Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:22 pm

Com efeito, Naraiana voltou ao mundo invisível antes da hora; só poderemos partir quando nossa missão tenha sido cumprida.
Todos recuaram e formaram um grande círculo no centro do qual duas crianças colocaram um tripé com carvões e um copo largo e. raso contendo uma substância branca.
Então o Grande Sacerdote se aproximou, colocou o copo sobre os carvões e nele derramou algumas gotas de um frasco que pendia em sua cintura.
Logo trovões longínquos troaram e a sala se tornou escura como a noite.
Repentinamente um ruído cortou o espaço e acendeu os carvões do tripé que queimaram com chama multicolorida.
Uma coluna de fumaça subiu, depois desceu ao chão e se desdobrou em espiral, como os anéis de uma grande serpente.
Explodiu a tempestade.
Raios e trovões sucediam sem parar.
A terra tremia e parecia se colocar em movimento.
Criaturas estranhas e terríveis apareceram de todos os lados; umas eram aladas, com cabeça de esfinge e pássaro; outras rastejavam, tendo cabeças humanas, mas com expressão de animal ardiloso, cruelmente infernais.
Supramati se apoiou a um pilar, olhando com curiosidade e horror esta tropa odiosa que se apertava ao redor do tripé, enchendo o ar de gritos agudos terríveis.
Subitamente apareceu uma coluna nevoenta vermelha, que se abriu, descobrindo uma figura humana.
Toda silhueta e, mais que tudo, a cabeça, se desenhava nitidamente sobre o fundo vermelho-sangue da, nuvem.
Um grito abafado saiu dos lábios de Supramati ao reconhecer o estranho que vinha até ele.
Uma espécie de fita vermelha de fogo ligava o "falecido" Naraiana ao tripé sobre o qual brilhava a chama misteriosa, e esta expandiu então um perfume forte.
- Eu desliguei os laços que não tinha mais força para carregar, disse a voz sonora de Naraiana.
Não fiz mal a ninguém e achei um homem mais digno que eu de trabalhar com vocês... e o escolhi como meu herdeiro.
- Tu desejaste a liberdade, tu a terás!
Vais te arrepender de teu ato.
Mas não cabe a nós chorar e lamentar um servidor infiel da verdade. - respondeu o Grande-Padre, levantando a espada.
Pronunciou algumas palavras que Supramati não compreendeu e a espada se abaixou com a rapidez de um raio sobre a fita vermelho-sangue que unia Naraiana ao tripé.
Um berro terrível soou, acompanhado de ribombos de tempestade, a figura de Naraiana se dispersou em uma multidão de faíscas.
Uma coluna de fumaça e fogo turbilhonou um momento sobre o tripé e depois tudo se extinguiu.
A noite se dissipou e os. raios de sol de novo inundaram a sala com sua. alegre.
Supramati acreditava haver sonhado esta horrível visão, se bem que o tripé vazio e o fogo extinto lhe demonstrassem a realidade que havia acontecido.
Ele se voltou suspirando e foi somente então que ele viu Nara no meio de outras mulheres, entre as quais também se achava Laura.
O olhar brilhante da jovem mulher parecia procurar na multidão a alta figura de Dakhir.
À vista de sua noiva, que lhe pareceu ainda mais bela, o coração de Supramati bateu com mais força.
Quis se aproximar de Nara quando o Grande-Sacerdote o chamou e disse com benevolência:
- Tu aceitaste a herança de Naraiana?
Consente também em te tornares esposo e protector de sua viúva?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:22 pm

- Sim. Ela representa para mim a parte mais cara e mais sagrada da herança, respondeu Supramati.
Bem no fundo da sua alma ele estava feliz com esse compromisso, porque Nara o tinha enfeitiçado realmente.
- Nesse caso, aproxima-te; vou vos unir!
Duas crianças trouxeram o tripé e colocaram diante do altar um coxim de púrpura, bordado em ouro.
Em seguida duas mulheres se aproximaram de Nara: uma delas trazendo uma coroa de flores brancas que Supramati nunca tinha visto igual; a outra, um véu extraordinariamente leve e transparente.
Antes de enfeitar a cabeça da noiva, as mulheres uniram a mão de Nara à de seu futuro marido.
Nara e Supramati se ajoelharam sobre o coxim.
Dois cavalheiros postaram-se ao lado de ambos, cruzando-lhes sobre a cabeça espadas em cujas pontas brilhava uma pequena chama dourada.
O Grande-Sacerdote tomou de sobre o altar uma bandeja e ali fez queimar um líquido incolor que exalou perfume subtil e agradável.
Depois o velho colocou os anéis de casamento nos dedos dos jovens nubentes e, levantando Nara, a levou atrás do altar, em uma capela que era recoberta por uma cortina tecida em fios de prata.
Os dois voltaram alguns momentos após.
Nara parecia emocionada; cabeça baixa, retomou seu lugar sobre o coxim.
Então o Grão-Sacerdote lhe tocou a testa com um bastão de marfim, dizendo:
- Suprimo o passado.
A ti, Nara, somente o presente e o futuro existem de agora em diante.
És digna de nova vida!
Sê fiel e amorosa, a fim de te tornares livre.
Depois de Supramati e Nara terem bebido da mesma taça de vinho, ambos se levantaram.
- Segui o mesmo caminho!
Os laços de fogo vos reúnem e nada vos pode separar, pronunciou o velho.
Dois cavaleiros tomaram as mãos dos novos casados e os reconduziram até as portas da sala.
Os outros assistentes se separaram também.
- Agora podemos fruir nossa presença mútua até o jantar. - disse Nara com seu tom habitual, despreocupado e trocista.
Supramati se sentia muito feliz para notar esta intenção.
- Quer vir ao meu quarto? - perguntou ele alegremente.
- Por que não? Me leve lá.
Quando se acharam no quarto de Supramati o jovem homem atraiu Nara em um abraço, a beijou e murmurou:
- Não podia pensar que a felicidade me sorriria tão depressa!
- É felicidade conseguir a herança de um viúvo e de possuir, além disso, uma mulher imortal? - observou Nara mordaz, se desembaraçando do abraço de Supramati.
- Considero esta herança uma verdadeira felicidade.
E gostaria de resolver já com você o problema de nossa residência.
Actualmente Veneza não me parece propícia.
- Mas que pressa, Supramati, esquecendo o que nós combinamos!
O mundo não nos conhece senão como pessoas comuns.
A cerimónia de hoje não tem para os mortais nenhum sentido.
Até o dia em que meu luto tenha fim, nós devemos ficar estranhos um para o outro.
Depois celebraremos nosso noivado e nosso casamento como todos os homens.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:22 pm

Para o momento você viaja, visita as grandes capitais e se diverte.
- Como você é cruel, Nara, e justamente quando nos uniu a lei desta poderosa confraria!
Não insisto e respeito seu querer, mas nossa separação me será muito penosa...
- Você sempre se esquece que o elixir da vida não o privará de nenhum dos instintos do homem.
Nossa separação lhe parece penosa unicamente porque você ainda não viveu rico e bem-afortunado numa grande cidade, cheia de tentação e habitada por uma multidão de mulheres que vivem em libertinagem...
- Até você esquece que sou um homem casado.
Nara sorriu maliciosamente.
- Mas o casamento nunca foi obstáculo nem ao marido nem à esposa... você é ainda ingénuo, Supramati, e inexperiente...
Mas, paciência!
Você verá por si mesmo em que você se tornará com sua chegada a Paris...
você vai para o palácio que lhe legou Naraiana e o boato se espalha na capital - o nababo chegou!
Amigos acorrerão de todas partes, se esforçando para o arrastar aos prazeres...
Você ainda não viveu as alegrias de se sentir senhor dos bastidores do teatro, de organizar todos os divertimentos que pedem "essas mulheres".
E qual o mais nobre divertimento senão aquele de ajudar os talentos que pululam na boémia dos teatros?...
Supramati escutava mudo de espanto.
Nara falava com acento de amargura aguda e a chama sombria que brilhava em seu olhar, traía os sentimentos reprimidos que agora saíam dela com força, livremente.
Naraiana deveria ter ofendido profundamente esta mulher para lhe inspirar tal desprezo com respeito aos laços sagrados que unem dois seres.
Agora ele compreendia porque Nara não tinha chorado por seu marido quando soube de sua morte.
Os sons de um sino que chamava ao repasto da tarde interrompeu a conversa; ambos se dirigiram à sala de jantar onde os irmãos reunidos festejaram o casamento de Nara e Supramati.
Dois outros dias se escoaram como num sonho.
Supramati visitava o castelo misterioso cuja ordem grandiosa provocava seu entusiasmo.
Ele estava se ligando a todos aqueles irmãos.
E nesses entretenimentos com eles, cheios de interesse, as horas voavam como se fossem minutos.
Pouco antes de partirem, Nara teve uma última conversa com Supramati, aconselhando-o a ir directamente a Paris; ela própria iria a Veneza.
Deu a Supramati o endereço do palácio que Naraiana possuía na capital francesa.
Mas quando ele sugeriu se corresponder com ela, Nara recusou categoricamente.
Ele deveria se considerar absolutamente livre.
Após ter afectuosamente se despedido de Supramati, Nara se retirou; ele não mais a viu.
Desde que a noite caiu, Supramati, Isaac Laquedem e Dakhir subiram ao navio e logo a ilha do mistério se desvaneceu na neblina.
No dia seguinte de manhã, o Judeu Errante tinha misteriosamente desaparecido e o navio fantasma se dirigia rapidamente para as margens francesas.

(1) Graal, ou o Santo Graal, vaso de que Jesus Cristo se teria servido na última ceia e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue que escorreu do flanco de Jesus, ferido pelo centurião.
Nos séculos XII e XIII numerosos romances de cavalaria contam a busca do Graal pelos Cavaleiros do Rei Artur.
As obras mais conhecidas são as de Chrétien de Troyes, de Robert de Boron e de Wolfram von Eschenbach, que inspirou a Wagner seu "Partisal".
(Koogan - Larousse Selecções) N.T.
(2) Original francês; em francês actual é Sang. N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:22 pm

- V -

Eram aproximadamente seis horas quando Supramati desceu de seu compartimento e marchou lentamente para uma saída da gare Saint-Lazare em Paris.
O príncipe logo percebeu um valete vestido com a mesma libré que usavam os servidores de Naraiana em Veneza; Supramati o chamou.
E alguns minutos depois uma rápida e luxuosa limusine o levou até seu novo castelo.
Foi com sentimento delicioso de bem-estar particular e alegria que Supramati se encostou na maciez de seu carro.
Em verdade, não posso compreender como alguém pode se cansar de levar esta vida agradável, mesmo que ela durasse mil anos, quando se frui eternamente de saúde e se regozija no luxo.
Oh! se eu fosse pobre, com dor, nu, com fome, trabalhando sempre como uma besta de carga, certamente recusaria tal perpetuidade de experiência, pensou Supramati.
Nunca havia estado em Paris; também não tinha nenhuma ideia de onde ficava sua residência; olhando com curiosidade ao redor de si, Supramati adivinhou que se achava nos arrabaldes; bem depressa o automóvel virou em uma ala de carvalhos e entrou em um parque sombreado que bordejava um alto portão de bronze.
Depois um castelo estilo Luiz XIV se mostrou e o automóvel parou à frente da escadaria.
Todo pessoal doméstico estava perfilado na entrada para saudar seu senhor.
O intendente, um velho, abriu logo a Supramati todo o belo andar reservado às recepções; os apartamentos pessoais do príncipe estavam no primeiro andar.
Precedido pelo intendente e acompanhado de seu futuro criado de quarto, Supramati subiu a escada forrada com rico tapete e ornada de plantas raras, para visitar seus apartamentos.
Todo mobiliário correspondia ao estilo do edifício: tudo era da época do Grande Rei.
Ali, muito mais que em Veneza, tudo lembrava Naraiana.
Este deveria ter vivido muito mais em Paris que na Itália.
No salão todo revestido de seda branca, o retrato ao fundo do finado, em tamanho natural, estava incrustado em moldura de ouro maciço.
Um livro aberto tinha sido deixado sobre a mesa, no gabinete de trabalho.
Cartas enchiam a escrivaninha, umas já abertas, outras ainda fechadas.
Supramati viu uma folha de papel coberta de muitas linhas escritas; ali perto, uma pequena pilha de peças de ouro negligentemente jogadas.
O quarto de dormir guardava também os traços numerosos da permanência de seu último locatário.
Livros e revistas formavam pirâmide sobre a mesa-de-cabeceira e se misturavam com diversas bagatelas espalhadas sobre o divã e o canapé, perto da janela.
Essa desordem provava que os domésticos velavam atentamente para que seu senhor reencontrasse todas as coisas, exactamente da maneira como ele as havia deixado.
Depois de ter feito honra a um magnífico jantar, deu ordem para lhe trazerem sua roupa de quarto; Supramati agora estava munido de todo um guarda-roupa adquirido no porto onde ele tinha deixado o navio-fantasma de Dakhir; despediu seus valetes e ficou sozinho em seu gabinete de trabalho onde um bom fogo queimava na lareira.
Tendo percebido uma porta semifechada por um pesado reposteiro, Supramati a abriu e saiu em um balcão todo ornado de flores.
Fazia frio, um vento de outono assobiava, sacudindo as árvores já quase desnudadas; uma chuva fininha, intermitente, caía.
Mas Supramati se lembrou com pro funda satisfação que não mais precisava temer o tempo e se pôs a examinar a propriedade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:23 pm

Apesar da noite que se alastrava no parque, ele pôde ver ainda um magnífico jardim, estátuas brancas entre as árvores e um tanque onde devia correr uma fonte.
Abaixo se estendia um terraço bem maior que o balcão em que estava; era bordado com uma balaustrada de onde se via uma escada grande, em mármore branco, que descia para o parque.
Outras partes da casa que o príncipe ainda não conhecia deveriam dar para esse terraço.
"Em verdade sou um camponês que se tornou filho do rei", murmurou Supramati reentrando no quarto de dormir e se estirando no divã para fumar um charuto.
Seguindo com olhar distraído a fumaça do charuto que subia, ele pensou no que faria nessa cidade completamente estrangeira e onde não conhecia ninguém.
Naturalmente de início visitaria os museus e iria ao teatro.
Supramati se permitia estas alegrias mesmo no tempo de sua pobreza.
A única dificuldade residia agora na escolha, na ordem dada para alugar um camarote e se ligar a um grupo.
Verdadeiramente este divã tão agradável, com almofadas de veludo verde bordadas, era bem melhor que um caixão feito de pinho ou um ataúde solitário num cemitério.
Os poetas descrevem a morte com beleza, contudo sua aproximação faz tremer mesmo os mais corajosos.
Saindo de seu sonho, ele viu junto à parede uma cómoda em madeira rosa parecida demais com aquela de Veneza e isto o intrigou.
Ele pegou a chave que já lhe servira na Itália e tentou fazê-la entrar na fechadura.
A chave entrou na abertura, virou facilmente e a cómoda se abriu.
Feliz, o príncipe se reaproximou da mesa, pousou sobre ela um candelabro com velas acesas e empreendeu o exame dos objectos ali escondidos.
Uma caixinha de nácar8 cheia de peças de ouro e notas bancárias se apresentou primeiro a seus olhos.
Continuou a esquadrinhar a cómoda, espantado de ali ver uma quantidade de roupa íntima feminina que ele nunca pensaria estar ali.
Uma gaveta inteira contendo meias de seda, luvas, echarpes e lenços, um par de pantufas de cetim vermelho e até mesmo dois corpetes2 pretos, ornados de rendas de alto valor.
Uma outra gaveta se achava cheia de odores artificiais, toda uma colecção de leques e um cofrezinho de pérolas e diamantes.
"Já posso jurar que meu predecessor era um famoso estroina", murmurou Supramati, meneando a cabeça.
"Não me espanto que Nara tenha uma opinião tão desfavorável do casamento..."
Recolocou no móvel os objectos que tinha retirado, mas empurrou demasiadamente forte uma caixinha no fundo de uma gaveta e um estalido leve se ouviu; Supramati se inclinou curioso e viu com espanto que a borda metálica da caixinha tinha accionado uma mola escondida, fazendo abrir um compartimento secreto.
O príncipe afastou uma tábua e achou um cilindro branco.
Este pequeno volume tinha sido envolvido com pressa em uma roupa íntima de cambraia franjada de rendas e ao apertá-la se sentia um objecto duro e longo.
Supramati trouxe uma lâmpada, desfez o embrulho e empalideceu terrivelmente.
O objecto que tinha nas mãos era um penhoar feminino com mangas largas e abertas.
Na altura do peito se via um corte em forma de meia-lua, um rombo marcado de uma grande mancha vermelho-escura.
Toda a parte de baixo do penhoar e as rendas pareciam manchadas de sangue.
Um punhalzinho oriental, com lâmina curva de aço de Damasco e cabo guarnecido de pedras preciosas, pendia ainda colado ao penhoar e o punhal também tinha manchas escuras.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:23 pm

Tomado de estupor, o jovem doutor olhou as testemunhas mudas de um crime.
Mas quem tinha sido o assassino?
Só podia ser Naraiana, o proprietário da cómoda...
Então ele pôde matar?
Como pôde desaparecer essa mulher sem deixar suspeitas em ninguém?
Ter-na-iam procurado?
Enfim, quem era a vítima?
O móvel adquiriu aos olhos do príncipe um interesse novo.
Talvez em algum canto secreto houvesse outras indicações...
Impaciente, ávido de. saber, Supramati vasculhou tudo.
Pegou um pedaço de papel amassado e uma corrente de ouro que trazia um medalhão sobre o qual o nome "Liliana" tinha sido escrito com diamantes.
A jóia ainda tinha o retrato de uma mulher jovem, cuja beleza era muito original.
Olhos grandes, pretos, aveludados, com expressão de desprezo; um sorriso apaixonado nos lábios entreabertos.
Cabelos curtos, loiros, enquadravam uma cabecinha encantadora, lhe dando uma grande parecença com a célebre Hortência de Mancini.
O pedaço de papel era um cartaz - o assassino havia enxugado seus dedos ensanguentados na parte inferior, sendo as marcas ainda visíveis.
Supramati desdobrou o cartaz e leu:
"Em benefício da cantora, miss Liliana"; na folha estava grafado o ano anterior.
Supramati não entendeu porque Naraiana não tinha suprimido tão perigosas testemunhas de seu crime; o príncipe, perturbado, arrumou na gaveta secreta estas dolorosas recordações do drama sanguinolento e desconhecido.
Depois fechou cuidadosamente a cómoda e se deitou.
Mas por longo tempo não pôde dormir, pensando sempre em sua estranha e terrível descoberta.
Morgan se levantou tarde.
Tinha acabado sua primeira, refeição e lia os jornais quando o serviçal lhe trouxe um cartão-de-visita; surpreso, Supramati leu - Visconde Marcelo de Lormeil.
- Este senhor já veio outras vezes procurá-lo, Alteza, explicou o empregado.
- Há quanto tempo você serve aqui?
- Apenas há uma semana.
Disseram-me que todo o pessoal antigo foi substituído, até o Sr. James.
Agora, à espera da volta de Sua Alteza, a casa foi inteiramente reorganizada e James, saindo, nomeou o Sr. Jean Grenier como mordomo.
Supramati reflectiu.
O visconde de Lormeil deveria ser um amigo de Naraiana que não sabia ainda da morte deste.
Talvez este visconde poderia se tornar para ele agradável companhia.
E, graças a ele, Supramati teria algumas relações em Paris, onde a ninguém conhecia.
- Leve o visconde ao salão e lhe peça me esperar, disse o príncipe se levantando.
Vestiu-se depressa, depois se dirigiu ao salão; mas antes de entrar, olhou por trás do reposteiro.
O visconde era um homem de uns trinta anos, vestido com elegância muito apurada, andando de um lado a outro a passos largos, impaciente.
Podia parecer bonito, mas a palidez doentia, as olheiras e rugas precoces que cavavam seu rosto emurchecido, envelhecido antes da idade, estragavam seus traços bastante sedutores.
"Oh! eis um homem que deve gozar a vida plenamente!", pensou Supramati entrando no salão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:23 pm

Ouvindo o ruído da porta que se abria, o visconde, parado diante de um retrato, se voltou depressa e exclamou alegremente:
- Enfim você está de volta, Naraia...
- Ele se calou, vendo diante de si um estranho e se desculpou um tanto confuso.
- Queira me desculpar... me haviam dito que o Príncipe Naraiana tinha voltado da viagem... sou um de seus melhores amigos, por isso posso vir tão cedo.
- Não há o que desculpar, visconde! - fez Supramati sorrindo e lhe estendendo a mão.
Disseram-lhe a verdade - eu sou o Príncipe Naraiana Supramati, irmão caçula e herdeiro de seu finado amigo...
- Naraiana está morto?! - gaguejou o visconde se tornando branco como lençol.
É possível?!
- Pois é! É a dolorosa verdade.
O visconde pareceu transtornado; seus lábios tremiam.
Depois de um minuto de silêncio penoso, balbuciou perdido:
- Mas é incrível!...
Naraiana era forte, vigoroso, cheio de vida...
poderia viver cem anos...
- Até mais! respondeu Supramati, divertido interiormente pela resposta assim formulada.
Mas não foi doença que levou meu infortunado irmão...
Um acidente estúpido durante uma caçada nos Alpes.
Ele caiu e o tombo foi mortal... eu só vi seu corpo enregelado...
- Que infelicidade!
Fico desesperado por perder este amigo... sempre amável e obsequioso... um verdadeiro amigo, dizendo uma só palavra...
Eu apostava que este caro visconde tinha esperado impacientemente Naraiana e agora estava tão desesperado por estar precisando de dinheiro emprestado, pensou ironicamente Supramati.
Após ter feito seu hóspede se sentar, Morgan disse com amabilidade:
- Estou muito tocado pelo interesse que tem neste luto que me adveio... e espero, visconde, que não se recuse a manifestar a meu respeito a amizade que teve por meu finado irmão.
Cheguei recentemente à Europa...
não conheço ninguém em Paris... e eu seria muito feliz se aceitasse me apresentar à sociedade, ser meu cicerone nesta cidade...
Um espanto agradável se exprimiu no rosto pálido do visconde, e em seu coração renasceu a esperança de que essa nova amizade seria também dadivosa, como tinha sido com o finado Naraiana.
- Estou à sua disposição, príncipe!
Disponha de mim, respondeu o visconde.
- Desculpe-me, visconde... eu é que estou às suas ordens.
Espero que tenha a bondade de elaborar um programa... graças ao qual eu possa me orientar em Paris...
Gostaria de visitar as curiosidades da capital e... me divertir.
O visconde saltou electrizado.
- Esteja tranquilo, príncipe; vou-me ocupar desta questão e espero contentá-lo plenamente.
Por hoje eis o que lhe proponho:
Primeiramente passemos no Bosque de Bolonha; aí verá o "mundo" e o "meio-mundo".
Depois jantaremos em minha casa, se me der a honra de aceitar o convite.
Irei apresentá-lo então a dois jovens, excelentes amigos.
À tarde, enfim, iremos ao Music-hall.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:23 pm

Depois jantamos num restaurante onde lhe apresentarei algumas mulheres de teatro, artistas -meus amigos também.
Nós somos uma aristocracia... é o nosso papel proteger os talentos...
- O programa está muito carregado, talvez com poucas diversões...
meu luto ainda está recente, lembrou Supramati.
Mas não faz mal!
O programa me seduz; aceito e agradeço.
- Nesse caso, príncipe, me permita deixá-lo por uma meia hora.
Quero assegurar um camarote para nós.
- Oh! não tenha esse trabalho!
Vou dar ordens, respondeu Supramati, apertando um botão da campainha eléctrica.
Uma hora depois Supramati partia com o visconde.
O magnífico automóvel e o estrangeiro sentado perto do visconde Marcelo produziram certa impressão aos visitantes habituais do Bosque de Bolonha, sobretudo sobre as damas do "meio-mundo", que logo queimaram de desejo de conhecer o recém-chegado.
O visconde não se apressou em satisfazer a curiosidade das esplendidas pecadoras.
Pretextando umidade, ele dissuadiu Supramati de fazer uma caminhada a pé; depois convidou o companheiro para ir a sua casa.
O visconde ocupava um pequeno apartamento elegante de celibatário, no bulevar Haussmann; confortável e até mesmo luxuosamente mobiliado.
O dono da casa e seu hóspede conversavam e fumavam charutos, quando chegaram os amigos do visconde; este os apresentou logo a Supramati:
Barão Robert de Lomzak e Capitão Charles de Marny.
Os dois tinham conhecido Naraiana e ficaram estupefactos em saber da morte e espantados de ver seu herdeiro do qual nunca tinham ouvido falar.
Alguns instantes depois, enquanto o visconde mostrava a seu novo amigo sua colecção de porta-charutos e de cachimbos, o barão murmurou nos ouvidos do capitão:
- Este maldito visconde teve a oportunidade... de repente ele açambarcou o herdeiro do outro imbecil!... lembre do que vou dizer - graças a esta nova amizade ele pagará todas as suas dívidas.
- Muito provavelmente!... mas, por outro lado, entre nossas damas haverá uma verdadeira batalha... de quem vai ser este pedaço bem gordo que representa o nababo? - indagou o oficial sussurrando.
O jantar foi sumptuoso; vinhos os mais requintados correram à solta e Supramati soube aproveitá-los.
Conversas cada vez mais animadas à medida que se esvaziavam as garrafas, lhe foram muito desagradáveis.
A palavra mais livre, anedotas obscenas e o cinismo desavergonhado com o qual certas questões eram abordadas, chocaram o doutor, que ainda não tinha tido a ocasião de frequentar tal sociedade.
Estes homens solaparam a reputação de mulheres cujos nomes eram desconhecidos a Supramati.
Fizeram pouco de famílias honestas que tinham filhos demais.
O príncipe estava chocado e pronunciava o quanto menos palavras.
Após o jantar, todos passaram ao salão.
Vendo sobre a mesa alguns álbuns de fotografia, Supramati os examinou.
De repente se lembrou da fúnebre descoberta da noite; logo quis conhecer, na medida do possível, os detalhes deste misterioso drama.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:24 pm

Se a vítima - como tudo parecia indicar - tinha sido uma actriz e se sua fotografia se achava nesses álbuns, Supramati poderia conhecer sua biografia, saber o que se pensava de sua desaparição; certamente o visconde estava ao corrente da crónica dos bastidores.
Ele olhava em vão, uma após outra, as fotografias dos álbuns, mas aquela que ele procurava não ornava a colecção de celebridades do teatro.
O dono da casa que o observava se aproximou do jovem homem e lhe dando um álbum bem grande disse rindo:
- Veja e escolha, príncipe!
Você será acolhido em toda parte com alegria.
Aqui guardo especialmente todas as glórias teatrais e as estrelas do meio-mundo.
Certamente não encontrará aí a deslumbrante beleza, mas entre essas damas há algumas muito agradáveis e divertidas.
Supramati folheou as páginas do álbum.
Desta vez foi fácil encontrar a pessoa que o interessava.
Era bem sua cabeça, cabelos encaracolados e sorriso provocante; mas ela não vestia sua roupa de cerimónia, estava vestida de colombina.
- Esta me agrada, disse Supramati mostrando ao visconde o retrato.
Todos se curvaram com curiosidade e o capitão exclamou:
- Bah! A bela Liliana!
Eis o que significa a simpatia do sangue.
Seu finado irmão era doido por essa mulher.
- Você não tem chance, príncipe!
Liliana é a única mulher que você não pode possuir... ela o agrada tanto... a menos que você não despose sua cunhada... mas... mas você não viu a viúva de Naraiana no enterro de seu marido?
Ou talvez você não saiba que ele era casado?- observou o visconde.
- Naraiana era casado há longo tempo; conheço sua esposa...
É uma loura sedutora que não tem nem sombra de parecença com o original deste retrato, respondeu Supramati.
Lormeil e seus dois amigos trocaram olhares de espanto.
- Oh! que homem dissimulado!
Jamais disse uma palavra sobre seu casamento... e levava aqui a vida de um celibatário! - fez Lormeil, balançando a cabeça.
- Mas o que os fez crer que meu irmão queria desposar Liliana?
- A própria Liliana nos dizia que ela era noiva do príncipe e logo se tornaria sua esposa.
Depois, um belo dia ela desapareceu sem dizer adeus a ninguém, isso há umas seis semanas, antes da partida de Naraiana e nós acreditamos que, para evitar explicações inúteis, eles tenham partido para se casar em qualquer cantinho perdido por aí...
Em todo caso, um casamento com esta pequena cantora de opereta, cujo passado foi... ruidoso... muito ruidoso...
foi um monstruoso casamento morganático para o príncipe.
Até se disse que Naraiana era muito ciumento de um italiano que fazia a corte a Liliana.
Mais tarde esse italiano foi encontrado morto em seu leito...
Correram boatos que a partida de Liliana o tinha matado... mas eu presumo que ele bebeu muito, o que ocasionou um ataque apopléctico, findou o barão rindo.
- Oh! A gente pode sempre contar tolices que não têm o menor sentido...
Muitas vezes o príncipe viveu horas sombrias, durante as quais ele se fechava, ficando invisível, mesmo para seus melhores amigos...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 30, 2016 7:24 pm

A gente conclui disso que ele era feiticeiro, mahatma hindu, qualquer coisa desse género de magia.
Comentou-se também que ele deveria conhecer os segredos da fabricação do ouro, da conservação da eterna juventude...
Se eu o pusesse ao corrente de tudo o que se disse a respeito dele, iria ficar falando até amanhã... logo, vamos deixar de besteiras e vamos ao principal:
Liliana o agrada, e prevejo que a possuirá...
Como Naraiana não a desposou, ela voltará para nosso meio e será certamente muito feliz de encontrar um protector, tão bonito e generoso como o antigo...
Supramati não respondeu, nada disse.
Ele tinha distraidamente escutado tudo o que foi dito.
Todo seu pensamento se concentrava no sombrio drama do qual ele tinha descoberto traços.
Naraiana tinha matado a bela actriz, não havia mais dúvida.
Mas teria sido o ciúme o móvel do crime?
Era improvável! Enfim esse italiano, seu rival, tinha morrido de uma crise cardíaca ou foi vítima de um segundo assassinato?
Abismado em sua meditação, Supramati apenas tomou parte na conversação geral.
O príncipe só se apoderou de si quando o visconde declarou que era hora de irem para o teatro.
Supramati nunca havia visto e ouvido um music-hall.
Doente, obrigado a conter as despesas, ele preferia ouvir qualquer ópera séria ou um belo concerto.
O espectáculo ao qual ia assistir era então uma novidade para ele.
A plena liberdade de seus movimentos o divertia e, além disso, seu amor-próprio estava desvanecido pelo triunfo que o esperava. .
Com efeito, uma multidão de binóculos se focalizou sobre ele; olhares brilhantes e curiosos procuraram seu camarote e Supramati se divertia vaidosamente diante dessa primeira expressão pública de consideração por sua pessoa.
O modesto médico do asilo de loucos nunca tinha atraído sobre si a atenção geral quando ia ao teatro.
Agora esquecia que era príncipe e milionário e não sabia que, graças ao visconde e ao barão, que tinham numerosas relações de amizade entre os espectadores, o boato já se havia expandido da presença do príncipe Supramati, nababo hindu e herdeiro do príncipe Naraiana, muito conhecido no mundo dos prazeres...
Ao fim da apresentação, todo mundo se dirigiu até um restaurante de primeira ordem; as pequenas cabines particulares já tinham sido pedidas com antecedência e um jantar esperava o pessoal que assistira ao teatro.
Supramati se achava em excelente disposição de espírito.
Soube que haviam convidado atores e actrizes em seu nome para o jantar - ele sorriu!
- São talentos de primeira ordem, semideuses da arte e nossos amigos íntimos, disse o visconde.
Espero, caro príncipe, que você fique contente em conhecer gente célebre.
Os senhores chegaram primeiro.
O visconde apresentou Horace Daniel, artista dramático, e Rafael Pinson, da Comédia Francesa.
O primeiro era um homem de meia-idade, com cabeleira espessa, rico e bem preparado artisticamente.
O outro homem, porte alto e magro, tinha gestos afectados; seu rosto estava pintado...
O Sr. Pinson sempre representava o papel principal, o mocinho amoroso, que ele fazia muito bem.
Ambos pareciam encantados em conhecer o nababo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:16 pm

O visconde falou tão amavelmente de seus amigos, que Supramati deveria se sentir muito desvanecido em apertar a mão de personagens tão considerados.
Daniel insinuou na conversa que ele tinha conhecido muito intimamente o príncipe Naraiana, homem extraordinariamente generoso e protector declarado de artistas e talentos.
Pouco depois chegaram as senhoras que o visconde parecia ter convidado unicamente para que seu novo amigo pudesse fazer uma escolha; ele chamou Baretti de O Império; Pierrette de O Alcazar; e Camille Moucheron.
Todas eram belas e desejáveis.
Uma delas tinha o tipo judeu; mas o visconde segredou no ouvido de Supramati que a mãe da maravilhosa Pierrette era turca e que não tinha uma gota de sangue israelita, absolutamente.
Mucheron, que tinha dezanove anos, se mostrou em seguida a mais ousada; seu rosto tinha uma tez deslumbrante que fazia mais sobressair a beleza de seus grandes olhos azuis.
Ela se sentou perto de Supramati, e o fez sentir, sem dissimular, que queria conquistá-la.
Seus olhos fixavam o príncipe com paixão; depois se pôs furiosa, ameaçando suas rivais, parecendo dizer:
- Vocês ousem tirá-lo de mim e verão do que sou capaz.
O visconde notou as nuvens sombrias que começavam a obscurecer o horizonte e tomou medidas para que a hostilidade não se transformasse em batalha.
O champanhe não cessava de correr em ondas...
Excitado pelas conversas de seus amigos e pelos fogos cruzados de seus ímpetos de sobressair, Supramati, sempre tão sóbrio e dono de si mesmo, estava se embebedando, prometendo às heroínas do meio-mundo lhes fazer a corte e se divertia com sua rivalidade.
Ele já estava bastante alcoolizado, quando ofereceu a palma da vitória à Pierrette, a levando para casa em seu próprio carro, apesar do furor de Mucheron.
Era inútil dizer que a amável pecadora não deixou o príncipe sair; jantaram ainda uma vez, agora sozinhos.
E pela primeira vez na vida Supramati se abandonou aos prazeres do amor.
No dia seguinte de manhã, graças às qualidades mágicas do elixir da longa vida, Supramati se sentia bem-disposto e novo, como se houvesse tido uma noite de excelente repouso.
Seu espírito se desalcoolizou e seu corpo também; mas uma onda de vergonha coloriu seu rosto; é que ele se lembrou do que lhe disse Nara sobre as fraquezas do homem.
É, ela fazia bem em desprezá-lo sem o conhecer...
Um só dia em Paris e já ele tinha cometido infidelidade... e uma das mais indignas, pois que ela não foi causada pelo coração.
Ele havia agido pelo efeito do álcool.
Seu prazer não foi senão medíocre, pois a orgia organizada em sua honra lisonjeou seu amor-próprio, excitando todo seu ser sensível, outrora tão disciplinado.
Portanto, o sentimento de vergonha que ele provava mudou depressa em despeito contra Nara.
Se ela não tivesse adiado para um ano sua união definitiva com ele, poderiam viver modesta e honestamente em Veneza ou noutro lugar, e não seria necessário correr por restaurantes em companhia de mulheres perdidas.
Nara não o tinha querido; ele devia matar o tempo de uma maneira ou de outra...
E seu dever não era proteger os "talentos", conforme havia feito Naraiana?
Certamente ele não podia estimar ainda o valor daqueles que tinha conhecido apenas na véspera.
Os homens manifestaram grande cinismo; quanto às actrizes, jamais ele havia tido ocasião de se entreter com mulheres semelhantes.
"Oh! estas mulheres do meio-mundo são feiticeiras", havia lhe dito o visconde na véspera.
"Mas elas são ávidas...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:17 pm

Com todo dinheiro que exigem, seria possível fazer viver três famílias legítimas... e, querendo satisfazer seus gostos, os homens se arriscam a ir à ruína"
Lembrando essa frase, um sorriso veio aos lábios de Supramati; ele não arriscaria nem a ruína material, nem o esgotamento físico.
Mas, ele se divertiria moderadamente.
O visconde chegou ao meio-dia, com um programa excepcionalmente variado, mas Supramati lhe declarou que queria visitar a catedral de Notre Dame e o museu do Louvre; contudo aceitou ir à noite ao Alcazar.
- Depois vai jantar com Pierrette'? - perguntou o visconde, lhe jogando um olhar significativo.
- Oh! não. Gozar todos os dias da companhia da srta.
Pierrette seria aborrecido...
- Compreendo! Ainda se sente fatigado da noitada de ontem?
Ou talvez tenha se arrependido de não ter ido com Mucheron?
A pobre mocinha fez tudo para agradá-lo, observou Lormeil.
Mas é fácil reparar isso.
Logo vai tomar gosto, caro amigo, desta vida alegre, cheia de impressões sempre novas.
Considero que levou durante suas longas viagens, príncipe, uma existência muito asséptica; consagrou muito tempo à ciência e não o suficiente à vida real.
É necessário corrigir-se desse erro e a melhor escola, nesse ponto de vista, é a companhia dos artistas e das pecadoras do amor-livre.
Essas mulheres sabem viver.
Seu gosto refinado coloca marca especial de elegância sobre tudo que as cerca.
Sei que estas perigosas mágicas são olhadas com desprezo pelas mulheres casadas e honestas; dito de outra forma, mulheres de visão estreita, para quem o mundo se reduz ao serviço caseiro e cuidar de crianças.
O homem se destrói nesse meio...
- Você é casado para possuir uma opinião tão pouco lisonjeira da vida conjugal? - perguntou Supramati com um sorriso.
O rosto do visconde se obscureceu:
- Pois é, príncipe, adivinhou... eu desposei uma alcunhazinha de pensionato, muito inocente, que sonhava com o idílio eterno e formulava exigências descabidas.
Se eu recebesse um bilhete de amor que me houvesse endereçado uma mulher com quem eu flertasse, até bem inocentemente, minha esposa desmaiava, falava de meus "crimes" ruidosamente, em qualquer lugar, e exigia que eu me contentasse com sua companhia!...
Ridículo!... E ainda ela não tem gosto, não tem "chic".
Esforço-me sem resultado para fazê-la ter o sentido da verdadeira elegância...
Eu lhe mostrei nos teatros, toaletes e penteados... mas, Senhor!
Quando, como resultado, comparei a imitação com o original, só consegui rebentar de rir.
Faltava à minha mulher esse "não sei quê" que não se pode colher, que não se pode apanhar, que somente os artistas têm...
E ela logo detestou o teatro e desprezou as artistas que eu lhe havia indicado como modelos e contra as quais ela não podia lutar, por falta de concepções íntimas...
- Contudo, você vai me apresentar a ela, espero, à viscondessa?
Ontem ela estava ausente? - interrogou Supramati.
- Minha esposa não está em Paris; alguns meses depois do nascimento de nossa filha, ela fugiu para a Normandia, para casa dos parentes que a educaram.
Seu tio, que morreu no ano passado, era um idiota que pensava como as pessoas do tempo de Noé...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:17 pm

Sua tia também tem esse mesmo modo de pensar, vive como um mocho em seu castelo, sempre cheio de padres.
Minha esposa se agrada nesse meio; então eu não desejo sua volta, pois é impossível viver com ela.
Graças a Deus, já há três anos vivo uma vida de celibatário,
sem cuidados e com alegria, me permitindo satisfazer minha paixão pela música e pela arte dramática...
Mas deixemos este assunto triste, ajuntou ele, pegando Supramati pelo braço. Se Sua Alteza deseja, ofereço minha ajuda para comprar alguma bagatela a Pierrette.
- Não pensava em evitar essa "necessidade"; ficaria profundamente reconhecido se pudesse me indicar um bom joalheiro, respondeu o príncipe, enrubescendo ligeiramente.
- Nesse caso, tomo a mim essa compra. Levá-lo-ei a um joalheiro onde, por preços módicos, se podem comprar coisas bonitas.
O visconde manifestou um zelo extraordinário e se transportou, antes de tudo, com o príncipe a uma joalharia.
Seus conselhos foram tão excelentes, que a bagatela se tornou um adorno de brilhantes de cem mil francos; em contraparte, Supramati comprou a cada uma de suas outras actrizes um bracelete cujo preço era de cinco mil francos; seriam lembranças da noite passada, a vigília em conjunto.
Felizes pela compra efectuada, os dois amigos foram em seguida visitar a catedral de Notre Dame.
Supramati não sabia que o visconde ganhava dez por cento de comissão e esperava aumentar no futuro essa óptima fonte de renda.
O príncipe voltou para casa cedo.
Sob o pretexto de escrever umas cartas de negócio, declinou o oferecimento para jantar com Pierrette, que estava encantada com o presente que acabara de receber.
Com efeito, Supramati esperava seu notário no dia seguinte; queria estudar logo certos documentos que havia encontrado na escrivaninha de Naraiana.
Depois de ter estudado e arrumado os papéis necessários, Supramati foi ao seu escritório e se estendeu no divã baixo e macio, tornado já seu lugar de repouso preferido.
Agradaria a ele começar a ler um novo romance, mas já nas primeiras páginas jogou o livro e adormeceu.
Seu sono era leve, quando acordou com um grito abafado que se fez ouvir no quarto de dormir.
Supramati estremeceu vivamente.
Endireitou-se no divã percebendo distintamente ruído de cadeiras jogadas e depois a queda de um corpo pesado.
Ele saltou de seu divã e se precipitou ao quarto de dormir; mas tudo ali estava calmo, silencioso, e a luz da lâmpada permitia ver a ordem que reinava em toda a peça.
Então não havia dúvida possível - o ruído suspeito vinha de lá, do quarto.
O príncipe examinou minuciosamente todos os móveis e nada encontrando que pudesse explicar o fenómeno, se tranquilizou; talvez fosse vítima de uma alucinação auditiva e se deitou.
Não havia passado um quarto de hora, quando uma sensação indefinida, desagradável, o acordou de repente.
Um vento glacial soprava em seu rosto e algo o arrastava ao quarto.
Sacudiu sua sonolência, se endireitou no leito, o coração batendo violentamente.
Apoiada sobre a cómoda, uma mulher estava de pé, vestida com anágua e corpete.
Tinha uma das mãos junto ao flanco, e, através de seus dedos, Supramati podia ver correr um estreito fio de sangue.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:17 pm

- Quem é você?
O que você quer? - perguntou Supramati num tom imperativo.
Ao som de sua voz a mulher se voltou e o príncipe percebeu seu rosto pálido, os lábios azulados, cerrados e seus grandes olhos o fixaram de forma horrível.
Um minuto depois a mulher se desvaneceu, desaparecendo, se diluindo por trás da cómoda.
Mas Supramati tinha tido tempo de reconhecê-la.
Apesar da visão horrível daquele rosto de morte e do olhar desvairado, ele encontrou parecença segura: sua visitante nocturna tinha sido a bela Liliana, a vítima de Naraiana.
O príncipe conseguiu, com a mão que tremia, acender o comutador de luz, e a claridade se fez total no quarto.
Mas a emoção vivida tinha sido muito forte e ele só conseguiu dormir de madrugada.
A impressão produzida por aquela visão durou muitos dias; duas vezes ainda, lá pela meia-noite, a imagem do crime invisível apareceu: o grito abafado, o estertor de agonia, a queda de um corpo, o ruído de um móvel que cai e depois um silêncio de morte.
O quarto de dormir inspirou terror a Supramati.
Mas, envergonhado de seu medo, e temendo parecer ridículo diante dos empregados, por deixar sem motivo aquela peça luxuosa, ele resolveu não mudar de quarto de dormir.
E para evitar a hora fatal da evocação do crime, o príncipe saía bem tarde, voltando de madrugada e permitindo ao visconde conduzi-lo de um lugar de prazer a outro.

(1) Nácar: substância branca brilhante, com reflexos irisados, que se encontra no interior das conchas. N.T.
(2) Corpetes: sutiãs. N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:17 pm

- VI -

Uma semana se escoou desde a primeira visão nocturna.
Supramati desceu certa manhã ao parque e fez uma boa caminhada, naquele outubro de ar puro e gostoso, que ele sorvia com prazer.
O príncipe visitava pela primeira vez, em detalhe, sua propriedade.
Dos dois lados da casa e diante da fachada, o jardim ocupava um espaço bem grande, mas por trás do castelo, ele se estreitava.
Um muro muito alto ali tomava lugar da grade.
Moitas espessas cresciam naquele corredor verdejante.
Espantado com essa mudança no cenário, Supramati se dirigiu até o muro, desejando saber se as duas metades do parque se comunicavam com o fundo do castelo.
Observou que não; o muro virava bruscamente, vindo a ser a continuação da casa.
Supramati levantou maquinalmente a cabeça.
Percebeu então duas janelas quase inteiramente recobertas pelo verde, cujas persianas estavam baixadas.
Ora, o príncipe nunca havia visto aquele quarto sombrio, dando suas janelas para o muro...
Primeiramente não pôde se orientar - onde se poderia achar aquela câmara que lhe era desconhecida?
Após longa reflexão, achou que deveria ser contígua a seu quarto de dormir, se bem que no muro não' houvesse porta.
Supramati começou a supor ter descoberto então um canto isolado, íntimo, onde meditava Naraiana; por isso teria feito plantar lá castanheiros, para não ver um muro nu diante dos olhos.
Muito interessado, Supramati voltou para dentro e se pôs a examinar minuciosamente a câmara de dormir.
A lembrança daquela vítima nocturna fez nascer em seu pensamento que Naraiana havia escondido o cadáver nessa peça secreta.
A entrada devia se achar atrás da cómoda com gavetinhas.
Mas, apesar de todas os esforças, ele nada descobriu.
À tarde não. pôde cochilar - se sentia agitado demais para ler; as janelas do quarto misterioso já estavam obsidiando seu espírito; jogou a revista que folheava e se aconchegou às almofadas do divã.
A luz da lâmpada se reflectia docemente no ouro esmaecido das pinturas da parede.
Mas, de repente, o olhar distraído do príncipe parou sobre um ponto mais brilhante, ao centro de uma grande flor.
Levantou maquinalmente a mão e estremeceu ao sentir sob seus dedos uma pequena saliência metálica.
Saltou apressado e empurrou o botão, certo de que haveria qualquer mala secreta.
Não se enganou; o botão cedeu sob a pressão e um pano de parede, escondido sob os forros da tapeçaria, de maneira a não ser percebido, girou silenciosamente sobre dobradiças invisíveis.
Uma abertura apareceu, tão. escura que nada se via.
"É a peça misteriosa cujas janelas conheço", pensou o príncipe, calçando depressa as pantufas e jogando sabre os ombros um chambre.
Estava extremamente ansioso para ver o quarto secreto e o que Naraiana tinha interesse em esconder.
Sabia, graças a Nara, que o palácio.
inteirinho, pertencendo a seu marido finado, desde o século do Grande Rei Luís XIV, havia sido. decorado segundo o gosto e as necessidades de Naraiana que o comprou durante a infância do rei.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:18 pm

Supramati pegou uma lanterna e franqueou a soleira da peça; a entrada estava fechada com uma espessa cortina.
Ele se achou em um quarto de dimensões medianas, mobiliado no mais refinado estilo rococó.
O pano que forrava as paredes era de seda azul, semeado de guirlandas de flores e pequenos cupidos.
No chão, tapeçaria d'aubusson cujo fundo branco se ornava de rosas.
Em frente à entrada, entre as janelas, o príncipe percebeu uma pequena mesa de trabalho maravilhosamente trabalhada em ouro e nácar.
Bem perto dela, na parede, um retrato de Naraiana, vestido num costume sumptuoso da época de Luís XIV: gibão, camisa com jabô de rendinhas, cabelos empoados, a mão apoiada ao cabo de ouro de uma espada fina.
Sob as rendas de um largo punho de camisa, brilhante, parecida a uma gota de sangue, o anel misterioso da Confraria do Graal.
Naraiana esplendia em beleza e um brilho demoníaco saía como chispas de seus olhos negros.
Supramati admirou por momentos os traços clássicos de seu predecessor.
Depois, soltando um profundo suspiro, se voltou e olhou ao redor de si.
O quarto estava realmente em desordem, cadeira revirada, uma caixa aberta no tapete; sobre a escrivaninha, diversos papéis jogados ao acaso.
Acendendo velas de um candelabro, se dirigiu ao quarto contíguo, muito menor que o primeiro; era um quarto feminino - um budoá - com os adereços que aí sempre se encontram, forrado com magníficas rendas.
Havia um espelho enquadrado em ouro esmaltado; paredes e móveis eram revestidos de cetim branco bordado em ouro.
Panos do mesmo tecido rodeavam o leito, posto sobre um estrado recoberto de tapete.
O leito estava desfeito, cobertas jogadas a esmo, uma das quais amassada, jogada ao chão e suja de sangue.
Uma porta entreaberta se achava ao pé do leito e dava a uma entradinha com degraus atapetados; lâmpadas, agora extintas, deviam iluminar esses degraus.
Lá embaixo, na escada, havia uma porta com uma chave na fechadura; ele abriu e olhou ao redor.
Um beco sem saída, estreito, se alongava diante dele, bordejado por paredes dos dois lados.
O príncipe não continuou seu exame, voltando para o budoá.
Após diversas verificações, levantou enfim um reposteiro na cabeceira da cama e uma porta apareceu; não havia chave.
Supramati tentou abri-la, depois tentou quebrá-la, mas não conseguiu; então procurou algum instrumento para forçar a fechadura; nada achou no budoá; voltou ao salão e viu sobre a mesa uma faca comprida e sólida.
Não encontrou explicação para a presença da lâmina no salão, mas não reflectiu longamente sobre esse achado, porque tinha pressa em abrir a porta secreta; pressentia estar ali uma pista de novas provas do crime.
A fechadura cedeu com alguns esforços e a porta se abriu.
Um jacto de ar frio e saturado de um perfume sufocante lhe bateu no rosto com uma violência tal que quase desmaiou. Recuou precipitadamente.
Esta impressão logo se dissipou.
Supramati levantou a luz que trazia, avançou e ficou petrificado, sem poder se mexer, olhando estupefacto para uma longa urna que parecia um caixão de defunto, pois era inteiramente recoberta de tecido negro; em seu interior, uma espessa guirlanda de flores, tão frescas como se tivessem sido colhidas naquele momento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:18 pm

Nas extremidades do ataúde, quatro candelabros em estilo antigo, onde queimavam ainda os morrões com fraca luminosidade azulada.
Aclarada pela vacilante luminosidade das velas, esse quarto mortuário tinha um aspecto sinistro, e um tremor de medo supersticioso tomou o príncipe, quando olhou ao derredor de si.
Ao fundo da peça percebeu uma banheira e bem junto dela uma escada de mármore onde havia uma roupa branca manchada de sangue e uma bacia com esponjas.
Supramati lutou um instante com o terror que o invadia, depois se aproximou resolutamente do caixão.
Precisava saber o que se achava lá dentro, e ninguém o interditaria amanhã para revelar o drama às autoridades judiciárias.
Examinou o pano negro onde se viam sinais cabalísticos bordados em prata.
Quis tirá-los - sua mão tremia - e o pano escorregou de repente, como se estivesse sobre uma superfície bem polida, e caiu no chão.
Ele deu um passo para trás, soltando um grito surdo, deixando cair a lanterna.
Um caixão de cristal estava diante dele: dentro, sobre um colchão de seda branca, uma mulher tinha sido deitada, vestida em um sumptuoso penhoar branco; sua cabeça repousava sobre uma almofada ornada de rendas.
O príncipe viu enfim o original do retrato - a bela Liliana.
Mas ela não era tão terrível e desfigurada como na visão nocturna.
Apesar de sua brancura de alabastro, o corpo não dava a impressão de um cadáver; parecia uma jovem flexível, como uma pessoa dormindo.
A boca pequena entreaberta trazia o traço de seu sofrimento; os cílios longos e pretos faziam sombra em sua face transparente; uma das mãos estava passivamente pousada no peito.
Nenhum ferimento; a ferida se achava escondida sob as dobras da roupa; dos quadris até os pés o corpo tinha sido recoberto de rosas, violetas, lírios e outras flores odorantes, belas e frescas, como se estivessem ainda no jardim.
Sob o império de um encantamento, Supramati admirou a magnífica criatura e se abaixou para melhor examinar Liliana; viu então que ela estava mergulhada em um banho de líquido incolor que enchia o caixão de cristal inteiramente.
Que líquido era esse que conservava não somente o corpo humano, mas também as flores, com toda sua cor, sua vida?
Mistério, mistério parecido àquele que tinha levado Naraiana a guardar ali o corpo da mulher assassinada por ele e à qual ele não pôde sobreviver.
Pensativo, emocionado, Supramati se dirigiu a uma cadeira para pegar um objecto que acabava de notar:
havia pisado em alguma coisa dura e se abaixou para ver o que era; reconheceu um frasco semelhante àquele que ele possuía, contendo o elixir da vida.
Então adivinhou o drama que se havia passado naquele quarto.
Após ter ferido mortalmente a jovem mulher, Naraiana quis salvá-la graças à essência da vida.
Mas por que não conseguiu?
O socorro veio muito tarde ou Naraiana ainda não conhecia todas as virtudes do licor misterioso e dos meios de se servir dele, como no presente caso?
A extrema desordem daquela peça demonstrava que Naraiana havia agido com precipitação, não tendo podido em seguida arrumar tudo e destruir os traços do crime.
Atravessando o budoá, Supramati viu sobre uma cadeira que estava junto da cama, uma camisola branca manchada de sangue.
Ali deveria ter sido o primeiro lugar onde Naraiana levou a vítima após o crime.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:18 pm

Perturbado, Supramati se sentou à mesa de trabalho e contemplou o retrato de seu predecessor, se indagando como um ser iniciado a todos os segredos extraordinários poderia ter sido arrastado pela paixão, ao disparate de cometer tal crime.
Depois considerou os papéis desordenados sobre a mesa.
Encontrou um caderno grande de capa dura, parecido com aquele que viu em Veneza, onde havia escritos sobre a ciência oculta.
Uma pilha de cartas banais, contas de fornecedores, folhas de papel ainda em branco e envelopes, se achavam ainda sobre a mesa.
Uma página escrita pela metade atraiu o olhar do príncipe, um borrão de tinta manchando a parte inferior; o tinteiro devia ter sido emborcado porque outra mancha escura sujava o azul do pequeno tapete.
Supramati olhou distraidamente as primeiras linhas escritas e logo se interessou pela leitura - era o rascunho de uma carta de Naraiana.
"Mestre:
Eu matei, o que prova que, malgrado a força inesgotável de vida que corre em minha veias, permaneço escravo desprezível da carne, como todo mundo.
Conheci a cólera!
Como ousa esta mulher preferir um outro?!
E não sou o primeiro!
Além disso, não fiz todo o possível para fazê-la feliz?
Com o tempo ela teria envelhecido, ele morreria e todos os laços que nos uniam teriam rompido por si mesmos.
Mas não pensei nisso... Liliana, não absolutamente.
Nara, imortal como eu... teremos tempo para nos amar - Nara e eu.
Queria salvar Liliana e corri para buscar o frasco, mas quando cheguei ela já estava inerte.
Agora, na imobilidade da morte, ela parece viva, se bem que nenhum meio possa tirá-la desse estado.
O corpo permanece flexível e firme; mas não tem o frio glacial da morte, mas também não dá sinal de vida.
Que devo fazer, Mestre, antes que venha em meu auxílio e me explique esse mistério?
Experimento uma inquietação horrível.
Sujei minhas mãos com o sangue impuro dessa mulher.
Antes de sua chegada, Mestre, utilizei o meio de manter as flores guardando toda sua seiva de vida - e elas não se fanam! Já me servi algumas vezes deste meio, presenteei a alguém com essas flores e me consideraram um mago.
Assim, também mergulhei Liliana nessa substância - viva ou morta, não sei.
Onde o sopro da vida para que eu possa perceber?
Poderoso Mestre! terá de me dizer, senão..."1
A carta acabava com essas palavras.
Naraiana teria escrito outra?
Que acontecimento imprevisto o teria impedido de terminar a missiva?...
Naraiana partiu em seguida para não mais voltar e todas essas questões ficaram sem resposta.
"Senhor! Mas em que labirinto misterioso eu estou!" - murmurou Supramati, colocando a carta em seu chambre.
Apagou as velas de seus candelabros, voltou a seu quarto e fechou cuidadosamente o reposteiro da parede.
Mas não pôde dormir com essa vizinhança sinistra; foi para seu gabinete e se deitou no divã.
Os pensamentos passavam em turbilhão em seu cérebro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:18 pm

Primeiramente se lembrou do desejo de advertir as autoridades policiais.
Mas com que direito o faria?
A essência misteriosa da vida tinha papel naquele crime.
Não seria transgredir as regras da confraria, sendo ele um dos membros, relatar aos profanos essa pequena parte do perigoso segredo?
Após muda reflexão, resolveu se calar até o dia em que essa questão pudesse ser esclarecida por um membro competente da confraria.
Os dias sequentes se passaram em divertimentos ordenados pelo visconde.
Pierrette tomou conta do príncipe tanto quanto pôde, usando de todos os artifícios da coqueteria para conquistá-lo definitivamente.
Uma noite, o visconde e sua amiga, Supramati e Pierrette terminavam gostosamente seu dia em um restaurante da moda.
Pierrette já se considerava a principal amante do jovem nababo, se tornando cada vez mais exigente e ardilosa.
Ao final do jantar, com muita champanhe lhe subindo à cabeça, sua imprudência ultrapassou os limites.
Cantou uma cançãozinha licenciosa que o visconde aplaudiu com furor; depois, sem notar que o príncipe não manifestou qualquer entusiasmo, Pierrette lhe reclamou novo presente.
Enfim, ela reclamou que já era hora de ele lhe comprar uma mansão, mesmo porque naquela manhã ela tinha visto no jornal o anúncio de venda de uma belíssima casa, a preço reduzido.
- Que são quinhentos ou seiscentos mil francos para você?
Para mim é uma fortuna.
Você tem de assegurar meu futuro, disse ela acariciando a face do príncipe.
Um sorriso enigmático passou pelo rosto dele.
- Tem razão, devo assegurar seu futuro e já estou me ocupando disso; somente no lugar de comprar uma mansão, depositei uma quantia num banco.
A renda dessa soma constitui uma boa pensão... tal quantia lhe será restituída quando fizer quarenta e cinco anos.
Quando esteja mais velha e seus adoradores tenham desaparecido, terá necessidade de um lugar para descansar, se recolher e lembrar a mocidade.
Pierrette empalideceu terrivelmente, e seu olhar não podia sair do príncipe.
- Está fazendo pouco de mim, certamente! - falou ela indecisa.
- De forma alguma. Jovem e bonita não lhe faltará homem para amá-la e ampará-la... mas quando envelheça, que ninguém mais a queira, vai precisar da pensão que lhe deixo.
A palidez da actriz se mudou bruscamente em vermelho que lhe queimava o rosto e, com olhar inflamado, ergueu-se diante de Supramati, os punhos nos quadris, gritando:
- Saiba, senhor selvagem, que é muito insolente!
Não lhe pedi para assegurar minha velhice.
Quem sabe se atingirei uma idade avançada?
Eu não o amo mais por esta injúria, avarento! canibal hindu!
Sua voz tremia de raiva.
O visconde e sua amiga davam gargalhadas.
Supramati ficou muito calmo.
Com amável sorriso, tirou da carteira uma folha de papel dobrada e a estendeu à jovem.
- Não seja ingrata, queridinha!
Dia virá em que este dinheiro lhe será útil, até muito útil!
Pegue e esconda este documento e lembre, no futuro, o lugar onde possa apanhá-lo e ter uma vida honesta e tranquila.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:19 pm

Pierrette estava fora de si, não se dominava; estava petrificada.
Após um minuto de espera, Supramati reabriu sua carteira e já se aprestava a recolocar ali o documento quando, súbito, a actriz, como uma pantera, se jogou sobre ele, lhe tirando o papel e o escondendo no corpete.
- Avarento! três vezes avarento! declarou ela com desprezo.
O finado Naraiana era um cavalheiro, nunca teria mergulhado nesses pensamentos.
Cobria de ouro e de diamantes as mulheres que amava, nas quais bebia a juventude e a beleza.
E ele não gritaria como um religioso trapista "Eu a salvo da morte!"...
Ele nunca evocaria diante delas o espectro odioso do fim.
- Mas, meu bem, Pierrette, eu não a impeço de me abandonar por um adorador mais cavalheiresco e generoso, remarcou Supramati com serenidade.
Esbelta e graciosa, a felina Pierrette se jogou em seu pescoço e lhe beijou as faces.
- Monstro! Se eu não o amasse, lhe teria mostrado a porta.
Quanto a injúria que me fez, um amor verdadeiro suporta e perdoa tudo...
E a paz foi concluída diante do riso homérico de todos os presentes - Pierrette ganhou a partida.

(1) A mente aflita escreve o bilhete aparentemente sem sentido. N.T.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:19 pm

- VII -

Supramati voltou muito tarde para casa. Já era seu hábito.
A vizinhança com um cadáver o tinha obrigado a abandonar o quarto de dormir.
Malgrado sua resolução de enfrentar todas as alegrias da vida e de esvaziar o copo das delícias, o príncipe não tomava grande gosto por esses prazeres e se perguntava, com espanto, como Naraiana tinha podido viver durante meses em semelhante meio e ficar tão aborrecido a ponto de cometer um crime de morte?!
O assassinato de Liliana ficava para Supramati como um mistério indecifrável.
Naquela noite o príncipe se ressentia mais visivelmente das impressões penosas.
Era-lhe insuportável lembrar Pierrette e, subitamente, sentiu que seu espírito tinha necessidade de calma, de silêncio e de solidão, a fim de se concentrar, de reflectir livremente nos grandes problemas que deveria resolver, estudando, enfim, os dois cadernos deixados por Naraiana.
Deveria partir, deixar Paris já no dia seguinte!
O pensamento da decepção de todas essas criaturas que viviam de sua fortuna, incluindo o visconde, o divertiu.
Chamou o empregado e deu ordem para trazer sua pequena valise e de arrumar ali os objectos indispensáveis.
Queria abandonar Paris com o trem das seis horas da manhã, sozinho, sem a companhia de nenhum doméstico curioso ou malévolo.
Supramati desejava se tornar de novo o viajante inapercebido, independente e livre que já tinha sido.
Supramati declarou ao intendente que ele partiria por duas semanas, sozinho, e lhe pedia conduzi-lo à estação.
E foi com um sentimento de inexprimível bem-estar que ele tomou lugar em um compartimento reservado de primeira classe.
Deus seja louvado!
O visconde não mais era importante com o seu programa inepto; não veria mais os rostos pálidos e fatigados dos parasitas que o sugavam como sanguessugas.
Era preciso resolver agora a questão - ir para onde?
A escolha era vasta, mais de cinquenta propriedades se encontravam sob o nome de Naraiana, vilas e castelos que ele possuía em todos os recantos do mundo.
Supramati desdobrou a folha e leu todos os nomes, entusiasmado com a ordem metódica da enumeração, a data da aquisição, o capital representado, o quanto dava de lucro esperado, e o ano da última visita de Naraiana, tudo isso seguindo o nome de cada propriedade.
Uma nota especial dizia onde o inventário tinha sido escondido e onde se achava o local provido de ouro e pedras preciosas para o caso de não haver dinheiro num banco.
Verdadeiramente Naraiana tinha sido administrador notável.
Ele despendia grandes quantias, mas não gostava de ser roubado - pensou Supramati, sorrindo.
Eu deveria seguir seu exemplo, pois sua previdência é digna de ser imitada, mostrando quanto ele venceu dificuldades financeiras.
É preciso que eu visite o maior número possível de minhas propriedades enquanto ainda estou livre.
Mas, começar por onde?
A escolha era difícil...
Supramati releu a lista das propriedades europeias.
O nome de um antigo castelo construído nas bordas do Reno lhe chamou a atenção.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:19 pm

Resolveu ir para lá.
"Deve ser interessante, pensou ele; gosto muito desses velhos ninhos feudais, empoleirados no cume das rochas, como um falcão.
Eles guardam o passado perdido e as lendas os cercam duma auréola poética".
"O castelo pertence a Naraiana há três séculos, o que representa uma garantia suficiente para que nenhum melhoramento moderno tenha sido feito ali.
E é para lá que eu vou".
Em Colónia o príncipe tomou um barco para continuar a viagem.
Era necessário descer em uma localidade pouco frequentada onde o vapor não parava, a não ser para servir algum passageiro.
Supramati se encontrou perto de um vilarejo cujas casinhas graciosas se viam através das folhagens amareladas das árvores, já começando a se desnudar.
Mais ao longe, numa rocha escarpada que parecia inacessível, havia um castelo com torres grossas, cercado de uma parede de ameias com uma ponte levadiça.
No vilarejo Supramati indagou se alguém poderia conduzi-lo ao castelo com sua valise.
Um velho camponês que consertava um tonel consentiu em levá-lo.
Era uma bela manhã de novembro em que o ar fresco, puro, perfumado, deixava o príncipe numa feliz disposição de espírito; o caminho era estreito e íngreme, e se subia devagar, indo para o castelo.
O silêncio do estrangeiro logo pesou ao camponês e este começou a conversar com Supramati, lhe perguntando se era parente do intendente.
O príncipe aproveitou para saber sobre os habitantes do castelo.
- Existe um intendente, um cozinheiro, dois lacaios, uma despenseira e minha sobrinha Annchen, que lava pratos.
É por ela que sei o que se passa no velho ninho de fantasmas, declarou o camponês.
- Ah! Existem fantasmas lá?
Que interessante! - fez Supramati.
- É natural!
Todo pardieiro é visitado por espectros... lá... o dono e o intendente fazem comércio com o diabo - os dois!
- Arre! Como sabe disso?
- Ora! Todo mundo sabe disso!
Primeiro o proprietário traz um nome diabólico que é impossível articular.
Foi embora há dois anos, ninguém sabe onde está agora...
Ora, ele ficou no castelo três anos... depois ninguém mais o viu; uns dizem que ele é bonito e jovem, outros afirmam que é velho... no mínimo oitenta anos... se ele vem hoje, mudam todos os empregados, menos o intendente.
Até o intendente, ele também, parece muito esquisito; tristonho, silencioso, quase nunca fala; ou faz a volta ao redor do castelo ou está fechado em seu quarto.
Ele deve ser velho... no mínimo oitenta anos; pois veio a este país, quando meu avô ainda vivia... mas ele tem um ar robusto, como se tivesse não mais de cinquenta anos... e eu posso jurar que só com a ajuda de Satã se consegue não envelhecer...
- Não penso assim... não considero a velhice robusta, forte, como um dom de Satã.
- É... se vê bem que o senhor não é daqui... por isso que não acredita.
Aqui compreendemos muito bem as coisas.
Não faz muito tempo e o diabo fez das suas!
Todos sabem.
Soube por Annchen que é franca e nunca mente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:19 pm

- Que aconteceu?
- Deve saber que existe uma velha capela no castelo... por uma porta que permanece sempre fechada se pode subir a uma pequena torre onde certamente se encontra um sino.
Pois veja! De repente, há três meses, no meio da noite, esse sino se pôs a tocar...
Todo mundo se agitou e correu à capela:
estava como sempre fechada a chave, e o sino tocando sem parar...
Annchen me jurou que nunca em sua vida escutou som assim... aquilo dilacerava a alma...
Dava para acreditar que feridos e moribundos gemiam...
O intendente correu também.
Estava terrivelmente pálido...
Em suas mãos se via um molho de chaves...
Ele abriu as portas com as mãos tremendo... e imagine!...
Todas as velas estavam acesas no altar!
O velho caiu de joelhos e se pôs a rezar... mas todos os domésticos fugiram e quiseram deixar o lugar...
No entanto, desistiram disso... se renderam aos argumentos do intendente... ficaram... o ordenado é bom e aqui quase não se acha emprego.
Supramati escutava com o mais vivo interesse.
Este acontecimento nocturno deveria ter anunciado a morte de Naraiana; o facto em si mesmo era estranho.
Mas o príncipe não mais se admirava de nada desde que ele próprio vivia em todo aquele mundo oculto.
Chegaram à esplanada onde se achava o castelo.
Desse lado um grande fosso o cercava; a ponte levadiça estava baixada.
- Precisa tocar o sino e daí abrem, disse o camponês.
Quando Supramati o pagou ricamente e lhe disse que podia voltar, o homem decidiu aproveitar a ocasião para ver um pouco a sobrinha.
Tocaram o sino.
Passaram-se alguns minutos, uma janela se abriu e um velho servidor disse com voz severa:
- Quem é? O que quer?
Este castelo não pode ser visitado por turistas.
- Chame o intendente e lhe diga que venho da parte de seu senhor, respondeu Supramati em tom imperativo.
Ainda uns minutos se escoaram, as grandes portas se abriram com ruído, e um homem vestido de negro veio com passo rápido ao encontro dos que chegavam.
- Vem em nome do Mestre, senhor?
Seja bem-vindo!
Disse fazendo uma saudação respeitosa.
- Conduza-me ao gabinete do príncipe!
Devo falar com você! - falou Supramati, fixando o intendente, o examinando.
Era um homem robusto, de alta estatura, com cinquenta anos aproximadamente.
Sua cabeleira e sua barba começavam a embranquecer, mas a tez de seu rosto, o brilho de seus olhinhos cinzentos e a ligeireza de seu andar, lhe davam um ar jovem.
O intendente seguia na frente, mostrando com respeito o caminho a seu hóspede.
Atravessaram um pequeno pátio pavimentado, depois um largo vestíbulo que outrora teria servido de sala de armas.
O estilo do castelo mostrava ter sido construído no século XII ou XIII.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:19 pm

As paredes eram muito espessas, os tectos baixos e as janelas estreitas em seus nichos profundos, parecendo seteiras.
Os móveis, maciços e pesados, obedeciam ao mesmo estilo.
Esculturas de carvalho escurecido cobriam as paredes.
Na sala grande, cujas paredes se ornavam de retratos antigos e armaduras, Supramati parou e, pousando sua mão no ombro do intendente, disse:
- Eu não vim para cá em nome de seu antigo senhor; estou aqui por minha própria vontade.
Sou Naraiana Supramati, o irmão caçula e único herdeiro do finado príncipe.
Você sabe, certamente, que ele morreu, e que o sino da capela soou na noite de sua morte.
O velho intendente deu um olhar significativo ao príncipe.
- Sim, eu sei!
Mas não é possível que ele esteja morto, ele que não deveria morrer - NUNCA!... balbuciou ele.
Mas logo se refez.
Tomou rapidamente a mão de Supramati e a beijou com veneração.
- Seja bem-vindo, Mestre!
E que o Senhor bendiga sua entrada nesta casa!
Tudo está pronto para o acolher.
Tudo está sempre pronto para receber o príncipe, mesmo que chegue inopinadamente.
Supramati olhou com surpresa o homem que estava diante dele e em quem tinha reparado o clarão inapreensível, que se encontra nos olhos de todos os companheiros do Graal.
- Como sabia que Naraiana não deveria morrer como os outros?
perguntou ele.
- Como não saberia disso?
Eu já o venho servindo desde a época das cruzadas.
O Senhor da Vida nos esqueceu - a mim e a meu Mestre - entre os homens, respondeu o intendente com um suspiro.
Agora que ele morreu, enfim, espero que minha vez venha. Mas quando?... .
- Falaremos disso com mais detalhes e você me contará sua história, meu velho amigo.
Neste momento me conduza ao quarto que ocupava meu finado irmão, e dê ordem de me servir o café da manhã, se ainda é possível.
Os apartamentos de Naraiana se compunham de três peças, uma das quais a biblioteca que conduzia a uma das torres.
Era uma grande sala circular, iluminada por janelas com vidros coloridos.
As paredes eram de carvalho escuro; as portas e os vãos recobertos de pesados reposteiros, dando à câmara um ar sombrio e severo.
Sobre as modernas prateleiras de livros, os antigos infolios encapados de couro; em um canto, um velho relógio.
No meio da sala, uma mesa cercada de cadeiras com encosto alto e trabalhado.
A décima câmara era uma espécie de salão forrado de gobelins1 onde figuravam cenas da Bíblia.
Em um dos nichos, um armário em estilo gótico com colunas admiráveis, representando os doze apóstolos.
Cadeiras em forma de bancos e largas poltronas com o estofamento de almofadas azuis, bordadas de prata.
Um retrato de Naraiana estava pendurado na parede, vestido com roupa luxuosa, costume da época de François Ier2.
No quarto de dormir, sobre um estrado, sob um baldaquino com armários, se encontrava um grande leito recoberto de panos.
As cadeiras eram forradas de um tecido semelhante a estes últimos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 31, 2016 8:20 pm

Tudo formava uma atmosfera de antiguidade, ligeiramente descolorida, empanada pelo tempo, mas em muito bom estado, produzindo uma impressão agradável de conforto.
E depois, como se estivesse no início de novembro e as velhas paredes exalassem frio e umidade, um acolhedor fogaréu queimava nas altas lareiras, expandindo uma atmosfera quente e mais agradável que nas câmaras escuras.
- O jantar será servido em um quarto de hora, príncipe; estará pronto às sete horas, disse o intendente e saiu saudando.
Assim que Supramati ficou só, teve tempo de olhar superficialmente ao redor de si, mas já o intendente vinha com uma grande bandeja de prata que ele pousou, sob ordem do príncipe, sobre a mesa da biblioteca.
- Como você se chama, caro amigo, e há quanto tempo serve a meu irmão? - perguntou Supramati, pegando um pedaço de galinha frita.
Sou Jean Tartoz... fui servidor do finado príncipe desde as Cruzadas.
Oh! já vi o mundo e vivi numerosas aventuras, respondeu o intendente com um suspiro.
- Esta noite e amanhã, Tartoz, vai me contar tudo com detalhes; depois do jantar, gostaria de visitar o castelo - disse Supramati enchendo de vinho espesso como xarope uma taça antiga sobre a qual as armas estavam desenhadas.
Que vinho esquisito!... muito bom... mas muito espesso.
- Este vinho tem trezentos anos.
A reserva está conservada em nossas adegas não menos providas que aquelas de alguns mosteiros, respondeu o intendente, piscando o olho com altivez.
A chave das adegas nunca me deixam e eu renovo os tonéis assim que eles começam a esvaziar.
- Você não se aborrece aqui, nesta solidão, meu pobre Tartoz?
- Nem sempre vivi aqui, Alteza.
Fiquei muito tempo no Tirol, onde o finado príncipe possuía um castelo que não mais existe...
Também estive na Bretanha...
Estou aqui já há trezentos anos.
Além disso, saio bastante...
Oh! chego a esquecer a soma dos anos!
Para não atrair a atenção, e a fim de que não me tomem pelo diabo, o que seria perigosíssimo antigamente, pois até poderiam me levar à fogueira, eu recorro a ardis, à astúcia, a diversas medidas.
Mudo os empregados, emprego outros, deixo crescer a barba, raspo a barba...
até tinjo os cabelos...
Parto e volto com nome de outro intendente...
E todos morrem ao meu redor... e como tenho o mínimo de ligação com os habitantes da vila, me esquecem e ninguém pode crer que eu sou sempre o mesmo...
Não posso me queixar; me porto como um homem de vinte anos; nunca fico doente.
Meu mestre sempre foi bom comigo...
Muitas vezes viveu aqui dois ou três anos seguidos, quando tinha necessidade de calma e solidão.
Mas, Senhor, como pôde morrer ELE que não devia morrer?
Não posso compreender, disse Tartoz; e, pensativo, pôs a cabeça entre as mãos.
- Ele estava cansado de viver e teve a sede da tranquilidade da tumba, considerou tristemente Supramati.
A imortalidade tem seus inconvenientes.
- Sim, certamente! nisso há profunda razão...
Eu próprio sofro eternamente... o sofrimento de sobreviver àqueles a quem se ama.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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