Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:21 pm

O ELIXIR DA LONGA VIDA
Wera Ivanovna Krijanovskaia

Conde J. W. Rochester

Pesquisa para o original da rosa "Príncipe Negro" citada na obra "Romance de uma Rainha" (edição FEB) por:
Ivanilda Rita de Oliveira Matsumoto

Prefácio

John Wilmot, Conde de Rochester, foi um poeta satírico inglês, de vida dissoluta e vasta cultura, morto aos 33 anos.
Em espírito, Rochester teria ditado ao médium Vera Krijanowsky, entre 1882 e 1920, 51 romances, quinze dos quais, traduzidos para o português.
Sua temática começa pelo Egipto faraónico, passando pela Antiguidade greco-romana, a Idade Média, vindo até o século XIX.

Os títulos editados em português são:
O Chanceler de Ferro do Antigo Egipto;
O Faraó Mernephtah;
Romance de Uma Rainha; (2 volumes)
Episódio da Vida de Tibério;
Herculanum;
O Sinal da Vitória;
A Abadia dos Beneditinos;
Naema, a Bruxa;
A Lenda do Castelo de Montinhoso;
A Vingança do Judeu;
A Feira dos Casamentos;
Na Fronteira;
O Elixir da Longa Vida;
A noite de São Bartolomeu
Narrativas Ocultas


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:15 pm, editado 2 vez(es)
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:21 pm

Nos romances de Rochester, a realidade navega num caudal fantástico em que o imaginário ultrapassa os limites da verossimilhança, tornando naturais fenómenos que a tradição oral cuidou de perpetuar como sobrenaturais.
Ele revela o inaudito, o elidido, os pontos abissais da História, da lenda e do "pathos" humano.
Rochester é um analista que sincretiza a História com as paixões humanas, assentando-as numa narrativa bem articulada, onde o insólito é uma das invariantes que assinala seu estilo, sem contudo, compor uma receita de entretenimento ligeiro, subordinada às fórmulas de mercado que orientam os romances populares.
Aceitando ou não a obra de Rochester como psicografia, veremos que sua proposta de veridicção afina-se com o ideário realista: a preocupação com a verdade, não apenas verossímil, mas autêntica, através da observação e da análise.
A referencialidade de Rochester é plena de conteúdo sobre costumes, leis, antigos mistérios e factos insondáveis da História, sob um revestimento romanesco, onde os aspectos sociais e psicológicos passam pelo filtro sensível de sua hiperbólica imaginação.
Em sua recriação da realidade, nenhum detalhe é desprovido de interesse; atentando para o seu virtuosismo descritivo, observa-se que certas passagens constroem-se sobre um derramamento estilístico de inclinação romântica.
Os parênteses descritivos de Rochester ora precipitam, ora retêm o curso narrativo, verticalizando e esquadrinhando microscopicamente os espaços físico e psicológico.
Ao lado da exploração dos dados emocionais, o autor ajusta as causas que determinam o comportamento humano e por isso, nenhuma actividade dos personagens é gratuita.
Quanto à acção moral a que se propunham os realistas, Rochester oferece indícios quando induz o leitor à reflexão, repelindo simplificações moralizantes e antiéticas sobre o bem e o mal.
Apesar de suas peculiaridades metafísicas, estéticas e sociais, o valor romanesco de Rochester apenas, aparentemente, tangencia os atractivos dos textos folhetinescos, como o carácter informativo, que transparece em digressões metalinguísticas, apontando desvãos históricos ou traduzindo fenómenos singulares, apoiado em bases científicas.
Enquanto os mitos persistem no produto folhetinesco, Rochester invalida-os em suas obras, redefinindo, por exemplo, figuras legendárias como José e Moisés, ultrapassando as crónicas que os sacralizaram, numa escritura que combina a epopeia e o drama.
Rochester, na linha da imaginação romanesca do século XIX, aproxima-se do "romance total", que enfeixa o drama, o diálogo, o retrato, a paisagem, o maravilhoso, apenas desviando a temática da força mítica do herói para um passado mais longínquo que a Idade Média (o espaço eleito para a fuga dos românticos), transformando seu texto numa espécie cujo conteúdo fabulativo tem permanência e atemporidade ao abrir-se à inexorável e precária condição mortal do homem.
A classificação de género em Rochester é dificultada por sua expansão entre várias categorias:
terror gótico com romance sentimental, sagas de família, aventuras e incursões pelo fantástico.
Sob uma natureza criadora e fundadora, o autor revela os arcanos desconhecidos e apropria-se da que parece reiterativo, reinaugurando textos segundo leis próprias, onde as relações internas (tempo, espaço, personagens, estilística) compreendem o conteúdo estético; e o inventário histórico, a recuperação do real, as questões metafísicas e filosóficas constituem o conteúdo ideológico.
Sem remanejar fórmulas, Rochester vai revendo a espacialidade e a temporalidade, empreendendo uma viagem ao enigmático, numa pluralidade de fatos revisitados na memória.
A complexidade da transmigração de um determinado grupo de espíritos que se reencontra em sucessivas reencarnações, no plano literário converte-se numa migração de personagens de uma abra a outra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:23 pm

Pode-se dizer que sua literalidade actualiza ou reinterpreta questões universais, como os conflitos de poder e a formação de valores, fazenda uma fusão do real e do imaginário, numa atmosfera trágica, cabendo ao leitor o esforço de preencher os vazios significativos (sobretudo quanto às leis de causa e efeito), um dos atributos que um texto artístico apresenta em sua contextualização do real.
Assim, do ponto de vista linguístico e estético, Rochester produz um discurso literário e, do ponto de vista referencial e historiográfico, reproduz uma realidade.
Percorrendo a narrativa de Rochester, observamos que ela alterna capítulos de maior ou menor tensão, sem que essas polaridades se dêem de forma a entender o romance.
Organizada fora da sequência temporal linear, a fragmentação narrativa mantém a expectativa do leitor.
Sobre os personagens de Rochester, pode-se dizer que eles não existem a serviço do enredo, para sustentar uma tese de ordem moralizante e criadora de identidades: eles pertencem a uma narrativa que sonda episódios históricos com instrumental literário, de modo a não perder seus referenciais sob arranjos ficcionais (o que redundaria em personagens moldados consoante o público que se pretende atingir; um dos paradigmas do folhetinesco).
Nas narrativas folhetinescas, o herói é corajoso, sedutor, romântico, apresenta carácter nobre, gestos solidários, redentores e justiceiros.
Até os traços físicos correspondem à luminosidade do personagem: olhos claros, beleza diáfana, viril.
Tipicamente ele se associa a animais como a águia e o leão, para combater bichos nocturnos - a serpente, a aranha, o dragão.
José, o herói de "O Chanceler de Ferro", apresenta-se fisicamente como um herói solar:
olhos verdes, alto e belo; porém é caviloso, dissimulado, cruel, despótico, narcisista e covarde.
O bicho com que ele se identifica é a serpente, pois é através de um bizarro ritual com esse réptil que José se torna um iniciado na prestigiada arte de leitura de sonhos, além de poder produzir sortilégios e defrontar-se com a enigmática esfinge.
Rochester põe o leitor em contacto com a forma inaugural do mito, no que diz respeito ao enigma da Esfinge (surgida de um quase delírio) e suas associações reveladoras, fazendo emergir sentidos que ultrapassam o valor expressivo e denotativo do fenómeno, irrompendo no leitor o fascínio de seus segredos.
A génese do lendário e do maravilhoso deita raízes nas narrativas populares, que passaram da primitiva oralidade à literatura moderna através de um manancial de textos, de origem anónima ou colectiva, proveniente do oriente e dos celtas.
No fim do século XIX, manuscritos egípcios de 3.200 anos (mais antigos que os textos indianos) foram encontrados em escavações na Itália, pela egiptóloga Mrs. D'Orbeney.
Nesses manuscritos está o texto-fonte do episódio bíblico "José e a mulher de Putifar", cuja trama, Câmara Cascudo sintetizou.
Rochester, em "O Chanceler de Ferro", enriquece com detalhes esse episódio, sem recorrer a soluções de modernidade.
Revelando as matrizes da depreciação da imagem feminina, que as narrativas populares encarregam-se de difundir, ele adentra os meandros que conduziram a mulher de Putifar a ser acusada de traição.
Quando se refere aos judeus, em três de suas obras, Rochester levanta os preconceitos que consolidaram muitos dos estereótipos que lhes são atribuídos, numa pesquisa da tradição judaica e das marcas que acompanham seu povo há muitos séculos, tendo sido ele próprio um judeu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:23 pm

Algumas observações valorativas do autor seriam apenas juízos preconceituosos se não fossem fundamentadas em factos que estigmatizaram o povo hebreu.
Quanto ao foco narrativo, a obra de Rochester, ora através do narrador omnisciente, ora através de narradores nomeados, apresenta diferentes versões de um fato, segundo as perspectivas e licenças individuais de quem as protagonizou.
Dessa forma, em romances como "O Faraó Mernephtah", "Episódio da Vida de Tibério" ou "A Abadia dos Beneditinos", uma determinada acção vivida por vários personagens é captada sob diversos ângulos pelo leitor:
o enfoque de cada narrador oferece uma observação material e subjectiva, traduzindo suas distâncias interiores, sua vida psíquica; cada qual se define, bem como às cenas que protagonizaram, conforme as experimentaram.
Assim, por exemplo, vemos em "Episódio da Vida de Tibério" o depoimento de quatro personagens.
A narrativa se constrói sob diferentes repertórios, num movimento dialéctico de fragmentação (por parte da narrativa) e síntese (por parte do leitor).
Essa tensão dialéctica abre-se à co-participação do leitor, que filtra a leitura através de seu repertório próprio, de suas projecções e idiossincrasias, produzindo um meta-enredo que se renova a cada leitura e modifica-se de um leitor a outro.
Os pontos de vista em Rochester são construídos a partir de visão por trás e da visão com, segundo a definição de Jean Pouillon.
O saber do narrador é ostensivo: ele tudo sabe sobre a intimidade dos personagens, apropriando-se de seus pensamentos e atitudes.
Essa cobertura totalizante atendia a uma preferência dos leitores do século XIX, ávidos pela densidade dos fatos.
Como narrador omnisciente, ele projecta sobre os elementos físicos e psicológicos sua linguagem perita, verticalizando e adensando os traços exteriores e interiores, compondo imagens dinâmicas e estáticas, através de metáforas, antíteses, hipérboles, polarizando no texto a fluidez e o congelamento de cenas com o mesmo impacto.
Os personagens e o narrador sofrem uma simbiose de seus estados mentais, vivendo um pela palavra do outro.
Seu efeito de realidade não se expressa em sua autoridade de narrador e sim em sua capacidade literária de reconstrução, de investigação, possibilitando novas interpretações, permitindo que a ficção e a realidade se confundam na relatividade das vozes de seus personagens, tocando a visão positivista do século XIX, em que a história conta-se a si mesma, espelhando o mundo real pela linguagem.
Sua exaltação sensorial apreende o mundo com os olhos do realista, acrescentando, às vezes, pulsações românticas, não apenas sentindo, mas vendo, apalpando, experimentando, levando o leitor a perceber que a sensação é elemento fundamental no conhecimento do mundo.
Entre poeirentas planícies, templos místicos, arenas sangrentas e furnas hostis, Rochester actualiza, com os matizes de uma pintura, os ignorados espaços da História.
Seu empenho pictórico opõe o descritivismo funcional do Realismo ao descritivismo decorativo do Romantismo, num compromisso do senso real com a imaginação.
Nos textos de proposta realista, o testemunho subjectivo-individual romântico cede lugar ao depoimento objectivo e crítico, julgando os fatos a partir dos valores condicionados socialmente, impulsionados pelo pensamento científico e económico.
Rochester surge justamente num período de crise da representação simbólica da arte e da fragmentação do indivíduo que, como sujeito textual, não confere mais com o ideal pleno do herói, pondo em dúvida os valores absolutos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:23 pm

Por ser depositária de preceitos espíritas e levantar questões metafísicas com competência, a fruição na obra de Rochester transcende a cotação da sensibilidade e o julgamento do gosto:
o leitor divide-se entre o prazer da expansão subjectiva do autor e o cepticismo diante da objectividade dos laivos filosóficos, científicos e históricos que, se não surpreendem pelo real, surpreendem pelo imaginário.
Seu universo imaginário é um excedente do real, atestando fenómenos produzidos pelo homem, desnudando mitos e decifrando enigmas.
A combinatória desses elementos pelo jaez de sua escritura é que permite o trânsito de Rochester além da literatura espírita, possibilitando que seus romances encerrem uma sobreposição de textos que lhe dão um estatuto ora documental, ora ficcional, ora fantástico.

Thais Montenegro Chinellato
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:23 pm

- I -

Nos arredores da cidade de Londres se erguia antiga edificação, ainda sólida e com um grande jardim.
A casa remontava à época de Cromwell e guardava o aspecto severo e puritano daquele século.
No terceiro piso vivia o Dr. Ralph Morgan, como indicava pequena placa de cobre sobre uma porta escura de carvalho envelhecido.
O apartamento do doutor era formado por um vestíbulo, sala de jantar, escritório e dormitório.
Cada um desses aposentos, simples mas confortavelmente mobiliado, possuía uma vantagem muito preciosa para o morador - as janelas davam para o jardim.
O doutor amava a calma e o ar livre, preferindo uma longa caminhada a pé, mesmo com mau tempo, à vida agitada e ruidosa no centro da cidade, com seus telhados e chaminés de aspecto triste e sombrio.
A noite de agosto estava bela e calma, e a janela da casa permanecia aberta.
Sob a luz de um abajur verde, sentado a uma escrivaninha, o doutor lia um grosso volume de capa desgastada pelos anos.
O Dr. Morgan, com seus trinta e poucos anos, poderia passar por um belo homem, não fosse a espantosa magreza e palidez que prejudicavam sua imagem.
Era de alta estatura, cabelos espessos e castanhos com reflexos avermelhados, e usava barba curta e ligeiramente mais escura que emolduravam um rosto de traços regulares.
Seus grandes olhos, severos e pensativos, exibiam coloração peculiar: cinza-azulados nas horas calmas e mais escuros nos momentos de agitação.
Aquele olhar de extraordinária mobilidade reflectia de imediato o menor sentimento interior.
Tudo anunciava em seu escritório que Ralph era um homem de estudos, sábio e laborioso: a vasta biblioteca, com as estantes repletas de livros, revistas e brochuras que tratavam não somente de medicina, mas de todos outros assuntos tocantes aos diversos ramos do saber humano.
O doutor se atirava livremente às suas leituras e trabalhos pessoais, pois quase não recebia clientes, retirando seu sustento de um emprego bem remunerado num sanatório para doentes mentais.
Esta situação modesta o satisfazia, visto que sua saúde delicada o obrigava a um género de vida tranquilo e regular; mas o médico aproveitava seu tempo livre para aprimorar sua já brilhante inteligência.
Não era em vão que se debruçava dia após dia sobre um insolúvel problema - a loucura.
O contacto incessante com o mal incompreensível, escapando às pesquisas científicas, impelia o doutor a rasgar o véu do mistério; mas era em vão que percorria as obras de ciência prática e as obras místicas e alquimistas; nem o trabalho de sábios psiquiatras, nem as fórmulas obscuras de Paracelso lhe deram a chave do segredo.
Por vezes, após inúteis esforços para solucionar o enigma - solução que fugia sem cessar de sua mente - a cólera o invadia.
E, muitas vezes, após infrutíferas tentativas para descobrir meios de curar as moléstias do espírito, o doutor se deixava penetrar pela revolta contra as leis cruéis, envoltas em mistérios que ocultavam a chave da cura.
Deixando de lado o volume que lia sobre hipnotismo, o doutor olhou friamente sua mão segurando um marcador de livros feito de marfim e estremeceu ao imaginar aquela mesma mão repousando sobre seu peito inerte.
- ... Sonhas, meu jovem amigo, lhe dissera um velho professor, seu antigo mestre, após o ter examinado algumas semanas antes.
Seu coração está doente e os pulmões lesados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:23 pm

Você tem necessidade de um completo repouso físico e intelectual, senão...
Ralph suspirou profundamente; ele compreendia o significado dessa última palavra.
Como médico sabia o que representavam as dores no peito, os batimentos desordenados do coração, a respiração difícil, a fraqueza e a tosse seca que lhe fazia chegar sangue à boca.
Fechando as pálpebras, ele deixou que o medo da morte lhe invadisse lentamente o espírito.
A angústia e o temor desse "não ser" se aproximando lhe oprimia o coração.
Não existiria algum meio de prolongar a vida e interromper a desagregação do corpo?
Inesperadamente se recordou de uma leitura em um livro sobre ocultismo:
"O elixir da vida existe, mas seu segredo está perdido"; os alquimistas o buscaram em vão nos órgãos e no sangue das virgens, crianças e animais, nas plantas e na atmosfera.
No entanto os livros de magia falavam desse elixir como uma realidade irrefutável.
Ah! se fosse possível encontrar esse fluido vital, força poderosa e imperceptível, que anima os seres vivos e organizados, desde os mais elementares até os mais complexos...
Um toque breve e forte da campainha rompeu o curso de seus pensamentos agitados.
Ele se endireitou, aguardando, mas o velho Patrick, seu único criado, devia sem dúvida, dormir profundamente, visto que ruído algum se ouviu na sala de entrada.
A campainha soou uma segunda vez.
Ralph se levantou; talvez algum vizinho doente mandava chamá-lo.
Isso raramente acontecia, mas a possibilidade ainda assim existia.
Como Patrick não dava sinal de vida, ele abriu a porta.
Um homem de boa estatura se postava à porta, vestindo um abrigo escuro e chapéu de feltro de abas largas, trazendo consigo uma pequena caixa de prata cinzelada.
-To, Dr. Morgan com quem tenho a honra de falar? - perguntou o desconhecido com voz grave e sonora.
- Ele mesmo... estou às suas ordens.
- Nesse caso me permita entrar, pois devo tratar de assunto muito importante e que particularmente muito lhe interessa.
Sentaram-se e um longo silêncio se fez.
Ralph examinava seu visitante com curiosidade.
Ele parecia ter uns trinta e cinco, quarenta anos; e ainda que bem saudável e forte, se mostrava nesse momento visivelmente pálido e fatigado.
Todavia, nenhuma ruga lhe sulcava a fronte, nenhum fio de cabelo branco se distinguia em sua cabeleira espessa e negra como a asa de corvo.
Seu rosto de feições helénicas poderia servir de modelo a uma obra de Fídias.
Pensativo, o estranho homem fitou os livros empilhados sobre a mesa de trabalho e em seguida ergueu sobre Ralph seus grandes olhos negros, de forma suave.
- Procura o elixir da vida e gostaria de possuí-lo...
- Quem é você que conhece meus pensamentos? - balbuciou Morgan, saltando da poltrona.
O misterioso visitante sorriu e falou:
- Sente-se e nada tema; não sou o diabo como supôs.
Sou um homem como você e entre nós uma única diferença existe -você deseja viver, enquanto eu desejo morrer.
Você viveu muito pouco e eu já vivi muito; desejo adentrar o espaço infinito... e vim lhe propor a permuta.
Você dispõe da morte
e eu da vida.
Me entregue uma só gota de seu sangue e em troca eu farei de você o senhor do Elixir da Longa Vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:24 pm

Está de acordo?
O doutor olhava o desconhecido com inquietação.
Sem dúvida alguma estava em presença dum louco, mas não teve tempo de reflectir o que fazer então.
Seu hóspede deu uma gargalhada, tão grande e alta que Ralph se sentiu desconcertado.
- Você está pensando que eu estou louco e está pensando em como se desembaraçar de uma visita desagradável, disse o estranho com benevolência.
Tranquilize-se, meu jovem amigo, tenho lá minhas razões.
Mesmo que minhas palavras sejam inverosímeis, elas representam a imutável verdade.
Eu possuo -de verdade - o elixir da longa vida.
E agora falemos seriamente.
Desde longo tempo procuro o homem a quem poderia transmitir meu conhecimento e o mistério de minha existência; mas todas minhas procuras eram sempre vãs.
Estudei sua vida, seu carácter, suas aspirações, conheço suas dúvidas e a sede de conhecimento que o atormenta.
Concluí você ser o mais capaz de recolher minha herança.
Diga-me, francamente então: gostaria de viver eternamente?
O jovem médico enrubesceu e se endireitou:
- Certamente que eu quero!
Mas duvido que possa me dar o que promete...
Quão grande glória seria a sua se fosse verdadeiramente dono do meio de conservar a humanidade terrestre!...
- Por que você pensa que, possuindo o segredo da vida longa eu desejo aproveitar para atulhar este planeta de milhões de seres sem necessidade nenhuma?
Os benfeitores da humanidade são raros e duvido eles aceitarem utilizar meus meios.
Agora eis minhas condições: eu quero de você um pouco de seu sangue... nele já existe o sopro da morte.
Você é médico e sabe disso; o estado de seu coração e de seus pulmões não têm cura pelos métodos conhecidos.
Em troca desse sangue que me ajudará a morrer eu lhe darei o elixir da longa vida.
Uma gota dele posta num frasco pequeno é o suficiente para curá-lo e tornar sua vida quase eterna.
Nunca toque no restante do elixir.
Tome cuidado em não revelar a ninguém seu segredo; não se deixe arrastar pelo desejo de povoar a terra de seres imortais.
E ainda uma palavra - lhe dando o elixir da longa vida eu lhe lego também meu conhecimento, minha fortuna e meu nome.
Agora decida: quer ser meu herdeiro?
Vou lhe dar dez minutos para reflectir.
Ralph estava estupefacto.
Os pensamentos turbilhonavam em seu cérebro provocando em sua cabeça uma dor aguda e a emoção fortíssima lhe cortava a respiração.
Subitamente, encontrando o olhar inteligente e enérgico do desconhecido, a calma e a decisão lhe voltaram.
- Aceito; disponha de mim, disse ele se levantando e estendendo a mão ao estranho visitante que, apertando a mão estendida se levantou também.
- Nesse caso deverá partir imediatamente comigo.
- Por muito tempo?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:24 pm

- Isso dependerá das circunstâncias.
De acordo com as probabilidades, por algumas semanas.
Nesse caso lhe peço me conceder um quarto de hora a fim de fazer os preparativos e dizer a meu criado que parto a negócios de herança.
- Muito bem! aguardarei na escada.
Em instantes Ralph colocou algumas roupas numa valise, além de dois ternos.
Em seguida despertou Patrick, deu-lhe ordens necessárias e lhe entregou dinheiro para as despesas.
A seguir se juntou ao desconhecido.
Desceram silenciosamente a escada e tomaram assento num automóvel que os esperava e seguiram para a estação ferroviária onde embarcaram no trem para Dover.
O estranho ocupava uma cabine reservada; assim que o trem partiu convidou Ralph para jantar.
Mas o jovem ainda estava excessivamente dominado pela agitação interior e não sentia apetite algum.
Seu companheiro lhe dirigiu gracejos tão divertidos, abrindo um cesto cheio de iguarias, que o doutor se acalmou pouco a pouco, comeu e bebeu do melhor vinho, se decidindo afinal a perguntar a qual estranho lugar o conduzia.
- O Continente... e depois verá por si mesmo, respondeu o desconhecido com leve sorriso.
A viagem durou vários dias e os viajantes não se detiveram em parte alguma, já que isso não lhes convinha.
Mas o percurso transcorreu em condições de conforto tais, que Ralph, malgrado sua moléstia, não experimentou nenhuma fadiga.
A certa altura percebeu ser o fim da viagem - o Cantão Valais, na Suíça.
Se detiveram numa aldeia isolada ao pé do Monte Rosado.
E o misterioso companheiro de viagem anunciou ao doutor que na manhã seguinte eles empreenderiam a ascensão da montanha.
Ralph ficou muito surpreso, mas não formulou nenhuma observação, pois estava decidido a se arriscar inteiramente naquela aventura. Como não vivê-la até o fim?
Na manhã seguinte, após se vestirem com trajes de alpinismo, os viajantes se puseram a caminho.
Assim que atingiram os primeiros cimos e que o ar se tornou mais frio, o desconhecido perguntou sorrindo:
- Seremos obrigados a passar a noite no gelo; não tem medo de congelar, meu amigo?
Ralph encolheu os ombros e respondeu:
- Espero suportar o frio como qualquer outro homem, e visto que meu corpo já definha lentamente, não me importa morrer um pouco mais cedo ou mais tarde.
Além disso, se você não é louco, e minha vida lhe é necessária, não me deixará morrer.
- Sua coragem chega ao estoicismo e isso me agrada.
Tem razão - sua vida me é preciosa e para o livrar de toda fadiga inútil, tome estas pastilhas e não sentirá nem frio e nem cansaço.
Vendo que Ralph hesitava, acrescentou com ligeira dose de ironia:
- Chupe as pastilhas.
Elas não contêm ainda o elixir da vida e não passam de narcótico que lhe dará forças.
Prosseguiram no caminho.
Embora se tornasse mais difícil caminhar, eles já atingiam os limites das neves eternas.
O desconhecido não aparentava nenhum cansaço; Ralph se admirava por sua própria resistência e sentia uma energia fortificante correr em suas veias.
Passaram a noite numa cabana vazia - e se puseram novamente em marcha aos primeiros raios da alvorada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:24 pm

O doutor já havia esquecido o tempo decorrido desde o início da escalada da montanha.
Haviam atravessado a geleira, ladeado precipícios e escalado alturas verticalmente; era evidente que se haviam desviado do caminho habitual dos turistas e penetravam numa parte pouco explorada daquela solidão nevada.
O estranho avançava com uma segurança que demonstrava perfeito conhecimento do caminho.
Após ter contornado uma elevação, atingiram repentinamente um local rochoso e deserto.
O caminho continuava de um lado por pequenos degraus regulares que pareciam ter sido escavados por mão humana e terminavam numa profunda caverna.
Concluindo a perigosa descida, os viajantes depararam com outra geleira e após um quarto de hora de andada, chegaram à entrada de larga gruta iluminada por luz azulada.
Foi com sentimento de curiosidade e angústia que Ralph ali penetrou com seu companheiro.
Sua surpresa aumentou quando percebeu uma parede de pedra lapidada que deslizou sem ruído sobre eixos invisíveis, assim que o companheiro apertou um botão luminoso, oculto numa das aberturas da parede.
Um corredor estreito, cavado num rochedo, se lhes abriu.
O desconhecido girou um comutador incrustado numa parede e imediatamente a luz eléctrica aclarou toda a passagem.
- Vocês têm electricidade aqui? - balbuciou Ralph, cujos olhos não podiam acreditar no que viam.
- Meu Deus! por que não utilizar as invenções da indústria moderna a fim de aumentar o conforto desta moradia do "Elixir da Longa Vida"?
Estamos na terra que pertence a Ele e Seus agentes, respondeu o misterioso guia de Ralph com um alegre sorriso.
Na extremidade do corredor, o doutor percebeu uma escada em espiral, dando numa plataforma onde se abriam muitas portas.
O desconhecido empurrou uma delas e ambos se acharam numa projecção de rocha em forma de terraço.
Uma vista magnífica se estendia ali e Ralph, não se contendo, soltou um grito de entusiasmo.
Daquela altitude formidável, se descortinava uma paisagem mágica.
Os rochedos, as planícies nevadas e as crateras profundas pareciam se perder na bruma purpúrea dos raios do sol poente.
Ao longe, os campos e prados verdejantes se estendiam gigantescos, verdes como esmeraldas.
E naquele instante pareceu a Ralph que jamais se sentira tão forte, a terra nunca lhe parecera tão bela e a vida tão desejável.
O desconhecido cruzou os braços sobre o peito e contemplou aquela vista esplêndida com um olhar triste e pensativo.
Um instante depois passou a mão sobre a fronte como se quisesse expulsar os pensamentos inoportunos, e se voltando a Ralph disse:
- Vamos, é tempo de recobrar forças... nós conversaremos em seguida sobre nossos negócios.
Retornaram.
Após ter mostrado ao doutor os segredos da saída, abriu a porta oposta e conduziu Ralph a uma sala circular de tamanho médio.
Um fogo resplandecente ardia na lareira e uma agradável aragem reinava no ambiente.
Ralph examinou curiosamente ao derredor.
As paredes estavam inteiramente forradas com tapeçarias orientais de coloração escura.
Espesso tapete recobria todo o assoalho.
Contra uma parede se postava um móvel de portas cinzeladas e noutra ainda havia grande mesa de trabalho cheia de livros e pergaminhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:24 pm

Ainda na sala se encontravam algumas cadeiras em estilo antigo, incrustadas de ouro e marfim, ao centro uma mesa posta para dois talheres.
Perto dela se achava um grande candelabro.
O desconhecido anfitrião colocou pequeno cofre, sobre a mesa e acendeu velas.
A seguir retirou de um móvel várias garrafas de vinho, um grande bolo, frutas, e convidou seu hóspede a se sentar à mesa.
A extraordinária caminhada havia despertado o apetite de Ralph.
Logo que os dois saciaram a fome, o anfitrião arrastou sua cadeira até a lareira e convidou o doutor a fazer o mesmo.
- É chegado o momento de estudar com seriedade, e em detalhes, o assunto que nos trouxe até aqui.
Há muitos séculos eu também me encontrava sentado nessa cadeira que ora você ocupa e ouvia com angústia e emoção a história da vida de meu predecessor.
Agora é a sua vez de ouvir a narrativa de minha vida passada.
Meu nome oficial é Naraiana Supramati, e sou um príncipe hindu.
Recebi de quem me legou o "Elixir da Longa Vida" o nome bem como todos os documentos legais e privilégios que os títulos conferem.
Meu verdadeiro nome é Arquezilai; nasci em Alexandria, no reinado de Ptolomeu Lages, que governou o Egipto após a morte de Alexandre, o Grande.
Meu pai, Clonius, servia nas forças comandadas por Lágide, e ligou seu destino ao de seu chefe.
"Ptolomeu, após se tornar soberano do Egipto, recompensou largamente meu pai e o elevou a um posto de muita altura na corte.
Chafurdei-me no luxo e me perdi numa vida indolente, voltada unicamente aos prazeres que meus pais me proporcionaram na qualidade de filho único.
"Perdi meu pai aos vinte e cinco anos.
Aproveitei-me disso para levar uma existência desregrada, dissipei toda minha herança em cinco anos.
Certa manhã acordei pobre e doente.
"Os amigos que sempre compareciam às minhas festas, as mulheres que disputavam entre si meus galanteios e os parasitas que se aproveitavam de minha generosidade, todos me abandonaram...
"Fiquei só e sem dinheiro e certamente teria morrido de fome, não fosse por um antigo soldado que serviu a meu pai; ele me acolheu e me cuidou.
Chamava-se Merion.
Assim que me encontrei em condições de caminhar, deixamos Alexandria e partimos para uma pequena propriedade herdada por Merion, meu benfeitor. .
"Uma nova decepção ali nos aguardava.
O pedaço de terra se situava nos limites do deserto e mal nos poderia alimentar.
A casa era um casebre semidestruído.
Apesar disso Merion não queria, de forma alguma, retomar à Alexandria; era um homem silencioso e misantropo.
"Nada protestei quando ele escolheu viver em uma gruta e o ajudei no trabalho que nos permitia viver muito modestamente.
"O ar puro e o trabalho me devolveram a saúde e essa vida nova me absorvia completamente.
"Passados quatro anos, Merion faleceu e fiquei só; a solidão me veio amarga e afinal se me tornou intolerável.
Eu me lembrava de minha vida antiga, cheia de luxo e conforto, a sociedade. elegante e culta - e me senti irresistivelmente atraído àquele mundo de onde havia sido expulso para sempre.
Uma angústia cruel se apoderou de mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:25 pm

Dia após dia a vida se tornava mais detestável e o desejo de retornar ao mundo se fazia mais intenso.
Entretanto, tal desejo era irrealizável, pois nada mais possuía que aquela gruta.
"Uma noite, deitado à entrada de minha miserável habitação e entregue a sombrios pensamentos, ouvi passos que se aproximavam; uma voz desconhecida me chamou pelo nome.
Levantei-me surpreso.
Diante de mim se encontrava um homem de grande estatura, vestindo um manto escuro e cujo rosto era expressivo e enérgico.
"- Queres morrer, Arquezilai, para te veres livre da vida miserável e infeliz que levas neste deserto? - disse ele em voz sonora, fitando-me com olhar ardente.
Embora tenhas merecido tua sorte e sejas. o único responsável por teu infortúnio, tenho piedade de ti:
Se desejas, levar-te-ei a um lugar aonde serás para sempre liberto da miséria e onde viverás o tempo que quiseres.
Mais tarde saberás quem sou.
Não te preocupes com o resto."
A seguir tirou uma bolsa de sua manta, entregou-a a mim e colocou um cesto no chão.
"- Encontrarás nesse embrulho as roupas e lâminas para cortar teus cabelos e tua barba.
Vai, lava-te na fonte e retorna depressa.
"Não o obriguei a repetir a ordem; apanhei o embrulho e me dirigi à fonte para me lavar.
A seguir, vesti uma roupa violeta e botas de couro.
A uma certa distância da gruta, dois magníficos cavalos nos aguardavam, contidos por um criado corcunda de pequena estatura, semelhante àquele que nos acompanhou até aqui.
"Chegamos a Alexandria.
Embora me achasse com uma bolsa cheia de dinheiro, meu protector não me permitiu ver os amigos.
Naquela mesma tarde embarcamos para a Europa.
"Meu acompanhante me conduziu exactamente a este palácio.
Da esplanada dos rochedos pude desfrutar da mesma vista que ora o encanta.
Depois entramos nesta mesma sala onde agora estamos.
Quase nenhuma alteração ocorreu aqui desde aquela época; são as mesmas tapeçarias que recobrem a parede e as mesmas cadeiras.
"Será desnecessário dizer das transformações e aperfeiçoamentos que realizei.
"Sentado como você hoje, escutava a narrativa do meu acompanhante, do mesmo modo que o faz você hoje.
Em seguida ele me mostrou o que você vai ver em seguida.
Naraiana se levantou e se aproximou de um armário que ele deslocou do lugar.
Atrás do armário havia uma alavanca de ferro trabalhada com pedras preciosas, desenhando uma figura cabalística.
Após explicar ao médico o funcionamento do mecanismo, Naraiana abriu um recinto cheio de baús e cofres de todos os tamanhos.
Podia se ver ao centro um objecto semelhante a uma almofada metálica, sobre a qual havia um cofre escuro; uma chama parecia se desprender de sua tampa.
Naraiana pegou o cofre, levou-o até a mesa e o abriu.
O interior era forrado por um tecido azul desconhecido para Ralph.
Sobre o fundo maravilhosamente macio, se achavam dois frascos fechados com tampos de ouro, uma pequena colher também de ouro, do tamanho de uma casca de noz, e uma pequena gaveta arredondada, revestida de marfim.
O jovem médico olhava com um sentimento de curiosidade mesclada de assombro supersticioso - o conteúdo do cofre e os frascos guardavam um dos maiores mistérios terrestres.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:25 pm

- Eis aqui o "Elixir da Longa Vida", disse Naraiana.
Quem o descobriu?
Quem arrebatou do caos cósmico essa formidável substância?
Eu ignoro.
Aquele que me iniciou declarou que o recebeu da mesma maneira que o transmito a você neste momento.
"Entretanto lhe digo o que se disse a seu respeito, sem comprovar a verdade dessas palavras, pois tudo aqui é mistério e as qualidades do elixir da longa vida não foram ainda totalmente estudadas e se teme manipular essa perigosa substância.
Diz-se que é um gás com a propriedade de manter o equilíbrio entre os diferentes elementos do corpo humano.
Uma outra tradição afirma que, sob a protecção de quatro guardiães, essa substância jorra de uma fonte de fogo, no centro da terra; um dia, um profano alcançou tais profundezas de nosso globo e se apossou de certa quantidade desse líquido misterioso.
"Como o conseguiu?
"Conheceu o processo químico para criar o fogo líquido que enche esses frascos e o pó desse cofre?
Tudo permanece um mistério e eu posso apenas mostrar o modo de usar essas substâncias.
Naraiana abriu a tampa do frasco contendo um pó branco, e mostrando a colher de ouro, disse:
- Se retirar do frasco uma colher desse fogo líquido e uma quantidade de pó do tamanho de uma cabeça de alfinete, e em seguida misturá-los, as duas substâncias se transformarão num líquido incolor e transparente como água.
E terá o suficiente para propiciar a imortalidade a muitas centenas de homens.
Será desnecessário que você mesmo o prepare, pois o elixir preparado por um de meus predecessores lhe bastará, assim como a muitos de seus sucessores.
Eu o entregarei no momento exacto.
Mas, me diga se quer receber o elixir da vida que tanto desejou possuir e aceitar todos os deveres concernentes a esse dom misterioso?
Ralph cobriu o rosto com as mãos.
- Tudo o que me contou permanece até agora tão estranho que meu cérebro .não consegue se orientar... balbuciou ele.
- Acalme-se! compreendo sua emoção, pois já a senti outrora.
Além disso, preciso acrescentar alguns detalhes necessários para que possa conhecer os bons e os maus aspectos dessa vida que conta os séculos como você calcula os anos.
Você não estará nunca mais doente e a fadiga, o frio e o calor não o afectarão mais.
Dormirá como de costume, mas poderá prescindir de qualquer repouso.
Ficará sujeito à sensação de fome e ainda sentirá um apetite agradável, mas conseguirá viver por muito tempo sem qualquer alimento.
"O elixir misterioso repleta não somente o corpo mas também a alma de forças desconhecidas.
Você se tornará clarividente, verá e compreenderá as coisas imperceptíveis aos mortais e poderá curar, com um gesto, as. mais diferentes doenças.
O veneno, os projécteis, o incêndio, as consequências de todos os excessos deixarão de ser perigosos e em breve seu corpo se tornará indestrutível!...
Naraiana pegou a caixa que havia levado consigo e dela tirou um maço de papéis.
- Eis os documentos que comprovam a legitimidade do nome e das riquezas do príncipe Naraiana Supramati.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:25 pm

Este é o meu testamento homologado por notário inglês de Calcutá e pelo qual eu lego a meu irmão caçula, cujo nome é o mesmo, Naraiana Supramati, todas as minhas propriedades, cuja relação está redigida, bem como a soma de cem milhões em depósitos nos diversos bancos do Antigo e do Novo Mundo.
Além disso, o possuidor do elixir da vida possui muito mais do que essa fracção de uma fortuna ilimitada.
Veja esse porta-jóias.
Naraiana se aproximou novamente do armário e abriu vários porta-jóias.
- Estão todos cheios de diamantes, pérolas, rubis, esmeraldas e diversas pedras preciosas; cada uma delas representa toda uma fortuna.
Apertou um botão e um alçapão se abriu instantaneamente, dando acesso a um grande poço.
- Aqui se encontram os lingotes de ouro puro. Ignoro totalmente a profundidade dessa mina aurífera e talvez ela desça até o pé da montanha.
De qualquer modo o tesouro permanece inesgotável e permite viver como um rei!...
E agora examinemos o reverso da medalha.
Após estar saciado de todas as alegrias que a "riqueza sem limites pode oferecer, e após haver satisfeito sua vaidade, contemplando as baixezas e as acções vingativas dos homens que se arrastam diante do ouro, havendo enfim desfrutado de todos os aspectos do amor e do vício, o homem se encontra acometido por uma doença terrível, inseparável de sua imortalidade - a saciedade.
O desejo irresistível de se evadir do mundo se apodera dele, de fugir de uma vez por todas dos prazeres, de todo o vazio, da lisonja e da avidez dos homens.
Percebeu tudo, provou tudo, a alma lasseia neste corpo infatigável; então ela começa a sentir o desejo da solidão, da calma; tem uma sede doentia de liberdade.
Para compreender isso é necessário ter vivido.
Quando essas horas de desespero se abatem sobre mim, refugio-me sempre em um de meus castelos solitários ou num retiro isolado do Himalaia.
"Lá, completamente só, com alguns servidores indispensáveis, procuro o esquecimento e a consolação no trabalho e no sono.
Mas, o dormir, esse consolador dos pobres e dos deserdados, não pode me apaziguar.
Vivo horas negras, batendo nas portas do inferno, invocando os espíritos que o habitam.
A sede da vida e das folganças os atraem e eles vêm me suplicar para lhes dar ao menos uma gota minúscula do elixir da vida a fim de poderem se revestir do envelope que é o corpo terrestre.
- E você lhes dá, a essas criaturas impuras? - balbuciou Ralph.
Como pôde pensar isso?
Sou inflexível, pois sempre receei enfrentar imprudentemente as leis terríveis e desconhecidas.
Um silêncio longo reinou.
Pálido, com olhar de febre, mudo, Ralph contemplou os tesouros acumulados e o líquido terrível.
- Tente se acalmar e pensar livremente.
Não exijo resposta imediata.
Você tem o direito de querer que o tempo exista para pensar nos "prós" e nos "contras" da proposição.
Ele se levantou, arrumou as caixas e os cofres, fechou o armário.
Depois se virou para Ralph e disse:
- Venha! Para distraí-lo, lhe mostrarei a sala dos ancestrais, o lugar onde repousam meus predecessores.
Levantou uma cortina e abriu uma porta.
De novo se encontravam no corredor estreito e cavado na rocha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 27, 2016 7:26 pm

Depois de terem dado vinte passos, viraram à direita e o doutor viu com espanto que a galeria continuava, talhada no gelo.
Nesse corredor se notava aqui e ali, tripés de gelo, onde era queimada uma substância que projectava uma luz deslumbrante, mas sem nenhum calor.
Um frio glacial assolava as paredes azuladas e duma transparência de cristal.
Ralph seguiu seu estranho guia, sentindo arrepios desagradáveis.
Alguns minutos de marcha e eles entraram em larga gruta, iluminada como a galeria, e duma altura fantástica.
A atenção de Ralph foi imediatamente atraída por uma fila de sarcófagos cinzelados na neve, cujo pequeno número era ocupado por corpos.
De coração aos pulos, Ralph examinou os restos destes homens que haviam vivido fora das leis conhecidas da natureza, e à raça dos quais ele poderia pertencer, se assim o desejasse.
Todos eles eram bonitos; na flor da idade, pareciam dormir em paz nos seus túmulos de gelo; todos estavam igualmente vestidos de longas e largas túnicas brancas; suas cabeças estavam coroadas de flores brancas, fosforescentes, frescas como se acabassem de ser colhidas.
Naraiana se aproximou de um destes imortais que repousava num sono pleno de paz e fixou sobre ele seu olhar pensativo e sombrio.
Depois, se virando ao doutor, mostrou um sarcófago vazio e pronunciou com um acento.
impossível de definir:
- Meu lugar será perto daquele que me iniciou; depois... mais longe, será o seu, o dia quando queira pôr fim à sua longa peregrinação na terra.
Ralph olhou para ele interrogativamente.
- Somando tudo, você não é imortal e seu corpo é destrutível - você pode morrer!
Naraiana sorriu.
- Sim, eu posso morrer, mas escolhendo o momento propício à dissociação de meu corpo.
Compreenda bem: se escolho o momento e tomo uma segunda vez o elixir da longa vida mesclado com o sangue estranho, já corrompido, daí eu queimo os liames que me retêm e serei livre.
- Eu também poderia, em. caso de necessidade, empregar esse meio para minha libertação?
- Certamente; se você fixar o instante propício, mas não antes de alguns séculos.
Finalmente, não creia seja fácil morrer depois de ter vivido assim tanto tempo.
Ah! o que adviria ao homem se ele não possuísse esta esperança de alforria?!
Conserve então cuidadosamente o líquido misterioso; se você o perder ou se o roubarem, você perde a possibilidade de morrer...
E agora vamos voltar.
Atravessando a galeria de gelo, Ralph sentiu de novo tremer seu corpo.
O frio lhe penetrou até os ossos e uma terrível fraqueza paralisou suas pernas.
Na sala redonda tomou um copo de vinho e suas forças pareceram voltar.
Depois pediu a Naraiana permissão para se deitar; estava sentindo tal lassidão que lhe seria impossível reflectir ou tomar qualquer decisão.
Naraiana conduziu assim seu hóspede a um pequeno quarto cavado na rocha e luxuosamente mobiliado.
Um fogo vivo queimava na lareira, expandindo uma quentura agradável, mas Ralph continuava a tremer todinho.
Sem mesmo se despir, se jogou num divã, se cobriu com um cobertor bem espesso de lã, dormindo logo num sono pesado e febril.
Quando acordou se sentiu mal.
Queimava de febre.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:11 pm

Um arrepio gelado o percorria, os braços e as pernas pesavam e lâminas de fogo verrumavam o peito.
Médico, compreendeu logo que havia tomado friagem na geleira e que sofria agora o início de uma congestão pulmonar.
Quis se levantar mas não teve forças e recaiu desesperado sobre o divã.
Morreria só nessa gruta, tão perto do elixir misterioso?
Logo Naraiana entrou.
Depois de ter examinado o doente, abanou a cabeça e disse com interesse:
- Acho que abusei de suas forças.
Você tomou friagem e este novo mal vai precipitar o inelutável Meu amigo, faça-me um favor, antes de morrer - dê-me um pouco de seu sangue, a fim de que ou possa empregá-lo em minha libertação...
Ralph estendeu a mão e sorriu fracamente.
- Pegue... murmurou ele.
Naraiana lhe levantou a manga da camisa e tirou um frasco de seu bolso; depois, com um bisturi, fez uma incisão na pele.
O sangue surgiu e Naraiana encheu o frasco; com a destreza de um cirurgião experimentado, fez um curativo na ferida.
- Agradeço. E agora, adeus! - disse Naraiana apertando a mão febril de Ralph; dirigiu-se à porta; Ralph o chamou com voz estrangulada:
- Me dê um pouco de seu elixir... caso a morte me amedronte muito, gaguejou cheio de desejo e vergonha.
Um sorriso estranho correu o rosto bonito e grave de Naraiana. .
- Bem... eu lhe trago, respondeu ele.
Um minuto depois ele voltou com um cofre que abriu.
Duas garrafinhas ali estavam - uma maior que a outra.
Naraiana tomou um copo de cristal e derramou um pouco do líquido que. enchia o frasco maior.
Depois, levando a taça à luz, mostrou ao doutor a substância igual ao fogo líquido que se movia no fundo.
- Veja! declarou ele, pousando a taça sobre a mesa e recobrindo-a com cuidado com uma fina laminazinha de vidro.
Se você a beber será o senhor daqui, de toda a minha herança.
Este frasco contém o elixir pronto para ser usado. Adeus! .
E, depois de ter posto no cofre o pequeno frasco, ele se inclinou e saiu.
O doutor ficou só.
Fixou o copo que continha a imortalidade, ficou imóvel, incapaz de se decidir a tomar as tais gotas necessárias.
Por enquanto seu estado piorava a cada instante.
Seu corpo devia estar com febre bem alta; dores agudas dilaceravam seu peito, a respiração se tornava difícil e parecia, por momentos, que iria sufocar.
Apesar da bebida vivificante que ele tinha à mão, a sede se fazia cada vez mais torturante.
Uma nuvem escura descia sobre seus olhos e o doutor perdia às vezes a consciência.
O terrível desconhecido que foiça a vida humana estava próximo...
Bruscamente uma lembrança amarga apertou o coração de Ralph - ele nem havia vivido! sua juventude laboriosa se havia escoado na pobreza e na luta pelo pão nosso de cada dia e quando enfim tinha conquistado modesta facilidade, a moléstia chegou...
Agora ele devia morrer perto de um copo cheio de vida, do elixir da vida, e desaparecer, vítima de sua própria indecisão.
Certamente o mistério desta obra era temível, inconcebível, mas não seria isto preferível à morte pesada que o penetrava lentamente?
De repente a respiração lhe faltou; uma massa pegajosa encheu seu peito, subiu à garganta e o estrangulou.
Círculos de fogo rodopiaram diante de seus olhos e Ralph perdeu a consciência do que o rodeava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:11 pm

- II -

Assim que Ralph voltou a si, a febre havia dado lugar a uma sensação de frio glacial e de fraqueza mortal; seus membros pareciam de chumbo e se recusavam a mover...
Ele viu com assombro, ou imaginou ver, um vapor negro emanar de suas mãos e de seu peito.
Angústia lancinante, terror demente se apoderaram dele ao pensar na sua extinção tão próxima.
Quis pegar o copo mas não conseguia levantar o braço.
Havia esperado demais...
Mas não!... ele não morreria quando a salvação estava lá tão perto; toda sua vontade despertou e num esforço sobre humano ele se ergueu; seus dedos enregelados tocaram o copo e atiraram a tampa de vidro ao chão.
Perfume fortíssimo, sufocante, lhe bateu no rosto e sua acção foi tão violenta que ele pareceu aspirar a vida ela mesma.
Sua razão se aclarou e a respiração se tornou fácil.
Sem hesitar por mais tempo, levou o copo aos lábios e de um só trago o esvaziou.
Primeiramente Ralph pensou ter sorvido fogo líquido, depois experimentou um estouro interior. Seu corpo se dissociava em milhões de átomos que turbilhonavam num mar de luz resplandecente.
O pensamento de que tinha sido enganado e envenenado atravessou sua cabeça; depois caiu fulminado no divã.
Ele não saberia dizer quanto tempo esteve assim no estado de inconsciência.
Mesmo quando reabriu os olhos, não pôde recordar com mais clareza os últimos acontecimentos e acreditou estar em Londres, em seu pequeno apartamento.
Em seu espanto mudo, seu olhar se extraviava pelo quarto onde estava, nos tecidos orientais tão espessos, nos móveis antigos e monstruosos objectos que enchiam a sala em seus lugares - tudo tão desconhecido a ele!
Mas, o copo vazio que se achava sobre a coberta obrigou Ralph a lembrar sua extraordinária aventura.
Angústia aguda e terror, diante desta acção inconsiderada, irrevogável o oprimiam.
Reviu sua chegada ao cume da geleira, evocou o discurso do desconhecido, sua própria agonia e o pavor da morte que o levou a tomar essa misteriosa essência cujo efeito interrompia a decomposição de seu corpo.
Sentia-se forte e muito bem de saúde, como nunca antes havia se sentido.
Um calor agradável corria em suas veias.
Seus pulmões respiravam facilmente; seu coração batia calmo e regular.
O irresistível desejo de rever Naraiana tomou conta dele.
Saltou do divã, se arrumou apressadamente e se aproximou dum espelho que não havia notado antes.
Acendeu velas de dois candelabros e se preparava para pentear seus cabelos espessos e escuros, quando olhou descuidadamente no espelho; tremeu de emoção, dando um passo para trás; aquele belo homem, cheio de força e energia, olhos brilhantes de luz intensa, lábios vermelhos - aquele homem jovem era ele?!...
Nenhum traço de palidez terrosa do rosto, dos círculos de olheiras, da fraqueza que tinha curvado, antes da idade, seu talhe alto e elegante.
Aquilo era um milagre! - ele era uma outra pessoa! - ele sentia que uma força inexaurível de vida havia reentrado em suas artérias.
Lentamente voltou sobre seus passos, sentou numa poltrona, o rosto escondido entre as mãos, e se abismou em meditação.
Angústia e terror de antes haviam desaparecido, deixando lugar a uma serenidade estranha, um profundo bem-estar, mesclado a um sentimento de ufania orgulhosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:11 pm

Um minuto se escoou...
Ralph se levantou, estirou gostosamente as pernas e os braços cheios de força, e saiu do quarto; queria ver Naraiana e interrogar a respeito de numerosos problemas que lhe pareciam ainda obscuros, mas o procurou em vão.
Sob o império de dolorosos pressentimentos, dirigiu-se quase correndo aos túmulos dos ancestrais.
Desta vez atravessou a galeria fria sem sentir frio algum; corrente quase perene parecia emanar do gelo, mas isso .quase lhe passou despercebido.
Coração opresso, entrou na sala onde se achavam os sarcófagos gelados destes homens misteriosos que haviam se saciado de vida.
Com simples olhar pôde se certificar da verdade que lhe havia feito sentir Naraiana; em um dos caixões antes vazio, agora Naraiana repousava.
Ralph correu a ele abafando um grito e, inclinado sobre a tumba, contemplou o belo rosto imóvel sobre o qual parecia se haver extinto a expressão clara do triunfo - ele havia penetrado o mistério, depois de ter voluntariamente cortado o laço que o atava à indesejável matéria.
Chegaria um dia em que Ralph seguiria o mesmo caminho e viria repousar perto daquele que o havia iniciado.
Uma fraqueza súbita o invadiu; inclinou-se sobre seu futuro caixão e fechou os olhos.
Um terror imenso se apoderou dele, diante da imensidade de tempo que se escoaria diante de seu espírito, como se fosse um caminho sem fim...
- Oh! Naraiana! Por que me tentou?
Por que me abandonou, sem me dizer o que era essa essência que tomei?
O que devo fazer para preencher este vórtice de tempo, sem perder a razão?! - murmurou ele com tristeza e desespero.
- Estude os mistérios que o cercam, procure a verdade sob todas as formas, e a eternidade mesmo não lhe parecerá tão longa, respondeu logo uma voz profunda e sem vibração.
Ralph estremeceu e se endireitou em seguida, com um gesto rápido, olhando com espanto e susto um velho muito alto que estava à cabeceira do sarcófago de Naraiana.
Os traços severos do rosto do desconhecido respiravam calma; grande barba branca caía sobre a túnica, duma brancura de neve e de sua testa jorravam chispas, formando nele estranha coroa de fogo.
Seus grandes olhos sombrios perscrutavam Morgan.
- Eu sou aquele que descobriu o mistério e retirou do caos cósmico esta essência primitiva, criadora, que você tomou e que tornou seu corpo indestrutível, porque ela formará constantemente em si os novos elementos vitais.
Eu protejo todos àqueles que se servem de minha descoberta.
O velho recuou um passo, se encostou na muralha de neve e se desvaneceu como se fosse um vapor azulado...
Ralph ficou sozinho e uma transformação singular se operava em seu estado de espírito.
A inquietude, a angústia nervosa e o terror do futuro se tinham milagrosamente dissipado e cediam diante da serenidade e energia resoluta.
Saiu da sala dos ancestrais e se dirigiu à peça onde se guardavam os tesouros.
Naraiana deveria ter estado ali ainda uma vez, pois sobre a mesa se encontravam a caixinha aberta que o defunto tinha levado com ele, um grande guardanapo de couro vermelho e um livro grosso de cantos metálicos.
Ralph examinou esses objectos com curiosidade e folheou as páginas de pergaminho amarelado, coberto de signos bizarros e desconhecidos para ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:11 pm

Depois abriu o guardanapo; ali estava toda uma série de documentos, e também um embrulho com fotografias representando as vistas interiores e exteriores de dois castelos antigos, um à borda do Reno, e o outro na Escócia.
Este último interessou particularmente ao novo proprietário.
Como um ninho de águia se levanta o gigante com os muros dentados, suas seteiras e suas torres sobre uma alta rocha pontiaguda.
Uma tristeza indefinível emanava desta paisagem deserta, desta série de gargantas e rochedos, ao pé dos quais se espumavam as vagas confundidas: o castelo tão alto, terminando tão baixo, nas águas.
Sem dúvida Naraiana tinha, amado estes lugares solitários, longe dos homens e dos rumores profanos.
Ele deveria ter muitas vezes contemplado de um desses terraços o abismo que se estendia diante dele, o oceano sem limites, desdobrando seus enormes horizontes, meditando sobre seu destino tão estranho.
O sentimento brusco e obscuro de que a solidão constitui uma necessidade inelutável para o homem imortal, se insinuou na alma de Ralph e assombrou, como uma nuvem cinzenta, a confiança feliz que enchia toda sua alma.
Ele rejeitou as fotografias e tomou uma carteira que tinha visto nas mãos de seu predecessor.
Ali encontrou um maço de garantias bancárias, de endereços, de certificados de todos os géneros.
O doutor não sentia nesse momento nenhum desejo de examinar estes papéis; ele arrumou a carteira em um de seus bolsos; depois tomou do nicho secreto onde estavam escondidos os tesouros, dois pequenos sacos cheios de pedras preciosas e os pôs, com o livro e o guardanapo, em uma caixinha.
Ele tinha pressa de sair, mas o medo de não mais encontrar o caminho difícil que tinha seguido seu guia tomou conta dele.
Logo um fenómeno estranho teve lugar - todo caminho se desenhou como uma tela imensa, como ele deveria descer.
Cada subida, a menor depressão do terreno, cada volta, tudo se marcou com uma precisão tal que a dúvida e o receio desapareceram.
Calmo e cheio de uma energia nova, Ralph fez os últimos preparativos para sua viagem.
Depois desejou pela última vez contemplar a vista esplêndida que o tinha tão fortemente emocionado à sua chegada.
Os primeiros raios do sol levante inundavam de ouro e púrpura as geleiras, os rochedos e vales longínquos.
A natureza magnífica parecia em fogo.
O ar era tão puro e vivificante que Ralph o solveu com prazer.
É que desde longo tempo ele se achava privado de respirar assim, facilmente, a plenos pulmões.
Uma intensa alegria de viver acordou em sua alma.
Oh! Como se rejubilava em ter bebido aquela essência que regenerava o ser!
Este sol levante parecia o símbolo de seu futuro radioso.
Voltaria aos homens com corpo e espírito renovados, rico, e forte e ainda com uma bela situação social.
Nesse momento a vista sem fim lhe pareceu o supra-sumo de todas as felicidades possíveis e, levantando os braços gritou:
- Oh! Naraiana!
Como pôde abandonar o tesouro, o mais precioso, e partir voluntariamente para o mundo desconhecido?
É possível se locupletar enfastiado da vida?! Oh! Nunca!...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:12 pm

- Ah! Ah! Ah!
Um riso perturbador, sinistro, se fez ouvir e se repetiu em ecos que foram se perdendo, no espaço;
Ralph estremeceu e calou a boca...
Que era isso?
O Espírito das Geleiras se ria dele?
Ou algum camponês perdido numa caverna profunda cantava para se distrair?
Isso foi o que ele pensou, mas seu impulso de felicidade se extinguiu bruscamente.
Reentrou no corredor tomado por ligeira irritação - queria pegar seus agasalhos, a caixinha e deixar o mais depressa possível estes lugares estranhos.
Viu, com grande assombro, à porta do quarto, um homem encostado à parede; à sua aproximação o estranho veio em sua direcção, parou e, cruzando os braços, a cabeça inclinada, ficou assim, numa atitude de grande deferência.
Ralph reconheceu o servidor que acompanhava Naraiana em Londres e que desapareceu no momento da subida à geleira.
O estranho doméstico tinha trocado sua libré simples mas elegante por uma vestimenta cinzento-marrom, calças estreitas, sapatos de pontas agudas, blusa amarrada na cintura por cinto de couro e capuz alto sobre a cabeça.
Esta bizarra criatura parecia, assim vestido, um gnomo vivo, saído de um conto de fadas...
- Eu o saúdo, meu novo senhor! - disse o gnomo se inclinando até o chão.
Seja também benévolo com respeito a Agni o quanto o foi Naraiana.
- Tentarei satisfazê-lo, Agni!
Mas me diga como chegou até aqui, respondeu Ralph com bondade, pousando sua mão na espádua de Agni.
O anão soltou um suspiro profundo.
- Nunca me pergunte quem eu sou ou de onde eu venho.
Sou o guardião destes lugares e eu não os deixo senão para seguir um novo senhor.
- Como?..
Então, você também!... - exclamou Ralph recuando sem querer.
Agni interrompeu com um gesto suplicante:
- Eu guardo aqui o mistério maldito e os corpos de meus senhores, balbuciou ele, com ar carrancudo.
Depois, passando a mão na testa, ele ajuntou:
- Eu o servirei fielmente, o atenderei sempre e quando vier, encontrará sempre todas as coisas prontas.
E ela? Vai deixá-la aqui, senhor?
Leve-a; ela sempre segue com os senhores.
Sua presença apenas complica a calma deste lugar, pois atrai os Espíritos do Gelo.
- Não sei de quem você está falando.
Existe uma mulher aqui?
perguntou Ralph surpreso.
- Ah! Naraiana não lhe falou dela...
Nesse caso, Senhor, me permita conduzi-lo até esta senhora.
Ela ignora ainda que Naraiana já faleceu.
Ralph enxugou sua testa húmida.
Que acontecia com ele?
Dormia ou tinha ficado louco?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:12 pm

De resto ele não poderia mais recusar e deveria conhecer todas as pesadas cargas que a herança lhe trouxera.
Tratava-se certamente duma mulher que Naraiana havia tirado de sua família e depois abandonado...
- Conduza-me até ela, ordenou ele com voz firme a seu servidor.
Agni abriu no corredor uma porta que Ralph ainda não tinha visto e subiu uma estreita escada em espiral.
Chegaram ao segundo piso desta estranha habitação e se encontravam diante de um reposteiro pesado que Agni levantou.
Estupefacto, parou na soleira de um salão todo forrado de estofados de seda pintalgada, bordada a ouro e mobiliada ao gosto oriental.
Em frente, à entrada, havia uma larga janela cavada na rocha e uma vista tão maravilhosa quanto aquela da esplanada que se abria à imensidade.
Mas nesse momento o jovem homem ficou indiferente às belezas da natureza.
Toda sua atenção se fixou sobre uma mulher quase deitada, sobre almofadas de púrpura de um divã, perto da janela.
Era uma mulher ou uma criança de catorze anos?
Ralph seria incapaz de dizer, porque ela parecia pequena, terna, aérea.
A tez pálida e mate de seu rosto era estranhamente transparente, a tal ponto que o sangue não parecia circular sob sua pele acetinada.
Mas os lábios vermelhos, toda sua figura era muito saudável.
Apesar do frio que reinava naquelas alturas; a desconhecida estava vestida com leve penhoar de musselina hindu, com bordados de ouro; preso na cintura por um .cordão.
As mangas largas deixavam ver os braços de beleza divinamente clássica.
Ralph contemplava, enlevado, esta mulher misteriosa, cujo olhar parecia perdido no espaço;. ela estava profundamente abismada em seus pensamentos, esquecendo o mundo exterior.
Ela era a Fada das Geleiras, enfeitiçada naqueles lugares?
No mundo fantástico onde o destino o tinha jogado, tudo começava a parecer possível ao doutor.
O passo ligeiro de Agni atraiu a atenção da desconhecida; ela se voltou num gesto rápido e olhou silenciosamente os que chegavam.
Ralph guardou silêncio, ela também.
Ele nunca tinha visto ainda um rosto de beleza tão surpreendente, angélico, apesar de sua juventude.
Grandes olhos negros, aveludados, com longos cílios, cuja flama muito viva tornava intolerável sustentar o olha dela o fixando.
Agni se aproximou e pronunciou palavras em uma língua que Ralph não conhecia.
A jovem mulher - ou donzela - estremeceu e se levantou rapidamente.
Seu olhar queimante, com expressão enigmática, examinou-o dos pés à cabeça, a silhueta fina e elegante de Ralph.
- Aproxime-se, Senhor, falou ela em inglês, estendendo a mão ao doutor.
Ralph avançou maquinalmente, tomou os dedos finos da jovenzinha e os levou aos lábios.
Ele não viu um sorriso maldoso que perpassou pelo rosto de Agni.
- Agora tenho certeza de que ela não ficará aqui, murmurou o gnomo, desaparecendo sem ruído por trás de uma porta.
Um silêncio pesado reinou por um instante.
O coração de Ralph batia violentamente e um sentimento jamais vivido invadiu-o pouco a pouco, o tomando todo.
- Posso perguntar, senhora, quem é e como se acha aqui? - interrogou enfim o doutor hesitante.
Uma expressão impenetrável percorreu os traços móveis da estranha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:12 pm

- Me chamo Nara e você vai ler que estou no testamento do homem do qual você é o legítimo herdeiro, respondeu ela com voz clara, sem tirar seu olhar abrasador de seu interlocutor.
O doutor segurou com gesto nervoso a pasta que ele tinha posto no bolso, tomou o testamento e o percorreu rapidamente.
Subitamente empalideceu e exclamou muito emocionado:
- A senhora é a viúva de Naraiana?
Ele escreveu que devo desposá-la... . .
- E você assim não o deseja? - perguntou Nara em tom trocista.
- Sim, eu quero! - exclamou Morgan com força.
Eu não tinha ainda em minha vida encontrado mulher tão fascinante quanto a senhora!
Se consentir em ser minha, a herança de Naraiana me será duplamente preciosa e sagrada.
Assim que sua dor tão legítima diminua, desde que o tempo de seu luto toque ao fim, eu serei feliz em unir minha vida à sua.
Nara sorriu.
- Neste caso, deixemos este lugar.
Se não se opõe, vamos para Veneza.
Temos ali um palácio maravilhoso.
Nós dois precisamos repousar das emoções sofridas; tomaremos outras resoluções e escolheremos a data de nosso casamento.
Nada de pressa. Deus seja louvado!
Temos tempo!
Seu sorriso, sua resposta, produziram em Ralph uma impressão desagradável.
Questões, pressentimentos, dúvidas, assaltaram em multidão o espírito do doutor.
Esta mulher misteriosa era imortal também.
Mas por mais que ela parecesse jovem, com sua pele branca e acetinada, sua graça virginal, o seu olhar traía o segredo de sua vida; faltava-lhe certo frescor, certo descuido alegre, próprio da juventude.
O olhar de Nara dissimulava os mistérios que Ralph já havia lido nos olhos de Naraiana.
Ela tinha sido sua esposa.
Então por que Naraiana a tinha abandonado?
Certamente ele devia amá-la, pois havia lhe dado a essência preciosa para tê-la, perto dele..
E, no entanto, no olhar frio e calmo de Nara, não se viam nem tristeza, nem saudade.do ser que, durante séculos, fora o companheiro de uma longa jornada terrestre, o marido cuja morte ela tinha acabado de ter conhecimento.
Malgrado o sentimento maravilhoso provocado nele pela jovem, um arrepio glacial percorreu as veias de Morgan e um profundo suspiro veio de seu peito.
Nara o observava com seu olhar ardente. Seus olhos aveludados se ensombraram e depois lançaram chispas.
Parecia que ela lia seus pensamentos e lhe respondia.
Bruscamente ela se atirou ao jovem homem e sua mãozinha roçou a testa de Ralph.
- É inútil reflectir e se torturar por vãs questões, meu pobre amigo, disse ela num tom onde a amargura se confundia com a ironia; o Tempo, nosso grande mestre e senhor, o ensinará a julgar diferentemente cada coisa.
Você se acha agora sob o império do sentimento, de lembranças e de convicções próprias à vida ordinária, breve e ilusória - como a existência de um simples mortal.
Talvez um dia lhe falarei de Naraiana, mas não hoje...
A hora de nossa partida chegou.
Vá e me espere na sala dos tesouros.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:12 pm

Mudo de roupa e me junto a você em seguida.
Ralph se inclinou silenciosamente e foi ao quarto que já conhecia bem.
Sentou-se perto da mesa onde ele tinha pousado seu manto e a caixinha.
Com o rosto coberto por suas mãos, ele se abismou em meditação, se esforçando para pôr em ordem os prodigiosos acontecimentos dos últimos dias, nos quais ele se sentia preso como numa teia de aranha.
Um barulhinho o tirou de suas reflexões.
Ele se voltou e viu Nara que entrava, abotoando as luvas.
Ela estava vestida numa roupa simples de pano preto, jaqueta e chapéu de feltro.
Trazia pequenina mala de viagem em couro e uma bengala de alpinista.
Nara poderia ser confundida com uma turista aristocrática viajando pelas montanhas.
Sua roupa fazia sobressair ainda mais vantajosamente a beleza de seu rosto, de uma brancura deslumbrante e de seus cabelos cinza com reflexos dourados.
- Ralph Morgan - você não esqueceu o caminho?
Aliás, eu o conheço muito bem e posso mesmo lhe indicar um outro bem mais curto, fez a jovem mulher, e um sorriso escorregou sobre seus traços, quando seus olhos reencontraram os olhos entusiasmados do doutor.
- Eu me lembro do caminho.
Mas como sabe meu nome?
Eu não creio havê-lo pronunciado nem uma vez diante de si, acrescentou Ralph espantado.
Nara riu com malícia.
- Então não devo saber o nome de quem vou desposar?
De resto desde este dia você é o príncipe Naraiana Supramati.
Não conserve seu nome, Morgan, caso o incógnito lhe seja necessário.
E agora vamos embora!
Sem nada dizer, Ralph a seguiu.
Ele começava a experimentar uma inquietude supersticiosa diante desta criatura adorável, que parecia compreender seus pensamentos, lendo seus desejos.
A descida foi bem mais rápida que a subida e à tarde Ralph e sua companheira chegaram ao hotel, onde ele tinha passado uma noite com Naraiana.
O médico veio a saber que Nara ali já ocupava um quarto onde a sua bagagem se encontrava.
No dia seguinte pela manhã Nara apareceu vestida de luto e tomou com Ralph um trem para Veneza.
Esta viagem passou a Ralph como um sonho.
Ele não via nem ouvia senão sua companheira feiticeira; toda sua sensibilidade havia atingido o paroxismo da superexcitação, e, sentado no compartimento diante da jovem mulher, ele se embriagava de sua beleza, esquecendo todas as demais coisas.
Ralph voltou de seu encantamento no momento em que Nara, tocando sua mão, lhe disse sorridente:
- Olhe! Estamos em Veneza.
Ele sempre teve interesse por essa cidade e desejou conhecê-la, mas certamente ele nunca pensou, mesmo em sonho, em visitá-la na qualidade de um príncipe hindu e imortal.
Sua paixão por Veneza acordou e ele a olhou com curiosidade da janela do vagão.
O trem já atravessara a ponte gigante que liga Veneza à terra firme e parava na gare.
Assim que foram abertas as portas dos vagões, Nara desceu lentamente para o cais.
Percebendo dois lacaios de libré que procuravam seus patrões na multidão, ela se voltou para Morgan e disse:
- Eis nossos servidores!
No mesmo momento um dos lacaios se aproximou rapidamente e lhe disse com profunda reverência:
- A gôndola espera por Vossas Altezas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:13 pm

- Bem, Baptista! Traga nossas bagagens; venha, meu irmão!
Ela tomou o braço dele, Morgan, e se dirigiu ao cais.
Sentaram-se numa grande gôndola manobrada por dois remadores.
Atravessaram silenciosamente o grande canal; depois, após terem seguido por uma laguna lateral, pararam diante das portas de antigo e grande palácio.
A noite chegava.
Na sombra crepuscular, as velhas casas que bordejavam o canal tomavam um aspecto sombrio e fantástico.
Ralph saltou primeiro sobre os degraus da escada e ajudou a jovem mulher a sair da gôndola.
Entraram em um grande vestíbulo iluminado "a giorno" por lâmpadas eléctricas.
Muitos domésticos se precipitaram a encontrá-los para os ajudar a tirar os mantos.
Desde que Nara e Ralph entraram no palácio, um velho libré, todo de preto, apareceu no alto da escada de mármore, ornada de flores e estátuas; ele desceu rapidamente e saudou respeitosamente Nara, que lhe estendeu a mão para que ele a beijasse e disse numa voz entrecortada de soluços:
- Trago hoje uma dolorosa notícia, meu bom Giuseppe; meu bem-amado marido está morto!
"Nara é decididamente uma comediante completa!" - pensou Morgan, vendo-a levar o lenço aos olhos, enxugando lágrimas imaginárias.
O velho empalideceu e grossas lágrimas correram em seu rosto sulcado:
- Nosso bom senhor está morto? - balbuciou ele.
Que desgraça imprevista!
Ele parecia tão bem de saúde.
- Pois é! A vida humana é tão frágil...
Contarei mais tarde os detalhes de sua morte.
Hoje estou tão cansada e sentida que tenho pressa em ficar sozinha...
Mas quero lhe apresentar meu cunhado, o novo senhor - príncipe Naraiana Supramati, irmão caçula de meu falecido esposo e seu único herdeiro lega!...
Eis seu fiel intendente, Giuseppe Rosatti.
Eu o recomendo à sua generosidade, Supramati...
Vou me retirar a meus aposentos; agradeço-lhes todo o apoio que me prestam neste momento de grande dor.
Ralph beijou a mão de Nara e lhe desejou boa noite.
Tendo subido alguns degraus da escada de mármore, Nara se voltou de novo!
- Giuseppe, acompanhe o príncipe até as câmaras de seu finado irmão.
Espero que tudo ali esteja em ordem, sim?
- Oh, Alteza! A ordem reina por tudo.
Não poderíamos supor que nosso patrão não mais voltasse...
- Muito bem.
Verifique se o príncipe esteja a contento com o serviço, e que, amanhã, toda a casa fique em luto.
Ela teve um gesto gracioso, subiu a escada correndo e desapareceu por uma porta lateral.
- Queira me seguir, Alteza! - falou o velho interrompendo os pensamentos de Morgan, que ainda não tinha chegado a se orientar nessa nova situação.
Gracioso, Beppo; vejam imediatamente se tudo está em ordem para receber Sua Alteza.
Os valetes se evaporaram como sombras.
Ralph seguiu silenciosamente o intendente que subiu a escada e atravessou uma longa galeria aclarada por altas janelas góticas apenas por um lado.
- Eis os apartamentos de Sua Alteza, disse Giuseppe, indicando uma porta ao fundo da galeria.
Atravessaram uma fileira de peças mobiliadas com luxo realengo e tão ricamente ornadas de obras de arte, muito preciosas, que cada quarto constituía um pequeno museu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:13 pm

- O gabinete de trabalho do finado príncipe... esta porta à direita abre para a biblioteca; esta à esquerda dá para o quarto de dormir.
Estas palavras foram ditas pelo intendente, enquanto o valete Gracioso pegava com respeito o manto e o chapéu de Ralph.
Este olhou curioso ao derredor de si; estava numa grande câmara construída em carvalho escuro e mobiliada com severa simplicidade; as guarnições dos móveis e as cortinas das portas eram em couro marrom.
Sobre uma grande mesa de carvalho cinzelado, viu um tinteiro de ouro e lápis-lazúli e uma lâmpada num abajur azul que aclarava fracamente a peça.
Atrás da porta aberta da biblioteca se viam prateleiras esculpidas que cobriam as paredes até o tecto - mas isso não atraiu a atenção de Ralph.
O jovem homem se dirigiu directamente ao quarto de dormir.
Era uma peça de dimensões menores, forrada de seda vermelha escura, com móveis baixos e leves e uma cama bem grande com dossel.
- Vossa Alteza quer lhe prepare um banho para seu relaxamento após a viagem e depois jantará? - perguntou Giuseppe.
- Seria agradável, senão demorar muito.
- Está tudo pronto!
E eu darei as ordens para que o repasto seja servido assim que Vossa Alteza saia do banho.
Os valetes conduziram, Ralph a um gabinete provido de todos atributos necessários à toalete dum grande senhor como havia sido Naraiana; depois, na sala de banho que, com suas paredes de mármore, o chão de ladrilhos formando desenhos, a grande banheira em pórfiro e suas estátuas maravilhosas ornamentando nichos, cegou positivamente o modesto médico que acreditava estar vivendo um magnífico sonho encantado.
Após o banho os valetes vestiram, Ralph de um linho extremamente fino e Beppo lhe estendeu um belo robe em pêlo felpudo no interior e exterior, de selim branco.
- O príncipe finado jamais usou este robe; o encomendou pouco antes de sair, observaram os valetes que explicaram isso, notando a repulsa de Ralph em pôr uma roupa já usada por seu finado irmão.
- Pois não! disse Ralph.
E a peça de roupa lhe caiu no corpo como sendo feita sob medida.
Em seguida passou para a peça vizinha, onde um copioso repasto se achava à sua espera.
Morgan tinha fome; então fez honra àquele jantar admiravelmente composto e que mostrava o gosto delicado de Naraiana.
- Tragam-me as revistas publicadas nos últimos dias... depois estão dispensados, Beppo e Gracioso.
Não terei mais necessidade de vocês hoje, disse Morgan; empurrando sua cadeira da mesa.
Os dois valetes tiraram a mesa como se fossem sombras; trouxeram as revistas e saíram.
Assim que fecharam a porta e que o pesado reposteiro caiu, Ralph ficou só.
Um suspiro de alívio saiu de seu peito, pois a presença dos servidores lhe era penosa.
- Deus seja louvado!
Estou enfim em minha casa! murmurou ele.
Estes valetes não me impedirão mais de visitar meu novo domínio.
Espero me acostumar bem depressa a dar ordens e me tornarei o verdadeiro nababo que tenho que representar.
Ralph percorreu todas as peças, examinando cada objecto que ali se encontrava - tudo lhe parecia maravilhoso.
Depois voltou ao gabinete de trabalho.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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