O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:20 am

- Que bom que estão aqui! - Florence retribuiu o abraço.
Estou precisando conversar com pessoas amigas!
E assim, as duas se encaminharam para a cozinha, unidas, como se quase vinte anos não se tivessem passado desde a última vez em que haviam conversado.
Em questão de poucos minutos, Florence e Paloma já um trocavam confidências como duas amigas íntimas.
- Tão bom vê-las assim! - comentou Aretusa.
Só estou preocupada demais com Noémia - disse, após algum tempo observando as duas.
Não pode ser simplesmente uma arteriosclerose, como acreditam as meninas.
Ela está doente, não está?
- Sim. Ela tem uma disfunção no cérebro - respondeu Demóstenes.
- E isto é grave?
- É, na medida em que ela tende a perder completamente não só toda a memória, como também sua personalidade e até mesmo sua capacidade de mover eficazmente o próprio corpo.
Aretusa ficou alguns minutos em silêncio, digerindo a informação.
- E quanto tempo ela ainda tem de vida? - perguntou por fim.
- Antes de mais nada é preciso que ela tenha sua doença diagnosticada - tornou Demóstenes.
- E nós não podemos fazer nada neste sentido? - insistiu Aretusa.
- Florence, como assistente social, já viu casos como o de Noémia.
Vamos intuí-la, em momento oportuno, para que esses casos lhe venham à mente e ela faça a necessária associação.
Agora vamos até o quarto, pois Aline está precisando de nosso auxílio.
- Minha neta!
Com toda essa confusão eu acabei me esquecendo dela! - admitiu Aretusa.
Quando os dois entraram no quarto, encontraram Aline agachada num canto, ouvindo uma canção triste com dois pequenos fones de ouvido.
- Pobrezinha, ela não está bem!
O que há com ela? - preocupou-se a avó.
- Além de abalada com os últimos acontecimentos, um forte sentimento de impotência a está levando à depressão.
Aline quer muito ajudar a mãe a encontrar o avô, mas não sabe como.
Ao mesmo tempo, encontra-se preocupada com uma amiga que fez um aborto, recentemente, e culpa-se por não ter podido impedi-la - explicou Demóstenes.
- Espere um pouco! - alarmou-se Aretusa.
Você disse que... Meu Deus! - ela mal conseguia conter o próprio espanto.
E quem foi esta moça?
Conheço todas as amigas de minha neta!
- Sim, você a conhece - respondeu Demóstenes.
Mas não tenho permissão para revelar-lhe agora o nome dela.
Mesmo porque, o facto já foi consumado.
- Mas e a pobre criança?
Quero dizer, o espírito que estava designado para nascer dessa gravidez, o que houve com ele?
Não estará neste momento precisando de nosso auxílio?
- Tenha calma, minha irmã.
Não pense que só porque é agora um espírito pode interferir na vida de todos aqueles que conhece.
O abortado já foi socorrido.
Aliás, não cai uma folha de uma árvore sem que seja do conhecimento do Pai, que não desampara a nenhum de seus filhos - afirmou o mentor.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:20 am

- Me perdoe, irmão - Aretusa mais uma vez abaixou a cabeça envergonhada.
Minha intenção era apenas...
- Eu compreendo - tornou Demóstenes, lendo seus pensamentos.
É normal acontecer isso com todos os desencarnados que começam a ter consciência de suas possibilidades de acção como espíritos.
- Mas realmente gostaria de poder fazer algo por essa entidade que acaba de ser rejeitada.
Desde encarnada, o aborto sempre foi uma coisa que me deixou por demais sensibilizada - comentou Aretusa, triste.
-Vou ver com meus mentores maiores se podemos visitar esse espírito na colónia onde se encontra abrigado.
Por hora, no entanto, creio que sua neta é quem mais precisa de nosso auxílio.
Os dois voltaram novamente os olhos para a menina, que continuava acabrunhada junto à escrivaninha, perdida em pensamentos completamente desordenados.
"Talvez eu devesse ligar para a minha amiga...
E se a mamãe passar a noite toda no banheiro?
Preciso ir lá na sala ver as pessoas.
Mas aquela Chuva parece tão metida, não fui com a cara dela!...
Que boa amiga que sou...
Será que era menino ou menina?"
- Pobrezinha, ela está tão confusa...
Quer resolver tantas coisas ao mesmo tempo que acaba não conseguindo nem sair do lugar... - observou Aretusa.
- No fundo, pessoas que esperam demais de si mesmas sempre são mais propensas a este tipo de crise, pois pensam que podem tudo e, quando se deparam com os acontecimentos gerados pelo livre-arbítrio alheio, acabam resvalando para o sentimento oposto, que é o de não poderem nada - explicou Demóstenes, notando o quanto Aretusa era parecida com a neta, embora ela própria não se desse conta disto.
- E esta música triste não piora o quadro? - ela perguntou.
- Com certeza.
A música triste a leva a uma espécie de ciclo vicioso.
Aline a procura porque está triste e acaba ficando mais triste por tê-la procurado.
E sentimentos tristes, como você sabe, sempre atraem entidades tristes...
Aretusa olhou quase instintivamente para a janela e viu três vultos escuros do lado de fora da casa, olhando fixamente para Aline.
- Deus amado!
Precisamos urgentemente alterar seu padrão vibratório, antes que seja tarde.,.
De um ímpeto, ela tentou desligar o aparelho de som da neta, mas sua vibração, ao entrar em contacto com a corrente eléctrica, acabou gerando uma espécie de defeito no aparelho, alterando a rotação do CD e fazendo com que ele parecesse arranhado.
- Não faça isso! - Demóstenes a deteve.
Não temos autorização para interferir no livre-arbítrio dos encarnados e muito menos para atrapalhar o funcionamento de seus aparelhos!
- Droga! - protestou Aline, desligando o aparelho.
Só queria saber quem foi que mexeu no meu som!
Rafael! - ela gritou, encaminhando-se para a sala.
- Desculpe, irmão, eu... - tentou justificar-se Aretusa.
- Não repita mais isto! - pediu o mentor, enfático.
Aretusa ficou muito envergonhada.
Era realmente difícil para ela abrir mão de atitudes que estava acostumada a tomar quando encarnada, compreender que os espíritos não podem agir como encarnados.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:20 am

O grande problema era que, sensibilizada pelas lições que aprendia no plano espiritual, ela queria realmente modificar-se, mas não conseguia.
Pelo menos, não com a rapidez que idealizava.
Faltava-lhe solidificar a compreensão de que o ser desencarnado é meramente a continuação, em nova dimensão, da personalidade do antigo ser encarnado.
- Não se penalize tanto - Demóstenes interveio, percebendo seu constrangimento.
Veja, mesmo agindo de maneira imprópria, acabou atingindo seus objectivos.
Ao entrar na sala e ver a mãe toda arrumada, animadamente conversando com o resto da família em torno da mesa festiva, Aline ficou tão contente que até esqueceu do aparelho que julgava com defeito, passando automaticamente a vibrar numa outra sintonia.
- Nem sabia que estavam todos aqui, neste clima de festa! - ela comentou, puxando uma cadeira.
- Querida! - Florence tomou-lhe a mão com doçura.
Até que enfim chegaste!
Estávamos aqui comentando sobre a nossa decepção de ontem.
- Quer saber, Florence?
Eu, se fosse você, não desistia! - disse Paloma, dando prosseguimento à conversa.
Sabe, temos um vizinho que é jornalista e trabalha justamente no programa "Isto é Incrível".
Se não me engano, é editor-chefe.
A mulher dele é muito minha amiga.
- Você está falando da Cenyra? - deduziu Chuva de imediato.
- Eles são pais do namoradinho de Chuva - acrescentou Lucila.
- Chuva já está namorando? - estranhou Noémia, aterrissando no assunto de repente.
- Eu, hein, vó!
A senhora está cansada de conhecer o Vinícius!
Vive oferecendo cafezinho para ele! - lembrou Chuva, sentindo saudades do namorado.
- Pois eu na sua idade ainda brincava de boneca! - asseverou Noémia.
- Ah, mamãe!
No seu tempo nem ônibus existia! - brincou Lucila.
- Não existia mesmo, não!
No meu tempo, a gente andava era de bonde! - defendeu-se Noémia.
- Mas o que é mesmo que ias dizendo, tia Paloma? - tornou Aline curiosa.
- Ali, eu acho que vocês deviam passar uma temporada no Rio connosco.
Quem sabe esses meus vizinhos não te dão uma força para encontrar o seu José?
Seria bom que você conversasse com a pessoa que falou com ele logo depois que o programa foi ao ar.
Essas coisas de televisão, sabe como é que é.
Se a gente conhece uma pessoa lá dentro, fica tudo muito mais fácil, você não acha Lucila?
Os olhos de Aline e de Rafael brilharam ao ouvir isso.
Os dois eram loucos para conhecer o Rio.
- 'Carcule eu' no Rio de Janeiro! - empolgou-se Rafael, brincando com o jeito simples de falar dos pescadores de Florianópolis.
- E, não deixa de ser uma possibilidade - respondeu Lucila, sem muito entusiasmo.
Egoísta como era, pensara logo no incómodo que seria hospedar todo mundo no apartamento.
- Não sei, não... - reflectiu Florence, ainda muito magoada.
Se ele já disse que não quer me ver, será que vale a pena insistir? - disse, pensando ao mesmo tempo no pai e em Maurício.
Aretusa observava o diálogo tensa, sem coragem de fazer sequer um comentário com Demóstenes.
- Pensando bem, eu até podia botar um taro para ver o que dizem as cartas! - cogitou Paloma.
-Tia! Não acredito!
Jogas taro? - perguntou Aline, empolgadíssima.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:20 am

- Nem adianta se animar!
A gente nunca entende nada do que ela fala! - provocou Chuva.
A conversa prosseguia animada.
Tão animada que a maioria das pessoas nem percebeu quando o telefone tocou.
E muito menos quando Florence ficou branca como uma cera.
- Compreendo, sim senhora...
Claro, claro...
Não, ele não chegou a me dizer nada antes de morrer...
Eu sei que a senhora não tem outra alternativa...
Não, não... De maneira alguma...
Não tem problema a senhora ter me dito isto hoje, eu imagino o quanto deve estar angustiada...
Tá. Eu entro em contacto com a senhora assim que tiver resolvido tudo...
Não, pode dormir tranquila...
Eu não estou chateada com a senhora...
Outro... Obrigada.
Dê um abraço nela também.
Florence voltou à mesa com os olhos atónitos, mas demorou um pouco para que o resto da família percebesse sua expressão pasmada.
- Que houve, mãe?
Quem era? - perguntou Rafael, ainda rindo de uma piada de Lucila sobre as cartas de Paloma.
- Era uma irmã de dona Preciosa - respondeu Florence, desfigurada pelo susto que acabara de levar.
Disse que seu Gentil tinha muitas dívidas, que chegou mesmo a hipotecar essa casa sem nos dizer nada...
O coitado se endividou para poder emprestar dinheiro a pescadores, que não têm como pagar...
- Nossa Senhora do Desterro! - escandalizou-se Aline.
- Mas vocês não tinham um contrato? - estranhou Lucila.
- Não, havia apenas um acordo apalavrado entre a minha mãe e esse casal.
Eles eram amigos há muitos anos - explicou Florence.
- E nessas horas que a gente reconhece os amigos! - exclamou Paloma.
- E agora, mãe? - quis saber Rafael, sem conseguir deixar de lembrar-se mais uma vez das palavras que ouvira de seu Gentil naquela tarde.
Ele havia insistido num pedido de desculpas a Florence.
- Agora, como seu Gentil não pagou a dívida e dona Preciosa não tem como pagá-la, nossa casa vai a leilão - continuou Florence.
- Estão querendo leiloar o relógio que dei a Aretusa? - surpreendeu-se Noémia que, como sempre, aterrissava nas conversas de repente.
- E o que significa isso? - tentou entender Aline.
- Isso significa que nós estamos despejados.
Temos mais ou menos um mês para encontrar onde morar - ela concluiu, arrasada.
- Que história é essa de procurar onde morar?
Hare Krishna, está decidido!
Vocês vão para o Rio!
Tudo tem uma razão de ser, nada acontece por acaso!
Como diz o ditado, Deus escreve certo por linhas tortas! - comemorou Paloma, sob o olhar estarrecido de Lucila, enquanto o cuco cantava na parede, anunciando a meia-noite.
Era Natal.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:21 am

- XIII -
- Tenho muito medo de acreditar nas possibilidades deste tratamento e acabar me decepcionando mais uma vez - Vítor confessou à mãe.
Sentado de pernas cruzadas sobre o sofá, ele tinha os olhos fixos nas gotas de chuva que escorriam pela vidraça, enquanto Cenyra trabalhava os pontos de uma tapeçaria.
Quem respondeu, porém, foi o pai, que vinha lá de dentro com um cigarro na boca, carregando na mão direita a pesada pasta que sempre levava para o trabalho:
- De facto.
É muito mais cómodo ficar em casa imaginando que não existe solução para o seu problema do que fazer efectivamente alguma coisa para melhorar - ele depositou ruidosamente a pasta sobre a mesa de jantar para conferir se estava levando tudo o de que necessitava.
- Não, pai, eu não acho boa esta situação de ficar em casa o tempo todo, de não poder desgrudar da minha mãe para nada e...
- Ah, é mesmo? - Luís Paulo soltou uma baforada com ironia.
Não é o que parece!
Aliás, para ser sincero, já perdi a noção de quem é o mais doente, se é você ou sua mãe!
- Luís Paulo! - Cenyra soltou as agulhas e levantou-se do sofá de maneira a encará-lo.
O marido, porém, limitou-se a fechar a pasta, segurando o cigarro no canto da boca, e sair batendo a porta, sem sequer dizer até logo.
Estava farto daquela situação.
Quase um mês havia se passado desde o Natal e praticamente nada havia mudado.
Toda semana Cenyra marcava consulta para Victor com a tal terapeuta especialista em síndrome de pânico, toda semana o garoto inventava uma desculpa para não ir.
E enquanto isso seu casamento desmoronava.
Cenyra não ia mais a lugar nenhum sem o filho caçula não raras vezes passava até a noite no quarto do garoto, velando-o para que não tivesse nenhuma crise.
Sinceramente, Luiz Paulo começava a acreditar na versão de Vinícius de que tudo não passava de uma jogada de Victor para manter a família inteira sob o comando de sua abstracta doença.
Era quase como se ele e Cenyra não fossem mais casados, não podiam nem mais sentar para conversar sobre qualquer assunto que Vítor logo a solicitava.
Ela vivia as vinte e quatro horas do dia em função do garoto.
E agora, como se não bastasse, ainda inventara aquela mania de fazer tapetes.
Nas noites em que Vítor lhe dava sossego, Cenyra permanecia sentada no sofá da sala, calada e pensativa, bordando e desmanchando pontos em um desenho que jamais ganhava contornos definitivos.
Mal sabia ele que aquela fora a única maneira que Cenyra encontrara para equilibrar sua própria ansiedade.
Às vezes, o arrastar-se de uma situação de conflito, ainda que aparentemente estabilizada, é muito pior do que um momento de explosão, porque toda explosão, por pior que seja, sempre conduz a reposicionamentos e mudanças.
Um vulcão adormecido não gera mobilização, mas nem por isso deixa de ser um vulcão, passível de entrar em erupção a qualquer momento.
Desde a angústia vivida na antevéspera de Natal, Cenyra sentia-se como se caminhasse por cima de um vulcão adormecido.
Quem olhasse de fora, diria que o ano novo até havia trazido um pouco de paz para a família.
Depois da conversa naquela noite com os pais, Vinícius mostrara-se mais seguro e equilibrado; regressara do réveillon em Búzios bem mais paciente com o irmão.
Vítor, por sua vez, não tivera mais nenhuma crise no período, embora se mantivesse firme na decisão de não fazer uso de medicamentos até ouvir um outro parecer médico - o que, teoricamente, não demoraria muito a acontecer, já que concordara em procurar a psicóloga especialista em pânico descoberta por Cenyra.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:21 am

A questão, porém, é que este dia nunca chegava.
Enquanto isso, por medida de precaução, Vítor preferia continuar recluso, saindo apenas eventualmente, acompanhando a mãe em inadiáveis tarefas de rotina.
Apesar de vir passando bem nas últimas semanas, sentia que 'a coisa' continuava sempre à espreita e tinha verdadeiro pavor de ficar em casa sozinho, por poucos minutos que fossem.
Era sobre isto que Vítor e Cenyra conversavam naquela noite chuvosa de verão, véspera de mais uma consulta que a mãe perseverantemente marcara para ele.
Depois da brusca saída de Luís Paulo, permaneceram sentados na aconchegante sala-de-estar que dava para a varanda do apartamento, cada qual esforçando-se para disfarçar o enorme nó que trazia na garganta.
- Acho que você não tem que ir achando que a psicóloga vai te dar uma receita pronta para resolver imediatamente todos os seus problemas - disse Cenyra, retomando o assunto interrompido pelo marido.
- Ora, se ela não vai resolver o meu problema, então o que é que eu vou fazer lá? - reagiu o garoto, ainda tenso pelas palavras agressivas do pai.
- Ela vai conversar com você, ouvir você, buscar subsídios no seu próprio discurso para tentar encontrar as raízes dos seus momentos de aflição - explicou Cenyra que, além de gostar muito de psicologia e ler muito sobre o assunto, já havia conversado, por telefone, sobre as crises do filho com a Dra. Olívia.
- Aí, tá vendo?
Não gosto desse negócio da pessoa ficar anotando tudo o que eu falo para depois usar minhas palavras para jogar contra mim mesmo! - protestou ele.
Não existe uma razão específica e palpável para as minhas crises.
Se houvesse, eu mesmo teria percebido e logo tomaria as rédeas da situação.
Você pensa que eu já não tentei mil vezes fazer isso? - ele descruzou as pernas e apoiou a cabeça sobre o braço direito, fazendo pressão com o cotovelo sobre a coxa.
Cenyra percebeu que o filho estava precisando falar e não o interrompeu.
Deixou que ele desabafasse.
-Já estou até ficando maluco de tanto buscar um elo que ligue todas as vezes que 'a coisa' aconteceu - continuou Vítor.
Pensei no dia da semana, no que eu estava fazendo na hora, no assunto que estava rolando, pensei até na roupa que estava usando e na posição que eu estava sentado, achando que poderia sem querer estar forçando uma vértebra ou um nervo qualquer que, por causa disso, accionasse alguma coisa lá no cérebro, detonando todo o processo - ele sempre procurava raciocinar de maneira científica e lógica.
- E conseguiu chegar a alguma conclusão? - a mãe perguntou, entre um ponto e outro, encorajando-o a continuar.
- Não. Nem sempre eu estava sentado, nem sempre eu estava parado, nada coincide com nada!
É como se eu caminhasse sobre um campo minado.
Não existe uma regra, nem um local provável.
A bomba pode explodir a qualquer momento, em qualquer lugar! - lágrimas pularam de seus olhos angustiados.
- Filho - Cenyra sentou-se a seu lado e segurou na mão que se mantinha apoiada no sofá -, a gente precisa ser humilde para aceitar que nem sempre podemos resolver sozinhos todos os nossos problemas.
- Às vezes precisamos da ajuda de uma outra pessoa para...
- Queria que você me dissesse, como mãe, o que exactamente essa pessoa pode fazer para me ajudar! - ele levantou a cabeça para encará-la.
Cenyra caminhou até a porta envidraçada da varanda tentando encontrar o que dizer.
A angústia do filho também a angustiava.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:21 am

"Se eu fosse o Luiz Paulo, certamente acenderia um cigarro", ela pensou, vendo o cinzeiro abarrotado sobre a mesinha da varanda.
Mas ela não fumava e sabia que cigarros eram apenas válvulas de escape para a ansiedade das pessoas.
Era preciso convencer Vítor e ela tinha noção de que só ela poderia conseguir isto.
- Um psicólogo, Vítor, é uma pessoa que procura desvendar os mecanismos do cérebro - ela ensaiou por fim.
- Como assim "desvendar os mecanismos do cérebro"?
- Dentro da nossa cabeça, há uma constelação gigante, com mais de 100 biliões de células nervosas.
Você se lembra daquelas estrelas que o psiquiatra desenhou no papel para você?
São os chamados neurónios, que controlam desde as batidas do coração até a lembrança de um amor que você teve na infância, por exemplo.
Desde que nós nascemos, cada coisa que a gente aprende, uma palavrinha que seja, gera uma conexão de neurónios.
Quanto mais o mundo passa a ter significado para você, mais conexões são feitas em seu cérebro - explicou Cenyra.
- Essas conexões são chamadas sinapses, isso eu estou cansado de saber. - respondeu Vítor que, apesar da declaração, parecia bastante interessado no que a mãe dizia.
- Ocorre, porém, filho, que essas sinapses agem como programas de computador.
Os pesquisadores explicam que, para não perdermos muito tempo e agilizarmos nossas acções, nossa inteligência se encarrega de criar padrões.
Uma vez programada, a máquina tende a seguir os padrões estabelecidos até que seja reprogramada.
Ao mais leve sinal que nos chegue, logo buscamos em nosso "banco de dados", em nosso arquivo de experiências vivenciadas, algo que nos ajude a identificar o que temos diante de nós, naquele momento, e assim nos orientamos, detonando a reacção ou conduta mais de acordo.
- Você fala como se nós fôssemos robôs - observou Vítor.
- A grande diferença é que os robôs precisam de alguém que os programe, enquanto nós mesmos damos as ordens a serem cumpridas pelo nosso cérebro.
Minha mãe, por exemplo, era professora e precisava acordar todos os dias às seis horas da manhã para ir trabalhar.
Foram tantos anos de condicionamento que, quando ela se aposentou, ela continuou acordando a essa hora, sem precisar de despertador.
- E em nenhum momento ela pensou em enviar uma ordem ao cérebro para que mudasse o horário? - questionou o garoto.
- Sim. Me lembro de várias vezes tê-la visto sentada na cama, antes de dormir, dizendo:
"amanhã eu só quero acordar depois das nove".
Depois de fazer isto repetidas vezes, ela acabou reprogramando seu cérebro - lembrou Cenyra.
- Interessante... Mas acho que na maior parte do tempo o cérebro funciona no automático - observou Vítor.
Senão a gente ia perder muito tempo pensando, cada vez que fosse tomar uma atitude banal.
- Aí você tocou no ponto chave - sublinhou Cenyra.
Sem os automatismos, teríamos que decidir cada gesto, cada acção, viver cada situação como inaugural.
A grande questão é que, por causa do automatismo, nem sempre temos consciência dos programas que implantamos em nós mesmos, a partir de nossa vivência diária.
As vezes as sinapses automatizam acções e reacções sem que a gente perceba - continuou ela.
Cenyra era uma mulher extremamente perspicaz.
Conhecendo bem o filho, imaginara que a melhor maneira de despertar seu interesse pela consulta prestes a ser realizada fosse exaltar todo o lado científico da psicologia, como estava fazendo agora.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:21 am

Precisava, acima de tudo, fazê-lo ver o tratamento como uma possibilidade de conhecimento de mecanismos biológicos passíveis de intervenção.
-Você está falando daquele tal alarme de segurança que dispara sem razão? - deduziu Vítor, lembrando-se das explicações do psiquiatra.
- Na verdade eu não acredito que nada no nosso corpo funcione sem razão... - ponderou Cenyra.
- Ainda não entendi onde você quer chegar - disse Vítor.
- O trabalho de um psicólogo, filho, é justamente observar, com base no que você leva para ele, em que situações você tende a agir desta ou daquela maneira, o que há em comum entre as situações em que você age da mesma maneira.
Porque, na verdade, você só age da mesma maneira em duas situações aparentemente diferentes porque o seu cérebro interpreta estas duas situações como semelhantes em alguma coisa, você concorda com isto?
Para a alegria de Cenyra, Vítor não só concordou, como mostrou-se maravilhado com as possíveis ligações entre a neurologia e a psicologia.
Empolgados, os dois conversaram até altas horas sobre a importância do trabalho de Freud na consolidação da psicologia como ciência; sobre como um bom trabalho de análise poderia ajudar um indivíduo a compreender melhor a própria dinâmica da mente, como organismo condicionado por estímulos diversos, para assim poder interferir em seu funcionamento.
A estratégia deu tão certo que Vítor passou boa parte da madrugada lendo uma série de reportagens sobre o funcionamento do cérebro que a mãe lhe emprestou.
Como resquício dos tempos em que trabalhava como Cenyra tinha o vício de coleccionar matérias sobre diversos assuntos de seu interesse e guarda-las em pastinhas coloridas, organizadas na estante por ordem alfabética.
No dia seguinte, ele acordou ainda mais entusiasmado com suas últimas descobertas.
Impressionado com o que lera respeito das diferentes atribuições dos hemisférios esquerdo e direito do cérebro, queria agora deduzir qual deles seria o ideal para ser trabalhado por um psicólogo de maneira a descobrir as raízes de suas crises de pânico (como se as coisas fossem assim tão simples).
Tão concentrado estava nas próprias reflexões que ensaboou-se inúmeras e demoradas vezes no banho, quase sem perceber o que fazia.
Enquanto se enxugava diante do espelho, chegou a cogitar se ele, sozinho, aprofundando-se em estudos sobre as diferentes áreas do cérebro, não seria capaz de encontrar uma solução para seu problema.
"Sabe de uma coisa?" - perguntou-se em pensamento, enxugando urna orelha com a pontinha da toalha.
"Estou tão bem, o que é que eu vou fazer nessa médica?
Talvez fosse mais interessante se eu me sentasse diante do computador, me conectasse com a internet e...".
Foi então que tudo começou novamente.
A angústia crescente sem explicação aparente, o aperto no peito, a respiração difícil, a sensação de que ia ter um enfarte fulminante a qualquer momento.
- Mãe... - ele gritou, após abrir a porta num solavanco.
- O que houve meu filho? - Cenyra assustou-se.
Os dois estavam sozinhos outra vez, tanto Luís Paulo quanto Vinícius haviam chegado tarde em casa e saído muito cedo.
- A coisa'... - ele respondeu, quase sem fôlego, enxugando nervosamente a testa encharcada de suor.
Não estou conseguindo respirar- direito...
- Procure manter a calma... - ela o amparou até o quarto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:21 am

Já está quase na hora da consulta.
E só vestir a roupa e...
- Não adianta... - interrompeu ele, ofegante.
Eu não vou conseguir ir...
- Mas é claro que vai! - garantiu Cenyra, firme.
Você sabe que a crise não dura mais de vinte minutos.
Tenha calma, já vai passar.
Vítor, no entanto, não tinha como se manter calmo.
Era mesmo como se um vulcão estivesse explodindo dentro dele, tamanha era a agitação que ia tomando conta de seus músculos.
A vontade que ele tinha era de sair correndo pelo meio da rua para desgastar toda aquela energia avassaladora.
Ao mesmo tempo, sentia-se dominado por aquela sensação de fraqueza, aquela tontura...
E o ar cada vez mais difícil de respirar, o coração doendo, batendo mais e mais forte.
- Mãe... Eu acho que desta vez eu vou morrer...
Não estou conseguindo mais respirar...
Tá doendo, mãe...
- Não diga besteiras, meu filho - Cenyra estava se esforçando o máximo para parecer tranquila.
Eu vou até a cozinha, pegar um pouco de água e...
- Não! - ele agarrou a mão da mãe e a apertou contra o peito descompassado.
Não me deixe aqui sozinho...
"Pai Nosso que estais nos céus", Cenyra orava em silêncio, procurando transmitir paz ao filho através daquele toque.
Ele fechou os olhos e teve a impressão de que uma parte dele estava se deslocando do corpo; a visão turvou-se, mas o desmaio, como sempre, não veio.
"Eu estou morrendo", era tudo em que conseguia pensar, apertando cada vez mais forte a mão da mãe contra o peito, como se assim pudesse manter-se preso ao próprio corpo.
"O pão nosso de cada dia", Cenyra prosseguia em sua oração silenciosa.
Enquanto ela orava, Vítor sentia-se cada vez mais distante.
Tudo em volta parecia ir aos poucos recuando, ouvia ao longe risos e vozes de pessoas que ele não conhecia.
O quarto, o mundo parecia irreal, não sentia mais nem mesmo a mão da mãe dentro da sua.
Apenas o barulho do coração, que parecia amplificado no tempo e no espaço, lhe dava a certeza de que ainda estava vivo.
Inexplicavelmente, ele foi aos poucos tornando-se mais compassado, mais compassado...
Até que a crise deu seus primeiros sinais de alívio.
A pressão começou a voltar ao normal, ao mesmo tempo em que uma espécie de branco gelado parecia tomar conta de todo o corpo de Vítor.
Só então percebeu que estava nu.
Tampou o sexo, envergonhado, e deixou-se cair sobre a cama.
O choro foi vindo lentamente, estava exausto.
- Não fique assim, meu filho...
Cenyra entregou-lhe a toalha que estava caída no chão e o ajudou a cobrir-se com ela, sem que ele parasse de chorar.
- Respire fundo, pense que está tudo bem.
Eu estou aqui com você, daqui a pouco nós vamos ver a psicóloga e...
- Eu não vou mais! - ele a interrompeu em prantos.
Não quero sair daqui! - disse encolhendo-se como um feto amedrontado.
- Mas, filho, você precisa ir, você...
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:22 am

- Não adianta, mãe... - ele disse, entrando debaixo das cobertas.
Marque para outro dia.
Hoje eu não vou.
Sem discutir, Cenyra arrumou no canto da cama as roupas para que ele vestisse.
Depois saiu do quarto de mansinho, enquanto ele continuava chorando sob as cobertas, e dirigiu-se ao telefone na sala.
Cerca de quarenta e cinco minutos depois, exactamente na hora em que estava marcada a consulta, a campainha tocou.
Era a Dra. Olívia Larguerucho, a psicóloga, que, para alívio de Cenyra, por ser especialista em casos como o de Vítor, costumava ir à casa de seus pacientes quando necessário.
Após conversar alguns minutos com Cenyra, esta a levou até o quarto do filho.
- Entre! - ele gritou, ao ouvir as três batidinhas secas na porta,
Achando que a mãe estivesse sozinha.
- Victor, meu filho, você já está vestido? - Cenyra perguntou, ele fez um movimento de sim com a cabeça.
Estava sentado na cama, inteiramente coberto por um lençol.
- Então saia debaixo desse lençol.
A Dra. Olívia está aqui.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:22 am

- XIV -
- Não adianta me manterem preso aqui!
Ele está cercado!
Não tem como fugir! - gritava Oto, inconformado.
- Não estou sozinho nesta vingança!
Nem bem chegara à Colónia Renascer, sentira-se inquieto ao captar a vibração dos pensamentos de Vítor, a quem mantinha-se estreitamente ligado, e de imediato arrependera-se por haver se deixado conduzir por Têmis e Pablo de volta àquele local de refazimento na espiritualidade.
Não queria permanecer ali.
Atormentado por uma mistura de lembranças dolorosas do passado, as quais haviam sido activadas mediante o simples desejo de Vítor de desvendar os mistérios de seu próprio cérebro sem a ajuda de ninguém, Oto sentiu uma vontade irresistível de retornar ao apartamento de Luís Paulo e Cenyra, mas foi impedido por seus protectores.
Encontrava-se agora retido em um quarto amplo e quadrado, de aproximadamente nove por nove metros, cercado por paredes transparentes, de um material semelhante ao vidro, porém inquebrável e de propriedades sonoras, que ofertavam ao interno a companhia de grandes mestres da música.
Oto, contudo, não conseguia ouvir nada além de sua angustiosa revolta.
Aproximando-se um pouco mais, podia-se notar que ele era mantido ali como que enjaulado.
As paredes envidraçadas cercavam, na verdade, um outro quarto, protegido por grades magnéticas, onde o único móvel era uma cama.
Do lado de fora, Têmis e Pablo o observavam, quando foram surpreendidos pela voz de alguém muito conhecido que acabara de chegar:
- Com licença...
Atrapalho alguma coisa?
- Irmão Demóstenes!
Que grande alegria tê-lo novamente connosco! - exclamou Pablo, abraçando-o.
- Nós o estávamos justamente aguardando! - disse Têmis, apertando sua mão em uma saudação calorosa.
- Irmão Guilhôme nos disse, esta manhã, que traria uma nova estagiária para o nosso departamento...
Onde está ela? - quis saber Pablo.
Os três viraram-se para trás e só então perceberam Aretusa, parada na porta da sala, girando o olhar admirado pelo ambiente.
Incentivada pelo sorriso de Têmis, ela caminhou timidamente até onde estavam cada vez mais maravilhada com o que via.
A sala era enorme, pintada de uma cor entre o rosa e o salmão, numa tonalidade delicada que ela jamais vira na Terra.
Tal cor parecia dotada de uma propriedade sui generis, que fazia com que as pessoas que adentrassem o local sentissem como se estivessem sendo abraçadas, numa sensação de aconchego comparável à de um útero materno.
Não era só isso que tornava aquela sala diferente.
Em cada uma de suas paredes havia janelas compridas como as de um berçário, que davam acesso a vários quartos especiais como o de Oto.
Tais internos, contudo, não tinham a noção de que eram permanentemente observados.
Tanto os beirais dessas janelas quanto os portais eram pintados de branco, assim como os rodapés e as sancas que arrematavam o altíssimo pé-direito, sendo que dos rodapés erguia-se maravilhoso jardim florido.
Somente tocando-o podia-se ter a certeza de que não era de verdade, mas sim pintado à mão por algum artista de talento inigualável.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:22 am

Os móveis da sala, todos brancos, de formato arredondado e sem pontas, também faziam lembrar o desenho de flores.
Havia muitas mesas e cadeiras, algumas dispostas em círculo, dando ideia de grupos de estudos, e também algumas cadeiras e mesinhas infantis - réplicas das outras, maiores - arrumadas em um dos cantos, onde se podia notar ainda um cercado todo florido de grandes proporções.
Complementando o espectáculo, todo o ambiente era embalado por suave melodia.
- Que lugar divino! - deixou escapar Aretusa, encantada.
- É nosso local de estudos e pesquisas, seja bem-vinda! - disse Têmis.
Os móveis sem ponta - ela explicou, lendo seus pensamentos - foram projectados especialmente para atender às necessidades de nossas crianças e bebés, para que não se firam em suas brincadeiras.
Aqui realizamos vários trabalhos com nossos pequenos internos, enquanto mantemos sob observação certos pacientes em estado delicado que não podemos perder de vista.
- Esta é Aretusa - apresentou Demóstenes.
Ela encontra-se ainda em fase de adaptação à vida no plano espiritual e, muito aplicada em seus estudos, tem demonstrado grande interesse em conhecer de perto o destino dos espíritos abortados.
Ultimamente, ela me tem feito tantas perguntas que achei que seria oportuno trazê-la aqui para uma experiência prática.
- Eu adoro ajudar! - anunciou ela, entusiasmada.
- Trabalho é o que não vai faltar! - garantiu Pablo.
Enquanto ele explicava a Aretusa alguns detalhes sobre o funcionamento daquela colónia, Demóstenes aproximou-se da janela e viu Oto, que ainda espumava de raiva, em seu delírio particular.
- Este é aquele espírito que vocês socorreram na noite em que estivemos na casa de Cenyra e Luís Paulo? - perguntou ele, que era também um dos abnegados colaboradores daquela colónia.
- Sim, é Oto - confirmou Têmis.
- Assassino! Ele é um assassino! - gritava Oto sem parar.
- Ele parece furioso - comentou Demóstenes.
- Não imaginávamos que ele fosse mudar suas disposições íntimas tão abruptamente.
Na noite em que o recolhemos no apartamento ele parecia tão fragilizado... - comentou Têmis, também observando-o através da janela.
- Seu sofrimento é um conflito entre duas partes de seu carácter, que se intercalam em sua mente, confundindo-lhe os sentimentos - explicou Pablo, aproximando-se.
Um lado de Oto quer mudar, recuperar a esperança e voltar a trilhar o caminho do bem.
O outro, contudo, ainda não se conformou com o que lhe fizeram no passado e se contorce de ódio só de pensar que seus antigos inimigos estão tendo uma nova oportunidade de redenção.
Como se encontra muito desequilibrado em termos vibracionais, ele fica oscilando entre estes dois extremos, sem conseguir definir nem mesmo para si próprio o que efectivamente quer.
- Ele não mudou nada!
Um dia todos vão me dar razão!
Por trás daquela carinha de santo, Vítor é um assassino! - esbracejava Oto, andando de um lado para outro, transtornado.
- Assassino! - repetia entre lágrimas.
Havia muita mágoa em suas palavras.
Seu tom de voz não expressava apenas ódio e revolta, mas acima de tudo muita dor.
Uma dor interna e profunda que não lhe permitia um minuto sequer de paz.
Era um espírito atormentado.
- Se ao menos ele não tivesse se recordado de tantos factos passados ao reencontrar Vítor... - lamentou Têmis, sob o olhar atento de Aretusa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:22 am

- A questão é que Oto não tinha condições de estar entre os encarnados quando houve o encontro.
Vivia séria crise de identidade desde o momento em que fora abortado, não se encontrava ainda recuperado quando decidiu aderir ao levante dos revoltados e fugir da colónia, disposto a assediar o médico que lhe tirara a vida de maneira tão cruel -analisou Pablo.
- O que mais me impressionou neste caso foi a rapidez com que ele identificou Vítor, logo da primeira vez em que o viu, por acaso, no prédio do tal médico - comentou Têmis.
- Oto reconheceu-o pelos traços de carácter.
A grande maioria dos espíritos parte para novas experiências no campo carnal cheia de nobres ideais, acreditando-se diferente após anos de estudos e reflexão no plano espiritual.
Todavia, uma vez protegidos pela bênção do esquecimento, não raro acabam deixando novamente aflorar quase todas as tendências que os levaram à queda em suas últimas experiências passadas - explicou Pablo.
- Tais espíritos tiveram acesso ao aprendizado, mas não permitiram que os ensinamentos penetrassem verdadeiramente em suas almas, como demonstram assim que vem à tona sua real personalidade, no chamado auge da adolescência - complementou Demóstenes.
- Ele não pode enganar-me.
Eu sei que ele não mudou!
Eu vi que ele não mudou! - continuava a gritar Oto, do interior de seu quarto especial.
- Oto é o retrato de uma situação que comumente acontece no mundo carnal - reiterou Pablo.
O tempo todo as pessoas emitem a vibração dos sentimentos e pensamentos que lhes passam pelo íntimo, ainda que não esbocem uma só palavra que os revele.
Todavia, estes sentimentos e pensamentos se propagam no ar assim como um odor de perfume se espalha entre os encarnados, criando laços mentais com seres que já não vivem mais na Terra.
Esses laços os mantêm ligados e os aproximam destes seres, com quem um dia experimentaram uma relação de afinidade, boa ou má.
- Então quer dizer que a afinidade também pode existir num sentido negativo? - tentou entender Aretusa.
- Mas é claro!
Você nunca ouviu dizer na Terra que amor e ódio são sentimentos irmãos? - interveio Demóstenes.
Às vezes até, nos ligamos mais fortemente àqueles a quem odiámos, pelo pensamento fixo e constante no alvo de nosso ódio, do que àqueles a quem amamos.
- É verdade... - reflectiu Aretusa.
Sabem que eu nunca me havia dado conta disto?
- Compreendo - meditou Têmis.
Uma vez atraídos por vibrações de amor ou de ódio, os espíritos são capazes de identificar personalidades do passado ao verificarem a manutenção dos traços de carácter...
- Ele não mudou!
Ele não mudou! - insistia Oto, alheio a tudo o que era dito do lado de fora de sua cela envidraçada.
Condoída com seu desespero, Têmis cerrou seus olhos e orou com todo o seu amor.
Suas palavras, ditas em concentrada prece mental, chegavam até Oto como uma chuva de estrelas prateadas e faiscantes, as quais pareciam aderir-se a seu corpo espiritual deformado, paulatinamente acalmando-o:
- Bendito és, meu Pai, cuja bondade nos permitiu estar aqui agora, unidos em torno deste ser que tanto necessita do nosso auxílio para que possa galgar estágios mais altos de sua trajectória evolutiva.
Perdoa-nos, Senhor, se não conseguimos fazer tudo o que estava ao nosso alcance em prol da evolução deste espírito.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:23 am

Ainda assim, ilumina-nos Pai, neste momento, com a tua luz excelsa e magnânima, compadece-te deste nosso irmão, faz brotar dentro dele uma simples fagulha do teu infinito amor.
Sabemos. Pai querido, que uma simples fagulha do teu amor é mais forte que o sol que ilumina toda a Terra.
És a luz maior, a luz que cura e alimenta, a luz que nos faz enxergar, a luz que balsamiza, a luz que acalenta, a luz que jamais abandona.
E é com esta fé, Senhor, que te imploramos:
ilumina este espírito, encontra um meio, Senhor, de fazer com que a tua luz penetre o mundo de trevas que ele criou para si próprio.
Sabemos que a tua infinita misericórdia jamais deixa sem resposta a prece de um de teus filhos.
Com esta certeza, Pai, te agradecemos por mais esta bênção de amor."
Quando Têmis encerrou sua sentida prece, tinha o rosto inteiramente banhado em lágrimas.
Oto dormia. Parecia até uma criança indefesa, encolhida no meio da cama como um pequeno feto.
As vibrações que dele emanavam, contudo, mostravam que era um ser que se encontrava muito doente.
Olhando-o, seus protectores tinham acesso a tudo o que se passava em sua casa mental.
Enquanto ele aparentemente sonhava, da região de sua testa emergia um vapor cinzento, fazendo lembrar uma nuvem carregada de chuva.
Envoltos neste vapor, podiam ser identificados diversos instrumentos médicos, como tesouras, bisturis e até mesmo um estranho aparato que fazia lembrar uma espécie de aspirador de pó de proporções diminutas.
- O que são todas estas coisas? - perguntou Aretusa, impressionada.
- São traumas que ficaram gravados na memória espiritual de Oto e que hoje agem como instigadores de sua revolta - explicou Têmis.
- Mas todos estes aparelhos foram usados em um único aborto? -insistiu Aretusa.
- Na verdade, não.
Digamos que todos eles fazem parte do passado de Oto.
Na medida em que for se inteirando mais de seu caso, compreenderá melhor o que estamos dizendo - acrescentou Pablo.
Os quatro ainda permaneceram, por bom tempo, ali concentrados, orando por Oto.
Depois, Demóstenes se despediu do grupo, partindo para a execução de algumas tarefas, e Têmis convidou Aretusa para um passeio nos jardins que circundavam o prédio, na verdade um grande hospital, com vários departamentos que oportunamente ela viria a conhecer.
- É uma óptima ideia - incentivou Pablo.
Enquanto isso, ficarei aqui terminando alguns relatórios.
Mais uma vez, Aretusa ficou surpresa com o que via.
O imenso jardim que se estendia em torno do prédio do hospital parecia até coisa de filme.
Tudo ali parecia mais vivo do que as mais belas paisagens que tivera oportunidade de apreciar na Terra.
As cores eram diferentes, mais intensas, mais vibrantes, de nuances por ela desconhecidos.
O verde do gramado, o azul do céu, o colorido das flores espalhadas por canteiros que formavam o desenho de pássaros, borboletas, joaninhas, pipas.
Até as flores eram diferentes, misturando-se numa variedade de espécies também jamais vistas em seu planeta de origem, enquanto fontes de águas cristalinas emitiam delicada fragrância, que lembrava o perfume de jasmins.
Todavia, faltava alguma coisa àquela magnífica paisagem.
A alegria de crianças correndo pelos gramados, seus risos, seus gritinhos, suas danças, nada disso existia naquela colónia que, apesar de bela, parecia envolta em uma aura de profunda melancolia.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:23 am

Olhando agora mais atentamente, Aretusa percebeu que até as árvores, com suas vetustas cabeleiras de flores pendentes, pareciam soluçar sob o barulho das águas a correrem tristes por algum riacho ali perto.
- Porque tudo aqui é tão triste? - perguntou, sentindo o coração apertado por aquele peso que pairava no ar.
- A atmosfera local é um reflexo do psiquismo dos que a habitam.
Não se esqueça de que estamos numa colónia que abriga seres que foram rejeitados - esclareceu Têmis.
As duas tiveram então sua atenção voltada para um grupo de cerca de vinte crianças que saía do prédio em direcção ao jardim, tuteladas por duas senhoras vestidas como irmãs de caridade.
Silenciosamente, elas desceram as escadarias do hospital e, pouco a pouco, espalharam-se, sozinhas e pensativas, pelo gramado de intenso verde.
Contagiada pela tristeza que parecia dispersar-se pelo ambiente junto com aquelas crianças, a própria Aretusa, que nos tempos de encarnada fora sempre tão contida, não pôde segurar as lágrimas.
- Controle suas emoções, querida irmã - pediu Têmis, apertando-lhe a mão num gesto de carinho que lhe era característico.
Não é bom que eles a vejam assim chorando.
Nós, trabalhadores desta colónia, precisamos nos manter firmes na disposição de transmitir emanações harmoniosas de alegria, amor e optimismo.
Só assim podemos contribuir para aliviar a pesada atmosfera que nos envolve.
-Desculpe... - ela respirou fundo, enxugando as lágrimas com as pontas dos dedos.
-Infelizmente, nosso primeiro contacto com estes seres é sempre muito doloroso... -observou Têmis, sem soltar sua mão.
As duas permaneceram mais alguns instantes em silêncio, observando o grupo.
Ao longe, uma das irmãs conseguiu reunir um pequeno número de internos e iniciou com eles uma brincadeira de roda, da qual a garotada o começou a participar, à princípio sem muito entusiasmo.
- Embora não pareça, brincadeiras como essa ajudam aqueles espíritos a esquecerem, ainda que por breves momentos, o ódio e o sentimento de inconformação que carregam em seus íntimos - explicou Têmis.
- Todos os internos são tristes assim? - quis saber Aretusa.
- Como sempre diz o irmão Guilherme, nosso mentor, não devemos jamais generalizar raciocínios nem padronizar efeitos.
A especificidade de cada caso determina situações absolutamente individuais no que se refere às repercussões sofridas pelo espírito eliminado de seu corpo em vias de estruturação.
É verdade que a tristeza é um traço marcante em boa parte de nossos internos.
Afinal, é sempre doloroso preparar-se para cumprir determinada tarefa e se ver subitamente impedido de cumpri-la.
- Eu diria que é no mínimo frustrante... - observou Aretusa.
- Contudo, de acordo com sua evolução, cada espírito vai reagir de forma diferente a esta frustração, compondo a infinidade de quadros que abrigamos nesta colónia - esclareceu Têmis.
- Como assim? - quis compreender melhor Aretusa, sem conseguir tirar os olhos da roda onde as crianças brincavam.
- Estes espíritos que agora você observa fazem parte de uma turma de evolução mediana.
Experimentam dificuldade em esquecer-se da decepção que recentemente viveram, contudo não alimentam sentimentos de revolta contra aqueles que seriam seus futuros pais e nem desejos de vingança.
Apenas precisam de tempo para se recuperar - exemplificou Têmis.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:23 am

Aretusa permaneceu por mais alguns instantes com a atenção fixa na cantiga de roda que as crianças agora pareciam cantar com um pouco mais de entusiasmo.
Ainda assim, era uma entonação ralentada, como se todas estivessem enfraquecidas por um resfriado muito forte.
"Não sei se eu conseguiria sentir apenas uma tristeza debilitante, se estivesse no lugar deles...", ela pensou consigo.
"Talvez quisesse me vingar...
Com toda certeza estaria sentindo muita raiva..."
- Será que existem espíritos que conseguem perdoar de imediato? -perguntou incrédula.
- E por que não? - sorriu Têmis.
Jesus não perdoou a seus algozes ao ser preso na cruz?
Não foi isso o que ele nos ensinou?
"Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem", Aretusa lembrou-se de imediato das palavras do Mestre.
- Mas Jesus foi o espírito mais evoluído que a Terra já conheceu! -argumentou ela.
Estamos falando de seres comuns, que ainda precisam reencarnar em nosso planeta.
- Entendo o que quer dizer.
Todavia, mesmo entre aqueles que ainda necessitam transitar pela crosta são infinitas as nuances evolutivas.
De uma maneira geral, o espírito, quando de nível evolutivo mais expressivo, tem reacções mais moderadas e tolerantes.
Muitas vezes seria ele alguém destinado a aproximar o casal, restabelecer a união ou mesmo, no futuro, servir de amparo social ou efectivo aos membros da família.
Neste caso, ele lamentará a perda da oportunidade de auxílio para aqueles que ama, mas não se deixará envolver pelo ódio, pelo ressentimento ou mesmo pelo desânimo, ainda que o acto do aborto o tenha feito sofrer física e psiquicamente.
Muitas vezes, manterá, mesmo desencarnado, tanto quanto possível, o seu trabalho de indução mental positiva sobre a mãe ou os cônjuges - detalhou Têmis.
"Como eu queria ser assim", imaginou Aretusa, comovida.
"Será que um dia conseguirei chegar a esse estágio?"
- E claro que sim.
Um dia todos nós chegaremos à condição de seres de luz - disse Têmis, lendo seus pensamentos.
- E quanto aos que ainda se encontram nos degraus mais baixos da escada evolutiva?
Como reagem ao aborto? - insistiu Aretusa.
Existem seres assim nesta colónia?
- Sim, e não são poucos.
Nestes casos, as reacções se farão de forma mais descontrolada e, sobretudo, mais agressiva, como você teve oportunidade de presenciar momentos atrás... - lembrou Têmis.
- É mesmo, aquele Oto parecia verdadeiramente transtornado...
Por instantes cheguei a sentir medo do ódio que brilhava nos olhos dele... - confessou Aretusa.
Fico só imaginando o que ele não seria capaz de fazer com os alvos de sua revolta...
- É, de facto, uma situação bastante delicada.
Espíritos destinados ao reencontro com aqueles a quem no passado foram ligados por liames desarmónicos, ao se sentirem rejeitados, devolvem na idêntica moeda o amargo fel do ressentimento.
Alguns revidam com a perseguição aos cônjuges ou a outras pessoas envolvidas na consecução do ato abortivo, outros permanecem ligados àquela que fora destinada a ser sua mãe, induzindo, consciente ou inconscientemente, a profundos distúrbios ginecológicos.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:23 am

Outros ainda, pela vampirização energética, ficam sugando o fluido vital materno, podendo às vezes até provocar o desencarne precipitado daquela que os deveria receber como filhos.
Veja, por exemplo, aquela nova turma de desencarnados que está chegando ao jardim - Têmis indicou.
Na medida em que algumas delas se aproximavam do local onde estava, sempre seguidas de perto por um enfermeiro específico.
Aretusa, estarrecida, pôde reparar que não eram exactamente crianças.
Tão assustadoras como Oto - cujo aspecto lhe passara despercebido, em meio às emoções de seu primeiro contacto com a colónia . algumas eram metade homem, metade criança; outras, mancas, possuíam a metade direita de um adulto e a esquerda de crianças; outras ainda eram homens e mulheres com fisionomia de bebés, enquanto gentis enfermeiras embalavam em carrinhos estranhos bebés com fisionomia de adultos.
- Que coisa horrível! - Aretusa novamente não conseguiu segurar as lágrimas.
Têmis a repreendeu com um olhar delicado, sem nada dizer.
Num esforço supremo para se conter, Aretusa então respirou fundo e procurou concentrar-se numa prece, em busca de forças para restabelecer seu equilíbrio.
- E por que acontecem essas aberrações? - conseguiu finalmente perguntar.
- Ficaram assim pelo choque.
Não podemos esquecer que, antes de decidir reencarnar, estes seres mantinham uma forma perispiritual, normalmente a de sua última existência.
- Como nós... - compreendeu Aretusa.
- Exactamente. Durante o processo reencarnatório, todos precisamos nos desligar desta antiga forma, de modo a irmos assumindo, pouco a pouco, as características do novo corpo que iremos animar.
Para que isto aconteça, o perispírito deverá sofrer um processo de miniaturização, a fim de que se adeqúe às formas de um bebé...
- Mas eles são metade adulto, metade criança! - grifou Aretusa, ainda angustiada.
Isto quer dizer que tiveram problemas durante a miniaturização?
- Não propriamente.
É que nestes casos, no momento violento do aborto, o espírito perde a noção de sua identidade com o choque.
Ele nem é mais o ser que iria se formar, embora já houvesse internalizado algumas de suas características, nem tampouco a forma que recentemente deixara de vestir.
Este conflito de identidade acaba gerando as anomalias da forma perispiritual.
- Mas durante o aborto o espírito não recebe nenhum socorro do plano espiritual? - estranhou Aretusa.
- É claro que recebe!
Aliás, só não sofre mais o espírito do abortado porque espíritos abnegados da falange de Maria de Nazaré fazem guarda nessas clínicas, para socorrer as vítimas indefesas.
Na hora em que o espírito está lutando para permanecer no útero, as equipas de Maria fazem o impossível para minimizar o seu sofrimento - lamentou Têmis.
- Quer dizer então que todos os espíritos menos evoluídos ficam assim deformados? - deduziu a estagiária.
- Nem todos - informou Têmis.
Como disse, não existe uma regra geral, e sim uma infinidade de situações individuais.
Temos diversos berçários onde encontram-se sob cuidados espíritos que se mantiveram com a aparência de bebés comuns ou mesmo de fetos; e também departamentos onde espíritos que já conseguiram modelar seus perispíritos com a forma de crianças ou de adultos sem qualquer aberração são preparados para novas tentativas de reencarne.
- Todos terão de reencarnar, mesmo aqueles que já foram rejeitados mais de uma vez? - inquiriu Aretusa.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:24 am

- Principalmente estes.
De maneira geral, todos aqui necessitam da experiência reencarnatória para o reequilíbrio perfeito de suas energias.
Só através de uma nova oportunidade de existência terão como apagar de suas mentes os traumas que ficaram gravados em sua memória espiritual - esclareceu a anfitriã.
Do jardim, depois de observarem de longe por mais algum tempo aquelas estranhas criaturas, as duas seguiram para a alameda das orquídeas, onde Têmis vivia.
Durante o período de estágio, Aretusa ficaria hospedada com ela no chalé amor-perfeito.
Os médicos, enfermeiros e trabalhadores em serviço na colónia habitavam temporariamente aquela alameda de chalés, cada qual baptizado com o nome da flor que predominantemente o ornamentava.
Era um lugar lindo, que mais parecia uma pintura em alto relevo.
- Ninguém pode imaginar o trabalho da espiritualidade em colónias como esta - suspirou Aretusa, enquanto caminhavam por aquela alameda florida, onde a calçada oposta era ocupada por um muro inteiramente coberto de orquídeas.
Em toda a minha vida de encarnada, nunca soube de uma clínica de recuperação tão bem planeada e estruturada, tão minuciosamente cuidada...
- O que, no entanto, não diminui a responsabilidade daqueles que executam este crime hediondo, que é o aborto... - observou Têmis.
- Sabe, não consigo compreender o que passa na cabeça de um médico que jura, perante todos, no dia de sua formatura, empenhar-se para salvar vidas e acaba se dedicando a exterminar fetos! - desabafou Aretusa.
Acho que eu, corno espírito, jamais ajudaria uma pessoa assim!
Não teria à menor compaixão se...
- Aretusa, minha irmã, jamais diga uma coisa dessas - interrompeu Têmis, prudente.
Primeiro, porque, se pretendemos um dia nos tornar espíritos verdadeiramente bons, não podemos julgar as pessoas.
Sabe lá o que já fez em suas vidas passadas?
O Pai, no entanto, nunca deixou de usar de misericórdia para com os nossos erros e assim devemos proceder com nossos semelhantes.
Além de que, o nossos problema do aborto não se encontra tão distante de sua família quanto você imagina.
Com toda certeza, não é por acaso que você está aqui, tendo acesso a todos estes conhecimentos no actual patamar evolutivo em que se encontra...
- Como assim? ela estancou assustada à porta do chalé.
- Logo você entenderá o que estou dizendo - garantiu Têmis.
Fique certa de que, tanto os encarnados quanto nós, desencarnados, somos sempre situados no local certo e apropriado ao nosso desenvolvimento integral.
Vamos? - ela indicou com um gesto o interior da casa para Aretusa, que a seguiu pensativa.
"Afinal, que razões existiriam para que estivesse ali naquele lugar, além de seu desejo pessoal de conhecer o destino dos abortados?", não conseguia deixar de perguntar-se.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:24 am

- XV -
O susto foi tão grande que Vítor levantou de um pulo da cama.
Deu de cara com a psicóloga sorrindo para ele.
Era uma jovem de trinta e poucos anos, cabelos louros, compridos e cacheados, olhos castanhos e ternos, o rosto muito bonito.
Parecia mesmo um anjo a observá-lo.
"Ela não pode entender muita coisa sobre o que eu sinto.
E quase uma menina!", ele pensou consigo.
- Oi, Vítor! - ela o cumprimentou, carinhosa e simpática.
Eu sou a Olívia.
Sua mãe me ligou aflita, dizendo que você não tinha condições de chegar até o meu consultório, e resolvemos então que seria melhor que eu viesse até aqui ver você...
Ainda tomado pelo assombro e pela desconfiança, ele engoliu em seco, sem saber o que dizer.
- Sua mãe me disse que acaba de ter uma crise... - prosseguiu Olívia, cautelosa.
Como você está agora?
Com os olhos, ele procurou desesperadamente a figura da mãe, que o incentivou com um movimento afirmativo de cabeça, como a dizer "fale, meu filho!".
Vítor, porém, estava tão atónito que não sabia o que responder.
"E se começar tudo de novo na frente desta moça?", era tudo em que conseguia pensar.
- Não se preocupe.
Você não vai ter outra crise - afirmou a psicóloga, como se pudesse ler os seus pensamentos.
Se tiver, estarei aqui para ajudá-lo.
Eu sei como lidar com isso.
Ele abaixou a cabeça envergonhado.
Sentia-se extremamente humilhado por estar ali, naquela posição frágil, diante de alguém que estava ciente de suas fraquezas.
Ainda por cima uma mulher, que talvez tivesse idade para ser sua irmã mais velha.
"Quantos anos teria?", ele perguntava-se, confuso diante de sua beleza.
A vontade que tinha era enfiar-se debaixo da cama, mas ele sabia que não podia fazer isto.
Afinal, o que ela iria pensar dele?
Talvez o tomasse como louco!
Ao mesmo tempo, a expressão da psicóloga era tão doce, tão terna que o fazia sentir-se à vontade mesmo sem conhecê-la.
Era como se estivesse escrito nos olhos dela que não lhe faria nenhum mal.
- Imagino que não deve ser nada fácil isso que você está passando - continuou ela.
Tenho muitos pacientes na sua mesma situação e eles me dizem que o pânico é um tipo de medo muito desagradável porque os deixa totalmente perdidos, desconcertados frente aos outros e, sobretudo, perplexos frente a eles mesmos, na medida em que não conseguem entender por que esse medo aparece.
É assim que você se sente?
Vítor balançou a cabeça, em sinal afirmativo.
"Será que ela realmente entendia alguma coisa do assunto?
Teria mesmo muitos pacientes em sua mesma situação?"
- A primeira coisa que quero que fique claro para você é que você não está louco e que isso que está acontecendo na sua vida acontece também com inúmeras outras pessoas no mundo inteiro - ela acrescentou.
Ele a encarou surpreso.
Nunca tinha ouvido isso.
Seria verdade?
- Sim, calcula-se hoje que cerca de cinco por cento da população mundial sofra com os transtornos do pânico'20 - confirmou a Dra. Olívia.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:24 am

Acho, aliás, que um importante ponto de partida para o tratamento é a pessoa se informar, procurar conhecer tudo o que foi descoberto sobre o assunto.
Você gosta de estudar?
- Hum, hum - respondeu Vítor, ainda tímido e desconfiado.
- Pois bem - disse ela, correndo os olhos pelo quarto do rapaz.
Vejo que você tem aqui um computador...
Se eu, pessoalmente, estivesse no seu lugar, a primeira coisa que faria seria dar uma procurada na internet.
Você costuma fazer pesquisas na internet?
- Hum, hum - ele repetiu o murmúrio.
- Pois então faça isso.
Você vai encontrar uma quantidade absurda de depoimentos! - ela incentivou.
- Agora? - perguntou o rapaz, começando a interessar-se.
- Não. Mais tarde você poderá fazer isso.
Será, inclusive, um exercício que vou passar para você...
Dona Cenyra, eu agora vou aceitar aquele copo d'água que a senhora me ofereceu! - ela disse, percebendo que Vítor estava mais confiante.
Era a senha para que Cenyra os deixasse sozinhos.
No momento em que viu a mãe cruzar entrada do quarto e encostar a porta, Victor esboçou um esgar de susto, mas Olívia, percebendo sua reacção, logo o tranquilizou:
- Se nós precisamos, chamamos a sua mãe, ok?
Sabe, uma boa técnica para a gente manter sob controle a nossa ansiedade é ocuparmos a nossa atenção com outras coisas.
Uma pesquisa, uma actividade, nem que seja a simples observação da sua respiração.
- Como assim? - ele quis saber.
- Quando você perceber que a crise está vindo, fixe seu pensamento no ritmo com que o ar entra e sai de, seus pulmões.
Você já reparou como respira depressa nos momentos em que se sente ansioso?
Vítor pensou por alguns instantes.
Realmente, o primeiro sintoma que costumava sentir quando 'a coisa' se aproximava era uma dificuldade de muito grande de realizar trocas de ar, o que aos poucos ia se transformando numa espécie de sufocamento.
Estava tão concentrado em suas reflexões que nem deu importância quando a mãe apareceu para entregar o copo de água a Olívia e saiu logo em seguida.
- Quando sentimos ansiedade, o ritmo respiratório adquire características próprias - continuou Olívia, após um comprido gole de água.
Convencionou-se chamar de hiperventilação esse tipo específico de respiração, curta e rápida, que também faz parte do quadro sintomatológico da síndrome do pânico.
Em geral, essa forma de respirar é esperada em situações que envolvem esforço físico intenso ou quando o indivíduo está sob forte tensão.
Ela produz processos biológicos específicos, inofensivos em si, mas bastante desconfortáveis e perturbadores, como formigamento, tonteira, contracção muscular, visão embaralhada etc. - ela depositou o copo sobre a escrivaninha de Vítor e puxou a cadeira para sentar-se diante dele.
- Tudo isso é causado pela respiração? - estranhou ele.
- Sim. Quando você aumenta muito o número de inspirações e expirações, acaba entrando mais ar nos pulmões e, consequentemente, mais oxigénio.
Mas há também uma maior eliminação de dióxido de carbono, o que causa vasoconstrição em determinadas partes do corpo - esclareceu ela.
- E o que isto significa na prática? - questionou Vítor.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:24 am

- Como o CO2 é ácido, reduzir sua quantidade no sangue aumenta o ph, a alcalinidade, do sangue, o que provoca todas aquelas reacções de que acabamos de falar.
Mas é sempre possível interferir no ritmo respiratório antes que a situação chegue a esse ponto.
- Como? - perguntou Vítor, cada vez mais curioso.
- O segredo é alterar o tipo de respiração, quer ver só? - ela colocou a mão em seu peito de maneira a sentir sua respiração.
Intimidado, Vítor ficou um pouco ansioso e começou a respirar mais depressa.
- Está vendo só?
Toda a sua respiração parece estar concentrada aqui no peito.
Preste atenção...
Ele ficou concentrado por alguns instantes, sentindo como se seu coração pulsasse dentro da mão da psicóloga.
- Essa é a chamada respiração torácica, que consiste basicamente no movimento barriga para dentro, peito para fora...
Quando muito acelerada, ela se transforma na hiperventilação...
Agora procure relaxar e encher bem os quadris, expandir bem o abdómen no momento em que for inspirar - ela tocou em sua barriga para indicar o local.
Depois vá esvaziando calmamente, contraindo a barriga na medida em que for expulsando o ar de dentro de si...
Vítor obedeceu, tenso a princípio, mas aos poucos foi se deixando levar pelo movimento do ar, pelo calor da mão de Olívia que continuava pousada sobre seu abdómen.
Na quarta respiração já se sentia bem mais relaxado.
-Viu como é fácil?
Esta é a respiração diafragmática, que ocorre naturalmente nas situações de calma.
Em geral, costumo aconselhar a meus pacientes a lançarem mão de um estímulo visual após as primeiras respirações para auxiliar no processo.
- Não entendi - expôs Vítor, sem parar de respirar.
Olívia correu rapidamente o olhar pelo quarto até encontrar o despertador que tiquetaqueava na ponta de uma prateleira cheia de livros.
- Como isto aqui, por exemplo! - disse, tornando-o nas mãos e voltando a sentar-se diante de Vítor.
- Um despertador? - estranhou ele.
- Um relógio qualquer - explicou ela.
Enquanto normaliza sua respiração, tente fixar seus olhos no ponteiro dos segundos, concentre toda a sua atenção no seu movimento.
- Mas... - balbuciou Vítor, seguindo o ponteiro.
Na hora da crise isso dá certo?
- Dá - asseverou ela com determinação.
Sabe porquê?
Nosso cérebro dificilmente consegue pensar em duas coisas ao mesmo tempo.
E se você estiver ocupado em adequar o movimento dos ponteiros a seu ritmo respiratório, não ficará mais tão preocupado com o seu medo, diminuindo ou até mesmo anulando o poder e a intensidade das sensações que ele desperta em você.
Pense apenas nos tempos de sua respiração.
Observe quantos segundos leva inspirando, quantos segundos o ar permanece retido em seus, pulmões, quantos segundos leva para expulsá-lo completamente, quantos segundos consegue ficar com o pulmão vazio antes de partir para uma nova inspiração.
Aos poucos, tente ir distribuindo cada uma destas etapas respiratórias em tempos iguais, perceba quantos segundos necessita para isto.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:25 am

Victor gostou daquela explicação.
Olhou mais uma vez para o despertador que Olívia colocara em suas mãos e sentiu-se encorajado para perguntar:
- Mas, afinal, de onde vem tanto medo?
- Antes de mais nada, você precisa compreender que o pânico nada mais é do que a manifestação de um estado de extrema ansiedade, o estado mais agudo que uma ansiedade patológica pode atingir.
Em geral, surge a partir de um contexto de vida stressante, que nos leva a ultrapassar os nossos próprios limites.
- Então é uma doença? - arriscou Vítor, querendo ver se ela ia dar a mesma explicação que lhe dera o psiquiatra.
- É e não é, visto que ainda não existe uma confirmação para as hipóteses científicas que tentam dar conta de suas origens.
- E que hipóteses seriam essas? - ele continuou a testá-la.
- Bem, acredita-se hoje que a síndrome do pânico seja causada por um possível defeito no sistema de neurotransmissores do organismo, que são aquelas substâncias responsáveis pela comunicação dos impulsos nervosos que estabelecem ligações entre as células.
- Você fala das sinapses? - ele queria mostrar que também entendia do assunto.
- Exactamente.
Essas substâncias de que falo, tais como a serotonina e a noradrenalina, é que possibilitam as sinapses.
No caso da síndrome do pânico, é como se a mente da pessoa fizesse uma leitura errada das informações registadas pelo organismo, disparando um alarme de acção contra um perigo que aparentemente não existe.
Mas tudo isso são apenas hipóteses.
As verdadeiras causas da síndrome do pânico são desconhecidas.
Vítor manteve-se pensativo por alguns instantes, antes de perguntar:
- Em outras palavras, você também acredita que o cérebro das pessoas portadoras desta síndrome tem um defeito de funcionamento?
- Esta é apenas tuna das hipóteses - corrigiu Olívia, sem deixar de registrar que ele utilizara a palavra também e que, portanto, já ouvira antes aquela explicação.
- E quais seriam as outras? - quis saber o rapaz.
- Há hipóteses, também ainda não confirmadas, de uma disfunção do sistema endócrino, responsável pelo funcionamento das glândulas, ou ainda de uma disfunção cardíaca associada à ocorrência do prolapso da válvula mitral.
Eu, particularmente, porém, acredito numa outra hipótese - ela o provocou.
- Qual? - ele perguntou curioso.
- Preferia conversar mais sobre isso no meu consultório.
Você aceitaria?
- Quando? - a curiosidade de Vítor parecia ter rompido suas resistências.
Afinal, ela realmente parecia entender muito sobre o assunto.
Olívia retirou uma grande agenda de dentro da bolsa e passou algum tempo a folheá-la, às vezes para frente, às vezes para trás, criando um certo suspense.
- Bom - ela disse por fim.
Tenho um horário livre na semana que vem...
Na quarta-feira, ao meio-dia, está bom para você?
Vítor parecia renovado depois daquela breve conversa.
O que ele queria era entender todas as possíveis causas para seu problema, esmiuçá-las uma a uma até encontrar uma explicação.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:25 am

Não se importava de fazer quantas experiências fossem necessárias, desde que a finalidade fosse dar meios à sua própria mente para sair vitoriosa daquele desafio.
E, decididamente, Olívia parecia a pessoa certa para orientá-lo no combate.
Seu lado racional dizia-lhe isso, o emocional parecia enfeitiçado por aquela personalidade firme, discreta e ao mesmo tempo tão feminina.
- Seria, interessante, inclusive, que você pesquisasse bastante sobre o assunto na internet e levasse suas dúvidas para discutirmos juntos no consultório - sugeriu ela.
- Eu estarei lá! - ele garantiu, sem pestanejar.
- Isto é o que nós vamos ver - ecoou, quase imediatamente, uma voz dentro de seus pensamentos.
Se Vítor pudesse ver os horríveis seres invisíveis que o rodeavam naquele momento, talvez tivesse tido outra crise.
- Sim, isto é o que nós veremos! - repetiu outra voz, ainda mais ameaçadora.

20 Conforme dados da Organização Mundial de Saúde.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:25 am

- XVI -
- Isso é um absurdo! - gritou o dr. Faustino, atirando longe a revista que acabara de ler.
Era um homem de mais de sessenta anos, com cabelos grisalhos e óculos de aros invisíveis, inteiramente trajado de branco.
Só se vestia assim, mesmo nos dias em que não atendia no consultório, situado em uma clínica no subúrbio do Rio.
Era médico ginecologista e a mania de roupas brancas era apenas uma das manifestações de sua obsessão por limpeza.
Ele lavava tanto as mãos ao longo do dia que tivera o cuidado de mandar instalar uma pia em cada cómodo do luxuoso apartamento de cobertura onde morava com a mulher e os filhos, em um antigo prédio no bairro de Laranjeiras.
E só lia revistas e jornais com luvas de borracha descartáveis, como as que agora usava.
Talvez tamanha psicose, que parecia aumentar dia após dia, derivasse do facto dele não trabalhar apenas como ginecologista, como acreditava a família.
"Novas pílulas oferecem opções mais seguras e eficientes para as mulheres evitarem a gravidez indesejada", dizia a manchete na capa da revista estirada ao chão, que falava da nova geração de medicamentos inventados na França, os quais começavam a se tornar populares no Brasil sob o sugestivo título de "anticoncepcionais de emergência".
Conhecida como "pílula do dia seguinte", a dita droga, possível de ser adquirida sem receita médica em qualquer farmácia por um preço em torno de quinze reais, conforme explicava a revista, precisa ser ingerida até setenta e duas horas após a relação sexual para fazer efeito.
Contraceptivo de emergência, ela impede a fixação do embrião no útero, mas não deve ser usada com frequência porque contém alta dosagem hormonal e não protege contra doenças sexualmente transmissíveis.
Ainda assim, vem sendo largamente utilizada pelas adolescentes como um método de uso regular.
- Era só o que faltava! - esbracejava o médico, enquanto caminhava nervoso de um lado para outro de seu escritório.
O governo não pode permitir uma coisa dessas!
- Algum problema, Faustino? - perguntou a mulher, abrindo delicadamente a porta do escritório para ver o que estava acontecendo.
Era uma mulher loura de corpo atraente, modelado por inúmeras cirurgias plásticas, e arduamente mantido à base de dietas e muita ginástica.
Aparentava trinta e poucos anos de idade, embora a carteira de identidade revelasse que completaria quarenta e cinco nas próximas semanas.
Usava um tailleur clássico no tom alaranjado da moda, saltos altíssimos e transparentes, em formato de agulha, e muitas jóias.
Tão logo ela abriu a porta, um forte odor de perfume francês invadiu o ambiente.
- Já não disse que não gosto que entre em meu escritório sem bater, Jaqueline? - reclamou o médico encarando-a.
- Mas, darling, ouvi você gritar e pensei que poderia estar pre...
- Por favor, me deixe sozinho - interrompeu ele, sentando-se diante da escrivaninha e ajeitando os óculos sobre o nariz com a ponta do indicador direito.
Sempre fazia isto quando estava nervoso e queria novamente concentrar-se.
- Está certo.
Só queria avisar que estou indo para o shopping - ela estalou-lhe um beijo na testa, marcando-o de batom.
Não sei a que horas volto.
- E as crianças, onde estão? - ele perguntou, recolocando novas luvas, preparando-se para mexer em alguns papéis e recibos.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 9:25 am

- O Binho saiu com Vinícius e vou deixar Clarinha com a Paloma, aqui embaixo.
Não se esqueça de pensar no que eu te pedi...
- E o que foi mesmo? - ele tentou lembrar-se.
- Ah, Faustino... - ela simulou um beicinho.
O forno artesanal para pizza que eu queria tanto instalar no terraço!
- Tá, eu vou pensar... - respondeu ele, voltando a fixar os olhos no maço de cheques pré-datados que tinha diante de si.
- Então pense com carinho.
Faltam menos de quinze dias para o meu aniversário!
Beijos! - disse ela, afectada, fechando a porta logo em seguida.
Faustino retirou da gaveta um algodão e um miúdo frasco contendo álcool e limpou irritado a mancha de batom no alto da cabeça, tapotando o algodão contra a testa.
Mania que Jaqueline tinha de beijá-lo daquele jeito!
Tantos anos dizendo as mesmas coisas e ela jamais aprendiam.
Pior era aquela sanha que ela tinha de achar que podia ter tudo o que descobria em revistas como moda entre as mulheres da alta sociedade.
É certo que até então haviam gozado de uma boa situação.
Mas se insistissem em continuar a viver esbanjando como milionários, em breve poderiam ter problemas.
- Agora querer instalar no terraço um forno igual ao de uma pizzaria exclusiva, só porque leu no jornal que é chique...
Um forno de pizzaria no terraço! Onde já se viu?
Daqui a pouco ela vai querer instalar uma piscina no meio da sala de visitas!
É só o que está me faltando! - resmungou, enquanto verificava cuidadosamente o maço de cheques pré-datados.
Mas nem passava por sua cabeça negar um pedido de Jaqueline.
Faustino era louco por ela, por sua beleza, seu jeito de receber as pessoas e até mesmo por suas frescuras.
Tinha orgulho de ser casado com uma mulher como Jaqueline, de poder ostentá-la como sua esposa em coquetéis e reuniões.
Ela era a exacerbação de seu lado mais fútil e materialista, a prova viva de que ele era um vencedor.
Só não gostava quando algum engraçadinho insinuava que ela tinha idade para ser sua filha.
Faustino era vinte e um anos mais velho do que Jaqueline.
Estavam casados há vinte e quatro.
Fisicamente falando, ela parecia não ter mudado quase nada desde o dia em que se conheceram.
Faustino a amara desde aquele primeiro momento.
Na época, ele trabalhava como enfermeiro em um hospital público e ela era filha de um médico, o doutor Bragança, conceituado obstetra que, no entanto, por sua teimosia em só viver preocupado com os pobres, jamais conseguira enriquecer como seus colegas de turma.
Tinha até um consultório particular no Méier - o mesmo que Faustino reformaria, anos mais tarde, para fundar sua própria clínica ginecológica -, mas, como dizia Jaqueline, era tão boboca que acabava atendendo a maioria de suas pacientes de graça, como se seu consultório fosse mera extensão do hospital do governo.
E, com isso, enquanto o doutor Bragança viveu a família jamais conseguiu mudar-se do subúrbio do Méier, que Jaqueline tanto odiava até hoje.
- Esse lugar para mim não existe.
Jogaram uma bomba e o bairro todo explodiu - costumava desabafar a esposa de Faustino, em seus momentos de raiva.
Filha única e descendente de uma família de antigos nobres por parte de mãe, Jaqueline sempre foi criada cheia de mimos e regras de etiqueta.
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Re: O Silêncio dos Domingos / Lygia Barbiére Amaral

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