Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:28 pm

Pelo contrário, encarava seu poder como o primeiro degrau da longa escada do conhecimento que teria de galgar.
Todos os seus pensamentos eram ocupados pelo futuro, sem lhe dar tempo de se interessar pelo presente.
Supramati habituou-se, uma vez por todas, ao isolamento, ao trabalho árduo e aos contactos com o outro mundo.
Por vezes, quando se debruçava sobre um manuscrito astrológico e encontrava dificuldade em solucionar algum problema difícil, ele sentia alguém tocá-lo levemente e bafejá-lo com um sopro quente ou frio.
Então, diante dele surgia uma cintilante figura aérea ou um vulto denso e escuro; mas Supramati não se assustava com as visitas do espaço e os tratava bem ou com muito respeito, dependendo do que elas mereciam - mas sempre aceitava agradecido os seus ensinamentos.
Não raras vezes em seu laboratório retirado, surgia Ebn-Ari ou algum outro demónio poderoso e, debruçando-se sobre a mesa, um deles desenhava algum sinal desconhecido para ele ou explicava-lhe o seu poder.
Fica claro que, com este tipo de carácter e tal orientação da mente, Supramati ficava entediado e se sentia um estranho no meio daquela turba leviana e ignorante em que vivia.
Além disso, aquela "sociedade" em que ele ingressou mudou muito e chocava suas ideias e convicções.
Era-lhe repugnante aquela orientação de "mercantilismo" geral que igualou todas as posições sociais, sem aparar as desigualdades dos deserdados...
Ainda mais, chocavam-no o caos religioso e a numerosidade das seitas que se hostilizavam entre si; fora delas cada um tinha a sua própria religião, cada um explicava a seu modo os mistérios da vida, procurava uma solução mais cómoda para as questões que lhe interessavam, propagava os mais diferentes paradoxos e, na essência, não acreditava em nada.
Não menos aversivo era-lhe o cinismo geral das mulheres, ainda mais insolente do que o dos homens.
Qualquer preocupação em manter um mínimo de decoro externo, qualquer sentimento de vergonha, de dignidade e dever, parecia, definitivamente, serem proscritos.
Aquilo que quarenta anos atrás era visto como vergonhoso e humilhante, agora adquiria um direito de cidadão.
Ninguém se constrangia em viver como lhe era de agrado e ninguém nada tinha a ver com isso.
Necessário era apenas ter o ouro e, então, quem o tivesse poderia criar as suas próprias leis e não ter que obedecer a elas.
Compreende-se que em tais condições a "família" -na antiga acepção da palavra - praticamente deixou de existir e as estatísticas constataram a diminuição da população em proporções terríveis.
A graciosidade aristocrática de Supramati e de seus companheiros, assim como a sua riqueza, não deixaram de criar-lhe na sociedade uma posição privilegiada e chamaram para eles a atenção geral.
Dakhir era tido como um irmão de Supramati e ambos eram bajulados de igual forma.
Quanto a Nara, os homens estavam loucos por ela, ficando furiosos com a "virtude engraçada" daquela encantadora mulher.
Apesar de seu materialismo vulgar, aquelas pessoas sentiam que os três tinham algo especial, e um velho diplomata, famoso em definir com precisão as pessoas no primeiro olhar, disse que Supramati e sua encantadora esposa pareciam ter vindo do inferno.
— Todos os três têm a mesma palidez leitosa e o mesmo olhar ígneo autoritário, e na expressão de seus olhos e sorriso entrevê-se algo que nos faz pensar que eles lêem os pensamentos alheios - diziam eles.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:28 pm

Não obstante por assim se dizer à tal reputação "diabólica", todos disputavam a companhia dos ricos estrangeiros, ansiando serem apresentados a eles.
O antigo Ralf Morgan era por demais médico em sua alma para tentar utilizar na prática os novos conhecimentos de Medicina que ele adquirira.
No início ele curou algumas pessoas pobres e, depois, uma de alta sociedade.
Mas essa série de curas miraculosas trouxe-lhe uma fama tão grandiosa e ameaçava com tantos clientes, que Supramati achou por bem sumir para mais longe possível.
Numa bela manhã, todos os três deixaram às escondidas Paris e viajaram para Veneza, mantendo-se rigorosamente incógnitos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:29 pm

Capítulo IX

No velho palácio que se afigurava tão forte e indestrutível como os seus proprietários, Supramati continuou ainda mais dominado pelas recordações.
Após o jantar, ele passou aos seus amigos as impressões de outrora, quando, então, novamente elevado à condição de príncipe, chegara ao palácio e sentira-se extremamente constrangido em sua nova posição.
Esse fato engraçado fez com que Dakhir e Nara rissem muito.
Mais tarde, ficou decidido que eles ficariam em Veneza até o dia de sua partida para a reunião da irmandade.
— Você está querendo fazer umas visitas, Nara?
Será muito embaraçoso se alguém nos reconhecer – observou Supramati.
— Acalme-se! Ninguém nos reconhecerá.
O máximo que dirão é que você é muito parecido com um dos seus parentes - rebateu a jovem mulher.
Lembro-me de um caso cómico que aconteceu com o debochado Narayana.
Vocês sabem que este título de príncipe lhe pertencia de longa data.
Uma vez que Narayana gostava muito de Veneza, ele não perdia a oportunidade, pelo menos uma vez por século ou, às vezes, até mais, de passar aqui alguns anos.
Certa vez, numa de suas estadas aqui no início do século XIX, Narayana encomendou a um artista famoso a pintura de seu retrato; vocês devem ter notado que ele tinha essa mania!
Todos se surpreendiam com a extraordinária semelhança do retrato.
Logo após nós viajamos, e uns oitenta anos depois retornamos novamente a Veneza.
Narayana não fez por menos e pendurou o seu retrato no gabinete.
Este, naturalmente, chamou a atenção de todos.
Um velho nobre disse-me maravilhado:
— Como o seu esposo se parece com seu antepassado!
É simplesmente fabuloso!
Não fosse o traje, poder-se-ia jurar que era o próprio.
Narayana ficou felicíssimo e imediatamente encomendou um novo retrato.
Essa brincadeira se repetiu até 1740, quando nós viemos para cá de novo.
Ele se divertia com aquelas exclamações e, em consequência, toda vez encomendava um novo retrato.
Oh, Narayana!
Em muitos assuntos, ele parecia uma criança grande.
Por certo essas pinturas ainda existem!? - perguntou Dakhir.
— É claro! Todas estão penduradas no gabinete anexo à biblioteca - respondeu, levantando-se, Supramati.
Vamos dar uma olhada: são, decididamente, obras de arte notáveis.
Todos foram ao gabinete e começaram a admirar quatro retratos pintados de corpo inteiro e no tamanho natural.
Nos ricos trajes dos séculos passados, a beleza de Narayana se destacava em todo o seu esplendor.
— É uma pena que esse homem, tão belo e talentoso, tenha tirado pouco proveito das vantagens de seu extraordinário destino para desenvolver o espírito, interessando-se apenas por coisas supérfluas - observou Supramati.
— Vamos torcer para que ele aproveite melhor sua existência no mundo do além-túmulo.
Os duros sofrimentos e as condições difíceis que vêm depois da morte farão com que ele se torne mais sério - ponderou Nara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:29 pm

Em seguida, com um leve sorriso ela completou:
— De qualquer forma, graças a sua mania de retratos, ele nos deixou uma lembrança interessante.
— É verdade! Eu só lamento que ele não lhe tenha transmitido esse gosto pelos retratos.
Os seus, infelizmente, são muito poucos.
— Oh! Eu me sacrifiquei só para satisfazer-lhe essa paixão.
Uma prova disso são as fotografias e o retrato que adornam a escrivaninha e o seu gabinete, Supramati.
Eu realmente não gosto de ser retratada.
A única imagem que me é cara é a minha estátua.
Naquele tempo, eu de facto era jovem de corpo e alma.
Actualmente já não sou capaz de sentir os ímpetos e as paixões ou sonhar com o futuro como antigamente.
Aquilo foram coisas do passado que feito um sonho já não existem mais.
Meu corpo permaneceu jovem, mas meus olhos traem a minha velhice.
Nenhum artista conseguirá captar a expressão deles e um retrato se restringiria à pintura do traje.
Supramati e Dakhir permaneceram calados.
Tristes, eles olhavam para a imagem de seu antigo companheiro, que no transcorrer de séculos conseguiu conservar o vigor de sentimentos e a capacidade de gozar os prazeres.
— Mas em nossa galeria falta um retrato.
O seu – o terror dos marinheiros, o fantasma sinistro dos oceanos! - disse inesperadamente Nara, colocando a mãozinha no ombro de Dakhir.
Este, subitamente arrancado de seus pensamentos, estremeceu.
— O herói de uma lenda perde sua aura se divulgar o seu retrato ou começar a distribuir cartões de visita - argumentou Dakhir com triste sorriso.
— Estou vendo que você tem em alta conta o seu prestígio de "espantalho", mas nós sabemos tanto como Wagner, ainda que por intuição, que o "Holandês Voador" era um jovem bonito e perigoso só para os corações femininos.
Nós queremos ter uma lembrança sua e assim pedimos que faça uma pose para o seu retrato.
— Em meu traje tradicional?
— É claro!
— O desejo de uma dama para mim é uma ordem.
Mas para cumpri-la eu não vou me submeter ao fastio de posar para qualquer "pincelador" incapaz de transmitir todo o misterioso encanto com que respira a minha legendária individualidade.
Vou lhes dar um retrato, obtido de outra forma.
— Espertinho!
Você quer nos mostrar uma habilidade que ainda não conhecemos? - interessou-se Supramati.
— E verdade!
Confesse que eu estudei mais que você.
Providencie para que amanhã, à tardinha, preparem uma moldura do tamanho da parede com uma tela branca.
Eu, na presença de vocês, farei meu retrato - anunciou jovialmente Dakhir.
No dia seguinte, todos se reuniram na pequena sala de estar de Nara.
Foram retirados todos os quadros e enfeites da parede, agora ocupada por uma enorme tela com moldura dourada, do chão até o tecto.
A noite estava nevoenta e escura.
Uma chuva fina tamborilava na janela; nos quartos do velho prédio estava frio devido à umidade que vinha dos canais.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:29 pm

Nara ordenou que fosse acesa a lareira, ainda que esse tipo de calefacção já não estivesse em uso.
— O tempo não está muito propício para a nossa experiência - notou Dakhir.
Vamos ter de esperar até que o fogo apague na lareira, enquanto eu faço alguns preparativos.
— Vá se preparando!
Mas previno-o de que eu ó estarei observando e posso descobrir o seu segredo.
Não sou mais tão tolo como antes, quando você me ensinava a fixar os pensamentos - disse Supramati rindo.
— Oh! Naturalmente você irá descobrir o meu método, mas para aplicá-lo terá que estudar ainda muito.
Auxiliado por Tortoz, Dakhir trouxe de seu quarto um grande escrínio que ele chamava de "laboratório do inferno", e uma trípode com carvão.
Quando o fogo na lareira se apagou por completo, ele trancou a porta à chave, acendeu o carvão na trípode e jogou sobre ele uma espécie de pó.
A seguir, desligou a luz e o quarto ficou iluminado apenas por uma chama esverdeada na trípode, espalhando um forte cheiro resinoso.
Ao tirar da trípode um grande frasco com um líquido incolor, Dakhir começou a espargi-lo sobre a tela.
Imediatamente se difundiu um forte cheiro de ozónio que absorveu completamente o odor resinoso de antes.
A tela pareceu cobrir-se de gotículas de brilhantes, adquirindo uma aparência transparente.
Dakhir colocou, diante da moldura, uma pequena máquina eléctrica equipada com longas e flexíveis espirais metálicas.
Feixes de fagulhas eléctricas espalharam-se sobre a tela e, transformando-se em jactos ígneos, começaram a sulcar em ziguezague a sua superfície.
Depois, cobrindo todo o fundo da moldura, formou-se uma camada nevoenta e fosforescente que se agitava feito água bafejada por vento.
Em pé e com a mão erguida, Dakhir desenhou no ar alguns sinais cabalísticos que, por alguns instantes, fosforesciam e em seguida se transformavam em círculos, pontos e feixes de fagulhas cintilantes.
No recinto ouvia-se um leve crepitar, acompanhado pelo sopro do vento. Subitamente, como se empurrado por aquelas correntes aéreas mornas, no ar, surgiu uma espécie de grande rectângulo preto-cinzento, transparente como teia de aranha, no qual se delineavam vagamente os contornos de alguns objectos.
Não era possível ver os detalhes do desenho, pois o rectângulo oscilava em todas as direcções como se agitado por brisas que o empurravam para o interior da moldura com as mesmas dimensões.
Pouco depois, o estranho objecto encostou-se à moldura e pareceu fundir-se à camada em movimento que cobria a tela.
Por alguns instantes, tudo se misturou numa massa fervente, reverberando todas as cores do prisma; em seguida, brilhou um raio cintilante e os presentes acharam-se numa profunda escuridão.
— Por enquanto é muito difícil julgar a semelhança do retrato - observou rindo Supramati.
— Espere um pouco para depois criticar a minha obra - disse Dakhir, virando-se e apertando o botão.
Uma luz eléctrica inundou o recinto e iluminou o quadro; ele emitia tal vivacidade, que ambos espectadores fitaram os olhos nele encantados e mudos.
Diante dos dois se abria um oceano, iluminado por um pálido luar, meio fechado por nuvens; nas eriçadas ondas grisalhas, oscilava suavemente um navio espectral, e, sobre ele, recostado no mastro, estava Dakhir envolto numa capa escura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:09 pm

Um archote fixado ao mastro jogava uma luz purpúrea em seu rosto pálido e nos grandes olhos negros que fitavam tristes a escuridão nebulenta.
Em volta do navio, sobre as ondas, boiavam alguns cadáveres; ao longe, perdendo-se na penumbra, viam-se os fragmentos de um navio destroçado.
— Dakhir, isso não é um quadro!
É o próprio passado invocado por você, fixado na tela por um método que desconheço - balbuciou nervosamente Supramati.
É a própria vida!
Olhe, Nara, como a luz do archote brinca no rosto do cadáver daquela mulher.
E a espuma da onda que ergue aquele cadáver!
Diga-me qual é o milagre que faz parecer que tudo esteja se movendo!
Palavra de honra!
Pode-se jurar que a água irá engolir agora aquele cadáver, que os corpos realmente estejam boiando em volta do navio e que o archote solta fumaça e crepita!
Supramati levantou-se e passou a mão pela tela.
— Apalpando - parece um quadro comum; se eu me afasto alguns passos, tudo fica animado, respira e se move - disse ele maravilhado.
Dakhir! Você é um grande feiticeiro!
Os artistas que puderem contemplar esse incomparável quadro vão inutilmente quebrar a cabeça procurando descobrir que tinta inédita utilizou o artista ao executar esta maravilhosa obra.
— E, de fato, será difícil determinar a composição química destas tintas.
Os cientistas dirão modestamente que isso é um segredo perdido assim como os outros e que a ciência do futuro irá descobrir o método da reprodução deste quadro - completou sorrindo Dakhir.
A propósito, você acertou: isto é realmente a reprodução do passado, cujo reflexo eu fixei na tela.
Eles ainda conversaram por longo tempo sobre o fenómeno visto, sobre os estudos que deveriam iniciar sob a direcção de Ebramar e sobre as desgraças que estariam esperando a humanidade.
Já começava a amanhecer quando se separaram, decidindo partir, o mais rápido possível, para a Índia.
No dia seguinte, à noite, resolveram ir ao teatro.
Estava sendo apresentada uma ópera e eles queriam conhecer as novas tendências da música italiana.
Mal as cortinas haviam se levantado e a sala de espectáculos mergulhava na penumbra, quando Nara e seus companheiros ocuparam o camarote.
Eles começaram a ouvir a música, mais barulhenta que melódica, e assistiram com interesse a apresentação que, por seu realismo, estava muito além dos limites permissíveis no palco.
Durante o primeiro intervalo, começaram a examinar a sala, nela procurando algum de seus antigos conhecidos.
Mas era difícil reconhecer nos respeitáveis velhinhos e nas velhinhas grisalhas, com as costas encurvadas, outrora mulheres jovens e bonitas e cavaleiros garbosos que cortejavam sem trégua Nara.
Alguns daqueles restos distintos do passado que se encontravam na sala olhavam com surpresa compreensível para Supramati e Nara, lembrando-se deles, mas considerando-os como desconhecidos e surpreendiam-se com a grande semelhança de seus antigos amigos.
Muitos não despregavam o olhar de Supramati, mas este não lhes dava qualquer atenção.
De repente, ele estremeceu e, inclinando-se, focalizou com o binóculo o camarote em frente.
Ali estava sentada uma jovem loira muito bonita e elegante, conversando animadamente com um rapaz que parecia apaixonado por ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:09 pm

— Nara! Está vendo aquela moça de chapéu branco, com diadema de esmeraldas na cabeça?
É Lilian - vítima de Narayana, cuja história eu lhe contei - sussurrou Supramati no ouvido da esposa.
Nara focalizou rapidamente o binóculo no camarote apontado, mas, neste instante, a moça que ali estava sentada também os notou.
Ela estremeceu tão forte, que o leque lhe caiu da mão e empalidecendo mortalmente jogou o corpo no espaldar da poltrona.
Seu olhar inquieto e estupefacto pareceu pregar-se em Supramati.
— Coitada!
Ela reiniciou o seu repugnante ofício.
Graças ao elixir ela conservou sua juventude e beleza, mas não se pode dizer que em seus olhos brilhe alguma felicidade - observou Nara em voz baixa.
Um minuto depois ela acrescentou:
— Você deve falar com ela, Supramati.
Talvez ela tenha perdido ou gasto o seu património e isso a empurrou para o caminho da devassidão.
— Se eu for até lá, o que será de minha reputação de homem casado? - brincou Supramati.
— Oh! Eu não vou ficar enciumada de um marido tão exemplar, ainda que você tenha inspirado a Lilian paixão tão ardente - replicou Nara.
Vá em frente, com a consciência tranquila!
Talvez nós sejamos úteis para aquele ser infeliz.
Não se esqueça de que ela é uma vítima de Narayana e isso impõe certas responsabilidades em relação a ela.
— Você tem razão.
Amanhã irei visitá-la.
E agora vou saber o endereço dela e o nome que adoptou.
Dez minutos depois, Supramati já sabia que Lilian se transformara em Adrienne Levanti, tendo aparecido na sociedade de três a quatro anos atrás, e que era amante do marquês de Palestre - um toscano muito rico.
De posse das informações, Supramati foi até o café ao lado e escreveu a seguinte mensagem:
"Amanhã, às 11 horas, esteja sozinha.
Eu irei visitá-la. S."
Essa mensagem enviada ao camarote da cortesã foi tão habilmente entregue pela porteira, aliciada com uma moeda de ouro, que o marquês que saíra para fumar no saguão de nada desconfiou.
Lilian ficou intensamente perturbada ao reconhecer em Supramati o seu benfeitor, que a salvara do terrível estado em que a colocou Narayana, ao torná-la rica e querendo orientá-la no caminho do bem e da vida séria e útil.
Ela não se esquecera do belo e magnânimo jovem que não se dignou a amá-la, e, ainda que ele não lhe desse qualquer notícia, continuava um ideal inacessível em seu coração.
Quando Lilian o viu inesperadamente belo e sedutor como antes, e ainda na companhia de uma encantadora mulher - sua esposa -, uma verdadeira tempestade desencadeou-se em sua alma.
A infelicidade, a paixão e o ciúme sufocavam-na.
A mensagem de Supramati acalmou-a um pouco.
Ele a reconhecera e queria vê-la - isso já era um consolo!
Lilian sentiu que não estava em condições de ficar no teatro e em função disso, assim que o marquês retornou, alegou não estar bem - o que era confirmado por sua palidez e aspecto abalado - e voltou para casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:10 pm

Ela passou uma noite insone.
Nas longas horas de devaneio solitário e no silêncio nocturno, rememorou todo o seu passado - toda a estranha e inexplicável epopeia de sua vida.
Mais tempo que o normal se arrastavam as horas da manhã que antecediam a chegada de Supramati.
Em pé, no balcão, Lilian escrutava com o olhar os passantes.
O seu coração palpitou acelerado e a respiração ficou ofegante quando, junto da entrada, parou uma gôndola, dela saindo Supramati.
Lilian recebeu-o no boudoir.
Ela estava tão emocionada, que não conseguiu soltar uma palavra e, estendendo-lhe calada a mão, apontou para a poltrona.
— Estou feliz que um acaso novamente me tenha feito encontrá-la jovem e bonita - disse ele, apertando-lhe amistosamente a mão.
Entretanto, eu não posso esconder, miss Lilian, que estou muito triste em encontrá-la num caminho espinhoso e humilhante, que eu tinha a esperança de que a senhora abandonaria para sempre.
Um rubor escuro cobriu-lhe o rosto.
— O senhor toca directamente no ponto dolorido, mas ao senhor, meu benfeitor, eu devo fazer uma confissão completa e relatar-lhe sobre aquele estado em que o senhor tão generosamente...
— Não, miss Lilian, a senhora não me deve nenhuma explicação ou confissão - interrompeu-a Supramati.
Mas se quiser confiar-me, como a um amigo, o que aconteceu durante os longos anos de nossa separação, eu ficarei reconhecido.
Acredite, estou muito interessado em seu destino.
Não será a senhora uma vítima da leviandade criminosa do meu irmão Narayana.
— Oh! Eu ficarei feliz em confiar-lhe tudo!
Mas depois o senhor também, por sua vez, responderá a uma pergunta que eu tenho e me explicará os mistérios que ocorrem em meu corpo.
Eu lhe transmitirei apenas os factos inéditos que aconteceram comigo.
— Estou adivinhando o que a senhora quer saber e responderei à medida do possível.
— Após a sua partida, eu tentei honrar a minha promessa e iniciei uma vida nova.
Estudava, lia e me aperfeiçoava em canto e música.
Além disso, sob a direcção de madame Rosali, eu me dedicava a causas beneficentes e frequentava a igreja.
Devo confessar que todas essas actividades, às quais não estava habituada e me entregava mais por obrigação do que por convicções íntimas, não preenchiam a minha vida e deixavam o meu coração vazio.
A felicidade momentânea que eu experimentava ao minorar a miséria de algum pobre, ou ao ver o meu sucesso nas apresentações de piano, não me satisfaziam.
A única pessoa para a qual eu queria mostrar os meus talentos e por cujos elogios ansiava estava longe e não dava qualquer notícia de si.
— Se a senhora buscasse a aprovação divina e não de uma pessoa, tão imperfeita como a senhora, seu coração ficaria satisfeito - disse Supramati meio constrangido, meio nervoso.
— Não estou querendo justificar as minhas falhas e fraquezas; eu só quero confessá-las para melhor expor os motivos dos meus erros consequentes - rebateu Lilian suspirando pesadamente.
Mas. continuando...
Durante três anos, levei uma vida isolada e de trabalho, sem encontrar nenhum conhecido, até que um dia me encontrei com o visconde de Lormeil, que eu não via desde a minha catástrofe com Narayana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:10 pm

O visconde de nada sabia.
Alegre em me ver, disse que não me largaria, pois tínhamos muito o que conversar.
Fomos ao jardim de um café que, por ser cedo, estava quase vazio, e me contou que Narayana havia morrido e a ele sucedeu o seu irmão.
Ele se desfez em elogios a respeito do senhor.
Concluindo, ele me contou que o senhor se casou em Veneza e depois partiu para a Índia...
Lilian calou-se indecisa, provavelmente perturbada e constrangida.
— Bem, miss Lilian!? Continue!
Suponho que lhe foi muito desagradável a notícia sobre o meu casamento secreto - observou Supramati sorrindo.
— O senhor tem razão! - reconheceu ela.
Fiquei furiosa.
Eu interpretei o seu casamento com aquela encantadora mulher, provavelmente merecedora do senhor, como uma ofensa pessoal.
Em minha fúria, eu me senti livre do meu compromisso de levar uma vida honesta, sem compreender na minha cegueira que a virtude é útil, sobretudo, para aquele que a ela se atém.
Apesar dos pedidos e ponderações de Rosali, irreflectidamente mergulhei em todo tipo de devassidão mundana, mas o meu coração permanecia vazio e, nas horas de solidão, os remorsos me dilaceravam por ter desdenhado os conselhos do meu benfeitor.
Para preencher aquele vazio e sufocar a consciência pesada, lançava-me na prática de toda a sorte de excessos.
Eu buscava sensações fortes, apostava na bolsa e na roleta, e acabei por gastar todos os meus bens numa especulação arriscada.
Perdi tudo que tinha, mas isso não me deixou aborrecida.
A minha beleza, sobre a qual nem o tempo nem os excessos tinham qualquer efeito, era uma inesgotável fonte de riqueza.
Eu não conseguia atinar por que a minha beleza não murchava.
Ainda que já contasse com cinquenta anos, o espelho reflectia o rosto de uma mulher de vinte e cinco.
Às vezes, eu pensava: será que não sou a segunda Ninon de Lenclos?
Certo dia - e isso aconteceu há sete anos - senti uma forte indisposição.
Isso me surpreendeu e assustou, pois havia mais de trinta anos que não ficava doente.
Eu sentia uma terrível fraqueza, um peso de chumbo nos membros e uma indescritível aversão à vida.
O médico que me veio examinar não conseguiu encontrar uma causa orgânica da doença e concluiu que, provavelmente, era o meu sistema nervoso que provocava aqueles sintomas doentios.
Supondo que eu estava me aproximando dos quarenta, ele acrescentou que a idade tem as suas exigências e prescreveu-me repouso absoluto, durante alguns meses, em algum lugar retirado, longe do barulho de diversões mundanas.
Eu deveria viver, preferencialmente, num local com ar puro, passar o maior tempo possível passeando na floresta, tomando leite, mantendo um regime vegetariano, enfim, nada fazendo ou vendo para proporcionar ao organismo um repouso completo.
Segui o conselho do médico e fui morar numa fazenda retirada no sul da Alemanha.
Os donos eram pessoas pobres, simples, boas e honestas.
Sua pequena propriedade era cercada pela floresta, o que - como o senhor sabe - é uma raridade nos tempos de hoje; mas o velho fazendeiro, pessoa de hábitos também antigos, por nada no mundo concordava em vendê-la.
Eu me instalei naquele lugar ermo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:10 pm

Nos primeiros dias me senti melhor, mas logo os sintomas alarmantes reapareceram com força redobrada:
o peso nos membros tornou-se insuportável, a visão deteriorava-se, a audição embotava-se, os cabelos começaram a ficar grisalhos, o porte curvou-se, e a pele, até aquele dia acetinada e fresca, ficou sulcada de rugas.
Resumindo: em duas ou três semanas - não consigo determinar exactamente o tempo, pois eu estava feito uma louca - tornei-me uma velha horrível.
O estado da minha alma estava péssimo.
Eu estava tão acostumada a ser jovem e bonita, que havia esquecido de minha idade actual.
Em vão, tentava me convencer de que a vinda da inesperada velhice era coisa natural e que só um acaso inexplicável a havia adiado por tanto tempo; não obstante, não conseguia me habituar a esta ideia.
A última fase daquele terrível estado foi demasiadamente dura.
Todo o meu corpo parecia ter ressecado, os cabelos caíam aos cachos, perdi todos os dentes.
Em poucos três dias, minha boca não tinha nada, o crânio ficou desnudado, a fraqueza chegou a tal ponto, que já não conseguia me levantar e achava que a hora já tinha chegado.
O meu estado era motivo de preocupação dos donos da fazenda e eles queriam buscar um médico, contudo eu fui energicamente contra.
Viver do jeito que eu estava era mil vezes pior que a morte.
Dei algumas ordens quanto ao meu enterro e também uma soma para isso.
Eles não deveriam notificar ninguém da minha morte.
Eu queria desaparecer sem deixar vestígios.
Isso foi à noite.
Estava deitada num pequeno quarto, mergulhada num pesado torpor, e, nos instantes de lucidez, via a agonia que antecedia a hora final.
De repente, senti como se no local onde eu tinha um ferimento outrora causado por Narayana acendesse um fogo.
Dali, parecia espargirem flechas ígneas que perfuravam o meu corpo em todas as direcções, causando explosões internas ora na mão, ora no pé, ora no olho ou no estômago e assim por diante.
Sentia dores lancinantes que iam de um lugar para outro com incrível rapidez.
Por fim, a minha cabeça pareceu despedaçar-se e perdi os sentidos.
A proprietária me disse depois que, quando ela veio me visitar, achou que eu estava dormindo.
Dormi assim por quarenta e oito horas.
Quando acordei, estava me sentindo bem, apenas com muita fome.
A criada que me trouxe o desjejum anunciou que eu estava com bom aspecto e havia rejuvenescido trinta anos.
Resumindo: a juventude e a beleza me retornaram mais rápidas do que viera a velhice.
Paulatinamente, saíram-me os dentes e os cabelos cresceram, e eu me tornei do jeito como o senhor me vê agora.
A minha bondosa anfitriã, no início, olhava-me com medo supersticioso, mas depois se acalmou e confessou-me que considerava a minha enfermidade como uma feitiçaria, cujo efeito sinistro fora quebrado por uma sagrada relíquia que ela, sem que eu percebesse, havia posto embaixo do travesseiro.
Eu nada disse, pois também não conseguia explicar o que havia ocorrido comigo.
Quando me recuperei totalmente, tinha que retomar o meu vil ofício para viver da forma como estava habituada.
Eu não queria aparecer com o meu antigo nome nem voltar para o lugar que frequentava antes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:10 pm

Adoptei o nome de Adrienne Levanti e fui embora para a América.
De lá me trouxe a Veneza o meu amigo italiano.
O resto não tem a mínima importância.
Agora, explique-me o que aconteceu comigo.
O senhor, para quem o tempo não tem qualquer autoridade, deverá possuir a chave do mistério e poderá dizer-me quando será o fim da minha juventude artificial e da vida odiosa que me oprime como um fardo insuportável...
Estou enfastiada de tudo, não tenho um objectivo na vida e não sirvo para nada.
Diga-me, ao menos por compaixão: quando e como virá o meu fim?...
Supramati ouviu com misto de surpresa e inquietação o longo relato.
Só agora ele entendia as palavras de Ebramar, que dissera que a essência da vida, tendo sido introduzida no organismo de Lilian da forma como foi por Narayana, agia de modo diferente e aumentava em muito a longevidade, sem torná-la, entretanto, totalmente eterna.
Mas... de que maneira?
Ebramar não havia explicado e Supramati desconhecia o que aconteceria a Lilian no futuro.
O modo como o organismo dela rejuvenescera outra vez era uma novidade para ele e indicava apenas a diversidade de efeitos daquela substância miraculosa e ao mesmo tempo terrível.
— A senhora me pergunta mais do que eu posso responder-lhe - disse Supramati, após um minuto de silêncio.
É certo que existe uma substância desconhecida que aumenta a duração da vida num prazo maior ou menor e que mantém as forças e a juventude; mas é um crime utilizar-se desse perigoso meio tão insensatamente.
Eu considero que Narayana praticou um delito contra a sua pessoa, pois não pediu o nosso consentimento e não pesou se a senhora seria capaz de suportar tal provação, condenando-a para a vida, cujo fim eu não tenho condições de prever, mas que suponho seja muito longa.
E isso ele fez só para satisfazer as suas paixões animalescas!
Ao ver que Lilian empalidecera mortalmente, fitando-o aterrorizada, Supramati acrescentou:
— Acalme-se e encare com coragem o futuro!
No que depender de mim, farei tudo para aliviar-lhe a sua sina.
Primeiro, eu lhe assegurarei um património que a livrará da necessidade de comercializar a sua individualidade.
O capital será distribuído de tal forma, que as ocasionais especulações não possam tirá-lo da senhora.
Segundo, eu vou reiterar-lhe o meu conselho, ou seja: tenha uma vida orientada para algum objectivo nobre e útil e não para uma ambição mesquinha.
Nós devemos derrotar os sentimentos desenfreados que fervem em sua alma e não aproveitá-los como uma desculpa para a realização de diversas tolices.
Eu não consigo acreditar que essa humilhante vida que a senhora leva possa satisfazê-la.
A senhora mesma disse que essa vida era-lhe repulsiva.
E não pode ser diferente!
A fagulha divina, inserida em seu ser, impele-a para frente, das trevas para a luz.
É nisso que consiste o destino das almas; é esse o caminho pelo qual nós devemos subir para nos unirmos ao nosso Pai Celeste.
Dedique-se ao trabalho e ao aperfeiçoamento de si e esta vida, que tanto a assusta, não lhe parecerá tão longa e a senhora sentirá menos o vazio deste passageiro mundo, onde a morte ceifa a todos em volta, deixando viva apenas a senhora.
— Tudo o que o senhor me diz é verdade, no entanto, quando penso no meu futuro aterrorizante, fico desesperada - balbuciou Lilian, cobrindo o rosto com as mãos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:10 pm

Em seguida, aprumando-se rapidamente ela acrescentou:
— O senhor me diz para trabalhar e me aperfeiçoar.
Mas como? De que jeito?
O isolamento e beneficência não me satisfazem e não trazem interesse algum para a minha vida.
— Eu cuidarei para arrumar-lhe actividades mais interessantes - observou sorrindo Supramati.
Antes de tudo, acertarei as questões patrimoniais.
Até logo! Em breve a senhora terá notícias minhas.
Ao voltar para casa, Supramati contou a Nara os resultados de sua visita e discutiu com ela o que poderia ser feito para tornar menos penosa a sorte da infeliz vítima de Narayana, sentenciada, pelo visto, a uma vida prolongada.
Após reflectir demoradamente, Nara sugeriu tentar interessar Lilian com as ciências ocultas.
Talvez esses estudos despertassem o seu interesse e até a preparassem para ser uma ajudante deles no futuro.
Nara queria conversar particularmente com a jovem e explicar-lhe toda a situação.
De acordo com a decisão tomada, Nara convidou Lilian para ir a sua casa.
Lilian foi, movida tanto por ciúme como curiosidade, mas todos esses sentimentos logo desapareceram na conscientização amarga de sua patente insignificância diante daquela mulher.
Foi aí que ela compreendeu, de uma vez por todas, por que Supramati, sendo o marido de Nara, não poderia amá-la.
Ao mesmo tempo, sentia-se vencida pela benevolência carinhosa dele em relação a ela, e despertou-lhe a vontade de aproximar-se daquele casal eleito através do trabalho e purificação moral.
Lilian aceitou agradecida a oferta de se entregar ao estudo das ciência ocultas; alguns fenómenos, mostrados por Nara, interessaram-na sobremaneira.
Ajudados por Dakhir, que tinha no continente muitos conhecidos, entraram em contacto com um velho alemão que morava perto de Nuremberga num castelo isolado e se dedicava a ciências esotéricas.
Tanto ele como sua esposa aceitaram que Lilian ficasse em sua casa na qualidade de discípula, enquanto um dos adeptos superiores, que morava em Londres, comprometeu-se observar a neófita e orientá-la.
Quando todos os preparativos estavam concluídos, Lilian viajou para Nuremberga de posse de um novo património e animada com as melhores intenções de estudar e se aperfeiçoar.
O seu coração estava mais calmo e a gratidão sugeria-lhe o desejo de justificar as preocupações em relação a ela e ganhar merecidamente o respeito de seus benfeitores.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:11 pm

Capítulo X

Certa noite, depois da partida de Lilian, Supramati estava sentado sozinho em seu gabinete.
Dakhir havia saído a algum lugar e Nara trabalhava em seu quarto, pondo em dia as suas observações e repassando o diário que mantinha religiosamente há vários séculos, e que continha as mais interessantes memórias que possam ser escritas por um ser humano.
Deitado sobre o sofá, Supramati folheava os novos romances.
Ele queria ter uma noção sobre a nova literatura italiana, porém, enfastiado com aquela tola e vazia leitura, jogou os livros sobre a mesa e começou a pensar.
Encontrar-se naquele gabinete solitário sempre o fazia ficar com um estado de espírito peculiar.
As lembranças de seu primeiro dia no palácio e toda uma espécie de sensações sentidas pelo pobre e modesto Ralf Morgan, de chofre deslocado para um ambiente mágico das "Mil e uma noites", assomavam-se-lhe à mente.
Desde então se passaram quarenta e cinco anos; mas, em certos momentos, parecia-lhe que foram séculos, a tal ponto ele havia mudado. Que horizontes se abriram à sua mente, em que mistérios ele penetrara e que poderes adquirira!
A sua vontade já não era um bambu balançando ao sabor do vento; o pensamento já não era uma chama tremeluzente que poderia ser apagada por uma brisa.
Agora o acto de pensar tornara-se uma ígnea corrente flexível que, à semelhança de uma flecha, partia da mente disciplinada e alcançava o objectivo almejado.
Um sorriso maroto brincou nos lábios de Supramati. Feito um escolar que repete convicto uma lição bem decorada, ele concentrou por um minuto a sua vontade, fitando com o olhar brilhante a vela sobre a escrivaninha. Imediatamente o ar foi recortado por uma chispa e a vela acendeu.
Pouco depois, um dos livros que estava no sofá se levantou no ar e, como se trazido por alguma força invisível, depositou-se em sua mão.
Um número infindável de tais experiências eram realizadas por ele, sempre com êxito, em seu laboratório.
Desde o dia em que reingressou à sociedade, topando a toda hora com a ignara e leviana multidão, tinha a impressão de que todos os seus conhecimentos ficaram lá, no castelo escocês, onde, como num sonho, passara meio século mergulhado no trabalho que lhe absorvia todo o tempo.
Mas não! Ele nada havia esquecido ou perdido.
Sua vontade era inflexível, dominadora e poderosa, e as forças ocultas se lhe sujeitavam submissas.
Não, ele não voltou ao que era!
Involuntariamente o seu pensamento se afastou para aquele a quem devia o seu estranho e maravilhoso destino.
Naquele recinto, tudo ainda lembrava Narayana.
Aquela mobília - era Narayana que havia escolhido, naquele armário ainda estavam suas coisas, e, ali, sobre a escrivaninha, estavam os retratos dele e de Nara.
Um suspiro de dó e lamento soltou-se do peito de Supramati.
Ele tinha pena de seu antecessor, impelido por seus impulsos e paixões para actos criminosos, levando-o para um fim tão lastimoso.
O que ele estaria fazendo?
Encontrava-se Narayana naquele estado horrível, no qual o encontrara ali, naquele mesmo palácio?
Agora já não o assustaria: já não era mais um acovardado que desmaiava ao ver um ser do outro mundo!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:11 pm

Ele vencera todos os horrores com que o dragão impedia a entrada ao mundo invisível e tinha à disposição uma arma que submetia os espíritos inferiores e perigosos que povoavam os sumidouros do enigmático mundo do além-túmulo.
Continuando a olhar para o retrato de Narayana, notou uma pequena esfera da cor de safira correr pela tela, transformando-se em seguida numa pequena nuvem que começou a aproximar-se dele, girando e fosforescendo. Ele teve a sensação de uma espécie de teia de aranha escorregar-lhe pelo rosto e sentiu o odor de sangue.
Os trabalhos ocultos desenvolveram a perceptividade de Supramati, de forma que ouviu um leve crepitar, imperceptível a qualquer outro, produzido pela presença de um espírito - espírito de Narayana, provavelmente. Será que ele queria lhe falar alguma coisa?
Não precisaria de ajuda? Fosse o que fosse, Supramati considerou como seu dever responder ao chamado e, assim, perguntou mentalmente:
— Você quer que eu o invoque e materialize, Narayana?
A voz sussurrou-lhe no ouvido:
— Peço-lhe...
Supramati levantou-se e trouxe do dormitório o escrínio com diversos frascos e pós.
Colocando-o sobre a escrivaninha, tirou dele uma trípode de prata, uma travessa do mesmo metal, um castiçal com sete braços e uma vasilha larga de cristal.
Afastando a mesa até o centro do quarto, colocou sobre ela a travessa, o castiçal e a trípode, colocando na última alguns pedaços de carvão. Ao encher com água fresca a vasilha de cristal, ele pôs ao seu lado uma taça, completando-a com uma essência vermelha que tirou do frasco, e que difundia um aroma agradável e vivificante.
Terminados todos os preparativos, apagou a luz eléctrica e tirou debaixo das vestes o bastão mágico, pendurado numa corrente de ouro.
Após reverenciar norte, sul, leste e oeste, começou a ler cantando as fórmulas mágicas e desenhando no ar sinais misteriosos acima da mesa.
Mal haviam desaparecido os contornos luminescentes dos hieróglifos, o ar foi recortado por uma chama crepitante que acendeu as sete velas e o carvão com o pó, colocado por Supramati.
O pó inflamou-se numa chama branca e viva feito luz de magnésio, iluminando os cantos mais afastados do gabinete.
A seguir, a chama começou a reverberar todas as cores do prisma e finalmente se apagou com uma pequena explosão.
O fenómeno que acabava de ser produzido custava-lhe outrora muito esforço e trabalho, mas Dakhir exigia de seu discípulo esta habilidade, necessária para todo aquele que quisesse dominar as ciências ocultas, pois os objectos mágicos não podem ser acesos com chama comum e é necessário invocar o fogo do espaço.
Por essa razão, os feiticeiros medíocres que não detêm poderes para invocar esse tipo de fogo, tentam obtê-lo acendendo com um raio algum objecto e mantê-lo a todo custo para as sessões de magia.
Abaixando o bastão e continuando o canto pausado, Supramati afastou-se da mesa, junto da qual surgiu uma grande mancha cinzenta, transparente como teia de aranha. Uma brisa gelada agitava aquela nuvem.
À medida que diminuía e se extinguia a chama branca, a mancha cinzenta densificava-se e esticava-se, tomando a forma de uma figura humana.
O ser de contornos indefinidos e dois pontos fosforescentes no lugar de olhos, cambaleando e oscilando para todos os lados, aproximou-se da mesa.
A mão aérea separou-se da massa nevoenta e agarrou a taça, esvaziada pelo estranho ser de um só gole.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:11 pm

Quase imediatamente, a figura humana compactou-se e surgiu a cabeça coberta de cabelos negros, que mergulhou por algumas vezes na vasilha com água; a seguir, o vulto nela molhou também as suas duas mãos.
Agora já se podia divisar uma figura alta de homem, envolto numa larga capa branco cinzenta.
Quando o vulto se virou, Supramati deu com o rosto de Narayana que lhe estendia os braços.
— Agradeço-lhe, amigo Ralf, por você ter atendido ao meu chamado e ter-me trazido à vida real - disse Narayana em voz sonora.
Supramati apertou-lhe efusivamente a mão.
— Sou eu é que devo agradecer.
De que forma eu poderia pagar-lhe por aquela dádiva sem preço que você havia me dado?
Estou feliz que o meu conhecimento tenha permitido que eu o trouxesse para cá e pudéssemos conversar.
Deixe-me cumprimentá-lo pela mudança de seu estado.
Fiquei muito triste na última vez em que o encontrei aqui.
Você deve ter trabalhado muito para ter se purificado até esse ponto!
Narayana aproximou a poltrona e se sentou.
Por alguns instantes o seu olhar vagou pelos objectos em volta.
À luz das sete velas, Supramati reparou que no belo rosto de seu antecessor se gravaram sinais de muito cansaço; por outro lado, a expressão de raiva infernal e os pequenos chifres vermelhos que se anteviam antigamente por detrás dos cabelos, negros como asa de corvo, desapareceram por completo.
Naquele momento, Narayana tinha o aspecto de um homem totalmente real.
Virando-se para Supramati, Narayana disse em tom meio zombeteiro, meio melancólico:
— Na última vez que você me viu, por força dos sofrimentos eu era um ser repulsivo e cruel.
Sim... Não há palavras para transmitir aquele inferno que eu passei!
Sem dúvida, pequei muito, mas para uma pessoa com o meu carácter era uma enorme tentação viver por centenas de anos, munido de incríveis poderes que me colocavam acima de toda a humanidade.
Feliz é você, Ralf Morgan, porque em suas veias corre um sangue calmo e no coração habita um grande amor à ciência.
Você vai subir muito na escada do conhecimento e os séculos coroarão a sua fronte com a estrela do mago!
Eu, no entanto, fiquei escravo da minha carne, um joguete de minhas paixões desenfreadas e, no espaço, tornei-me um escravo da matéria primordial, que vertia as correntes de vida nas veias fluídicas do meu corpo astral.
Você viu como eu decaí.
Ao me conscientizar dessa decadência, sofri como na própria carne as dores físicas que dilaceravam o meu corpo astral.
Entretanto, não foi em vão que adquiri alguns fragmentos do conhecimento; tinha uma mente parcialmente disciplinada e amigos, entre os quais o velho que você viu na gruta dos antepassados.
Apoiado por eles, iniciei o trabalho para purificar-me e expiar, ao menos um pouco, o mal que causei.
Você pode ver os resultados do meu esforço.
Eu ainda continuo sendo um espírito sofredor, mas já não necessito de alimento nem de prazeres materiais.
O crucifixo de Nara já não me obrigará a recuar.
Mas, a propósito da minha ex-esposa, você está feliz com ela?
— Para mim, ela é um anjo!
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:11 pm

— Antes assim! Em relação a mim, ela sempre foi ingrata e cruel.
A mim ela não concederia nem meia hora de conversa!
Verdade, eu lhe sou infinitamente grato por ter me materializado neste gabinete cheio de recordações.
Tenho a impressão de que ainda sou o senhor deste castelo.
— Aos meus olhos você permanece sendo!
Eu gostaria de provar melhor a minha gratidão.
— Se você realmente deseja fazer-me algo agradável, Ralf, ou melhor, Supramati - como aqui o chamam -, deixe-me ficar aqui por quinze minutos para sonhar e entregar-me às lembranças, como se eu ainda pertencesse a este mundo.
Supramati, que estava sentado na poltrona, levantou-se rapidamente.
— Eu o deixarei sozinho imediatamente.
Fique aqui e considere-se como dono desses quartos que ainda respiram você.
Supramati fez um sinal amistoso com a mão e retirou-se para o dormitório, cuja porta fechou à chave.
Ele não percebera uma estranha expressão de zombaria que cintilou nos olhos do espectro.
Mal passaram alguns minutos desde a saída de Supramati do gabinete, a porta oposta, que levava ao aposento da esposa, abriu-se rapidamente e dela irrompeu Nara.
Sua aparência denotava inquietude.
— O que você fez?! - gritou ela, correndo até o marido e agarrando a sua mão.
Você materializou Narayana e o deixou sozinho no gabinete?
Como você pôde fazer essa loucura? Isso é imperdoável!
Você não é nenhum profano que se diverte sem entender o que está fazendo...
Supramati olhou para ela sem nada entender.
Sem esperar pela resposta, ela correu até a porta do gabinete, mas esta se abriu e na soleira surgiu Narayana.
Seus olhos negros ardiam, nos lábios vagava um sorriso orgulhoso e triunfante e nas faces pálidas estampara-se um suave rubor.
Sua rara beleza apresentava-se em todo o seu esplendor.
Constrangido, Supramati olhava admirado para ele, sem entender o motivo da ira de Nara; não entendia que desgraça poderia advir de uma simples materialização ou do desejo do espírito de ficar por alguns minutos sozinho no quarto, onde ele mesmo viveu por muito tempo.
Mas um olhar, lançado por acaso para o interior do gabinete, fê-lo estremecer.
Na parede, em frente da qual estava sentado Narayana, havia uma abertura de cuja existência Supramati nem suspeitava, e sobre a mesa estava um escrínio aberto, que, pelo visto, fora retirado do esconderijo.
Ao lado do escrínio, estava um frasco com rolha de ouro, que continha a essência primeva.
O insolente espírito ousou se utilizar dela...
Supramati empalideceu.
Mas não teve tempo de abrir a boca, pois Narayana mediu Nara com um olhar de mofa e disse:
— Você chegou muito tarde para impedir-me, minha bela ex-esposa!
Apesar de ser muito precavida, você se esqueceu de prevenir Supramati, cujo coração os séculos ainda não tiveram tempo de endurecer como o seu.
— Você mereceu isso, mas a sua insensatez é, decididamente, incorrigível - replicou Nara cerrando o cenho.
— Não se preocupe, eu mesmo arcarei com as consequências do meu audacioso ato e as desavenças conjugais já não me preocupam.
Além do mais, os seus encantos perderam para mim qualquer poder - observou em tom zombeteiro Narayana.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:11 pm

E assim, tranquilize-se, encantadora e cruel Nara:
eu não vou reclamar pelo espólio nem por você.
Você sabe melhor que todos como será duro agora qualquer relacionamento com os seres humanos.
Assim, eu irei ao palácio de um ioga no Himalaia e não vou perturbar mais ninguém.
Nara deu de ombros, virou as costas e saindo do quarto atirou ao marido:
— Tolo! Duplamente tolo!
— Não leve a mal que eu tenha sido o responsável por esse título honorífico, meu pobre amigo e herdeiro.
Somente eu o escutei.
Nos velhos tempos, aliás, eu fui agraciado por títulos mais vigorosos; mas, partindo de uma mulher bonita, a gente aguenta - disse Narayana, rompendo-se numa sonora gargalhada.
— Ah, você realmente não tem jeito! – observou Supramati rindo involuntariamente.
Depois, em tom já sério, ele perguntou:
— O que você fez?
— Somente aquilo a que eu tinha direito: eu me utilizei da essência primeva que lhe leguei.
Você não ficará mais pobre com umas gotas a menos.
— Basta, Narayana. Tudo que pertenceu a você continuará seu.
Eu não preciso de nada.
A minha dádiva mais preciosa - a iniciação - ficará comigo.
— Você é uma pessoa boa e correta, Supramati! - elogiou Narayana em tom amistoso.
Eu quero que você saiba que não preciso dos bens terrenos que lhe deixei em herança.
— De qualquer forma, tudo fica à sua disposição.
Não pense, no entanto, que eu lamento a sua ressurreição.
— Eu sei. Mas entenda, Supramati, que não me tornei um homem comum; eu sou um anfíbio que entrou por duas portas no mundo invisível.
Não posso utilizar alimento comum, a não ser especial, que praticamente não custa nada.
Eu simplesmente adquiri a capacidade de não me decompor por conta da essência primeva, que me supriu de vontade ou de força vital, permanecendo ao mesmo tempo um espírito.
Assim eu, a meu critério, posso ser visível ou não. Vou lhe demonstrar agora.
Narayana pegou Supramati pela mão e imediatamente se fez desaparecer.
Por mais que este olhasse em volta, só enxergava o ar transparente e, no entanto, sentia o aperto forte dos dedos de Narayana.
Por fim, ele se tornou novamente visível, extasiando-se diante da surpresa e desorientação do jovem mago.
— Você ainda ignora muitos mistérios, pois teve acesso somente aos princípios da ciência; mas devo reconhecer que você as estudou coerentemente, ainda que os fenómenos que podem ser produzidos com o auxílio da matéria primeva lhe sejam praticamente desconhecidos.
A sua multiplicidade é infinita, já que este agente com a mesma facilidade que torna coesas as moléculas também as quebra. Com a quarta parte do que sobrou neste frasco, você poderá ressuscitar um cemitério inteiro.
Só que não será o mesmo que eu fiz comigo. Eu atraí do espaço uma quantidade de moléculas que me garantem unicamente a densidade necessária para uma vida semi-humana, livre, aliás, de quaisquer incómodos carnais.
Tal vida eu pretendo levar num maravilhoso palácio, localizado no Himalaia.
Você ainda não o viu, mas espero que vá me visitar lá.
Você, apesar da imortalidade, sente o fardo do corpo material e necessita de milhares de coisas para o seu conforto, locomoção, e assim por diante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:12 pm

Se não consegue morrer de fome, de qualquer forma deve sentir outros desconfortos, dos quais já estou livre.
Supramati deixou-se cair impotente na poltrona e passou a mão na testa.
— Decididamente, eu começo a me perder no labirinto dos milagres e mistérios inexplicáveis, cuja fonte é a matéria primeva.
Estou cada vez mais convicto de que não passo de um ignorante, que mal acabou de decorar o alfabeto.
Mas você, Narayana, é hábil nessa ciência que desconheço totalmente; você estudou as propriedades da essência primordial.
Tire-me algumas dúvidas que tenho!
— Terei prazer de lhe contar o pouco que sei.
— Neste caso, diga-me, antes de tudo, estava você brincando quando disse que com o auxílio da matéria primeva eu poderia ressuscitar o cemitério inteiro?
— Eu falei sério. E isso é totalmente possível.
— Eu não entendo.
Devido ao nosso sistema de enterro, dentro das sepulturas só sobram os ossos, enquanto dos cadáveres incinerados apenas ficam as cinzas.
De que forma, então, esses restos poderão reviver e se animar?
Narayana apagou as sete velas que ainda estavam ardendo.
Depois ele foi ao quarto contíguo, sentou-se no sofá e disse para Supramati ocupar o lugar ao lado.
— Estou vendo que você tem muitas perguntas e, sendo assim, aqui será mais confortável.
Enquanto sobrar qualquer remanescente de corpo humano, existirá um objecto, impregnado de fluido vital.
Isso, como queira, será o fundamento, junto ao qual poderá ser concentrado um sistema molecular, que outrora constituía uma coisa integrada.
O processo pode ser desencadeado sempre e numa velocidade impressionante, desde que aos restos do corpo for introduzida uma partícula da matéria primeva, necessária para a aglomeração.
— E os seres ressuscitados desta maneira tornam-se imortais? - perguntou pálido e atónito Supramati.
— Não, não!
Eles adquirem a vitalidade só por algum tempo, nunca muito longo devido ao fato de que a matéria é intensamente absorvida pelo processo, que possui também as suas inconveniências.
Assim, por exemplo, para devolver ao corpo um espírito que ele antigamente habitava, às vezes é necessário arrancá-lo de um que ele anima no momento, o que provoca a morte daquele sujeito, pois a força actuante desconhece obstáculos e manifesta-se invariavelmente ali, onde se verifica ser mais forte.
No caso que nos interessa, a força superior se encontrará no corpo destruído, uma vez que a dose da essência depende do operador.
O espírito, trazido dessa forma ao seu habitai anterior, perde a lembrança do passado, indiferentemente se foi chamado do espaço ou arrancado do outro corpo.
A propósito, com o auxílio desta matéria - a verdadeira essência da vida - é possível criar um ser humano artificialmente, mas a sua vida seria efémera, porque a matéria vital é absorvida muito rápido.
Tal criatura se transformaria em cinzas; mas repito:
isso é bem possível.
— Por que Dakhir nunca me falou destas coisas tão importantes? - balbuciou Supramati.
— Oh! Dakhir é um mentor muito diligente e por demais metódico.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:12 pm

Ele lhe ensinou as fórmulas mágicas que fazem submeter os seres inferiores, desenvolveu as suas potencialidades ocultas e disciplinou a sua força de vontade; no entanto não o familiarizou com as propriedades da matéria primeva, deixando isso, provavelmente, para o futuro.
Eu, ao contrário, sempre fui um aluno rebelde e nunca suportei estudos muito lentos.
Eu almejava orientar-me em todos os campos da ciência.
Terei muito prazer em compartilhar com você os resultados de meus estudos neste campo.
Se você quiser, eu lhe mostrarei algumas experiências que ilustram o que acabei de lhe falar sobre as propriedades e os poderes da essência primeva.
— Como se eu não quisesse!
Ficarei reconhecido do fundo da minha alma se você me der alguma luz sobre as propriedades da matéria em meu poder, que não sei usar, correndo um risco de fazer o mal, onde só quero fazer o bem.
— Podemos iniciar imediatamente uma experiência de ressurreição.
Já é quase meia-noite.
A hora é favorável, e como eu, graças a Deus, não corro risco de me decompor, entrego-me a sua inteira disposição.
Vamos até a ilha dos mortos.
Lá nós escolheremos alguns defuntos e os faremos voltar para as alegrias da vida.
Visto eles não terem condições de saber quem são os seus benfeitores, não poderão nos delatar e jamais aceitarão a ideia de que estavam mortos - concluiu rindo Narayana.
Supramati pôs-se a pensar indeciso.
A possibilidade de estar presente numa experiência tão inédita atiçava-lhe a curiosidade, e um certo aborrecimento em relação a Dakhir e Nara, que lhe iam ministrando os conhecimentos em doses homeopáticas, incitava-o a aceitar a proposta de Narayana.
Por outro lado, sua boa e correta alma sentia-se atormentada com o temor de causar algum mal ao lançar a mão, criminosamente, de poderes desconhecidos.
Narayana, que o observava atentamente, soltou uma gargalhada escarninha.
— Você está vacilando?
Talvez - há-há-há! – você esteja com medo de Nara e Dakhir?!
Neste caso, esqueça de que eu falei.
Deus me livre se você receber uma reprimenda de seus severos mentores.
Um rubor brilhante cobriu o rosto de Supramati.
— Chega de falar besteira!
Não recebo ordens de ninguém e quero assistir a esse fenómeno que você prometeu me mostrar.
Só deixe que arrume as coisas e pegue minha capa!
— Você que sabe!
Não se esqueça de levar o frasco com a essência e me arrume também uma capa qualquer.
Eu não posso sair à rua com este traje do outro mundo – disse Narayana, atirando para o chão a capa que vestia, e que ao cair, desfez-se toda.
Ele encontrava-se agora num traje de veludo violeta com larga gola em renda e botas de cano longo com esporas.
Supramati olhou-o sorrindo e, depois, guardando apressadamente as coisas, perguntou:
— Diga-me, por que Nara tenta impedir, a todo custo, que você adquira o seu actual estado?
Isso não lhe é indiferente?
Um sorriso enigmático deslizou pelos lábios de Narayana.
— Pergunte a ela!
Talvez ela lhe diga a razão dessa má vontade em relação a mim.
Eu não quero irritá-la mais ainda, suscitando talvez suspeitas infundadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 12, 2016 7:12 pm

Dez minutos depois, ambos saíram do palácio através de uma escada secreta que dava na laguna lateral.
Aos pés da escada, havia um barco.
— Eu mudei os planos - anunciou Narayana sentando-se no barco e se envolvendo todo na capa.
Até a ilha dos mortos é muito longe e, além do mais, lá é difícil retirar os ossos.
Pensei numa coisa melhor.
Perto daqui - aí ele citou o nome de um dos pequenos canais laterais - há um velho palácio semidestruído.
O seu dono, de família antiga tradicional, está totalmente arruinado e subsiste num dos quartos do primeiro andar, onde logo acabará morrendo, opondo-se, entretanto, a vender as ruínas.
Naquele palácio havia outrora uma capela sob a qual construíram um túmulo, actualmente esquecido.
Lá nós encontraremos o que precisamos.
— Está bem! - concordou Supramati pegando nos remos e se dirigindo ao local apontado.
Era um antigo quarteirão de Veneza.
As casas, rodeadas por um pequeno canal, tinham em grande parte um aspecto desértico e abandonado.
Por fim, Narayana indicou um prédio mais destruído que os demais e disse:
— Que palácio, hein!
Pare junto daquela pequena porta à esquerda!
Supramati encostou o barco junto a um velho anel de bronze, fixado na parede, e começou a subir a escada. Narayana ia à frente.
Sob a pressão de sua mão, a porta abriu-se rangendo, fechando-se quase imediatamente.
— Aqui está mais escuro que na goela do diabo! - resmungou Supramati.
Dizendo isso, ele tirou do bolso uma esfera de vidro com cabo de bronze; a esfera começou a emitir uma luz brilhante.
— Oh! Então já descobriram o segredo das lâmpadas eternas que tanto seduziram os cientistas desde que elas foram encontradas nas sepulturas romanas? – observou Narayana.
— Sim, o segredo foi desvendado há trinta anos atrás.
Agora elas estão em moda.
Bem, Narayana, ande na frente e indique o caminho, pois você conhece a disposição da casa.
— Oh, perfeitamente!
Eu vi este palácio em seus tempos áureos, ou seja, em 1560. Na época, a casa era um luxo só.
Eles atravessaram rapidamente uma infinidade de salas vazias.
A luz viva da lâmpada iluminava paredes desnudadas, afrescos cobertos de musgo eplafonniers balançantes que ameaçavam cair no chão.
Havia um contraste marcante entre toda aquela pobreza e desolação e as maravilhosas lareiras de mármore branco e amarelo, pisos de mármore em mosaico, cobertos por poeira, e todo tipo de fragmentos.
Os passos de Supramati ressoavam forte pelo piso de pedra, enquanto Narayana deslizava silencioso ao seu lado.
Subitamente, uma sensação estranha e oprimente apertou o coração de Supramati.
Naquele profundo silêncio nocturno, naquele ambiente angustiante da destruição, nele despertou alguma coisa que recordava o antigo Ralf Morgan.
Que aventura estranha ousava ele empreender em companhia de uma pessoa não menos estranha, vinda do além!
— Ah! - fez inesperadamente Narayana.
Não se entregue aos seus pensamentos tolos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:12 pm

Pense só naquilo que vamos fazer.
Estamos nos aproximando do nosso objectivo.
Se não me engano, no fim desta galeria nós vamos sair para um grande pátio, onde, antigamente, havia um chafariz e do outro lado ficava uma capela.
E, de facto, após andarem por alguns minutos, eles se encontraram frente a uma porta que levava para um pátio calçado com piso de pedra e ladeado por uma galeria em arcos.
Neste momento, a lua saiu das nuvens que cobriam o céu.
A luz fraca do luar, do outro lado do pátio desenhava-se uma construção com cúpula, encimada por uma cruz.
— A capela também tem uma saída do outro lado para uma travessa, mas, com toda certeza, aquela porta deve estar trancada por dentro, pois nenhum ofício religioso é celebrado ali há muito tempo - explicou Narayana.
— É incrível como você lembra bem da localidade, com todos os seus escombros - observou Supramati.
Narayana deu uma gargalhada.
— Eu tive aqui muitos amigos e durante uma época fui uma visita constante.
Mas vamos!
Temos de passar pela sacristia que servia de entrada aos senhores do palácio que construíram a capela.
Eles atravessaram o pátio e detiveram-se diante de uma pequena porta carcomida por vermes; com um empurrão de ombro, Supramati derrubou a porta.
A sacristia verificou-se estar completamente vazia, da mesma forma que a capela, que tinha um aspecto deveras melancólico.
Os vidros de duas altas e estreitas janelas seteiradas estavam partidos; o altar estava desnudado.
Algumas lápides tumulares adornavam as paredes.
Narayana foi até o fundo da capela, à esquerda do altar, onde se encontrava uma placa de pedra com um anel de bronze embutido no centro.
Ele se inclinou e, sem um esforço visível, levantou a tampa.
Então, à luz da lâmpada, divisaram os degraus estreitos de uma escada.
— É a entrada à câmara mortuária - disse Narayana começando a descer a escada.
Supramati o seguiu com a lâmpada.
Logo depois, eles se achavam num pequeno subterrâneo que precedia a câmara mortuária.
A porta de bronze da câmara estava com ferro-lho, lacrado por um grande cadeado.
Supramati pegou um ferro caído no chão e com alguns golpes quebrou o cadeado.
Tirado o ferrolho, a porta abriu-se rangendo.
Da câmara bafejou um ar viciado, repleto do odor sufocante da umidade.
Sem dar atenção ao facto, Supramati entrou.
A luz da lâmpada que ele segurava na mão iluminou uma fileira caixões, grandes e pequenos, dispostos em suportes de pedra ao longo das paredes.
Alguns deles estavam podres e a madeira putrefacta resvalara-se no chão misturada aos ossos: outros caixões estavam inteiros.
Narayana dirigiu-se directamente a um grande e maciço caixão de carvalho enegrecido, com cantos em metal.
— Aqui - disse ele - repousa aquela que eu quero ressuscitar.
A pobre Lorenza foi uma mulher lindíssima. O seu marido - um velho mostrengo - asfixiou-a com as mãos num acesso de ciúme por tê-lo preterido a um amante jovem e bonito.
A história só não veio à tona porque o velho patife, Marco, era parente do doge.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:12 pm

Continuando a conversar, Narayana começou a retirar a pesada tampa do caixão, que cedeu com muita dificuldade, vindo a cair com estrondo sobre o chão.
Do caixão, levantou-se uma nuvem de poeira.
Jogando de lado um véu carcomido pelo tempo, Supramati viu o corpo que ali jazia.
Não era um esqueleto, pois a enegrecida e ressecada pele cobria os ossos, desenhando todas as suas depressões; em vez de olhos, anteviam-se apenas cavidades negras; a boca sem lábios fazia arreganhar os dentes, e toda a cabeça, envolta numa massa exuberante de cabelos, tinha o aspecto de crânio nu.
Narayana torceu o rosto.
— Não sobrou muito da beleza de Lorenza!
Mas você vai ver agora por que o senhor Marco pode ser perdoado por ter na consciência este crime.
O que se preservou espectacularmente é o vestido.
Dê uma olhada para este brocado purpuro!
Ele é grosso e resistente feito couro, apesar de mais de três séculos.
As fábricas de hoje bem que poderiam copiá-lo.
Supramati apalpou o tecido, de facto bem conservado.
Apenas a renda dourada que adornava o corpete de largas mangas enegreceu totalmente.
— Bem, está na hora de iniciar o trabalho!
Eu vou até a fonte para pegar água - anunciou Narayana.
Dizendo isso, ele saiu, enquanto Supramati, confuso e perturbado pelos mais diversos sentimentos, recostou-se na parede.
A sua consciência censurava-o por ele ter se decidido a fazer aquela experiência que, em caso de êxito, seria uma terrível provação para aquele ser; mas em contrapartida a este sentimento juntou-se um outro - a curiosidade extremamente excitada de um "cientista", que lhe abafava os remorsos.
Era com impaciência febril que ele se perguntava se aquilo não seria um conto de fadas, idealizado por Narayana.
Como poderiam as mãos do esqueleto que seguravam o crucifixo de madeira enegrecido se tornarem mãos de uma pessoa real e esse cadáver decomposto sair de seu caixão?
A chegada de Narayana interrompeu os seus pensamentos alarmantes.
Para sua surpresa, o outro trouxe uma xícara de água e uma lamparina antiga que tinha, pelo menos, uns cento e cinquenta anos.
— Aqui estão! - disse Narayana satisfeito, colocando a xícara e a lamparina num dos caixões ao lado.
— Para que a lamparina?
Comparada à minha lâmpada, ela não passa de um vaga-lume - observou Supramati.
— A sua esfera de luz viva e ofuscante pode atrapalhar a experiência.
Peço-lhe embrulhá-la e guardá-la no bolso assim que você colocar três gotas da essência na xícara - respondeu Narayana.
— Isso eu posso fazer bem até com a lamparina.
Mas como é que você a acendeu?
— Assim! - disse Narayana, erguendo a mão.
Imediatamente em sua mão acendeu uma chama
tremeluzente, que se apagou tão logo baixou o braço.
Supramati tirou o frasco e pôs três gotas de líquido na água.
Imediatamente da xícara subiu uma grande chama vermelha e a água pareceu se transformar numa massa fundida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:12 pm

— Jogue todo o conteúdo da xícara no caixão! - ordenou Narayana.
Supramati obedeceu.
Ouviu-se um crepitar, como se houvessem jogado água em cal virgem.
— Agora a gente se afasta até aquele canto escuro. De lá nós podemos ver tudo, sem sermos vistos.
Calado, com o coração palpitante, Supramati recostou-se na parede olhando para o caixão, onde alguma coisa estalava, efervescia, e para o alto subia um denso vapor esbranquiçado, sulcado de ziguezagues ígneos.
A seguir, do tecto, paredes e chão começaram a saltar centenas de fagulhas fosforescentes, que feito uma cascata de estrelas cadentes se precipitavam com estalido seco sobre a massa no caixão.
O coração de Supramati acelerou com uma força terrível; devido à perturbação, faltava-lhe o ar.
Ele olhou assustado para Narayana em pé ao seu lado, mas não conseguiu ver-lhe o rosto, pois ele, neste instante, havia escondido a cabeça com a capa.
Esta estava coberta por uma névoa luminescente que delineava claramente a sua figura na parede escura, e sua mão com dedos finos e delgados, segurando a prega da capa, era de facto a mão de uma pessoa real.
Com um tremor involuntário, Supramati virou-se e continuou a olhar para o caixão.
Ali alguma coisa havia mudado.
O vapor esbranquiçado transformou-se numa nuvem, vermelha como sangue, que ia se absorvendo rapidamente no interior do caixão.
Neste ínterim, do tecto desceu à semelhança de luz errante uma enorme chama que atravessou com a velocidade de uma flecha a câmara mortuária e mergulhou no caixão, arrastando consigo os restos da nuvem vermelha.
Tudo se apagou e ao antigo túmulo, iluminado fracamente pela lamparina, sobreveio um silêncio mortal.
De chofre, no profundo silêncio, algo se moveu e ouviu-se o farfalhar de um tecido de seda.
Em seguida, ouviu-se um suspiro humano, tão lamentoso e débil, que um tremor glacial percorreu o corpo de Supramati.
Então, na borda do caixão, surgiu uma mão branca, depois a cabeça e o torso da mulher, que, com visível dificuldade, se ergueu e se sentou tomando fôlego.
O rosto que quinze minutos atrás era um crânio expressava agora um terrível pavor; os olhos vagavam assustados pelo ambiente sinistro.
— Grande Deus! Virgem Santíssima!
Então não foi um pesadelo que Marco queria me sufocar?
E acharam que eu havia morrido? - balbuciou a voz trémula.
A mulher endireitou-se rapidamente, ergueu-se e saltou cuidadosamente do caixão.
Subitamente ela estremeceu e, levantando o pé, olhou para ele atentamente.
— Quem foi que me colocou estes sapatos rotos?! - exclamou ela num linguajar puramente toscano.
Tomada por repentina fraqueza, ela se sentou no degrau e agarrou a cabeça com as mãos, querendo, provavelmente, juntar as ideias.
Supramati, que a observava avidamente, viu que era uma mulher ainda muito jovem, esbelta, com maravilhosos cabelos negros.
Dominada indubitavelmente pelo pavor que lhe sugeria aquele sinistro lugar, a jovem levantou-se e pegou a lamparina..
— Quem poderia ter trazido esta lamparina?
Sem dúvida, "ele", sabendo que eu estava viva.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:13 pm

Mas... onde é que "ele" está? - sussurrou ela e em seus lábios esboçou um sorriso de contentamento.
Ela se virou e saiu rapidamente da câmara mortuária.
— Meu Deus, que ser encantador!
Mas que será dele? - balbuciou Supramati cheio de dó e admiração.
O que você fez, Narayana, é algo diabólico!
Não será você aquele "ele" que ela está esperando? - acrescentou Supramati inquieto.
— Você é a própria encarnação da perspicácia, amigo Ralf!
Agora devo-lhe confiar uma grande responsabilidade:
a de proteger Lorenza.
Espero que Nara não fique com ciúmes, pois você é um marido tão bom e fiel! – pilheriou com riso seco Narayana.
Aliás, mesmo me arriscando a deixar brava a minha ex-metade, eu não posso me dedicar à bela ressuscitada.
Não tenho direitos humanos nem espirituais sobre ela; mas ela não vai entender isso, se me vir, e seu amor só causaria problemas.
E agora... até à vista! Suba!
A coitadinha está no pátio sem compreender as mudanças que ocorreram com o seu palácio.
Ofereça-lhe os seus serviços de cavalheiro.
A propósito, você poderá voltar ao barco por um caminho mais curto.
Na sala onde está a lareira adornada com a cabeça de Apoio existe uma porta à esquerda.
Ela sai para a galeria que os levará directamente para o saguão.
Eu lhe deixarei a capa que você me deu.
A capa será útil para encobrir o traje de Lorenza, que não está muito em moda.
Um minuto depois, Supramati já estava sozinho no túmulo; Narayana havia desaparecido.
Supramati subiu a escada e viu Lorenza no pátio.
Ela, ao que tudo indicava, estava muito assustada, parada indecisa sem ousar ir adiante.
— Senhora! - chamou ele, aproximando-se da jovem.
Permita-me acompanhá-la para um lugar onde a senhora poderá descansar.
Supramati falava em italiano.
Lorenza levantou para ele os grandes olhos negros e com visível desconfiança examinou a figura alta, envolta numa capa escura, portando um grande chapéu de feltro na cabeça.
Subitamente ela recuou e assustada murmurou:
— Bravi?!
Um sorriso involuntário aflorou aos lábios de Supramati.
— Tranquilize-se, senhora!
Eu sou um nobile e não um bravi.
Quero levá-la até a minha esposa.
O resto nós discutiremos depois - acrescentou ele, jogando-lhe nos ombros a capa e pegando a lâmpada.
— Entendo! O senhor foi mandado por Narayana.
Ele virá ao meu encontro para proteger-me - disse Lorenza, baixando o capuz.
Mas eu não quero ir pela casa: Marco poderá nos ver.
Nós podemos sair pela capela.
— Não tenha medo de nada, senhora!
Ninguém nos verá ou deterá!
A senhora pode confiar em mim!
Visivelmente assustada, Lorenza seguiu-o.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:13 pm

Entretanto, quando ela passava pelos quartos vazios e destruídos, foi assaltada por tal pavor, que, agarrando o braço de Supramati, gritou em voz sufocante:
- O que significa tudo isso?
A casa toda está saqueada!
O que poderia ter acontecido aqui em poucos dias?
— A senhora logo saberá de tudo.
Aqui não é um local para uma conversa longa - disse Supramati, arrastando a acompanhante para a saída.
Durante a viagem, nenhuma palavra foi dita; mas, quando Supramati encostou o barco perto de seu palácio, Lorenza gritou em voz surda:
— O senhor pretende me entregar?
O senhor está me levando ao palácio de Narayana?
Aqui ele jamais me esconderia.
Leve-me até ele!
Eu quero vê-lo! - acrescentou ela, desatando-se em pranto.
Um sorriso irónico e triste percorreu o rosto de Supramati.
Junto com a vida, na alma da infeliz despertara também o amor ao homem traiçoeiro, que fora a causa de sua triste morte e que agora a arrancou do túmulo só para realizar uma "experiência interessante" e provar que ele era capaz de ressuscitar os mortos.
Em palavras curtas mas enérgicas, ele convenceu Lorenza a sair do barco e a levou à sala de estar de Nara, pedindo-lhe que esperasse por ele.
Ele foi directo para o aposento da esposa para relatar-lhe o ocorrido.
Nara não estava dormindo.
Ela, aparentemente, estava irritada e andava inquieta pelo quarto.
Quando o marido entrou, mediu-o com um olhar sombrio.
— E então? Qual vai ser a novidade?
Que outra besteira você acabou de fazer?
Co-participante de que novo ato ignóbil fê-lo Narayana?
— Perdoe-me, Nara - disse Supramati pegando-lhe a mão e trazendo-a aos lábios.
É verdade! Eu me permiti entusiasmar-me com uma experiência criminosa; no entanto, a tal ponto extraordinária que...
— Precisou matar um ser vivo e envolver em luto toda uma família para ressuscitar o cadáver, com isso permitindo que Narayana pudesse demonstrar os seus "conhecimentos"?!
Sinceramente, não tem fim a raiva diabólica e a impertinência com as quais ele brinca com as vidas humanas, feito peões, criadas para a sua diversão.
Você escolheu um mestre perigoso.
Ele é um cientista inconsequente.
Ele não se utiliza das terríveis forças para algum objectivo útil; não tem bom senso, próprio de um verdadeiro iniciado, mas é negligente em seus actos criminosos.
— Talvez eu tivesse sido insensato, mas fui movido unicamente pela sede do conhecimento.
Quero, uma vez por todas, conhecer as propriedades da matéria primeva em meu poder.
Você e Dakhir, entretanto, deixam-me na ignorância, medindo-me o conhecimento em gotas, feito remédio - refutou contrafeito Supramati.
— Se você quer estudar seriamente, deve avançar devagar; você, Supramati, apesar de suas boas qualidades, é uma criança terrível!
Não o levou hoje a sua curiosidade insensata, que não se detém diante de nada, a praticar um ato cruel e inútil?
Qual será o destino da mulher que vocês, pode-se dizer, recriaram?
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