Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 6 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:13 pm

O que ela fará ao se ver em condições estranhas para ela neste mundo, onde ninguém a conhece?
Supramati ruborizou.
Atraindo Nara a seus braços, ele a beijou na face.
— Como sempre você tem razão, minha bela e sábia feiticeira!
Mas, se o mal está feito, ajude-me a repará-lo nos limites do possível.
Eu trouxe a pobre Lorenza para cá.
Não podemos abandoná-la na rua.
Agora ela está na sua sala de estar e, reconheço, o seu aspecto é desesperador...
— Imagino! Para dizer a verdade, o desespero lhe seria até uma dádiva.
Ainda que a boa Lorenza não mereça a minha compaixão e ajuda, mas, já que passou tanto tempo, mais a morte dupla que ela ainda terá que enfrentar, eu a perdoo e tentarei amenizar-lhe a sorte.
— Você chegou a conhecer Lorenza?
— Oh, claro!
Casaram-na com um velho, mas um nobre senhor muito rico, que a amava perdidamente até Narayana tê-la seduzido.
O relacionamento deles foi tão escandaloso, que acabou descoberto por Marco e este, num acesso de ciúmes, asfixiou a esposa.
Estava ele torturado por remorsos, ou o choque foi muito duro para sua compleição, só sei que depois do crime ele teve um ataque apopléctico e seis meses depois faleceu.
Quanto a nós, fomos embora de Veneza e toda a história foi abafada.
Agora eu vou até a morta-viva, enquanto você, "caçador insaciável da verdade", vai falar com Narayana.
Talvez ele lhe ensine como criar um ser humano com o auxílio da essência primeva.
Até isso ele sabe fazer.
E se não povoarem um deserto inteiro, na certa vão me arrumar mais uma preocupação com alguma nova vítima de suas experiências.
Sem esperar pela resposta, Nara deu as costas e retirou-se do quarto.
Lorenza estava sentada na sala de estar com o rosto coberto entre as mãos; em sua cabeça havia uma tempestade e um verdadeiro caos de pensamentos; parecia-lhe estar ficando louca.
As evidências mostravam que a partir do momento em que ela ficara inconsciente, até aquele instante onde se viu no túmulo, ocorrera uma extraordinária mudança em tudo que a cercava.
Ela lembrava-se claramente quando estava retornando para casa de gôndola, cheia de flores que Narayana lhe atirou em profusão durante o corso no Grande Canal.
Era a muito custo que ela escondia a paixão pelo sedutor Narayana, um estrangeiro só na origem, mas que, pelos trajes, maneiras e devoção cristã, não se distinguia dos senhores venezianos, com excepção, talvez, de sua generosidade de sátrapa.
Com que criatividade subtil ele sempre encontrava uma maneira de cobri-la com presentes desde que se tornara o seu amante!
Após aquela maravilhosa tarde, sobreveio uma noite medonha.
O marido fez uma cena violenta.
Ela recordou-se trémula do seu rosto transfigurado, dos olhos injectados de sangue que a fitavam com ciúme selvagem e dos dedos gélidos de Marco, que, feito uma tenaz, apertavam-lhe a garganta.
Tudo aquilo se passara há apenas alguns dias atrás, no entanto, o magnífico palácio transformou-se em ruínas, as ruas mudaram de aspecto, os trajes dos transeuntes diferiam daqueles a que ela estava acostumada, e até este quarto, para onde a trouxera o estranho protector, respirava algo novo, desconhecido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:13 pm

Tudo lhe era estranho ali, desde o fogo que ardia em alguns tubos de vidro, até a inusitada mobília revestida em cetim.
Uma dor aguda comprimiu-lhe o crânio e ela, alquebrada, deixou cair a cabeça sobre a mesa.
Um toque da mão de alguém fez com que Lorenza estremecesse. Ela se aprumou e pôs-se de pé.
— Senhora Nara!
É a senhora? - balbuciou ela e imediatamente se calou perplexa.
— Sim, sou eu, senhora Lorenza!
Vamos ao meu quarto onde poderemos conversar.
Constrangida, Lorenza dirigiu-se obedientemente ao boudoir de Nara, onde, sobre uma mesinha, tinha sido preparada uma refeição, consistindo de legumes, leite e pão, e até mesmo uma taça de vinho.
— Antes de tudo coma para fortalecer-se - disse Nara fazendo sentar-se a sua visitante.
A visão da comida excitou o apetite de Lorenza.
Ela tomou o vinho e experimentou de todos os pratos.
Quando quis iniciar as explicações, Nara a deteve.
— Antes de começar com as explicações, a senhora precisa tomar um banho e trocar o vestido.
Ninguém deverá vê-la nesse traje.
Assim, vamos ao meu banheiro.
Lorenza obedeceu calada, sentindo-se exausta e sem condições de reflectir.
Ela despiu-se obedientemente e imergiu na banheira, onde Nara colocou um líquido de um pequeno frasco.
Enquanto a sua visita se lavava prazerosamente, Nara trouxe de seu guarda-roupa algumas roupas e um robe, pois não queria acordar a camareira.
O banho refrescou Lorenza e, quando vestiu as peças íntimas de cambraia e o largo robe de seda, com acabamento de renda, sentiu-se completamente bem.
— Agora você deve tirar uma soneca - disse sorrindo Nara.
— Antes eu gostaria de agradecer-lhe por sua bondade.
Eu a mereço tão pouco e sou muito culpada diante da senhora - murmurou Lorenza enrubescendo e baixando os olhos.
— Todas as suas faltas diante de mim estão esquecidas e perdoadas, pois aos mortos não se julga.
Como primeira explicação de muitas coisas que lhe parecem incompreensíveis, devo dizer-lhe, marquesa, que a sua letargia durou por muito mais tempo do que a senhora imagina..
Nesse ínterim, Narayana morreu...
Lorenza empalideceu e gritou em voz surda:
— Narayana morreu e eu estou viva?
Cobrindo-se de lágrimas, ela prosseguiu em voz entrecortada:
— Por que Deus quis que eu sobrevivesse a ele?
Por mais pecaminoso que seja o meu amor, ele nos une com todas as fibras do meu ser.
Por ele eu seria capaz de tudo!
Ao ver que Nara estava quieta, olhando triste e pensativamente para ela, Lorenza murmurou, tentando sufocar o choro e dominar o desespero:
— Perdoe-me este desafogo da minha infelicidade, que para a senhora equivale a uma ofensa.
A minha única desculpa é que não se pode ordenar ao coração, e o próprio Narayana me disse que havia se separado da senhora que não o amava mais, e o facto de ele amar outra mulher era indiferente para a senhora.
Isso é verdade?
Seria possível não amar uma pessoa assim como ele?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:14 pm

— É verdade. Eu nem poderia amar Narayana.
Afastava-me dele a sua vida desregrada, seus princípios imorais, as traições, a leviandade cruel com que ele desonrava as mulheres.
O seu relacionamento com a senhora e seu marido era indigno.
Ele se dizia amigo do marquês e aproveitou-se de sua ausência para seduzi-la.
A senhora era tão jovem e bonita, que instigou facilmente o capricho do estroina.
Seu marido, entretanto, tinha um amor sincero pela senhora.
Quando a senhora acabou com sua felicidade e honra, ele foi levado a praticar o crime e logo depois morreu.
— Como? Marco também morreu? – balbuciou Lorenza, deixando-se cair na poltrona.
— Sim! Só lhe resta orar por ele e pelo seu sedutor.
Deus lhe deu vida para que se arrependa e consagre o resto de seus dias às orações e à purificação da alma.
— Conte-me de que ele morreu e quanto tempo eu fiquei em sono letárgico?
Em outras palavras, explique-me tudo o que aconteceu depois que eu... perdi a consciência - perguntou timidamente Lorenza.
— Só que não agora; chega de impressões por hoje.
Terei de contar-lhe muitas coisas que poderão perturbá-la, mas agora a senhora precisa descansar.
Ao notar que Lorenza se preparava para protestar, Nara disse autoritária:
— Sem objecções!
Tome este calmante, deite-se no sofá no quarto ao lado e durma. Amanhã a senhora saberá tudo que quer.
E, de facto, Lorenza não imaginava o quanto estava debilitada.
A terrível "experiência" que suportaram sua alma e corpo estava cobrando o seu preço.
Assim, mal ela se deitou no sofá, o calmante fê-la mergulhar num profundo sono.
Nara olhou triste e pensativa para o belo rosto, que, por séculos inteiros, fora cinzas e agora estava animado por força criminosa.
Um suspiro pesado soltou-se do seu peito.
— Infeliz! Que sofrimentos morais aguardam por você após o despertar! Quando é que, Narayana, a justiça celestial vai alcançá-lo?
Quando é que você compreenderá a leviandade criminosa de brincar com os terríveis conhecimentos que vieram parar em suas mãos? - balbuciou ela.
— Você me odeia e por isso me julga tão severamente - pronunciou uma voz sonora muito familiar.
Nara se virou e seu límpido e sereno olhar encontrou-se com os olhos ardentes de Narayana.
— Você veio admirar a sua diabólica obra?
Será que a sua consciência não dói por você ter agido tão cruelmente, mais uma vez, com a vítima de seus caprichos? - recriminou Nara.
Mas - prosseguiu ela -, você sabe perfeitamente que eu não o odeio, pois o grau de minha iniciação exclui esse tipo de sentimento maléfico.
Eu só tenho pena de você e o censuro pelo facto de que você, tendo em mãos a taça do conhecimento, prefere a ela a taça dos prazeres.
Lamento que você não quisesse sacudir de si as cinzas de um homem infame e se utilize dos fragmentos dos conhecimentos adquiridos apenas para fazer o mal ou tolices.
Você mesmo sabe que em seu passado há mais maldições que bênçãos.
— Por que é que você sempre acaba fazendo alusões a Lorenza?
— Não só a ela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:14 pm

Lembre-se de quantos abusos ocultos você realizou, esquecendo-se de que a terrível, criadora e destrutiva força geradora foi-nos confiada para que fôssemos seus mudos e fiéis guardiões e não, absolutamente, para que a utilizemos como divertimento ou satisfação de fantasias pessoais.
Os estatutos da irmandade, à qual você já foi filiado, proíbem expressamente a utilização da matéria primeva violando as leis gerais vigentes - como a de ressuscitar os mortos -, o que pode ocasionar desordem e complicações inéditas.
Se todos nós utilizássemos as conhecidas propriedades da misteriosa essência da forma que você a utiliza, teríamos posto todo o planeta de pernas para o ar.
— Você tem razão, Nara, entretanto também há um equívoco de sua parte.
A ressurreição de apenas um único ser não irá incendiar o mundo nem abalará a sábia lei que sentencia à morte tudo o que vive. Da mesma maneira, não trará mal a ninguém, se eu tomar algumas gotas da essência da longa vida.
— Para você as consequências serão muito duras.
— Eu mesmo vou arcar com elas.
Mas poderá você, sabedora das leis a que eu sou submetido, julgar-me tão severamente?
É de seu conhecimento que, devido à minha longa vida, o meu corpo astral está demasiadamente impregnado de matéria primeva e que por muito tempo, difícil de ser determinado, não poderei encarnar-me novamente.
Assim, eu sou condenado a vagar.
No entanto, visto eu não ser admitido às esferas superiores, sou obrigado a levar a minha existência no meio mundano e você compreende bem as desvantagens de tal estado.
Que imaginação humana é capaz de inventar um inferno mais medonho que o vagar em torno da terra?!
A dança dos mortos, homens e animais; a atmosfera - arena de luta desesperadora de biliões de seres que buscam o equilíbrio; os lamentos confusos, as cenas de crimes em meio ao turbilhão infernal de mortes e nascimentos - não, existir nestas condições, positivamente, eu já não tenho forças.
Juntar-me ao exército de Sarmiel eu não tenho vontade.
A pobre humanidade já sofre o suficiente sem que eu lhes aumente esse sofrimento.
Continuar a existência de um cão errante...
também não quero.
E assim eu decidi vir, pela metade, ao mundo dos humanos para aqui ficar, longe de ter que desfrutar daquele ambiente fétido da primeira esfera.
Semi-espírito, semi-homem, eu vou morar na Índia, fortificando-me à semelhança de um iogue com os fluidos vitais, sem fazer mal a ninguém, salvo, é claro, a alguns patifes que não merecem outra coisa.
Prometo-lhe não me utilizar mais da matéria primeva e só me divertir com a minha dualidade.
Imagine só como será engraçado, se uma velha dama impossibilitada de me ver pisar no meu pé e eu soltar um "ai!", ou se eu, por exemplo, faço um "há-há-há" no ouvido de um conquistador barato que está confessando seu amor à amada.
— E tais tolices o conseguem divertir?
Sinceramente, você é digno de pena, Narayana!
Meu Deus! Quem haverá de sugerir-lhe o gosto ao verdadeiro conhecimento?! - suspirou Nara.
— Acalme-se!
Não vou me dedicar somente às tolices.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:14 pm

Assim que me arrumar decentemente - você conhece o meu lema:
"se é para viver, tem que se viver bem!" -, eu me divertirei um pouco, ofuscando as pessoas com o meu brilho e intrigando-os com o mistério de que me cerco, fundarei uma escola de iniciação.
Terei alguns discípulos, aos quais ensinarei, se não a magia superior, pelo menos os fenómenos produzidos por um semi-mago.
E você verá que serei respeitado não menos que Supramati, dotado de todas as qualidades para se tornar um mago genuíno, o que reconheço sem nenhuma sombra de inveja..
E agora - até a vista, minha bela ex-esposa!
Convido-a, junto com Supramati, a visitar-me.
Vocês serão bem-vindos, principalmente você, pois ao renunciar aos direitos de marido e a todos os prazeres a isso conjugados, eu reservo para mim o direito de cavalheiro e tentarei com a polidez do segundo tirar as más impressões do primeiro.
— Palhaço! - concluiu Nara, dando de ombros e rindo involuntariamente.
De volta para o quarto, Nara encontrou Supramati inquieto e alarmado.
Ele perguntou-lhe imediatamente sobre Lorenza e Nara contou-lhe o que havia feito a respeito, acrescentando ter visto Narayana que a censurou por seu ódio, em função do qual ela, presumidamente, o julgava de forma tão severa.
— Eu também acho que você não tem boa vontade em relação a ele - observou Supramati.
- Você ficou possessa só porque eu lhe dei um pouquinho de elixir; no entanto, que diferença isso faz a você?
— Nenhuma, é claro, salvo algumas inconveniências fluídicas, decorrentes dos elos que se formaram entre nós durante os séculos.
Eu só acho inútil e temerário deixar que Narayana caia em tentação.
Se ele permanecesse em seu estado errante, a aversão a isso o teria empurrado para a frente no caminho da purificação e do trabalho sério.
Enquanto agora, ele ficará inerte; vai se divertir e não fazer nada.
— De qualquer forma, estou sinceramente arrependido da minha imprudência - lamentou-se Supramati.
— Lamentar-se agora é tarde! Não, meu amigo, eu estou vendo que você precisa estudar ainda muito antes de adquirir não só os conhecimentos de um autêntico mago, mas também o juízo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:14 pm

Capítulo XI

Para Nara principiaram dias difíceis.
Ela tinha que explicar para a pobre Lorenza um facto inaudito, ou seja:
que ela havia dormido por mais de três séculos e que daquilo que ela conhecia e gostava nada sobrou.
O mais triste é que o intelecto da ressuscitada se recusava a entender aquilo que ela considerava ser o impossível.
No início Lorenza teimava em desconfiar que naquilo havia uma perversa mistificação, mas a realidade nua e crua logo lhe dissipou a última ilusão e isso motivou um estado tão desvairado, que só um sono artificial conseguia interrompê-lo.
Finalmente, após uma semana de desespero mais tempestuoso - gritos, desfalecimentos e rios de lágrimas -Lorenza caiu numa profunda apatia.
Horas a fio ela ficava deitada no sofá, recusando-se a comer e beber, ou, sentada junto à janela, a fitar o canal com um olhar desconfiado e mal-encarado, como tramando algo desesperador.
Nara a vigiava preocupada; Supramati estava totalmente abatido com as consequência de sua "experiência científica".
Para ambos, o estado de espírito da ressuscitada era ainda mais penoso pelo facto de que se aproximava o dia da partida deles para a irmandade e eles não queriam deixar Lorenza, antes que passasse aquela perigosa crise moral.
Com a anuência de Dakhir, decidiu-se levar Lorenza para a Índia e instalá-la numa comunidade de mulheres, cujo destino era idêntico ao dela.
Lá tentariam desenvolver-lhe a mente e criar novas condições de existência, voltadas para o estudo e o trabalho.
Se ela fosse considerada incapaz de encontrar a felicidade e a paz nessa orientação, então se poderia tentar casá-la, assim que ela adquirisse a devida tranquilidade para reingressar na sociedade com um novo nome, sem revelar-se o segredo de seu estranho e extraordinário passado.
Certa manhã, Nara dirigiu-se ao quarto de sua paciente para tentar incutir-lhe a sensatez.
Sem dar atenção ao semblante sombrio e preocupado de Lorenza, Nara sentou-se ao seu lado e, em tom severo, com que jamais conversara com ela, observou que uma cristã autêntica, imbuída de fé e confiança, teria se submetido aos desígnios da Providência, por mais inexplicáveis que eles lhe parecessem.
Ao perceber o rubor e o constrangimento de Lorenza, a mentora relembrou-lhe o terrível pecado que precedia a sua letargia - que ela estivera morta, isso permaneceria em segredo - e que Deus, ao puni-la, foi tão misericordioso, que a uniu a Nara, que ela já conhecia, e assegurou-lhe um novo futuro.
Acrescentou ainda que Supramati lhe daria um património bastante substancioso, que a livraria de quaisquer preocupações financeiras.
Assim, ela, com base em sua decisão, poderia retornar à sociedade e casar-se sob um novo nome ou partir com eles para a Índia e descansar entre amigos até se acalmar o suficiente para decidir sobre o seu futuro.
A conversa teve seus frutos.
A segurança de não ser pobre acalmou, pelo visto, Lorenza, e por fim ela expressou a vontade de ir a uma igreja para orar.
Nara presenteou-a com um dote completo e em seguida a levou para a igreja de São Marcos.
Assistir à missa, celebrada como nos velhos tempos, fortaleceu a pobre mulher.
A partir deste dia Lorenza tornou-se mais sensata e expressou o desejo de acompanhar Nara e o seu marido a Benares.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:14 pm

O tempo que lhe restava antes da partida ela dedicou para visitar igrejas e procurar os túmulos de seus contemporâneos, junto aos quais orava longamente.
Permaneceu por muito tempo rezando junto ao mausoléu do marido, que, no fim das contas, conseguiu achar.
Duas semanas depois, todos partiram de Veneza e foram parar em Chipre, onde instalaram Lorenza na casa de Tourtoze.
Lá ela deveria esperar por eles.
A jovem estava triste e séria, mas calma.
Agora já não se receava por sua indiscrição, pois ela havia compreendido que o seu passado não era daqueles que poderia falar.
Numa noite escura e tempestuosa, do porto saiu um pequeno barco.
Nele estavam três imortais que não temiam ondas nem tempestades, dirigindo-se corajosamente para o mar aberto.
Assim que as últimas lâmpadas do porto sumiram no nevoeiro, diante deles surgiu um navio fantasma, esperando com as velas içadas os seus passageiros.
Quanto tempo durou a viagem, Supramati não tinha nenhuma condição de dizer.
Diversos sentimentos agitavam-lhe a alma, quando eles atracaram a uma escarpa perdida no oceano; em suas entranhas de granito ela ocultava os mistérios mais íntimos.
A cerimónia de recepção foi igual a da vez anterior e logo depois todos se retiraram aos seus quartos.
No dia seguinte, vestido em túnica alva, sério e visivelmente preocupado, Supramati dirigiu-se para assistir à cerimónia religiosa, cuja solenidade o impressionou sobremaneira.
O velho Sumo Sacerdote que realizava o ofício, da mesma forma que meio século atrás, chamava um por um os presentes e ungia suas cabeças com algumas gotas de líquido misterioso que carregava num cálice.
Supramati, Nara e Dakhir eram os últimos.
O ancião ordenou-lhes que ficassem aos pés dos degraus e levou o cálice para o altar.
Retornando, ele abraçou Supramati e o beijou calorosamente.
— Eu estou feliz, meu irmão, em saudá-lo aqui como um membro útil e digno de nossa irmandade.
Você cumpriu aquilo que prometera.
As riquezas não o ataram ao mundo material, não o arrastaram com seus prazeres e não o fizeram insaciável em relação às banalidades mundanas que sempre continuam as mesmas, com este ou outro nome, imperdoáveis até para os seres que vivem e morrem feito insectos, mas que para um imortal não passam de delitos e infortúnios.
Você retorna a nós sem estar maculado por paixões impuras; trabalhou bem e passou pelos primeiros degraus do conhecimento.
Agora está pronto a iniciar o difícil, porém glorioso, caminho da iniciação superior.
Mas eu noto em sua alma o medo e a inquietação diante do imenso campo de trabalho e conhecimento que terá de enfrentar.
Tranquilize-se, meu irmão!
Por mais duro que seja o caminho, o desejo e a força de vontade fazem superar todas as dificuldades, porquanto um trabalho febril obriga a esquecer o tempo.
Após cada mistério revelado, depara-se com uma nova porta fechada, cuja chave deve ser achada.
É dessa forma, passando de um campo a outro, que se consegue subir pela escada da luz que leva ao centro ignoto, onde reina o Ser Impecável - o Criador do infinito.
E quanto mais você subir, tanto mais a sua alma se preencherá de harmonia, adquirindo o poder.
Ao nosso irmão, Ebramar, nós confiamos a tarefa de orientá-lo no estudo da magia superior, e ele lhe ensinará como utilizar os conhecimentos adquiridos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:15 pm

As provações de um mago só terminam quando ele for capaz de criar algo útil para o bem-estar de todos e conseguir se utilizar conscientemente das grandiosas forças geradoras do Universo.
Lembrem-se, irmãos reunidos aqui, que a imortalidade é um fardo pesado e o nosso objectivo é minorar a agonia do nosso velho e moribundo mundo e colonizar um novo planeta.
Então, que a conscientização desta responsabilidade o ampare, Supramati, e o arme de coragem e persistência, as quais não podem ser abaladas por nada!
O ancião fez a Nara um sinal para ela se aproximar.
— Você também, minha filha, trabalhou bem!
Purificou-se e o turbilhão de ímpetos carnais, ao qual foi lançada por uma descuidada união com Narayana, não tem mais sobre você qualquer efeito.
Um trabalho muito importante a aguarda sob a direcção de Ebramar.
Execute-o com probidade e diligência e subirá mais um degrau.
E por fim, para você, Dakhir, eu tenho uma boa notícia.
A última das maldições, que pendia sobre você, obliterou-se.
Suas antigas vítimas o perdoaram e tornaram-se seus amigos; os espíritos sombrios, que insistem em seu ódio, são impotentes diante de você.
O fluido destruidor que deles emana acaba caindo sobre as próprias cabeças.
Puro e livre de qualquer ligação com o seu passado criminoso, você atravessará o limiar da iluminação superior.
Radiante e renovado de felicidade, Dakhir prostrou-se de joelhos e beijou a ponta da túnica cintilante do Sumo Sacerdote.
Este impôs a mão sobre sua cabeça abaixada e abençoou-o.
Cerca de um minuto permaneceu ainda Dakhir de joelhos, imerso numa oração ardorosa.
Levantando-se, perguntou indeciso:
— E a minha vítima Lora?
Durará muito ainda a sua punição?
A sua sina oprime o meu coração feito uma rocha pesada.
O ancião deu um sorriso.
— Que esta preocupação não atrapalhe sua ascensão à luz.
Já há muito tempo o ódio de Lora se transformou em amor.
As reflexões, as orações e a submissão ao destino fizeram o resto para a sua purificação.
Ela está ávida por segui-lo, mas como em sua missão se exclui qualquer relacionamento, salvo o espiritual, Lora também se dedica ao trabalho e estudos.
Sob a orientação de Nara, ela passará por iniciação que a capacitará para se tornar sua companheira de trabalho e discípula fiel no momento em que na terra terão início duras provações e terríveis cataclismos.
Eles prepararão a humanidade cega em sua leviandade insensata.
Assim, meus amigos, descansem aqui o quanto quiserem.
Depois, Dakhir, o seu navio-fantasma o levará ao local estabelecido e seus amigos serão seus últimos passageiros.
Três meses inteiros passou Supramati com a esposa e Dakhir no misterioso abrigo de Graal.
Harmonia indescritível e paz celestial reinavam naquele ambiente feérico; agora Lora morava com eles.
Ela estava feliz e triste ao mesmo tempo; seu amor terreno a Dakhir ainda retinia dolorosamente em sua alma.
No entanto, o convívio fraterno e afeição do jovem adepto, assim como as primeiras instruções no campo de conhecimento que ele lhe desenvolvia, abriram para ela novos horizontes límpidos.
Atraída por eles, os insignificantes sentimentos terrenos perderam o brilho e desapareceram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:15 pm

Quando Dakhir se preparava para partir com os amigos, despedir-se de Lora já não foi tão difícil como da primeira vez.
Lora quis acompanhá-lo, mas o Superior da irmandade ordenou-lhe que ficasse para a execução do ritual da purificação.
Ela seria levada para a Índia depois.
Os nossos viajantes não passaram por Chipre. Supramati enviou uma mensagem a Tourtoze, ordenando-lhe viajar com Lorenza a Calcutá e, lá, aguardá-los no palácio.
O navio-fantasma levou os nossos amigos a um pequeno porto da ilha de Ceilão.
Não era sem um vago sentimento de tristeza que Dakhir abandonava o convés do navio, testemunha de seus crimes e expiação.
De pé num pequeno bote, ele não desgrudava os olhos de seu antigo companheiro, oscilando nas ondas. De chofre, o navio embaciou-se, como se as luzes de São Elmo - conforme dizem os marinheiros - houvessem percorrido a cordoalha e, em seguida, tudo se diluiu e desapareceu no ar.
Suspirando pesadamente, Dakhir sentou-se num banco e mergulhou em pensamentos.
Os amigos não o perturbaram.
Só quando saíram para a margem, ele passou a mão pela testa como se querendo espantar um pensamento indesejável e começou a falar da viagem.
A partir deste momento, os nossos viajantes se utilizavam de meios normais para chegarem a Calcutá, onde Supramati tinha que acertar alguns assuntos antes de partir para Benares.
No transcorrer daquela viagem, a todos voltou o bom humor, um pouco abalado com a permanência no navio-fantasma.
Eles tentaram esquecer o passado, conversando sobre o futuro e o trabalho que tinham pela frente.
— Estudar sob a orientação de Ebramar é um deleite - observou certo dia Nara.
Ele explica tão claramente os mais complicados assuntos, que eles parecem simples e fáceis.
Devo admitir que é muito rigoroso e, sobretudo, exige muita disciplina da mente, a ponto de considerar imperdoável qualquer negligência quanto ao ato do pensar ocioso.
Mas a isso você pouco a pouco vai se acostumando.
Além disso, a noção do poder de uma reflexão disciplinada e consciente, que só pode ser comparada a um elemento da natureza, impõe a responsabilidade de ser sempre um senhor desta terrível arma, que pode fulminar feito um relâmpago.
Você e Dakhir ainda terão muito que trabalhar para adquirir esta faculdade, ainda mais que o ambiente em que vocês ficarão facilitará sobremaneira esse trabalho.
— Você tem razão, Nara!
Eu me recordo com satisfação da época em que estive com Ebramar.
Naquele ambiente de paz completa e harmonia indescritível, a alma parece ir amealhando forças e você se sente como se lhe crescessem asas.
É um verdadeiro antegozo da bem-aventurança celestial.
Em Calcutá, os nossos heróis permaneceram só por alguns dias para instalar Lorenza numa comunidade feminina, dirigida por uma iniciada.
A comunidade logo iria se transferir para os arredores de Benares, para ficar mais perto dos sábios misteriosos que habitavam os escondedouros do Himalaia.
À medida que Supramati se aproximava de Benares, ficava cada vez mais inquieto.
O motivo disso era que no palácio, para o qual ele levava Nara, morava Nurvadi e seu filho, transformado por ele num imortal.
O filho deveria contar agora 42 anos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 13, 2016 7:15 pm

Como confessar a Nara que sob o mesmo tecto iria viver com ela a ex-amada dele, a mesma de quem ele esqueceu por mais de dois anos, a sua esposa legal?
Quando o trem deixou a penúltima estação e se aproximava rapidamente da cidade sagrada dos hindus, a aflição de Supramati atingiu seu clímax.
Debruçada sobre a almofada, Nara observava em silêncio a expressão de diferentes sentimentos que se alternavam no rosto inquieto do marido.
Por fim, ela se levantou, colocou a mão sobre o ombro de Supramati e disse com um olhar malicioso:
— Chega de se atormentar por causa de seus velhos pecados!
Naquela época você estava livre e até que se aproveitou da liberdade.
Eu seria ingrata se ficasse brava com tais tolices.
Conheço a história de Nurvadi e, do fundo da minha alma, tenho dó daquela infeliz criatura que tem por você um amor tão puro.
Eu não quero que ela fique constrangida nem enciumada.
Assim, diga-lhe, por favor, que sou sua irmã.
Terei chance de conversar com ela.
A infeliz é imortal e seria um pecado deixá-la subsistir em sua total ignorância.
Quero tentar desenvolver a sua mente e abrir- lhe o caminho para o conhecimento.
Supramati encostou aos lábios as duas mãos de Nara.
Ele estava contente, ainda que meio sem jeito.
— Sinto-me mal em passar sua magnânima mentira - balbuciou ele.
— Será apenas uma meia mentira, pois nós nos devotamos à iniciação suprema, que não admite qualquer relação terrena.
O nosso amor é transfigurado na fusão pura de almas e esta afeição, livre de tudo que é material, torna-se eterna e indestrutível - concluiu ela com olhar carinhoso.
Eles chegaram a Benares após o meio-dia.
Depois de se banharem, Nara mandou o marido visitar Nurvadi.
— Vá, vá! Seja bom e carinhoso com ela, ela merece isso!
E depois, traga-a para o jantar e apresente a seus irmãos - acrescentou ela, rindo sinceramente diante do aspecto confuso do marido.
Ainda sob o efeito de um sentimento misto de constrangimento e decepção, Supramati dirigiu-se aos distantes aposentos do palácio, onde morava Nurvadi.
Por uma criada ele soube que Nurvadi estava no terraço e que ali mesmo se achava um jovem príncipe que acabara de retornar de uma viagem do Himalaia para se encontrar com o pai.
Supramati ficou surpreso.
De que forma o seu filho soubera de sua chegada?
Só se Ebramar o houvesse prevenido!
Mas ele jamais lhe falara sobre aquela relação.
Ele percorreu rapidamente uma série de quartos familiares, dirigindo-se ao terraço; os tapetes macios abafavam-lhe os passos.
Ao entrar no quarto favorito de Nurvadi, contíguo ao dormitório, de imediato viu a jovem mulher.
Ela estava no terraço, de costas para ele, e abraçava um menino que, pela aparência, não tinha mais que dez anos.
Supramati estacou emocionado.
Milhares de recordações faziam seu coração bater mais acelerado.
Sua voz tremeu levemente quando ele chamou baixinho:
— Nurvadi!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:17 pm

A outra virou-se rapidamente e com um grito de louca alegria lançou-se nos braços de Supramati.
— Você voltou!
Eu o vejo de novo!
Oh, se eu pudesse morrer de tanta felicidade!
Supramati abraçou-a e beijou-a na testa, mas nesse beijo ia uma tranquila afeição de irmão e não a paixão de um amante - e Nurvadi compreendeu isso.
Ela se aprumou e temerosa fitou os límpidos e brilhantes olhos de Supramati a olhá-la com carinho.
— Veja, ali está a nossa criança - disse ela confusa e hesitante, apontando para o menino, que estava ao lado com os olhos abaixados.
Supramati aproximou-se do filho, abraçou-o e cobriu-o de beijos apaixonantes.
A seguir, afastando-o de si, começou a examiná-lo com um misto de alegria e tristeza.
Ainda que a beleza angelical do menino saltasse aos olhos, ele ainda era uma criança e não um homem, apesar da idade que tinha.
— Sandira! Seu aspecto me alegra e também me amargura.
Você não é aquela pessoa adulta que eu esperava encontrar...
O menino levantou para ele os grandes olhos negros e seu olhar fez Supramati estremecer.
O pensamento que brilhava naqueles olhos aveludados era o de um homem maduro, desenvolvido, forte de espírito e vontade.
— Eu o compreendo, pai!
Mas o que você vê é uma obra sua.
Eu não gostaria de entristecer com uma crítica o nosso primeiro encontro, mas já que foi você o primeiro a falar do meu aspecto externo, que nem de longe corresponde à minha idade real, permita-me adverti-lo de que foi extremamente irreflectido de sua parte ministrar a um organismo não desenvolvido uma substância tão perigosa.
Sem dúvida, o que o norteou foi o amor e o receio de me perder; ademais, você ignorava os sofrimentos a que estava me condenando.
Se não fosse Ebramar e seus divinos conhecimentos, eu ainda seria, por longos séculos, uma criança de colo.
— Como? Você conhece Ebramar? – exclamou Supramati.
— Sou seu discípulo e passei sob a sua direcção um longo caminho da iniciação.
Somente graças a um regime especial e ao trabalho ininterrupto eu cresci um pouco.
Mas deixe-me saudá-lo agora e transmitir-lhe que o nosso mestre comum nos aguarda.
Supramati ouvia as palavras sem tirar os olhos daqueles pequenos lábios rosados.
— Você está coberto de razão, meu filho!
Agi com uma inconsequência criminosa quando me utilizei da terrível força, sem medir as consequências do meu acto.
Perdoe-me por eu ter causado tantos sofrimentos imerecidos.
O meu único consolo é que aquele comportamento insensato o levou a ter a protecção de Ebramar.
Eu gostaria de agradecer-lhe por ele ter reparado o mal que fiz.
Aliás, talvez você tenha lucrado ao ter evitado todas as tentações terrenas, toda aquela lama carnal e espiritual com que se enfrenta um homem no mundo.
Nada impede agora a sua ascensão para o conhecimento supremo.
Sandira sorriu.
— Deus me dera que estivesse certo!
É necessário ainda percorrer uma longa distância e nós só conhecemos o ponto de partida.
O objectivo do caminho ainda se perde no oceano da sagrada mas impenetrável luz do centro, protegido por sete génios da esfera.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:17 pm

Lá, pela derradeira vez, se erguerá a dúvida e sussurrará no ouvido do labutador incansável que alcançou os portões do santuário:
"Que recompensa você terá por seu duro trabalho, por ter atravessado com tanta coragem o caminho espinhoso das trevas e desgraças"?
Ó, pai! Às vezes eu fico atordoado e me questiono:
onde está aquela límpida paz?
Que força terrível e inexorável nos impele para a frente?
O olhar do jovem estava fixo no espaço e suas mãozinhas apertavam convulsivamente as mãos do pai.
Supramati olhou para ele com tristeza.
Em sua recordação Sandira continuava sendo um bebé, que ele carregava no colo; enquanto o filho que ele via agora, era um estranho desconhecido - uma criança externamente, mas um pensador pelo desenvolvimento mental, atormentado por grandes problemas existenciais.
Supramati sentou-se no sofá e fez Sandira sentar-se a seu lado.
Entre eles se entabulou uma longa conversa sobre o passado e o futuro.
Ao se aproximar a hora do jantar, Sandira anunciou aos seus interlocutores que os levaria até seus irmãos, que queriam conhecê-los.
Era tal a impaciência de Supramati em ver Ebramar, que ele expressou sua vontade de viajar já no dia seguinte.
Nurvadi pediu permissão para acompanhá-lo.
Ela não queria se separar tão rápido dele e do filho.
Mas bastou a Nara algumas horas de conversa para dominar por completo a mente de Nurvadi.
Ela explicou a Nurvadi os motivos de sua estranha existência e da necessidade de criar um objectivo mais sério na vida do que o de viver exclusivamente para dormir e embelezar-se.
Nara participou a Nurvadi que não longe do local onde habitava o sábio, mentor de Sandira, havia uma escola para mulheres, da mesma forma sentenciadas a uma vida longa; e lhe propôs que ela ali ingressasse - o que foi aceito com alegria.
Após alguns dias de uma viagem agradável através do país montanhoso com vistas maravilhosas, os nossos viajantes chegaram finalmente ao misterioso palácio onde habitava Ebramar.
Aparentemente eles estavam sendo aguardados, pois a porta da entrada estava aberta e o mesmo administrador, que recebeu Supramati quarenta anos atrás, recepcionou-os alegre e respeitosamente.
Sandira anunciou que ele mesmo levaria todos ao gabinete de trabalho do mago.
Ebramar recebeu-os junto da porta e abraçou calorosamente Supramati e Dakhir; a seguir, com carinho fraternal, estendeu as mãos para Nara, que o fitou com o olhar límpido e cheio de reconhecimento.
Ao serenarem as primeiras emoções, todos se sentaram e entabulou-se uma conversa genérica.
Ebramar cumprimentou Supramati pela rápida conclusão da primeira iniciação, e Dakhir pelo rompimento de todos os vínculos que o uniam a seu triste passado.
Ele anunciou que lhes concedia alguns dias de liberdade e descanso antes de iniciarem os estudos.
Depois, virando-se para Nara, acrescentou sorrindo:
— Para você, minha irmã, eu guardei o lugar de Vairami, que deseja se voltar exclusivamente ao culto da magia, retirando-se à esfera da meditação.
Sendo assim, você dirigirá a escola de mulheres e as primeiras aulas das neófitas:
Nurvadi e Lora, que ali acabam de ingressar.
A primeira será imediatamente entregue a Vairami.
Atendendo à ordem do mago, Sandira foi buscar a Sumo Sacerdotisa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:17 pm

Supramati que ouvia tudo atentamente perguntou:
— Como, mestre?
Você ainda tem uma escola para mulheres?
Nunca teria imaginado!
— Oh! Aqui há muita coisa que você ainda não viu.
Eu lhe mostrarei tudo no dia em que você for examinar os seus domínios - respondeu sorrindo Ebramar.
Supramati balançou a cabeça.
— Não, mestre! Aqui, onde tudo respira sua sabedoria e bondade, nada me pertence, salvo sua amizade e protecção.
Bem-aventurada é a casa onde habita um sábio como você!
Bem-aventurados são todos aqueles que podem morar aqui, sob a sua orientação, para alcançarem a luz do conhecimento supremo!
O que me são os milhões depositados em todos os bancos do mundo na conta de Supramati!?
Ao atravessar esta soleira, deixei para trás tudo que me unia com a azáfama terrena.
Eu só trago uma partícula de conhecimento e a vontade ardente de trabalhar com todas as forças para ascender à luz pelo caminho perigoso do qual não há retorno, pois na frente irá luzir o ignoto objectivo misterioso e atrás de mim se escancarará o sorvedouro.
— Fique firme em sua decisão louvável e você não parará no meio do caminho.
Tenho certeza de que um dia terei a felicidade de colocar em sua cabeça a coroa cintilante do mago - assegurou Ebramar, apertando-lhe fortemente a mão.
A conversa foi interrompida pela chegada de Sandira e uma jovem e bonita mulher em vestes brancas, envolta num comprido e largo véu de gaze.
Em suas regulares feições repousava uma serena expressão e os negros olhos aveludados ardiam de exaltação.
Cruzando as mãos no peito, ela fez uma reverência diante de Ebramar.
— Eu mandei chamá-la, Vairami, para anunciar-lhe sobre a iminência de atender-lhe o seu desejo de se entregar ao isolamento.
A nossa irmã, Nara - ele apontou para a jovem - irá assumir a direcção de suas alunas.
Devido a diversas razões, eu não posso marcar o dia em que lhe passarei a nova tarefa; mas, por enquanto, Vairami, confio-lhe uma nova neófita, Nurvadi.
Fique com ela e a acomode com você.
Enquanto você, minha filha, despeça-se de seu filho.
Você o verá somente nos feriados.
Quanto ao futuro dele, pode ficar tranquila.
Nurvadi corou.
Seus olhos encheram-se de lágrimas; não obstante dominou corajosamente a emoção.
Ela abraçou Sandira e Nara, apertou a mão de Supramati e beijou a mão de Ebramar.
Vairami agradeceu efusivamente a seu mestre.
A seguir, tirou de si o véu, cobriu com ele a cabeça de Nurvadi e retirou-se com ela do terraço.
— Diga-me, mestre, há muitas mulheres imortais na escola que será dirigida por Nara? - interessou-se Supramati.
— Há cerca de duzentas pupilas e todas são imortais.
É por isso que nós as iniciamos em conhecimento superior.
As pequenas comunidades, semelhantes àquela onde vocês colocaram Lorenza, têm um carácter totalmente diferente e perseguem outros objectivos - respondeu Ebramar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:17 pm

— Ó, grande Deus!
Mais de duzentas imortais!
Quem foi esse ser tão irresponsável para constituir essa quantidade de imortais? - exclamou Supramati.
Nara balançou a cabeça.
— Você se esquece, meu amigo, de que antes de se tornarem magos todos aqueles que transformaram aquelas mulheres em imortais eram pessoas comuns.
O mesmo sentimento que o motivou a dar a essência primeva ao seu filho orientou também os outros.
Ali há mulheres que foram muito amadas; mães, filhas e irmãs, das quais na época eles não queriam se separar.
Lembre-se de como você mesmo queria dar o elixir da longa vida ao visconde de Lormeil.
Quem sabe quantos pecados dessa espécie estariam na sua consciência, se você vivesse mais tempo neste mundo.
De qualquer forma, a lista das vítimas de Narayana é bem extensa.
— Chegará a hora em que nós não vamos achar-nos por demais numerosos.
Ao desabarem os cataclismos, haverá trabalho para todos.
Quando em volta de nós todos sucumbirem, mal bastaremos para povoar uma cidade - observou em tom triste Ebramar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:17 pm

Capítulo XII

Passaram cerca de dez dias desde a chegada dos nossos heróis ao palácio de Ebramar.
No início, o tempo corria como num sonho.
A harmonia que reinava em todos os cantos exercia um efeito benigno sobre todos e as conversas com Ebramar produziam uma impressão deleitosa.
Mas eis que já fazia dois dias que Dakhir e Supramati estavam sozinhos.
O mago retirou-se, alegando que precisava de alguns dias para se concentrar.
Nara também se ausentara e se preparava com Vairami para a sua nova função de dirigir a escola de iniciação.
Os amigos sentiam-se sós e tristes. Sentados no terraço anexo ao aposento de Supramati, eles lembravam o passado e teciam planos para o futuro.
A noite já havia caído fazia tempo e a lua cheia iluminava vivamente o quadro mágico em torno deles.
— Sabe, Dakhir, Narayana nos enganou!
Ele prometeu se comunicar connosco, entretanto não nos dá qualquer notícia - disse inesperadamente Supramati, recostado no corrimão.
— É! Ele é uma pessoa extremamente instável.
Talvez tenha mudado de ideia e não queira revelar-nos o seu refúgio - acrescentou Dakhir.
— Eu gostaria de saber o que estará fazendo aquele estranho e enigmático espírito, uma mistura de vícios e virtudes, ciência e leviandade.
Só que tenho vergonha de perguntar isso a Ebramar.
Um barulho de asas fê-los virarem-se.
Calados e surpresos, olharam para um magnífico pavão branco que pousou na balaustrada, abrindo coquete a sua cauda branco-prateada, como se salpicada por pedras preciosas multicolores.
O topete dourado sacudia-se em sua cabeça.
Os olhinhos negros fitavam Supramati com um olhar inteligente, quase humano.
— Meu Deus! Que ave maravilhosa!
Nunca vi uma igual! - exclamou Dakhir.
O pavão bateu as asas, pulou para o jardim e começou a revirar a cabeça como que convidando para ser seguido.
— Posso jurar que ele é um mensageiro de Narayana! - disse Dakhir.
O pavão inclinou rapidamente o seu topete fosforescente e começou a correr pela alameda como se quisesse se certificar de que o estavam seguindo.
Supramati foi atrás da ave misteriosa, mas Dakhir deteve-se pensativo.
— Talvez o estejam convidando sozinho – hesitou ele.
O pavão soltou um grito baixo e balançou impaciente duas vezes a cabeça.
— Palavra de honra, ele nos entende!
Não vamos fazê-lo esperar - exclamou rindo Supramati, agarrando a mão de Dakhir e arrastando-o consigo.
O pavão movia-se rápido para a frente.
Eles atravessaram o jardim, uma comprida e quase escura alameda e foram dar num descampado coberto de grama densa e alta.
Não era sem dificuldade que avançavam.
Em seu caminho, serpentes se levantavam sibilando, jogando-se imediatamente para trás, pois nenhum animal se atrevia a atacar os imortais.
Preocupados em não perder de vista o pavão, os jovens já não davam qualquer atenção aos répteis asquerosos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:18 pm

No fim do vale havia um fundo desfiladeiro, que eles desceram através de uma íngreme trilha quase invisível; embaixo estava totalmente escuro, mas o pavão que corria na frente desenhava-se na escuridão em nuvem branca.
A ave parou diante de uma rocha negra, coberta de musgo, e esgueirou-se devagar para dentro de uma fenda estreita, coberta por arbustos.
Dakhir e Supramati, sem se deterem, foram atrás e encontraram-se num estreito corredor que deu, inesperadamente, numa gruta alta e estreita, iluminada por uma luz azulada, e que formava uma espécie de abóbada sobre um canal ou rio subterrâneo.
As margens do canal eram altas e abruptas.
Os degraus, esculpidos na rocha, levavam até a água, onde um barco parecia esperar por eles.
Era uma espécie de piroga comprida e estreita, com proa alta, decorada com pavão dourado e equipada com uma lâmpada eléctrica no dorso, cujos raios brincavam nas estalactites da abóbada.
Dakhir pegou os remos, Supramati assumiu o leme, enquanto o pavão se instalou na proa atrás da lâmpada, com o dorso voltado para eles.
À medida que seguiam em frente, diante de seus olhos se abriam estranhas e maravilhosas paisagens.
O rio subterrâneo corria em curvas; ora de um lado, ora do outro, escancaravam-se grutas profundas.
Algumas delas pareciam galerias e perdiam-se de vista, outras consistiam de imensas cavernas, todas iluminadas por luzes multicolores muito suaves.
Algumas grutas, envoltas em névoa esverdeada, pareciam gigantescas esmeraldas; outras estavam inundadas por luz rósea de rubi pálido, mas a maioria delas estava imersa em luzes azuis de safira que predominavam no canal principal e eram tão fortes, que a luz eléctrica diante deles perdia o brilho.
De onde vinha aquela luz - era difícil de saber.
Podia-se pensar que ela se infiltrava por entre as paredes da montanha.
Os amigos contemplavam como enfeitiçados aquela paisagem mágica, extraordinariamente diversificada.
Ora da escarpa se lançava jorrando uma corrente que parecia rubi fundido, ora na superfície lisa azul-escura da água surgiam impressionantes flores aquáticas umas vezes azul-turquesa, outras, brancas, com estames dourados ou vermelhos como corais.
Por vezes, as numerosas ramificações do rio deixavam os amigos num impasse quanto à escolha do caminho, mas o pavão estava atento e sempre avisava com um grito, quando eles estavam prestes a se desviar do caminho certo.
— É evidente que o nosso guia está nos levando até Narayana.
Se a morada dele for parecida com o caminho que nos leva até lá, então o nosso incorrigível estroina irá provar-nos mais uma vez o seu incomparável bom gosto -observou Supramati.
Neste instante, ouviu-se uma gargalhada estentórea e escarninha, cujo eco se repetiu sob as abóbadas; ressoou tão perto, que ambos involuntariamente se viraram e começaram a procurar Narayana com os olhos, mas este permanecia invisível.
Apenas o pavão abriu a sua cauda colorida e soltou um grito penetrante que soou feito uma gargalhada.
Neste ínterim, a abóbada ficou mais baixa, o canal estreitou-se e fez uma curva fechada.
Agora o barco deslizava através de uma passagem baixa e estreita; a lâmpada se apagou e os amigos encontraram-se numa escuridão quase completa.
Subitamente uma forte correnteza suspendeu o barco e este, como uma flecha, precipitou-se pela passagem escura e recta, indo parar inesperadamente num enorme lago, em cujas águas prateadas reverberavam alegremente os raios do sol nascente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:18 pm

Esta mudança deu-se tão rápido, que os jovens, ofuscados pela corrente de luz, fecharam por alguns instantes os olhos, e ao abri-los soltaram em uníssono um grito de admiração e surpresa.
A água sobre a qual oscilava o barco era tão transparente, que se podia enxergar qualquer irregularidade e cada seixo em seu fundo.
Os peixes cintilavam ao sol com as escamas prateadas, douradas ou vivamente coloridas.
As margens do lago eram altas, escarpadas, cobertas por mata e cingidas por altas montanhas.
Bem em frente deles, numa ilha ou península - no momento era difícil distinguir -, encerrados numa exuberante vegetação esmeraldina, viam-se os muros e o telhado de um palácio.
Impulsionado por forte remador, o barquinho voou pela superfície lisa do lago e, minutos depois, encontrava-se junto à escadaria de mármore, decorada na parte inferior com duas esfinges de bronze.
Em cima, divisava-se um largo pórtico com colunas.
A recepção do barco ficou por conta de quatro jovens esbeltos.
Portavam túnicas brancas, cingidas com cintos de fivela em ouro, klaftas e colares no pescoço.
Eles puxaram e amarraram o barco.
No mesmo instante, o pavão soltou três gritos agudos, abriu a cauda e desapareceu.
Dakhir e Supramati saltaram para os degraus da escada.
Mas, antes que eles pudessem alcançar a plataforma superior, surgiu Narayana em pessoa - alegre, sorridente e ainda mais belo do que nunca.
Ele vestia um traje longo, cingido por cachecol, que lhe delineava o porte esbelto; um turbante leve cobria-lhe a cabeça.
— Bem-vindos, caros amigos, à minha humilde cabana! - saudou ele, abraçando efusivamente as visitas.
— Palhaço! - retrucou rindo Supramati.
Um palácio mágico e ele chama de humilde cabana!
— Se for do gosto de vocês, podem ficar o tempo que quiserem, ou melhor, tanto tempo quanto lhes permitir o seu severo mestre Ebramar - disse Narayana fazendo entrar os seus amigos no palácio.
Atravessaram uma série de salas de magnífica arquitectura, mobiliadas com luxo imperial.
Era evidente que Narayana tinha predilecção por aquele refúgio em qualquer tempo que fosse, pois, ao lado de obras de origem oriental, havia trabalhos modernos de escultura e telas de artistas cuja visão naquele palácio indiano produzia uma estranha impressão.
Narayana parou numa imensa sala decorada à moda oriental, com sofás baixos.
— Fiquem à vontade, meus amigos, como se estivessem em suas casas.
Ao lado há um quarto de banho e sugiro que vocês se refresquem.
Depois nós teremos um repasto, descansaremos um pouco, quando o calor diminuir, e eu lhes mostrarei a minha casa de ermitão.
Ao fazer um gesto amistoso com a mão, Narayana desapareceu.
Supramati e o seu companheiro foram ao quarto contíguo, que se verificou ser uma imensa sala com uma banheira no centro.
A banheira era tão espaçosa, que nela caberiam facilmente duas pessoas.
Ali, esperavam-nos dois empregados, que os despiram e, após o banho, vestiram-nos em largas e leves túnicas brancas, acompanhando-os a seguir a um salão que dava para o jardim.
Ali, junto a uma mesa luxuosamente servida, aguardava-os Narayana.
— Sentem-se, amigos!
Uma vez que vocês ainda são seres humanos de verdade, precisam comer - disse o estranho anfitrião, sentando-se à mesa e apontando para as cadeiras.
O cardápio consistia de legumes, maravilhosamente preparados, diversos tipos de biscoitos e frutas, vinho, leite e mel.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:18 pm

Dakhir e Supramati estavam esfomeados e renderam a devida homenagem ao desjejum.
Quanto a Narayana, este se restringiu a um pequeno copo de leite e um pedacinho de pão do tamanho de um ovo.
Supramati que o estava observando, indagou com um leve sorriso:
— O que está acontecendo?
Está de regime ou as condições ímpares de sua existência lhe impõem uma severa dieta?
— É, a época de bons pratos e jantares lautos acabou desde que eu me privei voluntariamente da vida material - respondeu Narayana, torcendo o rosto.
Aliás, eu não posso me queixar: não sinto fome e me utilizo somente de substâncias indispensáveis para a renovação do fluido vital que corre em minhas veias.
O elixir da longa vida é uma substância material e não espiritual, assim sendo, para o seu equilíbrio, ela exige uma espécie de combustível no organismo.
— Cada vez mais eu me conscientizo do enorme campo de trabalho que representa o estudo da matéria primeva.
Se pegarmos só você, Narayana, em seu estado actual, você já é um enigma complicado.
Se nós contássemos a algum de nossos contemporâneos a sua ou a nossa história, seríamos chamados de doidos - observou Supramati.
Narayana pôs-se a rir.
— Pudera! Esses míseros insectos vagueiam na Terra uns sessenta anos, mas vangloriam-se como se tivessem vivido séculos.
Tão logo eles se deparam com algo desconhecido, uma lei ou fenómeno que lhes pareça inusitado, imediatamente gritam:
"Isto é um milagre!" "Isto é impossível!"
"Isto contraria as leis da natureza!"
"Isto é um contra-senso!"
O raio da luz, ao brilhar inesperadamente, cega um cientista autómato.
Ele teme aquele fenómeno novo que derruba todas as suas ideias preconcebidas; ele se defende, esconde-se atrás dos velhos textos, fecha os olhos diante das evidências e prefere inventar as mais inverosímeis suposições e hipóteses para não admitir a mais simples e clara verdade, que se contrapõe às suas concepções estreitas.
Não! Não é para essas pessoas que nós poderíamos relatar a nossa verdadeira história.
Mesmo as grandes descobertas, por pouco não vingaram devido à cegueira da turba e teimosia obtusa dos cientistas oficiais.
— Você tem razão!
Por mais estranho que pareça, todas as verdades supremas, assim como as grandes descobertas, sempre se aceitaram com hostilidade.
Talvez isso se deva ao fato de que os sábios das pirâmides e dos pagodes ocultavam o conhecimento superior sob o véu do segredo - observou Dakhir.
— Sem dúvida, e era uma decisão inteligente.
Quanto aos oráculos das modernas religiões, eles perderam a chave dos mistérios e fundamentam a sua autoridade em fé cega.
Eles é que são cegos e se remetem aos gritos ao "demónio" e à "heresia" toda vez que a ciência ou a humanidade dá um passo para a frente - completou Narayana num esgar de riso.
Animando-se subitamente, ele prosseguiu:
— Mas para aquele que lançou um olhar além do véu de Ísis não existe o impossível. Tudo aquilo que possa imaginar a mente humana - todos esses fenómenos são possíveis e realizáveis para aquele que sabe e consegue accionar as leis que ele controla.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:18 pm

Cristo proferiu uma grande verdade ao dizer que a fé (convicção, força de vontade) pode remover as montanhas.
Supramati, que observava pensativo o inquieto e expressivo rosto de seu estranho anfitrião, indagou inesperadamente:
— Diga, Narayana, como você, com sua inteligência e conhecimento de grandes mistérios, tem-se preocupado tão pouco com seu aperfeiçoamento moral e agora condenou a si mesmo a esse estado de imobilidade?
O rosto de Narayana anuviou-se, mas dando uma risada sonora e penetrante ele disse:
— Acredita você que mover-se para frente é uma grande felicidade?
Duvido! Veja: eu vivi por longo tempo e, de tédio, cheguei a estudar muito, não tanto para o meu aperfeiçoamento espiritual, quanto para aprender a utilizar na prática os poderes adquiridos.
Tive minhas horas de depressão, quando eu estava prestes a fazer uma visita ao santuário inacessível do próprio céu para saber, enfim, se, ali, encontraria a paz para aquela pobre centelha, torturada e dilacerada, que nós chamamos de alma e que foi criada pela vontade absolutista, sem perguntar se ela queria ou não viver.
O que haveria lá, atrás daquele muro ígneo onde reina o triunfo total sobre a matéria escravizada, onde tudo é perfeição, onde borbulha a irreconhecível força criadora que esconde Aquele que deve ser o nosso soberano, o qual nós chamamos de Deus e Quem dirige nossos destinos e nossos sofrimentos...
O olhar de Narayana ardia e seus punhos cerravam-se furiosamente, enquanto ele prosseguia após uma breve pausa:
— Sim! Não foi uma única vez que eu tentei entrar à força para saber o que lá havia, dominado por desespero total, dúvida e horror desse vaivém de ascensões e quedas, com ímpetos de me lançar naquele santuário fulgurante.
Não chega de lá o menor barulho, não se manifesta a menor actividade visível e os sete génios, que ficam de guarda em volta daquele misterioso centro - estão mudos.
Você se surpreende, Supramati, dizendo que eu quero estagnar num mesmo lugar?
Não pensa que a ascensão é uma bem-aventurança tão grandiosa?
E verdade, o caos e a tempestade da luta e dos sofrimentos, em que se agita no início a centelha inteligente, amainam com o tempo; mas quanto mais alto você se eleva, mais aumenta o horror do silêncio impingido.
Os mestres deixam de guiá-lo e você é obrigado a se orientar com os conhecimentos que tem.
A necessidade empurrão para a frente e a inexorável lei da atracção impele-o para aquele centro misterioso de onde você saiu e no qual deverá afundar.
Com que objectivo, qual é a sorte e o futuro que o aguardam?
- isso ninguém sabe!
E desta forma, vagando entre a ignorância do protoplasma e o silêncio do arcanjo, nós realizamos essa gloriosa ascensão pela qual você anseia e que me assusta...
Voltando novamente ao seu tom de troça, Narayana acrescentou:
— Mas, como há tempo de sobra, eu prefiro dar uma parada e gozar um pouco de descanso num lugar como este palácio, onde me sinto bem e do qual não espero separar-me tão cedo.
Seguiu-se um longo silêncio.
Ao ver que as visitas estavam quietas e pensativas, Narayana levantou-se e propôs que fossem visitar o palácio e os jardins, o que foi aceito com visível prazer.
Primeiro foram ver a casa, que era um verdadeiro museu, e depois saíram para o jardim.
Ali, a arte e a natureza se fundiram, criando um autêntico paraíso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:19 pm

O que conferia uma peculiar originalidade àquele pequeno parque era, primeiro, a diversidade da vegetação: ao lado das palmeiras, cresciam pinheiros e outras espécies de florestas setentrionais; depois, em meio da densa vegetação, foram espalhados pequenos pavilhões que, por seu estilo e arrumação, lembravam as diversas épocas da vida passada de Narayana.
Assim, por exemplo, por entre os ciprestes e loureiros, via-se uma minúscula vila grega; uma outra construção, que se reflectia nas águas do lago, lembrava um palácio veneziano.
Por todos os cantos reinava um luxo requintado e viam-se reunidas, com gosto apurado, maravilhosas obras de arte.
Por fim, eles se detiveram diante de um grupo de palmeiras, acácias e diversas espécies de árvores, cuja densa folhagem formava uma abóbada verde, impenetrável para os raios solares.
Os jactos prateados que esguichavam do chafariz de mármore espalhavam um agradável frescor.
Todos se sentaram num banco de mármore e a conversa girou em torno daquilo que eles acabaram de ver.
— Meu Deus! Como tudo aqui é maravilhoso!
Como se fosse num conto mágico! - exclamou Dakhir.
— Por consequência, aqui é justamente o lugar mais adequado para vocês, pois nós somos príncipes mágicos, seres legendários e fantásticos.
Os séculos vão passando, saturando aos poucos as nossas almas; nós perdemos a genuína alegria de viver, a dúvida torturante e o futuro infinito vão minando dolorosamente os nossos nervos.
Assim, é bem justo que nos cerque e que torne menos penoso o nosso surpreendente destino esta beleza natural, da qual nunca nos fartamos.
As palavras de Narayana fizeram voltar os pensamentos dos presentes aos assuntos que foram abordados durante o desjejum; e reiniciou-se então a discussão das leis que regem o progresso, sobre a justiça celestial, o bem e o mal e sobre outros problemas ainda não resolvidos.
— Justiça celestial é o emprego das leis implacáveis que habitam a alma e que se vingam por sua violação ou recompensam por qualquer esforço - brandiu Supramati.
— Justiça!.. Recompensa!..
Quem não gostaria de se utilizar do benefício de um e regalar-se do outro?!
Só que é difícil capturar essas duas filhas do céu, tão esquivas e enganadoras como a irmã delas - a esperança! – arrematou Narayana num esgar de riso.
Se vocês quiserem, meus amigos, eu lhes contarei uma lenda hindu que justamente ilustra a questão de seu interesse.
Narayana concentrou-se por um minuto e depois, em tom propositadamente empolado, começou:
— Era uma vez, diz a lenda, vivia um tolo que sonhava com o céu a tal ponto, que não mais enxergava a terra.
A sua fé na justiça de Brahma era inabalável e ele suportava submisso todas as injustiças e ofensas que lhe eram causadas por pessoas ricas, autoritárias e felizes, divertindo-se sempre em poder mostrar o seu desprezo em relação às mentes ingénuas.
Por fim, o tolo morreu de fome nos degraus de um pagode, dirigindo ameaças aos seus opressores com a justiça de Brahma e profundamente convicto de receber a recompensa por sua submissão e paciência.
Leve e radiante, ascendia ele ao espaço.
Seu corpo astral respirava luz e calor.
Olhou com desprezo para seus pobres restos mortais humanos que abandonara; ele se sentia feliz, pois tudo em sua volta era paz e silêncio.
Ele falava consigo:
"Eis-me aqui no caminho do céu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:19 pm

Só preciso saber onde fica o palacete celestial onde preside Brahma, praticando a justiça, punindo os pecaminosos e recompensando os justos".
Vagando à procura do caminho ao paraíso, ele topava com multidões de seres que se turbilhonavam na atmosfera - eram seres asquerosos, cobertos de úlceras morais.
Todos eles blasfemavam e queixavam-se.
Nenhum deles conseguiu responder à pergunta de Vaidkhiva - como era chamado o nosso herói.
Os pobres espíritos, sofredores e atormentados, nada sabiam da justiça de Brahma e ignoravam o lugar onde Ele ficava.
Eles só ouviram falar que Ele reinava nas alturas acima das estrelas e que os mais dignos e puros poderiam comparecer diante de Seu fulgurante trono.
Ondas de forças misteriosas carregam os justos até o semblante de Brahma e as mesmas lançam os criminosos e os insatisfeitos no sorvedouro da expiação.
Feliz e cheio de confiança, Vaidkhiva exaltava glórias a Brahma, à sua justiça e poder.
Agarrado pelas ondas da harmonia, foi levado para a límpida esfera superior, onde se encontrou com a mesma espécie de justos, radiantes e sábios, que também louvavam Brahma e a Sua justiça.
Vaidkhiva perguntou a um de seus colegas para onde eles iam tão rápido.
— Para o mesmo lugar que você - responderam-lhe.
- Para o trono de Brahma, buscar a recompensa pelas injustiças sofridas, pelo nosso trabalho e nossa fé.
Trabalhando incansavelmente, Vaidkhiva subia, e outros subiam com ele.
Repletos de fé e obstinação, eles dirigiam louvores à glória, à sapiência e à misericórdia de Brahma.
Mas, quando eles indagavam onde ficava o Seu domicílio celestial, recebiam a resposta:
— Continuem o caminho!
E mais adiante!
E Vaidkhiva subia e subia.
Agora ele era imagem apenas de uma nuvem luminosa.
Seu conhecimento era imenso e os poderes - quase ilimitados, mas ele continuava aguardando pela justiça celestial e recompensa por seu trabalho.
E assim, passando de uma esfera a outra, ele alcançou, finalmente, o centro do Universo.
Ali se erguia um muro de luz ofuscante, formada inteiramente de uma série de sóis; seus limites pareciam infinitos ou, pelo menos, incomensuráveis.
Somente a perfeição, adquirida por ele, permitia a Vaidkhiva contemplá-lo, e diante dele, feito uma visão nebulosa, reverberando todas as cores do arco-íris, estava um dos génios guardiões da muralha sagrada.
— Já estamos junto aos portões do palácio de Brahma! - exclamaram Vaidkhiva e os justos que acompanhavam a sua falange.
Deixe-nos passar, abra os portões do céu, génio das esferas, guardião da entrada sagrada! - diziam eles.
Nós merecemos a felicidade de comparecer diante do semblante radioso de Brahma.
Nós suportamos pacientemente todas as injustiças e ofensas, trabalhamos incansavelmente para abrir o caminho até aqui, nossa fé jamais fraquejou em provações e sofrimentos, e, mesmo em situações de dificuldade suprema, entoávamos cânticos à glória e à generosidade de Brahma, apoiando os fracos, animando os ignorantes e persuadindo os descontentes.
Nós triunfamos sobre a dúvida que nos torturava e impedia o nosso caminho.
Agora, exaustos com a longa ascensão, queremos prostrar-nos diante do trono de Brahma, regozijar-nos da paz anunciada e conseguir a punição justa de nossos perseguidores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:19 pm

O génio continuava mudo; a muralha fulgurante permanecia fechada e debalde eles repetiam o seu pedido - não havia resposta, pois, nos lábios do génio, estampava-se o selo dos mistérios que ele guardava.
Estupefactos e inquietos, os justos entreolharam-se sem entender aquele silêncio; mas eis que detrás do muro soou uma voz desconhecida, poderosa como trovão e ao mesmo tempo harmónica feito o som de harpa:
— Vão e trabalhem mais, pois as palavras de vocês comprovam que ainda não estão prontos para comparecer diante do trono de Brahma.
Vocês acabaram de pedir a justiça e a recompensa, sem terem entendido que tanto uma como a outra já lhes foi concedida.
Olhem para as suas vestes claras, avaliem a sua paciência infinita, os conhecimentos adquiridos, instintos domados e desejos sufocados.
Tudo isso vocês obtiveram pela benevolência e misericórdia de Brahma, que os apoiou e recompensou por todo o esforço com o degrau superior da perfeição.
Aqueles que os ofenderam, maltrataram e obrigaram a sofrer, seguem atrás, acusando, por sua vez, os outros por injustiças e crueldades, sem compreenderem, da mesma forma como vocês, que da matéria só se liberta através do sofrimento.
O mundo em que vocês outrora viveram já não existe mais, pois passaram mais de cinquenta milhões de anos desde o dia em que Vaidkhiva morreu na escada do pagode.
Tudo já lhes foi concedido pelos poderes e justiça de Brahma, mas vocês procuram por paz, sem entender que ela não existe e que a suprema bem-aventurança consiste da actividade constante.
Vocês não amadureceram para atravessar os portões do céu e contemplar o semblante radioso de Brahma.
Vão, trabalhem e entoem cânticos em Sua glória!
A voz misteriosa calou-se.
Uma parte dos justos baixou a cabeça em submissão e mergulhou em oração.
Mas a alma de Vaidkhiva encheu-se de fúria alucinada.
A dúvida, que não o largou até à entrada do paraíso, apesar da perfeição, murmurava-lhe com o maledicente escárnio:
— Bem, e agora?
Quem estava certo?
Possesso, Vaidkhiva lançou-se sobre a muralha reluzente, tentando galgá-la e gritando feito um louco:
— Cumpra a justiça prometida! Julgue meus opressores e recompense-me pelo trabalho feito!
Um silêncio profundo veio-lhe como resposta.
Ele se arremessou de novo para a frente, proferindo maldições quando, de repente, as estrelas que lhe encimavam a cabeça desintegraram-se com um estrondo trovejante, soltando colunas de fumaça negra; toda a atmosfera estremeceu e detrás da muralha misteriosa cintilou um relâmpago brilhante atingindo o coração de Vaidkhiva.
Seu corpo transparente desintegrou-se em bilhões de átomos e os elementos desenfreados do caos primevo agarraram-no e o arrastaram com silvos para dentro do furacão ígneo, que calcinou suas vestes claras, matou-lhe a memória e tirou seus conhecimentos e poderes.
Feito uma folhinha seca, levada por um pé-de-vento, voava ele ao abismo insondável, até que um terrível solavanco fez paralisar inesperadamente o seu voo desvairado.
Alquebrado, dilacerado por dores horríveis, Vaidkhiva conscientizou-se, a muito custo, que estava enclausurado numa enorme rocha.
De sua luz radiante sobrou apenas uma pequena centelha purpúrea, que reluzia feito uma luz errante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:19 pm

Ele tinha dificuldade em pensar.
De todo o seu conhecimento e poder, sobrou apenas uma vaga recordação sobre aquilo que ele fora e a consciência de que agora ele era alguma outra coisa, como uma simples pedra.
Subitamente, um canto desafinado quebrou a sonolência em que se encontrava o gigante decaído.
Ele viu uma multidão de pessoas quase nuas, cobertas por peles de animais, que se aproximavam trazendo nas mãos ramos e frutas.
Eles as depuseram na rocha e as incendiaram; prostraram-se de joelhos - oh, que horror! - e iniciaram um cântico glorificando a justiça de Brahma.
O canto despertou inesperadamente a memória de Vaidkhiva.
Ele foi tomado por tal desespero, que a rocha rachou e de seu âmago jorrou uma fonte, transparente como brilhante.
— As lágrimas do justo serão a recompensa dele - proferiu uma voz, consolando a alma confusa de Vaidkhiva.
A ignara e ingénua turba endeusou a fonte maravilhosa.
De todos os cantos confluíam a ela doentes, inválidos e cegos, obtendo a cura em sua água medicinal, uma vez que junto com as lágrimas inesgotáveis que jorravam do coração petrificado de Vaidkhiva fluía a própria essência da natureza.
Nas gotas cristalinas da fonte concentrava-se todo o poder adquirido pelo mago, a sua habilidade de governar as correntes astrais e as radiações benéficas que dele emanavam - o que não pôde ser totalmente eliminado.
Os miseráveis, os deserdados e os pobres de espírito compreenderam isso e, através das lágrimas do justo, aliviavam os seus sofrimentos.
Com as suas próprias mãos, eles trouxeram material e construíram um pagode para preservar a fonte.
Cada um que imerge em suas águas, exalta a glória de Brahma e dirige louvores à sua sabedoria.
Narayana calou-se. Seus interlocutores também ficaram por algum tempo em silêncio, depois do qual Dakhir observou calmamente:
— A sua lenda é bem poética, mas é repleta de paradoxos.
Enquanto nós estamos embaixo da escada da perfeição, a nossa mente fraca não tem condições de abarcar o nosso destino em todo o seu gigantesco volume; sobretudo apresenta-se-nos como um mistério impenetrável o seu objectivo final.
Não obstante, temos certeza de uma só coisa, ou seja, a de que a lei inexorável nos impele para a frente e que nesse caminho qualquer parada é fatal.
Por isso é pusilânime e inútil lamentar-se, duvidar e julgar a força tão poderosa, que enfrentá-la seria tão insensato, como um nadador enfrentar as ondas do oceano durante uma tempestade.
— Além disso, permita-me acrescentar – interferiu Supramati - que Vaidkhiva, apesar de toda a sua perfeição e de louvores à glória de Brahma, era muito inconsequente.
De que forma, ao alcançar a harmonia, ele conseguiu preservar o espírito rancoroso?
Por que, detentor de um poder quase ilimitado, ele mesmo não julgou, neste caso, os seus inimigos?
A sua fúria, quando ele obteve a resposta justa, é totalmente incompreensível.
— A moral da minha lenda é que a busca da perfeição é um empreendimento muito arriscado e que nunca se pode ter uma certeza quanto a alcançar o seu objectivo, pois o instinto humano está a tal ponto incrustado na alma, que é praticamente impossível estabelecer quando ele desaparecerá por completo.
O herói da minha lenda, provavelmente, purificou-se no transcorrer de sua longa ascensão; seu ser parecia uma única onda de harmonia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:19 pm

Todo o seu pensar transformou-se em força de vontade e governava as leis cósmicas que ele compreendeu e das quais sabia se utilizar; apenas em seu íntimo se conservou uma partícula de "homem", ou seja, um átomo da dúvida e do egoísmo.
Essa partícula rebelou-se e incinerou toda a maravilhosa edificação.
Para mim mesmo - concluiu Narayana -, tiro desta lenda - seja ela falsa ou verdadeira - a seguinte moral prática:
uma vez que ninguém nos apressa e nós temos tempo de sobra, é mais sensato gozarmos o presente e protelar, o quanto possível, aquele minuto perigoso, quando teremos de comparecer diante dos misteriosos portões celestiais e dos guardiões mudos - os génios das esferas.
— Você está dizendo tolices, Narayana!
Você sabe demasiadamente para não compreender todo o fardo da ignorância e está próxima a hora em que você derramará lágrimas amargas por ter sentenciado a si esta inactividade - interrompeu-o Supramati.
— Isso não me assusta!
Eu me sinto bem aqui e pretendo ficar o máximo que puder.
Eu irei observar de longe como vocês, esvaindo-se em suor de sangue, irão rastejar pelo íngreme e ingrato caminho da perfeição, atrelados à biga da ignorância.
— Você se esquece de que com cada esforço, com cada passo para a frente, a carga da ignorância vai diminuindo e a subida torna-se mais fácil - observou sorrindo Dakhir.
— E não terão vocês imaginado que esta talvez seja a melhor recompensa misteriosa que os aguarda?
Bem, será que já não basta de falarmos disso?
Nesta questão, a gente nunca irá concordar um com o outro.
Acho melhor eu mostrar-lhes a ilustração para a lenda de Vaidkhiva:
a rocha onde está enclausurada a alma do sábio, chorando a sua queda.
— E você tem aqui essa pedra legendária?
É evidente que eu quero vê-la! - exclamou Supramati curioso.
— Sim, no fundo do meu jardim.
Vamos, eu lhes mostrarei! - prontificou-se animadamente Narayana, levantando-se.
Através de uma longa alameda emoldurada por árvores frondosas, eles atravessaram todo o jardim e saíram num pequeno bosque.
Após andarem por cerca de dez minutos, deram num pequeno prado, no centro do qual se erguia um pequeno pagode.
No interior do pagode, numa agradável penumbra, delineava-se claramente uma grande estátua a Buda, instalada num alto pedestal.
Aos pés da estátua, divisava-se uma grande pedra cinzenta, rachada de cima a baixo; de suas entranhas, jorrava murmurejando um fio de água cristalina, caindo num reservatório, que, ainda que estivesse cheio, não transbordava.
Para onde ia aquela água - era difícil de determinar, pois não se via em lugar algum um orifício de escoamento.
Em torno do reservatório, estavam sentados sobre tapetes, em diferentes poses, sete homens nus, extremamente magros.
Uma expressão de êxtase congelou-se em seus rostos e as poses indicavam o seu estado cataléptico.
— São os faquires-meditadores, guardiões voluntários da fonte miraculosa.
Eles ficam anos a fio sem se moverem deste lugar até morrerem, quando então são substituídos por lunáticos da mesma espécie.
Eu assumi a responsabilidade de cuidar deles.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 14, 2016 7:20 pm

Uma vez por dia, trago para cada um, um punhado de arroz, que eles engolem maquinalmente; dou-lhes de beber a água da fonte e molho os seus corpos ressequidos.
Isso é suficiente para manter a vida física; quanto a seus espíritos, eles, sob o efeito do êxtase, pairam no éter, esquecidos de seu invólucro carnal.
— Sim, sim!
As irradiações carnais, o significado da vida dessas vítimas da violência científica servem para manter e prolongar a existência de algum cientista inescrupuloso, ao condená-los ao sofrimento inútil, enquanto, nesse ínterim, ele goza dos prazeres de uma vida de opulência, disfarçada com o trabalho mental - disse Dakhir em tom grave, olhando penalizado e com simpatia para aqueles esqueletos vivos, sentados de forma tão imóvel e apática como a pedra sagrada que eles protegiam.
— Bem, esta pedra não é para a minha horta!
A matéria primeva por mim absorvida, libera-me da necessidade de buscar a força vital de um organismo estranho – gracejou Narayana, dizendo a seguir:
— Entretanto, está ficando quente! Voltemos para casa, meus amigos, para vocês descansarem.
Na hora do jantar nos encontraremos.
Eles retornaram ao palácio, onde Narayana os deixou.
Mas, ao invés de dormir, eles começaram a examinar as valiosas obras de arte de todas as épocas e, depois, começaram a folhear os manuscritos raros.
O tempo passava rápido e o sol já havia alcançado o zénite, quando, por fim, eles se deitaram exaustos no sofá e adormeceram.
Narayana despertou-os.
— Vamos jantar!
O sol já baixou e o ar está fresco e aromático.
Metade da vida que eu levo já seria óptimo – disse ele em tom alegre.
Mas, antes de tudo, tomem um banho: isso refresca.
Meia hora depois, um dos belos efebos que servia no palácio levou Dakhir e Supramati a um salão a céu aberto com vista para o jardim.
Através da arcada de colunas finas, viam-se conjuntos escuros de árvores, por entre as quais cintilava a superfície lisa do lago.
Uma suave luz azul-celeste iluminava a sala, no centro da qual estava a mesa luxuosamente servida.
Com a entrada das visitas, Narayana levantou-se do sofá onde estava deitado e todos se sentaram à mesa.
O jantar foi tão maravilhoso como o desjejum.
Da mesma forma como de manhã, o dono da casa limitou-se a servir-se de leite e frutas; ele estava alegre e inesgotável em assuntos, de modo que a refeição passou em meio a grande animação.
Já era noite, quando eles se levantaram da mesa e foram ao terraço.
Biliões de estrelas cintilavam no azul-escuro do firmamento e a lua ascendente iluminava tudo com meiga e suave meia-luz.
Ao notar que as visitas mergulharam na contemplação da feérica paisagem, Narayana bateu no ombro de Supramati e disse:
— E aí?!
Você ainda acha uma "tolice" e "crime" o meu desejo de descansar um pouco neste maravilhoso ambiente, gozando o presente em vez de almejar um objectivo desconhecido e uma felicidade duvidosa que, de qualquer forma, serei obrigado a alcançar algum dia, querendo ou não?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 6 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum