Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:13 pm

Havia posto sobre a poltrona, perto da escrivaninha a caixinha azul da qual não tinha se separado durante toda a viagem.
Aproximou uma cadeira, sentou, abriu o cofre e examinou mais atentamente, agora, o conteúdo total.
Antes de acabar esse exame, quis arrumar todos os, documentos na escrivaninha, mas se apercebeu que esta estava fechada.
Viu um grande armário esculpido, quis abri-lo, mas não conseguiu.
Desapontado voltou para 'a escrivaninha, quando de repente se lembrou de uma chavinha de ouro que se encontrava em uma das divisões da pasta vermelha.
Foi pegá-la.
Não entrava na fechadura da escrivaninha, mas com grande alegria dele, abriu o armário de estilo bem antigo, cuja madeira havia sido finamente trabalhada e que continha uma quantidade inumerável de gavetas e de compartimentos de todos tamanhos.
Na prateleira bem do centro Ralph pegou dois cofrinhos e um molho de chaves.
Uma das caixinhas era cheia de ouro e de cédulas bancárias, outra de objectos preciosos, alfinetes de gravata, abotoadeiras; berloques e jóias de todos géneros.
Morgan em seguida examinou os demais compartimentos e caixas.
Ali encontrou relógios de todas as épocas e de todos estilos; lá uma colecção inteira de tabaqueiras nas quais, estavam engastados diamantes maravilhosos.
Num compartimento construído em forma de pequeno móvel separado se viam todas espécies de frascos, de ampolas e, no fundo da abertura, uma só palavra estava gravada: "medicina".
Enfim uma metade toda, do armário era preenchida de enfeites femininos: jóias, fitas, flores secas e séries de miniaturas, de retratos de mulheres maravilhosas.
Ali estava a presença de tudo o que seguiu a vida de Naraiana, longa e cheia de aventuras; Ralph o percebeu.
Fechou o armário, depois veio até a escrivaninha; abriu-a graças às chaves que acabava de encontrar.
Na gaveta do meio o doutor encontrou um caderno grosso encadernado, colocado assim ali com a intenção de evidência.
Sobre uma folha de papel em branco, bem visível, estavam escritas em caracteres firmes e grandes - "Que meu herdeiro leia".
Morgan estremeceu... esse homem tinha pensado nele, sem o conhecer!
Profundamente emocionado, Ralph folhou o caderno; havia muitos capítulos cujos títulos, escritos com tinta vermelha, eram:
"O Círculo Mágico", "Fórmula de Evocação", "O Círculo dos Espíritos", "Os Habitantes do Reino do Silêncio", e outros.
- Morgan parou.
Pareceu-lhe que um vento frio agitou seus cabelos e que um hálito glacial roçou suas faces; fechou o caderno com ruído e o jogou numa gaveta.
- Ele o leria mais tarde, à luz do dia, e examinaria atentamente as cartas e os documentos escondidos na escrivaninha e nos diferentes móveis, logicamente.
Impossível se orientar nesta herança imensa à qual ele gozava tão brusca e inopinadamente.
Ele se deixou recostar na poltrona e se abandonou a meditações.
Ainda não podia se habituar à sua, nova existência.
Sua vida modesta de trabalho intenso, sua doença, já eram coisas do passado.
Sem nenhum esforço, sem mérito de sua parte, com a simples chegada de um estrangeiro - mágico de lenda -de médico humilde de um asilo de loucos ele se tornou um príncipe milionário, pessoa cheia ele saúde e de força, e, coisa mais incrível entre todas, um ser quase imortal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:13 pm

O fim de toda a vida - a morte - esta companheira fiel e terrível, esta libertadora, também se achava descartada de seu caminho, senão para sempre (Naraiana não havia morrido?) ao menos por duração indeterminada.
Assim a morte não o espreitava mais, a velhice não o tornaria fraco, debilitado pela idade, as doenças não atrapalhariam as alegrias de sua vida...
Ele se levantou rápido e foi olhar num espelho e se pôs a estudar como se ele fosse outra pessoa.
A imagem reflectida o contentava muito; custava-lhe crer que Morgan fosse assim tão bem feito! Sorriu à sua imagem com satisfação ingénua de uma criança e acariciou seus cabelos espessos e ondulados.
Depois se sentou de novo na poltrona.
Agora seu pensamento se voltou àquela mulher misteriosas - herança sua! - como todas as outras coisas.
Seu olhar fixou o notável retrato de Nara que se achava posto sobre a escrivaninha; ela tinha sido pintada vestida com roupa de cerimónia; sua beleza muito peculiar, o olhar um pouco demoníaco de seus olhos negros tinham sido pintados com precisão de vida extraordinária.
E essa criatura estranha e fascinante lhe pertencia... desde que se acabasse o ano de seu luto, Nara se tornaria a esposa legítima diante dos homens.
O coração de Ralph bateu mais violentamente a este pensamento e uma chama líquida pareceu correr em suas veias o abrasando.
O relógio bateu quatro horas.
O ruído do pêndulo tirou Ralph de seus pensamentos.
Fatigado de espírito; não do corpo, ele se dirigiu ao quarto de dormir e logo dormiu um sono profundo.
Já era tarde quando acordou.
Com um sentimento; de prazer ele se estirou na cama macia, examinando todos os móveis que o rodeavam, ricos e confortáveis.
Súbito, lembrou os últimos meses de sua vida em Londres, suas noites de insónia, sua tosse lancinante, as dores agudas no coração, a inquietude com a qual saltava do leito, aflito por ter perdido hora de serviço na clínica; pensou na fadiga que o perseguia em sua volta para casa, quando vinha a pé ou de bonde8.
Tinha certeza de que já se havia acabado esse passado para sempre e um suspiro de alívio saiu de seu peito.
Arrumando-se nas almofadas, apertou o botão chamando os domésticos; dois servos atenderam prontamente e o ajudaram a se vestir.
Enquanto se vestia, Morgan se indagava se Naraiana havia conservado suas vestes romanas, as dos séculos da cavalaria, de todos os tempos em que havia vivido.
Nesse caso, essa colecção deveria ser muito interessante.
Giuseppe chegou quando ele acabava de se vestir.
Perguntou-lhe como Sua Alteza havia passado a noite.
O intendente lhe fez ver que a senhora o convidava a jantar nos apartamentos dela, pois desejava .apresentar Sua Alteza a seus amigos; estes viriam para saber como havia falecido seu esposo e viriam exprimir suas condolências.
Ralph se dirigiu logo aos apartamentos de sua nova e misteriosa cunhada e a encontrou cercada por duas senhoras e três senhores, todos parecendo muito tristes.
Nara também tinha uma expressão cansada e dolorida.
Ela estendeu a mão a Morgan e depois o apresentou às pessoas presentes, que pertenciam à nobreza veneziana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:13 pm

- Vou lhes apresentar, caros amigos, :meu cunhado, irmão caçula de meu pobre marido, ele também traz o nome de Naraiana Supramati; mas para distingui-lo de seu falecido irmão nós o chamamos apenas por seu último nome.
O acolhimento reservado ao herdeiro do Príncipe Naraiana foi de suprema amabilidade.
Todos lhe asseguraram amizade, a mais alta estima e formularam o ardente desejo de lhe manifestar seus bons sentimentos.
Estas afirmações polidas respiravam uma complacência, uma obsequiosidade tão interesseira que Morgan experimentou desgosto, respondendo com fria moderação a todos os avanços de seus novos amigos.
Em seguida passaram todos para a sala de jantar; peça sumptuosamente mobiliada em estilo veneziano, e todos fizeram honra ao magnífico jantar.
Morgan não precisou de se ocupar em agradar seus hóspedes; eles já haviam se gastado o suficiente com o doutor.
Nara estava vizinha a Ralph, e este admirava interiormente a arte com a qual Nara improvisava sua biografia, e descrevia seus casos de infância com seu pretenso irmão.
A jovem mulher contou que Supramati, nascido de um segundo casamento, era bem mais moço que Naraiana; uma afeição muito terna tinha sempre unido os dois irmãos, se bem que tivessem ficado um longe do outro durante os anos em que o jovem príncipe viajava por prazer, por todos os países do mundo.
O espanto de Ralph chegou ao auge, quando Nara pediu a todos os hóspedes que se convencessem, eles mesmos, da extraordinária parecença de Supramati com seu irmão.
Quando todos aquiesceram e as senhoras reparam em seus olhos e em seu sorriso, uma estupefaciente confirmação deste ar de família, Morgan deu muitas gargalhadas.
Mas no fundo isto foi ainda um desgosto com que ele se magoou.
Era lógico que sua personalidade se desvaneceu na auréola do representante duma riqueza enorme, e a baixeza humana, surda e cega, rastejava diante destas montanhas de ouro...
Ralph lançou um olhar involuntário a Nara, se esforçando em penetrar seus pensamentos profundos.
Sentiu-se feliz quando se assegurou de que, apesar de seus choros e suspiros, os olhos brilhantes da jovem o fixavam com uma expressão que dizia quanto Morgan a agradava.
Quando todos voltaram do salão e que os hóspedes se despediram dos donos da casa, Nara lhe declarou que ela partiria na manhã seguinte de manhã, por muitas semanas, afim de pôr em ordem seus afazeres.
Os dois jovens enfim ficaram sozinhos.
Morgan seguiu sua cunhada ao grande balcão aberto que dava vista sobre o canal.
Ela se estendeu preguiçosamente sobre um divã bem baixo e olhou Ralph que, silencioso, estava apoiado sobre os cotovelos na balaustrada.
- Meu querido Supramati! Você está entrando mal em seu papel e tem um ar um pouco selvagem neste meio novo a você...
Por outro lado, espero que a gente tenha explicado seu silêncio pela dor experimentada depois da perda de um parente assim próximo, ajuntou Nara, com uma ironia apenas perceptível.
- É verdade. Vivo como num sonho, respondeu Morgan, passando a mão na testa.
Além disso, prosseguiu sorrindo, se a morte de meu irmão me torna silencioso, eu noto que sua dor de viúva não é mais profunda.
Vamos dar uma trégua às brincadeiras!
Você não chorou Naraiana e pareceu não achar falta dele nem um pouco.
Estiveram casados muito tempo?
Nara teve um riso calmo e penetrante, que ressoou desagradavelmente aos ouvidos de Ralph.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:14 pm

- Tempo suficiente para nos sentirmos pesando um ao outro.
Na vida ordinária, um marido leviano pode repudiar sua mulher, mas a morte pode resolver o problema para os dois.
Imagine a posição de uma mulher unida a um marido eternamente jovem, cheio de força, vaidoso, infinitamente exigente, egoísta e que engana!
Tal aliança pode apagar até um vulcão de paixão e esgotar a paciência de um camelo.
E se um esposo comum mente a sua mulher mil vezes em vinte e cinco ou trinta anos de sua existência comum, quero que você mesmo conte o número de infelicidades conjugais que pode cometer um "imortal" ...
Enquanto ela assim se exprimia, uma expressão de tristeza, de desprezo e de indizível fadiga ensombraram seu rosto.
O coração de Morgan estremeceu de piedade profunda e sincera pela companheira de seu estranho destino, esta herança misteriosa de seu benfeitor. Inclinando-se a Nara, Ralph segurou sua mão e murmurou apaixonadamente:
- Esqueça o passado, Nara!
Nesta longa vida que nos espera eu a venerarei, você será a única que amarei e farei de tudo para fazê-la feliz.
O rosto muito expressivo da jovem mulher traiu sua angústia profunda.
- Não jure! disse ela abanando a cabeça.
Você não se ateria à promessa, a uma sequer.
Não esqueça que a fonte de suas forças vitais é diferente em você daquela de todos os mortais.
E daí você se torna escravo das fraquezas humanas que você tem sido até aqui; sim, para todos os prazeres você está armado de uma inquebrantável saúde.
Nenhum excesso, nenhuma paixão o pode enfraquecer, e além disso, uma inesgotável riqueza lhe permite satisfazer qualquer capricho.
Você ainda não experimentou o perigo de tais condições da vida.
- Compreendo que duvide ele mim, pois me conhece pouco.
Seria então esta desconfiança a meu respeito que a obriga a deixar Veneza?
- Não. As conveniências mundanas exigem que nos separemos.
Quero viver na solidão os meses consagrados a meu luto e aproveitar para pôr em ordem meus negócios.
Você terá tempo para se acostumar a sua nova existência.
A herança de Naraia-na lhe reserva ainda surpresas de muitas formas; terá de trabalhar também na ciência que ensina a utilização das forças secretas de que você dispõe.
Não se entristeça, meu caro noivo! ajuntou ela alegremente.
Você receberá notícias minhas.
Quando o ano de meu luto tenha terminado, e que eu volte aqui, festejaremos o instante breve de esquecimento e de embriaguez, nos enganando sobre a continuidade de nossa felicidade e a considerando tão eterna como nossa vida.
Mas não importa.
No deserto da existência é necessário valorizar a menor alegria, mesmo que ela dure apenas um minuto.
E, sem dar a Morgan tempo de responder, Nara fez um gesto de adeus e saiu do balcão.
(l) Carro americano, no original "tramway" N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 28, 2016 7:14 pm

- III -

A manhã e a noite do dia seguinte se escoaram sem trazer acontecimento extraordinário.
As horas passaram em conselhos com o alfaiate, no exame mais detalhado das riquezas do palácio e em conversações aborrecidas com Giuseppe Rosatti, que mostrou a Ralph os registos, as contas e abordou com ele diversos problemas concernentes à administração da propriedade.
No dia seguinte Ralph acompanhou Nara à estação, mas ela não lhe disse para onde ia.
Triste e quase mesmo desesperado, ele voltou ao palácio que lhe pareceu vazio sem ela.
Depois do jantar Morgan subiu a seus cómodos, arrumou o que era necessário e examinou diferentes objectos contidos nas gavetas da escrivaninha.
Encontrou um caderno de capa dura cujas páginas foram escritas por Naraiana.
Morgan percorreu algumas folhas do diário do finado: brinquedos de sua imaginação, fatos reais, notas diversas, impressões vividas.
As últimas páginas do caderno estavam em branco.
Ralph procurou o que o finado teria escrito em último lugar:
"Existe doença mais terrível que a saciedade?
A saciedade representa a angústia sombria que nos empurra de lugar a lugar, torna todas as coisas intoleráveis e esgota a paciência.
Já o presente é terrível, mas eu posso me isolar no passado e me levar mentalmente até o futuro.
Mesmo no presente eu me choco em toda parte com os homens, esses vermes da terra; suas mordidas envenenadas atormentam a alma, já que não podem destruir o corpo.
"Multidão repugnante, baixa, venal, ingrata, aduladora; ela se inclina diante da riqueza e esmaga o pobre, incapaz de lhe pagar, pois sua amizade é enganadora e traidora.
"Oh! quanto estou cansado e enojado!
Quanto gostarei de me livrar destas cadeias que me deprimem no corpo. Morte libertadora!
Amiga incompreendida!
Tenho sede de repouso em seu abraço; quero ser livre... "
Muito emocionado Morgan leu estas linhas escritas certamente em épocas diferentes, sob a impressão do momento.
Abismado em seus pensamentos, não notou atrás de si a porta se abrir e um homem muito alto entrar, vestindo uma capa preta, com uma máscara em seu rosto.
Quando o desconhecido pousou a mão na espádua de Morgan, este deu um pulo e olhou com espanto seu estranho visitante.
- Não se arreceie, herdeiro de Naraiana Supramati, pronunciou o desconhecido com voz profunda.
Você deve me seguir; sua ausência apenas durará alguns dias, mas ela é necessária.
- Estou pronto para partir com você!
Eu sei que me encontro em um círculo mágico que me cerca e que me impõe obrigações às quais não posso me subtrair, respondeu Ralph com calma.
Além disso, não tenho medo da morte e vou segui-lo sem apreensão, ajuntou ele .com ligeiro sorriso.
- Bem! Dê as ordens necessárias e me encontre em uma gôndola perto da grande escada.
Não se esqueça de pôr no dedo o anel que encontrou na pasta.
Assim que o estranho partiu, Ralph chamou os valetes; logo atendido, ordenou arrumar em uma valise alguns objectos indispensáveis; depois chamou Giuseppe e lhe disse que partiria por duas semanas.
Enfim colocou no dedo o anel antigo, pôs em seu bolso uma carteira cheia de dinheiro e partiu.
A noite estava bem escura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:28 pm

Apesar da luz que aclarava a escadaria, a gôndola, balanceando sobre as ondas, achava-se imersa em escuridão.
O remador se achava atrás; o estrangeiro estava sentado na cabina com as cortinas meio fechadas.
Morgan pousou a valise sobre um banco e tomou lugar perto do desconhecido.
A gôndola deslizou imediatamente, singrando rápida as águas sombrias do canal.
O homem mascarado permanecia calado.
Morgan supôs que devia guardar, ele também, o silêncio.
Encostou-se nas almofadas e se entregou à meditação.
Pouco a pouco uma pesada sonolência o invadiu e ele fechou os olhos.
Ele não poderia dizer o tempo que decorreu assim nessa inconsciência.
A voz do homem da máscara o acordou.
Ralph se aprumou com um gesto brusco e se sentiu desagradavelmente surpreso; apesar da escuridão profunda da noite sem lua, ele viu que se achavam em pleno mar e que a gôndola havia abordado um navio de mastros altos e de velas desdobradas, se desenhando confusamente nas sombras.
- Suba! disse o desconhecido.
Morgan escalou a ponte; um sentimento doloroso se espalhou cada vez mais em seu ser.
O veleiro onde ele se achava era um modelo muito antigo.
Não se viam nem marinheiros nem passageiros e só uma tocha fumarenta iluminava de claridade avermelhada a entrada das cabinas.
Obedecendo ao gesto silencioso de seu guia, Ralph desceu depois dele uma escada que os conduziu a uma pequena câmara ricamente, mas estranhamente mobiliada.
Objectos os mais diversos ali estavam reunidos.
No meio uma mesa abundantemente servida de vinhos e de caça fria.
Velas em um pequeno candelabro de ouro projectavam sua luz sobre um luxuoso aparador de louça que o acaso parecia ter levado ali, assim como todos os outros objectos.
O desconhecido jogou sobre uma cadeira seu manto e seu chapéu, depois tirou sua máscara.
Morgan viu o homem grande e bem aprumado, de uns trinta anos mais ou menos.
Seu rosto fino e regular era muito pálido, e esta palidez fazia sobressair com vantagem seus cabelos ondulados, pretos como a asa do corvo e a barba da mesma cor.
A expressão de seus grandes olhos negros também fazia medo; pregas duras, cheias de severidade, enrugavam o canto de seus lábios.
Apesar da incontestável beleza deste homem, um desespero profundo, uma angústia emanava dele e Ralph sentiu o tremor involuntário de um terror supersticioso correr sobre seu corpo.
Súbito o doutor estremeceu vivamente.
Tinha acabado de ver na mão fina e magra do estrangeiro um anel semelhante ao seu, mas o do desconhecido tinha no engaste uma safira, enquanto no seu havia um rubi.
A roupa do estrangeiro era de outro tempo...
Ele trazia uma túnica de veludo negro, um largo colarinho de rendas e botas altas.
Um punhal com cabo incrustado saía de um largo cinturão.
- Eu o saúdo, meu irmão.
Sente-se, fez o desconhecido, estendendo a mão a Morgan.
Ralph apertou sua mão.
Mas não era hora de propor as perguntas que subiam a seus lábios; uma cortina pesada de lã se ergueu e uma nova figura, ainda mais estranha, apareceu na soleira da porta de uma pequena cabina contígua.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:29 pm

Era um velho de ao menos oitenta anos, a contar pelo número de rugas que lhe cobriam o rosto; sua barba branca descia até a cintura; o nariz aquilino e o viço de seus olhos percucientes davam a esta figura a expressão de ave de proa.
Ele vestia um costume de peregrino, em lã negra; os pés eram calçados de sandálias; uma pequena calota de seda cobria parte da cabeça; seu talhe estava curvado; tinha um bordão nodoso enegrecido pelo tempo em uma das mãos, toda enrugada, onde havia um anel brilhante, de ouro, semelhante àquele que Ralph e seu companheiro usavam, mas ornado com uma esmeralda.
- Saudação a você, nosso irmão caçula; seja bem-vindo, Naraiana Supramati! - disse ele apertando a mão de Morgan.
- Eu o saúdo também, respondeu o doutor se inclinando.
Vendo os anéis semelhantes, Ralph compreendeu que se achava entre os membros de uma confraria secreta da qual ele mesmo fazia parte, sem o supor.
Nos olhos de seus novos amigos ele notou a chama estranha que brilhara outrora nos olhos de Naraiana.
Depois de leve entretenimento em uma língua incompreensível a Ralph, todos se sentaram ao redor da mesa.
O desconhecido mais jovem, que parecia ser o senhor da casa, colocou o vinho nos copos e convidou seus hóspedes a comer e beber.
Obedeceu-se ao convite.
Daí Morgan levantou seu copo e disse:
- Eu bebo à saúde de todos irmãos e lhes rogo acolher com simpatia a questão que lhes desejo propor.
- Fale, responderam simultaneamente seus dois companheiros.
- Vocês me conhecem, pois me chamaram por meu verdadeiro nome, prosseguiu Ralph.
Mas ignoro absolutamente com quem tenho a honra de falar.
Por enquanto eu sinto que vocês são meus novos parentes, pessoas que vivem nas mesmas condições que as minhas e que elos misteriosos os unem a mim.
- Tem razão, meu irmão; constituímos uma mesma família.
Seja qual for a distância que nos separe, cadeias secretas nos ligam, respondeu o velho.
Você tem o direito de conhecer nossos nomes, mas não se assuste se lhes pareçam esquisitos.
Sou Isaac Laquedem.
- Isaac Laquedem! a lenda dá este nome, eu creio, ao Judeu Errante! - balbuciou estupefacto.
- As lendas sempre escondem uma parte da verdade que a imaginação dos homens deforma e que o tempo desnatura ainda mais, observou o velho.
O Judeu Errante sou eu...
Quanto a ele, e Isaac indicou seu sombrio companheiro, que sonhador, estava apoiado nos cotovelos sobre a mesa, ele também é o herói de uma lenda, o capitão do veleiro fantasma que anuncia sua perda aos navios que encontra.
É o Holandês Voador, como os marinheiros o chamam.
Morgan se levantou contra a vontade e os olhou, aos dois com terror.
Ele sempre supôs que esses seres legendários pertenciam somente à fantasia popular.
E eis que ele se via sentado perto de dois e na mesma mesa - a menos que não fossem por assim dizer senão "pseudónimos", escondendo suas personalidades verdadeiras; - não se escondia ele sob o nome de Naraiana Supramati?
Se portanto, o velho dizia a verdade, certamente os espectros que aterrorizaram o mundo só tinham de parecer com eles!...
Era suficiente olhá-los para compreender instantaneamente que eram homens singulares.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:29 pm

- Nós não somos espectros; somos produtos da fatalidade, homens como você; também acho que nada tem a temer, observou aquele que se chamava "O Holandês Voador".
Morgan teve vergonha de seu receio e disse, enxugando o suor que perolava seu rosto.
- Desculpem-me, meus irmãos, este medo ridículo; é devido ao estado estranho e penoso de minha alma.
Ponham-se em meu lugar e imaginem os sentimentos de um homem de nosso século incrédulo, de um doutor, céptico juramentado, que cai inopinadamente em um tal meio.
Involuntariamente ele se pergunta o que está acontecendo: está bêbado, ficando louco ou é vítima de um pesadelo ou de uma alucinação?...
Morgan segurou a cabeça com as duas mãos.
- Também vocês gostariam se lhes perguntasse: vocês são realmente as pessoas cujos nomes usam?
Você, Laquedem, seria o homem que o Cristo maldisse outrora... se é que esse homem existiu?
- Sim, sou Isaac Laquedem.
Eu vi, eu conheci o Cristo, mas ele não me maldisse, é um outro motivo que me obriga a errar eternamente.
- Mas então, onde você vive? - interrogou Morgan, pálido de emoção.
- Vivo em parte alguma; o mundo inteiro me pertence.
Apoiado neste bastão, calçado de sandálias, eu faço, em cada século, sete vezes a volta em torno do planeta, e volto sempre a meu ponto de saída.
O céu é meu tecto, a terra meu leito, as plantas minha nutrição.
Não repouso senão junto aos "iniciados", a cada dez anos, três dias e três noites.
Não tenho necessidade de nada.
Fujo do tempo, ele me persegue.
O velho se calou e com ar sombrio apoiou os cotovelos sobre a mesa.
Sua fronte se riscou mais profundamente e um rictus amargo contraiu seus lábios.
Após um momento de silêncio penoso, o velho se levantou, esvaziou o copo de vinho e, saudando com um gesto os dois jovens, desapareceu de novo na pequena cabina de onde tinha vindo.
Morgan se sentia acabrunhado; com olhar perplexo fixava seu outro companheiro.
Apesar de sua palidez aterradora e seus olhos terríveis, o Holandês Voador lhe era mais simpático que o cruel Judeu Errante.
Ralph gostaria de perguntar se a lenda era verdadeira - que tornava seu navio anunciador da morte.
Como se ele houvesse lido seu pensamento, o Holandês levantou a cabeça e disse numa voz sonora:
- Eu lhe direi mais tarde porque o mar é o campo de minha acção, as ondas se fizeram minha pátria e como este navio se tornou minha moradia, onde vivo no meio de meus livros e de minhas recordações.
Explicarei também porque apareço àqueles que são condenados à morte.
- E você navega sempre só neste navio? interrogou Morgan.
- Muitas vezes desço à terra para fruir instantes do amor efémero, o que traz variação à minha vida sombria e monótona; mas não suporto ficar em terra firme mais que três dias e três noites.
E agora me conte como você se tornou um dos nossos, se está feliz por ter recebido o dom precioso que o tirou das condições de vida comum.
- Por enquanto eu experimentei apenas o restabelecimento de minha saúde.
E em poucas palavras Ralph contou sua existência passada e daí ajuntou:
- Ignoro a verdadeira causa que levou Naraiana a levar sua escolha sobre mim e não a outra pessoa.
- Laços do passado uniram talvez vocês dois; estes laços criam o amor através das existências sucessivas e podem se tornar muito fortes, e são difíceis de se romper, observou o Holandês.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:29 pm

Mas... não deseja repousar?
Morgan abanou negativamente a cabeça.
- A diversidade das impressões que tenho vivido hoje em dia caçou o meu sono.
Se você não está cansado e se minha presença não o importuna, gostaria que ficasse comigo...
Vamos conversar.
Juro-lhe que gostaria muito de conhecer sua verdadeira história.
Além disso me pergunto por que me fez vir até aqui, por que me apresentou Isaac Laquedem... e... onde vamos?
- Estamos nos dirigindo ao centro mesmo de nossa Confraria, a fim de celebrar uma de nossas cerimónias seculares, as mais solenes.
Lá, no Santuário secreto, se encontra a taça do Graal.
- Como?... o Graal existe?
- Nós não existimos?
Por que então essa taça cujo olhar somente, segundo a tradição, confere a imortalidade, não existiria? - respondeu gravemente o Holandês.
E agora... já que isto tanto o interessa... vou contar minha história e elevarei para você os véus com os quais eu recobri a lenda...
"Nasci no fim do século XV; era filho de um célebre pirata que tinha conseguido uma bem grande fortuna graças a seus actos de pilhagem.
Meu pai era holandês de origem; homem severo, cúpido, sanguinário, mas óptimo marinheiro.
Eu cresci no navio de meu pai, me habituando desde a infância ao "serviço" de corsário.
Tinha vinte anos quando meu pai foi morto durante a abordagem de uma grande galera espanhola e daí herdei o comando do navio.
"Logo conquistei uma glória que excedeu à de meu pai.
Tudo o que eu fazia era coroado de sucesso.
A rapidez com a qual eu manobrava e chegava, lá onde eu era o menos desejado, fez com que minha pessoa e meu navio se cobrissem de uma auréola sobrenatural que serviu à minha celebridade futura.
As pessoas me supunham de comércio com o diabo, se bem que eu fosse incapaz de tal aliança; meus marinheiros, por selvageria, audácia demente, por propensão sanguinária, eles sim, poderiam ser tomados por espíritos infernais.
"Um dia, quando meu barco oscilava no mar do Norte, o vigia percebeu um navio mercante grande, que já devia ter viajado muito e feito considerável carregamento que deveria, sem dúvida, ser dos melhores.
A galera nos viu e procurou fugir a vela toda.
Naturalmente todos seus esforços foram vãos - meu navio rápido a alcançou e nós subimos para a abordagem.
Começou um combate encarniçado, pois os homens da galera estavam armados, mas a audácia desesperada de meus homens nos assegurou a vitória.
"Dando o exemplo a meus comandados, saltei eu primeiro na cobertura e meu machado de abordagem causou um grande vazio entre os defensores do navio.
Entretido pela luta e todo coberto de sangue, me precipitei em uma cabina onde se encontrava um velho e uma mocinha quase desmaiada de medo.
Ficaria contente em ter o velho como prisioneiro, mas ele quis se bater e me feriu no ombro com sua espada.
Fulo de raiva eu lhe fendi o crânio com um golpe de machado.
"Quando ele caiu, a mocinha se jogou sobre ele, dando um grito terrível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:30 pm

Somente então vi uma criatura, a mais sedutora que eu jamais tinha visto, branca e tenra como uma fada, olhos de safira e cabelos louros como ouro.
Meu coração imediatamente se abrasou.
"- Não tema, adorável criatura! nem um só fio de seu cabelo será tocado, lhe gritei.
"Para livrá-la de todos os azares da batalha e da grosseria dos marinheiros, resolvi pô-la em meu próprio navio.
"Quando a tomei em meus braços, se debateu como uma demente, depois desmaiou.
E a trouxe inconsciente para a cabina que fechei.
"A luta acabava com a vitória completa de meus homens e pude examinar nosso despojo - era bem grande!
Soube por um marinheiro da galera que aquilo pertencia a um dos mercadores mais ricos da cidade de Lubeck.
Este comerciante ia a Veneza com sua filha, noiva de um senhor italiano.
O vultoso dote da moça estava a bordo.
"Algumas horas se passaram no exame e na partilha do despojo e também na transferência a meu navio das malas, cestos, pacotes e outros objectos.
Eu já me aprestava a deixar a galera, decidido a afundá-la com os prisioneiros que meus homens matavam, quando, sobre a cobertura suja de sangue, apareceu um velho vestido com uma roupa de peregrino.
"Todos ficamos estupefactos, pois nenhum de nós o havia visto antes.
Ele devia estar viajando na qualidade de passageiro e se tinha escondido durante o combate.
O velho se aproximou de mim, e me fixando com olhar incendido, disse:
"- Concede-me hospitalidade em seu navio, capitão?
"Eu sempre fui muito duro de coração, mas aquele velho, não sei porque, me inspirou um respeito estranho.
E que poderia um homem contra sessenta bravos que eram meus marinheiros?
Fiz um gesto de aquiescência e respondi com benevolência:
"- Seja bem-vindo a meu navio, respeitável velho!
Encontrarei onde o alojar, e terei bastante pão e vinho para o alimentar.
E se nossa obra sanguinária o desgosta, nós o poremos em terra na primeira ocasião favorável.
"Ele me agradeceu e lhe ofereci a cabina que ocupa agora Isaac Laquedem.
"Para nos repousar depois desta batalha fatigante, eu dei ordem de organizar um grande festim.
Tínhamos capturado uma tal quantidade de vinhos e alimentos de todos os géneros, que o banquete foi grandioso.
"Depois fiz servir uma mesa especial para mim, meu auxiliar e o velho; os piratas comeriam na ponte, cada um como lhe aprouvesse.
"Eu estava de óptimo humor; ria, brincava com o peregrino e o felicitava de ter felizmente escapado da morte.
Ele sorriu e respondeu que a morte não o amedrontava nem um pouco.
Eu repliquei, dizendo que a morte já não mais me metia medo; e meu auxiliar e eu não cessávamos de elogiar alternativamente nossas façanhas.
"Bebi demais e meu sangue começava a se abrasar; a noivinha bonita, minha prisioneira me parecia cada vez mais sedutora e o desejo ardente de possuí-la tomou conta de mim.
"Me levantei e desci para a cabina.
A jovem já tinha voltado de seu desmaio, estava sentada, o rosto escondido entre as mãos.
Quando entrei ela se levantou e fixou sobre mim seu olhar de fogo.
"Sentei perto dela, me esforçando em consolá-la e declarei enfim que a amava, que a guardaria perto de mim e a obrigaria a partilhar nossa existência feliz e cheia de aventuras.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:30 pm

"Ela me escutou silenciosa e somente seus lábios tremiam nervosamente.
A jovenzinha não opôs a menor resistência quando a beijei.
Feliz com sua cordialidade e desejando adoçá-la mais, fui pegar uma grande caixa cheia de diamantes e de objectos preciosos e lhe fiz presente.
"Ela abriu o cofre com pressa febril e sua mão apalpou, procurou ávida, algo nas pérolas.
Bruscamente um forte rubor de cólera coloriu seu rosto.
Eu pensava que nada era mais caro a uma mulher que jóias, e reprimi com dificuldade o desejo de dar uma gargalhada.
Depois ordenei à bela prisioneira se vestir e tomar parte de nosso festim.
"De início ela empalideceu e uma claridade estranha brilhou em seus olhos de safira.
Mas um minuto depois ela respondeu surdamente:
"- Faça com que me tragam roupas; estas estão sujas de sangue; daí eu vou.
"Atendi seu pedido e, meia hora depois a mocinha subia à ponte, resplandecente como uma rainha.
"Ela vestia roupa branca bordada de ouro, justa à cintura por um cinto de pérolas e diamantes; um diadema constelado de pedraria cintilava em sua cabeça.
"Fui conquistado.
Nunca tinha visto uma mulher de beleza tão divina.
Seus cabelos desfeitos, envolvendo-a quase até os joelhos como uma sumptuosa capa, me fascinaram sobretudo.
"Disse-lhe para sentar a meu lado; enlacei sua cintura e lhe ofereci um copo de vinho.
Ela aceitou; até parecia feliz.
Ela mesma encheu meu copo e se abandonou a meus carinhos sem repugnância visível.
"A orgia atingiu seu apogeu quando Laura - era esse o nome dela - se levantou e, inclinada sobre a ânfora de vinho que acabava de chegar, declarou:
"- Gostaria de servir estes corajosos marinheiros que cantam tão ruidosamente em nossa honra.
Permita que eu mesma encha de novo seus copos?
Eles mereceram hoje seu reconhecimento e você deveria lhes dar esse prazer...
"- Faça como desejar, ó bela mulher!
Certamente eu não recusarei satisfazer seu primeiro desejo.
Regale meus heróis! à saúde deles!
"Eu chamei um dos piratas e lhe disse para trazer a ânfora que estava atrás de Laura.
Ela mesma encheu todos os copos e pediu aos marujos beber à felicidade dela.
"Quando Laura se sentou de novo à minha mesa, estava mais branca que sua roupa e parecia desmaiar de fraqueza.
Eu lhe perguntei com angústia se ela não se sentia cansada.
Ela 'meneou a cabeça e respondeu com estranho sorriso:
"- Oh, não! O banquete apenas começou...
"Nesse momento seus lábios semiabertos, sua respiração acelerada, que sublevava seu admirável colo virginal, seus olhos brilhando com chama cruel e ardente, me senti enfeitiçado definitivamente.
"Louco de paixão, a agarrei em meus braços e a arrebatei até a cabina, confiando o comando do navio a meu segundo.
O peregrino se tinha retirado há muito tempo, pretextando fadiga.
"Uma hora não se tinha escoado ainda quando gritos terríveis, um barulhão na ponte me arrancaram de meu delírio amoroso.
"Eu me refiz logo e saltei sobre o convés.
O espectáculo que se oferecia a meus olhos me petrificou literalmente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:31 pm

"Meus marujos, como tomados por uma crise de demência súbita rolavam no chão, ululando como bestas e vomitando uma espuma esverdeada.
Alguns estavam imóveis, o rosto preto, como mortos.
"Nesse momento, meu segundo se ergueu novamente em seu cotovelo e gritou, fechando e sacudindo o punho:
"- Maldita!...
Ela nos envenenou...
"Por amabilidade ele também tinha pedido a Laura que lhe enchesse o copo de vinho...
"Compreendi a verdade e experimentei uma raiva demente contra a mulher que se tinha vingado de mim, me privando de todos meus fiéis companheiros.
"Quis agarrar o punhal que nunca me deixava a cintura, mas ele não estava mais ali...
No mesmo instante, senti um golpe profundo, que me bateu nas costas e escutei uma voz sibilante pronunciar:
"- Morra, assassino! Dane-se!...
Que sua alma maldita erre eternamente sobre os oceanos e nunca lhe traga repouso!
"Voltei-me e vi Laura.
eu rosto queimava e em seus olhos li um ódio selvagem.
Ela estava com meu punhal; suas mãos e sua roupa estavam sujas de meu sangue.
"Levantei meu punho para bater nela, mas meu braço tombou sem força e, tomado de uma fraqueza súbita, tombei sobre a coberta do navio.
Ao derredor tudo escureceu e, através de um véu eu vi Laura enterrar o punhal em seu peito... e perdi a consciência das coisas.
"Um sopro fresco que acariciou meu rosto me obrigou a abrir os olhos e vi o peregrino ajoelhado perto de mim.
Seu olhar inflamado perpassava meu ser. Súbito ele disse em voz tremente:
"- Quer viver, viver bem longamente?
Não vai me maldizer em seguida?
Então o salvarei.
"Me sentia morrer e, num esforço sobre-humano, balbuciei:
"- Salve-me e eu o bendirei!
"Então Isaac Laquedem - pois era ele - tirou de seu bolso um pequeno frasco cheio de um líquido incolor, levantou minha cabeça e me esvaziou o conteúdo na boca.
"Pensei ter bebido fogo; chamas pareciam queimar meu corpo inteiro; depois foi como se um raio me houvesse rebentado...
"Quando abri os olhos me vi em minha cama.
Percebi a alguns passos de mim, o peregrino sentado perto de uma mesa, lendo uma grande folha de pergaminho.
"Sentia-me disposto, cheio de força e saúde como sempre.
A memória me voltou com a consciência.
Lembrando da morte terrível de meus companheiros fiéis, um suspiro rouco e uma palavra de injúria grosseira dardejaram com ímpeto de minha boca.
"O peregrino se levantou imediatamente, se aproximou de mim e disse numa voz severa:
"- Como você renasce para a vida segundo uma cura milagrosa e pronuncia palavras malditas?!
Seja reconhecido ao Céu, meu irmão, de se encontrar forte e bem-disposto.
Veja o que sobrou da terrível noite...
"Isaac Laquedem abriu minha camisa e eu vi sobre meu flanco uma grande cicatriz, cor de sangue, que era recoberta por uma pele fina e transparente como vidro.
- E essa cicatriz ficou muito tempo visível? - Perguntou curiosamente Morgan.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:31 pm

- Pode-se vê-la ainda agora, apesar de decorridos trezentos anos.
O Holandês desabotoou a roupa, puxou a camisa e mostrou a Morgan uma marca esquisita, semelhante a uma facada recente, recoberta com um esparadrapo transparente, da cor da pele.
- A visão deste sinal singular produz ainda em mim uma impressão horrivelmente dolorosa e experimento uma sensação de fraqueza interior."
Então o peregrino pousou sua mão sobre minha espádua e falou assim:
"- Esta marca sanguinolenta o lembrará eternamente que não mais deve se servir de armas para matar seu próximo.
Chega de sangue e de crimes!
A partir deste dia você cessará de ser um homem comum.
Já franqueou o misterioso limite que torna breve toda existência humana.
A vida imortal o espera.
Não tem necessidade de viver de pilhagens e assassínios; lhe darei a riqueza e o conduzirei a um lugar onde será recebido como membro de uma confraria mística e secreta.
"Enquanto ele falava, uma tristeza profunda tomava conta de mim.
Meu passado, cheio de aventuras, apagou-se bruscamente, e, cheio de pressentimentos confusos, aspirei ao novo e ao desconhecido.
"- Cumprirei tudo o que ordene, poderoso Mestre que comanda a Morte! - declarei baixando a cabeça.
"Depois me levantei, me vesti e desejei subir à cobertura.
O peregrino consentiu e nós subimos a escada.
Um horrível e sinistro quadro se ofereceu a nossos olhos e encheu minha alma de terror e desespero.
Todos meus marujos estavam mortos e jaziam em desordem.
Sobre seus rostos escurecidos e desfigurados, a expressão de sofrimento atroz de agonia estava estampada.
Ontem ainda todos estes valentes heróis se apertavam perto de mim, cheios de vida e de coragem; hoje não resta deles senão esses corpos negros e inchados!
Eu reprimi dificilmente o tumulto que rugia dentro de mim e disse ao velho que estava ao meu lado, de pé:
"- É preciso jogar os cadáveres no mar e limpar a ponte.
"Inclinei-me para pegar um dos corpos a fim de o lançar para baixo da borda, mas Isaac Laquedem reteve meu braço.
"- Deixe. Não se suje ao contacto com estas formas impuras!
Esperemos a noite, então tudo se arranjará por si mesmo.
Veja. O dia já está nascendo.
Vamos descer à cabina, porque devemos passar este dia a nos preparar para as novas condições de sua vida.
"Descemos de novo à cabina.
O peregrino me deu ordem de juntar todos os objectos inúteis e os levantar dali.
Depois cobriu as janelas dum estofo opaco e iluminou uma vela que se achava num canto, sobre uma mesinha.
"Acabando isso, ele me disse que devia me ajoelhar no meio da cabina, depois traçou no ar primeiramente e depois sobre a madeira do chão, círculos nos quais fomos fechados.
"Vi com espanto um feixe de raios de fogo jorrar de sua vara e ficar na atmosfera como fitas de luzes.
Pequenas línguas de fogo queimavam sobre o assoalho.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:31 pm

"Depois o velho tirou de seu bolso um rolo que continha um pedaço quadrado de tecido vermelho e uma bola cinzenta, feita de uma matéria que me era desconhecida.
Colocou os dois objectos sobre minha cabeça.
"Senti então em todo meu corpo uma terrível dor; parecia que apunhalavam meu corpo todo.
Este sofrimento físico desapareceu em seguida, como por encanto; eu, pirata ardiloso, jamais tinha experimentado coisa igual...
"Fora dos círculos de fogo que nos cercavam, o peregrino e eu, apareceram pouco a pouco criaturas lívidas, sujas de sangue, com o rosto desfigurado.
Fiquei aterrorizado, pois reconheci nelas as pessoas que eu havia matado.
"A multidão de minhas vítimas aumentava sempre, mas o peregrino parecia nem ligar para elas.
Seguindo um ritmo medido, ele pronunciava palavras em língua desconhecida.
Subitamente no ar se mostrou uma dupla de uma brancura de neve, que por cima de nossas cabeças flutuava, como se fosse uma nuvem brilhante cercada de chama multicor.
"Percebi isso como se fosse em um sonho.
Toda minha atenção se concentrou sobre a tropa horrorosa que, de todos os lados, rastejava para mim com a intenção de me agarrar.
Os olhos fosforescentes dos espectros queimavam de ódio selvagem; terríveis maldições, blasfémias retiniam em meus ouvidos e, mãos compridas, com dedos aduncos chegavam perto, parecendo querer me arrebatar.
"O que sofri nesta hora trágica nunca poderei descrever.
Foi uma agonia incessante.
Em verdade eu vivi todas as mortes que causei...
"Senti-me achatado, louco de pavor, me agarrei a roupa de Isaac
Laquedem, que conjurava com sua voz forte as sombras errantes.
"Pouco a pouco uma parte dos fantasmas esmaeceu e desapareceu nas sombras, mas os mais irados ainda gritavam:
"- Olho por olho, dente por dente!
Que ele sofra! Seja maldito!
Maldito! Que, sem conhecer repouso, ele erre sobre os oceanos que sujou com seus crimes.
Que ele vague, execrado e maldito, sobre as vagas de nosso sangue!!
"Enfim os últimos espíritos vingadores desapareceram; esgotado, caí sem forças ao pé do velho.
Mas a trégua foi breve, pois eu senti bruscamente um tremor estranho e doentio sacudir todo meu ser.
E eu vi, com um novo terror, se escapar de meu corpo um vapor assobiante e gemente, vermelho, viscoso e nauseabundo.
A respiração me faltou e caí inerte.
"Quando tomei consciência de mim mesmo, as imputações e os círculos de fogo haviam desaparecido.
Isaac estava perto de mim ajoelhado, me enxugando as mãos, o rosto e o peito com um linho molhado.
Ele me ajudou a levantar e me estender em minha cama.
"- Consegui purificá-lo em parte.
Agora durma e repouse!
Ainda esta noite teremos que cumprir um pesado dever.
"Eu estava tão cansado que adormeci logo num profundo sono.
Sons lentos, agudos e sinistros de um sino me acordaram; aquilo me parecia dobre de finados.
"Fui invadido por um suor frio e coloquei mais cobertas sobre o leito; o coração batia precipitadamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:31 pm

Não, eu não estava sonhando!
Um sino soava cobrindo o ruído da tempestade que tinha se desencadeado durante meu sono.
O vento assobiava no cordame, no moitão, dobrando os mastros e fazendo quebrar o casco do navio.
O trovão ribombava ao longe.
"Inquieto, saltei do leito.
Que seria de nós?
Como manobrar sem equipagem?
"A chegada de Isaac Laquedem interrompeu o curso de meus pensamentos.
"- Sou eu! Nós devemos sepultar os piratas, declarou ele.
"Eu o segui maquinalmente.
A noite negra nos cercava e somente. os clarões dos raios iluminavam por momentos o mar encapelado e o amontoado de cadáveres.
"Nunca antes havia visto tempestade tão furiosa.
O assobiar do vento cobria o ruído do trovão e o rugir das vagas; estas, sublevadas como montanhas, pareciam dever a cada instante submergir nosso barco, minúscula carcaça que se arremessava nas suas cristas espumantes.
E no entanto nós avançávamos a toda vela.
"Para cúmulo do horror, pequenas chamas corriam sobre os cadáveres, e a alta silhueta do velho, com seus braços levantados, aclarada pelo fogo do céu, tomava um aspecto terrível e fantástico.
"Subitamente uma luz esverdeada pareceu subir do oceano, como se fosse uma auréola nimbando o navio, e, no mesmo instante, apercebi sobre o cimo duma alta onda, um sino como que fundido em metal incandescente.
Perto dele se achava uma figura negra, vagamente delineada.
Somente se desenhava nitidamente o rosto anguloso, terroso, desta forma de olhos verdes, exprimindo ódio infernal.
"Esta criatura tinha a corda do sino que ela batia lentamente; e os sons lamentosos, sinistros, gementes que se confundiam com os uivos da tempestade, produziam uma impressão tão penosa, que ainda agora não consigo evocar sem tremer.
"Isaac Laquedem estava terrível. Sua cabeça, sua barba, suas mãos emanavam uma luz fosforescente, a sua voz forte troava, penetrante e impiedosa quando pronunciava palavras em uma língua desconhecida.
"Subitamente um espectro imprevisto e terrível se ofereceu aos meus olhos.
Os corpos dos piratas se levantaram, um após outro, saltaram pela amurada e se reuniram ao redor do sino que não cessava de soar o dobre.
"À claridade de um raio vi distintamente o grupo inteiro dos piratas que se balançavam sobre o cume duma vaga enorme.
Seus rostos esverdeados com os olhos vítreos me fixavam...
Depois todas as coisas se empalideceram e lentamente desapareceram nas ondas furiosas do mar.
"Cambaleante como um ébrio, tentei retornar à minha cabina e dei alguns passos inseguros.
Meus ouvidos ainda ouviam o sino tocar compassadamente; chispas de fogo se entrecruzavam diante de meus olhos.
Parecia-me que os corpos de meus companheiros dançavam ao redor de mim, numa farândola infernal, e, soltando um grito surdo, perdi os sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:31 pm

- IV -

"Não sei dizer o tempo que. durou este estado de inconsciência e, estranho, não era um estado de esvaziamento que me tomou, sem pensar nem sentir, mas sim uma confusão por instantes das visões repugnantes.
"Quando reabri enfim os olhos e que a plena consciência me retornou, já era dia:
Raios de sol inundavam a ponte vazia; tudo estava limpo, em seus lugares, e ninguém poderia dizer que o mais terrível dos dramas humanos acabava de ali ter lugar.
"Eu estava estirado ao pé de um mastro, disposto, cheio de energia vital, mas meu espírito e o coração estranhamente enfastiados, oprimidos de tristeza.
Sem, haver ninguém no timão; o navio vagava a velas soltas, numa direcção evidentemente determinada.
Encostado na pavesada, Isaac Laquedem olhava fixamente o oceano, pensativo e atristado.
Ele se voltou com o ruído que fiz ao me levantar.
"- Bom dia, meu irmão, disse sorrindo.
Como está vendo, está tudo em ordem.
Ademais posso anunciar a você, com alegria, que nos dirigimos ao lugar da reunião dos nossos irmãos.
"Agradeci a ele e pedi chegar logo ao destino.
Laquedem me respondeu que nossa viagem acabaria desde que a pacificação prévia de meu ser com aquela outra criatura a bordo tivesse sido concluída.
"Diante de minha profunda estupefacção" ele ajuntou:
"- Sim, certamente, uma terceira pessoa se encontra aqui!
Venha, vou levá-lo a ela.
"Descemos para pequena cabina que outrora ocupava meu segundo, e vi a mulher que me tinha assacado o golpe mortal.
"Ela estava vestida de luto; terrivelmente pálida, seu rosto parecia mesmo exangue.
Trémula, confusa, ela se sentia desassossegada diante de mim, os olhos baixos, e seu ser inteiro respirava sombria tristeza.
"Eu a olhei com uma calma que espantou a mim mesmo; não experimentei a seu respeito nem cólera nem ódio.
Guardava a consciência de ter sido o único culpado e, contra a vontade, disse:
"- Perdoe-me!
"- Perdoem-se mutuamente, declarou o velho; o mesmo destino os encadeia na terra.
"Com o coração pesado, me aproximei de Laura e repeti as palavras, suplicando perdão.
Ela me estendeu a mão e me olhou com seus belos olhos .que já possuíam esta expressão que nós todos temos - nós os que não morremos...
"A paz tinha sido concluída entre nós dois.
"Desde então vivemos os três neste navio que eu não comandava mais, mas que mãos invisíveis dirigiam como hoje em dia.
Laura e eu, durante uma parte do dia e da noite executamos os ritos que Isaac nos indicou.
Ele mesmo toma parte nestas cerimónias, com suas conjurações e seus cantos estranhos.
"Passamos nossas horas de repouso na ponte, nos abandonando a nossos sonhos e conversando.
Eu e ela nos tornamos amigos.
Mas a cada dia nos tornamos menos comunicativos.
Enquanto a obra de purificação se operava em mim e minha inteligência evoluía, um sentimento de nostalgia profunda, de indiferença a respeito da vida se desenvolvia em meu espírito.
Minha existência tempestuosa, feita de crimes e pilhagens, me parecia como um sonho terrível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:32 pm

As visões que me atormentavam me davam o medo da morte; portanto, eu não podia crer ainda nesta vida imortal da qual me falava Isaac Laquedem.
"Mais de dois meses se escoaram assim.
Enfim o velho nos declarou que nós estávamos suficientemente purificados para sermos acolhidos .no santuário.
Chegaríamos, ali na noite seguinte.
Nos achávamos em pleno mar, mas aonde?
Eu não podia me orientar, porque nem por uma vez nós tínhamos encontrado algum navio, e o oceano parecia um deserto.
Uma grande curiosidade me invadiu.
Enfim nós chegaríamos a terra e eu iria saber qual o continente, pela margem onde abordássemos.
"Eu não deixava a ponte.
A noite caía e a margem desejada não aparecia.
Enfim eu percebia o pálido clarão da lua, grandes rochas negras emergindo das ondas.
No que pude julgar, nos aproximávamos de uma ilha ou de um grande recife solitário, pois nenhuma frota era visível.
"Chegando perto de uma alta rocha, com cume pontiagudo, o navio parou e tocou as pedras cinzentas.
O velho se aproximou da pavesada e gritou três vezes com voz sonora:
"- Isaac Laquedem!
"O eco repetiu três vezes o nome.
Os sons de um sino pareceram se fazer escutar no interior da rocha.
No mesmo instante um fenómeno estranho se produziu: como puxada por mãos invisíveis, a massa granítica .girou sobre o lado, descobrindo uma escavação profunda.
Depois o bloco maciço se desviou, abrindo uma galeria abobadada onde percebemos doze degraus recobertos de tapete.
Duas crianças estavam no fundo, vestidas de roupas brancas e trazendo em suas mãos lâmpadas cuja luz era muito brilhante.
"- Vocês que conhecem a luz eléctrica não ficam espantados, quando cheguemos lá embaixo; mas eu, simples marinheiro selvagem do XV século, pensei ver uma luz celeste.
"Isaac Laquedem saiu primeiro, Laura e eu o seguimos.
Todos entramos na galeria cavada na rocha.
Quando me voltei, reparei que o bloco maciço se havia fechado sem ruído depois de nós.
"Silenciosos, seguimos Laquedem e chegamos enfim a um pequeno quarto redondo, de onde partiam galerias parecidas àquela que acabávamos de atravessar.
"No meio desta peça que podemos tomar como sendo uma antecâmara se achava um velho muito alto, vestido com roupa branca que brilhava como se fosse costurada com diamantes.
Uma grande espada pendia em sua cintura, e seu peito, sob a grande barba prateada, era coberto por um peitoril de ouro, ornado com pedras preciosas.
Nos pés tinha sapatos brancos com pontas reviradas.
"O velho abraçou Agasther - outro nome de Laquedem - e nos olhou demoradamente, analisando.
Depois de haver trocado algumas palavras com nosso guia, ele levou aos lábios um pequeno corno de marfim e um apelo sonoro soou.
Uma criança chegou vestida de branco, como os dois meninos que nos tinham recebido.
Ela me conduziu por uma das galerias a um quarto ricamente guarnecido, onde eu vi uma cama já preparada e um repasto sobre a mesa.
"- Restaurai-vos e dormi!
Eu virei vos procurar quando seja hora.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:32 pm

"Depois de ter pronunciado estas palavras a criança saiu.
"Comi com um apetite que nem me lembro mais quando havia comido assim tão bem.
Sentia-me bem melhor.
O ar me parecia bem mais leve naquela região, mais puro e saturado de aromas vitalizantes.
O desejo de viver renasceu em mim...
"Após haver saciado a fome, examinei meu alojamento.
A câmara onde me encontrava devia ser uma gruta transformada em moradia.
Os móveis eram muito ricos e de um estilo que me era desconhecido.
O tecido das cortinas me era também desconhecido, e me pareceu feito de fios de metal.
"Presumindo que um dos cortinados da porta escondia a entrada em uma peça vizinha, levantei a cortina e não pude reprimir um grito de entusiasmo.
"Eu me achava diante de uma janela cavada na rocha.
Ela dava a uma paisagem verdadeiramente mágica: um profundo vale interior, cercado de todos os lados por rochas enormes.
Acima dessa massa negra, como uma abóbada de safira sombria, se estendia o céu semeado de estrelas.
Um lago ao fundo do vale reflectia como um espelho a lua cheia.
"Grutas profundas, de formas fantásticas, e aclaradas por uma suave luz azulada, se alongava ao redor das águas e suas extremidades se desvaneciam em misteriosas penumbras.
Percebi numa das grutas degraus de uma escada estreita, cavados na pedra e desaparecendo com as abóbadas.
Barcas estavam atracadas em numerosos pontos da margem.
Dois grandes cisnes vogavam com majestade sobre as águas escuras e imóveis.
Toda paisagem respirava uma indefinível serenidade e agia favoravelmente sobre minha alma dolorida e agitada.
"Só me deitei após ter fruído plenamente a contemplação desta vista magnífica e então adormeci logo.
"Meu jovem guia me acordou e ofereceu seus serviços para me vestir.
A criança me conduziu a uma peça contígua onde me ajudou a que me banhasse em uma bacia de pedra azul e cheia de água aromatizada.
Vesti-me de novo com uma roupa semelhante àquela que trazia o velho que nos havia recebido.
Depois meu pequeno pajem amarrou minha cintura com um cinto - mas neste não havia espada - e passou em meu pescoço uma cadeia ornada de pedrarias negras sobre a qual pendia um pentagrama vermelho, de esmalte; no centro se encontrava uma pedra transparente, onde parecia brilhar uma chama.
"A criança me olhou; reparando, sacudiu a cabeça e disse:
"- Quanto sangue sobre vós, meu irmão!
"Depois, notando minha emoção, mudou logo de conversa e me indicou um grande cofre em prata cinzelado, ornado de esculturas em turquesa; ali eu deveria arrumar os adereços que usava e com os quais, a cada vez que ali chegasse, me serviria, naquele local.
"O pequeno acendeu uma vela e nós saímos; eu o segui silencioso.
Assim atravessamos muitas galerias.
Enfim uma porta maciça se abriu diante de nós e eu me vi em um salão.
Todo o magnífico brilho de luzes douradas parecia cair do tecto, se reflectindo nas lajes de mármore e mosaico do chão.
"O terror me tomou; o coração parecia parar de bater e a respiração me faltou.
Eu teria certamente caído se a mão forte de alguém não me houvesse amparado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:32 pm

"Quando meu mal-estar passou, vi Isaac Laquedem - foi ele que me sustentou e murmurava em meu ouvido palavras de encorajamento.
Ele trazia a mesma roupa que eu, mas em sua cabeça havia uma fina coroa de ouro com uma estrela no meio da testa que irradiava raios fulgurantes.
Acalmado, caí de joelhos e olhei ao meu derredor.
"Em seguida vi nos dois lados da sala homens vestidos de roupas brancas e mulheres com o rosto coberto por um véu.
Todos estavam ajoelhados e absorvidos na oração.
Somente então reparei que a abóbada se abria sob o céu e torrentes de luz inundavam o templo, não sendo mais que raios de sol.
"Ao fundo da sala se percebia uma espécie de pavilhão sem tecto, todo em prata e ornado de colunas de lápis-lazúli.
"Na dianteira, o pavilhão ficava completamente coberto.
Percebiam-se degraus conduzindo a um grande trono onde brilhavam velas acesas num candelabro de ouro com sete braços.
No centro do trono se achava uma grande taça, cercada de um vapor claro e fosforescente.
"Sobre os degraus do trono, recobertos de tapete, se achava um velho de barba branca, vestido como nós, com certa diferença - o tecido brilhante de sua roupa emanava, a cada um de seus movimentos, raios multicores.
"Na cabeça deste Grande-Sacerdote havia uma coroa com sete dentes, tendo na ponta de cada extremidade uma chamazinha.
Tinha na sua mão uma espada curta e larga com a qual ele traçava no ar signos misteriosos.
"Nos dois lados do trono, sobre o último degrau, dois cavaleiros estavam imóveis, um vestido com armadura de ouro e o outro com armadura de prata; em suas mãos, espadas.
Viseiras erguidas descobriam seus rostos bonitos, severos e serenos.
"Estava abismado com a contemplação destas figuras quando, súbito, um canto majestoso ressoou, acompanhado por um órgão.
A melodia era estranha; mas é necessário tê-la ouvido para se compreender a acção extraordinária desta música.
"Os sentimentos que fez nascer em mim esta música maravilhosa, nunca antes ouvida, mataram o homem antigo que eu era.
"Então os dois cavaleiros que estavam perto do altar trouxeram uma grande taça de ouro, e se ajoelhando, a tomaram em suas mãos.
Depois o Grande-Sacerdote desceu a escada, trazendo pequeno frasco de cristal, cheio de um líquido cor de sangue e uma pequena colher de ouro.
Com isso ele tomou o líquido vermelho em quantidade correspondente ao número de assistentes, enchendo o grande copo de ouro.
"Daí o Grande-Sacerdote levou de novo ao trono o copo de cristal, desceu novamente a escada e chamou um a um todos os presentes.
A gente se aproximava e o Grande-Padre derramava um pouco do líquido sobre nossa cabeça.
"Enfim o Grande-Pai chamou Laquedem, Laura e eu.
Ao ouvir meu nome estremeci, mas Isaac me tomou pela mão e me conduziu ao dirigente.
"O Judeu Errante nos apresentou, contou em detalhes nossa história e pediu ao Grande-Pai nos acolher.
Este teve um gesto de consentimento.
Depois, após haver derramado sobre a cabeça de Isaac um pouco do licor misterioso, o Grande-Padre fez sinal para que me aproximasse.
"Ele me derramou o licor misterioso sobre a cabeça e senti, me pareceu, como queimaduras sobre a pele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 29, 2016 7:32 pm

Tomou de sobre uma bandeja de ouro que lhe trouxeram, um punhal que me estendeu, pronunciando:
"- Eu te armo com esta lâmina mágica, a fim de que tu possas te defender contra os espíritos sofredores e vingativos que te perseguem.
Não esqueça minhas palavras: tu não tens o direito de te servir senão desta arma - somente dela.
Ela aqui está, ajuntou o Holandês Voador, indicando o punhal que pendia agora em sua cintura.
Após ter ficado um momento pensativo, ele continuou:
- Após ter posto o punhal em minha cintura, o velho colocou em meu dedo um anel, dizendo:
"- Guarda este anel, pois será o signo de tua admissão ao grupo de irmãos da Mesa Redonda da Eternidade e receba, ao mesmo tempo, o nome Dakhir.
Assim será teu nome em nossa Confraria.
Quando estiveres em teu navio maldito e a angústia e a solidão te conduzirem ao desespero, tu soarás o sino... os sons chegarão até nós e te atenderemos.
Além disso tu podes descer às vezes à terra e tomar contacto com os homens, mas não por muito tempo - três dias e três noites.
Agora vai aproveitar as horas que te restam junto a teus irmãos da sociedade.
"Eu beijei a mão do velho e me levantei; Laura, pálida e abatida se aproximou dele.
"- Tu te abandonaste ao ódio cego e à sede de vingança.
Por teu crime eu devo te condenar à solidão.
Aos mortais que te vejam, tu trarás má sorte.
Assim, toma cuidado em não aumentar o número de tuas vítimas.
"Nós ficamos três dias nesse palácio misterioso; todos os que habitavam esse lugar de repouso e felicidade se conduziam para connosco como se fôssemos todos irmãos.
"Os seres que pertenciam às gradações superiores da Hierarquia se entregavam na maior parte do dia a trabalhos aos quais eu não era admitido.
A certa hora determinada, todos se reuniam na grande sala que você também verá.
Lá sobre uma grande távola redonda, se acha um copo de ouro, sempre cheio de uma substância desconhecida.
Ele passa de mão em mão e todos bebem um gole.
- Desculpe-me, meu irmão, interrompeu Morgan.
Você falou mais de uma vez do Graal, como de um objecto real e tangível; mas se sabe pela História que ele apenas é uma alegoria poética, nascida provavelmente na Provença e glorificada por Wolfrain d'Eschenbach, cavaleiro trovador do XVIII século.
Dakhir sorriu.
- A história do Graal8, conforme é contada por d' Eschenbach, e antes dele, pelo provençal Guyot de Provins, Chrétien de Troye e outros, representa com efeito, uma invenção poética.
A base mesmo da lenda, lembrando a existência do elixir da longa vida, constitui uma verdade que nem você nem eu podemos ter de fato certeza.
Tais foram os esforços dos Irmãos da Távola Redonda da Eternidade para guardar o segredo, mas certas coisas foram reveladas.
Do mais profundo dos séculos, de povo a povo, revestida das crenças e dos costumes da época, esta lenda, alterada, aumentada, desfigurada, atingiu a Idade Média quando d'Eschenbach e seus predecessores lhe deram uma nuance cristã.
O sangue do Salvador se tornou para eles a Essência da Vida; o ver a taça já assegura a imortalidade; e nosso asilo secreto se transforma em templo inacessível do Graal que os cavaleiros da Távola Redonda procuram.
"Se as narrativas celtas e normandas, e mesmo os poemas provençais se nos fossem conhecidos sob suas formas primeiras, você sentiria os traços mais claros do original destas lendas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:20 pm

Mas as fontes são perigosas.
A última sobrevivência das narrativas originais que eram ainda conservadas pelos Albigenses foram destruídas pela Inquisição.
Apenas restam alguns poemas de poetas germânicos.
Se é chamada a nossa confraria de "A Confraria do Graal"
é somente para empregar um termo conhecido nosso e que vem de uma palavra pronunciada outrora:
Saing Real :, que significa Sangue Real.
Essa apelação alegórica é bastante verdadeira, pois a substância da vida constitui, em verdade, o sangue real da natureza.
- Agradeço-lhe, meu irmão, o esclarecimento.
E agora queira continuar seu interessante relato - disse Morgan.
- Acabou. Quando saí do Santuário, muito emocionado ainda, vi Laura.
Ela se aproximou de mim e me propôs ver o lugar onde ela estava condenada a viver só.
Fomos. Laura me conduziu à borda do lago.
Depois pegamos pequena gôndola numa escada que nós subimos para nos encontrar numa grande gruta.
Uma fonte saía de uma das paredes e enchia, com sua água cristalina, uma grande bacia de pedra e desaparecia com ruído, em uma abertura da rocha; ao fundo se achava um leito e uma mesa sobre a qual eu percebi um livro, uma ânfora, um copo e velas.
Em um dos ângulos da parede de rocha, uma cruz tinha sido incrustada e diante dela brilhava uma pequena lâmpada.
"- Estou condenada a viver aqui!
Cada semana um pequeno servidor do Templo me trará alimento e vestes limpas.
Poderei me banhar nessa bacia.
Devo passar o tempo lendo esse livro e estudando - disse Laura; seus lábios tremeram.
Amanhã, - ajuntou ela - o caminho que conduz ao lago será fechado.
Para respirar o ar fresco, devo subir lá... .
"Laura indicou uma escada em espiral que eu não tinha ainda visto.
"Subimos essa escada e nos achamos sobre uma pequena esplanada, bem no cume da rocha.
Daquela altura vertiginosa o oceano deserto se estendia a perder de vista; a nossos pés se balançava docemente, velas baixas, meu navio que a lua iluminava.
"Uma tristeza inexplicável apertou meu coração.
Certamente Laura devia experimentar a mesma angústia, porque bruscamente ela caiu de joelhos e, agarrando minha mão, gritou com voz entrecortada de soluços:
"- Leve-me com você, Dakhir!
Nesta solidão terrível, com esta vida eternamente monótona, perderei a razão...
Preferia estar com você, em seu navio, e partilhar a vida errante.
"Laura estava tão maravilhosamente bela em seu desespero, que meu coração fremiu.
Logicamente se ela pudesse ser minha companheira em minha cabina solitária, meu futuro teria perdido a metade de seu horror.
Mas eu compreendia que não tinha o direito nem a possibilidade de atender ao desejo da infeliz que; por minha culpa, se encontrava nessa voragem.
"Eu a levantei e estreitei com força suas mãos, dizendo:
"Não, não, Laura!
Nós devemos seguir o caminho que nos indicam nossos mestres.
Voltarei a cada sete anos.
"Laura estava muito pálida, mas dócil a seu destino.
"Tem razão, Dakhir!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:21 pm

Me submeterei e o aguardarei com paciência, pois enfim, você é o único ser que eu conheço aqui.
"Hora da partida.
No grande vestíbulo todos os irmãos do Graal já estavam reunidos.
Isaac de Laquedem vestia sua roupa de peregrino, e todos os que deixavam o templo haviam deixado suas brancas vestes brilhantes.
"Abraçamo-nos todos pela última vez.
Depois o bloco maciço de pedra se abriu e eu vi meu navio partir do qual se achava também um outro barco, que, sem dúvida, levaria outros viajantes.
"Com o coração dolorosamente oprimido, subi rapidamente a meu navio.
Isaac Laquedem me seguiu e nós partimos logo.
Por um minuto vi sobre o cume da rocha a silhueta branca de Laura, banhada de luz da lua.
Depois tudo desapareceu no nevoeiro.
"Muito angustiado, eu desci para minha cabina.
Notei então que transformações importantes tinham tido lugar em meu navio.
Todo espaço ocupado outrora por meus marinheiros estava dividido em muitas cabinas.
Na maior delas eu vi um sino metálico, e, à parte um objecto recoberto por um estofamento preto.
"Espantado, olhava minha cabina, quando meu companheiro entrou.
"- Vim lhe dar umas explicações necessárias, disse Isaac Laquedem; este sino o põe em comunicação com o Palácio do Graal.
"Depois ele tirou o estofamento preto e descobriu uma placa metálica reflectindo todas as cores do arco-íris.
"Eis um espelho mágico sobre o qual você verá todos os navios condenados a perecer.
Aparecerá você como anunciador de naufrágio e de morte.
Mas seu dever será, por todos os meios ao seu alcance, e sem se trair, salvar ao menos um da desgraça que ocorrerá.
Nunca deve arriscar sua vida mas sim sofrer todas as dificuldades, as fadigas; o esforço de um simples marinheiro que se sacrifica para salvar seu próximo.
"Na manhã seguinte cedo, eu estava só.
Meu navio, que era dirigido por mãos invisíveis, vogava a velas soltas sobre as ondas, desprezando as tempestades.
Quando o mar estava calmo, ou nas mais terríveis tempestades, ele se balançava docemente sobre as cristas das ondas.
"Um dia, durante uma tempestade assustadora, me veio o desejo de olhar o espelho.
Tirei a cobertura.
Primeiramente nada vi e apenas gritos de terror longínquo chegaram a meus ouvidos.
Depois, no fundo mesmo do disco brilhante e multicor, se desenhou o oceano bravo e uma grande galera, com mastros quebrados, ameaçada de soçobrar.
"Compreendi que o caso se apresentava como Agasther me havia dito.
Devia salvar a galera.
Rapidamente subi à ponte.
"Com rapidez incrível meu navio deslizou sobre as ondas furiosas e logo vi a galera que naufragava; e eu passei como um fantasma, quase tocando de leve em seu casco.
"Desde que estive fora da visão dos náufragos, meu navio parou.
Desci para uma pequena barca e consegui a custo chegar ao lugar da catástrofe, onde flutuavam os restos do navio.
Consegui salvar duas crianças.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:21 pm

Como não podia deixá-las perto de mim, as fiz chegar à terra, tão cedo quanto me foi possível, lhes fazendo doação de uma soma bem grande em peças de ouro.
"Além disso, já lhe disse, levo esta existência monótona e solitária.
"- Você vai aprender, você também, Supramati, segredos espantosos e terríveis, e um novo mundo se abrirá diante de você.
Mas não tenho o direito de lhe falar disso antes da hora."
Dakhir se calou e fincou os cotovelos na mesa, segurando o queixo, sonhador.
Morgan também permaneceu calado; pensamentos os mais contraditórios passavam por sua cabeça.
Ralph se indagava por momentos se não havia perdido a razão e se o mundo fantástico que ali tomava corpo não era produto de sua cabeça doente...
Os cépticos mais ferrenhos do século vinte iriam considerar tudo isso uma fábula insensata.
E Ralph se lembrou subitamente de um velho marinheiro que conheceu na infância, quando vivia com sua mãe, numa cidadezinha à borda do mar:
o marujo lhe contou que havia visto o barco fantasma.
E quando Morgan, já incrédulo, quis caçoar desta alucinação, o velho lobo-do-mar franziu as sobrancelhas e observou severamente:
"- Não ria, menino, do que não pode compreender!
Eu repito:
meus olhos viram o navio fantasma e seu capitão.
O olhar daquele espectro me fez tremer de pavor.
A gente pode dizer que esse terrível anunciador da morte sofre ele mesmo com sua missão cruel.
Eu fui o único que se salvou naquele dia..."
Então o capitão Joe Smith chamava espectro aquele que estava ali sentado comigo à mesma mesa; e seus olhos. tristes e profundos, que tinham feito tremer o corajoso .marinheiro, olhavam Ralph com ligeira ironia.
Para dissipar o terror que nascia nele, Morgan interrogou o Holandês Voador:
- Você conhece, Dakhir, a história de Isaac Laquedem, e a verdadeira causa de sua. vida errante?
- Não; os detalhes de sua vida me são desconhecidos.
Apenas sei que, quando lhe confiaram um frasco cheio da essência de vida para levar a alguém que devia se tornar membro da nossa confraria, após ter recebido a primeira iniciação, Isaac compreendeu, eu não sei como, a finalidade do possante elemento, e o tomou por si mesmo.
Depois, aterrorizado pelo abuso de confiança do qual se sentia culpado, fugiu, temendo a vingança dos senhores, cujos poderes ele conhecia muito bem, mas, repito, ignoro os detalhes...
Dakhir olhou seu relógio e se levantou.
- É tarde, meu irmão, e é sábio que repousemos.
Apesar de termos vida imortal, o sono nos é necessário também.
E eu lhe juro - as recordações que evocamos fatigaram não meu corpo, mas minha alma.
A voz de Dakhir traía uma tristeza indefinível e uma grande lassidão.
Ele encheu um copo de vinho e o tomou de um trago, depois, após ter conduzido Morgan a uma cabina onde pendia uma rede de descanso, ele desapareceu.
Morgan se deitou logo.
Sentia a cabeça pesada e experimentava desejo :ardente de repouso e esquecimento.
Não poderia precisar o número de horas que dormiu; uma mão roçou nele levemente e uma voz sonora o acordou.
Ele ouviu:
- Levante, Supramati!
Estamos no fim da viagem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:21 pm

- Oh! Parece que dormi tanto!... - exclamou Morgan, saindo da rede.
- Sim, muito - respondeu Dakhir, sorrindo.
Vista-se rapidamente e vamos jantar, senão você se arrisca a ficar com fome até amanhã de manhã.
Quando Morgan entrou na cabina onde Dakhir o esperava, viu uma mesa luxuosamente servida.
Ao se sentar, perguntou a seu companheiro:
- Diga-me, Dakhir, quem lhe prepara estas comidas requintadas, onde compra estes frutos e estes outros alimentos que vejo aqui?
- Eu não compro nada.
- Como, então?
- Tenho à minha disposição servidores que me fornecem todo o necessário.
- Onde eles estão? não os vejo nunca... fez Morgan espantado.
- Talvez os veja um dia.
Mas não me pergunte.
O jovem homem compreendeu que de novo tocava num mistério.
Calou-se, olhando com piedade o rosto pálido e melancólico de seu companheiro e seu grandes olhos pensativos.
Dakhir lhe inspirava a mais viva simpatia e ele desejava firmar mais sua amizade com o Holandês.
Após se sentirem restaurados, ambos subiram à ponte, onde já se encontrava Agasther, silencioso e concentrado.
Para não interromper a meditação do velho, os jovens se dirigiram até a proa do navio e fixaram o oceano calmo e mudo.
A noite estava maravilhosa.
A lua aclarava tão fortemente o espaço, que os horizontes bem longe se descobriam facilmente.
Então a massa negra da ilha rochosa emergiu do oceano. Dakhir pronunciou com um sorriso:
- Eis o Palácio do Graal!
- Em verdade, me parece que estou transportado para um país de sonhos, anotou Morgan.
Tudo fala aqui contra a razão.
Se em Londres eu contasse em minha clinica esta viagem sobre o navio fantasma, o Palácio do Graal, e a companhia do Judeu Errante, meus interlocutores me poriam camisa de força na mesma hora e me fechariam como um demente.
Dos mais perigosos.
O Holandês guardou silêncio e seu. olhar pensativo parou sobre. a linha rochosa, cheia de mistério, cujos contornos nus e dentados se desenhavam sobre o azul sombrio do céu.
Olhe, Supramati! gritou subitamente.
Vê aquela mancha branca que parece brilhar lá, bem em cima do rochedo?
É Laura que me espera.
"Supramati - nós chamaremos Morgan assim desta forma - pousou a mão sobre a espádua de seu amigo e, olhando maliciosamente seus olhos sonhadores, disse:
- Começo a crer que o ódio da bela Laura se transformou em. amor, depois de longo tempo; não mais é um inimigo que ela espera com esta impaciência!
Dakhir suspirou.
- É verdade! Ela me ama e .tem pressa em se unir a. mim.
- Foi isso o que o fez suspirar?
Você ama então essa criatura adorável, ou ela está mais bonita? se eu pudesse gostaria de vê-la com seu binóculo...
E por que não? Olhe lá! - respondeu Dakhir com ligeiro sorriso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:21 pm

Rápido, Supramati desceu' para a cabina e veio com um binóculo que apontou na direcção da silhueta branca, mais nítida e clara, de minuto a minuto, sobre a rocha.
- Grande Deus!
Mas ela é soberba como uma aparição celeste! será possível que não fiquemos encantados com esta mulher adorável que o. espera tão fielmente?
- Não, não a amo mais.
Se ela não me tivesse apunhalado eu teria ficado o que eu era e Isaac Laquedem não teria tido a ideia de me presentear com a imortalidade.
Hoje eu repousaria com todos os meus ancestrais, respondeu Dakhir, cujo rosto se ensombreceu.
Entre mim e Laura se colocam seus malefícios que me condenam para sempre, todo seu amor não pode os fazer desaparecer.
Gostaria de amar uma pessoa comum, uma mulher mortal, afectuosa e delicada como uma borboleta que a gente receia perder e não este eterno memento mori...1 e sua beleza não tem mais sobre mim a influência de outrora.
Isaac Laquedem se aproximou dos dois amigos.
O navio parou, tendo tocado a borda da tocha.
Supramati examinou atentamente os olhos do velho que, lentamente, três vezes gritou o seu nome com grande força.
Os olhos sombrios de Agasther exprimiam inteligência e energia, mas não bondade.
Os fenómenos que tiveram lugar desviaram a atenção de Supramati, que fixou curioso a entrada iluminada do lugar cheio de mistério onde iriam penetrar.
As coisas sucederam como Dakhir lhe tinha descrito:
uma criança, conduziu Supramati para um quarto onde passou a noite.
De manhã foi vestido com a roupa da Ordem e levado para uma grande sala onde a imponente cerimónia teve lugar, conforme o já relatado por Dakhir.
Quando o Grande-Sacerdote chamou Supramati, ele se aproximou, tremendo de emoção.
O Padre derramou sobre sua cabeça essência vermelha e depois disse:
- Herdeiro .escolhido por Naraiana, agora tu és recebido como membro dos Irmãos da Távola Redonda da Eternidade.
O velho tomou de sobre o altar uma pedra talhada em forma de coração, vermelha como um rubi, em seu centro como que brilhando uma chama, e a prendeu ao pescoço de Supramati.
- Recebe, Irmão Supramati, este poderoso talismã curador!
Ele te permitirá apaziguar o sofrimento de qualquer um.
Mas me permitas dar uns conselhos.
Para adquirir a serenidade lúcida, necessária, é preciso ter esvaziado a taça profunda da vida e imergir no conhecimento das paixões que agitam o mundo para onde tu vais voltar.
Assim então, mergulha na multidão, no mercado imenso onde tudo se compra e tudo se vende.
Vai, meu filho, e te precipita nesse turbilhão que é a vida!
Quando tiveres livremente exercido a faculdade de apreciação, teu sangue se transformará e teu pensamento purificado te elevará longe, acima da tropa humana.
Isto se dará quando todo este trabalho preparatório estiver acabado e somente tu serás capaz de abrir o grande livro do Conhecimento Superior e procurar a Causa das Causas.
O velho se calou por uns instantes, depois, se voltando para a assembleia, declarou:
- Meus irmãos!
Resta um dever a cumprir.
É necessário que rompamos os liames que unem ainda o traidor Naraiana à causa que ele abandonou.
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