SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Página 1 de 7 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:50 am

SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS
Léa Caruso

NOTA DA MÉDIUM

CERTA NOITE, ENQUANTO MEU CORPO DESCANSAVA, fui conduzida por meu guia a uma reunião que se realizava nas catacumbas de Roma.
Sentavam-se à volta de uma estreita mesa doze Espíritos que vestiam túnicas e mantos, sendo que o senhor que a presidia, usando óculos com armação pesada, sentava-se no centro e encontrava-se vestido com traje deste século, com casaco xadrez e gravata.
Ali presenciei aquela conversa, com meu guia ao lado.
Acordei impressionada.
Nas Catacumbas de Roma?
Por que razão?
Foi-me, então, pedido que escrevesse sobre os cristãos depois da desencarnação criminosa de Paulo de Tarso e que fosse incluído o testemunho de Simão Pedro, em Roma, já que essa seria a parte importante da narrativa.
Fiquei preocupada, pois não sou médium escrevente mecânico e a responsabilidade era grande demais.
Pedi desculpas a meu guia, dizendo-lhe que eu, em minha pequenez, talvez não fosse capaz de atender àquela solicitação.
Dois ou três dias depois, nos minutos de meu descanso, depois do almoço, meu guia se apresentou a mim, e junto dele estava um senhor magro que usava uma túnica branca, barba branca muito longa, rosto rectangular e pele bronzeada pelo sol.
A cabeça destituída de cabelos na frente prolongava sua testa, mas os expunha longos, além dos ombros.
Esse senhor de idade me olhou por alguns segundos, com seriedade, e os dois partiram.
À noite, pedi “socorro” a Deus, com prece sentida, para que me auxiliasse, pois não me sentia digna nem merecedora de escrever sobre Simão Pedro.
Então, à noite, depois do estudo da doutrina e de realizar minhas preces, já com a luz apagada, enquanto me preparava para dormir, olhei as horas, desliguei a luz de cabeceira, como sempre faço, e fechei os olhos, relaxando.
A seguir, ouvi a voz amável e terna de um senhor a me chamar:
“Irmã Lea, irmã Lea”.
Olhei para o lado do meu leito, com o quarto ainda na penumbra, procurando ver quem me chamava.
Aos pés da cama, uma senhora de branco me sustentava, porque, do meu plexo solar, um filete fluídico subia em espiral.
O senhor, na lateral esquerda de meu leito, apanhou minha mão para eu me levantar, e o quarto clareou.
Vi ali um homem aparentando uns quarenta e poucos anos, estatura mediana, cuja voz doce e atenciosa relatou-me factos durante algum tempo.
Depois, levou-me para o alto, fazendo com que eu visse uma cidade, muito linda e colorida, mostrando-me o lugar onde ele viveu.
Quando perguntei quem era ele, pois estava bem mais moço, ouvi seu nome; emocionada, corri para abraçá-lo.
Ele ficou sem jeito pela minha maneira de agir, e continuou a relatar as partes importantes do livro, com sua doce e tranquila voz.
Com felicidade imensa, de volta ao meu dormitório, ao abrir os olhos, depois dessa viagem maravilhosa, ainda continuei a ouvir suas ternas e amáveis palavras.
Pareceu-me estar com ele por segundos, mas, olhando para o relógio, percebi que havia se passado uma hora e meia.
No dia seguinte, iniciei esta obra, agradecida.
Pedi perdão a Deus por ser tão insegura na psicografia e, desde esse dia, jamais duvidei.
Entreguei-me ao trabalho disciplinadamente, como sempre faço, pedindo ao Pai a protecção necessária para fazer o melhor.
Parte desta obra foi recebida com visões e psicografia em nossa Casa Espírita.

Léa Caruso
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:50 am

PREFÁCIO

PODERIA PERGUNTAR-SE O PORQUÊ DE MAIS UM livro sobre o cristianismo primitivo nesta época em que tantas e tantas obras cristãs procuram revolucionar a alma humana através das lições do Novo Testamento.
No entanto, certos fatos, naqueles últimos dias de Simão Pedro, o que ele fez em Roma, além de atrair corações para as lições do Cristo, ainda não sabíamos.
Não, não mais comentaremos que os tempos são chegados, porque disso todos nós temos ciência; não mais diremos o que estamos cansados de saber sobre os acontecimentos daqueles dias e de seus trezentos anos seguintes, quando as terríveis perseguições cristãs salpicaram de sangue e dor a humanidade toda.
No entanto, se nos dermos conta, foi isso que contribuiu para fortalecer as raízes do Cristianismo e assinalar um caminho para o povo oprimido, estimulando-o a lutar pela liberdade de escolha, com o livre-arbítrio a que fomos presenteados pelo Pai, desde que nossa alma foi criada.
O ser humano não pode mais amar a Deus nas Igrejas e, fora delas, continuar com seus erros.
Faz-se urgente uma introspecção para modificar o que não está correto em si, procurando modificar sua maneira de pensar, endereçando-a ao bem, na destinação do amor e do perdão.
Quantas histórias vão surgindo com a terceira revelação; quantas verdades estão sendo desvendadas ao mundo pela mediunidade da psicografia.
E os amigos da Luz se regozijam em nome do verdadeiro amor, porque as obras trazem um misto de aprendizagem, observando aquelas vivências humanas e o estudo da doutrina; o amor que nosso mestre Jesus nos veio firmar através de sua exemplificação, mostrando-nos que, somente seguindo seus passos, poderemos nos reerguer das pesadas sombras que, por séculos e séculos, carregamos connosco.
Ah, irmãos, nós daqui, apesar das sombras que teimam em permanecer em certos pontos do orbe, assistimos o amor se espalhar com as preces e o conhecimento doutrinário, despontando da distante Pátria do Evangelho e envolvendo parte do nosso Planeta Terra em faixas de luzes azuladas.
Essas luzes, criadas pela vibração do sentimento maior, iniciam a retirada, pouco a pouco, das pesadas sombras que ainda invadem esse mundo de provas e expiações, essa pátria que também nos acolheu um dia, a qual nós amamos tanto e que nos faz dizer o quanto nos alegramos em poder colaborar com as pequenas dádivas de nosso afectuoso coração.
Conforme nos comunicou o Mestre, o Consolador viria para abrir esse caminho, que um dia acolherá a todos aqueles que O amam; e nós, os Seus colaboradores, podemos contar, graças à codificação de Kardec, com os Espíritos de encarnados que abraçam essa doutrina dedicada a Jesus.
Agora, não mais os mistérios ou os dogmas, mas as revelações e a luz a iluminar o conhecimento, provando-nos que a mediunidade faz parte do homem desde tempos remotos e que a reencarnação é factor da ciência, comprovando a sabedoria e o amor que Deus tem por nós, oferecendo-nos diversas chances para o crescimento evolutivo.
Somos imortais.
Há necessidade de o homem tornar-se um cristão com o interior limpo e puro, anotando as marcas na areia dos pés do Mestre e procurando segui-Lo pelo caminho que nos revelou, vestindo, não mais o traje pesado e rude do momento, mas despojando-se dele para dar lugar às vestes brancas e límpidas do novo homem, isento de maldades, trazendo consigo não mais a fé cega, mas a fé avaliada pela razão; que analisa as passagens de antigos milagres como ocorrências naturais da mediunidade; que acompanha o homem desde as mais remotas eras e se coloca hoje com Jesus, aquele que se entrega de coração e alma ao amor incondicional.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:50 am

A vida, irmãos, aguarda-nos para que, revolvendo as cinzas do tempo, acendamos novamente a verdadeira chama do amor, quase esquecida pelo materialismo; o amor real, que fomos instruídos por Jesus a seguir.
O tempo urge, a mudança se aproxima.
Que sejamos nós os acompanhantes da tarefa redentora e salvacionista de nosso Mestre, destinando-nos a proporcionar conhecimento às almas irmanadas pelos desenganos.
Que sejamos nós a estender as mãos ao necessitado e o coração ao nosso próximo para um mundo melhor; labutemos em auxílio fraterno para a verdadeira mudança

Avé Cristo!
Alfredo
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:50 am

1 Nosso Consolador
Se me amais, guardai os meus mandamentos, e eu pedirei a meu Pai, e Ele vos enviará outro consolador, a fim de que permaneçais eternamente convosco; o Espírito da Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê e não o conhece.
Mas quanto a vós, o conhecereis porque permanecerá convosco e estará em vós.
Mas o consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos fará lembrar tudo aquilo que eu vos tenha dito.

(João, 14:15,16,17 e 26)

CONTA-SE QUE JESUS, PISANDO A AREIA DO DESERTO naqueles dias, idealizava que atitude tomar para transformar a mente humana, tão rústica e desprovida de beleza espiritual.
Seus discípulos já estavam com Ele, mas não seriam deterioradas, em eras posteriores, as lições que viera trazer?
O ensinamento explanado seria capaz de apaziguar as ofensas travadas entre seus atuais semelhantes, terminando com o orgulho, como erva daninha, entranhado na mais profunda rocha, destruindo o egoísmo com o amor ao próximo, como Deus lhes havia pedido?
Sim, se todos soubessem a realidade que Ele enxergava a distância, o quanto poderiam ser felizes hoje, os que pudessem ver, como Ele, a verdade...
Depois de alguns momentos, pensativo, elucidou:
“Um real opúsculo deverá surgir, relembrando aos homens a lei de amor, oportunizando os corações a se ampararem e, sobretudo, a se amarem, conforme os ensinamentos reais do Divino comandante dos Céus e de todos os mundos do Universo.”
Nesse momento, o Mestre ergueu a face aos Céus, sentindo o vento levar os grãos de areia que cobriam seus pés, e falou para si mesmo:
“Só o tempo dirá quando o novo sentimento no homem florescerá, incitando-o a travar a difícil batalha com o velho homem, permitindo que o verdadeiro amor floresça e permaneça firme em sua consciência.
Um amor forte e puro, verdadeiro, sem exigências e grandes apelos.
Um amor que se doe sem desejar nada em troca, que seja capaz de salvar, de iluminar, de dar o exemplo.
Uma entrega de si mesmo ao amor divino.
Sim, as definidas etapas reencarnatórias são o suave polidor para as arestas grotescas de todos os Espíritos.”
E Jesus, retendo na face suave sorriso, concluiu seu pensamento:
“Pedirei ao Pai que lhes envie o Consolador, fazendo-os relembrar todas as Suas lições.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:51 am

2 O INCÊNDIO DE ROMA ANO
De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.

- Paulo (Romanos, 14:12)

O GRANDE INCÊNDIO DE ROMA, INICIADO EM JULHO de 64, próximo ao Grande Circo, trouxera consternação e tristeza.
A fumaça ainda tomava conta dos locais enegrecidos pelo fogo e muitos mortos pela fatalidade daqueles dias, deitados ao chão, ainda estavam sendo recolhidos.
Em toda parte, a desgraça alimentava o temor, e do mau cheiro não se podia fugir.
Na realidade, já em outras vezes, os cristãos foram acusados pela abjuração aos deuses romanos ou ainda pelo escárnio às estátuas dos Césares.
Sempre desculpas dos nobres romanos para apanharem os mais humildes, os mais serenos e os mais fiéis e até para acusar aqueles a quem invejavam ou execravam.
Nesta época e nos três séculos subsequentes, os seguidores de Jesus foram tão perseguidos que passaram, como sabemos, a aproveitar a escuridão nocturna para obterem os ensinamentos do Mestre, ouvindo as palavras confortadoras dos grandes apóstolos e, conforme estes eram martirizados, outros cooperadores se lhes substituíam, levando a palavra de amor e perdão aos sofredores.
Diante da imagem cândida daquele Mestre, que viera firmar as leis de Deus, transmitindo-nos o código moral de vida, objectivando a felicidade futura, a coragem dos mártires se consolidava e, com a prece, adquiriam forças adicionais desconhecidas.
Isso induzia a muitos pagãos, adoradores dos deuses romanos, os que vibravam com aqueles momentos grotescos, que riam e aplaudiam nos massacres, a pensarem:
“Quem, realmente, fora o homem chamado Jesus?”
Em suas mentes, enraizava-se este enigma:
“Afinal, que homem fora ele?
Um guerreiro? Um deus?
Quem, realmente, fora esse Jesus, que levava multidões de seres a entrarem no circo com a coragem de um Hércules, dando o testemunho divino de um Apoio?"
Viam uma imensidade de velhos, jovens e crianças, homens e mulheres, oferecendo-se ao testemunho de amor a Jesus.
E continuavam com suas percepções:
“O homem que fora crucificado, quem fora ele que dispersava a ansiedade dos olhos mortais daquelas criaturas, que, em vez de chorar, entravam no circo com tanta fé e muitos até cantavam?
Qual o segredo da firmeza daqueles homens?”
E nada, mas nada, poderia apagar de suas reflexões aquela explanação de bravura e perseverança, ao caminho dos terríveis sacrifícios, tudo pelas orientações de amor de um simples carpinteiro pobre, que jamais ferira ou iludira alguém, mas que era considerado:
O caminho, a verdade e a vida.
É que os cristãos primitivos, diante daquilo que esperavam, presentes a tantas barbáries e injustiças, tinham sede da luz e da fraternidade real.
Com o transcorrer dos dias, e, escutando as lições que recebiam, distanciavam suas almas da mesquinhez da matéria, e grande parte deles já se sentia planar nas esferas luminosas.
Para esses heróis do Cristo, não importava o que sentiriam na carne na hora do sacrifício, porque tinham a certeza do que lhes viria em seguida.
Permaneceria o Circo Máximo como símbolo dos mártires do cristianismo primitivo e o poder do amor a Jesus Cristo.
Ser cristão, para muitos, era sinónimo de boa conduta, de carácter elevado e de coragem.
Com esse exemplo, a disseminação do Evangelho, em vez de se abater com os sacrifícios, crescia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:51 am

E a curiosidade aguçada dos pagãos levou a alguns deles também, mais tarde, a seguir as mesmas virtudes.
Na época do grande incêndio de Roma, Paulo de Tarso e Simão Pedro estavam na grande cidade dos conquistadores, modificando a maneira de pensar de muitos escravos e até de romanos.
Já na viagem até aquela cidade, Paulo, bravo seguidor do Mestre Jesus, havia cativado a muitos, com seu exemplo e com as lições que aproveitava para difundir.
Roma, com a tirania de Nero, estava novamente sendo planejada em sua arquitectura.
O pobre Espírito, ignorante do amor, achava que poderia abranger a tudo com seu poder, inconsequente quanto ao que ocorreria depois, sobre os custos dessas obras.
Sem ponderar nas reservas monetárias para essas edificações, desdobrava-se para reconstruir uma Roma mais imponente, intimamente desejando revestir seu palácio em ouro.
Executando seu íntimo desejo, ele mandou queimar os edifícios mais antigos da cidade, causando toda aquela tragédia, com o fogo disseminando-se próximo ao grande Circo.
Roma ardia em chamas.
Como todos sabem, iniciada a revolta do povo enfurecido, pensou Nero em uma maneira de se safar.
Sabia que eles odiavam os homens da nova crença, contrários aos seus deuses profanos; então, por que não dizer que foram os cristãos maldosos os causadores daquela obra?
Desta forma, os seguidores do Mestre foram acusados e o Imperador prometeu vingar-se deles pela Roma destruída, antes, porém, presenteou a população com doação de alimentos.
Assim, satisfez a sede de sangue da população vingativa; no início, em grandes jardins, até que fosse restaurado o Circo Máximo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:51 am

3 DEPOIS DO INCÊNDIO, O SACRIFÍCIO DE PAULO
Nós, porém, temos a mente do Cristo.

Paulo (I Coríntios, 2:16)

A CIDADE ESCURECIA COM OS PRENÚNCIOS DE Tempestade próxima, e os transeuntes apuravam o passo para chegar antes da chuva a seu destino.
A ventania carregava com seu furor tudo o que estava na rua, maçãs estragadas, sujeira dos animais, restos das verduras e legumes largados pelos feirantes.
Entre as pessoas que, nas vielas estreitas, andavam rápido, uma mulher vinha, com seu traje simples de pessoa do povo, vestindo uma túnica clara.
Segurava com suas mãos o manto da cabeça, que teimava largar-se ao vento.
Ao chegar a uma casa humilde, entre tantas outras, bateu três vezes, olhando para ambos os lados para constatar se estava sendo seguida ou vista por alguém. Um indivíduo baixo, vestido também com simplicidade, abriu uma fresta da porta, olhou para os dois lados, deixando-a entrar.
- Ave Cristo, Domitila.
- Ave Cristo, Lucianus, dizei-me, ele já foi?
- Prepara-se para partir; vinde, entrai, e lhe dai o vosso recado.
Lucas, o acompanhante de Paulo de Tarso, foi chamado e apareceu para Domitila com a face entristecida, mas um leve sorriso nos lábios:
- Ave Cristo, irmã.
Então, quais são as novidades depois dos tumultos nocturnos anteriores?
- Ave Cristo, mestre Lucas.
Vim porque necessitava falar-vos.
Está sendo muito difícil para nós continuarmos com as reuniões, senhor, depois do que houve.
Estive no Velabro, ou no que sobrou dele, depois do grande incêndio.
Os irmãos de todas as comunidades estão desorientados e sentem muita tristeza pelo desaparecimento do venerando Paulo, e achamos melhor vir falar-vos antes de procurarmos por mestre Simão.
Nós, que éramos seguidores de Paulo, precisamos saber que passo daremos a seguir.
Encontramo-nos como que perdidos, com essa desgraça dirigida a tantos cristãos, mas principalmente ao querido profeta das lições de Jesus.
Jamais abandonaremos o Mestre, porém, pelo temor que nos envolve nessa cidade, imaginamos amenizar nosso coração se deixarmos passar um tempo sem nos encontrarmos para as reuniões.
Estaremos fazendo o correto?
- Tendes vosso livre-arbítrio, irmã, pois sei que quem é verdadeiramente cristão jamais abandonará Cristo.
Que façais o que vosso coração mandar.
Não há necessidade de começardes logo com os encontros nocturnos naqueles locais alugados, tão visíveis, e muito menos nas catacumbas, onde foram apanhados tantos irmãos, mas, se possível, reúnam-se em vossas próprias casas, levando esperança ao sofredor, alegria aos desalentados, fé aos que temem e amor aos desamparados.
Como vê, irmã, o trabalho não pode parar enquanto um sofredor sequer estiver sedento de consolo.
Falo as palavras de Jesus, saídas da boca do próprio Simão Pedro.
Além do mais, permanecerão aqui alguns instrutores que nos seguiam antes, porque eu estou partindo.
Necessito estar em paz para fazer o que Paulo me pediu, mas Simão Pedro não vos abandonará.
Como sabeis, ele já está em Roma há algum tempo.
Ele veio com sua família e daqui não partirá.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:51 am

- Mas Simão mora bem mais longe... não sabemos onde encontrá-lo.
- Ele deve estar nas catacumbas, procurando saber, não sobre os que se foram no circo, mas pelos familiares daqueles.
Simão é a própria “caridade”.
- Sair desta cidade vos será uma bênção, senhor.
Aqui parece que nosso mundo vai acabar.
Sente-se a dor de nossos semelhantes como se fosse a nossa própria dor, sente-se o peso em todos os nossos companheiros.
Não temos mais paz e sentimos a perda de nosso irmão Paulo, o querido amigo e benfeitor...
Ainda na semana que passou, ele nos confortava com as reais palavras do Cristo e as bem-aventuranças.
Assegurou-nos que, em breve, partiria e pediu que ficássemos bem, porque ninguém ficaria só.
Jesus estaria com todos.
Será que seremos felizes um dia, adquirindo a verdadeira paz, irmão Lucas?
Eu sei, senhor, que deveis estar pensando que estou desistindo do Cristianismo, mas não é assim.
Todavia, nós tememos a dor.
Os crimes são hediondos e cruéis e as mortes são as mais dolorosas.
Oro a Deus pedindo que eu não os odeie, e sei que devemos compreender tanto aos soldados como ao nosso imperador Nero, no entanto, para mim que perdi tantos familiares, isso está sendo muito difícil, mestre Lucas.
Por que nos odeiam tanto se somente aprendemos a amar?
Domitila caiu em pranto, e Lucas a abraçou, acalentando-a, com as mãos em sua cabeça:
- Filha, entregai-vos verdadeiramente ao Cristo.
A fé concreta que adquirimos não nos permite perder as esperanças...
A vida é um soprar de vento e ninguém fica imune à morte.
Então, por que não partirmos dessa vida sabendo que só o amor nos poderá salvar?
Não deveis vos desalentar.
Jesus já havia dito a Paulo o quanto deveria sofrer em Seu nome.
Nosso irmão Paulo, aonde ia pregar, recebia pedradas e açoites; sofreu naufrágios, abeirou-se da morte algumas vezes e, no entanto, isso lhe era como uma alavanca, que lhe dava mais forças para ir adiante, até nos dizer que agora ele levava consigo as marcas do Cristo e nada mais lhe poderia ferir.
Colocando na jovem Domitila o olhar carinhoso, Lucas ainda falou:
- Mas peço-vos que oreis.
Orai pedindo a Deus e a Jesus a coragem e ide em frente.
Enfrentai esta vida sabendo que tudo isso não demorará a passar e, quando abrirdes os olhos, estareis diante do próprio Mestre e junto aos vossos mais caros afectos.
Esse é o legado de todos nós que O seguimos.
Agora preciso encontrar meus companheiros de viagem, mas não vos esqueçais de que Simão Pedro, o verdadeiro discípulo de Jesus, está assumindo, novamente, as orientações de todos os cristãos de Roma.
- Sim, nós vamos procurá-lo para que nos oriente.
De nosso grupo sobraram somente trinta pessoas e estamos nos preparando para colocarmos os nossos queridos mortos em lugares dignos.
Não os queremos queimados em valas como há alguns anos aconteceu.
Temos soldados amigos, e eles estão nos auxiliando a reuni-los em carroças e enterrá-los condignamente.
Também ouvi dizer que Simão Pedro está ansioso, como dissestes, procurando ajudar os órfãos e os familiares que restaram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:52 am

Lucas e Simão Pedro haviam sido avisados por Acácio Domício, que muito estimava Paulo, depois que fora curado da cegueira por ele, onde se encontrava o corpo decapitado.
- Quando encontramos o corpo de Paulo - Lucas relatou a Domitila -, acautelamo-nos em lavá-lo também com nossas lágrimas, depositando óleo em seu corpo, envolvendo-o em linho, para logo o colocarmos além dos muros da cidade na Via Ostiana, não sem muita tristeza e orações.
Mas, para apanhardes vossos mortos e levardes às catacumbas, precisareis de mais carroças, pois sabeis que as catacumbas estão distantes; ficam fora da cidade.
Temos alguns amigos patrícios que poderão colaborar convosco, Domitila, todavia, contamos com vossa discrição nestes dias tão obscuros pelos quais estamos passando.
Domitila aproximou-se mais de Lucas para prestar- lhe maior atenção, e ele continuou:
- Há uma nobre senhora romana, agora cristã, viúva, com casa próxima ao Tibre, chamada Saturnina, que é conceituada e tem muitos amigos nessa cidade.
Procurai essa senhora.
Se eu permanecesse aqui, poderíeis contar comigo, contudo, o trabalho me espera e a embarcação me aguarda.
Paulo contou comigo e eu farei o que ele me pediu, elucidou, lembrando que muito teria que escrever para que a palavra do Cristo se mantivesse sempre viva no mundo; fugia dali para que pudesse cumprir com o pedido do amigo.
E, baixando a cabeça, não conseguiu estancar as lágrimas que teimavam em cair, molhando levemente sua túnica, por toda a dor que se espalhava na capital dos conquistadores.
Desejando modificar a triste sintonia do momento, Domitila falou:
- Mestre Lucas, dizei-me algumas palavras de bom ânimo antes de partirdes.
Transmitirei o que disserdes a nossos irmãos que perderam muitos dos seus, para que se confortem um pouco.
- De minha parte, eu que não fui um discípulo de Jesus, mas somente de um homem que muito O amou e O está seguindo, confirmo:
não vos aflijais, porque a realidade não está aqui, mas além, em um lugar tranquilo e cheio de paz, iluminado e florido como um jardim.
Estará nesse lugar a felicidade que tanto aguardamos.
Não odieis vosso algoz, não desejeis vingar-se dele, atendei-o como a um irmão em dificuldades que ainda não soube amar, fazei-o imaginando-o como a um doente que necessita de cuidados e não de repreensão.
Pois, como nos disse o Mestre Jesus, o amor é fonte cristalina e, para bebermos dela, precisamos amar o nosso próximo como a nós mesmos.
Ele é a água da vida; seguindo-O estaremos bem, não mais sofrimentos, não mais temor.
Portanto, tende fé e coragem, buscando as palavras sábias de Simão Pedro, aqui nesta grande Roma.
Domitila apanhou as mãos de Lucas, beijando-as e dizendo-lhe:
- Por pouco eles não vos pegaram, senhor.
Ainda bem que vos salvastes...
Aí vemos a grandeza de Deus.
Lucas reportou-se novamente àquela manhã, quando amigos seus foram avisar Lucianus sobre as prisões feitas a Paulo e ao casal que o havia acolhido em sua própria casa.
Quanta tristeza o invadiu ao ouvir aquela notícia.
Estivera naquele local após ter ciência do acontecido, apanhando todas as anotações que o amigo Paulo havia deixado por lá.
O mesmo fez com os pergaminhos de Lino, os quais foram entregues a Simão nos momentos seguintes.
Introspectivo, ele dizia a si mesmo que não sentira alívio nenhum por ter escapado do sacrifício, como a irmã ali assegurava, mas tristeza e desolação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:52 am

Frente a Domitila, cenho franzido, face preocupada, Lucas suspirou profundamente, com os olhos fixos nela, sem nada lhe responder, lembrando a madrugada que prenderam Paulo e apanharam também o jovem casal Lino e Cláudia, que acolhera o homem de Tarso na volta da viagem à Espanha.
Afinal... - imaginava Lucas por que Jesus não o escolhera também para o sacrifício?
O que desejava o Cristo dele?
Certamente, que levasse adiante a promessa que fizera a Paulo, porque para tudo na vida há uma causa.
Vendo a apreensão estampada na face pálida do amigo de Paulo de Tarso, Domitila indagou-lhe:
- Há tanta necessidade em viajar, senhor, com a borrasca que se aproxima?
- Sim. Como disse, tenho trabalho a fazer.
- Anacleto vai convosco, senhor?
- Não, ele fica.
- Então, que Deus e Jesus vos protejam.
- Saiamos daqui juntos - convidou-a Lucas.
Começava a tempestade sobre Roma.
A chuva caía com força sobre a cidade de Nero.
Domitila procurou colocar-se debaixo de uma tenda da rua e Lucas fez o mesmo.
Então, viu Lucianus aproximar-se e dizer-lhe:
- Irmã Domitila, voltastes às calçadas com essa tormenta toda?
Se quiserdes, podeis ficar mais um pouco e aguardar essa borrasca passar...
- Tenho pressa de chegar à casa de Raimunda novamente e colocar meus amigos a par de todas as orientações que ouvi aqui.
- Então que o Pai vos proteja, Domitila - desejou Lucianus.
A chuva continuava a cair torrencialmente.
Raios rasgavam os céus como se o próprio Pai Celeste estivesse irado com aqueles que não aceitavam Seu filho amado.
Mesmo assim, a senhora romana foi em frente, sendo acompanhada por Lucas, que se condoía internamente, desejando deixar para trás as lembranças das lutas de seu amigo Paulo, ali em Roma, somado à eterna renúncia de si próprio.
Contudo, levava consigo muitos rolos de anotações, que fariam parte das epístolas, entre elas a II Epístola a Timóteo, pedidas por Paulo a ele.
Lucas partia, levando consigo, na alma corroída, o que aprendera com aquele antigo perseguidor de cristãos em anos longínquos, que se doara, com valor, pela obra do Evangelho e amor a Jesus Cristo.
Domitila seguiu seu rumo enquanto Lucas, já acompanhado por dois amigos cristãos, partia para Óstia, a fim de alcançar a embarcação que os levaria à Ásia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:52 am

4 DIAS ANTES, PRÓXIMO A ROMA
Que farei, Senhor?

Paulo (Atos, 22:10)

A FIGURA DO TRIBUNO ALI, ESPICAÇADO PELO tormento, fazia lembrar as aves negras, desejando trocar as plumas para se tornarem cisnes, belos e puros na brancura, aves de angelitude, verdadeiros anjos.
Era a dor do desespero, da angústia, da consternação, que ele sentia, como se a vida que tivera até o momento estivesse passando-lhe pelos olhos.
Como havia falhado...
Matou, sacrificou, escorraçou em nome de Roma e, agora, caído de seu cavalo, jazia pesado ao solo e já não podia mexer as pernas.
Então, experimentou a angústia dos infortunados.
Se assim permanecesse, certificar-se-ia somente de uma coisa: a morte.
Precisaria morrer, apesar de sua esposa ainda estar jovem e bela e de seus filhos, já adultos, homens feitos, não dependerem mais dele.
A morte o livraria da desgraça real.
Como fazer para enfrentar esse acúmulo de dor?
Murilo Petrullio estava voltando de uma das batalhas romanas quando, ao chegar às adjacências do lugar onde morava, foi alcançado nas costas por uma lança e, caindo do cavalo sobre as pedras da entrada de seu sítio, bateu com a cabeça. Foi socorrido por Rufino, seu escravo, e, depois, por sua esposa.
- Descansa, Petrullio.
Nada digas e retém tuas lágrimas, que estão prestes a cair em tua face - lamentou-se a esposa enquanto o acariciava, após acudi-lo quando o viu ao chão.
- Estou imprestável, Veranda, jamais serei o mesmo homem novamente; por que me foi negado morrer como um real comandante de tropas romanas?
Meu corpo, eu não consigo mexer, minhas mãos não me obedecem...
Quero morrer.
Mata-me, imploro-te - dizia com palavras quase incompreensíveis.
- Não digas isso, esposo. Se te fores, como ficarei? Lembra-te de que trinta anos passamos unidos, desde nossas primaveras.
Não te justifiques, então, com provérbios de sacrilégio.
- Sacrilégio?
Sacrilégio é viver do jeito em que me encontro, Veranda.
Tem piedade, por todos os deuses, minha amada esposa.
Mata-me - pediu novamente, com dificuldade.
O bravo tribuno, fiel ao seu governo, agora derramava lágrimas de sofrimento.
E Veranda sofria, podia-se dizer, quase mais que ele.
- Veranda... até alguns inimigos... matei por humanidade... quando os via assim.
Faz o mesmo comigo, minha... esposa - e caiu desacordado.
Sem deixar de conversar com ele, Veranda continuou:
- Aquieta-te que Murilo, teu filho, logo chegará para te colocar em lugar mais aprazível que esse chão imundo.
Aconchega-te em meu peito e sente meu coração, que palpita de amor por ti, como na primeira vez em que nos vimos.
Tu fazes parte de mim.
Somos uma só pessoa.
Queres que eu também me vá?
Não ouviu resposta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:52 am

Então, aguardou ele acordar, em alguns segundos que pareciam séculos, e novamente lhe fez a mesma pergunta:
- Tu fazes parte de mim.
Somos uma só pessoa.
Queres que eu também me vá?
- Não. Deves... ficar para que... nossos filhos não sofram... tanto - respondeu-lhe forçando a voz.
- Hás de ficar bom, meu esposo, eu te prometo.
Veranda olhou-o com tristeza no coração e começou a lembrar a sua juventude em Roma, quando o viu pela primeira vez.
Ela sorria enquanto revivia isso, mas Murilo, seu filho, ao chegar, retirou-a das antigas reflexões e daquele momento de felicidade, trazido pelas lembranças que a embalavam.
- Mamãe! - indagou aflito.
O que houve com ele, minha mãe?
Veranda aproveitou o momento em que seu esposo desmaiara novamente e disse ao filho:
- Oh, filho meu.
Teu pai foi atacado por um inimigo e caiu sobre pedras.
- Ele não consegue se mexer?
- Não. E pediu que o matemos, mas não faças isso, meu filho.
Tem pena de tua mãe, porque sem ele não poderei viver.
Vendo o pai abrir os olhos, Murilo ponderou:
- Meu pai, eu e Rufino vamos vos levar para casa, nosso cantinho de paz, como sempre chamais o nosso lar.
Marius, em breve, estará aqui.
- Não me deixes perder minha potencialidade...
Sem me mexer sinto-me um trapo, filho, e assim não desejo mais viver.
O servo e o filho mais velho apanharam cuidadosamente Petrullio, levaram-no para dentro da residência campestre e o colocaram no leito, deitado de lado.
- Pronto, papai.
Agora é só retirarmos essa lança.
Assim ficareis bem melhor.
Vamos ver vossas costas.
Não sentistes essa lança quando a recebestes? - inquiriu-o, retirando com cuidado a vestimenta de guerra do pai.
- Não. Sei que senti dores fortes quando chegava ao sítio, depois caí sobre... as pedras.
- Precisamos tirar essa lança daqui, quem sabe se é isso o que está travando vossos movimentos.
Mais animado, Petrullio confidenciou ao filho:
- Nestes minutos... em que não chegavas, revi toda minha vida de... maldades.
Queria morrer, mas no momento... em que tua mãe me aconchegou... derramando suas lágrimas sobre... minha cabeça, acariciando-me como... a um bebé, não pude deixar de chorar... e derramar imenso lago... de dor e arrependimento.
Posso morrer com a honra de ter servido Roma, mas ficar aleijado... Isso nunca!
Na hora do desespero, eu pedi... até ao Deus dos judeus, porque sei das coisas que aconteceram anos atrás àquele Jesus, o Nazareno, as quais ficaram conhecidas pela maior parte da população.
O Deus deles... é mais poderoso.
Foi ele quem modificou a alguns romanos...
Soube que ele ensinou a não matar, mas modificaria gente... como eu?
Acho que não, depois das nossas grandes conquistas, quando matamos sem piedade, por Roma.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:52 am

- Descansai, meu pai - continuou Murilo.
Quando o médico chegar, ele tirará essa lança.
O enfermo continuou, como se não ouvisse o que o filho lhe dizia:
- Mas... jamais acreditei em nada disso... a não ser hoje... quando adormeci nos braços de Veranda e, saindo do corpo... vi que seu amor me iluminava.
Havia uma luz à sua volta... enquanto ela beijava minha face e... cantava.
- Estais cansado, meu pai.
Descansai por hora, até que o médico venha.
- Preciso... falar.
Encontrei-me envolvido... em imenso oceano de sentimentos retrógrados.
Então... fui levado por alguém que não reconheci a belas paragens.
Lá... aguardava-me um homem desconhecido... que conversou comigo...
Petrullio gemeu, mas, decidido, continuou:
- Eu não sei quem... era ele, mas sei que... voltei ao corpo sem tanta revolta... apesar de saber que, se viver... serei um peso... para muitos.
Aquele homem... cheio de luz, dizia-me... que eu havia orado para ele e que tudo tinha um significado... e não era para eu me... desesperar.
“Há um caminho - disse-me - que desconheceis, mas... que é o único que vos trará a felicidade”.
- Olhai, pai, Marius chegou com Dulcinaea e traz o menino com ele - interrompeu-o Murilo, achando que ele devia estar com a cabeça machucada para falar aquelas coisas.
Murilo aproximou-se de Marius e disse-lhe ao ouvido:
- Marius, não discordes de papai, porque ele está dizendo coisas estranhas.
Falou-me há pouco que saiu do corpo e que viu um homem iluminado.
Não estou aceitando o que ele diz.
Talvez isso seja um prenúncio de morte iminente, sim, porque ele não é um daqueles profetas que um dia ouvimos.
Será bom que Salúcio nada saiba do que lhe ocorreu, pois coisas terríveis poderão acontecer.
- Terríveis, como terríveis?
Mais terríveis que isso?
- Sim, Marius...
Salúcio poderá dizer que nosso pai está inválido e que será um peso para o Estado.
E podes imaginar o que pode advir disso, não?
Aí nossa mãe também morrerá, pois nos pediu, há pouco, que não o deixássemos morrer, porque ela também morreria.
- Por que aquele homem odeia tanto assim a nosso pai? - inquiriu-o o irmão mais novo, Marius.
- Isso é coisa de quando eles ainda eram jovens.
Nosso pai ganhava todos os jogos e corridas de bigas e, na hora da escolha da esposa, foi se apaixonar logo pela noiva daquele homem.
Por esse motivo, Salúcio quer ver nosso pai morto.
Não sei se não foi ele quem atirou essa lança em suas costas.
- Nossa mãe sabe sobre essas alucinações que ele te contou há pouco, Murilo?
- Acho que ele não deve ter-lhe dito nada.
Não teve tempo, pois, quando cheguei, ele ainda estava como que desmaiado.
- Então, peça a ele que nada diga à mamãe, exactamente para não preocupá-la.
- Marius, meu filho... aproxima-te! - pediu-lhe, em tom baixo, o esposo de Veranda.
Nesse momento, Saturnina, uma amiga da família, vinha adentrando no sítio, com seu filho pequeno.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:53 am

- Estava passando por aqui quando soube, por vosso servo Rufino, o que houve e vim prestar-vos minhas atenções, Marius - disse a gentil senhora ao filho mais moço de Petrullio.
- Contaste a mais alguém, Rufino? - perguntou Marius ao escravo, meio indignado com aquela visita inoportuna.
- Não, senhor, é que domina Saturnina passou há pouco por aqui, muito próxima de nosso portão, e perguntou como estavam todos na casa.
- Ah... Então entrai, senhora, mamãe está ali dentro. Vou agora atender ao meu pai.
Depois dos abraços afectuosos, as duas mulheres conversaram sobre o que havia acontecido.
E o olhar triste de Veranda mostrava a Saturnina todo o desespero que lhe vinha n!alma.
- E o que pretendes fazer agora, diante dessa desgraça? - perguntou-lhe a visitante.
- Desejo cuidar dele, seja lá o que os deuses desejarem.
Aproximando-se mais com Lucas, seu filhinho, no colo, Saturnina abriu seu coração:
- Minha amiga, sei o que estás passando e não me conformo em ficar calada, quando muitas coisas boas poderiam advir da conversa que vou ter contigo.
Veranda deixou o que estava fazendo e virou-se rapidamente para olhar a amiga de frente.
- O que de tão importante tens a me dizer?
- Sempre me perguntaste por que havia colocado o nome Lucas em meu filho, no dia em que o recebi nos braços, não foi?
- Sim, foi.
- Lembras de que eu não podia ter filhos e que era a coisa que eu mais desejava em minha vida?
- Lembro o quanto te lastimavas e, já tão amadurecida, recebeste essa abençoada criatura em teus braços, não é, Lucas? - falou dirigindo-se à criança.
Mas, depois, olhando Saturnina com olhos fixos, confirmou.
- Sim, é verdade, mas nunca me respondeste quando te perguntei isso.
- Esse é o nome de um acompanhante do apóstolo Paulo, o homem de Tarso.
Abandonada pelo esposo logo que engravidei, achei importante que ele fosse chamado com o nome de Lucas, o médico que se tornou seguidor fiel de Jesus, através de Paulo.
- Não entendi qual o motivo de teu filho ter o nome desse homem.
- Longa história, minha amiga...
- Não sabia que eras cristã, Saturnina, e que os meus não saibam! - comentou Veranda, resoluta.
- Por isso não te contei antes.
- E qual o motivo que te fez me dizer isso logo hoje?
- O fiz porque poderás receber a graça da saúde para teu esposo, ou a solução do problema da dor, do desespero.
Poderás ter a consolação de que necessitas.
- Não te compreendo.
- Vou te contar desde o princípio.
- Faz isso antes que meus filhos apareçam aqui, mas melhor será irmos próximo àquela oliveira.
Lá ninguém poderá nos interromper.
As duas senhoras, com o menino, debandaram-se para certa distância, atravessando uma alameda de ciprestes altivos, e sentaram-se em um banco de pedra, ao lado de uma bela estátua grega, onde, às tardes, Veranda descansava, aguardando a volta do esposo.
- Conta-me, então, tua vida, amiga.
Mas não demoremos muito, porque meu coração está oprimido.
O que sei sobre tua pessoa, depois que ficaste só, foi um pouco antes de teu filho nascer, quando enviuvaste de Crimércio.
Devias, sim, ter colocado o nome de teu esposo no filho que tiveste.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 09, 2016 8:53 am

Afinal, o filho mais velho leva a paternidade no nome.
- Naquela época em que casamos, sem eu poder engravidar, sofri muito.
Mas, depois de um tempo, isso aconteceu, porém logo meu esposo me abandonou.
Eu quis morrer; como poderia ser mãe, criar uma criança, sem esposo?
Então, tentei me afogar no Tibre, todavia, quando estava prestes a isso fazer, uma mão amiga não me deixou cair.
Foi aí que conheci os cristãos.
A pessoa que me salvou, Lucas, aconselhou-me a procurar um dos dois homens que vieram de Jerusalém e atendiam as pessoas necessitadas.
Lá faziam curas, orientando sobre como nos modificarmos, e como nos portarmos perante a vida, porque diziam que os doentes eram, sim, doentes da alma, do Espírito, e que tudo o que sentíamos, as tristezas, as mágoas, era transmitido para o corpo e nos fazia adoecer.
Esses homens foram Paulo e Simão Pedro.
- Mas eles são fora da lei, não é?
Cristãos, incendiários de nossa cidade - contestou, resoluta, Veranda.
Não te dás conta de todos os que foram mortos no incêndio de nossa Roma, que custará muito para ser reconstruída totalmente?
Minha própria casa ainda está lá, em cinzas!
Essa é uma peste cristã! - afirmou, sem paciência.
- Não chames disso a revelação que Jesus nos trouxe, querida amiga.
Não foram os cristãos que queimaram Roma.
Os cristãos amam a todos.
Olha para mim, achas que foi obra do acaso essa linda criança ter sido alimentada num ventre improfícuo como o meu, e nascer?
Eu não conseguia segurar em meu ventre filho algum.
Olha como é doce e meigo!
Vê como brinca mexendo a terra com um ramo caído no chão.
Já estou ensinando a ele tudo o que aprendi sobre Jesus...
- Para que ele morra? - interrompeu-a a amiga, já com a tez carregada.
- Veranda, eu confio que o que dizes é pela dor de teu coração, mas não alimentes na alma a revolta, tratando os cristãos com despeito, para não acarretar dor maior em tua vida - comentou, acariciando a face da amiga madura, nobre e bela romana.
- Rogas-me pragas?
Não basta meu esposo estar lá prostrado no leito sem poder se mexer?
- Pois chegou a hora de tuas dores desaparecerem - aludiu pacientemente Saturnina -, pensa no que falei a ti.
Quero que experimentes Jesus, se não agora, no momento em que a dor te parecer insuportável, mas não te esqueças disso - e, olhando em direcção à moradia, comentou - Vê, lá vem vindo tua nora com uma bandeja de maçãs para nos oferecer, mas está na hora de eu voltar.
Fomos ao sítio, Horácio, o servo que conheces, e nós, para apanharmos legumes e verduras, desejas alguns?
- Não quero nada.
Esta conversa me incomodou.
Veranda viu a nora chegando com as maçãs e ergueu-se para voltar à residência, dando as costas para Saturnina.
- Não esqueças o que te falei, minha querida - afirmou a mãe de Lucas.
Mas Veranda não virou o rosto e continuou caminhando; então, Saturnina chamou por Lucas.
- Vem, Lucas, vamos embora.
Deixa o cãozinho.
Assim vai machucá-lo!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:47 pm

Vem com a mamãe! - ergueu-se Saturnina, voltando para a carroça onde Horácio a aguardava, pensando em deixar o sítio.
Dulcinaea, sorrindo, cabelos loiros e soltos ao vento, a face iluminada pelo Sol, aproximou-se dela, dizendo:
- Parece que meu sogro deve estar melhor.
Depois que chegamos, ele chamou por Marius, e estão conversando.
Vejo que minha sogra não ouviu o que dissestes... ou ela fez de propósito.
Estão brigadas?
- Ela está assim porque dei a entender a ela que não devemos abraçar a revolta, para não arrecadarmos o mal.
- Senhora, vós aceitais uma maçã?
Estão gostosas.
- Se não estivesse de saída, gostaria muitíssimo.
- Mas, então, levai algumas para degustar mais tarde...
Olhai, Lucas viu as maçãs e vem correndo para cá.
- Obrigada, Dulcinaea.
Que as bênçãos dos Céus te iluminem.
Dulcinaea sentou-se no banco, interessadíssima em conversar com a amiga da família.
- Dizei-me, senhora, não quereis vos sentar mais um pouco?
Saturnina confirmou com a cabeça e voltou a se sentar.
E Dulcinea continuou:
- Quem diz que não devemos abraçar a revolta?
Por acaso isso é alguma coisa da doutrina do crucificado?
Sabeis que eu converso com uma vizinha que me conta coisas maravilhosas sobre Ele?
Que Ele somente desejou o bem de todos, que curou a muitos...
Quase que ela me convence.
Mas... desculpai-me, talvez não devamos anotar uma coisa destas aqui
- O Cristianismo, minha querida, é dádiva somente.
O resultado é o amor do Cristo por nós e uma paz imensa.
Ele nos ensina, principalmente, a sabermos viver os dias calamitosos de dor.
- Dizei-me, nobre Saturnina, mais uma coisa - perguntou cochichando.
Sois cristã, não sois?
Saturnina nada respondeu.
- Mas, se sois, deveis saber que foram os cristãos que incendiaram Roma.
- Não foram os cristãos que fizeram isso.
Contudo, ainda agora, estão sendo perseguidos por isso. Sabias?
- Sei que estão sendo procurados e, com sinceridade, fico achando que seria maravilhoso termos uma doutrina de paz; porque chega de loucuras nesta nossa sociedade, não achais?
- Minha querida, eu penso igualmente - comentou, erguendo-se para não levar muito adiante a conversa, porque iria acabar traindo-se.
Não negaria o Cristo mais uma vez se a jovem perguntasse novamente.
Assim, rematou:
- És delicada e gentil comigo, porém devo ir.
- Posso procurar-vos para falarmos mais sobre isso?
- Sem dúvida.
- Não fosse ter muito trabalho com meu pequeno Marius, iria ainda amanhã.
Mas ele não se aquieta...
Quer liberdade, correr por aí, mas temo, porque ele ainda é pequeno.
Ah... não sei o que fazer.
Quando troco suas roupinhas, ele ri e corre nu pelo sítio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:47 pm

Saturnina sorriu com aquelas frases inocentes e despediu-se de Dulcinaea com um ósculo em sua testa.
- Até mais, querida.
Lucas já largou o cãozinho e vem para cá atrás das belas maçãs.
- Adeus.
Na residência, Petrullio queixava-se de dores na cabeça e dizia que não sentia o corpo.
Mesmo assim, alegrou-se com a presença do netinho em seu dormitório.
Tentou conversar com ele, brincar um pouco, sem conseguir.
- Ah... preciso descansar.
Desde que chegaste... eu não descanso, meu filho - pediu Petrullio.
- Está bem, papai. Nós já estamos indo.
- Não, por favor - sussurrou -, eu gostaria... muito... que permanecesses... nesta casa, hoje e nos próximos meses.
Não sei o que será de minha vida, filho. Posso piorar.
- Não, papai!
Olhai, o médico chegou.
Vou falar com ele.
- Doutor, que alegria nos dais.
Entrai e sentai-vos - animado, Marius dirigiu-se ao amigo que adentrava ao dormitório -, necessitamos que vós olheis como está o nosso pai.
- Não vim para isso, mas sempre estou a trabalho.
De que farra saístes, homem? - indagou ao chefe da casa.
E essa lança, quem a colocou aí?
Depois, deu uma ordem a Murilo:
- Prepara água quente e um bom vinho forte.
Vamos tirar essa ponta de arma.
Murilo Petrullio desmaiou.
- Ele... morreu, doutor? - perguntou o filho com o mesmo nome do pai.
- Não, somente adormeceu.
Foi melhor assim, porque, retirando a lança rapidamente, ele quase nada sentirá.
Mas conta-me o que, na realidade, aconteceu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:48 pm

5 A PROCURA DO REMÉDIO
Tens fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus.

Paulo (Romanos, 14:22)

ANSIOSA, VERANDA APERTAVA AS MÃOS, CAMInhando de um lado a outro, e conversava sozinha, enquanto o médico tratava de seu esposo.
- Mãe, ele está em boas mãos, então, por que essa ansiedade toda? - indagou a ela Murilo, o filho.
- Ora, mas que pergunta, acaso sabes que dia é hoje?
Murilo olhou-a franzindo o cenho como para se lembrar de algo, e sua mãe continuou:
- Dia em que teu pai deveria ir ao encontro do Imperador.
Agora sentes o que estou sentindo também, Murilo?
- Realmente, é coisa que nos deve preocupar, por não sabermos qual a desculpa que deveremos dar ao César de nossos dias, a respeito de meu pai.
- Como deixei de pensar nisso até este momento?
Em minha cabeça preocupada, a razão se foi, tudo pela teimosia de Saturnina, sempre desejando me cativar para seu lado repulsivo.
Ela retirou-me de minhas reflexões...
Ora, cristã, eu jamais serei.
- Mamãe, não vos volteis contra a pessoa que tanto bem vos deseja; há um momento na vida em que podemos nos transformar.
Isso depende das coisas que poderão se apresentar a nós.
Assisti, algumas vezes, um cristão falar.
Confesso que jamais iria me deixar ludibriar por uma personalidade insignificante como um mendigo, mas ele foi um grande orador e, como cristão, minha mãe, deixa-nos dias a pensar sobre o que essas novas ideias significam.
Talvez poderiam transformar nosso mundo em um mundo cheio de paz, mas isso, talvez, não seja para os homens de hoje.
- Ora, se vou me preocupar com Cristianismo agora, Murilo.
- Preferis, então, começar a aceitar as dores que estamos sofrendo e sentirdes a perda de nosso estimado pai?
- Não fales assim, meu filho!
- Está bem, não vos contarei o que a moça, que tanto sofreu nas mãos dos romanos, falou-me.
- Moça, que moça?
- Uma mulher que perdeu o esposo através de armadilhas feitas por homens que a desejavam, mas, procurando os cristãos, considerou-se segura.
Os sedutores procuraram-na por toda parte até desistirem.
Isso lhe deu a oportunidade de abandonar Roma, indo juntar-se com sua família nas Gálias.
- Ora, meu filho, afinal, aonde queres chegar?
Deves estar tentando dizer-me para conversar com alguém sábio, como por exemplo, algum desses cristãos?
- Sim.
- Muita bobagem é dita por aí, Murilo, e não creio ser importante dar razão a esse fato agora, quando estou tão preocupada.
Mais tarde, podes relatar-me esse tipo de coisa...
Mas... Por que será que o médico está demorando tanto?
Nesse ínterim, saiu do dormitório o médico amigo.
- Então, doutor, mestre dos mestres de vossa área, a quem dareis as boas notícias de hoje?
Tudo, oportunamente, foi decidido de forma positiva? - indagou-lhe Murilo.
- Bem... O caso de teu pai é sério, meu filho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:48 pm

- Oh, não! - condoeu-se a esposa.
- Mas ele, penso eu, não vai morrer ainda - afirmou-lhe o médico.
- Sim, mas quero saber como ele ficará - inquiriu-lhe Veranda, esbaforida.
- Seu caso é muito sério, senhora Veranda...
Eu, se fosse vocês - explanou-se, dirigindo-se ao filho angustiado -, iria viajar, ou esconder-me, pois logo virão atrás de vosso pai, e, se ficardes aqui, irão descobri-lo.
- Mas por quê?
- As notícias más correm rapidamente.
Um tribuno imprestável encarece o império e sabeis vós como estão os nossos cofres.
Salúcio, como sabe toda Roma, não perderá a oportunidade para acusá-lo a Nero como paraplégico.
Vós perdereis a companhia de vosso esposo e pai e quem sabe o que será dele.
- Mas, então, para onde iremos? - indagou-lhe Dulcinaea, que entrava com seu filho no colo.
O médico coçou a cabeça, dizendo:
- Bem, eles o procurarão por todos os locais, pois sabem que recém voltou das conquistas com saúde, contudo, eu imagino que o único local em que não o buscarão será entre os cristãos.
- Cristãos?
Vós também, doutor Anércio? Isso é demais!
Vou ver meu esposo - concluiu Veranda, alterada.
Marius, assentado na cabeceira da cama, acariciava os poucos cabelos que ainda restavam na cabeça do pai.
- Meu pai, nós sentimos muito.
O que fazer agora? - queixava-se.
A pergunta não obtinha resposta, porque Petrullio, sonolento pela bebida dada para acalmar sua dor, somente derramava lágrimas.
Veranda, quando o viu chorar, tão corajoso que ele sempre se mostrava, abraçou-o dizendo:
- Vamos sair desta casa, meu esposo.
Tenhamos um pouco de paciência.
Nossos servos ficarão no comando da vinha e não teremos que nos preocupar, por ora.
Eu te prometo que não te entregaremos, mas cuidaremos de ti como cuidamos de nosso próprio corpo.
Quanto a César, mandaremos Rufino até o palácio agora, com uma correspondência escrita pelas mãos de Murilo, que tem a escrita similar à tua, comunicando-o que, por motivos referentes ao próprio Estado, foste chamado a retornar a Salerno - rapidamente, solucionou Veranda.
- Muito bem pensado, minha mãe.
Não poderíamos desculpá-lo de outra forma.
Assim, até quem o prejudicou dessa forma poderá acreditar.
Veranda sabia dos segredos de estado que o esposo guardava sobre o projecto da queda de Nero, ocultados de seus superiores do quartel pretoriano, e temia até por aqueles que, junto com o esposo, tramavam aquele golpe.
Com certeza, eles temeriam ser acusados por revelações do enfermo.
Rufino, ao receber a missiva das mãos de sua senhora, rapidamente apanhou a biga e partiu para Roma em grande velocidade.
No dia seguinte, saía uma caravana do sítio, não pelo caminho mais conhecido, mas pelas estradas mais desertas, percorrendo locais onde não havia tanta guarda.
Uma das carroças, fechada, dirigida pelo filho mais velho, Murilo, carregava Dulcinaea com a criança e Veranda ao lado de Petrullio, acomodado, enquanto o casal de servos dirigia a outra, que carregava os pertences úteis à família.
Marius viajava a cavalo, ladeando a primeira.
Aonde iriam?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:48 pm

Iriam directo à cidade, Roma, a pedido de Veranda, procurar por Saturnina para que ela lhes indicasse os cristãos que os poderiam auxiliar.
Com o entardecer e o pôr de sol quente naquela tarde de verão, a noite iniciava, apontando as primeiras estrelas que surgiam no céu ainda claro.
Andando em estradas por entre campos, todavia ensimesmados, sentiam eles o perfume das árvores e dos arbustos floridos; ouviam o cantar da passarada, acomodando-se nos ninhos, o barulho dos animais que eram recolhidos ao longe nos campos, e o chamado das mães aos filhos que voltavam do trabalho cansativo da campanha.
Tudo era tão tranquilo ali...
Não lembrava a Roma audaciosa e brava, que se alegrava das conquistas com o morticínio e, agora, com nova tentativa de perseguição aos cristãos.
Petrullio, olhos cerrados, ia inconsciente e Veranda derramava lágrimas dolorosas.
- Senhora Veranda, não vos preocupeis, porque todos nós cuidaremos dele.
Meu pequeno Marius dorme e isso facilita que andemos sem sermos notados.
Para aonde, exactamente, estamos indo? - indagou Dulcinaea, sua nora.
- Não tivemos escolha a não ser alimentar a alma sedenta de cura para meu amado esposo.
Ah, minha querida, este foi um abençoado casamento.
Como nos amamos!
Petrullio sempre foi o esposo ideal para qualquer mulher.
E eu fui a esposa escolhida.
- Soube disso por Marius, que segue o exemplo do pai.
Mas não respondestes aonde vamos.
Por acaso, procuraremos por vossa amiga?
Notei que alguma coisa escondíeis ontem, quando a senhora Saturnina saiu de lá.
- Bem, este assunto, perdoa-me, não te diz respeito.
São coisas entre mim e ela.
- Pois eu me encantei com aquela conversa do “Salvador”, o que foi crucificado por nós.
- Ora, e quem acredita nisso? Tu somente?
- Não, senhora Veranda.
Vós não estais a par do que acontece nos grupos que se reúnem.
Muitos e muitos são acompanhantes das lições desse Jesus e procuram segui-Lo.
Mas por que razão vós os detestais tanto, se não conheceis o Cristianismo?
- Tu também não o conheces.
Então, por que falas, minha nora?
- Sei que eles pregam o amor e o perdão.
- Ora, isso é bobagem.
O importante é banirmos tudo o que é contra nossas ligações justas com o império romano.
Estou procurando Saturnina, não por mim, mas para saber quem poderá salvar a vida de meu esposo, ou, como dizem por aí, fazer algum bem a ele... escondê-lo.
Cá entre nós, se alguns senadores o descobrirem assim poderão temer que ele possa abrir a boca e contar os segredos de estado, que guarda para si.
- Segredos de estado?
Por acaso, há uma rebelião contra o próprio imperador?
- Eu não disse isso, e nossa conversa termina aqui.
- Mas, senhora, deve ser isso!
Muitos estão contra as façanhas de Nero.
Cá entre nós, ele deve estar louco.
Era um menino que parecia tão inocente, contaram-me...
No entanto, eu penso que o poder subiu-lhe à cabeça e ele tornou-se um monstro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:48 pm

- Quieta...
Não falemos mais nesses assuntos, nem aqui, agora, nem depois.
Não devemos nos comprometer.
A noite já havia caído e a carroça agora andava com seu agrupamento pelas ruas calçadas da grande cidade de Rómulo e Remo, considerados pela história seus fundadores e que foram criados por uma loba.
- Falta muito para chegarmos, Marius? - indagou Dulcinaea a seu esposo.
Para aonde estamos indo?
Estamos cansados e nosso filho, agora, irrita-se e dá pequenos gritos.
- Logo chegaremos - respondeu-lhe Marius, pedindo ao servo para acender a chama a óleo do velador fixado na trave da carroça e parar um pouco, a fim de oferecer água à criança.
- Dá a ele esta água, esposa.
Deve estar com sede, porque o calor está se estendendo noite adentro.
Estamos demorando, mas é para amenizar essa viagem neste veículo tão rumoroso.
Os cavalos andam devagar.
E, então, pergunta à mãe:
- Minha mãe, a Saturnina de quem falais é aquela que esteve lá em casa ontem?
- Sim.
- Aquela bondosa mulher que nos visitou ontem, Dulcinaea, é filha de Saturninus Epifácius Nobilis e viúva de Crimércio Firminus Zacaro.
Ela está morando nas proximidades do Tibre.
É para lá que nós estamos indo - comentou Marius à esposa amada.
- Eu achei que ela morasse no Aventino - aludiu Dulcinaea.
- Sim, mas depois que o esposo se foi, ela saiu de lá.
Sua residência estava situada em uma das colinas mais elegantes de Roma - comentou-lhe ainda Marius.
- E foi morar onde dizes?
Que pena, não sei porque ela fez isso.
Soube que tinha uma esplendorosa residência.
- Ninguém sabe sobre isso.
Talvez a causa seja o próprio Cristianismo, querida esposa, mas, de todo jeito, não há o que chorar, pois a residência no Aventino foi quase toda destruída pelo incêndio...
- Bobagem da parte dela - comentou Veranda, sempre amuada -, deveria tê-la reerguido e poderia estar muito melhor agora.
- Mas sei que os cristãos não pensam assim - complementou Dulcinaea.
- Como sabes tantas coisas sobre os cristãos, minha nora?
- Ora, domina, é por nossa serva Matilde que eu sei essas coisas.
Matilde é judia e recebe esses ensinamentos de sua mãe.
Matilde, ao lado do esposo, que movimentava com os relhos os cavalos, ficou temerosa e pasma pelo que poderia vir depois dessa conversa entre eles.
E a mulher de Petrullio comentou:
- O homem Jesus nem imaginava o que aconteceria aos cristãos depois de morto.
Sim, porque a finalidade desses cristãos, penso eu, é que todo povo acredite em Jesus e o siga.
Devem ser escravos revoltosos que desejam ser iguais aos seus patrões.
Pois sim! - rebelou-se Veranda.
- Sois uma sogra especial, domina, mas, desta vez, estais errada.
Ele, o próprio condenado à crucificação, foi quem nos pediu para segui-Lo.
E outra coisa, os que estavam lá, naquela época, disseram que Ele não morreu, e que, depois de tudo, ainda está vivo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:48 pm

- Não sei como! Impossível!
Eu não acredito nisso, deve ter sido magia - interrompeu-os Veranda.
Agora, andemos novamente, que a criança já bebeu a água.
- Mas antes, um adendo à vossa conversação - interpelou-as Marius.
Não foi magia, os cristãos daqui comentam, em seus assuntos secretos, que o homem Jesus é o Messias do povo judeu.
- Calemo-nos agora.
Petrullio está franzindo a testa - completou Veranda.
O grupo viajou mais algumas horas e a carroça parou em frente à casa de Saturnina.
- Chegamos - alertou-os Marius.
Duas tochas de fogo iluminavam o grande portão de madeira, que quase escondia a fachada da casa de dois pisos e janelas rectangulares, todas fechadas como se ninguém lá convivesse.
Adiante, na rua, andava um grupo de homens em algazarra, que os centuriões, em ronda, interpelaram. Murilo, temeroso, bateu fortemente no grande portão de duas folhas.
Todos aguardavam ansiosos, e outra vez ele bateu.
Contudo, antes que aquela guarda chegasse até eles, Saturnina deu-lhes passagem, convidando-os a adentrar directamente ao pátio interno da residência.
Os portões foram fechados e, quando a carroça parou, rapidamente os servos de Veranda, Marconde e Horácio, adiantando-se e sendo auxiliados por Rufino, levaram Petrullio para o colocarem no leito a ele destinado.
- Bem-vindos, irmãos - cumprimentou-os Saturnina.
- Como sabias que viríamos? - inquiriu-a Veranda, humilde e sofrida nesse momento.
- Nosso instrutor de hoje nos confirmou vossa presença para essa hora, Veranda amiga.
Mas vinde, gostei muito que viestes.
No grande pátio, tochas incandescentes, colocadas em tripés, iluminavam toda a extensão do jardim.
Veranda caminhava com a nora e o neto ao lado da amiga, enquanto Murilo e Marconde levavam os cavalos e a carroça para a cavalariça.
- Como estão as perseguições aqui em Roma? - indagou Veranda, preocupada, a caminho da residência.
- Aqui, onde moro, a maldade humana ainda não chegou - com um sorriso, respondeu-lhe a amiga.
Vendo algumas pessoas vestidas de maneira muito simples ali, que aguardavam sentadas nas escadarias da entrada da residência, a esposa de Petrullio frisou a testa indignada e continuou, olhando-os com cara de quem não estava de acordo:
- E quem são todas essas pessoas aí sentadas, desse jeito, em tuas escadarias?
Agora colocas a ralé em tua casa?
- São boas pessoas, que vieram para aguardar o grande apóstolo.
- Ah...
- Senhora Saturnina, por favor, onde podemos ficar:
Marius, meu filhinho e eu? - Dulcinaea perguntou-lhe, com a criança nos braços, caminhando ao lado do esposo.
- Vinde, subamos as escadas.
Arrumei um quarto para vós.
- Mas e meu esposo?
Onde colocaste meu esposo? - arguiu Veranda, sem paciência, andando atrás dela.
- Ele já está sendo cuidado pelo “médico dos mendigos”, um dos nossos, querida.
- Médico dos mendigos?
Ele é um mendigo? - ensimesmada, perguntou Veranda.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:49 pm

- Somos aqui, entre cristãos, quase todos mendigos.
Mas nada nos falta.
O pão, a casa, e o auxílio uns aos outros, sem ónus nenhum.
Esse médico, por exemplo, não cobra seu trabalho para quem nada pode pagar.
- Mas nós podemos - redarguiu Veranda.
Saturnina somente lhe sorriu.
Mostrou o dormitório do doente a Veranda e o que tinha reservado para a esposa de Marius.
Erguendo o pesado reposteiro que fazia o lugar de porta, então, comentou:
- Agora vou descer para ver Murilo, o jovem, e acomodá-lo.
Sorridente, a anfitriã, ao descer as escadas, viu Murilo entrar e perguntou-lhe:
- Os cavalos foram acomodados?
- Sim, e Marconde agora ajeita nossa carroça - respondeu-lhe o moço, elevando o olhar ao muro em torno da residência para ver se a moradia apresentava segurança e, então, perguntou-lhe - alguém sabe que sois cristã, senhora?
- Infelizmente, Murilo - comentou Saturnina com voz entrecortada pela tristeza -, nós, os cristãos, andamos ainda escondidos, com a desgraça a espreitar nossas portas.
No entanto, neste lugar, sentimo-nos bem amparados, portanto, fica tranquilo; apesar de não termos mais aquele belo palácio onde, rodeada de tesouros, sentia-me orgulhosa da nobreza romana, mas sem objectivos na vida, hoje vivemos com isenção de adereços e vaidades, mas muito mais felizes pela fé em Jesus e na imortalidade da alma.
Na verdade, não precisamos mais que isso.
Mas vem, descansa da viagem.
A parte de cima da casa é reservada aos hóspedes.
Tua mãe nos aguarda no dormitório onde teu pai já descansa.
Subiram as escadas em silêncio.
Mais tarde, Ester, serva de Saturnina, chamou-a para o jantar.
E todos desceram novamente, com excepção de Petrullio, que permanecia em sono profundo.
- O que o médico disse do caso de teu esposo, Veranda? - pergunta-lhe a anfitriã.
- Disse-me que ele realmente ficará paraplégico.
Oh, deuses, por que isso teria que acontecer connosco?
- Não fiques assim, minha amiga.
Ainda verás que tudo ficará bem.
Descansa tua mente repleta de ansiedade por ora e vem cear connosco.
Tentando mostrar-se segura e sem preocupações, Veranda dirigiu-se na hora da ceia a Saturnina:
- Não consigo imaginar como tu, uma mulher da sociedade e nobreza romana, que vestia-se sabiamente, com lindos trajes, jóias maravilhosas, apresentando grande número de bigas, cavalos e com aquele palacete de dar inveja a qualquer um de nós, foste mudar tanto assim.
E depois, nas festas, o quanto rias, o quanto te divertias, de forma a eu ajuizar-te como uma mulher “perdida” entre tantas fiéis.
Marius e Murilo entreolharam-se.
E sua mãe continuou:
- Não te sentes infeliz?
O que é de uma mulher se não sua beleza, seu cuidado, os adereços que usa e seu belo vestir?
- Pois vê só, minha querida, como a mudança fez bem para mim.
Retirei os adereços, só guardando os que foram de minha finada mãe, para sentir-me mais próxima a ela.
No entanto, quanto ao cuidado, ainda sou a mesma.
Isso é uma questão de capricho, apesar de eu não estar mais tão elegante.
Vê, não precisamos tanto para viver.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:49 pm

Mas meu coração, sim, necessita ser imensamente rico, pelo acúmulo de amor que precisamos ofertar a todo ser humano.
E, acariciando a mão de Veranda, continuou:
- Apesar de mudar tanto, como dizes, a minha amizade por ti ainda é fidelíssima.
Vi teus filhos crescerem, Marius casar-se, o pequeno nascer...
- Mas o que te faz pensar que eu me sinta à vontade nesta casa?
Dulcinaea parou de comer e chamou a atenção da sogra, fazendo um ruído, como se engasgasse.
Todos fizeram silêncio, mas tanto Marius como Murilo franziram a testa, indignados com a mãe, olhando-a fixamente.
Rufino chegou pedindo licença e falou com Saturnina:
- Senhora, vosso servo Marconde manda vos avisar que o instrutor cristão já está aqui e aguarda-vos no átrio.
Ele está levando, com Horácio, a nossa outra carroça para a cavalariça.
- Obrigada por tua gentileza, Rufino.
Enquanto todos terminam de cear, eu irei lá falar com ele.
Dizendo isso, Saturnina fez menção de se erguer.
- Senhora, ele pediu-me que lhe avisasse para terminar primeiro a ceia com seus amigos.
- Está bem, Rufino, farei isso.
- Interessante; foi necessário o meu escravo vir avisar-te, Saturnina, que teu próprio servo viu o instrutor chegar - expressou-se Veranda, arrogante e mal-humorada.
Depois, virando-se para Rufino, resmungou:
- Não és empregado de Saturnina, homem!
Deves obedecer somente a nós.
- Mamãe, Marconde está guardando a outra carroça que trouxemos...
- Ah...
Todos daquela família abriram os olhos, como que horrorizados pela educação perdida da mãe e sogra, mas Veranda, amarga pela situação do esposo adoentado, ergueu os ombros e virou-se para Saturnina, olhando-a altivamente:
- O que vem a ser esse tal “instrutor”?
- Ele é como nosso médico espiritual.
Vem nos dar umas aulas - alertou-a serenamente a dona da casa.
- Mas ainda insistes nessa tua ideia religiosa, não é?
Estamos aqui a um pedido teu, mas não abuses, para que não partamos ainda no meio da noite.
- Desculpa-me, Veranda.
Sei o que estás passando neste momento de dor, mas isso não impede que façamos preces pela melhora de teu esposo.
Nosso querido apóstolo dará instruções somente a quem desejá-las, ou pedi-las.
Enquanto, após a ceia, colocando um sorriso nos lábios, Saturnina saía para receber o apóstolo galileu e Porfírio, tanto Marius como Murilo se aproximaram da mãe, sussurrando-lhe:
- Minha mãe, por que tratais assim quem nos recebe a todos, inclusive nossos servos, com os braços abertos?
Ainda mais quem chamou um médico para o papai e vai nos reunir para preces a ele?
Se não desejardes comparecer, eu vou - relatou Marius.
- Eu também, mamãe - disse Murilo, ainda com a tez franzida.
- E, com a permissão de Marius, eu também irei - comentou Dulcinaea.
- E eu me trancarei em meu quarto para cuidar de vosso pai.
E não sou vossa filha para ser ridicularizada perante tanta gente nesta casa, portanto, calai-vos!
- Por que motivo vos irritais tanto com o Cristianismo? - perguntou Marius a sua mãe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 10, 2016 12:49 pm

- Por quê? Ainda perguntas?
Ora, isso é uma doutrina de um feiticeiro...
E tu, Marius, quebras, espatifas, todas as tuas raízes assistindo a essa abominável religião de um só Deus.
- Sabeis que tanto eu como Murilo estivemos em Jerusalém há pouco e vimos os judeus orando a um só Deus.
Isso é o certo, minha mãe.
Moisés ensinou-os, através das palavras de Deus, os escritos nas pedras de salvação, contendo Sua vontade.
- Mas por que aceitam Jesus?
- Ora, pelo que soubemos, ele é o verdadeiro Messias que todos lá esperavam.
- E qual a divindade nele?
-'Ele ressuscitou, viveu novamente e seu testemunho foi amar até os inimigos.
- Incoerência da parte dele, que só vós não vedes.
Bem, deixemos de lado essa conversa, eu vou é me deitar assim como estou.
A preocupação me fere, me dói saber que o meu esposo, vosso pai, está atirado ao leito, só respirando, sem abrir os olhos.
- Boa noite, mamãe.
Esperamos que, ao deitar, possais desarmar toda essa revolta que está em vosso coração.
- Pois sim! - indignada pela falta de respeito do filho, ela subiu os degraus para estar com seu esposo.
Saturnina chegou com sorrisos para receber o apóstolo e seu acompanhante, quando notou estar só Porfírio com Olípio ali.
Simão não fora.
Eles a olharam com olhos chorosos.
- Olípio, Porfírio, o que houve?
- Senhora, deves ter ouvido falar sobre a prisão de cristãos nas catacumbas.
- Sim, ouvi comentários, mas...
- Apanharam também Paulo, nosso apóstolo.
Ele foi martirizado, nós todos estamos consternados...
- Oh, quando isso acabará?
O que será de Roma sem Paulo? - tristemente exprimiu-se a senhora, agora derramando lágrimas copiosas.
- Considera Simão que não deveríamos nos expor nas catacumbas, desde que tantos foram sacrificados em nome de nosso Mestre.
No entanto, estamos aqui em nome de Jesus, somente para fazermos uma oração.
- Sede bem-vindos, há um trabalho de amor a um não cristão, que precisa ser feito.
- Penso que amanhã faremos esse trabalho melhor, senhora.
- Então, façamos uma prece a todos que aqui nos aguardam, em silêncio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS / Léa Caruso

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 7 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum