Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 6 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:13 pm

Quantas vezes já me casei!...
Quantos filhos já tive!... e enterrei uns após os outros... até a minha raça se extinguiu... e eu permaneço...
- É doloroso... pois nesta vida solitária a gente não se liga aos demais.
O intendente enxugou os olhos, Supramati baixou a cabeça.
A tristeza e a angústia que, por momentos atenazava o mordomo, de novo se apoderou dele.
Mas, logo dominando esse sentimento, empurrou a cadeira e se levantou.
- Mostre-me o castelo, meu amigo; eu gosto muito desses velhos ninhos feudais.
Eles respiram sempre os tempos de antanho... e este castelo parece ser bem conservado...
- Há cem anos, fizeram modificações profundas, Seu finado irmão consertou tudo com cuidado, sem permitir nenhuma troca de estilo. Por um ou dois séculos este castelo vai permanecer sólido.
O príncipe visitou o castelo com vivo interesse; cada uma das salas, das torres, das galerias abobadadas possuía sua lenda que Tartoz resumia.
Mas por mais breve que fosse seu comentário, Supramati notava que as mulheres ali sempre desempenharam papel principal, tanto quanto os antigos senhores do castelo, excepto Naraiana.
No andar inferior, Supramati passou em revista a colecção das armas, pouco numerosas, mas constituídas de objectos raros e caros.
Daí desceram ao subterrâneo; Tartoz mostrou ao príncipe as celas da prisão e as câmaras isoladas, cavadas na rocha.
Duas portas estavam fechadas a chave e, fazendo o sinal da cruz, o intendente declarou que aqueles lugares horríveis tinham história trágica...
Supramati teve o desejo de penetrar nas câmaras que possuíam o segredo de algum drama sangrento do passado, mas diante da expressão preocupada e inquieta de seu intendente, se dominou.
Tartoz, querendo mudar o curso da conversação, conduziu rapidamente o príncipe à adega.
Era uma grande peça subterrânea; dois pilares maciços sustentavam o forro arqueado e tonéis da altura de um homem se encontravam enfileirados junto à parede; estavam envelhecidos pelo tempo; uma pequena prancha de cobre pregada sobre cada um dizia o nome e a idade do vinho; nos cantos, sobre montes de areia, garrafas tornadas cinzentas pelo tempo estavam devidamente fichadas.
No meio da cave, o príncipe notou uma mesa redonda com alguns bancos; uma lâmpada a óleo presa por cadeia de ferro caía do tecto e sua luz vacilante se reflectia sobre uma grande bandeja de prata e sobre copos de ouro pousados sobre a mesa.
- Oh! Você já tinha iluminado a cave em minha honra! - disse Supramati sorrindo.
- Não, Alteza!
Eu nunca deixo esta adega na obscuridade.
Mas queira se sentar, descanse e beba muitos copos do vinho mais velho daqui.
O seu finado irmão o fazia sempre para festejar sua chegada.
Ele descia a esta cave, eu o servia do melhor vinho e nós bebíamos à saúde dele... se bem que - Deus seja louvado! - ele se achava sempre forte e vigoroso.
- Mas, meu caro Tartoz, se eu me sirvo aqui, após ter tomado todo aquele vinho que tomei no jantar, vou ficar bêbado, fez Supramati rindo.
- Agora se traiu, príncipe.
Sua "imortalidade" é recente... senão saberia que não pode ficar bêbado - respondeu Tartoz, com um sorriso malicioso...
- Seja... então me dê...
Somente quero que beba comigo.
O príncipe tomou um copo de velho vinho perfumado que correu por suas veias como se fosse fogo.
- Excelente! Um verdadeiro néctar!
Você disse que Naraiana gostava desse vinho, Tartoz?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:13 pm

- Certamente.
Quando estava no castelo, ele descia muitas vezes aqui.
E quando chegou a última vez, há dez anos, para se casar, ele...
- Como? Naraiana era casado há dez anos? - exclamou Supramati espantado.
Mas com quem ele casou?
A princesa Nara?
- Não, ela se chamava Eleanora.
Ele a trouxe aqui e um velho padre os casou secretamente na capela do castelo.
Depois partiram; um ano e meio depois voltaram...
Mas a princesa estava doente... à morte... e, numa manhã, foi encontrada morta em seu leito... foi enterrada aqui, no jazigo da família...
A condessa Gisele morreu também aqui, connosco...
- Quem era a condessa Gisele?
- A filha de um conde bávaro.
Foi durante a Guerra dos Trinta Anos.
O príncipe se encontrava então nas fileiras da armada de Wallenstein, sob um falso nome.
A condessa Gisele ficou perdidamente apaixonada por ele e quando soube que o príncipe havia partido para o campo de Wallenstein, ela se disfarçou em pajem e o acompanhou nos diferentes movimentos do exército.
O finado príncipe ficou tocado com esse devotamento e como a guerra lhe pesava muito, voltou aqui com a condessa e a desposou.
Eu a vejo ainda, como se ela estivesse viva, no dia em que chegou...
Vestida de negro, mas linda como uma rainha; a tez de seu rosto tinha a brancura da neve e os olhos brilhavam como diamantes.
Viveram felizes durante cinco ou seis anos; depois a condessa Gisele ficou doente, e morreu ao pôr um filho no mundo.
A criança só sobreviveu alguns meses à sua mãe.
Ambos estão enterrados no jazigo.
- Não houve outras mulheres, bem próximas de Naraiana, fora Gisele e Eleonora, que tenham sido enterradas no jazigo? - perguntou o príncipe, cada vez mais surpreso.
- Sim! A bela sarracena Isoline e uma outra...
Ele veio do Tirol com elas, quando o raio queimou o castelo lá de baixo.
- Naraiana trouxe a sarracena depois das Cruzadas, suponho?
- Precisamente. Na época da Terceira Cruzada, quando eu entrei a seu serviço.
O príncipe tomou a cruz; mas tinha outro nome - Cavaleiro Radek.
Ele reuniu e armou um destacamento de arqueiros a cavalos.
Eu estava nesse número... sou óptimo na arte de atirar com arbaleta...3
Primeiramente nós seguimos o imperador Barbarroxa... depois, eu não sei por que, meu mestre passou para as fileiras do rei da Inglaterra, Richard.
Eu me distingui no cerco de Santa Joana d'Arc e pensava ter duas vezes salvado a vida de meu mestre; ignorava ainda que ele era imortal.
A primeira vez, durante uma quente misturada com os infiéis, um cavaleiro sarraceno lhe abriu a cabeça com uma cimitarra...4
Minha espada aparou o golpe.
A segunda vez, uma prisioneira sarracena quis envenenar o príncipe... eu consegui impedir esse ato odioso.
O príncipe riu dessa tentativa de morte, mas me declarou estar reconhecido.
Ele cuidou de mim quando fui gravemente ferido...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:13 pm

Sentia-me cada vez pior e, numa noite, acreditei ser chegada a minha hora.
O príncipe se aproximou e me olhou longamente com ar preocupado.
Depois se ajoelhou perto de meu leito e murmurou:
"- Você quer sarar e viver longamente... tão longamente que vai perder a conta dos anos?
E não irá me maldizer?
"Não compreendi toda a significação de suas palavras, mas eu queria viver.
Então respondi:
"- Oh! Mestre, me cure e eu o bendirei sempre, por toda minha vida.
"Então ele me deu um vinho... nunca experimentei coisa igual.
Tudo parecia queimar e rebentar em mim... e eu perdi a consciência...
Quando acordei, estava tão forte e bem-disposto como estou hoje...
"Voltando à Europa, o príncipe trouxe a bela Sarracena que logo morreu.
Então ele desposou Isoline, que ele tinha conhecido no palácio de um herzog5 austríaco.
"- Quanto a mim, veja, eu vivo, vivo... se bem que às vezes me sinto muito cansado de viver.
De outra forma, não posso me queixar... o príncipe me retribuía sempre largamente.
Tenho tido o direito de habitar qualquer de seus domínios - ele sempre me honrou com sua confiança...
Muitas vezes uma horrível tristeza me torturava... e durante essas épocas de negro desespero, cheguei a ser monge e passei trinta anos num mosteiro, mas essa existência me passou finalmente; fugi para reencontrar meu mestre.
Ele escarneceu de mim e me casou em seguida...
"Para purificá-lo da tonsura e da sotaina", disse ele rindo.
O intendente se calou e se abismou em suas recordações.
Supramati também se ensimesmou.
Depois, se refazendo rapidamente, ele disse:
- Tartoz! Chegou a conhecer a princesa Nara, a viúva de Naraiana?
Tartoz estremeceu, depois respondeu em voz baixa:
- Se está pensando na bailarina de Benares, sim.
Ela era loira de olhos pretos.
Não sei se é dela de que está falando.
- Uma loira com olhos negros? - repetiu Supramati emocionado.
Depois, indicando um dos bancos, ele ajuntou:
- Sente, Tartoz, e me conte tudo em detalhes o que você sabe da bailarina de Benares.
- Isso aconteceu recentemente... cento e oitenta anos quando muito, começou o intendente após ter reflectido.
Eu vivia então na Bretanha, num outro castelo do príncipe e era casado com a corajosa Celestina.
Éramos muito felizes.
Nosso primeiro filho acabava de completar um ano... quando o príncipe chegou inopinadamente.
Devo acrescentar que ele tinha estado ausente mais de dois anos.
Onde havia estado? Ignoro.
Chegou à noite, numa carruagem com muda de cavalos, já que tinha pressa em chegar.
Desceu trazendo em seus braços uma forma longa, dissimulada nas dobras de seu manto.
Minha mulher foi chamada e depois me contou que o príncipe havia trazido uma mocinha bem nova, linda como um anjo, mas que parecia estar muito doente, pois ela estava desmaiada... e foi preciso mais de uma hora de esforços para a reanimar.
"A mocinha ficou gravemente doente durante muitas semanas.
O príncipe parecia amá-la muito, não parando de cuidar dela, ajudado por minha esposa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:14 pm

"Mais tarde cheguei a ver por mim mesmo a estranha mocinha.
Ela era de facto diabolicamente linda... e tão boa e sensível que eu e minha mulher nos ligamos a ela, sobretudo quando nos púnhamos os três a conversar.
Então soubemos que era uma bailarina nativa de Benares.
Primeiramente a mocinha se exprimia numa língua desconhecida que somente o príncipe compreendia.
Quando entrou em convalescença, recusou-se claramente a vestir as roupas que lhe ofereceu minha mulher.
A jovenzinha continuava acamada.
Então o príncipe ordenou abrir a mala que havia chegado com tecidos e roupa que nunca havíamos visto, mas sabíamos ser orientais; saias bordadas em ouro e prata, echarpes matizadas e estranhas pedras preciosas unidas por longos fios perolados.
"A jovem desconhecida, que já se levantava, estava entusiasmada.
Ela se arrumou imediatamente, rodeou seus tornozelos e braços com pesados braceletes e prometeu dançar assim que se sentisse forte sobre as pernas.
Mais tarde ela dançou e cantou acompanhada de um instrumento que parecia uma guitarra.
"O príncipe a adorava; mas ela, coisa estranha, mal suportava a presença dele e o manifestava abertamente.
No começo ele ria e a beijava à força, enquanto ela o repelia; depois suas relações se distenderam e as querelas explodiram.
Os dois falavam uma língua que não se entendia, mas os gestos e o tom, diziam que as palavras eram ferinas, amargas.
"Uma noite ela fugiu de seu quarto de dormir e pediu guarida junto a nós.
Ela tremia de febre e nos fez compreender, por gestos e palavras pronunciadas em sua língua terrível, que ela não queria o príncipe e que ele lhe inspirava horror.
Alguns dias depois fomos acordados de novo; dessa vez era o príncipe quem gritava, e nós nos precipitamos ao jardim, pois os gritos vinham de lá.
"Havia um grande tanque no parque.
A infeliz bailarina, fugindo do príncipe, se tinha precipitado na água.
"Ele parecia ter-se atirado ali também, pois estava molhado da cabeça aos pés, mas não pôde encontrá-la.
Ignorava o lugar onde ela se tinha afogado.
Imediatamente deu ordem de fazer procuras, prometendo uma fortuna a quem lhe conseguisse trazer o corpo da jovem.
Nunca vi o príncipe naquele estado de raiva: estava pálido, batia os pés no chão e gritava blasfémias.
"Mais de uma hora se escoou em vãs procuras; os croques6 e as redes nada traziam à tona.
Enfim, Théophile, o ajudante do jardineiro, tocou o corpo e o trouxe à terra.
"A bailarina parecia morta, e nem poderia ser de outra forma, pois ela passou mais de uma hora sob a água.
Seu rosto estava azulado, seus membros gelados, sua roupa leve molhava seu corpo e a água escorria de seus cabelos.
"O príncipe se jogou sobre ela como um louco; suas mãos tremiam, seus dentes batiam.
Ele não permitia que ninguém chegasse perto e a levou, ele mesmo, ao laboratório.
- Então ele tem lá um laboratório?
Qual? - interrompeu Supramati impressionado de estupor, diante das novas revelações sobre Naraiana.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:14 pm

- Um laboratório de alquimia.
Ele se fechava ali muitas vezes por dois ou três dias, não permitindo que ninguém o incomodasse.
Nós presumíamos que ele fabricasse ouro com a ajuda do demónio.
Todos temíamos o lugar e o evitávamos.
"O príncipe ali levou a bailarina.
Que ele fez?
Por quais encantamentos ele a pôde ressuscitar?
Ninguém soube e eu também ignoro.
Três dias depois ele reapareceu com a bailarina viva, mas parecia que ela não tinha uma gota de sangue correndo em suas veias; a mocinha estava
transparente e a expressão de seus olhos me gelou!
"Pouco tempo depois eu voltei para cá; o príncipe e a hindu também chegaram.
Ele me contou que a havia desposado.
Ela não mais o recusou, mas permaneceu triste e apática, como uma mulher condenada à morte.
Três meses depois o príncipe partiu levando a princesa.
Desde esse dia não mais ouvi falar a respeito dela e nem do que aconteceu a ela.
"Acho que ela morreu, pois o príncipe se casou outra vez no castelo.
Mal me lembro do nome da bailarina, mas algo me lembra da princesa, sua viúva, cujo nome o senhor pronunciou...
Se eu a visse, eu a reconheceria.
Talvez ela viva ainda, se o príncipe deu a ela a mesma substância que deu a mim...
Poderia acontecer...
"Ainda pode ser que o príncipe se tenha casado outra vez aqui, escondendo esse casamento secreto à princesa.
Sua última esposa só saiu deste castelo para ser enterrada no jazigo.
Supramati subiu ao seu quarto abismado em pensamentos que a narrativa de Tartoz tinha suscitado.
Retornou na manhã seguinte a visita a outra parte do castelo.
Queria ficar sozinho.
Quanto mais pensava em Naraiana, mais este ser lhe parecia impenetrável.
Os retratos que havia em Veneza eram certamente lembranças daquelas mulheres efémeras, todas logo ceifadas pela morte.
"Mas porque estas jovens vidas morriam?
O sopro poderoso de existência imortal deste homem as queimara a ponto de as matar, ao invés de as guardar vivas?
Era possível que ele não tivesse filhos, algum herdeiro directo?
Até legou todos seus bens a um estranho!...
Todas estas questões ficavam sem resposta.
Aliás, nesse momento, o único interesse de Supramati era:
Nara e a bailarina eram a mesma pessoa?
Ele o saberia quando ela se tornasse sua esposa.
Supramati não poderia crer que a criatura inteligente e culta, com aquele olhar endiabrado, pudesse ser uma doce e ignorante dançarina de Benares.
Será que ela poderia mudar com o tempo?
E ele se perguntava, receoso, como se organizaria a vida íntima de ambos, no futuro.
Seria Nara capaz de um amor sincero e profundo, e poderia ela estar satisfeita com uma vida familiar calma e honesta, que ele considerava o ideal de felicidade?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:14 pm

Conseguiu dormir bem tarde e na manhã seguinte todas suas impressões estavam apaziguadas; continuou com um interesse aumentado a visita pelo castelo.
Primeiramente Tartoz e ele se retiraram para um pequeno jardim cercado de paredes e plantado de árvores seculares; depois subiram na mais alta torre do castelo, de onde se estendia uma vista maravilhosa.
Quando Supramati exprimiu seu entusiasmo, Tartoz esclareceu:
- Sim, é bonita! mas o príncipe possuía... quero dizer, os senhores têm na Escócia um velho castelo que prefiro a este!...
Aquele é construído na borda do oceano, sobre um alto rochedo.
A solidão e a serenidade reinam: ali, entre o céu e a água.
Quando o tempo está bom, o sol resplandece, brilha sobre os cimos das vagas e as aves do mar voam ao redor do balcão.
O príncipe gostava muito dessa costa, sobretudo quando as horas negras o acabrunhavam, cheias de desesperanças.
Então ele adorava a tempestade.
Quando as forças se desencadeavam com furor, as altas ondas, se transformando em montanhas líquidas se batiam com estrondo sobre as rochas, o príncipe se sentia bem e não abandonava o balcão suspenso sobre o abismo.
- Sim, sua alma sofria, e ele não podia achar calma em parte alguma, observou tristemente Supramati.
Os dois visitaram enfim a capela e depois o jazigo, onde o príncipe havia enterrado suas numerosas mulheres.
Este jazigo era uma vasta sala subterrânea cavada na rocha.
Um altar de pedra estava ao fundo, com um grande crucifixo em mármore branco, diante do qual estava acesa uma lâmpada.
Os túmulos, cuja antiguidade, forma e ornamentos se referiam aos diferentes séculos, se estendiam em duas fileiras.
- Se quiser ver as infortunadas princesas mortas, aqui nesta caixa se encontram as chaves dos túmulos.
Tartoz indicou uma caixa de madeira preta, com cantos trabalhados em prata, pousada sobre os degraus do altar.
Supramati hesitou um instante.
A curiosidade de conhecer as vítimas de seu predecessor foi mais forte, todavia não desejava tirar a calma dessas criaturas que repousavam para sempre.
- Oh! Estas tumbas agora só tem ossos, fez ele indeciso.
- Acho que não! Jamais ousei ver, mas sei que o príncipe, a cada uma de suas vindas ao castelo, descia aqui e abria o sepulcro!
Certamente ele queria ver as mulheres que havia amado e não seus esqueletos...
Convencido por esse argumento, Supramati lhe pediu trazer a caixa preta.
Ela continha chaves de todas as formas e tamanhos.
- Antes de abrir os túmulos, precisa iluminar os candelabros que se acham no nicho lá em baixo.
É assim que ele fazia sempre.
- Faça isso, meu amigo, respondeu o príncipe, pegando a chave mais antiga.
Logo as vinte e quatro velas ardiam nos antigos candelabros, iluminando amplamente o interior da tumba que Supramati acabava de abrir.
Com a mão tremendo, o príncipe levantou a mortalha de seda e logo um grito de espanto e entusiasmo lhe irrompeu da boca.
Uma mulher jovem, de beleza maravilhosa, parecia dormir diante dele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:14 pm

Estava elegantemente vestida e até metade de seu corpo estava recoberta de flores, tão frescas como se elas acabassem de ser colhidas.
Um perfume estranho e sufocante subia em lufadas da tumba.
Era semelhante àquele que o príncipe havia sentido na câmara de Liliana.
Nas demais tumbas, as mesmas flores e o mesmo perfume.
No último túmulo repousava Eleonora, que Naraiana tinha esposado quando de sua última viagem ao castelo.
Ela também estava admirável de beleza.
Supramati perguntou espantado por que Naraiana não tinha se servido do elixir da vida para dar vida imortal ao menos a uma dessas mulheres que havia amado.
- Eleonora não queria morrer... a coitadinha!
Amava tanto o príncipe que ficava louca com a ideia de se separar dele.
Ele também chorava e a abraçava, dizendo:
"Seria uma bênção do céu morrer com você, Eleonora!", contou Tartoz, depois de ter dito os nomes de todas as lindas princesas mortas.
Após terminar sua visita ao castelo e ter jantado, Supramati exprimiu a Tartoz seu espanto de não ter visto um laboratório, como aquele que o príncipe tinha na Bretanha.
- O laboratório existe.
A entrada é na biblioteca, mas a porta está fechada, respondeu o intendente.
Quando Supramati, muito interessado, pediu a Tartoz lhe mostrar a porta, este respondeu que ignorava o segredo que fazia abrir a entrada.
O finado príncipe o proibia de entrar ali.
No entanto, Tartoz consentiu em indicar o lugar da porta.
Ambos se dirigiram logo para a biblioteca e Supramati procurou afanosamente a entrada secreta.
O lugar indicado pelo intendente era recoberto por prateleiras carregadas de livros.
O príncipe deveria tirá-los dali, todos, para examinar a parede; levou mais de duas horas para encontrar a abertura, habilmente dissimulada nas prateleiras.
Enfim a porta se abriu e Supramati penetrou num salão sem janelas.
Em uma lâmpada suspensa no tecto brilhava uma pequena chama azul, semelhante àquela que aclarava o túmulo de Liliana.
Expendia uma luz fraca, mas a chama se apagou assim que Supramati se aproximou.
Ele trouxe então um candelabro e examinou aquele lugar estranho.
No fundo da sala se achava uma larga lareira com foles, retortas e outros instrumentos de alquimia.
Perto de uma parede viu uma mesa e sobre ela um grosso in-fólio encadernado em couro, preso por uma corrente de ferro.
Um pouco mais longe se encontrava um armário cheio de saquinhos de couro de cores diferentes, frascos de todas formas, pequenas caixas e rolos de pergaminho.
Alguns tripés se alinhavam ao longo da parede, com instrumentos que Supramati não conhecia.
Mas o que chamou muito sua atenção foram dois objectos no fundo da sala.
Um era uma bandeja triangular de madeira, onde estava fixada uma larga espada; a ponta dirigida para o tecto.
A lâmina brilhante do sabre estava coberta de inscrições incompreensíveis para Supramati.
O segundo objecto representava uma grande folha metálica, em forma de gongo, fixada também num aparador. Isso tudo estava dentro de um círculo vermelho no qual, à excepção de noventa graus, estavam escritos signos cabalísticos no chão cuja madeira formava desenhos.
Supramati nunca havia visto o metal com o qual era feito este gongo.
Parecia transparente, depois opaco e ainda reflectia todas as cores do arco-íris.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:14 pm

Querendo examinar de perto o objecto estranho, o príncipe entrou no círculo vermelho traçado no chão e se inclinou sobre a folha metálica.
Tocou-a, olhou minuciosamente as bordas, o meio, mas esse exame não lhe revelou nenhum mistério.
A face era polida; vendo-a de perto, parecia de cor leitosa uniforme, mas recuando um pouco, logo parecia que reverberava nas diversas nuances das cores do prisma.
Repentinamente lhe veio o desejo de bater nesse metal desconhecido para lhe ouvir o som.
Pegou o martelo e deu um pequeno golpe.
Escutou um gemido prolongado, sonoro, trémulo, depois o ruído leve que se mudava em assobio - como a voz do vento varrendo folhas secas.
Em seguida veio o estrépito de uma queda d'água, caindo sobre pedras, e o estalido seco de areia quando turbilhona, açoitando uma vidraça.
Todos estes ruídos se sucederam com rapidez e o príncipe não pôde perceber bem suas variações.
Desejando as perceber melhor, deu um segundo golpe com o martelo.
Dessa vez conseguiu um trovão longínquo, depois ouviu vozes humanas, tilintar de armas, o galope de centenas de cavalos.
Todos estes sons se aproximavam rapidamente e pareciam enfim tão perto que Supramati se voltou e tombou enfraquecido de espanto e horror.
O círculo vermelho dentro do qual ele estava queimava agora com uma chama esverdeada e fora do círculo todas as coisas tinham mudado de aspecto.
Tudo o que havia no quarto e até mesmo as paredes tinham desaparecido, para dar lugar a um vale largo e montanhoso, ao fundo do qual se achava uma fortaleza cercada de alta muralha ameada.
A paisagem estava iluminada por uma luz frouxa, azulada, fosforescente, e nesta semi-iluminosidade, o príncipe percebeu colunas guerreiras indo para o assalto já colocando escadas.
Na entrada, um destacamento de soldados se apressava no socorro a seus companheiros.
A dois passos de Supramati, quase o roçando, os soldados armados de lanças marchavam, seguidos de arqueiros e dos cavaleiros de ferro.
Todos traziam sobre suas cotas de malha as camisas em pano branco com cruzes vermelhas sobre o peito ou sobre a espádua.
Uma luz fosforescente brilhava sobre as armaduras e os capacetes de ferro, deixando ver rostos barbudos e olhos brilhando de energia selvagem e vontade inabalável.
A uma certa distância desta massa de gente, um grupo de cavaleiros avançava a galope.
Um homem de alta estatura se achava no comando, com expressão orgulhosa, enérgica.
Seu olhar respirava a severidade cruel, entusiasmo, ousadia.
Seu capacete, enfeitado de plumas que flutuavam ao vento, era encimado por uma coroa real; um cavaleiro trazendo no estandarte as armas da Inglaterra, o seguia.
Vinha em seguida toda a comitiva real, com vestes luxuosas, armadura ricas e as coroas heráldicas indicando a alta fidalguia destes cavaleiros.
A terra tremia sob os cascos dos cavalos; estes passavam tão perto de Supramati que ele teria podido os tocar.
Ouvia a respiração entrecortada e queimante dos homens e dos animais e percebia o cheiro rude dessa massa de cavaleiros, pajens e guerreiros que desfilavam diante dele, estandartes flutuando, resplandecendo tudo em seus costumes coloridos e pitorescos da Idade Média.
Um ruído surdo de vozes e frases entrecortadas de antiga língua inglesa veio a seus ouvidos.
Subitamente o príncipe fremiu. Lá embaixo, sobre um magnífico cavalo preto, viu um cavaleiro cujo rosto lhe era conhecido.
Não tinha a pesada cota de malha - tinha uma roupa sarracena, flexível e leve, como se fosse seda, um casquete leve também e sem viseira, recobrindo sua cabeleira encaracolada, negra e espessa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:15 pm

Os grandes olhos sombrios do cavaleiro fixaram Supramati com uma expressão indefinível.
Era Naraiana. Quando chegou perto do jovem doutor, o cavalo empinou e lançou sobre o príncipe um punhado de areia.
Supramati fechou os olhos e recuou.
Quando os reabriu, a visão tinha desaparecido; o príncipe estava no laboratório, mas não mais sozinho.
Do outro lado do círculo de fogo se achava um monge magro e de alta estatura, com rosto de asceta.
Seu olhar profundo e sombrio fixava o príncipe com severidade.
Levantou sua mão ossuda e pronunciou com voz surda:
- Ignorante insensato!
Ousa tocar com a mão insolente nos segredos que não compreende!
Se teu corpo não fosse invulnerável à acção dos elementos, esta hora seria a última de tua existência.
Desgraça àquele que evoca o mundo invisível sem ser instruído!
Presta atenção, e antes de ter recebido a iniciação, não ponhas a mão nestes instrumentos desconhecidos de ti e que conduzem o homem às vias obscuras do mundo oculto.
Horrorizado, o príncipe percebeu uma multidão repugnante que se apertava atrás do monge.
Criaturas odiosas, de pé, agachadas ou rastejantes, meio homens meio animais.
Tinham rostos bestiais, manifestando crueldade infernal.
O monge tinha em sua mão um sino que ele tocou.
Os sons foram tão penetrantes, que o príncipe teve uma vertigem e a seu derredor tudo obscureceu; lhe pareceu que um turbilhão de ar o arrancava do chão e ele rolou no espaço, perdendo a consciência.
Quando reabriu os olhos, se viu estendido fora do círculo vermelho.
Sua cabeça estava pesada, todo seu corpo dolorido e a peça onde se achava provocava nele um medo tão extraordinário, que ele saiu apressado e fechou a porta.
Tinha decidido nunca mais abrir aquela porta, antes de estar suficientemente armado para resistir sem perigo ao terrível mundo oculto em que havia penetrado tão descuidadamente.

(1) Gobelins: célebre manufactura de tapetes em Paris.
No singular, gobelin é demónio familiar.
N.T.
(2) Francisco I da França - 1494 a 1547. N.T.
(3) Arbaleta: antigo instrumento formado de réguas de visadas horizontais, servindo para medir alturas. (Dicionário Aurélio) N .T.
(4) Cimitarra: sabre oriental de lâmina larga e recurvada, com um só gume. (Dicionário Aurélio) N.T.
(5) Herzog: duque austríaco ou alemão. N.T.
(6) Croque: vara provida de um gancho na extremidade e utilizada pelos barqueiros para atracar o barco. N.T.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:15 pm

- VIII -

Muitos dias se escoaram na calma.
Supramati repousava depois das emoções vividas, meditando sobre o passado e o futuro.
Pela primeira vez, desde que ele tinha bebido a essência da vida, experimentava grande fraqueza física, incessantes vertigens, um abatimento que se prolongava.
Essas sensações doentias o fizeram compreender de que terrível perigo tinha escapado, o que iria confirmar sua resolução de estudar o mundo misterioso que cerca o homem.
Qual era então esta lei desconhecida que ele pôs em movimento para evocar de maneira tão maravilhosa aquela página de um passado longínquo?!
A vida de Naraiana se tecia de segredos que não o interessavam de modo nenhum.
Não podia compreender aquele homem estranho.
À medida que a saúde lhe voltava, Supramati sentia que o velho castelo, habitado por todo um exército de demónios, já lhe inspirava desgosto.
Pensou partir para visitar outros lugares, viver novas impressões e se perguntou, com angústia, se uma perpétua inquietação não era o atributo fatal da vida perene.
O infeliz imortal, não podendo ter a calma, se transforma em peregrino, viajando sem cessar, de um canto a outro do mundo...
Isaac Laquedem, sem trégua nem descanso percorria o mundo; Dakhir errava sobre as ondas; Naraiana, como o judeu errante, procurava em toda a parte a tranquilidade, sem a encontrar em lugar nenhum.
Ele mesmo, desde que era imortal, experimentava um vazio interior e a vaga necessidade do desconhecido; a sociedade fútil lhe havia sido intolerável em Paris e aqui a solidão e a calma lhe pesavam.
O príncipe decidiu partir para o castelo da Bretanha, onde se desenrolara o drama com a bailarina.
Queria reencontrar os traços da jovem hindu e saber se se tratava verdadeiramente de Nara.
Deixando o castelo, ele levou Tartoz.
Um servidor fiel e devotado, que conhecia o seu segredo e não o trairia; Tartoz lhe era necessário.
Ninguém podia representar esse papel melhor que Tartoz, que lhe seria, além disso, um guia precioso em seus novos domínios.
A viagem não lhe proporcionou o prazer que esperava.
O castelo bretão linha sofrido muito com a Revolução; o pavilhão onde se encontrava o laboratório e quase todas as câmaras tinham sido queimados.
Apesar de todas as procuras, o príncipe não pôde encontrar o menor traço da bailarina, nem um só de seus retratos.
Ele se aborreceu rápido.
Uma semana depois, releu a lista de suas propriedades e partiu para a Escócia.
Mas vendo os nomes de dois castelos, um em Benares e o outro no Himalaia, lhe veio o desejo de visitar a índia, essa região dos milagres, berço da humanidade.
Desde longo tempo, queria conhecer aquele país, mas sua doença e sob outras condições desfavoráveis, se sentia sempre impedido de satisfazer tal desejo.
Mas sempre decidido a realizá-lo, estudou o sânscrito durante alguns anos, sob a direcção de um companheiro orientalista.
Tendo liquidado inteiramente tudo o que ainda se relacionava com seu passado, Supramati tomou com Tartoz o barco para índia, se inscrevendo com o nome de Ralph Morgan.
Não cessou de estudar o sânscrito durante toda travessia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:15 pm

Primeiramente ele quis ir até Benares, mas quando desembarcou, o país o interessou tão fortemente, que ele visitou cidade após cidade, parando muitas vezes no caminho.
A beleza dos lugares, a originalidade da civilização antiga e os costumes deste povo tão especial, o absorveram completamente.
E como não tinha necessidade de economizar dinheiro nem tempo, o príncipe viajava, obedecendo unicamente à sua fantasia e fazendo também grandes
progressos na língua do país.
Supramati só chegou a Benares depois de dois meses após haver chegado à índia.
Foi para um hotel e na manhã seguinte ele se informou estar o castelo do príncipe Naraiana a duas horas da cidade.
Alugou dois cavalos e partiu em companhia de um guia hindu.
Após duas horas de caminho, se dirigiram para o alto de uma colina onde se achava um castelo cercado de vastos jardins, cujas cúpulas dentadas, de uma brancura de neve brilhante, emergiam da espessa verdura.
Supramati reteve seu cavalo e admirou a maravilhosa beleza do lugar, que parecia dormir em serenidade majestosa.
Ele parou diante da entrada de um grande pátio pavimentado: ao centro, uma bacia de mármore rodeada de palmeiras; um grande jacto de água esguichava da terra.
Muitos elefantes passeavam livremente no pátio e, perto da fonte, duas mulheres hindus falavam com um homem que trazia um cesto carregado de frutas e legumes.
Supramati e o companheiro desceram dos cavalos e entraram no pátio.
Chamando o homem do cesto, o príncipe pediu-lhe chamar o intendente.
O hindu olhou com hostilidade os estranhos e, sem responder, desapareceu num segundo pátio, separado do primeiro por uma alta grade dourada.
- Inspiramos pouca simpatia, notou o príncipe rindo.
Alguns minutos depois um homem de alta estatura, com
o rosto bronzeado, se mostrou perto da grade.
Estava vestido com uma longa roupa branca, um turbante na cabeça, braceletes nos braços e grandes brincos de ouro nas orelhas.
O homem do cesto e um outro servidor o cercavam.
- O que os senhores querem aqui?
O castelo está fechado para curiosos; os estrangeiros não podem visitá-lo.
- Não sou um estranho... eu sou o senhor desta casa, o irmão caçula do príncipe Naraiana Supramati, respondeu o príncipe.
Eis o anel de meu finado irmão que confirma minhas palavras.
Ao dizer isto, tirou do dedo o anel de Naraiana e o mostrou ao hindu.
O rosto do intendente mudou instantaneamente de expressão.
Os batentes da grade giraram em toda extensão e o intendente saudou seu novo patrão, se curvando até o chão, convidando-o a entrar.
Depois tirou de sua cintura uma pequena trompa de marfim e a soprou.
Enquanto Supramati atravessou o pátio e subiu a escada, dos dois lados, como um formigueiro agitado, apareceram os servidores.
Acabavam de saber a notícia e acolhiam seu novo senhor com todas manifestações de respeito oriental.
Supramati lhes assegurou sua benevolência e ordenou ao intendente lhes distribuir, a todos, gordas gratificações; depois, muito emocionado, o príncipe entrou no castelo, lhe parecendo imediatamente penetrar em um país legendário.
Nunca havia visto objectos assim preciosos em tal abundância.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:15 pm

O mármore, a malaquita, o lápis-lazúli eram matéria tão comum como a madeira e as pedras em outras regiões.
O chão em mosaico era trabalhado em desenhos; as fontes corriam com ruído nas bacias de ónix; e as portas douradas se achavam forradas de cortinas ricas, bordadas em ouro e prata de sedas multicoloridas.
Por toda parte, em vasos magníficos, desabrochavam odores raros; deliciosos perfumes eram queimados em tripés.
Papagaios de todas as cores se balançavam sobre grandes anéis, colibris e outros pássaros cantavam em enormes gaiolas de filigrana.
"Este palácio real me pertence! - exclamou ele.
Quem diria?! isto é um sonho!
Eu me sinto um viajante, pois tudo aqui me é desconhecido.
Nenhum hábito, nenhuma lembrança me liga a este país e não me permite sentir realmente proprietário das coisas...
Tenho esperança de que este sentimento nascerá com o tempo!...
Receio que este palácio possa de repente desaparecer na minha frente!"
Este pensamento lhe trouxe a alegria habitual.
Estendeu-se confortavelmente sobre almofadas de seda e, como estava fatigado por tantas emoções, dormiu um sono calmo e profundo.
A tarde chegou e um servidor o acordou para dizer que o jantar estava servido.
A cozinha refinada, o apetite após o sono, lhe permitiram fazer honra ao repasto.
Depois ele saiu.
Após um longo passeio, Supramati voltou ao seu quarto de dormir.
Espantado, parou logo à entrada.
Numa almofada, pousada num degrau da escada, ao pé do leito, uma mulher estava sentada, vestida de branco.
Seus longos cabelos loiros, desfeitos sobre o dorso, se ornavam de fios de perolas.
Sua cabeça estava abaixada, e em seu rosto a expressão se figurava de ódio e obstinação selvagem.
Suas mãos convulsivamente fechadas, pousavam sobre seus joelhos.
Supramati a olhou curioso.
Esta mulher tinha sido instrumento de prazer para Naraiana ou era isto o que o intendente lhe ordenara - obedecer às ordens do senhor?
Ele conhecia já os numerosos exemplos da polidez hindu, mesmo com respeito aos estrangeiros.
Esta educação à vista do senhor, se tornava obrigatória.
Aproximando-se da desconhecida que não se mexeu e não levantou a cabeça, ele perguntou:
- Quem é você?
Quem a trouxe aqui?
Ao som dessa voz, a mulher se endireitou depressa, o fixou com seus grandes olhos negros e murmurou tremendo:
- Mas não é ele!...
- Você fala do príncipe Naraiana?
- Sim, do príncipe maldito!
Amudu disse - "o senhor chegou, vá ao seu quarto".
- O príncipe Naraiana está morto; eu sou seu irmão e herdeiro.
- Morto?! Ele está morto?... então ele podia morrer!
Gritou a jovem mulher.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:15 pm

Em um acesso demente de alegria, ela saltou e, os braços levantados, deu volta no quarto, leve e graciosa, qual uma aparição aérea.
Depois, se reassenhorando, ela se aproximou de Supramati e, com os braços cruzados no peito, se inclinou até o chão diante dele.
- Me perdoe, príncipe, por estar esquecida diante do senhor!
A escrava saúda e atende suas ordens.
Supramati a olhou encantado.
Excluindo Nara, talvez, ele nunca tivesse visto criatura tão linda.
Ela também tinha sido vítima de Naraiana; seu ódio selvagem contra ele o demonstrava suficientemente.
- Coitadinha! - disse ele acariciando com doçura a cabeça baixada da jovem mulher.
Nada tema! Eu quero que seja livre e que viva segundo seu desejo.
Como se chama?
- Nurvadi, - respondeu ela, olhando o príncipe com espanto e reconhecimento.
Eu o obedecerei com alegria, e, se me ordena, eu o amarei, acrescentou ela, depois de uma curta hesitação.
O senhor é bom! em seus olhos não há a maldade do tigre, como no outro.
Supramati sorriu.
- Prefiro que me ame sem nenhuma ordem de minha parte.
Mas sente-se aqui, perto de mim no divã e me conte sua história.
Ligeiramente emocionada, mas visivelmente feliz, a jovem mulher tomou lugar perto do príncipe.
- Não sei quem foram realmente meus pais, começou ela, depois de curto silêncio.
Devo a minha mãe, uma estrangeira, meus cabelos loiros e a tez clara do rosto.
Não me lembro do motivo que nos separou.
Mas me contaram que fui encontrada em um hotel, por um velho brâmane que se apiedou de mim e me trouxe para um templo onde fui educada na qualidade de bailarina.
"Quando cresci e comecei a aparecer nas festas públicas do pagode, minha beleza atraiu os olhares da multidão.
Um jovem homem da casta dos comerciantes me amava e queria casar comigo.
"Eu o amava também, com todas as forças de minha alma, e nosso casamento foi decidido.
Foi paga uma grande soma ao pagode, equivalente à quantia que eu havia custado desde minha infância; mas eis que bruscamente
apareceu em meu caminho o demónio que destruiu minha vida...
"Onde e quando me viu o príncipe Naraiana?
Não sei. Ele perdeu a cabeça e quis a todo preço me possuir.
"Não explico como ele pôde arrancar o consentimento dos brâmanes para anular meu casamento.
Um dia me deram ao príncipe e nós deixamos Benares.
"O que sofri então, só Brahma o sabe.
Tinha medo desse homem que tinha roubado minha felicidade e não encontrava palavras para exprimir o desgosto e o ódio que ele me inspirava".
A jovem mulher se calou um momento, toda sacudida por tremor nervoso.
Ela continuou todavia, logo se asserenando.
- Fiquei doente e me lembro muito confusamente dessa época terrível.
Ele me levou muito longe pelo mar, a um país horrível, frio e brumoso, onde nada me lembrava o céu azul, o ar embalsamado e as regiões tão belas de minha terra.
Eu tinha frio naquela velha casa de paredes tão grossas, sufocava nos quartos húmidos e sombrios, e me sentia perdida entre os seres que não me compreendiam.
Mas o amor do príncipe me perseguia e aquilo sim, me era odioso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:16 pm

"Uma noite, desesperada, o desgosto me invadiu com uma força tal, que a morte me pareceu preferível àquela existência.
Me arranquei de seus braços, fugi para o jardim, e me joguei num tanque.
Perdi a consciência.
Meu último pensamento foi que a morte se apoderou de mim!
Que bom! Mas me enganei. ..
"Quando voltei a mim, estava deitada sobre uma mesa, no quarto onde o príncipe guardava todas espécies de instrumentos mágicos.
"Naraiana de pé, perto de mim, tinha duas esferas.
Ele tirava de um aparelho centelhas que envolviam meu corpo todo.
A dor que experimentei quando estas faíscas me picavam é o que me tinha feito acordar.
Berrei, quis fugir, mas me sentia paralisada e não podia fazer um movimento que fosse.
Pensei ter morrido uma segunda vez.
Nesse momento o príncipe tomou uma colher, me pôs na boca um líquido que parecia fogo e eu desmaiei.
Quando recobrei a consciência, estava forte e me sentia bem como nunca.
"Nós vivemos em seguida em diferentes cidades, e tive de aprender a língua que ele falava.
Ele nunca saía comigo e eu vivia sozinha, infeliz e triste.
Não ousava lhe resistir.
Eu o considerava um poderoso taumaturgo, mas o execrava sempre, cada vez mais, se é que meu ódio pudesse crescer...
"Enfim ele me trouxe para cá e foi embora sozinho.
Eu me senti mais feliz, porque me achava em minha pátria; não o via mais e nem experimentava qualquer necessidade, pois estava cercada de luxo e respeito; mas um só desejo havia dentro de mim: queria rever meu antigo noivo.
Consegui encontrá-lo, graças a um ardil.
Meu Deus! eu vi um velho de oitenta anos que me olhou terrificado, gritando que maus espíritos se tinham apoderado de meu corpo, pois eu era tão jovem e bela quanto sessenta anos antes...
"Espantada, me esforcei para lhe provar que nada de extraordinário me tinha sucedido; ignorava que tantos anos se haviam passado desde minha partida...
"Mas ele não queria me ouvir.
Sua emoção foi tal, que ele desmaiou; pensei que tivesse morrido.
Então fugi e depois disso vivo aqui, sempre bonita e jovem, vítima de um sortilégio diabólico.
"Naraiana muitas vezes chegava e me levava.
Quando eu voltava, aqui encontrava sempre novos servidores, todos desconhecidos.
Naraiana não queria certamente que o segredo de nossa vida imortal fosse revelado.
Acho que as pessoas pensavam existir um mistério, pelo menos, no que concerne a mim, pois toda gente me teme, apesar do respeito que manifestam; me evitam, e talvez mesmo haja ódio contra mim; eles me acham um espírito trevoso...
"E agora ele está morto... e eu vou morrer?
Oh! como estou cansada de viver! ..."
Supramati experimentou muita piedade por esta criatura tão infeliz, tão inconsideradamente arrancada às leis comuns da vida e assegurou ser benévolo a Nurvadi, com sua amizade e protecção.
Desde então ele viu Nurvadi todos os dias; manifestamente a jovem mulher se prendia a ele... e o príncipe notou, surpreso, que ela era culta, falava muitas línguas, tendo lido toda a biblioteca reunida por Naraiana.
Seus colóquios com Nurvadi se tornaram logo uma necessidade para Supramati.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 01, 2016 7:16 pm

O encanto de sua beleza o enfeitiçava e o facto de que ela havia execrado Naraiana, sem esconder isso a Supramati, e que seu amor todo pertencia a Supramati, a ele e a nenhum outro, lisonjeava muito o amor-próprio do príncipe.
Assim, uma tarde, ele atraiu Nurvadi em seu abraço e lhe declarou seu amor.
Ela enlaçou seu amante e murmurou com lágrimas nos olhos:
- Me ame um pouco, Supramati!
Estou tão sozinha!
Eu vegeto, não vivo.
Seus olhos me conquistaram desde que me notou.
Esquecendo Nara e o palácio do Graal, Supramati beijou apaixonadamente a jovem mulher e lhe prometeu seu amor eterno...
Nurvadi não era apenas uma beleza na plena acepção da palavra, mas também uma criatura honesta, inocente, natural e fiel.
Ela se ressentia de um amor sem limites, tão ardente quanto o sol de sua pátria, por um homem que ela tivesse escolhido.
A influência do clima de fogo, a ambiência mágica, a calma dos lugares foi tal, que um idílio puro e tropical pôde florir no palácio de Naraiana.
Esquecido do passado, do futuro e de sua imortalidade, Supramati viveu apenas o presente.
Trocou seu costume europeu por uma sumptuosa veste hindu.
Passeava de "palanquim" , ou sobre um elefante, e se abismava completamente nos negligentes sonhos orientais.
Todos seus desejos eram adivinhados pelos que o cercavam e nenhuma sombra de cuidados incomodava o devaneio encantado de sua vida.
Muitos meses se escoaram.
E eis que um dia Nurvadi, feliz e enrubescida, lhe anunciou que se sentia mãe.
O acontecimento teve lugar numa hora crítica para a felicidade da jovem mulher, se bem que ela de nada suspeitasse ainda.
Os primeiros elans do arrastamento passional se extinguiam e o egoísmo masculino começava a se manifestar.
Supramati relembrou uma partida necessária à Europa, onde o chamava um dever imperioso, onde o esperava sua esposa - com quem havia casado diante de uma confraria severa.
Apesar da beleza de Nurvadi, e de seu amor infinito por ele, o príncipe devia, cedo ou tarde, se separar dela, e esta separação era inelutável.
A notícia de sua futura paternidade desviou seus pensamentos do objectivo imediato que seu espírito perseguia.
Não quis partir antes de abraçar seu filho.
Contudo, a necessidade de uma troca lhe lembrou a existência de uma propriedade que ele possuía no Himalaia.
Podia ir para Europa sem ter visitado tal região?
Aquela parte da índia devia ser interessante e o que muito o interessava era o mistério; devia ir para lá sem esperas inúteis.
Supramati sentiu um mistério novo e quanto mais ele pensava no palácio do Himalaia, mais a curiosidade e o desejo o arrastavam a essa viagem.
Decidiu partir acompanhado de Tartoz e de um servidor hindu silencioso, que lhe inspirava toda confiança.
A notícia dessa próxima partida não causou prazer a Tartoz.
Seguindo o bom exemplo de seu senhor, ele alegrou sua viuvez com uma jovem e bela hindu, crendo viver num paraíso, graças a todo luxo que o cercava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:11 pm

Foi com muita tristeza que Nurvadi soube da partida de Supramati.
Ela lhe suplicou levá-la com ele.
O príncipe lhe explicou que seu estado exigia repouso, e acrescentou que sua ausência não levaria senão o tempo necessário à viagem e à visita ao que lhe pertencia.
E ela teria de se submeter a essa resolução.
Ele partiu depois de ternos adeuses.
Levou cavalos e um elefante que carregava a bagagem; levou também um pequeno pavilhão8 onde poderia repousar de suas fatigantes cavalgadas.
A viagem foi mais longa e mais penosa do que se havia suposto.
Era preciso penetrar montanha adentro, seguindo caminhos íngremes e pouco acessíveis.
Enfim os viajantes chegaram a um largo planalto onde havia um edifício de pequenas proporções, e cujos ornamentos lembravam mais um templo que um palácio.
Um jardim com espessos matagais cercava a casa que, tal como uma flor gigantesca, se destacava sobre o fundo da verdura sombria, por sua brancura de neve.
Supramati parecia ser esperado, se bem que não tivesse enviado correio para anunciar sua ida.
As portas do primeiro pátio estavam abertas completamente e muitos servidores se postavam à entrada; um velho vestindo o hábito dos padres de hierarquia inferior os dirigia.
- Seja bem-vindo, príncipe Supramati, novo senhor destes lugares!
Que a hora de sua chegada seja a hora da felicidade, e que Brahma conceda ao seu predecessor o repouso dos bem-aventurados!
Surpreso e quase irritado com essa acolhida imprevista, Supramati agradeceu ao velho que se nomeou "o intendente Avrita" e o seguiu.
Na casa, malgrado o luxo, tudo parecia simples e severo.
Uma semiobscuridade misteriosa reinava em todas as peças.
Supramati experimentou a mesma impressão de quando chegou - era um templo e não uma residência de "simples mortal".
Desde que o príncipe se sentiu refeito e trocou suas roupas, Avrita lhe perguntou respeitosamente se ele aceitaria ser conduzido para perto de seu pai.
Supramati o olhou surpreso, não compreendendo de que o intendente falava.
No entanto, habituado já a surpresas, se dominou logo e se declarou pronto a segui-lo.
Atravessaram uma longa galeria que parecia dividir a casa em duas metades, passaram diante de uma sala onde o príncipe percebeu instrumentos estranhos e pararam diante de um reposteiro feito de tecido com reflexos de ouro e prata.
Avrita o levantou e, com um gesto, o convidou a entrar.
Supramati se encontrou dentro de uma sala grande, dando para um terraço que servia evidentemente de biblioteca, pois apresentava aparelhos astronómicos e um grande acervo de gravuras e prateleiras.
No meio da peça, um homem sentado junto a uma mesa, numa poltrona de junco trançado; compasso na mão, desenhava figuras e traçava signos sobre uma grande folha branca.
Com o leve ruído feito pelo príncipe, o desconhecido pousou o compasso sobre a mesa e se levantou.
Supramati recebeu um impacto. Recuou.
Nunca antes havia um homem lhe inspirado, ao primeiro olhar, o respeito e a certeza de ver um ser extraordinário e poderoso!
Era um senhor bem alto e muito magro.
Estava vestido de branco e tinha um turbante da mesma cor na cabeça; em seu rosto bronzeado se dislinguia a bondade severa; uma barba negro-azulada o enquadrava.
Nem por um minuto Supramati poderia considerá-lo seu companheiro ou seu igual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:11 pm

A calma majestosa e a pujança dominadora que ele respirava, confirmavam o nome que Avrita lhe havia dado: "Pai".
Mas foram seus olhos que se impuseram imediatamente ao príncipe:
grandes, sombrios, impenetráveis, cuja flama não se podia sustentar.
Um clarão inexplicável brilhava neles, cuja força perfurava a alma e lia nas profundezas do ser que aqueles olhos fixassem.
Supramati, obedecendo a um impulso se inclinou até o chão diante dele, e pronunciou em voz indecisa:
- Eu O saúdo, Mestre, e rogo me conceder hospitalidade.
Um sorriso subtil perpassou pelos lábios do desconhecido.
Ele pousou a mão sobre o ombro de Supramati e disse afectuosamente:
- Seja bem-vindo, meu filho!
Mas me pedindo hospitalidade, se engana; aqui você é o dono e eu sou o hóspede.
Supramati estremeceu.
Ele já tinha ouvido essa voz profunda, com timbre metálico.
Onde a tinha ouvido?...
Lembranças confusas, imagens imprecisas, sensações caóticas o assaltaram.
E tudo se confundiu em um sentimento de confiança ilimitada e de amor por este estranho.
O desconhecido fixou no príncipe seu olhar de fogo, depois foi até ele, lhe pediu sentar e pronunciou afectuosamente:
- Me chamo Hebramar, e moro há longo tempo aqui, por convite de Naraiana, estudando problemas que ainda não pude resolver...
Ele vinha às vezes a esta casa, sempre insatisfeito, coberto de ferimentos morais e preso a espíritos elementares que ele evocava e que não tinha o poder para subjugar.
Naraiana procurava refúgio aqui, onde seus perseguidores não ousavam penetrar, e se consagrando de novo a todo o ritual das provas.
Isso não durava muito.
Ele enfraquecia depressa, arrastado por suas paixões, e desaparecia de novo.
Depois de seu último ensaio, Naraiana não veio mais e, empurrado pelos espíritos elementais, quebrou a cadeia que o unia ao corpo.
Hebramar baixou a cabeça e se abismou em profunda meditação que Supramati não ousou interromper.
O príncipe experimentava, aliás, um estranho mal-estar que se manifestava sob a forma de uma vertigem intermitente.
Hebramar afinal voltou em espírito.
Assim que seu olhar fixou a palidez do rosto de seu interlocutor, ele se levantou.
- Venha, meu filho!
É hora de jantar e o ar puro lhe fará bem.
Nesta sala a atmosfera é saturada de perfumes aos quais você não está habituado e de vibrações que agem maldosamente sobre você.
Mais tarde, quando seja um iniciado, perceberá que são emanações caóticas e desequilibradas da multidão que o fatigam e perturbam.
Hebramar ergueu o reposteiro e saiu com o príncipe em uma longa galeria com arcadas esculpidas e esmaltadas, parecendo rendas de ouro costuradas de pedras preciosas.
A galeria conduzia a um terraço; dali ambos desceram para o jardim e se dirigiram a um pavilhão, sobre uma eminência, onde numa mesa estava o jantar servido.
A vista do pavilhão era esplêndida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:11 pm

Entre duas rochas, como através de uma janela gigante, altas montanhas se divisavam no horizonte.
Um caminho quase a pique descia ao vale.
Uma correnteza caía com ruído de uma das rochas, onde brincavam fogos multicoloridos dos raios do sol que se deitava.
Essas águas selvagens tornavam a paisagem mais severa e mais grandiosa ainda.
Do lado oposto a visão era um contraste completo pelo seu calmo idílio.
Lá, no meio de uma pradaria verdejante, plantada de árvores, se estendia um lago, onde cisnes brancos e negros deslizavam sem ruído sobre a face polida.
Palmeiras cresciam na margem e se reflectiam na água.
Um sentimento inefável de serenidade e bem-estar inundou Supramati e um raro torpor tomou conta dele, lhe parecendo estar sendo embalado suavemente por ondas lentas.
Toda atmosfera e a paisagem que o cercava lhe pareciam fosforescentes.
Criaturas transparentes, iluminadas por luz celeste, deslizavam na pradaria, vestidas de túnicas brancas, flutuantes.
Seus rostos, com contornos imprecisos, eram ternos e calmos e cada um de seus movimentos deixava traços luminosos e embalsamados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:11 pm

- IX -

Os dias que se seguiram foram para Supramati uma época de felicidade e de calma indefiníveis.
Até o almoço o hindu ficava invisível e o príncipe lia ou passeava nas redondezas.
O meio do dia e as tardes eram consagradas a conversas.
Uma tarde em que os dois estavam falando de Naraiana, Supramati se lembrou de repente de Liliana.
Ele contou brevemente ao Mestre as circunstâncias que lhe haviam permitido descobrir esse crime e perguntou a Hebramar em qual estado se encontrava a jovem ... estava morta ou vivia numa vida misteriosa?
- Se eu pudesse levá-la ao estado normal da vida, queira, ó Mestre, me dizer como devo agir.
E se ela está morta, prefiro enterrar essa infortunada, segundo o rito cristão, ao invés de a deixar em seu caixão de vidro.
- Eu conheço esse último crime de Naraiana; e o mais odioso é que ele se serviu de uma substância que não tinha suficientemente estudado; assim ele causou a essa mulher sofrimentos terríveis.
Ela não está morta; está num estado parecido ao sono letárgico, com a diferença de que sua consciência se conserva inteira.
Ela tem fome, sede, sente a dor da ferida e vive apavorada de ficar eternamente neste estado horrível.
"Vou lhe dar outra substância; não é o elixir da vida, mas basta para salvar essa mulher.
Remeto junto instruções escritas detalhadas para melhor você actuar.
Direi somente que será necessário colocá-la num banho quente; não se assuste se vir sangrar muito sua ferida.
"Depois você a deitará numa cama, bandará o ferimento após ter aplicado sobre sua chaga a pomada que darei.
Enfim lhe versará na boca um pouco de vinho quente, pois ela estará gelada e terá a aparência de morta.
Quando a letargia seja completamente dissipada, a mulher abrirá os olhos mas cairá quase imediatamente em sono profundo, que não durará menos que três dias. Quando ela acorde, lhe dê de comer - não carnes -mas leite e legumes somente.
Quando ela se restabelecer completamente, já poderá fazer o que queira.
Ela voltará à sua vida feliz e viverá longo tempo.
- Ela tomou o elixir da longa vida?
- Não. Naraiana derramou o elixir em sua ferida.
A acção do licor é bem diferente daquela que tem lugar quando essa essência é introduzida no estômago.
Hebramar se levantou e saiu em busca dos medicamentos.
À aurora do dia seguinte Supramati se despediu de Hebramar e foi para Benares.
Nurvadi o acolheu com alegria profunda e sincera que muito o comoveu e abalou sua decisão de deixar a índia sem tardar.
O amor sem limites dessa jovenzinha, a vida luxuosa no palácio encantado, a beleza da natureza, tudo contribuía para retê-lo, apesar do remorso de sua consciência.
A honra lhe ordenava voltar para Nara e o amor ao próximo exigia dele que livrasse a infeliz Liliana dos terríveis sofrimentos.
Apesar destas razões tão sérias, o príncipe não deixou Benares, e o nascimento de seu filho lhe fez, por algum tempo, esquecer tudo no mundo.
Uma torrente de sentimentos novos inundou seu ser e ele se sentiu apaixonadamente ligado à criança, cujos olhos brilhantes o fixavam com confiança e carinho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:11 pm

O pensamento de se separar de seu filho lhe era doloroso, e outros seis meses se passaram para poder se decidir à partida.
Um dia calculou que sua estada na índia já durava um ano e meio.
Sentiu-se embaraçado, envergonhado.
Que Nara pensaria dele?
Nunca recebeu notícias dela.
Os sofrimentos da infeliz Liliana o acusavam também...
Seu dever era partir, sem mais espera.
De tempo a tempo voltaria para ver seu filho, ninguém o poderia interditar.
Temendo sua indecisão, anunciou em seguida a Nurvadi que negócios urgentes o chamavam para a Europa e que sua partida teria lugar em alguns dias.
Nurvadi, pálida, olhos cheios de lágrimas, não protestou.
Ela o enlaçou e murmurou entre soluços:
- Você me deu tanta felicidade, que de nada me posso queixar.
Me deu o dom de seu amor e me deixa este menino - lembrança viva sua - e a educação dele encherá minha vida.
Prometa-me somente que não nos esquecerá completamente vindo visitar seu filho, afim de que ele conheça o pai e possa fruir de seu amor e do seu carinho, mesmo que seja raramente.
Profundamente comovido, Supramati a estreitou em seus braços e disse:
- Eu prometo, Nurvadi, nunca esquecer os dois e vir aqui, perto de você e de nosso filho, desde que me seja possível.
Levo comigo fotografias e você me escreverá ao endereço que deixarei.
De coração pesado, Supramati se preparou para a partida.
A separação iminente lhe era imensamente penosa.
E, nesse momento, ele se sentiu completamente indiferente com relação à sua esposa legítima; a beleza de Nara se desvaneceu, desapareceu diante do sentimento paternal que inundava seu coração.
Subitamente sentiu um novo medo - e se seu filho morresse? não o veria mais e a infeliz Nurvadi ficaria completamente só, e ele os perderia, aos dois.
Mas ele possuía o meio de tornar seu filho imortal!
Tomou a decisão e se tornou calmo.
Na noite que precedeu sua viagem, foi silenciosamente ao quarto onde a criança dormia placidamente no seu berço, coberta com um leve tecido de seda.
Bem pertinho, no chão, dormia sua babá hindu.
Supramati se ajoelhou e olhou por longo tempo a bela criança.
Sim, ele queria vê-la sempre bonita e com boa saúde, e iria garantir sua vida contra todos os azares.
Preparou do elixir da vida um quarto do que se dá a um adulto e o pôs, com a ajuda de uma colher, na boquinha rosada do nené.
A criança se debateu em convulsões, depois se estirou e ficou gelada.
Pálido de espanto, Supramati o tomou nos braços e, não sabendo o que fazer, o levou ao terraço, esperando que o ar fresco lhe fizesse bem.
Mas o menino não se mexia... sua respiração tinha parado e as batidas do coração não mais se percebiam...
"Senhor! Será que o matei?
Mas é impossível!", murmurou o príncipe, tornando a deitar seu filho no berço.
Nurvadi notou, nesse momento, a ausência de Supramati. Levantou-se e, não o achando no quarto, se dirigiu à câmara do pequenino.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:12 pm

Cuidadosamente levantou o reposteiro e viu o príncipe de joelhos diante do berço.
A jovem mulher pensou que a dor da separação tinha levado o príncipe a vir uma última vez contemplar seu filho; ela sorriu feliz, e se retirou sem ruído.
Mais de duas horas se escoaram; duas horas de agonia intolerável.
Enfim o príncipe teve um suspiro de alívio.
Um ligeiro rubor coloriu as faces da criança e sua respiração se fez regular e profunda, mostrando que estava em sono normal.
Na manhã seguinte, triste, de coração opresso, Supramati deixou Benares e alguns dias depois viajava para a Europa.
Chegando em Paris, proibiu a seus empregados divulgar a notícia de sua chegada.
O príncipe sabia que o visconde e todos os seus amigos se precipitariam em sua casa.
Queria ficar tranquilo e livre, pelo menos durante alguns dias.
Descansou, jantou, depois se fechou em seu quarto, interditando seus servidores de o incomodar, sob qualquer pretexto que fosse.
Tomou então o cofre de cedro que lhe tinha dado Hebramar e o abriu.
Lá encontrou um grande frasco cheio de um líquido incolor, um pote de pomada que parecia cera, mas suave ao toque, e enfim duas ampolas - uma verde e outra vermelha.
O mago ainda tinha posto um papel contendo instruções precisas para o emprego dos diversos medicamentos.
Leu atentamente e muitas vezes todas as recomendações, depois apertou o botão secreto para abrir o lado da parede, e penetrou nos quartos de Liliana.
Nada estava mudado.
Supramati iluminou todas as velas e lâmpadas, preparou as cobertas da cama, as bandagens, o leito, tudo enfim de que teria necessidade.
Abriu as torneiras da banheira e a encheu de água quente.
Então se aproximou do caixão de vidro e tirou o pano que o recobria.
Liliana apareceu tal como já a tinha visto.
Mas como fazê-la sair do esquife hermeticamente fechado e cheio de um líquido que talvez fizesse mal a ele mesmo?
Depois de reflectir longamente, voltou ao quarto, vestiu altas botas impermeáveis, luvas de couro, se armou com um martelo e pinças.
Arrumou a coberta perto do caixão e colocou à altura de sua mão um cesto cheio de areia que ele encontrou no guarda roupa.
Após esses preparativos, Supramati bateu com um golpe do martelo no canto do caixão, conseguindo quebrá-lo e o líquido correu com ruído pelo chão.
Em seguida, quebrou a cobertura, levantou Liliana, que tinha perdido o peso habitual do corpo, e a levou para um quarto vizinho, sobre um divã onde já se encontravam os travesseiros e as cobertas necessárias.
Enfim Supramati cortou com a tesoura a camisola, a levantou e mergulhou rapidamente na água quente da banheira, tendo, com a ajuda de uma grande fita, o cuidado de deixar de fora a cabeça da jovem.
Foi então que ele viu a ferida, tendo a forma de uma chaga sangrenta, larga e profunda.
Tal ferimento, em condições comuns, teria sido mortal.
Supramati contemplou com encantamento o maravilhoso e admirável corpo jovem, de formas ideais, dignas do cinzel de um escultor.
A água tomou rapidamente uma bela cor azul, e dois minutos não se tinha passado quando um leve movimento se observou no rosto imóvel de Liliana; as sobrancelhas fremiram, a boca plissou, e um tremor nervoso percorreu seus membros.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:12 pm

O ferimento se tornou vermelho escuro, se abriu, e uma golfada de sangue jorrou, negra como tinta.
A água ficou escura; um quarto de hora depois exalou um cheiro azedo, nauseabundo.
Supramati esvaziou a banheira, a encheu de novo e ali derramou o segundo terço do líquido mágico.
Também um sangue vermelho correu, cuja quantidade devia, em condições normais, provocar a morte por esvaimento.
Todavia nenhuma troca funesta teve lugar no estado da doente.
Ao contrário, o príncipe notou uma respiração fraca e irregular, mas nitidamente perceptível.
Um novo quarto de hora se escoou. Supramati esvaziou a água vermelha e jogou na nova água o resto do frasco.
Desta vez a água permaneceu azul e transparente.
A ferida tornou a forma de uma machucadura que se cicatriza.
Então o príncipe levou a doente para o divã, colocou sobre a chaga espessa camada de pomada e um pano desinfectado cobrindo; depois bandou o corpo com a destreza sábia de um médico.
Enxugou-lhe com cuidado o corpo e o cabelo, enrolou-a bem, chegando bem junto dela as cobertas, ao ponto de mais parecer uma múmia, incapaz de fazer um movimento.
Deitou-a em seu leito e a fez engolir, com uma colher, uma porção do líquido incolor que estava no frasco.
Um arrepio estremeceu todo o corpo da jovem mulher.
Um grito terrível explodiu de seus lábios e ela abriu os olhos.
E neles, tão aveludados, grandes e inquietos, se reflectiu um sofrimento tão amargo, brilhando silenciosa uma prece tão intensa, que o príncipe se sentiu aterrorizado; nunca ele havia visto ou sabido de tal manifestação interior através do olhar.
A piedade tomou conta dele. Hebramar tinha razão - a desgraçada Liliana devia viver sofrimentos infernais.
Mas o príncipe não teve tempo para palavra alguma, já as pálpebras da moça se fecharam.
Liliana se tornou inerte.
Mas desta vez sua imobilidade era devida a um sono profundo e reparador.
Ele baixou as cortinas da janela e, seguindo as instruções de Hebramar, derramou em uma bacia o conteúdo da ampola verde; na mesma hora um perfume muito agradável se expandiu no quarto.
Mas qual não foi o espanto de Supramati quando ele viu um vapor verde se elevar em espiral, saído da bacia e se dirigindo para o leito, penetrando o corpo de Liliana adormecida.
O príncipe olhou um instante esse fenómeno estranho, depois voltou ao salão.
Todo o trabalho havia durado mais de três horas; ele estava faminto; tomou um banho, jantou e se deitou feliz.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:13 pm

- X -

Na manhã seguinte, Supramati entrou nas câmaras secretas a fim de ver em que estado se encontrava Liliana.
A jovem parecia sempre inerte, mas sua respiração estava regular e seu rosto tinha tomado a cor natural.
O príncipe gostaria de ver o estado da ferida, mas não ousou tocar na doente.
Hebramar tinha proibido importuná-la sem motivo grave, antes que ela acordasse.
Um vapor esverdeado ainda subia da bacia, expandindo na peça um perfume quente e reanimador, mas que produzia sobre ele uma impressão irritante e desagradável.
No dia seguinte Liliana dormiu profundamente.
Seu sono calmo revelava alguém saudável.
Uma cor rosada lhe animava as faces e ela havia trocado de posição na cama.
O príncipe retirou cuidadosamente as bandagens que incomodavam os movimentos de Liliana e depois pensou na necessidade de vesti-la quando acordasse.
Liliana evidentemente habitava o castelo com Naraiana.
Mas onde estava seu guarda-roupa?
O príncipe, depois de poucas procuras, encontrou um armário e uma cómoda com gavetas cheias de roupas íntimas e peças femininas.
Supramati preparou todas as coisas indispensáveis sobre uma cadeira, perto do leito.
Serviu a mesa: vinho, frutas e tortas, caso Liliana acordasse durante a noite e tivesse fome.
Ele voltou ao salão, se estendeu sobre o divã e fumou um cachimbo.
Estava feliz por se sentir livre, até o dia seguinte, do visconde, seus amigos e Pierrette.
Mas rapidamente seu pensamento voltou a Liliana.
Era necessário reflectir sobre os meios de esconder sua presença e de evitar comentários que provocariam seu retorno inopinado.
Decidiu enfim que ela deixaria o castelo pelo pequeno jardim; em seguida ele asseguraria seu futuro.
Deitou-se contente com a decisão tomada.
Quando se levantou no dia seguinte, bastante tarde, ouviu passos no quarto vizinho.
Alguém se esforçava para abrir a porta secreta.
Sem chamar seus servidores, Supramati se vestiu às pressas e abriu a porta.
O gabinete estava vazio, mas um sopro de ar fresco vinha da câmara de dormir, balançando o reposteiro.
Supramati olhou no quarto e percebeu Liliana de costas, perto da janela aberta.
Notou que ela tinha vestido um penhoar rosa e que seus cabelos estavam artisticamente penteados.
O príncipe a olhou um momento, depois levantou o cortinado e entrou na câmara de dormir.
Ouvindo o ruído de seus passos, Liliana se voltou com um movimento rápido; seus olhos brilharam com um sentimento de ódio tão intenso que Supramati recuou sem querer.
Mas vendo um desconhecido, empalideceu e, indecisa, se apoiou sobre o parapeito da janela.
Esta hesitação durou apenas um instante.
Tremendo de emoção, Liliana deu uns passos e gritou com voz sofreada:
- Onde está ele?
Ele, o magarefe, que me torturou impiedosamente!
Está escondido, temendo minha vingança?
Oh! mas é impossível, ajuntou a jovem fora de si, apertando sua cabeça entre as mãos.
Existe um suplício igual aos sofrimentos infernais que ele me fez viver?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:13 pm

- Acalme-se, Liliana!
A senhora não reverá mais aquele que lhe fez tanto mal; ele foi julgado e o julgamento foi mais terrível que todas as vinganças humanas.
Naraiana já morreu.
Descobri seu crime, por acaso e o conhecimento que pude adquirir na índia me permitiu restituir sua vida.
Tremendo ainda, Liliana escutou o príncipe em silêncio.
- Mas quem é o senhor? - balbuciou ela.
- Sou o irmão de Naraiana e tento reparar todo o mal que ele lhe causou.
Uma reacção se operou visivelmente em Liliana.
Seu ódio, sua sede de vingança fundiram em soluços convulsivo".
Ela caiu de joelhos, agarrou a mão de Supramati e apertou contra seus lábios.
Ele tirou depressa a mão, a fez sentar numa poltrona e lhe deu de beber, a fim de acalmar a crise nervosa que sacudia o corpo da jovenzinha.
- Acalme-se, infeliz!
Seus sofrimentos acabaram e vou assegurar seu futuro, disse Supramati.
Os olhos de Liliana encontraram os do príncipe, cheios de bondade e com preensão.
Sua voz sonora e doce acalmou a pobre moça.
- Como você se parece pouco com seu irmão!
Seu olhar não tem a chama apaixonada e cruel que havia nos olhos dele - disse ela enxugando as lágrimas.
Ah! Naraiana era um monstro!
Só Deus sabe o quanto ele pôde me fazer sofrer!...
- Mais tarde, quando a senhora estiver mais calma e mais forte, pedirei para me contar tudo o que sentiu durante o sono letárgico.
A questão me interessa muito.
- Contarei tudo com prazer, meu magnânimo salvador.
Mas como morreu Naraiana?
- Um acidente nos Alpes.
Mas chega de falar de coisas tristes!
Agora tem de se fortificar.
Vou trazer seu almoço já, depois abordaremos o problema essencial - onde a instalar.
Supramati desapareceu, depois veio com um repasto preparado previamente:
leite, frutas, legumes, ovos, doces.
Colocou tudo sobre a mesa, depois convidou alegremente a jovem mulher a comer.
Liliana seguia todos os seus gestos com uma curiosidade que ela não dissimulava.
Agradeceu calorosamente, depois almoçou.
Seu organismo esvaído, tinha necessidade de alimento.
Fez jus a todo esforço de Supramati.
- Vai pensar que sou uma comilona - fez ela enrubescendo.
- Depois de um jejum assim tão longo, seu apetite poderia ser até maior.
Em seu lugar eu teria podido engolir um boi inteiro, e boi gordo! - respondeu o príncipe rindo.
Agora que acabou, vamos ao salão.
Eles passaram ao apartamento de Supramati.
- Devo lhe dizer, miss Liliana, que desde o dia em que Naraiana a feriu, quase três anos se passaram...
Ela soltou um grito e empalideceu.
- Calma! vai viver muito tempo e ganhar de novo o tempo perdido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 02, 2016 7:13 pm

Eu queria simplesmente lhe fazer compreender que depois de uma desaparição tão longa e misteriosa, a senhora não pode se mostrar em minha casa, sem provocar suspeitas e maledicências.
Não pode ficar mais neste castelo cheio de lembranças terríveis.
Vou alugar um apartamento na cidade.
Esta tarde uma viatura parará lá em baixo, à porta do jardinzinho e a senhora vai embora.
Mais tarde, a senhora explicará, como queira, sua partida de Paris e sua volta...
A menos que prefira evitar antigos amigos e viver na solidão.
Diga-me, tem outras roupas além destas poucas que pude encontrar?
- Certamente. Há um quarto perto da escada... não reparou ainda...
dois armários e uma cómoda estão ali...
- Muito bem.
Pegue os objectos mais necessários e saia lá pelas oito horas da noite... por enquanto, tchau!
O príncipe encontrou nos arrabaldes, numa casa de campo, um apartamento confortável e elegante que se compunha de cinco peças com pensão incluída; pagou adiantadamente por ele ao proprietário, um velho que morava com sua esposa no pavimento térreo.
O apartamento de Liliana se achava no primeiro andar da casa, onde também havia um pequeno jardim.
À noite o príncipe alugou uma viatura; Liliana estava pronta, vestida com uma roupa elegante, roupa de cidade.
O jovem homem viu que ela levava todas suas compras em muitos grandes embrulhos, algumas caixas de papelão e um pesado saco de couro.
Ele estendeu a Liliana uma carteira recheada de notas de dinheiro.
- Aqui está para suas primeiras necessidades.
Amanhã ou depois irei visitá-la e decidiremos sua sorte.
Mas, como se sente?
E a ferida ainda incomoda?
- Imagine que toda dor passou!
A chaga está completamente cicatrizada!
Mas uma mancha cor de sangue me lembrará por longo tempo ainda o último benefício de Naraiana.
- Então vamos embora!
Vou pegar suas caixas.
Mas que tem nesse embrulho tão pesado?
- Todas as minhas coisas preciosas.
O príncipe deu o endereço ao chofer.
- Não esqueça que está proibida de comer carne - recomendou Supramati a Liliana.
Naquela mesma noite, antes de se deitar, o príncipe chamou o intendente e, indicando a porta secreta, ainda aberta, lhe disse:
- O laboratório do príncipe finado devia ter sido lá.
Faça o favor de limpar e consertar tudo o que esteja estragado.
Minha câmara de dormir ficará atrás da biblioteca... aqui tudo será renovado.
Escolherei eu mesmo os móveis e as tintas.
Vou me casar logo e a princesa se instalará aqui.
Desde que Liliana chegou em casa dela, contou o dinheiro que possuía e, satisfeita, examinou seu apartamento.
Experimentou sua primeira decepção.
Quis logo mudar os móveis, depois de os ter escolhido a seu gosto.
Correu aos magazines, chamou os serralheiros, empregou uma camareira e comprou novas roupas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70224
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 1: O ELIXIR DA LONGA VIDA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 6 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum