Obrigada por tudo, foi muito legal te conhecer!
Surpreso com seu gesto espontâneo, ele ficou meio sem acção.
Estava confuso com os próprios sentimentos, desde a morte da esposa, jamais olhara para alguém daquela forma.
As duas eram realmente muito parecidas e este facto parecia envolvê-la numa aura mágica diante dos olhos dele.
Mas tantos anos havia passado na mais absoluta solidão que nem sabia mais como agir diante de uma mulher.
- Espere! - ela já estava vários passos na frente, quando ele finalmente gritou.
Eu vou levar você em casa - disse ao alcançá-la.
- De jeito nenhum.
Eu posso muito bem ir andando e...
- A essa hora da noite?
Do ponto em que eu peguei você até aqui são mais de dez quilómetros!
- É verdade... - ela admitiu, desanimada.
Só não queria te dar mais esse trabalho...
- Eu faço questão - ele segurou-a pela mão.
Os dois seguiram em silêncio, de mãos dadas, até o alto da praia.
Não era exactamente um gesto de duas pessoas apaixonadas.
Embora sentissem algo quente e inabitual pulsando dentro do peito, viam-se muito mais como náufragos, cansados, amparando-se mutuamente em seu trajecto de volta à vida.
- Você ainda não me disse o seu nome - ele observou, enquanto abria a porta para que ela entrasse no carro.
- Aline... Meu nome é Aline - foi o primeiro nome que lhe veio a cabeça.
- O meu é Maurício - ele disse ao entrar no carro.
Maurício Mofieda.
Conversaram sobre as atracções turísticas da ilha durante todo o trajecto de volta.
Mofieda mostrou-se fascinado ao ser informado, já no quarteirão de Florence, da existência na região de um viveiro de plantas nativas, onde podiam ser apreciadas inúmeras variedades de orquídeas e bromélias da mata Atlântica.
Era um orquidófilo, possuía mais de trinta espécies na varanda de seu apartamento no Rio.
- E ainda por cima cultivas orquídeas!
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:29 am

É inacreditável! - ela não pôde deixar de comentar.
Devagar! E bem ali que eu moro - disse apontando para a casinha branca de janelas azuis.
- Você bem que poderia me acompanhar neste passeio - ele sugeriu ao parar o carro, ao mesmo tempo em que fixava na memória o número da casa.
- Infelizmente não vai dar.
Amanhã terei um dia cheio, de manhã tenho de ir a um velório, na hora do almoço chegam visitas e... - ela tentou justificar.
- Será que não vai sobrar nem um tempinho?
A gente podia se encontrar pelo menos para tomar um suco naquele barzinho próximo à ponte, por onde acabamos de passar.
Queria só ter a certeza de que você está bem...
"Ele não podia perdê-la", era tudo em que conseguia pensar.
Florence, por sua vez, sentia alguma coisa queimar dentro de si.
Quanta consideração! Será que ele estava realmente preocupado com ela?
Enterneceu-se. Também queria muito vê-lo de novo, mas ao mesmo tempo tinha medo.
Será que deveria?
Lembrou-se então dos meninos dormindo e apressou-se.
- No fim da tarde, pode ser? - disse em um rompante de coragem, já abrindo a porta do carro.
- Fechado! - ele abriu um largo sorriso.
- Então as cinco, no barzinho - ela confirmou, saindo do carro.
Agora, realmente preciso ir.
- Até lá!
Antes de trancar o portão, Florence ainda pôde vê-lo sorrindo ao volante, arrancando com o carro em direcção à ponte.
Parecia realmente que já o conhecia há muito, muito tempo.
Só então lembrou-se de que não haviam sequer trocado os telefones.

17- Me leva junto, me carrega.
18- Expressão utilizada para dizer que a mulher está brigada com o marido.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:30 am

- XI -
Naquela noite, depois que todas as luzes se apagaram no apartamento de Cenyra e Luís Paulo, eles continuaram na sala, por muitas e muitas horas, agachados, quietinhos, escondidos como duas crianças amedrontadas.
Um no canto, encaixado em uma fresta entre a parede e o armário de louças, outro debaixo da mesa.
- Acho que eles já foram! - sussurrou baixinho o que estava debaixo da mesa, girando a cabeça titubeante para verificar se não havia mesmo mais ninguém na sala.
- Ufa! Pensei que nunca mais ia poder sair desta posição! - respondeu o outro, alongando-se.
Falando nisso, nem nos apresentamos!
Meu nome é Fajardo, e o seu?
Era um rapaz comprido e magro, com a estatura de um adolescente.
Usava apenas uma calça, amarrada à cintura por uma corda, trazendo o peito nu e os pés descalços, fazendo lembrar um lutador de capoeira.
- Psst! - fez o outro, pedindo silêncio, sem sair ainda do esconderijo.
Talvez ainda estejam aqui!
- Mas você não disse que eles tinham ido embora? - questionou Fajardo, contrariado, voltando a ficar de pé no pequeno espaço que havia entre o armário e a parede.
- Eu disse que achava que eles já tinham ido - explicou o que estava debaixo da mesa, ainda sussurrando.
Mas sinto ainda alguma coisa estranha no ar!
Permaneceram mais alguns minutos em silêncio, até que, acreditando que não havia realmente mais nenhum perigo, o que estava debaixo da mesa passou por debaixo de uma cadeira e pôs-se finalmente de pé.
- Chamo-me Oto - apresentou-se.
Era um ser estranho.
O corpo era de um menino de cerca de cinco anos de idade, os braços, porém, eram longos e cabeludos como o de um homem comum, o que causava um sério desequilíbrio em sua postura, fazendo-o andar como um macaco, arrastando no chão o dorso das mãos.
O rosto também não era de criança, mas de um rapaz barbado.
Todavia, o que mais chamava a atenção em todo o conjunto, mais ainda do que sua estranha postura e o completo desacordo entre as idades de seu corpo e rosto, eram seus olhos.
De tão esbugalhados, chegavam a curvar-se para fora das órbitas, quase num círculo completo, revestido por fina tessitura de nervos vermelhos.
Eram olhos enormes e inquietos, o tempo todo a movimentarem-se de uma ponta à outra do glóbulo, como a espera de um golpe inesperado e fatal.
- Quer saber, maninho? - disse o que estava no canto do armário, saindo novamente de seu esconderijo, sem encará-lo.
Foi um prazer te conhecer, mas eu tô caindo fora!
Entrei nessa roubada por acaso, só estava querendo me divertir quando acompanhei o Vinícius do bar até em casa e... - ele viu os pratos empilhados e o pote de biscoitos abertos e desarvorou-se até a mesa - Humm...
Ele aspirou profundamente o odor dos pratos empilhados:
- ... doce!... - decodificou, extasiado.
Em seguida, debruçou-se com voracidade sobre o vidro contendo biscoitos, parecia querer enfiar a cabeça inteira lá dentro, e voltou a inspirar com toda a sua força:
- Adoro biscoitinhos... - comentou, frustrado, depois de repetir o gesto inúmeras vezes, sempre observado por Oto.
- Você vem sempre aqui? - perguntou o barbudo, mexendo os olhos em velocidade fora do comum, como se fosse um radar, varrendo a casa em todas as direcções.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:30 am

- Vim algumas vezes - respondeu Fajardo, vasculhando o armário através do vidro.
Estou acostumado a encontrar com o Vinícius nos treinos de capoeira, gosto daquele jeito dele de criar confusão com as pessoas.
Quando eu ainda podia ser notado entre os vivos, eu era desse jeito.
Estava sempre batendo em todo mundo.
Escreveu, não leu, o pau comeu! - ele soltou uma risada nervosa e ritmada que mais parecia um soluço.
Aha, aha, aha!
- Sei... Então quer dizer que você anda com ele por afinidade... - deduziu Oto.
- Podes crer! E isso aí!
Gosto das pessoas que são como eu - explicou Fajardo, sem tirar os olhos do pacotinho fechado que descobrira dentro do armário.
Só não esperava que fosse encontrar por aqui aquele exército dos... - ele girou a cabeça para os lados, certificando-se de que não havia mesmo mais ninguém na sala - você sabe.
Já tinha ouvido falar sobre eles muitas vezes, mas nunca tinha encontrado assim Cara a cara com nenhum... - só então percebeu Oto por inteiro.
Caramba! Você é muito esquisito!
Como foi que ficou assim?
Oto olhou para o chão acanhado, não gostava que comentassem sobre sua aparência.
Não tinha propriamente consciência de sua imagem, posto que nunca tivera a oportunidade de ver-se diante de um espelho, mas tinha noção de sua monstruosidade.
Jamais comentava, porém, sobre a razão por que se transformara naquela aberração.
- Você ficou com medo? - tentou desconversar.
- De você ou daqueles... você sabe quem? - tornou Fajardo, tentando disfarçar sem assombro.
- Deles, é claro! - exclamou Oto, como se falasse do óbvio.
- E você não ficou?
Achei que eles fossem me capturar de qualquer jeito!... - ele fez uma pausa e continuou encarando Oto de cima a baixo.
Nunca tinha visto ninguém assim.
Engraçado é que eles nem notaram que a gente tava aqui! - ainda comentou.
- Eu, se fosse você, não teria tanta certeza... - observou Oto reticente.
Fajardo não gostou:
- Hi! Qual é a tua?
Tá a fim de me zoar?
Quer saber? Fui! - e, dizendo isso, ele cortou a sala como um raio e desapareceu.
-Tsc, mais um covarde... - resmungou Oto, estalando a língua num muxoxo descontente.
Em seu andar arrastado, ele vasculhou mais uma vez toda a sala com seu olhar nervoso, deu um passo para trás ao deparar-se com o livro que Cenyra deixara sobre o sofá, como se a publicação oferecesse algum tipo de perigo.
Caminhou mais alguns passos para trás e fez uma careta ao sentir-se atravessar por uma poltrona que atropelara sem querer.
Sentou-se então sobre a mesa e ficou olhando o livro de longe, com ar pensativo e desconfiado.
Aquela era a prova de que os espíritos do bem haviam estado naquela casa.
Oto sabia que eles sempre vinham quando as pessoas faziam uso de livros como aquele com o intuito sincero de receber auxílio.
E Cenyra, sob este aspecto, era uma mulher perigosa, pois parecia sempre sintonizada com os seres luminosos.
Não tinha medo dos espíritos de luz, ele próprio um dia já havia sonhado ser um deles.
Mas, desde que fugira da Colónia Renascer, onde vivia com dezenas, centenas de seres de formas tão esdrúxulas quanto as suas, tudo isto ficara muito longe.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:30 am

Por hora, temia apenas que os mentores da tal colónia o reencontrassem.
Não queria mais voltar para lá, não acreditava mais naquelas conversas sobre redenção e regeneração.
E pensar que por tão pouco ele não estava vivendo entre os seres a quem agora se comprazia em perturbar.
Estava tudo planeado para que reencarnasse em uma família muito próxima àquela; deveria crescer junto com Vítor e aproveitar todas as oportunidades para transformar em amizade o ódio que há séculos os unia.
Mas então aconteceu aquilo.
Um acontecimento tão traumático que Oto não gostava nem de se lembrar.
Somente os espíritos de luz haviam acompanhado o seu desespero, somente eles tinham noção do quanto havia sofrido naquela fracassada tentativa de regeneração.
Somente eles e Odilie, o espírito programado para ser sua irmã gémea naquela malfadada experiência.
Ao fim do massacre, eles recolheram o que havia restado dele e de Odilie e os conduziram, ainda inertes, para as dependências hospitalares da Colónia Renascer.
Não sabia dizer quanto tempo se passara desde o triste ocorrido.
Desde aquele dia, no entanto, nunca mais conseguiu voltar a sentir aquela vontade de ser bom que o impelira à frustrada tentativa de regresso à Terra.
Nem mesmo a doçura e o optimismo de Odilie puderam mais contagiá-lo (como ela conseguia? Perguntava-se sempre), nem mesmo os cuidados dos mentores daquela colónia tiveram como cativá-lo desta vez.
Ao contrário, o traumático acontecimento acabou por fazer recrudescer todo o seu ódio pelos desafectos do passado, secando cada gota do pouco de generosidade que tão arduamente conseguira cultivar em sua alma amargurada.
Durante meses, talvez anos, não sabia ao certo, permaneceu trancado em sua revolta, até o dia em que a colónia foi sacudida por uma rebelião de espíritos em sua mesma situação, dispostos a vingarem-se do homem que tão cruelmente podara os sonhos e esperanças de todo o bando.
Oto juntou-se a eles e fugiu, sequer disse adeus a Odilie antes de partir.
Este talvez fosse seu único arrependimento.
O mais curioso fora que, ao instalar-se com os companheiros no apartamento do encarnado a quem perseguiam, acabara por reencontrar Vítor, possivelmente o maior de todos os seus desafectos, a quem odiava até mais do que ao desprezível exterminador de almas que o movera até lá.
Afinal, Vítor, que morava justamente no apartamento debaixo, o havia mutilado não apenas uma, mas muitas vezes.
Por isso, desde que topara tom ele e o reconhecera por seus traços de carácter, Oto deixara definitivamente de acreditar que as pessoas pudessem mudar através de suas várias encarnações, passando então a obsediar permanentemente o rapaz com a conivência e a colaboração de todos os companheiros "do andar de cima".
De vez em quando, porém, como acontecia naquela silenciosa madrugada, lembrava-se dos espíritos benévolos que o haviam assistido no planeamento e nos preparativos para a reencarnação que não acontecera.
Não queria pensar nestas coisas, mas era mais forte do que ele; não podia evitar, por mais que relutasse.
Era como se Pablo e Têmis, seus mentores naquela experiência, houvessem ficado gravados em seu ser como uma espécie de consciência, incansável e insistente.
O que diriam Pablo e Têmis se o vissem agora?, não pôde deixar de perguntar-se.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:30 am

- Diríamos que, não importa o que você faça, as leis aprendidas permanecerão sempre gravadas dentro de você, mostrando-lhe o caminho certo a seguir - ecoou na sala sonora voz feminina, cujas palavras se espalhavam como flechas de luz por todo o ambiente.
-Têmis? - Oto a reconheceu de imediato, embora não pudesse enxergá-la.
É você quem está aí?
Ela era um dos espíritos que haviam participado da caravana que há horas havia auxiliado a família de encarnados com seus bons fluidos, tendo permanecido na casa desde então, embora Fajardo e Oto, por seu baixo padrão vibracional, não tivessem podido detectar sua presença.
- Em algum momento você acreditou que nós o tivéssemos esquecido? - ela continuou, envolvendo-o agora em verdadeira chama de fluidos balsamizantes.
Oto não conseguiu responder, lágrimas de intensa comoção inundavam-lhe a face, embargando-lhe o raciocínio.
- Meu irmão... - soou agora tonitruante voz masculina com leve sotaque espanhol, inundando a sala com suas vibrações de paz.
Não pensas que é hora de retroceder um passo em seus projectos de vingança e voltar à colónia para receber o tratamento de que necessitas neste momento?
Encontras-te mui enfraquecido...
- Não posso Pablo - tornou Oto, a voz entrecortada pelos soluços.
Não sou quem acreditaram que fosse não pude aprender o que... - ele não conseguiu terminar a frase, caindo novamente em sentido pranto.
- Somos todos seres imperfeitos, fadados a cair e levantarmo-nos sempre e sempre!
- Sim - continuou Têmis -, o caminho da luz é um longo aprendizado.
Não pense você que não temos também nossos momentos de fraqueza...
- Não é uma questão de fraqueza, mas de determinação - tornou Oto, recompondo-se.
Eu quero destruir Vítor do mesmo jeito que ele tantas vezes me destruiu! - o ódio imenso que sentia era quase uma vitamina a fortalecê-lo em seus propósitos malignos.
- Mas não foi ele quem tirou-lhe a vida desta vez! - argumentou Têmis.
- Você não pode transferir para ele os erros de uma outra pessoa, ainda que sejam os mesmos erros que ele cometeu no passado!
- Não quero voltar! - afirmou Oto, apertando firmemente os punhos como se assim pudesse manter sob controle a incerteza que dominava seus sentimentos.
Têmis e Pablo trocaram um olhar, em seguida deram-se as mãos como que preparando-se para partir.
Em seus camisolões brancos de mangas alongadas, quase prateados de tão alvos, mais pareciam anjos celestes.
- Se é isto o que realmente deseja, não temos permissão para obrigá-lo a acompanhar-nos.
Você tem seu livre-arbítrio.
Só não esqueça que terá de responder um dia por todos os actos praticados por sua livre e espontânea vontade - lembrou Têmis.
- Estaremos sempre prontos a socorrê-lo quando achar que for a hora - complementou Pablo, despedindo-se.
- Esperem! - pediu Oto, sentindo novamente uma vontade muito grande de chorar.
Queria muito saber notícias de Odilie!
Como ela está?... - uma lágrima escorreu-lhe dos olhos no minuto em que ele formulou a pergunta.
Têmis e Pablo trocaram novo olhar cúmplice antes que ela respondesse:
- Odilie está decidida a voltar à Terra.
Os olhos de Oto pareceram arregalar-se ainda mais ao ouvir isso.
- Então ela vai tentar outra vez? - perguntou incrédulo.
- Sim, Odilie deseja nova oportunidade.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:31 am

Entendeu que no momento é a única alternativa de que dispõe para libertar-se dos traumas que ficaram impressos em sua casa mental - explicou Têmis.
- E quando será isso? - quis saber Oto.
- O mais breve possível.
Odilie já encontra-se em processo de preparação - contou Pablo.
- E... - titubeou Oto, visivelmente abalado com a inesperada notícia - vocês já sabem onde ela vai reencarnar?
- Não. Como disse, ela acaba de iniciar seu processo preparatório; as possibilidades de regresso se encontram em estudo; ainda não está certa a família que irá recebê-la - respondeu Pablo.
Oto abaixou os olhos, triste.
Desde que vivera aquela curta e traumatizante experiência como irmão gémeo de Odilie, no útero da mãe que os abortou, sentia como se os dois estivessem para sempre ligados.
Embora a gestação de ambos houvesse durado apenas três meses, haviam passado anos se preparando na espiritualidade para o regresso conjunto; nesse longo período haviam estreitado laços de muito profunda amizade.
Era como se parte dele agora vivesse nela e vice-versa, como se houvesse uma espécie de intersecção entre eles.
Por isso doía-lhe tanto na alma saber que ela tomara uma decisão de tal vulto sem sequer consultá-lo.
- Você também não a consultou quando decidiu fugir... - observou Têmis, lendo seus pensamentos.
- A situação é diferente...
A qualquer momento eu poderia voltar e reencontrá-la...
Agora, no entanto, que ela decidiu vir sozinha para a Terra, talvez leve muitos séculos para que me reconheça de novo...
- Ela não decidiu vir sozinha.
Mas não estavas lá para participar de sua decisão! - lembrou Pablo.
- Ela vai se esquecer de mim, criar outros afectos, nunca mais será a mesma... - lamentou Oto.
- A grande diferença entre vocês é que Odilie escolheu evoluir como ser integral e você decidiu estacionar em seus propósitos de vingança.
É natural, portanto, que se distanciem, visto que vibram em sintonias diferentes.
- Agora devemos partir! - anunciou Pablo, olhando fundo nos olhos de Têmis, como que dizendo-lhe algo além das palavras expressas.
- Sim - concordou Têmis, endereçando um último olhar de ternura para Oto.
Você sabe que pode nos chamar quando precisar, não sabe?
Ele abaixou novamente a cabeça, fazendo sinal afirmativo, sem conseguir segurar as lágrimas que lavavam-lhe o rosto transtornado.
Pablo e Têmis, novamente de mãos dadas, unindo as mangas de seus camisolões, transmutaram-se então em dois fachos de luz, um azul índigo e outro prateado, e foram sumindo como duas estrelas que encolhiam em velocidade vertiginosa.
Já eram quase uma faísca de luz quando Oto, levantando de um ímpeto, abriu seus enormes braços e gritou:
- Por favor, esperem!
Eu quero ir com vocês!

19 Todos nós possuímos um duplo etérico, de natureza semi-material e também chamado perispírito, de aspecto idêntico ao de nosso corpo físico.
Na verdade, é ele o modelo que dá origem ao nosso corpo de carne durante seu processo embrionário de formação.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:31 am

- XII -
Naquela manhã, Aline acordou com o barulho de alguém batendo palmas na entrada da casa.
Estava sozinha, a mãe e o irmão haviam saído para o sepultamento de seu Gentil, mas ela preferira ficar em casa.
Tinha pavor de enterros.
Levantou sonolenta, enquanto a pessoa insistia nas palmas.
- Raio de gente que não sabe nem onde é que fica a campainha! - resmungou, enquanto destrancava a porta.
Ao avistar o homem do outro lado do portão, porém, seu olhar se iluminou.
Era o rapaz da floricultura e carregava um maravilhoso vaso de orquídeas embrulhado para presente.
Pelo endereço escrito na pequena camionete estacionada ao lado do portão, ela pôde constatar que a encomenda viera do Campeche.
- Aline és tu? - perguntou o rapaz, já lhe entregando o vaso.
- Sou... - ela respondeu, entre curiosa e intrigada, arrancando afoita o envelope grampeado no arranjo.
Estava louca para saber de quem era.
- Poderias então assinar aqui para mim com letra legível? - pediu o rapaz, estendendo-lhe um papel.
Aline não respondeu, estava por demais concentrada no cartão.
- Espere aí!
Que coisa mais esquisita... - ela pensou alto, depois de reler pela segunda vez o texto, que dizia:
"Aline: Infelizmente não poderei comparecer ao encontro que marcamos para o final desta tarde.
Fui convocado às pressas para uma reunião de trabalho no Rio.
Quero, porém, que saiba que a noite de ontem foi a mais especial que já passei nos últimos dezoito anos.
Espero revivê-la breve.
Aguardo seu telefonema.
Com os mais afectuosos votos de um Feliz Natal,
Maurício Moneda"
No verso, impressos com elegante letra de gráfica, estavam seu endereço e seus telefones no Rio.
- Acho que houve algum engano... - disse Aline, devolvendo o vaso com certo pesar.
São lindas, mas não são minhas...
Deves ter errado de endereço...
O restante do dia foi tão movimentado que ela nem se lembrou de comentar o incidente com a mãe.
Nem bem acabou de tomar seu banho, já estava na hora de ir encontrar Florence e Rafael no aeroporto para buscar as primas que acabavam de chegar do Rio; depois foi aquela confusão para acomodar todo mundo dentro de casa.
Só no fim da tarde, depois que a mãe deu uma rápida saidinha dizendo que ia buscar pão no centro e voltou com a cara mais desarvorada do mundo e sem nenhum pacote nas mãos, Aline percebeu que Florence não estava nada bem.
"Anoiteceu... O sino gemeu...
E a gente ficou, feliz a rezar...
Papai Noel..."
A antiga canção, que vinha de algum lugar na vizinhança, adentrava o ambiente, trazendo para Florence uma incómoda e melancólica saudade de Natais do passado.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:31 am

As últimas vinte e quatro horas tinham sido extremamente difíceis para ela; nunca sentira tanta falta da mãe.
Trancada no banheiro, diante de uma bolsa repleta de produtos de maquiagem, ela se esforçava para tentar disfarçar as olheiras profundas e manter as aparências diante da família, mas seus olhos teimavam em não parar de chorar, borrando toda a pintura.
Sentia-se horrível.
- Desliguem esta droga! - explodiu, fechando os olhos para que as lágrimas parassem de cair, enquanto amassava com ódio o bastão de correctivo contra a pia.
- Não é aqui, mãe! - gritou a voz de Aline, do outro lado da porta.
De fora, Aline ouviu quando ela deixou escapar um soluço e preocupou-se:
- Mãe, você precisa de ajuda?
- Alguém está se afogando? - perguntou tia Noémia, em sua habitual alienação, aproximando-se também da porta do banheiro.
Você... Você é quem? - tentou lembrar-se, olhando detidamente para Aline.
- Mamãe, faz favor, venha se arrumar - atalhou Paloma, rápida, puxando dona Noémia para o quarto em frente, de Rafael, onde estavam alojadas.
- O que foi que eu fiz? - questionou a senhora.
Não bastasse você e sua irmã me trazerem para esta casa onde eu não conheço ninguém, ainda querem me manter prisioneira num quarto!
Eu não vou aceitar isto, eu vou...
- Como não conhece ninguém, mamãe?
São nossos primos, a filha e os netos da sua irmã Aretusa, a senhora não se lembra? - Paloma respondeu paciente.
- Ah... É mesmo...
Tinha me esquecido - concordou Noémia, sem graça, entrando no quarto.
- Está tudo bem, Aline? - Paloma ainda perguntou, antes de fechar a porta.
- Sinceramente eu não sei, tia... - respondeu a moça, desanimada, voltando em seguida a bater na porta do banheiro.
Mãe, não precisas que eu faça nada para te ajudar?
Florence não respondeu.
Só conseguia ouvir aquela música irritante, que reverberava dentro dela no máximo volume.
"Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel..."
- Bom, se precisares, é só chamar.
Estou no meu quarto.
Tu estás me ouvindo? - a menina ainda insistiu.
A mãe, porém, continuou em silêncio, pressionando fortemente os dois ouvidos com as mãos.
Sabia que a música vinha da vizinhança, mas tinha tido necessidade de protestar para aliviar o peso que sentia dentro do peito.
"Já faz tempo estou pedindo, mas o meu Papai Noel não vem...
Com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem...", continuava a impiedosa cantiga.
- Felicidade... - ela repetiu, destapando os ouvidos e abanando a cabeça com certo desalento.
Estava arrasada.
Jamais, em toda sua vida, se sentira tão sozinha e desamparada, tão irremediavelmente órfã, apesar da casa cheia de parentes.
"E como conseguiria dar a devida atenção às visitas no estado em que se encontrava?", perguntava-se a cada instante, olhando para si mesma diante do espelho.
"Como um homem poderia se interessar por uma mulher assim?", tentava justificar o 'bolo' que imaginava ter acabado de receber de Maurício.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:31 am

A bem da verdade, jamais tivera um contacto muito próximo com a tia e com as primas.
Desde menina, falava sempre com elas por telefone, por duas ou três vezes ela e a mãe as haviam recebido em Florianópolis.
Mas fazia tanto tempo...
Da última vez em que se viram, Chuva ainda nem era nascida; Florence, Paloma e Lucila eram então adolescentes.
Florence guardava boas recordações desse encontro, quando experimentara grande afinidade com Paloma e uma certa implicância por Lucila, na época extremamente arrogante e pretensiosa por ter acabado de ser aprovada para a faculdade de medicina.
O tempo, porém, encarregara-se de apagar de sua mente até mesmo a fisionomia das primas, que agora figuravam-lhe como duas estranhas.
Talvez fossem até óptimas pessoas, mas naquele momento ela só conseguia sentir-se incomodada com sua presença.
"Meu Deus, o que é que está acontecendo comigo?
Eu nunca fui assim!", questionava-se, ainda diante do espelho, misturando suas lágrimas à base que espalhava na região das têmporas.
Afinal, o que havia mudado dentro dela?
Achara maravilhoso quando Paloma ligara, no início do mês, falando da ideia de Lucila de reunir a família e do desejo que tinham de voltar a Florianópolis.
Até o dia anterior, aliás, estava contando os minutos para sua chegada.
Passara semanas sonhando com o momento em que todos se sentariam em (orno da mesa para partilharem juntos a ceia de Natal que ela preparara com tanto carinho.
Por que então agora sentia-se tão confusa e insatisfeita?
Ela mesma não sabia responder.
Parte de sua tristeza talvez viesse da constatação de que a família que ela tanto idealizara não era tão perfeita quanto imaginara.
Tia Noémia, coitada, nem se lembrava direito quem era ela; Chuva parecia incrivelmente contrariada por estar ali.
"Será que era mesmo Chuva que estava contrariada?
Ou seria ela quem estava transferindo sua contrariedade para a garota?", cogitou naquele instante.
O facto era que Florence mal tivera tempo de conversar com as primas, que haviam chegado logo após o enterro de seu Gentil, já a encontrando assim deprimida.
Ainda assim, juntara suas últimas reservas de força para recebê-las e comparecer ao encontro combinado, mas, ao constatar que tudo não passara de mais uma ilusão, não pudera mais disfarçar sua tristeza.
"Não", concluiu.
Com toda certeza o horrível sentimento de angústia que ora experimentava não era por causa delas.
Era o resultado de tudo o que ela mesma vivenciara nas últimas horas.
Não bastasse a notícia, dada tão de supetão por aquela secretária, de que o pai não estava interessado em revê-la, a morte de seu Gentil a fizera sentir-se ainda mais órfã.
Desde menina, havia aprendido a amá-lo como uma espécie de pai postiço, a despeito de seu jeito fechado.
Muitas e muitas vezes sua mãe precisara deixá-la sob os cuidados de dona Preciosa e seu Gentil para poder ir trabalhar.
Tinha por ele um carinho muito grande.
Florence sentia-se segura quando estava perto de seu Gentil; às vezes chegara a imaginar que ele a queria como a uma filha.
Por isso, agora sentia como se, no mesmo dia, houvesse perdido dois pais.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:31 am

O real e o imaginário.
E o pior é que sequer saberia definir para si própria qual deles era o real, qual o imaginário.
Naquela manhã, sentada no último banco do ônibus, enquanto seguia do cemitério rumo ao aeroporto para buscar as primas, a sensação que tinha era de que estava vivendo um pesadelo do qual não conseguia acordar.
As mesmas perguntas não paravam de se repetir em sua mente.
Por que seu pai agira daquela forma?
Teria mesmo uma outra família de quem queria esconder seu passado?
Teria mesmo se recusado a vê-la?
Não, ela não queria, não podia acreditar nisso.
Ele não podia tê-la esquecido simplesmente, era seu pai!
Haviam vivido muitos momentos juntos, embora ela não se lembrasse de quase nada.
Seria mesmo o homem frio e insensível que sua mãe dizia?
- Ah, mãe...
Eu sinto tantas saudades da senhora...
Queria tanto que estivesse aqui comigo agora...
Por que é que a senhora foi embora tão cedo?
Sentou-se no vaso tampado, escondeu o rosto com as duas mãos e deixou que o pranto viesse, com toda a carga represada ao longo do dia.
Se não estivesse tão transtornada, talvez pudesse ao menos pressentir a amorosa presença parada a seu lado, acarinhando lhe as costas e dizendo a seu ouvido com a voz ainda rouca:
- Minha filha, tenha calma...
Você ainda tem tanto que viver...
Não se desespere...
O mundo não gira no mesmo ritmo de suas expectativas ansiosas...
Florence, contudo, não podia captar a energia que provinha de suas palavras.
Ao contrário, a presença da mãe em espírito, ali a seu lado, só conseguia despertar nela mais saudades, aumentando o seu desespero.
- Irmão Demóstenes, não seria melhor se nós lhe aplicássemos um passe? - Aretusa pediu, olhando suplicante para o espírito que a acompanhava.
Se Florence pudesse vê-la, diria que havia remoçado quase vinte anos, embora conservasse os antigos traços, os enormes olhos verdes e o jeito modesto que lhe perpassava todos os gestos.
Ele, por sua vez, era um ser magro e muito alto, cuja fisionomia, quase sorridente, transmitia uma serenidade fora do comum.
Postado ao lado da porta do banheiro, olhando com extrema delicadeza para Florence, parecia inteiramente envolto por uma espécie de luz amarela e intensa.
- Com todo prazer, irmã.
Lembro-lhe, no entanto, que a transfusão de energias só é eficaz quando o encarnado se mostra minimamente receptivo - esclareceu com carinho.
- Vamos tentar - rogou Aretusa, numa postura concentrada, já impondo as mãos sobre a filha, no que foi prontamente imitada por Demóstenes.
Era como se das mãos daquelas duas entidades espirituais jorrasse uma torrente de gotas de luz que, no entanto, não conseguiam ultrapassar o estranho escudo negro que Florence irradiava em torno de si com seus pensamentos depressivos, o qual parecia fazer evaporar toda aquela energia preciosa que lhe era dirigida.
“Eu sou mesmo uma infeliz”, pensava a mãe de Aline e Rafael, no mais intimo de seu ser, entre fungos e lágrimas.
"É... eu não mereço ser feliz, só pode ser isso.
Tudo na minha vida dá errado porque eu não mereço ser feliz."
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:32 am

- Ela está muito revoltada - observou Aretusa, compungida.
- Cuidado, irmã! - alertou Demóstenes, vendo que ela se deixava abalar pela tristeza da filha.
Estamos aqui para elevar o padrão vibratório de Florence e não para chorar junto com ela!
Acho que o principal problema é que ela está com muita pena de si mesma.
Quem prefere a lamentação ao esforço opta pela situação de vítima de si mesma, em lugar de triunfar sobre os próprios limites.
- Vamos tentar mais uma vez - pediu Aretusa.
A um sinal afirmativo do compassivo mentor que a acompanhava, ela abaixou-se ao lado da filha, enquanto Demóstenes impunha outra vez as mãos sobre a moça, dirigindo-lhe nova profusão de luzes.
- Filha, por favor - Aretusa sussurrou aos ouvidos espirituais de Florence -,(19) pense em Jesus.
Hoje é véspera de Natal, é aniversário de Jesus...
Ele sofreu tanto para poder nos trazer sua mensagem de amor...
Você não pode esquecê-lo, minha filha...
Confie em Jesus...
Confie nos caminhos de Jesus e tenha paciência...
Com toda a certeza, sua cruz não é mais pesada do que a cruz que ele carregou; não ultrapassa o peso que você pode carregar...
Ademais, você sempre foi uma lutadora, sempre perseguiu com garra e determinação os seus objectivos!
Por que então vai cruzar os braços agora, e ficar aí chorando, morrendo de pena de você mesma?
Aretusa falava com tanto amor, com tanta fé, com tanta certeza de que a filha podia ouvi-la que, aos poucos, começou a formar-se na mente de Florence a imagem do menino Jesus, humilde, deitado em sua manjedoura, cercado por dóceis animais.
Em seguida, seus pensamentos mostraram-lhe Jesus adulto, discutindo com os homens do templo, pregando para as multidões; Jesus coroado de espinhos, tropeçando sob o peso da cruz, caminhando rumo ao calvário com sua máxima dignidade.
- Hoje é véspera de Natal - Florence repetiu, fungando e enxugando as lágrimas.
Não posso ficar aqui trancada no banheiro a noite inteira — ela conseguiu enfim sintonizar-se com as ideias que a mãe lhe transmitia.
Meus filhos esperam por mim, minha família espera por mim...
Coitadas das minhas primas!
Vieram até aqui para passarem esta noite tão especial connosco e eu mal lhes dei atenção.
Preciso compensar isso! - ela levantou-se de um pulo e correu até a pia para lavar o rosto.
Sentia-se finalmente reanimada.
Demóstenes e Aretusa trocaram um sorriso de alívio e contentamento.
- Vejo que a irmã tem feito um óptimo aprendizado das lições que vem recebendo no mundo espiritual - ele comentou.
- Ora, quem me dera irmão... - ela sorriu envergonhada.
Ainda me falta aprender tanto...
Às vezes penso que nunca conseguirei chegar à condição de espírito perfeito...
- Todos nós um dia chegaremos, Aretusa, a evolução é o caminho natural de todos os seres da criação.
Todavia, nenhum espírito se transforma da noite para o dia.
Ninguém se despe de todas as imperfeições para vestir todas as qualidades em um estalar de dedos.
Há que se ter perseverança, lutar com determinação e bravura para vencer cada um de nossos defeitos, sem desanimar.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:32 am

Como nos ensinou o Mestre, "aquele que perseverar até o fim, será salvo" - lembrou Demóstenes.
- Ah, meu amigo... Devo confessar que ainda não me conformei com a ideia de ver Florence frente a frente com o pai... - ela lamentou entristecida.
Acho que não vou conseguir manter meu equilíbrio quando...
- Não pense nisto agora - interrompeu o mentor iluminado.
O Pai sabe que não podemos evoluir aos saltos, só nos confia novas tarefas quando percebe que estamos aptos a cumpri-las.
-Tem razão. Florence ainda precisará trilhar um longo caminho para encontrá-lo.
Até lá terei tempo de me preparar - considerou Aretusa.
Poderíamos agora ir até o resto da casa?
Gostaria de ficar um pouco com meus netos e minhas sobrinhas, dar um abraço bem forte em Noémia!
- É claro, irmã!
Ainda temos muito tempo.
Esta noite é sua.
É um presente que muito trabalhou por merecer! - Demóstenes fez questão de grifar.
Os dois espíritos transferiram-se então para a cozinha, onde encontraram Lucila sentada sozinha, devorando uma travessa de bolinhos fritos de formato retorcido, cobertos de canela e açúcar.
Ela comia desesperadamente sempre que se sentia de alguma maneira lesada em seu afecto.
Mesmo sabendo de tudo o que acontecera com a prima, estava magoada por não ter recebido dela a atenção de que se julgava merecedora.
Afinal, não era nada barata uma passagem de avião Rio-Florianópolis.
Sem contar o sacrifício que fora viajar com a mãe arteriosclerótica daquele jeito.
Pelo menos encontrei aqui este manjar dos deuses - dizia, de boca cheia, sem consciência da rapidez com que mastigava, da aflição com que retirava os bolinhos da travessa.
- Hummm... Que delícia!
Tia Aretusa sempre fazia esse negócio para mim - lembrou-se.
- Lucila, não coma com tanta voracidade! - aconselhou Aretusa, beijando -lhe a testa com carinho.
você sabe que não lhe faz bem engolir a comida desse jeito...
Mastigue com calma, saboreie o alimento!
Imediatamente, Lucila olhou para a metade do bolinho que tinha nas mãos, depois para a travessa quase vazia diante de si, e pensou:
"nossa, estou comendo muito depressa!
Preciso me controlar senão eu vou engordar uns vinte quilos nessa viagem!"
- Não fique magoada com Florence - Aretusa continuou falando a seu lado.
Ela está passando por um momento difícil, mas tem muita consideração por você.
Tanto que fez estes bolinhos especialmente para agradá-la.
- Será que Florence se lembrava que eu fiquei maluca com estes bolinhos da outra vez em que estive aqui? - perguntou-se Lucila, como se as palavras de Aretusa fossem um pensamento seu.
- O que é isso que você está comendo, tia? - perguntou Chuva, entrando na cozinha toda arrumada, com sua roupa de Natal.
- Uns bolinhos deliciosos que eu encontrei aqui, tia Aretusa fazia sempre que a gente vinha...
Como era mesmo o nome? - ela esgarçou os olhos, num movimento de quem puxa pela memória.
- Cueca virada - disse Aretusa, ainda parada a seu lado.
- Cueca virada! - Lucila repetiu de imediato, certa de que fora ela mesma quem havia se lembrado.
Quer? - ela esticou a travessa até a sobrinha.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:32 am

- Como é que é? - estranhou a garota.
- É isso mesmo que ouvistes - confirmou Rafael, também entrando na cozinha todo bonito.
Cueca virada!
Mas tem muita gente que chama de grústoli.
- Grus... o quê? - riu-se Chuva.
- Grústoli! O pessoal do Rio Grande é que gosta mais de falar assim - explicou Rafael.
- Também prefiro - opinou ela, pegando um bolinho e observando seu formato.
Se eu pensar que isto aqui se parece com uma cueca, acho que não como!
- Não seja por isso! - disse Lucila, tirando mais um bolinho, sem conseguir conter-se.
Eu como por você!
Os três riram.
"E uma tremenda gata essa prima Chuva!
Um verdadeiro temporal!", pensou Rafael.
- Menino, tenha juízo! - ralhou a avó invisível.
Rafael ouviu e deu um pulo da cadeira.
- O que houve? - estranhou Chuva, percebendo seu espanto.
- Nada... - ele respondeu, olhando ressabiado atrás de si.
Pensei ter ouvido a voz da minha avó...
- Cruz credo, garoto! - Lucila bateu três vezes na mesa.
- Trabalhas no Rio como pediatra, tia? - Rafael puxou conversa, mudando de assunto.
Foi a senha para que Lucila se sentisse à vontade.
Era vaidosa, adorava contar detalhes sobre como era árduo o seu trabalho, como era obrigada a se sacrificar para atender todas aquelas mães neuróticas que ligavam dia e noite para sua casa, muitas vezes por razões insignificantes, como uma leve mudança de coloração no cocozinho da criança.
Vendo-a falar, logo ficava claro que ela sabia muito sobre pediatria, mas não tinha verdadeiro amor pela profissão.
- Como Rafael me escutou? - Aretusa, um pouco assustada, perguntou baixinho a Demóstenes.
- Seu neto possui mediunidade ostensiva e é chegado o momento de sua sensibilidade começar a aflorar - explicou o mentor.
- E por que ele não pode ouvi-lo? - quis saber Aretusa.
- Porque no estágio em que se encontra ele só é capaz de perceber aqueles que se dirigem a ele vibrando na mesma sintonia.
- Como assim?
- Vocês estão ligados por vínculos de afecto.
Estão sempre pensando um no outro, com carinho e saudades.
Por isso, a transmissão de pensamentos entre vocês é tão nítida - explicou o mentor.
- Entendi. A afinidade que temos cria o canal e a faculdade que ele tem possibilita a compreensão imediata e explícita da mensagem, enquanto os outros, que não possuem mediunidade ostensiva, apenas intuem o que dizemos a eles, quase sempre imaginando que estão ouvindo seus próprios pensamentos.
Sabe, às vezes fico confusa porque, quando encarnada, não entendia nada de espiritismo e mediunidade - justificou Aretusa.
- Não se preocupe.
Com o tempo aprenderá a comunicar-se cada vez melhor com os encarnados - garantiu Demóstenes.
A conversa dos dois foi interrompida pela discussão que vinha da sala, entre Noémia e Paloma.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:32 am

A irmã de Aretusa tinha subido no sofá para tentar tirar da parede da sala um antigo relógio cuco que afirmava ser da "sua casa", enquanto a filha tentava detê-la, segurando-a pelos quadris:
- Mamãe, pelo amor de Deus, quer descer daí?
Esse relógio não é seu!
- Como não é meu?
Eu me lembro exactamente do dia em que o comprei, na rua do Ouvidor!
A senhora deve estar fazendo alguma confusão, é claro que...
- Que confusão que nada!
Eu estou velha, mas estou lúcida!
Lembro de tudo, tudo...
Este relógio é meu, sim senhora!
- Mamãe...
- Me lembro até do vestido que estava usando na ocasião! - continuou Noémia, ainda imersa em seu mundo particular do passado.
- Aretusa estava comigo neste dia!
Estava sim!
Ela ficou encantada com ele, só não comprou um igual porque não dispunha de uma situação como a nossa!
Ela disse baixinho.
- O companheiro dela ganhava muito mal!
Trabalhava como enfermeiro em um hospital no subúrbio!
- Mamãe, a senhora está passando dos limites! - ralhou Paloma, tentando puxá-la para baixo.
-Já seu pai ganhava muito bem.
Era engenheiro do Banco do Brasil - prosseguiu dona Noémia com orgulho, sem dar a menor atenção ao que a filha dizia.
Esse relógio é meu, sim senhora!
E te digo mais, não é porcaria não!
A máquina dele é uma peça muito rara, fabricada na Suíça, quer ver só? - ela conseguiu inclinar-se até a parede, alcançando o relógio.
- Mamãe, não!
Lucila!!! - Paloma gritou pela irmã, pedindo ajuda.
- Eu estava certa, espie só! - afirmou Noémia, vitoriosa, ao avistar a minúscula etiqueta prateada nas costas do relógio.
Não entendia o que estava escrito e nem sequer conseguia enxergar, posto que mesmo de óculos seus olhos 'não podiam' com aquela letrinha miúda.
Mas tinha absoluta certeza de que a etiqueta especificava que o produto viera da Suíça.
Conhecia aquela etiqueta!
- Agora, como é que este relógio veio parar aqui? - ela perguntou-se, desconfiada.
- O que é que está acontecendo? Mamãe! - exclamou Lucila, que vinha da cozinha seguida por Chuva e Rafael.
- É meu este relógio, não tenho a menor dúvida - dizia Noémia, descendo com cuidado do sofá, amparada por Paloma.
- Mamãe, por tudo quanto é mais sagrado, deixa eu colocar esse relógio de volta! - dizia Paloma, já estendendo a outra mão para pegá-lo das mãos de Noémia.
- Essa sua avó é muito doida! - deixou escapar Rafael.
- Bota doida nisso! - concordou Chuva.
Mas você sabe que até um ano atrás ela não era assim?
Ela era lúcida pra caramba, conversava sobre tudo com a gente.
Agora vive desse jeito, com tudo misturado na cabeça.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 9:32 am

- Ela não se lembra de nada? - quis saber Rafael.
- Do passado ela se lembra bem.
É capaz de descrever com detalhes coisas que aconteceram há mais de vinte anos.
Mas não consegue fixar os factos mais recentes, sabe como é que é?
Minha tia diz que é porque as veias dela estão entupidas...
- Mamãe, coloque este relógio no lugar imediatamente! - gritou Lucila, alterada.
- Este relógio é meu! - respondeu Noémia, agarrando-se ao objecto.
Aretusa, que observava a tudo de longe, ficou muito triste ao ver o estado da irmã.
Queria fazer alguma coisa, explicar que há tempos Noémia lhe enviara o relógio pelo correio, como presente.
Segundo lhe explicara na época, encontrara-o guardado num armário, parado e empoeirado.
Noémia nunca pudera pendurá-lo em sua casa porque seu falecido marido implicava com o barulho do cuco.
A decoração de sua sala, porém, então já não comportava mais aquela antiguidade e ela acabara decidindo fazer um agrado à irmã distante, que por sua vez o mantivera guardado durante mais alguns anos.
Só depois de seu desencarne, Florence (única, aliás, que conhecia toda a história do relógio além de Noémia e Aretusa) encontrara-o entre seus pertences, consertara-o e o pendurara na sala.
"Mas onde estaria Florence que não aparecia para esclarecer tudo?", inquietou-se Aretusa.
Por um instante, olhou para o neto, que continuava a divertir-se com a situação ao lado de Chuva, mas foi imediatamente advertida por Demóstenes:
- Nem pense em fazer isso!
Só temos permissão para fazer uso da mediunidade dos encarnados em casos muito especiais!
- Perdoe-me, irmão, é que...
Neste momento Florence entrou na sala, recomposta e perfumada, e finalmente explicou tudo.
- Mas, tia, se quiser, podes levar o relógio.
Não tem o menor problema se a senhora se arrependeu de tê-lo dado à minha mãe, não sabe? - finalizou.
- De maneira nenhuma.
Eu o dei à sua mãe, era isso o que eu estava tentando dizer o tempo todo - Noémia caiu em si.
Sua vida oscilava entre os momentos de confusão e esquecimento, e esses raros instantes de lucidez, quando percebia que tinha feito algo de errado e tentava consertar, como se isso fosse possível.
- Não era exactamente o que eu estava dizendo, Paloma? - ainda tentou reiterar, de olhos baixos, enquanto tirava a poeira do relógio com a ponta dos dedos.
- Era, mamãe? - duvidou Paloma irritada.
Florence puxou a prima pelo braço, simpática:
- Deixa Paloma.
Isso é coisa da idade!
Vamos até à cozinha que estou louca para que experimentes a salada de rúcula com agrião e rabanete que preparei para ti!
Paloma ficou comovida:
-Você se lembrou que eu sou vegetariana!
Não acredito!
Essa é a Florence que eu vim visitar! - ela não se conteve e deu um abraço na prima já sentindo a afinidade natural que sempre as unira.
Ai, Flor, que bom que você voltou, ao normal!
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