Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:28 pm

Todos os nossos preparativos estavam concluídos, entretanto éramos oprimidos por tristeza e pavor.
Sentíamos uma imensa pena de milhares de criaturas, negligentes e despreocupadas, fazendo pouco caso de todos os avisos e vaticínios da iminente morte.
Naquele tempo eu contava alguns séculos e não possuía parentes directos, mas entre os habitantes da cidade eu tinha amigos e conhecidos.
Foi neles que eu tentei incutir a necessidade de oração e arrependimento para que a terrível transição os apanhasse puros e preparados.
Minhas pregações não tiveram êxito, pois os cientistas oficiais asseguravam que tudo estava em ordem, que nada na natureza prenunciava o fim, e que os profetas da desgraça eram simplesmente ridículos.
Os indícios do perigo, no entanto, vinham crescendo, mostrando-nos que a decomposição da atmosfera já havia começado - o que provocaria a formação de gases mortíferos.
As últimas semanas notabilizaram-se por saltos incríveis da temperatura: um frio terrível, sem qualquer transição, dava lugar ao calor insuportável, e vice-versa.
Em diversas partes do planeta ocorreram catástrofes regionais: furacões inéditos, terremotos terríveis, erupções de vulcões em locais onde eles nunca aconteceram e, finalmente, o arquipélago foi inesperadamente tragado pela água.
Por fim, chegou o dia fatídico.
O calor era de rachar; o ar estava denso e sufocante.
Atendendo à ordem do mago superior, nós reunimos todos os animais a serem preservados e ministramos a eles o elixir da longa vida, defumando ervas umedecidas com a essência primeva nas trípodes.
Contudo, ele não nos disse que a hora do desastre já tinha soado.
Tomado de aflição, eu me dirigi ao templo.
Minha intenção era rezar e depois visitar meus amigos, cuja sorte me preocupava sobremaneira.
Toda a cidade estava em pé e fervilhava em animação.
Devo acrescentar que um pouco antes daquele dia tinha acabado uma longa guerra devastadora, coroada com a vitória do nosso jovem monarca.
Na véspera do dia fatídico, o rei entrou triunfalmente na cidade liderando o exército.
A vitória seria comemorada durante três dias consecutivos e os festejos públicos atraíram à cidade a população circunvizinha.
Você não reparou no acampamento onde estava aquartelado o exército à espera da revista que deveria ocorrer logo depois do banquete do rei?
— Não! Dakhir não me levou lá.
— Foi medonho!
Dez mil soldados e quinze mil espectadores ficaram para sempre erguidos naquele acampamento.
Mas continuemos!
Eu cheguei a cavalo e logo me dirigi ao templo.
Ao ver a multidão ruidosa e alegre que enchia as ruas, meu coração comprimiu-se; e eu ainda ignorava que a vida de milhares de pessoas duraria tão pouco.
Mandei de volta o cavalo com o meu acompanhante, pois tinha a intenção de pernoitar na cidade e só no dia seguinte retornar à irmandade.
Passou cerca de uma hora.
A liturgia estava chegando ao fim e eu já estava prestes a abandonar o templo quando, subitamente, aconteceu uma coisa estranha.
Todo o ar começou a crepitar, sendo recortado, cruzado por raios azuis, verdes, amarelos, vermelhos e violetas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:28 pm

A seguir tudo pareceu incendiar-se.
As chamas começaram a sair da terra, paredes, pessoas, céu, árvores e todos os objectos; era um mar de fogo.
Fiquei tonto e asfixiado. Uma dor dilacerante percorria todos os meus membros, cada nervo do meu ser parecia estar sendo arrancado e queimado ao contacto com as chamas que se desprendiam de mim. Depois eu perdi os sentidos.
Não sei dizer quanto tempo fiquei desacordado.
Quando abri os olhos, a luz do dia foi substituída pela penumbra escarlate, que está aí, e que imprime a tudo esse aspecto funesto.
Fiquei apavorado.
Naquele minuto esqueci de minha imortalidade e conhecimento.
Eu não passava de uma mísera poeirinha humana, tremendo diante da destruição e consciente de sua impotência ante os elementos enfurecidos da natureza.
Naquela hora não me dei conta de que tudo estava acabado e imaginava que aquilo era um prólogo da catástrofe.
Provavelmente agora - pensava eu então - a terra irá tremer; ouvir-se-á um estrondo subterrâneo, os rios sairão dos leitos e do interior da terra se soltarão correntes destruidoras de lavas, cinzas e gases mortíferos.
Um suor gelado cobriu-me o corpo...
Tudo que lhe conto agora passou na minha mente com a velocidade de um raio.
Mas nada veio a ruir, nada se moveu; fui envolto em silêncio mortal.
Foi justamente aquele silêncio, após aquela animação toda, que me deixou apavorado.
Olhei em volta.
Por toda a parte viam-se pessoas, só que estacionadas, como se fulminadas por terror.
Eu corri para um homem mais próximo, peguei-o pela mão - ela estava rígida e fria como pedra.
Recuei aterrorizado.
Pela segunda vez a natureza humana com as suas medíocres fraquezas deixou-me estupefacto.
Só então compreendi o sentido da revelação feita para nós:
"Morte instantânea e cristalização de toda a superfície do planeta".
E assim, tudo se realizou...
Todos aqueles seres humanos que me rodeavam, feito vivos, eram cadáveres, como se petrificados por encanto de um bastão mágico.
E eu estava vivo!
Saí incólume da terrível catástrofe!..
O que senti naquele momento é indescritível!.
Tinha medo de mim mesmo... medo do futuro!..
Como um alucinado, corri para fora.
Se alguém me visse naquela hora, não teria acreditado que eu era um representante imortal do conhecimento superior.
Antes o instinto, do que a vontade, me trouxe à casa de meus amigos.
Na entrada estava estático o porteiro.
Feito furacão passei por ele e entrei no quarto, onde normalmente se reunia toda a família.
De facto, todos estavam ali.
O dono da casa, sua esposa e o filho pareciam conversar perto da janela aberta.
Os outros membros da família se encontravam junto à mesa, enquanto a irmã mais velha servia-lhes frutas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:29 pm

Chorando copiosamente, apalpei todos, fixando seus olhos imóveis que, feito vivos, reflectiam pensamentos:
sérios, alegres ou maliciosos, do último instante de suas vidas.
Fiquei longo tempo chorando, rezando e reflectindo. Só depois que me voltou uma relativa tranquilidade, eu me pus a caminho de volta para a irmandade.
No caminho tudo estava inteiro e nada mudou de aspecto; apenas as árvores e seus frutos viraram pedra e as águas dos riachos e cascatas solidificaram-se.
Foi pela primeira vez que vi os muros branco-nuviosos que cercavam o vale, mas atravessá-los, eu já não tinha forças.
Sentia-me muito mal e feito uma massa inânime desfaleci na terra.
Apesar do elixir da longa vida, o meu organismo ficou muito abalado e minha alma teve de suportar todo o martírio da agonia.
Quando voltei a mim, vi-me deitado no terraço do palácio da irmandade.
Em torno de mim havia uma luz suave e uma brisa aromática respingava em meu rosto gotículas do chafariz localizado perto de mim.
Agarrei hesitante um galho de árvore sob a minha mão - ele era flexível; por todos os cantos, as flores emanavam aroma, os pássaros chilreavam, o prado estava verdejante.
Estaria sonhando?!
Talvez a medonha visão da terra morta tivesse sido um pesadelo!?
Mas este equívoco durou pouco.
No terraço apareceram alguns de nossos irmãos.
Em seus rostos, normalmente serenos, li tristeza e infelicidade.
Era evidente que eles haviam passado por horas difíceis.
A essência primeva preservou-nos da morte, mas não nos livrou de sentimentos humanos, da dor e das paixões.
Somente os magos superiores estavam invariavelmente calmos e impassíveis.
Aos poucos nós fomos nos acostumando à nossa nova situação e olhávamos com indiferença, quando o planeta se foi povoando com os asquerosos espíritos:
rejeitos do nosso vizinho - a Terra.
Aqui se instalou Ebn-Ari e sua interessante personalidade agradou-nos bastante.
Ele é um grande sábio e um dirigente austero de seu povo diabólico e traiçoeiro.
— Eu não imaginava que Ebn-Ari tivesse relacionamento com a comunidade - disse sorrindo Supramati.
Seu cicerone também sorriu.
— Para ser franco, ele pouco mantém este relacionamento e nunca, sem um convite expresso, atravessa os muros de nossa irmandade; no entanto, nós sabemos que ele gosta de descansar em nosso tranquilo e pacífico abrigo.
Ocorre também que os espíritos vampíricos, cansados de sua triste vida, vêm para cá para pedir-nos que os ajudemos a sair deste local de sofrimentos, e nós fazemos de tudo para impedir que o nosso planeta seja alvo destas desagradáveis visitas.
Mas isso é muito difícil: o fardo desses pobres seres - anfíbios de dois mundos - é por demais pesado.
O guia se calou e apontando com a mão Dakhir, que apareceu na curva da alameda em companhia de alguns imortais, acrescentou:
— Seu irmão está chamando!
Está na hora de vocês irem!
Supramati agradeceu ao seu cicerone e todos se beijaram em despedida.
Alguns minutos depois, os nossos viajantes já se encontravam além dos limites do muro nuvioso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:29 pm

Capítulo VII

Perturbado, Supramati quis iniciar uma conversa sobre as particularidades da catástrofe que ceifou a vida de tantos milhões de pessoas, mas Dakhir anunciou que eles ainda teriam muito tempo para isso no castelo da Escócia e que eles teriam de se apressar para ir à residência de Ebn-Ari, que, àquela hora, já devia ter retornado para casa.
Na enorme escada de basalto que levava aos seus próprios aposentos, eles viram Ebn-Ari, que, pelo visto, tinha acabado de chegar com seus companheiros.
Eles trouxeram cerca de uma dúzia de seres de ambos os sexos que estavam num estado indescritível de desespero e raiva.
A densidade destes era tal, que antes poderiam ser tomados por encarnados vivos do que por espíritos.
Seu rugido ouvia-se de longe.
Nos degraus da escada, junto aos pés de Ebn-Ari, contorcia-se um ser feminino de beleza demoníaca, mas ao mesmo tempo nojento devido à expressão animalesca de seu rosto.
A mulher gritava em voz alta e exigia que a devolvessem à Terra ou, pelo menos, à atmosfera terrestre; sem lhe dar ouvidos, o Rei das Larvas empurrou-a com desprezo.
Ao seu sinal, os ajudantes retiraram-na dali.
Virando-se para os visitantes, Ebn-Ari fez um sinal de saudação e disse:
— Desculpem-me, meus amigos, por eu recebê-los com este concerto lancinante, mas o monstro espiritual, arrancado da Terra, está possesso por eu tê-lo separado de suas vítimas.
E, no entanto, o que lhe falta aqui?
Ela poderá ocupar, a seu bel-prazer, um dos palácios abandonados.
A mobília é luxuosa, as mesas estão fartas de pratos requintados, os porões estão cheios de vinhos finos e a sociedade é numerosa, ainda que um pouco calada.
E que belos jovens e encantadoras mulheres a frequentam! Há-há-há!
Ebn-Ari soltou uma sonora gargalhada de escárnio.
— Mas você está sendo muito cruel com os seus súbditos - observou Dakhir.
É terrificante ter que ficar nesta escuridão, cercado de objectos que de vida só têm a aparência!
É um cemitério vivo - um suplício em dobro para espíritos sofredores.
Uma expressão de implacável e cruel sorriso esboçou-se no rosto de Ebn-Ari.
— Faltar-me-ia misericórdia para ter pena de todas essas criaturas imprestáveis, e caso elas não queiram ficar aqui, que vão embora e se submetam à purificação inexorável. Já estou enojado de ter que dirigir este pensionato de moças com essas maneiras depravadas. Se isso continuar da forma que está, logo não vai caber mais ninguém.
Então que fiquem até se arrependerem e aguentem os suplícios de Tântalo, saciando suas taras com damas e cavaleiros de pedra.
Continuando a conversar, Ebn-Ari levou os visitantes ao quarto contíguo.
Lá eles se sentaram e começaram a falar sobre o estranho planeta e a catástrofe que o levou àquele estado. Mas logo a conversa passou novamente a abordar as larvas, que interessavam sobremaneira a Supramati.
— Diga-me, por que os espíritos se tornam tão materiais, que até a morte não consegue lhes devolver o estado espiritual?
Depois, o que eles devem fazer para se purifica rem? - interessou-se Supramati.
— Os motivos de tal estado são simples e claros.
A vida material, repleta de toda a espécie de abusos, impregna a tal ponto o corpo astral com os fluidos impuros, que, quando a morte o separa do corpo material, o espírito – pesado como uma montanha -já não está em condições de se elevar à atmosfera.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:29 pm

Ele sente todos os desejos carnais e, para saciá-los, utiliza-se de todos os recursos, até dos mais criminosos.
O que se refere à purificação desses sujeitos, ela se processa muito lentamente e é difícil, exigindo arrependimento, concentração e orações ardentes.
Para tornar-lhes mais fácil esta tarefa, aqui se acha instalada uma cruz, saturada de fluidos puros; tocando nela, eles podem se purificar e fortalecer-se até que alcancem a leveza necessária para deixar este mundo com sua terrível atmosfera e passar à esfera preparada para a encarnação.
— Se você tiver interesse em ver este trabalho de purificação, eu poderei mostrar-lhe.
Justamente agora nós temos um espírito ansioso em abandonar o planeta.
Supramati agradeceu-lhe efusivamente.
Todos os três foram à sala, onde já tinham estado antes, no centro da qual se erguia um crucifixo branco, reluzindo como neve ao sol.
Não longe da porta, Ebn-Ari parou e apontou com a mão um ser de vagos contornos humanos.
O ser estava abaixado no pedestal e, envolvendo-o com os braços, encostou a testa à base do crucifixo.
Do símbolo da expiação parecia jorrarem feixes ígneos e correntes de vapor azulado que penetravam no corpo da criatura genuflexa, tornando-a cada vez mais transparente e aérea.
Vez ou outra raios cintilantes recortavam a cruz de cima para baixo.
De repente, a auréola azulada que o envolvia tremulou e começou a vibrar e o espírito genuflexo subiu lentamente ao ar, ainda se segurando na cruz.
Seu rosto expressava uma felicidade desmedida.
Apoiado por ondas azuladas que o envolviam, o espírito continuava a ascender.
Por fim ele soltou a cruz e, oscilando, subiu até o fim da abóbada, desaparecendo na sombra.
— Este espírito logo irá deixar-nos: ele está prestes a se purificar totalmente - observou Ebn-Ari ao se virar para a saída da sala.
Supramati seguiu-o pensativamente.
Pouco depois ele perguntou:
— Poderia você, Ebn-Ari, dar-me uma definição mais precisa sobre um assunto que nos interessa?
Vocês chamam de "larvas" os espíritos nocivos que povoam este planeta; vocês falam também de espíritos "larvais".
Bem, já bem antes, quando eu estudava o ocultismo, eu li em algum lugar que os ocultistas modernos dão o nome específico de "larvas" aos parasitas psíquicos gerados pela mente humana, cuja existência depende do grau da força mental que as cria.
Explique-me, pelo amor a Deus, as diferenças que caracterizam esses seres!
— Se eu fosse descrever e explicar-lhe em todos os detalhes a questão colocada, levaríamos muito tempo - disse sorrindo Ebn-Ari.
Além do mais a nossa terminologia nesta questão é deveras pobre, sendo motivo de muitos mal-entendidos.
Os ocultistas modernos - conforme você me diz - dão o nome de "larvas" ao pensamento humano, activo e criador, que, no decorrer de um tempo maior ou menor, vive como um ser específico - um pensamento, contudo, maléfico, que age negativamente sobre o organismo como uma força demoníaca.
A mim me parece que seria mais lógico chamar essas substâncias efémeras, que vivem às custas da vida de outrem, de "parasitas psíquicos", e o termo "larvas" deve ser deixado para designar os espíritos criminosos que destroem conscientemente as vítimas em que eles encostam.
Eu já lhe disse que esta questão é por demais complexa e é difícil esgotá-la em algumas palavras.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:29 pm

Aos poucos você aprenderá tudo isso na prática e na teoria.
Em resumo, eu lhe digo que damos o nome de "espírito larval" para um espírito sofredor, cujos anseios carnais se mantiveram tão fortes, que invés de compreender o seu estado e tentar através do arrependimento, orações e purificação, quebrar os elos que o ligam a esta matéria, ele, pelo contrário, busca com todos os meios saciar as suas paixões não-satisfeitas.
Tais espíritos anseiam por excreções humanas e visitam todos os locais onde fartamente se depositam fluidos materiais, tais como:
cozinhas, restaurantes, banquetes e orgias.
Eles são companheiros inseparáveis de pessoas viciadas e voluptuosas, e seu corpo astral vai adquirindo, aos poucos, tal densidade, que eles têm dificuldade de se mover até na atmosfera densa da primeira esfera e por isso se agarram ao corpo de uma pessoa para servir-lhes de sustentação.
A partir desse momento é que começa a obsessão e, se possível, a possessão.
Ocorre uma coisa estranha: num mesmo corpo humano habitam dois espíritos, que contestam o poder um a outro.
Às vezes sai vitorioso o espírito do vivo, mas, com maior frequência, vence o espírito possessor, que começa a se regalar com todas as sensações da vida carnal.
Entretanto, tal confrontação sempre acaba mal para o organismo, causa alterações no cérebro, provoca paralisia progressiva e termina em morte.
Tais espíritos são impuros, nocivos - é claro - e ávidos por prazeres, no entanto eles não são totalmente irrecuperáveis, pois causam o mal não pelo simples prazer de fazê-lo, mas devido ao seu egoísmo, leviandade e volúpia.
Estes nós chamamos de espíritos "larvais".
O nome de "larva" nós damos ao assassino e bandido do espaço, o qual, caso consiga, se apossa do corpo de uma pessoa viva e sem qualquer compaixão expulsa o proprietário legal, formando laços que o ligam ao corpo.
Ao se tornar o senhor do organismo, sentenciado pela lei da natureza a se decompor, a larva acha um jeito de prolongar por algum tempo, maior ou menor, a vida ilusória, graças ao fluido material acumulado em seu corpo astral em consequência da actividade constante sobre os vivos, e à extraordinária força que ela utiliza para manter, com dificuldade, o instrumento adquirido.
Esta criatura asquerosa utiliza o cadáver habitado para diversos tipos de abusos e para a consecução de coisas decididamente inéditas.
Para manter aquela vida efémera, a larva, com implacável crueldade, vai tomando de assalto novas vítimas, dilacera-as e mata, pois o fluido contaminado da decomposição, assim que sai de seu corpo astral, é fatal para qualquer ser humano vivo.
A larva tem a capacidade também de se materializar facilmente e manter essa densidade corpórea durante dias, meses e até anos, se lhe for dada a liberdade de se revitalizar.
Algumas se materializam durante a noite; outras aparecem até de dia, e para um profano é difícil diferenciá-las de seres vivos.
Mas uma relação com elas, o seu contacto é trágico para os encarnados e esses tugues do espaço não podem ser tolerados - é por isso que são afastados: os mais submissos são mantidos prisioneiros na atmosfera da Terra, enquanto os mais perigosos são transferidos para cá, onde elas, queiram ou não, são obrigadas a parar com sua actividade funesta.
Neste planeta extinto, onde as larvas têm de ficar, não há liberação de fluido material e vivífico, portanto, o corpo astral que as preenche e a matéria que as sobrecarrega vai aos poucos se volatilizando.
É claro que se a oração e o arrependimento não acompanharem a purificação, esta estende-se por longo tempo e poderá durar séculos inteiros, pois a má vontade do espírito servirá de impedimento para a purificação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:29 pm

O espírito que você acabou de ver agora orando junto à cruz pertence aos habitantes mais antigos do planeta morto.
É um ex-adepto da magia negra que abusou de seu conhecimento para satisfazer seus baixos instintos.
Fulminado por contragolpe durante um dos seus actos maléficos, ele se tornou uma larva e acabou sendo enviado para cá.
O espírito da mulher que eu trouxe faz parte dos mais perigosos.
Para dizer a verdade, ela já deveria ter sido expulsa da Terra faz muito tempo, mas ela conseguiu até hoje, com uma diabólica habilidade, evitar o banimento, o qual teme mais que tudo.
A traiçoeira alma, profundamente depravada, ex-bruxa e heroína de sabás medievais, essa sacerdotisa de todo tipo de vícios já passou presa numa solitária do espaço.
Mas, tão logo saiu, encontrou um meio de se reencarnar, ainda que isso lhe fosse vedado.
Pode-se entender:
a família dela propiciou-lhe condições favoráveis, pois os pais eram criminosos.
Sua mãe, a despeito da natureza animalesca e impura, não suportou o contacto com os fluidos de putrefacção e do corpo astral contaminado que nela germinou.
Ela morreu prematuramente dando à luz um monstro espiritual, que começou a sua carreira terrena já com este primeiro assassinato.
Depois, tudo correu como era de se esperar.
Absorvendo inconscientemente o sumo de todos que a rodeavam, os quais enfraqueciam, definhavam e sucumbiam, este ser mortífero foi crescendo até se tornar uma moça, e conseguiu achar para si um ambiente adequado.
Os repugnantes mistérios de antigos sabás nem de longe são lendas: eles são realizados até nos dias de hoje.
Nessas asquerosas reuniões ela tinha um papel de destaque.
Tudo em sua volta morria de extenuação. intoxicado pelo contacto devastador desse vampiro encarnado, que recebeu o apelido de "Vénus Fatal".
Aliás, ela não se limitava aos assassinatos inconscientes, ela tirava de seu caminho todos aqueles que a incomodavam.
Acidentalmente - se é que existe alguma coisa acidental - ajuntou com um sorriso de mofa Ebn-Ari -, acidentalmente, o veneno que se predestinava à sua rival foi tomado por ela mesma, e ela morreu poucos dias depois.
Sua fúria, no momento que ela se encontrou no espaço, é impossível de ser descrita.
Todas as suas paixões animalescas tempestearam em seu ser e para satisfazê-las ela recorreu às actividades diabólicas.
Em pouco tempo ela praticou dez assassinatos; no décimo-primeiro eu a peguei - como se diz - em flagrante e pus termo às suas andanças, trazendo-a para cá para ela reflectir sobre seus êxitos passados e se amainar.
Ela só irá sair da minha capital depois de se purificar, mas ninguém irá apressá-la - finalizou Ebn-Ari com seu habitual riso ríspido e desdenhoso.
Supramati ainda quis fazer algumas perguntas, mas Ebn-Ari balançou a cabeça e disse:
— Por hoje basta!
Está na hora de você, Dakhir, levar o seu neófito.
A agitação passada por ele, mais as condições em que ele se encontra, são demasiadamente fortes até para seu corpo imortal.
— Você tem razão!
Eu mesmo estou vendo que é hora de irmos - concordou Dakhir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:30 pm

E assim, até o nosso próximo encontro na Terra, terrível Senhor das Larvas e protector de suas vítimas!
Ebn-Ari suspirou.
— Cansa-me muito a minha missão e o asqueroso mundo de vícios para onde fui chamado para trabalhar.
Frequentemente fico aborrecido e enojado da crueldade que eu tenho de empregar; mas não há o que fazer.
As leis têm de ser respeitadas: a vida material - para os encarnados; a vida no espaço - para aqueles que chamamos de "mortos".
Cada um tem de ficar e trabalhar em sua esfera, e eu sou obrigado a cumprir até o fim a tarefa que assumi voluntariamente.
Continuando a conversar, eles saíram para a escada de granito, onde aportaram ao chegarem àquela cidade estranha.
Dakhir ergueu o seu bastão - no ar desenhou-se um sinal flamejante.
No mesmo instante a cabeça de Supramati tonteou e ele sentiu uma poderosa rajada de vento levantá-lo impetuosamente ao espaço.
Logo depois veio aquela sequência de solavancos, iluminação inusitada; vibrações lancinantes fizeram Supramati concluir que eles haviam adentrado as camadas atmosféricas da Terra.
Ao sentir uma forte e inesperada sacudida, como se tivesse topado em alguma coisa, o voo teve o seu término.
Supramati verificou surpreso que eles se encontravam no pavilhão de cristal de onde partiram em aventura ao mundo da quarta dimensão.
O pavilhão agora estava iluminado em uma espécie de luz púrpura e junto da mesa estava Nara, colocando em duas taças um líquido vermelho flamejante de uma ânfora dourada.
— Tome, Dakhir!
Ele, sem falta, terá que descansar.
Suas forças estão totalmente esgotadas devido ao estado insólito do corpo.
Supramati mal ouviu as últimas palavras da esposa, levando aos lábios dele a taça.
O líquido aromático encheu seu organismo de calor vivífico e de bem-estar extraordinário.
Uma profunda sonolência dominou-o e ele perdeu os sentidos.
Quanto tempo durou aquele sono profundo, feito morte, nem ele tinha condições de dizer.
Quando abriu os olhos, estava deitado numa grande cama com colunas e baldaquino, em seu dormitório no velho castelo escocês.
As cortinas estavam meio levantadas e deixavam penetrar raios brilhantes de sol, vertendo reverberações douradas no fundo escuro do tapete.
Nos primeiros instantes, ele não conseguia se lembrar de nada e sentia só uma necessidade premente de ar fresco e luz.
Saltando da cama, correu até a janela e a abriu.
Uma corrente de ar puro e refrescante bafejou-lhe o rosto.
Ele se debruçou no parapeito e inspirou avidamente o sopro do oceano que se estendia diante dele.
Os raios do sol ascendente inundavam em ouro as ondas eternamente inquietas.
Aos poucos as vagas lembranças começaram a despertar em seu cérebro; mas os quadros que se erguiam de sua viagem aérea eram a tal ponto estranhos, que o cepticismo inerente a ele assomou-se-lhe imediatamente.
Com um sentimento misto de desconfiança e irritação, Supramati perguntava-se se Nara e Dakhir ousaram fazer uma brincadeira de mau gosto com ele, levando-o a ter alucinações para fazê-lo acreditar que ele realmente havia feito uma viagem ao mundo do além-túmulo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:30 pm

Supramati espreguiçou-se e já quis chamar o criado para ordenar que lhe trouxessem roupa para se vestir, quando estacou e resmungou pensativo:
— Que diabos! Eu me lembro bem de ter vivido uma sensação diferente.
Estou sentindo agora o peso do corpo e antes eu estava tão leve que podia pairar no ar e até perdia equilíbrio.
E então, lembrou-se claramente de tudo:
Sarmiel, com sua terrível lógica diabólica; o planeta morto, os irmãos imortais e Ebn-Ari com seus nefastos súbditos.
A impressão destas recordações era tão forte, que ele se recostou por uns instantes à parede, apertando a cabeça com as mãos.
Como se em sonho, Supramati dirigiu-se até a campainha.
Ele queria se vestir e ir falar com Dakhir, mas de repente viu surpreso um objecto volumoso sobre a mesa ao lado da cama.
Supramati aproximou-se rapidamente e julgou tratar-se de um fragmento de pedra, arrancado de uma rocha.
Mas, mal se inclinou sobre ele, de seus lábios soltou-se um grito contido de estupefacção e ele se apoiou sobre a mesa, tremendo de perturbação.
Diante dele estava a prova de que a viagem ao mundo do além-túmulo não fora um sonho.
A superfície da pedra parecia estar coberta por uma delicada vegetação de cor azul esverdeado.
Naquele outrora suave leito repousava o corpo de um bebé - a obra insigne da infausta e trágica arte da natureza.
As mãozinhas e os pezinhos macios e delicados do pequeno ser parecia serem feitos de marfim escurecido, sua cabecinha cobria-se de madeixas negras como asa de corvo e sua boquinha estava semiaberta.
Com as mãos trémulas, ergueu Supramati a pedra e começou a examinar interessado aquele ser, nascido no outro planeta - testemunha muda do terrível desastre.
Os grandes olhos cinza-esverdeados da criança pareciam fitá-lo com um límpido olhar sorridente, os pequenos e encaracolados fios de cabelo, grudados na testa, parecia serem flexíveis e sedosos, no entanto, tudo era tão sólido como pedra.
Com que terrificante rapidez teriam agido os mortíferos gases para resguardarem em suas vítimas aquele aspecto da vida?
E de que forma Dakhir conseguiu trazer para ali aquele fragmento pesado de pedra?
Depois de colocar o bebé sobre a mesa, Supramati cobriu-o com um lenço e decidiu guardar aquela estranha obra de arte numa vitrine especial.
Vestindo-se rapidamente, ele foi ao aposento da esposa.
Sentia uma necessidade irreprimível de vê-la para transmitir-lhe as suas impressões e fazer algumas perguntas.
Em sua excitação, pensou até em acordar Nara se ela estivesse dormindo, no entanto esta já havia acordado e estava sentada junto da porta aberta do balcão, folheando um livro.
— Nara! De facto, é preciso ter uma cabeça boa para não endoidar de tantas aventuras.
Quando eu penso no que vi e passei, torno a achar que aquilo foi sonho.
Nara estendeu-lhe sorrindo a mão e fazendo-o sentar-se com ela no sofá ao lado, disse jovialmente:
— Não será toda a nossa vida, meu querido, um sonho ininterrupto?
Até os acontecimentos de nossa vida eterna passam de lado à semelhança dos quadros alternáveis de decorações teatrais, que mal aparecem, desaparecem de novo...
Mas conte-me as impressões e as peripécias de sua inusitada viagem ao mundo do além.
Supramati contou emocionado tudo o que viu e sentiu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:30 pm

— Quanto mais mistérios eu conheço que governam a vida humana, quanto mais eu me familiarizo com as terríveis leis da eternidade, tanto mais eu quero estudá-las - concluiu Supramati.
— Faz bem! O conhecimento é a âncora da salvação de nossa longa vida.
Só ele pode nos fazer aceitar os sofrimentos espirituais da existência eterna, que nos nega até o necessário descanso tumular.
Para nós o trabalho é um apoio, esquecimento e progresso, se não quisermos decair como decaiu Narayana - observou pensativamente Nara.
A partir daquele dia Supramati voltou a trabalhar com um ardor cada vez mais crescente.
Seus estudos absorviam-no a tal ponto, que ele esqueceu do resto.
Seu interesse à vida externa extinguiu-se totalmente e ele vivia exclusivamente no excêntrico mundo do conhecimento ocultista que lhe abria horizontes cada vez mais novos.
Dakhir, vez ou outra, até tinha que interrompê-lo para lhe dar alguns dias de descanso.
No velho castelo os dias não eram contados.
Ali nada mudava e como sempre reinavam luxo moderado, silêncio e isolamento.
Alguns criados velhos desapareceram e foram substituídos por outros - da mesma forma velhos, calados e humildes.
Supramati mal notava essas mudanças, pois a administração da casa era de inteira responsabilidade de Nara.
Ele estava inteiramente imerso no estudo de fórmulas mágicas que logo não apresentavam para ele qualquer mistério.
Podia realizar as invocações e penetrar nos campos da magia negra com seu terrível poder de fazer o mal.
Supramati não desdenhava também a Medicina.
Só que agora ele estudava um método totalmente diferente de tratamento e a utilização de novos remédios.
O magnetismo, a clarividência e a homeopatia desempenhavam um papel preponderante.
Mas, com especial afinco, ele se dedicava à exercitação da força da mente.
Seu pensamento disciplinado fazia surgir no espelho mágico imagens cada vez mais perfeitas e complexas.
Sua poderosa e inflexível força de vontade jamais o traiu e governava os espíritos superiores e forças destruidoras.
No ambiente imutável em que vivia Supramati, ele foi o único que sofreu mudanças e somente ele não se dava conta de que do antigo médico Ralf Morgan não havia restado praticamente nada.
O sorriso céptico desapareceu totalmente dos lábios do sábio mago; o mundo com suas alegrias torpes e interesses miúdos parecia não existir para ele, e em seus grandes olhos escuros ardia aquela estranha chama que certa vez o fez assombrar-se ao verificá-la nos olhares de outros membros da irmandade imortal.
Uma noite Supramati teve êxito de levar até o fim uma operação mágica muito complexa que exigia tanto conhecimento quanto energia.
Dakhir apertou-lhe alegre a mão e disse:
— A minha missão terminou.
Você, meu irmão, adquiriu a primeira iniciação.
Nós estudamos o mal, pesquisamos as suas raízes e aprendemos os seus contravenenos.
Agora você está no limiar da magia branca.
Após um descanso merecido, nós podemos voltar para Ebramar e já sob a sua direcção iniciar o estudo da ciência da luz.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:30 pm

No dia seguinte, quando depois do almoço todos foram a uma pequena sala de estar, Supramati iniciou a conversa sobre a ida deles à Índia, mas Nara o interrompeu:
— Espere! Antes de se enterrar no Himalaia, nós precisamos descansar um pouco, retornar à sociedade e realizar algumas pequenas viagens.
— Que sentido tem perdermos o tempo em contactos com multidão ignara e viajar sem qualquer objectivo?!
— Você se engana profundamente, meu querido, e se esquece de que para o nosso conhecimento tornar-se real, devemos aplicá-lo naquelas mesmas pessoas que você chama de "multidão ignara".
Antes de iniciarmos novos estudos, devemos enfrentar a sociedade para certificarmos de que as paixões e o turbilhão de prazeres não têm autoridade sobre nós, e também para renovar os laços que nos unem à humanidade, os quais nunca deverão se romper, se não quisermos nos tornar um ridículo anacronismo vivo.
— Meu Deus, Nara, como você exagera!
Em alguns três ou quatro anos que nós passamos aqui isolados, nós não conseguimos ficar tão atrasados em relação à sociedade.
Mas, se você também, Dakhir, acha que isso é recomendável e até necessário - vamos viajar e levar uma vida mundana!
Graças a Deus, nós não temos problemas de falta de tempo! Mas para onde iremos?
— Primeiro a Paris e depois a Veneza.
Podemos também esticar a viagem até as geleiras e visitar o depósito do qual você é um dos guardiões.
Depois iremos ao castelo da irmandade, quando chegar a hora de nos reunirmos lá para relatar o nosso trabalho e traçar o programa para o futuro.
A pobre Lora vai ficar feliz em rever Dakhir, do qual nos apos samos por tanto tempo.
Agora, senhores, se vocês estão de acordo com o meu programa, permitam-me que eu arrume tudo para a viagem e cuide de seus trajes.
Quando estiver tudo pronto, eu os avisarei.
Enquanto isso vocês podem cuidar livremente de seus trabalhos normais.
A proposta foi aceita em meio a risos.
O resultado de tudo isso foi que Nara teve uma conversa confidencial com Tourtoze, e esta, na mesma noite, deixou o castelo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:30 pm

Capítulo VIII

Passaram-se cerca de três semanas depois da conversa que acabamos de descrever.
Certa manhã, Nara anunciou que todos os preparativos já estavam concluídos e que no dia seguinte eles deixariam o castelo.
O restante do dia os homens dedicaram à colocação em ordem do laboratório e à arrumação dos pertences que levariam consigo.
Eles queriam deixar tudo arrumado para o tempo de sua longa ausência.
Na manhã do dia seguinte, a criada de Supramati trouxe ao seu senhor um traje novo, bem diferente em seu aspecto e corte daqueles que ele normalmente usava.
— É a última moda em Londres, Vossa Alteza - assegurou Tourtoze ao notar um olhar desconfiado de seu senhor.
Veja! O meu traje tem um corte exactamente igual.
— Hum! Estou vendo que a moda mudou muito.
Estou curioso para ver o vestido de Nara – resmungou Supramati, abotoando uma comprida sobrecasaca de lã da cor de morcego.
A seguir, pegando um chapéu de feltro, de aba pontiaguda, ele saiu apressado ao quarto da esposa.
Nara estava diante do espelho ajeitando o chapéu.
Ela trajava um vestido justo de lã com cortes nas laterais o que permitia que fossem vistas as pantalonas bufantes, as meias pretas, as pernas bem delineadas e os pequenos sapatos de salto alto.
— Nara! Você já se viu no espelho?
Seu vestido é indecente e esse chapéu com três penas e um enorme laço é simplesmente ridículo! - exclamou Supramati.
— É a última moda em Paris! - atalhou com firmeza a jovem mulher.
Ao medir o marido com um olhar de chacota, ela acrescentou:
— E você por acaso está se achando lindo nesse roupão e chapéu pontiagudo?
Parece um judeu empetecado da Galícia!
E ainda teima em reclusar-se da sociedade da qual nada sabe!
— Diabos! Começo a crer que vamos encontrar muitas surpresas - arrematou rindo Supramati.
Depois do desjejum em companhia de Dakhir, que também vestia traje idêntico ao de Supramati, todos os três saíram.
No pátio aguardava por eles um automóvel que, bem mais rápido do que os cavalos, levou-os a toda para uma pequena estação ferroviária.
A região desértica que cercava o castelo não sofrera qualquer mudança, porém os povoados que eles haviam visto de longe no dia da chegada cresceram enormemente, e as altas chaminés fumegantes apontavam que ali tinham sido instalados diversos centros fabris.
A estação também estava mudada.
De um pequeno prédio, perdido na vastidão ao redor, ela se transformou numa enorme estação, executada exclusivamente em ferro e vidro, erguendo-se no centro da formosa cidade cujas casas e graciosos chalés, cercados por jardins, espalhavam-se ao longe em redor.
Pensativo e cada vez mais surpreso ia contemplando Supramati tudo em volta, começando a desconfiar de que ele passou no velho castelo bem mais tempo do que havia imaginado.
Nos primeiros dias de sua permanência na Escócia, Supramati recebia e lia jornais; entretanto, ao se entregar cada vez mais aos estudos, ele começou a deixar a leitura no segundo plano.
A política já não tinha para ele qualquer interesse, os acontecimentos mundanos que agitavam a sociedade, com a qual não tinha nada em comum, tornaram-se para ele indiferentes e até aversivos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:31 pm

Mas, agora, na ânsia de recuperar as suas informações sobre a vida moderna, assim que eles entraram no saguão da estação, ele começou a procurar sofregamente um vendedor de jornais.
Não encontrou nenhum, por outro lado, ele viu uma espécie de mostrador que girava ao redor de seu eixo.
Em cada compartimento havia diversos periódicos.
Embaixo, uma máquina automática indicava o preço de cada jornal.
Um minuto depois, Supramati segurava nas mãos um exemplar do "Times".
Um tremor nervoso atravessou-lhe o corpo.
Ele leu:
"30 de setembro de 1940" - sua ida ao velho castelo ocorreu, entretanto, em agosto de 1900!
Consequentemente, desde o dia de sua chegada à Escócia passaram quarenta anos e não quatro ou cinco como ele havia imaginado.
Seria isso possível?
Não estaria ele sonhando?
Supramati não teve tempo de desfazer a dúvida; nesse exacto momento, assobiando e soltando fumaça, à plataforma aproximou-se o trem, sua locomotiva pouco lembrava aquelas que ele conhecia. Uma vez que a parada seria bem rápida, Nara, aparentemente nem um pouco perturbada, pegou seu marido pelo braço e arrastou-o para um dos vagões.
Supramati deixou-se cair na poltrona desorientado.
Sua cabeça girava.
Ele não conseguia se recuperar do nervosismo ao descobrir que tinha ficado praticamente meio século no laboratório.
A dúvida novamente lhe assomou.
Ao tirar do bolso sua carteira, ele começou a escarafunchá-la.
Recordou-se de que nela ficaram guardados alguns papéis, marcados com data, relacionados com o tempo de sua viagem para a Escócia.
A primeira folhinha que lhe caiu nas mãos verificou-se ser uma conta da compra que ele havia feito na véspera da partida deles de Veneza.
Comparou a sua data com a do jornal.
Não havia menor dúvida: sem percebê-lo, passou quarenta anos no laboratório e agora já contava setenta e quatro anos.
Quem iria acreditar!
Ainda hoje, pela manhã, contemplava no espelho o seu aspecto juvenil.
Aliás, não ignorava que a sua juventude era eterna e, em comparação com a idade de Nara, era mais novo que um bebé de colo.
Mas, a despeito de tantos séculos vividos, a suave beleza de sua esposa não ficou nem um pouco prejudicada; somente os seus olhos, ao contemplarem o espaço, às vezes traíam cansaço e desilusão de uma longa vida.
Pelo visto, o trabalho abrevia o tempo, e bem que Nara estava certa quando disse que para os imortais, mais do que para outros seres humanos, o trabalho é a âncora da salvação.
Neste instante Supramati sentiu uma espécie de onda quente.
Levantou os olhos e interceptou o olhar apaixonado da esposa, que lhe sorria triste e marota.
Ele se aprumou.
Passando a mão pela testa, como se quisesse afugentar pensamentos enfadonhos, disse em tom alegre:
— Perdoem-me, amigos, que eu, apesar de seus ensinamentos, não consigo me livrar das antigas asneiras.
Uma simples bobagem, de quarenta anos terem passado tão rápido e imperceptivelmente, deixou-me zonzo; e, então, eu fiz as contas e cheguei à conclusão de que estou com setenta e quatro anos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:31 pm

Mas agora estou bem!
Sou senhor de minha posição e tentarei, o mais rápido possível, entender a realidade.
Entretanto, no futuro, vou procurar manter contacto com o mundo para não parecer um extraterrestre.
— Todos nós passamos no começo pelas mesmas surpresas e o compreendemos perfeitamente - observou rindo Dakhir.
E agora leia o seu jornal para se orientar pelo me nos um pouco.
Supramati aprofundou-se na leitura, cujo entendimento era mais difícil que supunha.
Eram latentes as profundas mudanças no plano político do mundo.
Os nomes das pessoas que dirigiam o destino dos povos eram-lhe totalmente estranhos.
Mas o que saltava aos olhos do sábio e futuro mago era o facto irrefutável de que o acaso reinava na terra, que o mais forte oprimia e explorava o mais fraco com mais crueldade, e que o egoísmo insensível tiranizava a sociedade, nivelando todas as posições, colocando em primeiro plano uma única divindade - o ouro.
Em Londres os nossos viajantes ficaram apenas uma semana.
Dakhir e Supramati aproveitaram esse tempo para saber dos acontecimentos dos últimos quarenta anos.
Quanto a Nara, esta parecia conhecer mais que todos e contou-lhes sobre a sorte de algumas personalidades pelas quais se interessava.
Supramati pensou em visitar a sua antiga residência, mas o velho prédio de Kromwell havia desaparecido juntamente com o jardim, dando lugar a um colossal edifício de Quinze andares; sendo que o próprio quarteirão, outrora num subúrbio, agora era uma parte do bairro central da cidade que se espalhou por todos os lados.
A clínica psiquiátrica ainda estava lá, ainda que três vezes maior do que como ele a conhecia.
Estava apinhada de pacientes.
Os casos de doenças mentais iam aumentando a cada ano numa proporção que inspirava uma tomada de medidas drásticas.
Como era de se esperar, ninguém se lembrava do doutor Ralf Morgan.
Supramati comprou algumas obras científicas e uma colecção inteira de "Revue".
Ao folhear atentamente os livros adquiridos, ele se familiarizou rapidamente com todos os fatos históricos que ocorreram desde o seu afastamento da vida mundana, formando um quadro preciso sobre a situação social, económica e religiosa da sociedade naquele momento em que ele nela reaparecera.
Tudo que leu o abateu profundamente.
A evidente decadência da humanidade, bestificada por vícios e cobiça, parecia se precipitar incontrolável para a sua destruição.
Algumas tentativas humanitárias de extinguir as chamas da guerra não lograram êxito.
Por duas vezes o mundo ficou inundado de sangue e coberto por cadáveres.
Numa dessas campanhas trágicas, a Inglaterra derrotada perdeu uma parte de suas colónias em benefício da América, que estendia por toda parte os seus tentáculos em suas ambições insaciáveis.
O comércio, em todas as suas modalidades, era o centro de tudo, e ao redor dele giravam os interesses da humanidade.
O ouro - a mais terrível força diabólica - saiu das trevas e reinava aberta e autoritariamente como o único ídolo do Universo; abalou os tronos, enfraqueceu a Igreja, destruiu a moralidade, substituiu a justiça pela violência bruta da riqueza.
As mãos mais sujas, desde que tivessem o ouro, podiam profanar impunemente os altares mais puros e escarnecer de qualquer direito e honra.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 7:31 pm

A medida que aquele triste quadro se desenrolava, e mais nitidamente se desenhavam todos os seus pormenores, Supramati ficava dominado de tristeza cada vez maior.
Na véspera de sua partida de Londres, depois de ler o relatório sobre alguns processos, nos quais a venalidade do poder judiciário e a vergonhosa injustiça saltavam aos olhos, Supramati afastou com repugnância os livros e os jornais, perguntando-se terrificado para onde tudo aquilo iria levar.
De repente ele se lembrou de um antigo vaticínio, feito por um mago, lido num velho manuscrito mágico.
Em sua mente ergueram-se, quase literalmente, as palavras proféticas:
"Das profundezas da terra surgirá o diabo, que se tornará poderoso aliado do mal.
Ele será amarelo e brilhante e o seu aspecto e o cheiro irão excitar as mais baixas paixões.
"Somente alguns conseguirão segurá-lo escorregadio nas mãos.
No lugar onde se detiver, haverá fartura de prazeres e honrarias, mas, ao mesmo tempo, os corações humanos endurecerão e a chama divina se extinguirá sob a mão pesada do demónio, cujo lema será "Prazer a todo custo"!
"Depois chegará o tempo em que, tendo se entediado de viver entre os seus eleitos, esse terrível e escapadiço demónio aparecerá na arena social à procura de poder, honrarias e veneração.
"Elevado ao trono por seus adeptos e súbditos, ele a todos subjugará, tudo comprará e zombará da aniquilação total.
"Em seu desmedido e desenfreado orgulho, o desavergonhado demónio exigirá que as virtudes se prostrem aos seus pés e que as grandes verdades o sirvam como escravos.
Ele ameaçará irado os seus súbditos, se não lhe trouxerem a virtude ridicularizada e enlameada, outrora objecto da veneração.
"E sua vontade será satisfeita.
A justiça coberta de lama, com a boca espumando ouro, com as mãos sujas amarradas, perderá a capacidade de pronunciar a verdade e julgar imparcialmente.
O amor pervertido e vendável se transformará em depravação asquerosa, em cujo rosto irão cuspir; a misericórdia será apenas uma justificativa para os abusos, um termo convencional para tirar dinheiro dos tolos e, finalmente, a fé - essa consolante divina - banida e ridicularizada, não irá mais iluminar com os raios de esperança os corações e os rostos martirizados, desfigurados por dúvida, revolta e paixões desorganizadas.
"Nessa época o bezerro de ouro irá reinar sobre todo o mundo e aos seus pés rastejará a humanidade ultrajada.
"Então chegará a hora, quando Deus verdadeiro, Criador do Universo, ficará entediado com tantos crimes, e Ele se insurgirá contra o enganador que O havia rejeitado, que Lhe tomou o lugar, falou de Seu nome e zombou de Seus servidores puros.
"E a ira de Deus desabará sobre esse rebanho bípede, e a voz, feito um trovão, retumbará no espaço insondável:
— "Insensatos!
Se o demónio de ouro é tudo o que vocês querem, então fiquem com ele e se regalem daquilo que ele oferece; mas tudo que Eu lhes dei, Eu mesmo tomarei de volta.
"E o Senhor chamará todas as suas criaturas que não veneraram o demónio e lhes perguntará se eles preferem ficar na terra ou segui-Lo.
"Então as criaturas inquiridas exclamarão em pranto:
— "Leve-nos, Senhor!
Só a Você nós veneramos e só em Sua misericórdia nós temos fé.
O demónio é nosso inimigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:26 pm

Ele nos persegue e destrói.
"E terá início uma grande migração.
As aves, os peixes, o gado doméstico e os animais selvagens - tudo que povoava o ar, as águas, as florestas e as planícies -, tudo que alimentava, vestia e divertia os homens, desaparecerá da face da terra.
Em seguida desaparecerão as flores, as árvores e a grama, seguir-lhes-ão as fontes de água e os rios.
Tudo isso fugirá e encontrará o abrigo no seio do Eterno.
E a terra estéril se transformará em deserto, onde resplandecerão soberbos os magníficos palácios repletos de tesouros - mas não haverá o pão de cada dia.
"Então, ao ver a morte se aproximando de todos os lados, um grito de terror se soltará do peito da humanidade criminosa.
Esta chamará pelo demónio, mas ele ficará surdo aos gemidos e queixumes, pois ele era grande, poderoso e zombador só até aquele momento em que explorava a natureza criada por Deus, enquanto usava e abusava de Suas criaturas.
"Levadas ao desespero, as pessoas irão andar em barras de ouro, mas a procura por alimentos será inútil e o impassível e inclemente demónio irá rir da impotência delas.
Elas, que tudo venderam e se humilharam por um punhado de ouro, não saberão nem orar.
O Senhor, ao ver Seus templos vazios e o Seu Nome olvidado, não suavizará Sua ira e entregará esse ingrato género humano à morte cruel que ele mesmo preparou para si"...
Supramati estremeceu.
A profecia coincidia com a de Ebramar; e tudo que ele leu e estudou era uma prova de que os homens se precipitavam em direcção do fim prenunciado.
E o destino dele era ser uma testemunha dessa terrível catástrofe, dessa agonia medonha do mundo inteiro!
— Oh, que traidor é Narayana!
E por que é que eu fui tomar a taça sedutora da vida eterna? - murmurou Supramati.
Na noite do dia seguinte os nossos viajantes chegaram a Paris.
A carruagem que esperava por eles levou-os rapidamente ao palácio de Supramati.
A electricidade inundava praticamente com a luz do dia todas as ruas.
Por cima das ruas, em trilhos aéreos corriam pequenos trens cheios de passageiros; por todos os cantos elevavam-se prédios de quinze ou mais andares.
A actividade febril da metrópole cresceu de forma patente.
No dia seguinte, Supramati e Dakhir decidiram dar um passeio pela cidade para estudar a fisionomia de Paris.
Em Londres, eles pouco saíram de casa, ao se dedicarem sobretudo a leituras, visando se instruir para enfrentar o mundo novo ao qual eles retornaram.
O palácio de Supramati em nada mudou; de seus muros, como antes, podiam ser vistas as folhagens amareladas das árvores seculares.
O velho prédio tinha agora um estranho aspecto antigo e destoava das edificações colossais que o comprimiam de todos os lados.
A criadagem numerosa, de rostos desconhecidos, reuniu-se para recepcionar o senhorio.
Todos os criados, pelo visto, tinham uma especial predilecção por maneiras refinadas.
Desde o serviçal, a fazer mesuras constantes imbuídas de dignidade própria, até a camareira, vestida em saia de seda, de relógio e anéis nos dedos, que saudou Nara com reverência de corte, todos observavam entre si uma rigorosa hierarquia.
Ordenando que o jantar fosse servido o mais rápido possível, Supramati foi ao seu aposento para trocar de roupa, e, ao retornar em seguida à sala de jantar, nela encontrou surpreso um homem, provavelmente o mordomo, com ares de um funcionário graduado de ministério.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:26 pm

Ele dirigia cerca de uma dúzia de jovens que desembrulhavam cestos e passavam aos criados os pratos prontos de um lauto jantar.
— Por que é que trouxeram a comida em cestos?
O cozinheiro não foi avisado de nossa vinda? - perguntou Supramati.
— Vossa Alteza então desconhece que mesmo pessoas tão ricas como o senhor não têm condições de manter um cozinheiro?
Esse tipo de empregado doméstico já não existe mais.
Agora temos catedráticos em gastronomia que dirigem fábricas de alimentos que abastecem a população.
— Verdade?
Depois de morar muito tempo na Índia, onde tudo é tão conservador, eu ainda não tive tempo de me familiarizar com os novos hábitos de Paris.
Há muitas fábricas desse tipo?
Como é que elas conseguem satisfazer o público? - perguntou sorrindo Supramati.
— Existem vários tipos de fábricas:
cozinha aristocrática, burguesa e popular.
Os catedráticos em gastronomia, que dirigem as instituições da primeira categoria, ganham até cem mil francos; os da segunda - sessenta, e os da terceira - quarenta; seus auxiliares também ganham bem.
O cardápio dos desjejuns, almoços e jantares é publicado todos os dias pela manhã e os pratos escolhidos são levados aos clientes através de dutos pneumáticos especiais.
Devido à ausência de Vossa Alteza, o palácio não foi equipado com esses dutos.
Assim, eu ordenei que os pratos fossem trazidos por entregadores.
O meu contrato prevê que eu devo cuidar de tudo que se referir ao serviço de mesa de Vossa Alteza.
O resto não é da minha conta.
— Tudo isso é maravilhoso!
Mas por que eu vejo aqui tantos criados?
Seu número é por demais grande para servir a três pessoas apenas.
— Isso é à primeira vista.
Cada um desses criados é um especialista que se formou numa determinada profissão.
Um, por exemplo, cuida somente de bebidas e deve saber que tipo de vinho corresponde a um determinado prato.
Além disso, é de praxe que nas casas de alto nível haja sempre dois turnos de empregados, pois em razão das recepções, grande número de convidados e a necessidade de se levantar cedo e dormir tarde, o serviço torna-se muito estafante.
Além disso, é muito difícil encontrar pessoas que se disponham a aceitar este trabalho duro.
Espero que Vossa Alteza não tenha nada contra por eu ter recorrido ao método usual!
— Absolutamente, eu quero que tudo seja feito de acordo com o costume local.
Neste instante na sala de jantar entrou Dakhir, seguido de Nara, e todos os três se sentaram à mesa.
O jantar estava magnífico, mas compunha-se essencialmente de pratos de carne; e como os nossos viajantes haviam se desacostumado de alimentos de origem animal, optaram por não se servir deles.
— Futuramente, Grospen, cuide para que nos sirvam pratos vegetarianos.
Espero que eles possam ser adquiridos na fábrica de alimentos! - disse Supramati, dirigindo-se ao mordomo que, com ares de importância, dirigia os criados.
— Sem dúvida, Alteza!
A partir de amanhã a sua ordem será cumprida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:27 pm

E isso é até mais fácil, pois a maioria da população é vegetariana, uma vez que o número de gado e aves diminui a olhos vistos.
— Por quê? Já não se dedicam à actividade de pecuária e avicultura?
— As causas ainda não são claras, mas o fato é que as aves vêm diminuindo e tornaram-se um artigo bastante raro; algumas espécies de peixe já não existem mais.
Supramati trocou um olhar significativo com Dakhir e a esposa.
Os sintomas da ira de Deus já começaram, então, a se manifestar...
Supramati e sua esposa foram se deitar bem tarde.
A visão dos quartos que ele ocupava, quando ainda começava a nova vida de imortal, e diversos objectos que provocaram a recordação de uma série de fatos durante a sua permanência ali originaram uma jovial e animada conversa.
Nara, em tom de malícia, perguntou a Supramati se ele não tinha a intenção de procurar por sua antiga paixão - Pierette - e até sugeriu-lhe utilizar-se do espelho mágico para localizar a antiga rival.
— Engraçadinha!
Uma rival agora não constitui um perigo.
Quanto ao espelho, eu não quero lançar mão dele em minhas investigações.
Esqueçamos por enquanto os nossos estudos e a magia; vamos utilizar as faculdades humanas normais.
Amanhã eu vou me informar sobre o pobre visconde De Lormeil, que durante todo esse tempo deve ter entrado em muitas dívidas; e também sobre Pierette, Lilian e a caridosa Rosali.
Serei acompanhado por um secretário que deverá vir amanhã.
— No mínimo ele terá o aspecto de um ministro! - observou rindo Nara.
No dia seguinte chegou o secretário, um homem discreto, simpático e jovem, com o qual Supramati iria à cidade.
Ele tinha que passar em alguns bancos para acertar umas contas e descontar uma quantia para as despesas.
Desta vez eles foram a cavalo.
De seu administrador, Supramati soube que era dono de magníficos cavalos, mas que aquele meio de locomoção era um capricho de pessoas nobres.
A medida que eles passavam pelas ruas bem familiares, Supramati se convencia cada vez mais do enorme progresso que foi dado em direcção ao luxo e conforto.
Tudo funcionava na base da electricidade e vapor, e as máquinas fizeram com que o trabalho humano fosse praticamente desnecessário.
Não obstante, as pessoas não pareciam mais felizes; os rostos pálidos e magros, as roupas surradas e todo tipo de sinais de pobreza eram encontrados a cada passo.
— Oh, Deus! Quanta miséria!
Será que não se faz nada para diminuir a pobreza, ou os órgãos responsáveis são impotentes para minorar a sorte dos infelizes? - perguntou Supramati.
— Os órgãos, Alteza, não conseguem acabar com a terrível pobreza e a questão social aguçou-se como nunca - respondeu o secretário.
O capital dos investidores e dos industriais alcançou dimensões colossais.
O custo de vida subiu terrivelmente e os preços dos géneros de primeira necessidade estão em patamar jamais visto.
As pessoas de classe média já não conseguem viver como antigamente e por isso a luta pela sobrevivência tornou-se cruenta.
Só Deus sabe como será o futuro!
Neste instante eles estavam passando ao lado da catedral de Nossa Senhora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:27 pm

O antigo templo tinha aspecto abandonado e seus portões estavam fechados.
— Por que a catedral está fechada? – inquiriu Supramati.
— Está fechada para evitar profanações e sacrilégios.
Além disso, as missas são celebradas nos domingos de grandes festas religiosas, e, mesmo assim - como se diz – a sete chaves.
— Mas por que tudo isso?
— Por muitas razões, Vossa Alteza!
Primeiro, os ofícios públicos do culto cristão são proibidos.
O clero, que não mais recebe subsídios do governo, tornou-se reduzido; o número de fiéis está diminuindo a cada ano.
— Todos ficaram contagiados com a liberdade de pensamento! - troçou sorrindo Supramati.
— Não totalmente.
Temos uma infinidade de seitas.
Os budistas são muito numerosos e possuem diversos templos.
Quanto às sinagogas, só Paris conta com cerca de duzentas.
Pelo visto, os povos orientais guardam com mais força as suas religiões que nós - concluiu em tom amargurado o secretário.
— As suas palavras me fazem crer que o senhor pertence ao número de cristãos dos mais renitentes.
— Sim, Vossa Alteza!
Eu pertenço a uma família muito antiga que permanece firme à fé de seus antepassados e à doutrina de antigamente.
Somente no dia seguintes Supramati começou a procurar os seus velhos conhecidos.
Primeiramente ele se informou de Rosali Berken.
Ela havia falecido cerca de quinze anos atrás, mas era lembrada no quarteirão e pelo visto todos sentiam pena daquela humilde benfeitora dos pobres.
Sobre Pierette e Lormeil ele não conseguiu nenhuma informação.
O hotel do visconde foi vendido cerca de vinte anos antes para pagamento de dívidas e ele desapareceu a partir daquele dia.
Todas as tentativas de encontrar alguém dos antigos conhecidos não deram em nada.
Supramati já estava perdendo as esperanças de achar algum fio vivo que o unisse com o passado, quando soube que, num clube artístico, o ex-tenor Penson ainda estava vivo e recebia uma pensão da sociedade dos artistas dramáticos e operísticos.
Supramati pegou o endereço e dirigiu-se imediatamente para o lugar afastado, onde morava Penson.
A viagem foi longa.
A residência do ex-tenor localizava-se nos arredores de Paris.
Por ali ainda podiam ser encontradas pequenas casas cercadas de jardim, o que conferia àquele lugar um aspecto campestre e patriarcal.
Ali habitavam pessoas humildes e trabalhadoras; funcionários da classe média ou aposentados, governantas, comerciários e trabalhadores de escritórios.
Todas as manhãs, uma verdadeira miríade de bicicletas levava aquele povo ao local de seus afazeres diários.
A casinha onde morava Penson era retirada e o jardim que a ladeava possuía uma alta cerca.
A porta foi aberta por uma menina.
No início ela anunciou que o avô não estava em casa, mas, depois de lançar um olhar para o bem vestido visitante e para a sua sumptuosa carruagem, ela convidou-o para entrar e esperar até que avisasse o avô.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:27 pm

— Eu gostaria que a senhorita só me indicasse onde está o senhor Penson.
Eu sou um velho amigo dele e queria fazer-lhe uma surpresa.
A menina levou-o ao jardim, cuja maior parte estava ocupada por uma horta.
Apontando para um homem vestido numa jaqueta de nanquim e com uma grande chapéu de palha na cabeça, ela disse:
— Ali está o meu avô!
Em seguida ela se retirou discretamente.
Ao aproximar-se, Supramati viu que o ex-tenor estava ocupado com o corte de alcachofras.
Um grande cesto de seu lado estava cheio de pepinos, suculentos repolhos e outros legumes.
Apesar de seus oitenta anos, ele era um velho bem vigoroso e forte.
Ao ver o visitante, ele foi ao seu encontro, mas, subitamente, recuou e soltou um ai surdo.
A faca de jardim caiu-lhe das mãos.
— O que foi, Penson?
Eu o assustei ou o senhor não me reconheceu? - perguntou Supramati, sorrindo e estendendo-lhe a mão.
— Por Baco! Eu acho que o reconheci.
Pessoas como o senhor não podem ser esquecidas!
E ainda que o senhor me tenha assustado, não há nada de anormal nisso.
Já faz - que Deus me perdoe - quarenta anos que a gente não se vê.
Consequentemente, pelas leis da natureza, o senhor deveria estar com uns setenta anos, e eu sei como é duro chegar a essa idade.
O senhor, pelo visto, permaneceu como era – um belo jovem de trinta anos.
Se o senhor não for o próprio diabo, no mínimo deve ter obtido dele um elixir contra a velhice.
— Oh! O diabo não tem nada com o meu aspecto externo.
É que nós, os hindus, demoramos para envelhecer - explicou sorrindo Supramati.
Provavelmente lisonjeado com aquela visita, o artista levou Supramati a um pequeno terraço anexo e não sossegou até ele aceitar um copo de vinho e uma cigarrilha.
Conversaram sobre o passado e o futuro.
Supramati interessou-se sobre o destino de algumas pessoas conhecidas de ambos.
A maioria já havia falecido, mas, quando a conversa tocou o visconde, o rosto do velho entristeceu.
— Oh, sim! Eu sei o que lhe aconteceu.
Para a sua própria infelicidade ele ainda continua vivo, mas não sei se é por muito tempo.
A vinda do senhor será providencial, pois eu conheço a sua generosidade.
Se o senhor procura por ele, isso provavelmente aliviará os seus últimos dias.
— É esta de fato a minha intenção.
Mas qual foi a confluência dos fatos que o levou à miséria?
Onde ele mora?
— Aqui perto, na casa de fundos de uma viúva que dá abrigo aos pobres dessa categoria, ou melhor, às pessoas de alta roda arruinadas.
O senhor deve-se lembrar que Lormeil gostava de viver bem e além do mais era um jogador.
Antes de viajar, o senhor o recompensou bem, mas com o passar de alguns anos ele torrou tudo e os credores venderam os seus bens, ficando ele, por assim dizer, na rua.
Todos viraram o rosto, pois ele se comprometeu com alguns actos malvistos.
A partir de então, ele foi levando uma vida bem obscura:
foi um crupiê em Mónaco, depois foi um agente numa seguradora e, por fim, membro de uma claque.
Resumindo, descendo de degrau em degrau, ele acabou na miséria e totalmente doente, sendo recolhido pela benfeitora de que lhe falei.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:27 pm

Tudo isso eu soube por acaso e então fui visitá-lo.
A partir desse dia, à medida do possível, nós o ajudamos, pois ele necessita praticamente de tudo.
A minha filha e a neta levam-lhe diariamente um prato de sopa, e de duas velhas saias costuraram-lhe um roupão.
Não temos muito para dar, mas é que é duro ver a situação de penúria de um homem que já teve dias melhores.
A pena por aquele homem comprimiu o coração de Supramati.
— Se não é longe daqui, poderia o senhor me levar à casa do visconde?
— A dois passos; eu terei imenso prazer em acompanhá-lo - prontificou-se Penson.
Meia hora depois eles estavam entrando numa casinha semidestruída e, através de um estreito e escuro corredor, foram dar num quarto húmido e sujo.
Toda a mobília consistia de uma velha mesa, dois banquinhos de madeira e uma cama rústica, na qual jazia um ser humano, envolto num cobertor surrado.
— Oh, infeliz! - pensou Supramati, lembrando-se dos luxuosos aposentos do garboso esbanjador.
Aproximando-se da cama, Supramati inclinou-se sobre o homem deitado com os olhos fechados.
Com seu olhar de médico, ele imediatamente concluiu que diante dele estava um moribundo, mas nunca teria reconhecido Lormeil naquele esqueleto ressequido, metido em pele que mais parecia um pergaminho, sulcada por rugas profundas.
— Visconde! - chamou Supramati, tocando a mão gelada do moribundo.
Ao ouvir aquela sonora voz metálica, Lormeil estremeceu e endireitou-se como se recebesse uma descarga eléctrica.
Cerca de um minuto os seus embaçados olhos vítreos fitaram desorientados Supramati, acendendo-se em seguida em chama de alegria.
Estendendo-lhe as mãos trémulas, o visconde exclamou, tremendo com todo o corpo:
— Supramati! Meu magnânimo protector!
— Meu pobre amigo!
Como me arrependo de não ter vindo antes; se ao menos eu soubesse que o senhor estava nessa situação tão infeliz.
Mas não se desespere, tudo irá mudar e eu tomarei providências para que a sua vida seja cercada de tranquilidade e conforto.
Uma expressão de profunda amargura percorreu o rosto lívido do moribundo.
— Agradeço-lhe, Supramati, pelas boas intenções, mas neste mundo eu só preciso de um túmulo.
Eu desperdicei criminosamente a minha vida e os meus bens - e fui duramente punido com uma vida longa e pobreza insólita.
Passei fome e frio, dormi nas estradas, pedi esmola e me alimentei de cascas de pão, atiradas aos cães...
Um choro convulsivo impedia que ele falasse, mas, dominando-se rapidamente, ele continuou com voz rouca e entrecortada:
— Morrer... morrer... é a única coisa que eu desejo.
Ouça, Supramati.
Se o senhor quer realmente prestar-me um último favor, mande que me enterrem decentemente, que não joguem o meu corpo numa vala comum!
Profundamente emocionado, Supramati apertou forte a mão do visconde.
— Juro-lhe que farei isso!
Se o senhor tiver algum desejo quanto ao seu enterro, diga-me e eu o atenderei.
— Eu fico muito grato!
Nesse caso eu gostaria de ser enterrado no cemitério da minha propriedade rural.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:27 pm

Ali, naquele saco de linho, o senhor encontrará alguns papéis onde se acham as indicações necessárias.
Naquela propriedade nasci, lá também estão as sepulturas dos meus pais e...
A voz do velho passou ao sussurro, o rosto empalideceu mortalmente e dominado por uma inesperada fraqueza ele esmoreceu na cama.
Supramati olhava pesaroso e pensativo para o visconde.
Ele sentia uma imensa pena por aquele pecador, tão duramente castigado, e ao mesmo tempo uma vontade de salvá-lo com algumas gotas do elixir da longa vida.
Não estava ele também a ponto de morrer, quando apareceu um desconhecido, salvou-o e o fez rico, independente e sábio'?!
Talvez o visconde, purificado por sofrimento, arrependa-se e torne-se um seguidor!
Nenhuma lei, nenhuma condição impedia que o adepto e o detentor da essência primeva dela não pudesse se utilizar a seu critério e aumentar a corrente dos membros da irmandade.
Dakhir havia lhe dito que nenhuma responsabilidade recairia sobre aquele que, sob a influência de um ímpeto de magnanimidade ou pena, imortalizasse alguém, pego aleatoriamente sem qualquer escolha.
Supramati já tinha posto a mão no bolso para pegar o minúsculo frasco, quando um novo pensamento lhe assomou à mente.
Praticaria ele uma boa acção ao visconde, dando-lhe a vida eterna?
E se, incapaz de um trabalho sério, ele, gozando de perfeita saúde e detentor de imenso património, recair em seus antigos vícios e tornar-se um outro Narayana, ainda mais desprezível e mesquinho que o primeiro?
Não teria sido o visconde um representante genuíno de gente ociosa e pervertida que só vive em função de prazeres, sempre pronta a lamber a mão mais esquálida que lhe ofereça o ouro?
Não! É sábia a lei que arrasta para a vida do além-túmulo seres inúteis e com vícios.
Todas estas reflexões, longas para serem descritas, duraram apenas alguns segundos.
Lançando um último olhar para o corpo quase exânime, Supramati virou-se e suspirando fundo saiu do quarto.
Antes de se sentar na carruagem, Supramati agradeceu a Penson, pediu-lhe para alugar para o visconde um lugar decente e fazer todo o possível para minorar o sofrimento de seus últimos minutos; disse também para pegar os papéis do visconde para atender ao último desejo do infeliz e enterrá-lo junto a seus pais.
O tenor aposentado aceitou as incumbências e prometeu avisá-lo da morte do visconde - o que não iria demorar muito.
Supramati dirigiu-se para casa com o coração oprimido.
Apesar da convicção de ter agido bem, parecia-lhe ter assinado a sentença de morte e esta pesada impressão oprimiu-o pelo resto do dia.
Somente à noite, ao ficar a sós com Nara, ele contou-lhe em que situação encontrara o visconde e tudo que sentiu e pensou em relação a ele.
A jovem ouviu triste e pensativamente, e apertou participativa a sua mão:
— Você fez bem, Supramati, e não pode se censurar por não ter salvado a vida inútil e criminosa de um homem totalmente incapaz de suportar a dura provação de uma vida quase eterna.
Não se esqueça de que, se não quiser ser como Narayana, é preciso trabalhar duro e espiritualizar-se em vivo.
Para dizer a verdade, o nosso destino é terrível e os adeptos não devem aumentar demasiadamente as suas fileiras.
Eu mesma tenho na consciência alguns pecados semelhantes, mas eu dei a essência da vida somente a pessoas úteis e trabalhadoras, que sobem obstinadas e enérgicas a estreita vereda do progresso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:28 pm

E você, que não pensou em preservar para o bem dos pobres a vida útil da madame Rosali, chora por não ter dado a imortalidade a um patife!
— Era justamente o que eu dizia para mim.
Desconheço a razão de eu ter tanta pena de um homem moribundo, cuja salvação estava em minhas mãos.
— Você teria prestado para ele um mau serviço.
Uma vida eterna às vezes pode se constituir num suplício insuportável para as pessoas incapazes de se adaptarem às condições anormais.
A propósito, eu me lembro de um episódio que quero lhe contar e cujo protagonista foi Narayana, incorrigível em sua leviandade criminosa, apesar de seus conhecimentos sobre os mistérios da vida.
Aconteceu por volta de 1340 e 1350.
Nós passamos com Narayana alguns meses na Itália e íamos à Bavária, onde ele possuía um pequeno castelo do qual agora não sobra nada.
Lá, Narayana tinha a intenção de se dedicar a algumas experiências mágicas junto com um dos nossos, que vivia nos arredores.
Ainda que nos utilizássemos de todas as facilidades a que tínhamos acesso naquela época, a viagem era por demais morosa, pois as estradas eram uma lástima e à noite tínhamos de parar.
Certo dia, ao passarmos pelo Tirol, fomos pegos em meio a uma terrível tempestade e ficamos numa situação difícil, pois, como era de nosso conhecimento, por perto não havia nenhuma casa para nos abrigarmos.
Então, um dos cavalariços, natural daquele país, sugeriu levar-nos a um pequeno castelo ali perto, fora da estrada principal.
Narayana aceitou alegremente a proposta e o cavalariço foi nos levar através de atalhos para um vale isolado em direcção ao castelo, grudado numa escarpa.
Nós fomos recebidos de braços abertos pelos proprietários do castelo - pessoas simples, bondosas e hospitaleiras.
A família compunha-se de um cavaleiro, sua esposa, três filhos e alguns serviçais de fisionomias patriarcais.
Durante uma conversa que se entabulou no jantar, Narayana começou a perguntar ao cavaleiro sobre a vida e os anseios dele e da esposa quanto ao futuro.
Os cônjuges responderam que eram muito felizes.
O belo vinhedo proporcionava-lhes bastante vinho, os campos lhes asseguravam o pão necessário, o castelo, pela solidez e localização, era bastante seguro, os filhos eram bons e sadios, a senhora do castelo era um exemplo de esposa e mãe e, finalmente, os criados eram honestos e fiéis.
— O Senhor, em Sua bondade, deu-nos de tudo.
A única coisa que nos preocupa é o tempo, que tudo mudará: nós e nossos criados ficaremos velhos; os filhos crescerão e abandonarão o nosso ninho e a morte separará todos.
Se por algum milagre tudo pudesse permanecer como está; se nem a morte nem a velhice nos ameaçassem - então todos os nossos desejos seriam realizados - concluiu rindo o bom cavaleiro.
Eu notei um sorriso estranho no rosto de Narayana, mas, no início, não dei qualquer importância.
Mesmo depois, quando ele ficou revolvendo a bagagem, não cheguei a desconfiar de nada.
A pedido de nossos anfitriões, nós adiamos a partida até o dia seguinte.
Ficou decidido que viajaríamos logo depois do almoço.
Quando Narayana, sentando-se à mesa, anunciou que por sua vez ele gostaria de oferecer aos donos da casa um vinho sem igual, que eles, sem dúvida nenhuma, jamais haviam tomado, tive um pressentimento e fiz-lhe uma observação em grego.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:28 pm

Narayana nada me respondeu e com sua habitual teimosia pegou a garrafa e encheu a taça dos presentes, sem se esquecer dos filhos do cavaleiro.
Não satisfeito, ele pediu a permissão de servir os criados, o que foi cordialmente aceito.
Eu estava tremendamente perturbada, sem acreditar que ele pudesse abusar da confiança daqueles infelizes; mas, antes que eu pudesse tomar alguma providência, eles secaram as suas taças.
Ao ver que todos caíram, como se fulminados por um raio, eu entendi que o mal já estava feito.
— O que você fez? - gritei eu possessa.
— O que eu fiz?
Dei-lhes a felicidade que eles queriam: eles não mais ficarão velhos nem morrerão – respondeu ele rindo.
A seguir, umedecendo com aquele terrível líquido dois pedaços de pão, ele os deu a dois cães caçadores, deitados embaixo da mesa.
Quando uma hora depois nós partíamos, os dois criados que nos acompanhavam e que não haviam tomado a bebida sinistra acharam que seu senhorio estava embriagado mortalmente.
Narayana confirmou-lhes a suposição e ordenou que não os incomodassem até que eles acordassem sozinhos.
Cento e oitenta anos depois nós passávamos pelo mesmo caminho e Narayana, lembrando-se do episódio, disse que queria visitar o castelo.
Eu me recusei categoricamente a acompanhá-lo e fiquei num hotel próximo, enquanto Narayana partiu.
Ele voltou no dia seguinte e começou a contar alegremente como no castelo, de início, foi tomado por diabo; o criado que serviu a mesa naquele dia fatídico atirou-se no chão e começou a chamar em auxílio todos os santos do paraíso.
O cavaleiro, mortalmente pálido, sacudia-lhe em ameaça uma cruz e a esposa borrifou-o com água benta.
Mas Narayana persignou a si mesmo e anunciou que ele era um cristão e não tinha medo nem da cruz nem da água benta e que ele estava extremamente surpreso com aquela modo de recepção.
— Se o senhor não é um demónio, nem anticristo - observou em tom triste o cavaleiro -, talvez o senhor seja um habitante do céu, vindo para libertar-nos, pois a sua visita anterior ocasionou consequências estranhas que nos fazem temer quanto ao salvamento de nossas almas.
Depois o cavaleiro contou que ele e sua esposa não envelheciam nem morriam, ainda que ele contasse duzentos e quinze anos e a sua esposa duzentos e seis.
Ainda mais estranho era que eles ainda continuavam a ter filhos, que cresciam e morriam como todos, enquanto que os três primeiros permaneciam iguais, sem crescer um milímetro.
Dois dos criados e até dois cachorros de caça também estavam vivos.
Todas essas circunstâncias inéditas nos anais do mundo chamaram a atenção do clero.
— Foi feita uma investigação e nós fomos acusados de ter coisas com o diabo.
O povo nos evita e nos amaldiçoa.
Há pouco tempo atrás, minha esposa foi ameaçada de ser queimada viva feito uma bruxa e o nosso castelo de ser incendiado.
O que será de nós?
Já sem isso, os tempos mudaram tanto, que é impossível viver - concluiu o pobre cavaleiro chorando copiosamente.
Eu apontei para Narayana todas as inconveniências que surgiriam, se aquelas pessoas fossem expostas à curiosidade geral, e ele concordou que era preciso escondê-los, pois a sua consagração aos mistérios levaria muito tempo e, além do mais, eles já estavam chamando muita atenção.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 11, 2016 7:28 pm

No dia seguinte, Narayana retornou ao castelo e convenceu os imortais involuntários de que lhes revelaria o segredo da insólita aventura.
— Aproxima-se o fim do mundo - disse ele.
Para lutar contra o anticristo, Deus está seleccionando homens beatos e bons, que Ele livra da morte.
Estas pessoas formarão o exército do Senhor e depois serão levadas para o céu como Enoque e Elias.
Depois completou que ele, Narayana, fazia parte dos eleitos e que para ali viera para todos empreenderem uma romaria a Jerusalém.
Preocupada, mas feliz, aquela gente aceitou a oferta.
Dias depois Narayana pôs fogo no castelo. Mas em vez de Jerusalém, eles foram levados à Índia.
— E até hoje eles vivem lá? - perguntou Supramati.
— Os dois filhos, sim; os outros morreram todos...
— Como assim?
— Foram debalde as tentativas de consagrá-los nos mistérios.
A mente deles, pouco desenvolvida, não estava preparada para os estudos; eles se sentiam infelizes e estavam tão desesperados, que o mago responsável por eles achou melhor devolvê-los ao mundo do além com o auxílio de um preparado análogo ao que Narayana havia recorrido.
A partir deste exemplo, meu querido, você vê como é perigoso dar vida infinita para aquele que não pode usufruir dela para o próprio aperfeiçoamento.
Desta forma, só lhe falta parabenizar-se por ter resistido à tentação de fazer do visconde um imortal.
.— De facto, é assim mesmo e eu entendo perfeitamente que a morte é uma lei misericordiosa.
No entanto, o ser humano sente sempre uma grande infelicidade, quando um ser próximo ou apenas conhecido passa para o outro mundo.
— E isso é bem natural! - observou sorrindo Nara.
O fluido vital, espalhado pelo mundo e inserido em cada átomo em forma de uma atracção comum e inerente a cada criatura, forma uma corrente resistente.
Assim, sempre que algum ser se desprende dessa corrente, todos aqueles que eram unidos por essa atracção sentem um vazio, e a infelicidade, motivada pelo rompimento dessa corrente fluídica, é normalmente muito grande.
Os elos que são criados pelo fluido vital são tão poderosos, que até os objectos que serviram por longo tempo ao homem são por ele impregnados e se lhe tornam muito caros.
Por isso acontece ser muito difícil separar-se de um móvel velho ao qual se acostumou; também de uma casa, onde se morou por tanto tempo, e assim por diante.
Alguns dias depois apareceu Penson para avisar da morte do visconde, e Supramati aproveitou a ocasião para lhe dizer que logo ele viajaria à Índia; como lembrança, doou ao ex-tenor uma quantia bem substancial na qualidade de dote para a neta.
De facto, sua permanência em Paris pouco interessava e até oprimia Supramati.
Ele tinha um carácter totalmente diferente de Narayana, que levava um vida dispersiva apesar dos estudos e isolamento a que vez ou outra recorria.
Isso se devia ao fato de que Narayana nunca se purificava.
Ele era sempre dominado pelo material, que o arrastava para toda sorte de desregramento.
Supramati, no entanto, sóbrio, puro e sério, no transcorrer dos anos utilizados para a primeira iniciação, libertou-se em definitivo da parte "decadente" de sua pessoa.
O poder oculto adquirido por ele não lhe servia de entretenimento e ele não se cercou da auréola de um mágico para maravilhar ou assustar as turbas festivas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Os Magos 2 : "Os Magos" / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum