Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 7:28 pm

— Eu vi seu pai.
Ele está feliz e tranquilo, pois cumpriu bem e correctamente a sua tarefa em vida.
Você o verá mais tarde.
— Diga-lhe que eu o amo e todos os dias rezo por ele e você.
Veja, mãe, como eu estou forte e sadio!
Agora você não precisa recear como antes pela minha saúde - acrescentou ele com um sorriso maroto.
Uma expressão de temor e tristeza anuviou as feições do espírito.
Pondo a mão sobre a cabeça do filho, a visão disse:
— Temo agora se não será por demais longa essa vida com a qual eu me preocupava e que se extinguiria em pouco tempo.
— Diga-me, você aprova este estranho destino para o qual me empurrou a fatalidade? - indagou Supramati em tom de tristeza e inquietação.
— Eu não ouso reprovar, querido Ralf; eu sou por demais ignorante.
Apenas receio que seja por demais penosa a provação da imortalidade e o enorme trabalho que o aguarda para tornar-se digno das forças misteriosas obtidas.
Pergunte para aqueles que penetraram nas esferas superiores do conhecimento e que contam sua vida em milhares de anos.
Estão eles felizes por carregarem eternamente o perecível invólucro terreno, sem possibilidade de descansarem na morte?
Submetido a milhares de sofrimentos inerentes à vida terrena, já que o privilégio da imortalidade é sentido apenas pelo corpo, o espírito permanece vulnerável como antes, sem se utilizar da prerrogativa de não sentir, não amar, não chorar os sofrimentos que a imortalidade não consegue aliviar.
O espírito calou-se por instantes, mas logo prosseguiu em voz mais débil:
— Eu sinto volatilizarem-se as forças que me foram dadas.
Assim, até um novo encontro, meu filho!
Eu aparecerei quando você me chamar num momento difícil, não para a solução dos problemas relacionados com a gestão do Universo, mas só para que você ouça uma palavra amiga.
Ele sentiu que a mão dela se tornava cada vez menos densa, que se diluía e se tornava intangível.
Toda a visão se derretia, tornava-se transparente e, por fim, desapareceu por completo.
Respirando com dificuldade, Supramati deixou cair-se na cadeira e fechou os olhos.
Dakhir acendeu uma vela e disse:
— Você está exausto, meu amigo, não com o corpo, mas com o espírito.
Assim, vamos interromper esta sessão.
Apesar de sua imortalidade, você fará bem se se deitar para dormir.
Supramati endireitou-se, pegou as flores deixadas pela mãe sobre a mesa, em cujas folhinhas ainda brilhavam gotículas de orvalho, e, com um sentimento misto de infelicidade e alegria, encostou-as aos lábios.
Apesar da bem intencionada sugestão de Dakhir, todos permaneceram em seus lugares e continuaram a conversar.
Supramati lamentava-se que os cépticos, com os objectivos preconcebidos, impedissem o progresso do espiritismo, que representava, entretanto, uma das fontes de consolo para os espíritos sofredores, contribuindo, ao mesmo tempo, para o seu renascimento moral, devolvendo-lhes a fé na vida do além-túmulo.
— Oh, esses cépticos! - exclamou rindo Nara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 7:29 pm

Às vezes eu tenho uma vontade imensa de convencê-los do contrário, colocando-lhes os óculos mágicos.
Acho que todos esses grandes tagarelas ficariam malucos ao reconhecerem que toda a atmosfera em volta está povoada por seres invisíveis, cuja existência eles contestam e, no espaço, que eles consideram vazio devido a seus equívocos presunçosos, habita um verdadeiro mundo de seres intangíveis.
— Já não é a primeira vez que ouço você e Dakhir mencionarem certos óculos mágicos.
Posso vê-los pelo menos uma vez? - pediu Supramati.
— Com todo o prazer! - prontificou-se Nara.
Ela abriu a escrivaninha entalhada com acabamento em marfim, tirou de uma gaveta um par de óculos com armação em ouro e estendeu-os ao marido.
Com interesse bem compreensível, Supramati examinou os óculos, executados em um material estranho para ele, mais transparente que o vidro e que reverberava luzes multicolores.
Sem pensar muito, ele colocou-os, mas para sua grande surpresa nada viu, além de ondas coloridas que emitiam sons, moviam-se e fundiam-se.
Ao mesmo tempo, parecia-lhe que o seu cérebro estava sendo esmagado por um anel incandescente.
— Tire os óculos e vá lavar o rosto! Hoje você não vai conseguir ver nada, pois os seus órgãos estão demasiadamente saturados por aquela substância que eu queimei antes da sessão - disse Nara.
Mas esses óculos tornam transparente, para o olho de um ser humano comum, a cortina que esconde o mundo invisível.
Ela guardou os óculos.
Supramati dirigiu-se apressado ao seu quarto para lavar o rosto, pois sentia uma enorme dor de cabeça, que passou imediatamente após o uso da água fria.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 7:29 pm

Capítulo III

Três semanas se passaram sem trazer nada de especial.
Supramati estudava com afinco os símbolos mágicos e as fórmulas quase sempre incompreensíveis que os acompanhavam.
Quando pedia a Dakhir que as explicasse, este dizia que, antes de tudo, Supramati devia decorá-las.
— Bem, mas é muito mais difícil decorar as galimatias quando você não as entende! - rebatia impaciente Supramati.
— Entretanto, isso é imprescindível, pois, se você conhecesse o sentido dessas fórmulas mágicas, elas provocariam os seus respectivos fenómenos e você ficaria na situação do aprendiz de feiticeiro como no conto de Goethe.
Somente o desconhecimento das palavras pronunciadas por você impede à sua mente e à sua vontade que você as ponha em execução.
Supramati teve que se contentar com tal explicação.
Aos poucos, começou a dar razão às palavras de Dakhir, ao notar, ele próprio, fenómenos estranhos.
Assim, quando ele pronunciava as fórmulas mágicas, era dominado por uma certa inquietação, indescritivelmente opressiva.
Ouvia um barulho estranho, começavam a surgir sombras próximas a ele, acendiam-se fagulhas em cantos escuros e um comichão cálido percorria as suas veias.
Quando as manifestações desta espécie se tornavam demasiadamente reais, Dakhir interrompia o estudo das fórmulas e por um determinado tempo passava a estudar outros assuntos.
Ele falava ao seu amigo das propriedades ocultas das pedras preciosas, mostrando-lhe as diversas cores que elas emitiam, ilustrando com exemplos os efeitos daquelas emanações luminosas sobre as plantas, animais e homens.
Estudavam também venenos vegetais, animais e minerais, as propriedades das plantas e os efeitos do magnetismo animal; agora, no entanto, para os olhos do jovem médico abria-se uma Botânica e Química totalmente novas.
Eles prosseguiam também com os exercícios de disciplinamento da mente.
Certa vez, Dakhir trouxe ao laboratório um grande disco, coberto por um tecido preto.
Colocando-o sobre a mesa, retirou o pano.
Supramati começou a examinar curioso o disco metálico azul retinto que reverberava todas as cores do prisma como um espelho mágico, já visto por ele antes.
O disco estava encaixado numa espécie de moldura, na qual se viam incrustados diversos metais, pedras preciosas e medalhões com líquido.
Na parte superior, a moldura era adornada por um medalhão em forma de ânfora.
— O que é isso?
Também é um espelho mágico?
Para que serve? - indagou Supramati.
— Sim, também é espelho mágico, só que executado em outros metais que você ainda não conhece.
Ele lhe ajudará a alcançar uma habilidade muito difícil: controlar e disciplinar o pensamento vivo e suas imagens.
O espelho, como você vê, é composto de substâncias mais tangíveis.
É mais sensível que um barómetro, que registra somente as oscilações da atmosfera.
Neste valioso instrumento, imprescindível a todo mago genuíno, são registradas as mais subtis vibrações da mente - é um barómetro da alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 7:29 pm

Os profanos incorrem em erro ao imaginarem que o espelho mágico possui só uma aplicação:
mostrar ao mago os quadros do passado e do futuro e desvendar os segredos deste ou daquele objecto, totalmente indiferentes ao cientista.
No entanto, em realidade, este instrumento destina-se a estudos muito mais sérios e serve para exercitar a mente.
Chegou a hora de você iniciar este aprendizado.
Portanto, olhe para o disco pensando em alguma coisa e tentando representá-la em sua mente o melhor possível.
Escolha uma coisa simples, mas bem definida, para logo de início acostumar-se a formular nitidamente o seu pensamento.
Os pensamentos fugidios e caóticos nada reproduzem.
Supramati inclinou-se e começou a olhar para o espelho.
Imediatamente aflorou à sua mente uma infinidade de objectos, sem que seu pensamento conseguisse se fixar exclusivamente num só objecto.
Para sua surpresa, viu que na superfície metálica se reflectiu um verdadeiro caos de coisas, seres e flores que se misturavam, faziam caretas e em seguida desapareciam em névoa sanguínea.
A cabeça de Supramati tonteou e ele fechou os olhos.
— Pare, pare! - exclamou rindo Dakhir.
Você reproduz mais pensamentos que o espelho pode suportar.
Repito-lhe, escolha algum objecto bem simples como uma mesa, uma garrafa, alguma fruta e assim por diante.
E quanto mais definido for seu pensamento, mais vivida e perfeita será a imagem reproduzida por ele.
Supramati inclinou-se novamente sobre o espelho, concentrou-se, e nele logo apareceu uma cinzenta e mal definida representação de uma garrafa, mas, praticamente no mesmo instante, surgiu, cobrindo-a, a imagem de um copo cheio de líquido espumante e ao redor de tudo aquilo se ouviu uma mistura vaga e engraçada das vozes de Lormeil, Pierette e o restante da companhia, cuja imagem se associou de certa forma com a representação da garrafa.
Supramati aprumou-se enfurecido, rindo involuntariamente.
— Nunca pensei que era tão difícil concentrar o pensamento num determinado objecto - observou ele.
— Ninguém se dá conta disso ou presta um mínimo de atenção para o trabalho desorganizado da mente - acrescentou Dakhir.
Como consequência disso, na vida se pensa numa infinidade de coisas inúteis, perdendo-se um precioso tempo e cansando-se a mente sem qualquer objectivo.
Agora, veja!
Vou lhe mostrar como age sobre esse instrumento um pensamento disciplinado.
Vou pensar sobre a fruteira com frutas.
E Dakhir, por sua vez, inclinou-se sobre o espelho.
Seu olhar faiscante tornou-se imóvel; entre as sobrancelhas surgiu uma ruga.
Sobre a superfície polida apareceu imediatamente uma fruteira com pêras, maçãs, uvas e outras frutas.
Tudo estava colorido e parecia vivo.
Supramati soltou um ai de admiração, mas Dakhir balançou a cabeça.
— Não há com que se admirar - argumentou ele.
Meu pensamento foi bastante negligente.
O prato estava sem cor e as cerejas no fundo não estavam suficientemente coloridas.
Tais imprecisões ocorreram devido a minha pressa em imaginar o objecto que queria mostrar-lhe.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 06, 2016 7:29 pm

Deve-se agir com toda a exactidão, imprimindo a cada objecto, feito um artista, a forma, a cor e os matizes naturais.
Dakhir continuou a olhar sobre a imagem invocada por ele, e Supramati, para sua grande surpresa, viu que sobre a fruteira apareceu uma delicada pintura e as frutas tomaram sua coloração natural.
— Surpreendente! - exclamou ele.
Mas diga-me, por que a imagem invocada por um pensamento desapareceu com tanta rapidez como surgiu, enquanto essa se parece com uma verdadeira obra de arte e ainda continua a perdurar já faz alguns minutos?
— A razão é a mesma:
o seu pensamento inconstante, fugidio e caótico, sem condições de criar nada definido, menos ainda de conseguir reter aquela representação.
Eu só penso em que quero invocar a imagem e não deixo o meu cérebro criar qualquer outro pensamento.
O cérebro é um órgão tal qual um braço; basta desenvolver a força de reflexão e obrigá-lo a trabalhar obedientemente.
— E é possível representar nesse espelho, com a mesma perfeição, quadros complexos?
— Sem dúvida!
Qualquer pensamento seu pode ser reflectido aqui.
Pegando o jeito e com o tempo, neste espelho poderá ser observada uma série de quadros.
Vou lhe mostrar alguns deles.
Evidentemente, isso é bem mais difícil do que representar a imagem de uma garrafa, no entanto, o que eu vou lhe mostrar será apenas o bê-á-bá da grande arte de pensar.
Cada vez mais interessado, Supramati fixou o olhar no espelho.
Agora este pareceu ampliar-se e nele projectou-se a imensa planície marinha, iluminada pelo luar.
Mas eis que, das ondas, começou a avolumar-se e aproximar-se lentamente a montanha, sobre a qual se erigia o abrigo misterioso dos cavaleiros do Graal.
O quadro maravilhoso começou a desbotar aos poucos e diluiu-se num vapor cinzento, dando lugar ao templo da irmandade no momento do ofício divino.
Sim, aquela era realmente a imensa sala com suas colunas, finos entalhes e mosaicos coloridos.
Do vão da cúpula jorravam raios solares, inundando de luz o piso de pedra e as roupas alvas dos cavaleiros.
Nos degraus do altar estava o superior da irmandade e, diante dele, o próprio Supramati.
Era a vida em si, nada ali estava esquecido; tudo respirava e vivia.
Que grande artista pensador teria que ser ele para representar de tal forma a natureza e invocar naquele lúgubre laboratório o aparecimento do oceano e inundá-lo de vivos raios solares.
Com um sentimento misto de admiração e medo olhava Supramati para Dakhir, que estranhamente fixava o espelho mágico.
Mas, subitamente, este esfregou com a mão os olhos e virou-se com um sorriso para seu amigo; o quadro sumiu imediatamente e o espelho readquiriu a sua habitual cor preta.
— Dakhir, você alcançou a sublime arte de cuja existência eu nem suspeitava.
Acho que nunca conseguirei tal habilidade.
— Você só me acha um grande artista porque não viu algo melhor - retrucou Dakhir.
O meu pensamento ainda não reproduz aromas, sons e coisas assim.
De um modo geral, estou longe do objectivo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:54 pm

Mas como a sua admiração lisonjeia o meu ego, vou lhe mostrar uma partícula da minha arte, ou seja, vou fazer o meu pensamento ser visível para outra pessoa.
Aliás, tais fenómenos podem ser feitos também pelos profanos, que os interpretam a torto e a direito e os denominam de espectros em vida.
O próprio fato já se manifestou tão frequentemente que negá-lo é inútil.
No momento da morte ou do perigo, muitos apareciam junto aos seus familiares como pessoas reais; às vezes, tocavam-nos e conversavam com eles.
Na realidade, estes fenómenos não são nada mais do que as manifestações do pensamento que se tornaram não só visíveis como palpáveis.
Somente com os profanos tais fenómenos ocorrem casual e inconscientemente, eu, no entanto, posso evocá-los à minha vontade.
Devo acrescentar ainda que o pensamento passivo, ou seja, quando você não pensa em nada definido, reflecte-se no espelho mágico em forma de linhas fosforescentes, mais ou menos vivas, dependendo da energia das vibrações cerebrais.
Entretanto, o pensamento não pode ser passivo, mas activo e produtivo.
O trabalho da mente deve ser harmónico para não fatigar o cérebro, pois todos sabem e já experimentaram por si que os pensamentos impetuosos e inquietos provocam um terrível esgotamento de todo o organismo.
Agora vamos ao quarto vizinho para respirarmos o ar puro e depois lhe mostrarei o meu pensamento, visível a distância.
— Você está cansado? - perguntou Supramati, inspirando prazerosamente o puro e fresco ar marítimo.
— Eu não estou cansado, mas você está com uma aparência desorientada, embora aquilo que você viu não o tenha perturbado tanto.
Até a ciência "oficial" de vocês começa a se convencer da "tangibilidade" do pensamento, que é até fotografado!
Sem dúvida, estas experiências ainda são insuficientes e seu resultado é ruim, como ocorre com as descobertas recentes; no entanto, as pessoas estão a meio caminho de submeter ao controle científico um dos sentidos humanos mais tempestuosos e birrentos.
Até para nós, disciplinar o pensamento e o seu instrumento - o cérebro - é um trabalho fenomenal.
Pensar-se-ia que os cientistas - trabalhadores mentais, capazes de solucionar mentalmente os problemas mais complexos -, já teriam dado este primeiro passo, e no entanto, se eles tivessem que concentrar toda sua força de vontade para fazer a representação de um objecto, você precisaria ver que ziguezagues se reflectiriam no espelho mágico!
Sem dúvida, Supramati, são-lhe imprescindíveis os treinamentos que teve no início, pois através deles você poderá reproduzir mentalmente todos os sinais cabalísticos e os símbolos mágicos das invocações.
Tudo isso você deverá fazer de forma rápida e precisa, sem a menor hesitação.
Após uma hora de descanso, eles retornaram ao laboratório e postando-se em frente do espelho mágico, Dakhir disse:
— Agora eu vou cumprimentar Ebramar, e você olhe para o espelho.
É claro que será muito difícil eu conferir a mim mesmo um aspecto inteiramente vivo e real, pois isso exigiria uma concentração muito forte, mas, de qualquer forma, você conseguirá ver-me.
Carregando o cenho e com as veias na testa entumecidas pelo esforço da concentração, Dakhir debruçou-se sobre o espaldar da cadeira em que estava sentado Supramati e este logo viu, no centro do espelho, um círculo brilhante que foi aumentando gradativamente até transformar-se num gigantesco disco da cor do luar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:54 pm

Diante de seu olhar estupefacto, surgiu o terraço de seu palácio no Himalaia.
Junto à mesa, apinhada de livros, estava sentado Ebramar, inclinado sobre rolos de papiro; ao lado, no tapete, estava deitado o cão galgo.
Encantado, olhava Supramati para aquele quadro que lhe era muito familiar e caro, para o prado verdejante cheio de flores vivas, para o chafariz, cujo jacto límpido fulgia em respingos brilhantes e para os picos das montanhas cobertas de neve que delimitavam o horizonte. Subitamente no azul-escuro do firmamento, surgiu, aproximando-se rapidamente, uma nuvem avermelhada.
As orelhas do cachorro ficaram em pé, ele se sentou e dirigiu o olhar inteligente para o dono, enquanto este levantou a cabeça e parecia estar prestando atenção em algo.
A nuvem avermelhada desceu, então, sobre o terraço e Supramati reconheceu nela Dakhir.
Sua figura era airosa, os contornos do corpo não eram totalmente definidos, mas a cabeça era bem delicada e reconhecível.
Supramati virou involuntariamente a cabeça e estremeceu.
Dakhir continuava como antes, debruçado sobre o espaldar da cadeira; apenas seu rosto mortalmente pálido e seus olhos vítreos faziam lembrar um cadáver.
Supramati olhava horrorizado para os olhos esbugalhados e escurecidos e as mãos geladas e imóveis que adquiriram a cor cérea.
Sim, aquilo realmente era um corpo, abandonado por forças vitais.
Com um tremor glacial, desviou o olhar para o espelho.
Ali, como anteriormente, estendia-se a paisagem alegre do palácio hindu.
Ebramar levantou-se, um sorriso afável iluminou as suas feições bondosas e ele estendeu a mão a Dakhir.
Pelo movimento dos lábios de ambos, Supramati concluiu que eles estavam conversando.
Em seguida, Ebramar pegou, de um vaso próximo, uma flor púrpura e a colocou na mão de Dakhir.
Toda a cena se passava tão próxima, que a Supramati parecia poder encostar na mão de Ebramar.
Nesse instante, este virou-se, sorriu e fez um sinal de saudação como se tivesse visto o jovem médico, depois sentou-se em seu lugar, debruçou-se sobre a mesa e fitou com o olhar pensativo a figura de Dakhir.
Esta recuou e transformou-se novamente numa nuvem avermelhada.
Um minuto depois a visão empalideceu sumindo e Supramati ouviu atrás de si um pesado e profundo suspiro.
Ao virar-se rapidamente, ele encontrou o olhar radiante do amigo, que com um sorriso jovial lhe estendeu a flor e disse:
— Ebramar mandou-lhe um abraço e enviou esta flor como lembrança.
Supramati saltou da cadeira e apertou a cabeça com as mãos.
— Ah! - exclamou ele com a voz rouca de emoção.
Isso já não é mais o aparecimento do pensamento, mas uma verdadeira magia.
Parece um conto mágico.
Dakhir balançou a cabeça.
— Não, meu amigo!
O que lhe parece mágico ou milagroso nada mais é que uma manifestação do pensamento e do corpo astral, segredado com o auxílio da força da mente.
Aliás, o que eu lhe mostrei são puras bobagens em comparação com aquilo que se pode e o que se deve alcançar.
Quando eu lhe ensinar o pouco que sei, nós nos tornaremos discípulos de Ebramar.
Sob a sua orientação, vamos estudar a magia superior e ante nós se abrirão outros horizontes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:54 pm

— Dakhir! É o orgulho, encoberto por modéstia, que o faz dizer que você alcançou pouco, quando você alcançou a perfeição - rebateu Supramati novamente se sentando na cadeira e encostando à testa a maravilhosa flor que encheu de aroma todo o laboratório.
Dakhir balançou pensativa e significativamente a cabeça.
— Você me julga mal, porque não tem nenhuma noção sobre a incomensurabilidade do conhecimento que devemos alcançar.
Ebramar, que é, sem dúvida, um gigante do conhecimento, um proeminente e sábio cientista para o qual, ao meu ver, não existem mais mistérios no Universo, com parado ao que sou - um pobre pigmeu -, disse-me certa vez:
"Quando eu espreito os infinitos mistérios que ainda devo estudar, estremeço na minha ignorância, sinto-me uma insignificante poeirinha cega!!"
— Perdoe-me, irmão, pelas palavra tolas e ofensivas - desculpou-se Supramati abraçando Dakhir.
É que, às vezes, fico tonto neste mundo estranho para onde o destino me jogou tão inesperadamente.
— Não estou nem um pouco ofendido e entendo muito bem o estado de sua alma, pois também passei por tudo isso.
Mas por hoje chega!
Você está exausto e muito perturbado.
Vamos até Nara:
sua presença vai acalmá-lo melhor.
A partir desse dia, Supramati iniciou com novo fervor o trabalho.
Seu maior anseio era disciplinar os seus pensamentos e passava horas a fio diante do espelho mágico.
E, quando o disco reflectiu, pela primeira vez, uma folha verde correta e levemente tingida, Supramati sentiu uma tal alegria inocente, que Dakhir e Nara desataram a rir.
Por outro lado, os estudos das fórmulas mágicas das quais ele nada entendia, de diversos sinais cabalísticos e de uma longa lista de nomes estranhos enfastiavam-no bastante e só com um esforço constante da vontade obrigava-se a adquirir os conhecimentos que lhe pareciam totalmente inúteis.
Não raro ele fraquejava e sentia uma exaustão profunda que não tinha, aliás, qualquer relação com suas forças físicas, pois, invariavelmente, permanecia forte e em perfeita saúde, mas o trabalho intelectual tornava-se, às vezes, insuportável, ainda que ele tentasse vencer corajosamente esse tipo de fraqueza.
Dakhir observava, atento, o estado de ânimo de seu discípulo e, nos momentos difíceis, facilitava as coisas:
ora interrompendo o trabalho por alguns dias, dedicando-os ao descanso e divertimentos, ora substituindo os exercícios - o que também dava excelentes resultados.
A sua profissão anterior não perdeu para Supramati o seu interesse; os estranhos e totalmente novos enfoques da arte de curar e destruir, que lhe eram descortinados pelo seu mestre, interessavam-no tão vivamente, como a arte de reflectir, a qual estudava com fervor.
Certa vez, enquanto conversavam já por um longo tempo sobre a cura de diversas doenças, Supramati perguntou inesperadamente:
— Explique-me, pelo amor de Deus, Dakhir, por que é necessário ser um bom médico para tornar-se feiticeiro ou mago, ainda que de grau inferior?
— Porque o corpo é o principal objecto sobre o qual se pratica o conhecimento maléfico do feiticeiro e, no entanto, essa indispensável arma da alma é uma máquina muito complexa e exigente.
Por isso o mago deve conhecer todos os meios da cura, inclusive os da destruição do corpo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:54 pm

Como médico, você sabe que, para a formação do corpo humano, a natureza utiliza substâncias minerais, vegetais e animais, que são absorvidas por uma mãe durante a gravidez e servem posteriormente para manter a chama daquela gota da matéria primeva que os pais fornecem ao futuro ser no instante da fecundação.
A acção de outros agentes poderosíssimos, tais como a cor, o som, o aroma e assim por diante, é ainda pouco conhecida da ciência moderna.
Entretanto, a verdadeira ciência médica consiste na habilidade de se utilizar de todos os meios para eliminar do organismo as substâncias inúteis e ministrar aquelas que faltam.
Por isso você deve aprender a encontrar, onde quer que seja - na atmosfera e em diferentes reinos da natureza -, forças actuantes capazes de manter a vitalidade de qualquer ser; ao mesmo tempo, deverá aprender os meios de destruição tanto ocultistas como materiais.
— Eu sempre me interessei por Botânica e pelas maravilhosas propriedades das plantas; mas o que ouvi de você comprova que eu pouco sei nesse sentido - observou pensativamente Supramati.
— Isso é bem natural, pois a ciência, na Medicina, coloca as plantas em segundo plano.
Em sua crassa ignorância, o homem desdenha os humildes benfeitores da humanidade que crescem aos seus pés.
A natureza, em sua sábia previdência, proveu-nos com um meio eficaz contra qualquer tipo de doença.
Se os médicos possuíssem uma lupa, parecida com os nossos óculos mágicos, ficariam bem surpresos com as descobertas que teriam feito.
Como prova do que lhe digo, vou lhe mostrar algumas ervas e raízes sob os óculos mágicos, pois a sua visão espiritual ainda não está desenvolvida.
Dakhir se aproximou de um grande escrínio de carvalho com arestas de metal, pezinhos de bronze, e o abriu.
Todo o interior do escrínio estava subdividido em seções, repletas de ervas, flores secas, raízes, frascos e pedras preciosas.
Supramati inclinou-se e começou a examinar curioso o conteúdo da caixa.
Dakhir retirou das seções anexas duas plantas e as colocou sobre a mesa.
— Você quer me mostrar a arnica e a valeriana? - surpreendeu-se Supramati.
— Esperava ver alguma coisa desconhecida, uma planta diferente já pela sua espécie? - indagou sorrindo Dakhir.
Eu escolhi propositadamente as ervas bem conhecidas, nas quais até a sua orgulhosa ciência reconhece propriedades medicinais, ainda que as atribua à medicina popular.
Agora pegue os óculos mágicos e contemple estes dois grandes representantes do reino vegetal em todo o seu brilho ocultista.
Aquilo que você verá é o grau superior da luz, descoberta por Gellenbach, que é irradiada por objectos e a qual ele chamou de "od".
Você sabe que esta descoberta ainda é muito discutida:
por enquanto, o máximo que se aceita é que das pontas de dedos e dos cristais emanam raios luminosos de diferentes colorações.
Com o auxílio deste instrumento, você verá a força astral que se irradia de cada objecto.
Os iluminados a vêem imediatamente com sua visão espiritual, o que lhes permite julgar se uma determinada substância faz bem ou mal.
— Deixe que eu veja de novo com os olhos normais esses grandes curadores do reino vegetal, para que eu possa avaliar melhor a diferença que vou ver depois – disse Supramati, examinando atentamente as pequenas flores e as raízes escurecidas da arnica.
Os meus cegos e ignorantes olhos nada viram de especial nestes dois representantes do mundo vegetal - observou sorrindo Supramati, colocando os estranhos óculos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:55 pm

Subitamente um grito de surpresa e admiração soltou-se dos lábios de Supramati, a tal ponto que a modesta planta modificou o seu aspecto.
As pequenas folhas amareladas pareciam estrelas douradas e o cerne transformou-se numa esfera de cor azulada que vibrava sem parar.
Das folhas amarelas, irradiavam-se pequenas fagulhas eléctricas que, atravessando a névoa azulada, parecia urdirem na atmosfera um tecido tão fino como uma teia de aranha, que cobria a planta com um véu brilhante que vibrava, recortado por faíscas.
— Está vendo esse trabalho surpreendente?
É o tecelão fluídico.
Ele renova e repara os tecidos danificados, tanto fluídicos como materiais, causados por ferimento, pancada e assim por diante.
Daí vêm as suas propriedades maravilhosas que curam as feridas e previnem más consequências de fracturas e machucaduras.
O aroma vivificante da arnica desinfecta imediatamente o local danificado, enquanto a pequena máquina eléctrica faz debandar o sangue que se acumula em função da pancada, substituindo, onde for necessário, a substância vital e restabelecendo o tecido.
Além disso, a arnica tem a faculdade de atrair e acumular uma grande quantidade de calor solar.
Você não pode imaginar os efeitos poderosos que exercem as forças deste modesto curador sobre o organismo do homem, e até sobre plantas, quando se sabe utilizá-lo para tratar de flores quebradas, amassadas ou que estão por morrer de esgotamento.
No entanto, não vou esconder, o estudo de todas as propriedades medicinais dessa planta é um trabalho enorme.
Agora vamos examinar a valeriana - acrescentou Dakhir, substituindo a arnica pela valeriana.
Concentrado e em silêncio, Supramati inclinou-se sobre o tubérculo, que imediatamente mudou de aspecto.
Estava agora vermelho feito sangue.
Era atravessado por grossas nervuras com nódulos eléctricos.
Cada uma das raízes parecia salpicada de fagulhas e no centro ardia uma pequena chama tremeluzente, a partir da qual se entendiam, pelas nervuras, fios ígneos.
De toda a planta emanava uma luz púrpura reverberando em ouro e que formava ao seu redor uma larga aura.
— A chama astral acumulada nesta planta, sendo introduzida no corpo, suscita a vitalidade, acalma e aquece o organismo, agindo principalmente sobre as funções do cérebro e funcionamento do coração - disse Dakhir tirando do amigo os óculos mágicos e guardando-os na caixa.
— Provavelmente outras plantas são menos dotadas do que estes dois príncipes do reino vegetal! – observou Supramati.
— Sim e não! Algumas plantas têm aplicação específica, mas não existe uma folhinha, um vegetal qualquer que não possua alguma qualidade benéfica ou maléfica.
E isso é totalmente normal, pois a planta retira para si as forças de tudo que a cerca; da atmosfera - os fluidos das estrelas; do solo - os seus minerais; da água - os seus sais: tudo serve para a sua formação.
Todos esses elementos com as suas riquezas inesgotáveis, curativas ou destrutivas, estão à disposição do mago superior e proporcionam-lhe um poder praticamente fantástico, se ainda acrescentarmos o aroma, os sons e as cores -esses grandiosos geradores do universo - que somente ele pode e sabe comandar.
Nós, no entanto, só podemos aprender a utilizar as forças primárias, estudando os fundamentos ocultos do poderoso Mal que se espreita no caos que nos cerca.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:55 pm

E assim, precisamos aprender a fazer o mal, sem ousar, entretanto, empregar esse poder; devemos estudar as forças destrutivas, submetê-las a nós e fazer uso de nosso conhecimento para combatê-las.
— Se eu o entendi bem, estamos na condição de um homem "honesto" que sabe como roubar para obter alguma coisa, mas encara esse ato um crime vergonhoso; ou que sabe como matar para saciar a sede de vingança, mas por nada neste mundo sujaria as suas mãos com isso.
— Você formulou correctamente o meu pensamento, caro Supramati!
A familiarização com o mal oculto não é feita para praticar o mal - o que seria indigno para a mente que almeja a luz.
Possuir o poder de fazer o mal e nunca praticá-lo é uma virtude sublime da consagração superior.
— Por que é admitido um relacionamento entre o mundo terreno com o medonho mundo dos espíritos inferiores? - indagou Supramati.
Se os bons espíritos superiores se comunicassem com as pessoas e as instruíssem, quanto mal poderia ser evitado!
Dakhir balançou a cabeça.
— A sua pergunta confirma a sua ignorância do mundo do além-túmulo.
É impossível erguer uma parede entre dois mundos tão intimamente ligados entre si.
Os seres que se libertam do corpo e passam ao outro mundo permanecem ligados à Terra por uma infinidade de elos de amor, ódio e hábitos, e são atraídos ao mesmo local em que habitavam.
A morte não consegue quebrar esses elos, pois cada coisa, cada pensamento, cada ser - bom ou mau - desprende uma substância astral que forma uma união sólida.
Os assim chamados "mortos" - são seres invisíveis, mas não ausentes; e para um olhar espiritualizado, aqueles que são considerados para sempre desaparecidos no abismo ignoto - encontram-se entre nós.
Quando você visitar o mundo invisível que nos cerca de todos os lados - cujo pedacinho foi visto por Dante -, e que merece o nome que tem: o "inferno", então você terá condições de formar uma noção sobre a vida ali reinante, sobre as lides que ali são travadas e sobre as tempestades que ali se desencadeiam, cujo ruído o nosso grosseiro ouvido não consegue apreender.
Sem escutar e sem nada enxergar ao redor, além da atmosfera límpida e tranquila, pretensiosamente povoada no máximo com bacilos e átomos da poeira, o homem imagina inocentemente viver e reinar sozinho num espaço vazio que forma, em sua concepção, o Universo.
— Nara já me mostrou uma enormidade de seres que se apinham ao nosso redor.
Confesso que fiquei arrepiado ao ver aquele mundo estranho com seus mistérios surpreendentes - adicionou Supramati.
— Sim, a primeira esfera, a que envolve o nosso planeta, é um lugar bem desagradável, e você só viu a sua superfície.
Eu espero apresentá-lo a alguns chefões das corporações infernais - "demónios", segundo a opinião dos homens.
Naquele mundo, posso lhe oferecer uma protecção.
Nas esferas superiores, você será introduzido algum dia por Ebramar ou por alguém dentre os iluminados, do mesmo grau.
— Oh! Quando é que você me apresentará aos senhores demónios?
— Muito em breve, pois estou vendo que você está cansado de decorar as palavras cabalísticas e sinais simbólicos dos quais nada entende - troçou Dakhir rindo.
— Isso é verdade!
Confesso que fico agastado em ter que repetir feito um papagaio aquelas palavras sem sentido - concordou Supramati.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:55 pm

Depois ele acrescentou com uma leve hesitação:
— Diga-me, o aspecto externo daquelas criaturas do inferno é muito horripilante?
— A primeira impressão que se leva da visita àquela esfera infernal - é terrível!
Eu conheci uma pessoa que, sem uma preparação necessária, penetrou naquele mundo, vindo a morrer vinte e quatro horas depois; seus cabelos ficaram brancos em poucas horas.
Quanto a você, não precisa temer coisas assim!
Você é imortal e as suas madeixas escuras não perderão a maravilhosa tonalidade.
— Isso me conforta, caso contrário eu teria de ficar grisalho por toda a vida planetóide - arrematou gargalhando Supramati.
— Oh, não! Existe um meio de devolver aos cabelos a sua cor anterior e, ao organismo - o vigor da juventude, até para os mortais comuns.
— E você conhece tais meios, Dakhir?
— Tenho algumas indicações: a verdadeira receita desse milagroso elixir, que os iniciados superiores possuem, ainda desconheço.
A propósito, quero lhe contar uma história bem singular, da qual fui testemunha e que ilustra bem as minhas palavras.
Certa feita, eu passei alguns meses com Ebramar.
Todos os dias nós realizávamos passeios pelos arredores, durante os quais ele me distraía com suas conversas sempre interessantes e instrutivas.
Numa dessas excursões, fomos parar mais longe que de costume; eu precisava descansar e estava morrendo de sede.
Ebramar, que, como você sabe, lê os pensamentos, imediatamente disse:
— Aqui perto vivem algumas pessoas humildes.
Descansaremos na casa deles!
E, de fato, depois de alguns minutos de caminhada, vimos umas casinholas, imersas na vegetação.
Entramos no primeiro casebre que encontramos, pertencente a uma mulher muito velha.
A mulher providenciou-nos apressada pão e leite.
Ao partirmos, eu lhe dei uma moeda de ouro.
Enquanto ela se desfazia em agradecimentos, Ebramar observava-a sorrindo.
— Eu também, vovozinha, não quero ficar sem agradecer pela hospitalidade.
Peça-me qualquer coisa:
sou um mago e posso atender ao seu desejo.
A velha olhou curiosa e desconfiada para ele e depois disse meio insegura, meio marota!
— Meu bom homem!
Se o senhor é realmente um mago, faça com que eu tenha dentes.
Se soubesse como é difícil comer pão velho tendo somente um dente!
— Só isso? Com prazer! - fez Ebramar.
E assim falando, tirou do bolso um saquinho - que você sabe ele carrega sempre consigo - retirou dele um frasco e colocou algumas gotas numa ânfora de barro com água!
A água adquiriu um aspecto leitoso.
— Guarde a ânfora num lugar escuro e fresco – disse Ebramar.
Durante 9 dias, faça um gargarejo com esta água três vezes por dia: de manhã, ao meio-dia e à noite.
Daqui a seis semanas, apesar de sua idade, você será capaz de roer nozes, comer cascas, mesmo de árvores.
Eu estava muito interessado e decidi saber sobre o efeito do remédio seis semanas depois.
Mas, naquela época, eu tinha tanta coisa para estudar, que se passaram alguns meses antes que eu pudesse realizar a excursão planejada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:55 pm

Encontrei a velha, sentada em frente do casebre.
Ela parecia ter rejuvenescido e comia com apetite um pedaço grande de pão, que não me pareceu ser muito fresco.
— Bem? E como estão os dentes? - perguntei.
Ela levantou-se rapidamente e exclamou alegre:
— Que Brahma e seu enviado, o mago divino, sejam abençoados!
Graças ao seu remédio, agora eu tenho dentes de que até meus netos podem invejar.
A velha abriu a boca e mostrou duas fileiras de dentes, brancos como pérolas, que formaram um estranho contraste com o seu velho rosto cheio de rugas.
— Eu fiquei enxaguando com tanta parcimónia, que consegui economizar a água milagrosa para compartilhá-la com minha velha irmã.
Ela também está com dentes novinhos em folha - acrescentou ela.
Ao voltar para casa, relatei o encontro a Ebramar e lhe pedi que me desse a receita ou pelo menos um frasco daquela substância.
Ebramar riu da minha empolgação, mas recusou-se.
— Você não está pensando em fazer fortuna na Europa, vendendo dentes aos imprestáveis perdulários ou às despreocupadas coquetes, já que você não corre esse risco - observou ele malicioso.
O assunto terminou assim, mas eu sei que ele possui remédios incríveis, que deixariam os médicos boquiabertos.
Durante os nossos passeios, eu vi como ele curou, com incrível rapidez e sem qualquer operação, alguns cegos, sendo que dois deles sofriam de catarata.
Quanto à cura dos paralíticos - isso para ele é brincadeira de criança.
— Como é que ele cura a catarata? – indagou Supramati, empalidecendo de perturbação.
— Ele umedece o globo ocular com um líquido de coloração esverdeada.
Depois coloca nos olhos uma venda e leva o doente para um local onde os raios solares não o alcancem.
Após um determinado período de tempo, dependendo da gravidade do caso. o enfermo levanta-se com a visão restabelecida.
Alguns dias foram dedicados ao descanso em companhia de Nara.
Posteriormente, Dakhir e Supramati mudaram-se para o laboratório com o intuito de se prepararem para o encontro planeado com os altos funcionários do mundo do além-túmulo.
Eles fizeram um regime alimentar específico, que não foi do agrado de Supramati, pois todos os pratos servidos tinham sabor picante e aromático.
Ademais, ele tinha de ficar todo o tempo na escuridão e o óleo da única lamparina do quarto exalava um cheiro forte e irritante.
Por fim, Dakhir prescreveu banhos quentes, colocando na água ervas aromáticas - o que sempre provocava uma sensação de asfixia em Supramati.
Não estivesse ele tão interessado no encontro com os seres do "outro" mundo, teria se enfastiado; mas as conversas com o amigo animavam-no e excitaram ainda mais o seu interesse, de forma que não via a hora que os nove dias de preparação terminassem.
Finalmente chegou o dia.
Um pouco antes da meia-noite, eles colocaram um traje de malha preta e toucas da mesma cor, semelhantes a coifas da Idade Média, que se aderiam totalmente na cabeça e encobriam os cabelos.
Em seguida, Dakhir pendurou no pescoço o bastão mágico e ambos passaram ao laboratório.
Ali acenderam quatro velas e trempes com ervas aromáticas, que ardendo com estalos difundiam uma fumaça densa e acre.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:55 pm

A seguir, Dakhir com o amigo vieram para dentro do centro do círculo mágico, fora do qual havia duas cadeiras.
Erguendo os dois braços, Dakhir pronunciou cadenciadamente as fórmulas da evocação, já conhecidas de Supramati, e, quase imediatamente, na ponta do bastão, fulgiu uma chama vermelho sanguínea.
Então, utilizando o bastão como uma pena, Dakhir desenhou no ar um sinal cabalístico, cujas linhas, fosforizando, vibrando e estalando feito fogos de artifício, projectavam-se na atmosfera.
Um minuto depois, formou-se no ar uma nuvem que logo se densificou numa espiral de fumaça negra, dissipou-se, fazendo surgir a figura colossal de um homem:
sua roupa cheia de pêlos, bem aderida ao corpo, delineava formas musculosas e peito largo.
Asas vermelho-sanguíneas erguiam-se atrás de suas costas e dos ombros caía uma capa vaporosa cinzenta que se estendia por trás, perdendo-se na penumbra.
A capa parecia ter sido urdida de um número infindável de rostos humanos, cujos contornos imprecisos se fundiam num só, e apenas seus olhos fosforescentes feito brilhantes ardiam na massa nevoenta.
Os traços regulares do rosto comprido e magro transbordavam de astúcia e força poderosa:
os olhos brilhavam como fogo abrasador, enquanto dois feixes fosforescentes, que se irradiavam de sua fronte, tinham o aspecto de chifres curvados.
— Saúdo-o, Sarmiel! - pronunciou Dakhir fazendo uma mesura ao estranho indivíduo que tinha o aspecto de pessoa real.
Em seguida, virando-se para Supramati, que calado e pasmo examinava o visitante, acrescentou:
— Estenda a mão, irmão, ao seu novo aliado, senhor dos espíritos que erram na primeira esfera do nosso planeta.
A ele são submissos milhões de criaturas maléficas, invisíveis, descontentes, revoltosas e nocivas, descartadas para o espaço depois da vida, cheia de leviandades e delitos.
Ele o servirá e ajudará quando for necessário.
Dominando o tremor interno, provocado pela visão daquela inusitada criatura, Supramati estendeu a mão.
No instante em que os dedos deles se juntaram sob o círculo mágico, do bastão de Dakhir espargiu uma chama que, à semelhança de uma flecha ígnea, perfurou as suas mãos, selando assim a aliança celebrada.
Um sorriso enigmático percorreu o rosto do terrível demónio e o seu olhar flamejante pareceu querer sugar o rosto pálido, mas decidido de Supramati.
— Não me tema! - disse ele em voz sonora e gutural.
Quando você conhecer os meus súbditos, convencer-se-á que em suas almas há tanto bem quanto mal.
Não nos erguem capelas; não se defuma o ládano em nossa homenagem; não nos entoam hinos de louvor, no entanto, nenhum crime, nenhuma queima ou desgraça é perpetrada pelas nossas mãos.
Somos apenas "demónios" e todos ignoram como é difícil o nosso trabalho para o bem de nossos irmãos na humanidade...
Aliás, é sempre assim!
A gratidão é para os benfeitores consagrados, canonizados; os carrascos amaldiçoam-se e os juízes glorificam-se.
Um toque de zombaria soava nas palavras do gigante.
Recusando-se com um gesto brusco a sentar-se na cadeira e continuar a conversa, o espírito deu um passo para trás.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:55 pm

Pela sala passou silvando uma rajada fria de vento e a visão desapareceu na coluna de fumaça negra.
Quando se dissipou o último remoinho da névoa negra, Dakhir pronunciou uma nova fórmula de invocação e desenhou no ar um novo sinal cabalístico.
Um minuto depois junto ao círculo mágico, apareceu outro espectro.
Não era um gigante como o seu predecessor.
Era um jovem alto e esbelto; o traje vermelho que aderia ao seu corpo delineava suas formas maravilhosas.
Seu rosto pálido e transparente distinguia-se por uma beleza funesta.
Nos grandes olhos negros e impenetráveis, fulgia uma expressão de energia invencível, misturada com uma fria crueldade.
O sorriso que brincava em seus lábios purpúreos e os dentes alvos como pérolas denotavam algo realmente diabólico.
Uma touca justa cobria-lhe a cabeça e sobre a fronte, entre duas chamas, erguia-se uma cruz brilhante em forma de chifres.
No pescoço, havia uma corrente multicolor da qual pendia, sobre o peito, uma grande estrela de ouro.
No braço, enrolava-se uma corda com uma flecha ígnea na ponta do laço.
Atrás dele, via-se uma larga auréola refulgindo como uma chama de incêndio.
Ali, envoltos em névoa fumacenta, estavam postados dois seres em malha negra e cintos vermelhos, longas chamas tremeluzentes atrás das costas e pequenos crucifixos na fronte.
O recém-chegado estendeu a mão de beleza clássica, fina e branca, de dedos delgados, e Supramati, quase maquinalmente, estendeu a sua - imediatamente um relâmpago selou a aliança entre eles.
Desta vez Dakhir fez uma mesura com visível respeito e disse a Supramati:
— Esse com quem você celebrou a aliança é o rei das larvas.
Você não precisa saber o nome dele, porque bastam símbolos e fórmulas sagradas para que você possa, quando for necessário, chamar em seu auxílio tanto ele como um dos seus subordinados.
Você ainda não tem uma noção exacta do que são larvas, essas asquerosas e nocivas criaturas que povoam o mundo invisível à espreita dos vivos para destruí-los.
Para domá-las, é necessário existir um poderoso senhor, tal qual é o seu novo aliado.
Mais sociável que o seu predecessor, o senhor das larvas sentou-se na cadeira a ouvi-los, brincando com o anel decorado com uma gema vermelha como uma gota de sangue.
Com as últimas palavras de Dakhir, uma expressão mista de zombaria e cansaço esboçou-se pelo belo semblante do espírito.
— As suas palavras, Dakhir, ainda são uma letra morta para o seu discípulo - disse ele com um leve sorriso.
Nele ainda estão por demais vivos "o homem caduco" e o psiquiatra moderno para que possa penetrar no nosso mundo, rejeita do tão categoricamente pela "imaculada" ciência que só admite aquilo que pode apalpar, pesar e dissecar com bisturi.
— Você tem razão!
O irmão Supramati ainda é cego em muita coisa, mas ele tem vontade e obstinação - argumentou Dakhir.
Para crer e entender é necessário enxergar.
Eu calculo que em breve estarei com ele em seus domínios e espero que você possa mostrar-lhe a maléfica actividade das larvas e o modo como você as amansa.
— Venham, terei prazer em mostrar-lhes o meu reino - prontificou-se sorrindo o estranho visitante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:56 pm

Vocês escolheram uma hora bem oportuna para a visita.
A Terra envia-nos profusamente belos exemplares dessas "maravilhosas" criaturas e os encarnados se esmeram em acertar-lhes o gosto.
Temos trabalho à beça, pois você mesmo sabe que não há nada mais difícil do que arrancar pessoas de uma mesa bem servida. Até mais!
Ele levantou-se, fez um gesto de despedida e pareceu ter afundado na penumbra vermelha que, em seguida, dissipou-se.
— Eu lhe mostrei dois terríveis zeladores da ordem, senhores dos exércitos do Mal - disse Dakhir sorrindo ao ver o rosto perturbado e desnorteado de Supramati.
Agora nós chamaremos ainda alguns chefes dos operários das corporações e espíritos inferiores, tais como animais e outros seres.
Ante o olhar surpreso, mas agora menos medroso de Supramati, desfilou uma série de criaturas, um mais medonho que o outro no que dizia respeito à sua forma e cor.
Ele, provavelmente, sentia aquilo que devia ter sentido o primeiro cientista que descobriu com o auxílio do microscópio o novo mundo, inacessível ao olho comum.
Por fim, a diversidade e enormidade de símbolos e formas que Dakhir pronunciava com corajosa segurança (todos os visitantes o conheciam e ele conhecia a todos) cansaram Supramati; apesar do febril interesse com que ele ouvia e olhava tudo aquilo, sentiu algo semelhante a uma fraqueza.
Ao notá-la, Dakhir anunciou que para aquele dia já era o suficiente e ambos retornaram ao quarto.
Ele deu a Supramati uma taça de vinho e ordenou-lhe que tomasse um banho.
— Agora, antes de iniciarmos alguma coisa, eu lhe darei uma folga para descansar. Vamos!
Nara espera-nos para jantar.
Você mereceu a companhia dela - acrescentou ele dando uma risada.
Supramati, como num sonho, seguiu Dakhir.
Sua cabeça estava tonta com todas as impressões vividas.
Teria ele sonhado ou tudo havia acontecido de facto?
Ele temeroso apertou com as mãos a testa, coberta de suor gelado, e em sua mente passou o pensamento:
não teria ele perdido o juízo e assim já estava no manicómio, ou não teria sido criação de seu cérebro doentio toda aquela estranha epopeia com o elixir da longa vida e todas as consequências de seu encontro com Narayana?
Uma sonora gargalhada de Dakhir tirou-o das reflexões.
— Não se assuste!
Você não está louco.
Tudo, inclusive a sua encantadora esposa, é pura realidade.
Um minuto depois já estavam no refeitório onde os esperava Nara.
A dona-de-casa estava alegre e como sempre encantadora.
Ela beijou o marido, mas quando ele quis contar-lhe sobre o que vira e ouvira durante o tempo da ausência, Nara o interrompeu:
— Vamos jantar!
Suas impressões você poderá contar depois do jantar.
Dakhir deve tê-lo alimentado mal e você está com fome.
— De fato, o nosso cardápio deixou muito a desejar - brincou Supramati.
Após o jantar, que Supramati achou delicioso, todos foram à sala de estar.
Quando se acomodaram diante da lareira, Nara perguntou:
— E então?
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:56 pm

Você viu a Sua Excelência, o senhor das larvas?
Como ele é bonito, não é verdade?!
Ele seria bem sedutor, não repousasse sobre ele essa responsabilidade nojenta.
— Você não quer me obrigar a ter ciúmes ao admirar tão abertamente a beleza do rei das larvas? - observou sorrindo Supramati, beijando a mão da esposa.
Instantes depois ele arrematou:
— Eu gostaria de formar uma noção melhor sobre as larvas.
Tudo o que eu sei delas é muito pouco.
Nara tornou-se séria.
— Larva, meu amigo, é Narayana: é um ser que, à semelhança da hiena, aproxima-se sorrateiramente de uma pessoa para alimentar-se de seu sumo vital, sugerir-lhe suas próprias paixões insatisfeitas e arrebatá-la ao sorvedouro da pobreza moral e padecimentos físicos.
Aquele que você viu é um grande benfeitor da humanidade.
Seu nome é desconhecido na Terra, ninguém sabe quantas vítimas conseguiram se salvar graças à energia daquele espírito - um trabalhador incansável que ajuda, salva e liberta os infelizes.
Ele tem que ser visto em acção.
Corajoso e frio, ele vence e submete a si os seres mais vis, perigosos, maléficos e asquerosos que vagueiam na atmosfera terrestre saturada de decomposições.
A tarefa é nojenta! Imagine que você tenha que combater de frente os leprosos; e esta expiação, a que ele se propôs, às vezes, parece-lhe por demais pesada, mas ele busca forças em sua energia de ferro.
— Sim, na energia, e também na crueldade - observou Supramati.
— Naquele meio em que ele age, ambas são necessárias.
Você nem pode imaginar o que acontece na primeira camada atmosférica que envolve o nosso globo terrestre.
Você entenderá melhor quando fizer uma excursão ao mundo desconhecido.
— Será pior do que aquilo que você me mostrou em Veneza?
— Oh, sim!
Ainda mais, porque é totalmente diferente - assegurou rindo Nara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:56 pm

Capítulo IV

Após duas semanas dedicadas ao descanso, e que passaram num clima de animação, Dakhir disse certa manhã que era hora de reiniciarem o trabalho, pois eles teriam que fazer a excursão ao mundo invisível, o que exigiria preparativos especiais.
Ao entrarem no quarto contíguo ao laboratório, Supramati quis saber que tipos de preparativos seriam necessários para a viagem à zona do além-túmulo.
— Para penetrarmos no mundo invisível, é preciso, antes de tudo, livrarmos da carga do corpo...
Supramati desatou a rir, mas Dakhir prosseguiu imperturbável:
— Eu o entendo.
Parece-lhe ridículo o que eu acabei de dizer; entretanto, a magia dispõe de recursos que nos deixam naquele estado, parecido com o de um morto...
— É simplesmente impossível!
— Não é tão impossível como parece.
Um estado semelhante acontece com os sonâmbulos, como se perdessem o seu peso e adquirissem uma leveza extraordinária.
Muitos já viram como eles conseguem passar por aberturas, intransponíveis para os outros, galgar telhados e passear pelas cornijas em que mal cabe o pé de um homem.
Em outras palavras, eles andam incólumes por onde quer que seja, contanto que não sejam assustados.
A diferença é que nos sonâmbulos esse estado é involuntário, eles não podem provocá-lo mesmo que queriam, enquanto que um mago dispõe desse recurso seguro e conhece as leis que devem ser accionadas; assim, ele alcança resultados bem melhores.
Desta forma, o mago consegue praticar a levitação, andar pela água, diminuir as distâncias correndo na velocidade de um pé-de-vento e outras coisas.
Nos Actos dos Apóstolos, cita-se o caso do mago Simão que se elevava no ar.
— Sim, mas com a ajuda do demónio? – sorriu Supramati.
— Ainda que fosse!
Aos ignorantes e cegos, cheios de preconceitos, as forças desconhecidas sempre parecem obras do demónio ou contos de carochinha - observou com desprezo Dakhir.
Com a chegada da noite, Dakhir levou Supramati a um quarto que este ainda não havia visto antes e fechou a porta atrás de si com tanto cuidado, que dessa não ficou um mínimo sinal por fora - a parede parecia inteiramente maciça.
— Aqui nós temos um laboratório preparado para a viagem que vamos empreender.
O ar ambiente tem uma composição especial.
Vamos sentar e conversar até meia-noite, até chegar a hora de eu lhe dizer o que fazer.
Supramati olhou em volta, mas nada conseguiu enxergar.
O quarto estava escuro; não havia nem velas nem lâmpadas acesas, apenas através de uma janela gótica penetrava uma penumbra nocturna pálida.
Junto à janela havia duas cadeiras.
Dakhir, que parecia conhecer o ambiente, levou o seu amigo perto da janela; eles se sentaram e começaram a conversar.
A lua subiu e a sua pálida mas viva luz inundou o quarto, permitindo que Supramati o examinasse detalhadamente.
A sala tinha um formato circular, praticamente do mesmo tamanho que o laboratório; no centro havia uma espécie de pavilhão com paredes de vidro.
Mais adiante, no fundo, divisava-se uma piscina onde jorrava um chafariz, cujo jacto brilhava em luzes coloridas ao luar.
Quando o velho relógio do castelo bateu a meia-noite, Dakhir levantou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:56 pm

— Vamos! Precisamos tomar um banho.
Ele despiu-se rapidamente e pulou na piscina.
Supramati não se fez de esperado e seguiu o seu exemplo.
Parecia-lhe que nunca se sentira tão bem.
A água não estava fria mas primava por seu incomum frescor.
Ela parecia acariciar o corpo e fortalecer cada fibra do ser.
O peito respirava com uma extraordinária leveza e todo o corpo parecia leve, flexível e forte como nunca.
Supramati bem que ficaria por toda a noite naquela maravilhosa piscina, mas Dakhir, após alguns minutos, ordenou:
— Já é suficiente!
Saia e se vista!
Ele apontou para um objecto de tamanho não maior que um lenço dobrado em quatro, que estava sobre a mesa.
Supramati olhou desconfiado para o objecto apontado e em seguida observou rindo:
— Escute, meu amigo! Uma pessoa do meu tamanho vai caber naquilo?
— Fique calmo!
Sou tão alto como você e a indumentária está de encomenda.
Veja só! Antes de tudo você deverá abri-la e colocá-la pelos pés.
Balançando a cabeça, Supramati desembrulhou o pacote e tirou um traje parecido com uma malha, incluindo até um capuz para a cabeça; entretanto, pelo tamanho, nele mal caberia uma criança de dois anos.
Sua desorientação aumentou ainda mais, quando Dakhir vestiu o traje que se assentou facilmente em todo o corpo.
Sem mais hesitar, Supramati começou a vestir a malha que se verificou extraordinariamente elástica.
Era feita de um tecido muito fino e macio, como uma cambraia das mais delicadas, e a sensação era de se estar vestido numa pele acetinada.
A malha assentou-se justa no corpo, sendo que não só os braços estavam cobertos mas também a cabeça, ficando aberto apenas o rosto.
Não obstante, o traje não tolhia os movimentos e, apesar de toda a sua leveza, era quente como pele e pinicava todo o corpo, como se da vestimenta irradiasse corrente eléctrica.
A sensação geral era de que a malha houvesse aderido à própria pele, adquirindo uma coloração cinza-prateada.
— É, é até difícil imaginar um roupa mais estranha que esta.
De que é feita?
Nunca vi nada parecido – disse Supramati, fazendo uma série de movimentos para certificar-se de que ela não os dificultava realmente.
— Oh! Existe muita coisa que você ainda não viu, meu caro doutor Ralf Morgan.
Esse tecido é difícil de ser encontrado em Londres.
Nós o chamamos de "pele dos espíritos" - devolveu rindo Dakhir.
— Com os diabos!
Fiquei na mesma, meu caro mestre!
Então os espíritos trocam de pele feito as cobras, enquanto vocês a aproveitam para traje de viagem ao reino das sombras?
— Exactamente!
Esse traje é indispensável para embrenharmos nas cidades dos mortos, no espaço da quarta dimensão - explicou Dakhir, abrindo uma das paredes do pavilhão de vidro e convidando o amigo a segui-lo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 07, 2016 7:56 pm

Supramati viu-se num quarto vítreo, iluminado pela suave luz azulada do luar.
No centro havia uma mesa de vidro e duas cadeiras.
Sobre a mesa, numa caixa aberta viam-se duas taças, cheias de líquido flamejante da cor de safira e duas roscas doces.
— Sentemos e tomaremos ao êxito de nossa viagem - propôs Dakhir, acomodando-se na cadeira.
Ao dizer isso, ele secou de um gole a taça e Supramati seguiu-lhe o exemplo.
O líquido que ele tomou parecia fogo, mas não ardia; seu gosto lembrava um forte vinho envelhecido.
Mas o que realmente deixou-o admirado foi o gosto da massa escura.
Ela derretia na boca, era suave feito mel, e de sabor e aroma lembrava rosas, lírios, baunilha e outros elementos cheirosos.
Dominado por agradável languidez, Supramati recostou-se no espaldar da cadeira; uma sensação de bem-estar jamais experimentada se apoderou dele.
Uma brisa refrescante soprou-lhe no rosto e, em seguida, ergueu-o e balançando suavemente o levou ao espaço.
Quanto tempo perdurou aquele inconsciente esquecimento cheio de deleite, ele não tinha a menor noção.
Abrindo os olhos, ele viu que ainda estava sentado na cadeira, a porta do pavilhão encontrava-se aberta e atrás da soleira estava Dakhir, mas a Supramati pareceu que ele estava pairando no ar.
— Vamos! Está na hora - disse Dakhir.
Supramati levantou-se e imediatamente soltou um grito ao perder o equilíbrio.
Ele levantou-se no ar e deu algumas cambalhotas, e quanto mais ele tentava se pôr em pé, tanto mais se virava pairando no ar.
Sem parar de dar cambalhotas, ele se debatia feito alguém que se afogava.
Assustado, Supramati começou a gritar, enquanto Dakhir ria feito um louco.
Enraivecido pelas gargalhadas ofensivas do amigo e mentor, ele resmungou ofegante:
— Não é hora de rir, quando estou arriscado a quebrar o pescoço!
— Oh! Você não corre esse risco.
Será que você se esqueceu de que é imortal? - atalhou Dakhir sem parar de rir.
Pegando Supramati pelo braço e apoiando-o, ele disse:
— Ande pois, como você anda normalmente!
Eles deram alguns passos juntos.
— Ouça! - observou Supramati.
Eu não sinto nada embaixo; parece que estou andando sobre molas que se dobram aos meus pés.
— Chega! Não fale besteira, meu caro doutor!
Você se esqueceu de que eu lhe disse que o nosso corpo perderia a gravidade.
Agora estamos, por assim dizer, pairando no ar.
Supramati olhou em volta.
Ao ver ao redor de si um escuro espaço aberto, ele desenvencilhou-se da mão de Dakhir, soltou um grito surdo e começou a fazer esforço desesperado para se agarrar a alguma coisa.
— Que mania de gritar a toda hora!
Por que é que você está gritando?
Está com medo de machucar-se?
Entenda que ao perder a gravidade você não poderá nem cair nem bater em nada, ainda que o joguem contra o chão.
Ao finalizar as palavras, Dakhir bateu fortemente em sua nuca.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 7:08 pm

Supramati deu uma cambalhota e desceu até o chão, mas quase que imediatamente subiu, feito uma pena, até a altura de seu companheiro.
Apesar da observação justa de seu mentor, ele não conseguiu conter um novo grito.
Desta vez riu de seu próprio mau hábito e acrescentou, pegando Dakhir pelo braço:
— Já estou começando a me acostumar a manter o equilíbrio!
Assim, podemos ir!
Mas... para onde iremos?
Vamos conhecer algum planeta?
— Oh! Você ainda terá muito tempo para empreender uma viagem tão longa.
Agora vamos nos limitar a fazer uma visita aos cinturões atmosféricos que cercam o nosso planeta, ao mundo ignoto ao olho de um homem comum.
Eles se aproximaram da janela, que Dakhir abriu accionando uma mola escondida na parede.
Uma forte rajada de vento que invadiu o quarto jogou-os para trás e, em seguida, arrebatou-os para fora.
Cerca de um minuto rodopiaram no ar.
Tudo em torno deles assobiava, crepitava e soava estranhamente.
Subitamente, a cinzenta atmosfera em volta se abriu num crepitar seco, deixando antever um espaço inundado de luz vermelha.
Ao mesmo tempo, até os ouvidos de Supramati chegaram sons caóticos e desafinados, enquanto um sopro de ar fétido o envolveu tolhendo-lhe a respiração.
— O que isso significa?
Onde estamos? – indagou Supramati, olhando surpreso para o espaço infinito que se estendia diante deles, imerso em luz purpúrea.
— É o espaço da quarta dimensão - os domínios dos desencarnados - respondeu sorrindo Dakhir.
— Consequentemente, neste momento nós somos uma espécie de defuntos?
— Não deixa de ser!
Estamos penetrando no reino deles e vivemos a impressão semelhante àquela que experimenta um espírito que abandona o invólucro carnal.
Em meio a essa conversa, uma corrente poderosa continuava a arrastá-los com velocidade estonteante.
Parecia a Supramati que eles se aproximavam de uma cidade cujas construções emergiam da penumbra avermelhada.
Descendo com a mesma rapidez, eles se viram numa rua emoldurada por casas altas de contornos indefinidos.
Em volta delas apinhavam-se homens e mulheres de todas as idades e posição social, inclusive crianças e animais.
Todos corriam, empurravam-se e parecia estarem ocupados com alguma actividade febril.
Nos rostos nutridos estavam congeladas expressões de preocupação, os olhos ardiam, mas era difícil entender para onde, de facto, corria aquela multidão.
Estavam vestidos em diferentes tipos de trajes ou simplesmente cobertos em trapos pretos; mas a maioria estava nua e tinha aspecto repugnante.
Muitos daqueles sujeitos ora sumiam dentro de casa, ora corriam de novo para a rua.
— São todos espíritos?
Correto? - informou-se Supramati.
— Sim, nós viemos parar numa grande cidade, mas qual... - não sei lhe dizer, pois não estamos em condições de uma vida material e estou com dificuldade de me orientar de imediato.
Assim, o que nós podemos ver bem são as casas invadidas por espíritos para satisfazerem, na medida do possível, os seus desejos carnais.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 7:08 pm

São os desencarnados que, como você vê, correm perdidos em todas as direcções, invejosos dos vivos, cheios de todos os desejos animais.
São criminosos indolentes, cuja vida passou inutilmente e que agora estão repletos de ódio e inveja em relação aos encarnados.
— E quem são aqueles que se atiram para todos os lados feito loucos, com olhar desorientado e assustado?
— São os tolos que não querem entender que estão mortos e procuram por suas casas.
Mas vamos adiante!
Aqui não há nada de interessante - acrescentou Dakhir.
Enquanto eles prosseguiam, já mais devagar, Supramati perguntou:
— Por que a atmosfera que nos envolve está tingida em cor vermelha?
— É o reflexo das emanações carnais aqui acumuladas - respondeu Dakhir, detendo-se diante de uma grande casa com entrada imponente.
Sem tocar com os pés nos degraus da escada, eles entraram numa imensa sala, profusamente iluminada, onde estava em vias de terminar o banquete de um grande número de cavalheiros e damas.
A mesa com prataria, louça de cristal e flores era uma desordem geral.
A imensidão de garrafas vazias, os rostos vermelhos dos comensais, seus olhares embaciados e aflitos eram uma prova de que as oferendas de vinho em homenagem a Baco foram abundantes.
Alguns homens dormiam roncando alto.
Desta vez diante de nossos viajantes estavam pessoas vivas, ou melhor, encarnadas, como comprovava a vivacidade das cores, a definição dos contornos e a solidez dos corpos.
Entretanto, em volta deles comprimia-se um grande número de criaturas repugnantes que pertenciam ao mundo do além.
Elas grudavam-se aos encarnados e aos pratos de comida que estavam sobre a mesa.
Os olhares vorazes que as criaturas lançavam para os comensais e para os restos da comida denotavam claramente o quanto nelas ainda estavam vivos todos os desejos carnais; algumas encostavam seus lábios roxos à boca dos vivos, aspirava-lhes o sumo vital, o qual, em forma de um vapor rosado, partia-lhes da boca, dos membros e acima da cabeça.
A alguns passos da mesa, refestelado na poltrona, estava um homem, ainda jovem, pelo visto mortalmente embriagado.
Seu colete estava desabotoada, a gravata arrancada e o rosto pálido salpicado de manchas vermelhas.
Envolvendo o seu pescoço com os braços cheios de chagas, a ele estava abraçada uma mulher totalmente nua.
Os longos e densos cabelos emaranhados envolviam-na feito uma capa de fumaça negra.
Sua boca estava encostada na região onde estava o coração do homem.
A mulher sugava com tanta força a vitalidade de sua vítima, que o rosto do jovem se cobriu de lividez cadavérica, o peito tremia e convulsões doloridas percorriam por todo o seu corpo.
Em meio à algazarra, risos e animação do banquete ainda em curso, ninguém parecia perceber que ele provavelmente estivesse sofrendo, debatendo-se como se fosse num pesadelo.
Não obstante, o asqueroso ser dava sequência à sua acção criminosa, apesar dos esforços de dois homens em trajes negros, nos quais Supramati reconheceu os ajudantes do espírito denominado por Dakhir de rei das larvas.
Ambos, com visível aflição, estavam inclinados sobre o homem agonizante e empurravam a mulher, lançando sobre ela feixes de fagulhas eléctricas; mas tudo era em vão.
Ela, feito uma aranha, agarrou-se à sua vítima e se recusava a soltá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 7:08 pm

Então um deles levou até os lábios uma corneta escarlate que levava no pescoço, e ouviu-se um som penetrante.
Imediatamente no ar surgiu um ziguezague ígneo que reverberou com todas as cores do arco-íris.
A larva estremeceu, mas, pelo visto, a sede do prazer era mais forte que o medo, pois ela com a fúria redobrada grudou-se ao jovem embriagado, cujo rosto se cobriu subitamente de rubor acentuado e a boca ficou semiaberta, como se ele estivesse se sufocando.
Neste instante, ouviu-se um silvo agudo e um leve crepitar; a dois passos do repugnante casal deitado na poltrona, surgiu a figura alta do rei das larvas.
Seu semblante intemerato era belo e terrível; seu olhar estava flamejante e severo, envolto numa auréola púrpura fumacenta.
Ele ergueu o braço e uma flecha ígnea atingiu a larva na nuca; ela virou-se como se mordida por uma cobra, mas não obedeceu à ordem de deixar em paz a vítima.
Então um novo jacto de fogo atingiu-lhe um outro centro nevrálgico e ouviu-se um sibilar, tal qual é produzido por água ao cair sobre um ferro em brasa.
A mulher soltou um dilacerante grito rouco, prostrou-se na terra e rastejou até o domador.
Só então Supramati viu o seu belo rosto, branco como giz, no qual em mancha sanguínea se salientavam os seus lábios.
Todos os vícios e paixões se reflectiam então naquele rosto, deformado pela expressão de terror e ódio infernal.
De chofre, ela deu um salto para trás e novamente se lançou sobre o jovem deitado na poltrona.
Este soltou um gemido e levou a mão ao coração.
Um olhar irado fulgiu nos olhos do senhor das larvas.
A corda luminosa que pendia em seu braço desenrolou-se com a rapidez de um raio, envolveu a criatura asquerosa, amarrou-a e jogou no chão.
Ao mesmo tempo, um feixe de fagulhas espargiu sobre a mulher.
Ela rolava feito uma esfera negra, coberta de cerdas ígneas, uivando, assobiando e exalando um odor sufocante de cadáver.
Imediatamente alguns auxiliares do senhor das larvas a agarraram e arrastaram para o espaço.
Então o espírito virou-se para Supramati e o seu mentor.
— Minhas saudações, Dakhir, e a você também, nosso novo companheiro!
Deve ser a primeira vez que você presencia uma morte oculta, que os médicos naturalmente não irão aceitar, atribuindo-a ao infarto ou paralisia cerebral. Há-há-há!
Um riso de escárnio soltou-se de seus lábios.
Em seguida, fazendo um sinal de despedida com a mão, ele desapareceu tão inesperadamente como viera.
O olhar de Supramati, involuntariamente aterrorizado, deteve-se na poltrona.
No rosto do jovem congelou-se a imobilidade da morte.
Só então o estado dele chamou a atenção de outros, pois alguns dos presentes se inclinaram sobre o cadáver tentando reanimá-lo, enquanto outros, com rostos pálidos e aflitos, comprimiram-se em volta.
— Por que é que ele não quis salvar o infeliz?
Você me disse que o senhor das larvas livra da morte inúmeras vítimas - indagou Supramati.
— Inúmeras, mas não todos.
No caso, as condições eram por demais precárias.
Exaurido pelos abusos, o organismo era uma presa fácil para a diabólica sacerdotisa dos vícios, atraída para cá por desejos impuros e emanações da orgia.
Enfraquecida pela beberagem, a alma da vítima não teve forças para se defender contra o insaciável vampiro, sedento de fluidos carnais e... assim essa pessoa pagou com a vida pela sua loucura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 7:08 pm

O salvador apareceu muito tarde; ele não conseguiu segurar a vida que se esgotava feito um rio, do interior do organismo exaurido pela devassidão.
E quantas mortes semelhantes são registradas nos anais do Universo! - concluiu suspirando Dakhir.
— Qual será a sorte dessa alma que tão inesperada e obscenamente foi arrancada do corpo durante uma bacanal? - perguntou Supramati.
— Ela permanecerá em busca ávida dos prazeres tal qual o seu carrasco.
Sôfrega e eternamente insatisfeita, irá vagar pelos locais consagrados à volúpia, tentando tomar dos encarnados qualquer partícula que seja de suas sensações.
Mas vamos! Quero lhe mostrar o cemitério.
Você ainda não viu com um olhar clarificado um lugar assim.
Para você isso será um espectáculo muito interessante.
Um minuto depois, Supramati divisou um imenso espaço cercado de muro e cheio de árvores, através de cujas folhagens se via uma infinidade de cruzes.
Dos dois lados das alamedas arborizadas erguiam-se monumentos mortuários, luxuosos e humildes.
Alguns tinham sido erguidos recentemente, outros, antigos, cobertos de musgo, estavam com as inscrições já gastas.
Ao longe, viam-se as paredes brancas e a cúpula dourada de uma igreja.
A lua inundava com a sua luz pálida o lugar da "paz eterna", como o chamam os homens, ainda que ele não dê nenhuma paz após a vida tempestuosa, pois ali, pelas alamedas, assim como antes pelas ruas, corria ou andava lentamente uma verdadeira multidão de seres preocupados, desorientados, lúgubres ou rancorosos.
Junto a diversos monumentos, encontravam-se em pé seres cinzentos, vaporosos e de contornos indefinidos.
Eles pareciam tristes e um tanto desorientados; outros, no entanto, conversavam exaltados.
Entre os últimos, via-se que os seus rostos estavam desfigurados de ódio e inveja.
Os rápidos olhares desafiadores, cheios de rancor, atravessavam a atmosfera, e os rolos de fumaça negra que os envolviam indicavam que as conversas nem de longe eram calmas e amistosas.
Dakhir deteve-se perto de um desses grupos e fez um sinal a Supramati para que ele ouvisse a conversa.
Ali, separados por uma pequena distância, havia dois monumentos, diferentes um do outro.
Um deles era uma magnífica capela de mármore branco, sobre a qual repousava um busto, representando um homem jovem e bastante bonito, mas de aspecto vil.
Uma magnífica grade de bronze dourado cercava o monumento ornado por um grande número de coroas de metal e porcelana.
O outro túmulo tinha um aspecto humilde e abandonado e, sem dúvida, estava esquecido.
O piso de pedra era coberto de mato, a cruz de ferro estava meio caída, a grade tinha sinais de destruição.
Nos degraus de mármore da capela estava sentado o original do busto e ouvia com escárnio o discurso ardente de um homem pálido e magro, com semblante de uma ave de rapina, que gritava e gesticulava intensamente:
— Você não tem com que se orgulhar, seu desprezível parasita, e se pavonear com o opulento monumento de corado com as flores!
Em vez de me reprochar pela modesta cruz que se ergue no meu túmulo, você deveria lembrar que essa capela de mármore foi construída com o meu dinheiro, o mesmo que foi utilizado para sustentar a sua vida de farra, seu miserável, e da desprezível mulher que eu tirei da sarjeta e tornei minha esposa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 08, 2016 7:09 pm

— Hi-hi-hi - fez o outro.
Não deite a sua bílis, seu velho harpagão!
Você sempre primou por modéstia, tanto que sua esposa, não desejando irritá-lo, ergueu-lhe um monumento bem ordinário.
Eu sou diferente: eu sempre gostei do luxo.
Aliás, eu entendo o seu rancor: você tem inveja dos lamentos e lágrimas que não se poupam em minha memória.
O primeiro riu zombeteiro.
— Ora! Eu não tenho nenhuma inveja do amor e dos lamentos desperdiçados por você.
Eles murcharam tal qual as flores frescas que sua boa mulher não tem trazido desde o dia em que encontrou um novo amante para consolar-lhe a velhice.
Fique você enterrado dezoito anos como eu e nem o seu nome será lembrado!
Mas isso não tem nada a ver com a revoltante ingratidão da velha bruxa em relação a mim, seu benfeitor.
Tenho vergonha dos meus conhecidos e daqueles que vêm me visitar, quando eles vêem esta ordinária lápide e se convencem da falta de respeito que me tem a miserável.
Ela não rezou por mim nenhuma missa de réquiem e eu, para minha própria ignomínia, tenho que correr às missas que são rezadas para outros.
O proprietário da capela de mármore objectou sarcasticamente e a discussão aumentou, mas Supramati, sem ouvi-la, disse que não valia a pena escutar as altercações de dois patifes.
— Meu Deus! Será possível que os espíritos possam se vangloriar de monumentos tumulares e que tais bobagens, meramente terrenas, incitem neles rivalidades e provoquem discussões? - observou Supramati.
— Você sempre se esquece de que a morte diz respeito somente ao invólucro carnal de homens.
Do calabouço carnal, que chegou ao estado da destruição, a alma se depara com todas as fraquezas e virtudes; um gabola, que não tem mais nada a contar do que vantagens, vangloria-se da elegância de seu túmulo ou sumptuosidade de seu monumento.
Em geral, como você vê, as pessoas imaginam erroneamente que além do túmulo reina uma absoluta impassibilidade e aniquilamento.
Todos os sentimentos humanos de um desencarnado, suas alegrias e infelicidades, afectam também o mundo invisível.
Para você se convencer disso, escute o que se fala aqui.
Olhe, por exemplo, para aquela mulher, marcada com uma cruz vermelha.
É um sinal que indica que ela acabou, voluntariamente, com a sua vida.
Aquela infeliz, como toda pessoa viva, sente a necessidade de abrir-se com alguém, e, ao encontrar uma alma simpática, confia-lhe a sua desgraça.
A parte do cemitério onde eles estavam era bem mais humilde e os monumentos de mármore e bronze deram lugar às cruzes de madeira.
Perto de um desses túmulos com uma simples cruz branca, totalmente coberto por flores vivas, estavam em pé duas sombras - a de uma suicida e a de uma moça de rosto triste e delicado.
As vestes cinzentas da última eram cobertas por uma espécie de véu prateado e leve.
A jovem, pelo visto, tentava consolar a sua interlocutora - um espírito sombrio e sofredor, vergando uma capa pesada e escura.
— Você não está em condições de entender totalmente a minha infelicidade - dizia amargurada a suicida.
Você é uma pessoa feliz!
Os seus pais e o noivo choram por você; flores frescas sempre lhe enfeitam o túmulo e os espíritos olham com respeito para esses indícios das recordações que você deixou para os outros...
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Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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